PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

EM DESTAQUE



- MENSAGEM DO BISPO DO PORTO (e dos seus auxiliares)

 

Queridos Diocesanos

1. De Roma, onde nos encontramos juntamente com todos os bispos portugueses, reunidos em visita “ad limina”, saudamos a Diocese que Deus nos chamou a servir.
Na manhã desta segunda-feira celebrámos, junto do túmulo de Pedro e dos seus Sucessores, no altar erguido sobre aquele que foi escolhido por Jesus para ser pedra sólida sobre a qual se edifica a Igreja.
Depois, nesta mesma manhã, encontrámo-nos com o Sucessor de Pedro, o Papa Francisco, que nos acolheu com fraterna alegria. Pediu-nos que levemos a todos os membros da nossa Diocese as suas “saudações cordiais, com votos de grande serenidade e confiança no Senhor”.
No nosso encontro com o Papa e na nossa oração com ele e junto dele esteve e está presente toda a Diocese: leigos, consagrados, seminaristas, diáconos, presbíteros e bispos. Fizemos presente junto do Santo Padre as intenções de todos os diocesanos e somos portadores da sua bênção a favor de todos, sobretudo dos mais pobres e dos que mais sofrem.

2. Esta primeira manhã com o Papa Francisco permitiu-nos viver, na simplicidade e na proximidade, a alegria da comunhão com o Sucessor de Pedro, que confirma a nossa fé e dá sentido à nossa esperança.
O diálogo estabelecido na espontaneidade, a partilha fraterna entre irmãos bispos com o Bispo de Roma e Pastor Universal da Igreja e o sentido comum da missão evangelizadora testemunham o compromisso de todos nós pelo bem comum da Humanidade, em comunhão com o Papa.
A mensagem que o Papa Francisco nos confiou é um convite a agradecermos a Deus o bem realizado pela Igreja em Portugal; a valorizarmos o que em nós portugueses é bom; a prosseguirmos com serenidade mas com determinação o anúncio da Alegria do Evangelho como nossa missão.
Foi insistente o conselho do Papa Francisco no diálogo que teve connosco para que, sobretudo nós bispos e sacerdotes, demos prioridade à oração e à pregação: pela palavra e pelo testemunho de vida.

3. No dia 9 deste mês de setembro, celebraremos a dedicação da nossa Catedral.
Somos convidados a celebrar este dia em íntima comunhão com o Papa Francisco. Com o seu testemunho e com a sua palavra, ele incentiva-nos a vivermos também nós, no Porto, esta hora de renovação da Igreja.
O Papa Francisco, consciente de que carrega sobre os seus ombros o peso do mundo nesta hora difícil, confia na oração de todos. Disse-nos que o seu permanente pedido de oração não é um “slogan” mas resulta da consciência de que só em Deus e com Deus encontraremos as respostas para os desafios de hoje e para os graves problemas da Humanidade.
Juntamos a nossa bênção de pastores à bênção que imploramos ao Papa Francisco para a nossa Diocese e colocamos no coração de Nossa Senhora da Assunção, Mãe da Igreja e Padroeira da Diocese e da Catedral, as nossas alegrias, esperanças e projetos.

Roma, 7 de setembro de 2015
(cf. Diocese do Porto)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  no dia 9 de Setembro de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, quero fixar a nossa atenção na relação entre a família e a comunidade cristã. É uma ligação, por assim dizer, "natural", porque a Igreja é uma família espiritual e a família é uma pequena Igreja (cf. Lumen Gentium, 9).
A comunidade cristã é a casa daqueles que creem em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes acontecimentos das potências do mundo escrevem-se nos livros de história e, aí, permanecem. Mas a história dos afectos humanos escreve-se directamente no coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. É este o lugar da vida e da fé. A família é o lugar da nossa iniciação - insubstituível, indelével - nesta história. Esta história de vida plena, que terminará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, começa na família! E é por isto que a família é muito importante.
O Filho de Deus aprendeu a história humana através desta via e percorreu-a até ao fim (cf. Heb 2, 18; 5, 8). É belo voltar a contemplar Jesus e os sinais desta relação! Ele nasceu numa família e, aí, "aprendeu o mundo": uma oficina, quatro casas, uma terreola de nada. No entanto, vivendo durante trinta anos esta experiência, Jesus assumiu a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou, à sua volta, uma comunidade, uma "assembleia", isto é, uma convocação de pessoas. Este é o significado da palavra "Igreja".
Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família e de uma família hospitaleira e não a forma de uma seita de exclusão, fechada: encontramos Pedro e João, mas, também, o faminto e o sedento, o estrangeiro e perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e de falar com todos, mesmo com aqueles de quem já não se espera encontrar Deus na sua vida. É uma grande lição para a Igreja! Os discípulos foram escolhidos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.
Para que hoje seja viva esta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Podemos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua fonte última no próprio Deus. Uma Igreja realmente segundo o Evangelho só pode ter a forma de uma casa acolhedora, sempre com as portas abertas. As igrejas, as paróquias, as instituições com as portas fechadas não devem chamar-se igrejas; devem chamar-se museus!
Hoje, esta aliança é crucial. "Contra os ‘centros de poder’ ideológicos, políticos e financeiros, colocamos as nossas esperanças nestes centros de amor evangelizadores, ricos de calor humano, alicerçados na solidariedade e na participação" (Pont. Cons. para Família, Os ensinamento de J. M. Bergoglio - Papa Francisco sobre a Família e sobre a Vida 1999-2014, LEV 2014, 189), e também no perdão entre nós.
Reforçar os laços entre família e comunidade cristã é, hoje, indispensável e urgente. Claro, é preciso uma fé generosa para encontrar a inteligência e a coragem para renovar esta aliança. As famílias, por vezes, retraem-se dizendo que não estão à altura disso: "Padre: somos uma família pobre e um pouco “desengonçada” … "Não nos sentimos capazes"… "Já temos tantos problemas em casa "… "Faltam-nos forças"… Isto é verdade. Mas ninguém é digno; ninguém está à altura; ninguém tem as forças!... Sem a graça de Deus, não podemos fazer nada. Tudo nos é dado; dado gratuitamente! E o Senhor nunca entra numa nova família sem fazer algum milagre. Lembremo-nos do que Ele fez nas bodas de Caná! Sim!... O Senhor, se nos colocarmos nas suas mãos, faz-nos realizar milagres - mas os milagres de todos os dias! - quando o Senhor está ali, naquela família.
Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado directivas e demasiado funcionais; favorecer o diálogo interpessoal, a compreensão e a estima recíproca. As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de partilhar os seus dons, preciosos para a comunidade. Todos devemos estar conscientes de que a fé cristã se joga no campo aberto da vida, compartilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira.
Em Caná, estava a Mãe de Jesus, a "Mãe do Bom Conselho". Escutemos as suas palavras: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2,5). Queridas famílias, queridas comunidades paroquiais, deixemo-nos inspirar por esta Mãe; façamos tudo o que Jesus nos disser e encontrar-nos-emos diante do milagre: o milagre de cada dia! Obrigado…  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 114

Refrão: Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor.

Amo o senhor,
porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu
no dia em que O invoquei.

Apertaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor.
Então invoquei o Senhor:
«Senhor, salvai a minha alma».

 Justo e compassivo é o Senhor,
o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples:
estava sem forças e o Senhor salvou-me.

Livrou da morte a minha alma,
das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos.

SANTOS POPULARES



SÃO JOÃO DE MACIAS

João de Arcas Sanchez, filho de Pedro de Arcas e Juana Sánchez, nasceu em Rivera del Fresno, diocese de Badajoz, na agreste Extremadura espanhola, no tempo do Rei Felipe II de Espanha e Primeiro de Portugal, e do Papa Gregório XIII. A sua família era pobre e modesta, mas rica em bens espirituais e dons da graça.

Ficou órfão aos quatro anos de idade e, juntamente com a irmã, foi criado por um tio. Assim que atingiu a idade da razão, começou a cuidar do rebanho da sua casa. Dedicado às coisas espirituais, desde pequenino ocupava o seu tempo a rezar e meditar. Contam que, certo dia, apareceu-lhe um menino, de extraordinária beleza, que lhe disse: “Eu sou João Evangelista. Deus confiou-te à minha guarda por causa da tua piedade. Não tenhas medo de nada”. O Evangelista disse-lhe, também, que um dia partiria para terras longínquas, onde seriam levantados templos e altares em sua memória. Como João Macias não sabia quem era São João Evangelista, este apareceu-lhe, novamente, alguns dias depois, e transportou-o ao Céu, dizendo que era a sua pátria. Depois disso continuou a aparecer-lhe com frequência e conversava com ele. Entretido com Deus e o seu santo, levava uma vida recolhida, virtuosa, calma e aprazível.
Ao completar 20 anos de idade, em 1619, levado por um impulso interior, João Macias foi para Jerez de la Frontera e depois para Sevilha, então a cidade comercial mais inquieta da Espanha, de onde partiam as grandes empresas para o Novo Mundo. Ali, entrou ao serviço de um mercador que fazia negócios nas Américas e, como primeira tarefa, acompanhou-o numa das suas viagens às Américas. Ao fim de 49 dias, o navio atracou, finalmente, no porto de Cartagena das Índias, ao norte da Colômbia. Ali, o mercador, sob o pretexto de que João Macias não era suficientemente instruído para o serviço de que necessitava, abandonou-o à sua própria sorte. O que fazer, então? Não tendo outra profissão a não ser a de pastor, pouco comum na América, João Macias ficou “ao Deus dará”. Levado, mais uma vez, por um impulso interior, decidiu ir para Lima, a capital do vice-reinado do Peru. Foram 900 léguas - percorridas a pé ou montado num burro - através das solidões, passando por privações incríveis, até chegar ao seu destino, depois de quatro meses e meio de viagem. Começou, então, a trabalhar nos campos dos arredores de Lima. Este seu trabalho durou dois anos. Entretanto tempo passava. João Macias estava para fazer 36 anos e ainda não tinha definido o rumo a dar à sua vida. Foi então que o Céu o inspirou a entrar na Ordem dominicana, como irmão leigo.
Na capital do vice-reinado do Peru, as vocações eram tantas que existiam dois conventos dominicanos - o de Santa Maria Madalena e o de Nossa Senhora do Rosário -, ambos com uma centena de frades. João Macias tornar-se-ia a glória do primeiro, enquanto no de Nossa Senhora do Rosário, São Martinho de Porres já brilhava pelos seus milagres.
No noviciado, João Macias foi um verdadeiro modelo de observância. Julgado digno de fazer a profissão solene, esta ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1623. Foi, então, designado para a portaria do convento, apesar da sua inclinação natural para a vida contemplativa. Durante 20 anos, o cuidar da portaria foi o palco da sua ardente caridade. Começou a trilhar a via das mortificações e austeridades. Não concedia ao seu corpo senão o absolutamente necessário para não morrer. Disciplinava-se diariamente; passava em oração quase todas as noites. A sua cela era muito pobre: a sua cama era um estrado de madeira coberto com couro de boi; equipava-a, ainda, uma cadeira rústica e uma arca. O único adorno do seu aposento era uma tela representando Nossa Senhora de Belém.
A íntima união com Deus deste irmão leigo manifestava-se em factos extraordinários. Certa noite em que a comunidade rezava o ofício no coro, o convento foi sacudido por um violento terremoto. Os religiosos correram para o jardim do claustro, considerado como o lugar mais seguro. Frei João corria também quando uma voz, vinda do altar de Nossa Senhora do Rosário, chamou-o pelo nome: “Frei João, aonde vais?”. Respondeu ele: “Estou a fugir, como os demais, dos rigores do vosso divino Filho”. Então, Nossa Senhora, disse-lhe: “Regressa e fica tranquilo, pois Eu estou aqui”. Voltando para junto do altar, Frei João Macias pediu fervorosamente à Virgem que se compadecesse do povo cristão. Imediatamente cessou o tremor de terra.
Certa noite, um noviço, impressionado com o cadáver de Dom Pedro de Castilha, que havia sido enterrado naquela manhã, no convento, dirigiu-se à igreja para acender as velas para o Ofício nocturno. Quando chegou perto do altar, deparou-se com as sandálias de Frei João. Este encontrava-se elevado acima do solo, em êxtase. Não distinguindo, na obscuridade, do que se tratava, julgou ser o fantasma do defunto que lhe aparecia. Dando um grito, começou a correr, tropeçou e caiu. Os religiosos acudiram e encontraram-no estendido no solo com o hábito em chamas, devido à vela que levava. Nem toda essa confusão conseguiu tirar o santo do seu êxtase. O noviço ficou gravemente enfermo, sendo curado pelas orações de São João Macias.

Para poder socorrer o convento e os seus pobres, Frei João Macias servia-se de um expediente muito prático: enviava todos os dias às ruas de Lima um burrinho carregado com dois grandes cestos para recolher esmolas, sem condutor nem guia. O animal desempenhava exemplarmente este ofício, dirigindo-se aos lugares a que estava acostumado. Ao chegar à porta da mercearia ou a alguma casa particular onde deveria receber esmola, parava e não se movia até que alguém pusesse no cesto a esmola combinada. Desse modo, o burrinho atravessava toda a cidade. Como todos já o conheciam, enchiam os cestos com esmolas. Ninguém se atrevia a tirar nada, pois o animal sabia defender com mordidelas e coices as doações recebidas.
Todos os dias, às cinco da manhã, depois de tocar a alvorada, Frei João Macias levava para a cozinha os alimentos destinados à comida dos pobres. Quando faltava algo, saía esmolando até conseguir. Depois, por volta do meio-dia, começava a distribuir as refeições aos necessitados. Para os sacerdotes e pessoas gradas, caídas em pobreza, havia um refeitório reservado, onde o santo os servia ajoelhado. Aos pobres “envergonhados” (em geral pessoas de alta condição social que haviam caído na miséria) enviava, secretamente, a comida com alguma esmola. Não descuidava também dos enfermos, aos quais, além da comida, enviava remédios. A sua imensa caridade estendia-se às viúvas, aos órfãos e a outros desamparados.
Apesar da multidão crescente de pobres, e de o convento não ser rico para atender a tantas demandas, nunca faltava comida, pois esta era milagrosamente aumentada segundo as necessidades.
João Macias dividia a reza do Rosário em três partes: uma pelas almas do Purgatório, outra pelos religiosos do convento e a terceira pelos seus parentes.
O vice-rei, D. Pedro de Toledo y Leyva, Marquês de Mancera, consagrou, em 1643, os Reinos do Peru à Virgem do Rosário, escolhendo-A como Patrona e Protectora daquelas terras.
Embora sem nenhuma instrução, Frei João de Macias possuía a verdadeira sabedoria de Deus, sendo consultado pelas principais pessoas da cidade, inclusive pelo vice-rei.
Ao final da tarde do dia 17 de Setembro de 1645, depois de uma vida dedicada ao silêncio, à oração e à caridade para com todos, frei João Macias entregava a sua alma ao criador. Na sua cela os irmãos, vestidos de hábito branco e de capa negra, cantavam a Salvé Rainha e, enquanto se ouvia o verso “Advogada nossa esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, João Macias expirava confiante dessa misericórdia de Deus que havia pedido no momento da sua profissão e tinha procurado viver através da caridade e solidariedade para com todos.
João de Macias faleceu com 60 anos de idade.
Foi beatificado, em 1837, pelo Papa Gregório XVI e canonizado pelo Papa Paulo VI, no dia 28 de Setembro de 1975. A sua memória litúrgica celebra-se no dia 18 de Setembro.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  no dia 26 de Agosto de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter reflectido sobre o modo como a família vive os tempos da festa e do trabalho, reflectiremos, agora, sobre o tempo da oração. O lamento mais frequente dos cristãos diz respeito ao tempo: “Deveria rezar mais…; queria fazê-lo mas, muitas vezes, falta-me tempo”. Ouvimos isto continuamente. A tristeza é sincera, certamente, porque o coração humano procura sempre a oração, mesmo sem o saber; e, se não a encontra, não tem paz. Mas para que a encontre, é preciso cultivar, no coração, um amor “quente” por Deus, um amor afectivo.
Podemos fazer-nos uma pergunta muito simples. É bom acreditar em Deus com todo o coração… esperar que nos ajude nas dificuldades… sentir-se no dever de Lhe agradecer. É tudo verdade!... Mas, também queremos bem ao Senhor? Pensar em Deus comove-nos, surpreende-nos, enche-nos de ternura?
Pensemos na formulação do grande mandamento que sustenta todos os outros: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5; cfr Mt 22, 37). A fórmula usa a linguagem intensiva do amor, dirigindo-o para Deus. Bem!...O espírito de oração habita, antes de mais, aqui. E se habita aqui, habita todo o tempo e não sai nunca. Conseguimos pensar em Deus como a carícia que nos dá vida, antes da qual não há nada? Uma carícia da qual nada, nem sequer a morte, nos pode separar? Ou então pensamos Nele apenas como o grande Ser, o Onipotente que fez todas as coisas, o Juiz que controla cada acção? É tudo verdade, naturalmente. Mas só quando Deus é o afecto de todos os nossos afectos, o significado destas palavras torna-se pleno. Então, sentimo-nos felizes e, também, um pouco confusos, porque Ele pensa em nós e, sobretudo, nos ama! Isto não é impressionante? Não é impressionante que Deus nos acaricie com amor de pai? É tão belo! Podia, simplesmente, fazer-se reconhecer como o Ser supremo; dar as suas ordens e esperar os resultados. Em vez disso, Deus fez e faz infinitamente mais do que isto. Acompanha-nos nos caminhos da vida, protege-nos, ama-nos.
Se o afecto por Deus não acende o fogo, o espírito da oração não aquece o tempo. Podemos, também, multiplicar as nossas palavras, “como fazem os pagãos”, diz Jesus; ou, também, exibir os nossos ritos, “como fazem os fariseus” (cfr Mt 6, 5.7). Um coração habitado pelo afecto por Deus faz tornar-se oração mesmo um pensamento sem palavras, ou uma invocação diante de uma imagem sagrada, ou um beijo atirado para a igreja. É bonito quando as mães ensinam os filhos pequenos a mandar um beijo a Jesus ou a Nossa Senhora. Quanta ternura há nisso! Naquele momento, o coração das crianças transforma-se em lugar de oração. E é um dom do Espírito Santo. Nunca nos esqueçamos de pedir este dom para cada um de nós! Porque o Espírito de Deus tem aquele seu modo especial de dizer nos nossos corações “Abbà” – “Pai”; Ele ensina-nos a dizer “Pai” exactamente como Jesus o dizia, um jeito que nunca poderemos encontrar sozinhos (cfr Gal 4, 6). É na família que se aprende a pedir e a apreciar este dom do Espírito. Se se aprende com a mesma espontaneidade com a qual se aprende a dizer “papa” e “mamã”, aprendeu-se para sempre. Quando isto acontece, o tempo de toda a vida familiar é envolvido no regaço do amor de Deus e procura, espontaneamente, o tempo da oração.
O tempo da família, sabemo-lo bem, é um tempo complicado e apertado, ocupado e preocupado. É sempre pouco, nunca chega, há tantas coisas para fazer. Quem tem uma família aprende, rapidamente, a resolver uma equação que nem sequer os grandes matemáticos sabem resolver: as vinte e quatro horas do dia parecem o dobro! Há mães e pais que poderiam vencer o prémio Nobel, por isso. De 24 horas fazem 48: não sei como o fazem, mas movem-se e fazem-no! Há tanto trabalho na família!
O espírito da oração confia o tempo a Deus; sai da obsessão de uma vida à qual falta sempre o tempo; reencontra a paz das coisas necessárias e descobre a alegria de dons inesperados. Bons exemplos disto são as duas irmãs, Marta e Maria, de quem fala o Evangelho que escutámos; elas aprendem de Deus a harmonia dos ritmos familiares: a beleza da festa, a serenidade do trabalho, o espírito da oração (cfr Lc 10, 38-42). A visita de Jesus, a quem queriam bem, era a sua festa. Um dia, porém, Marta compreendeu que o trabalho da hospitalidade, mesmo sendo importante, não é tudo; mas que escutar o Senhor, como fazia Maria, era realmente o essencial, a “melhor parte” do tempo. A oração brota da escuta de Jesus, da leitura do Evangelho. Não se esqueçam de ler, todos os dias, um trecho do Evangelho. A oração brota da familiaridade com a Palavra de Deus. Há esta intimidade na nossa família? Temos em casa o Evangelho? Abrimo-lo, algumas vezes, para o lermos juntos? Meditamo-lo rezando o Rosário? O Evangelho lido e meditado em família é como um bom pão que alimenta o coração de todos. E de manhã e à noite, e quando nos sentamos à mesa, aprendamos a dizer juntos uma oração, com muita simplicidade: é Jesus que vem a nós, como ia à família de Marta, de Maria e de Lázaro. Uma coisa que tenho muito presente no coração e que vi em muitos lugares: há crianças que não sabem fazer o sinal da cruz! Mas, tu, mãe, pai, ensina os teus filhos a rezar, a fazer o sinal da cruz: esta é uma tarefa bela das mães e dos pais!
Na oração da família, nos seus momentos fortes e nas suas circunstâncias difíceis, confiemo-nos uns aos outros, para que cada um de nós, em família, seja guardado pelo amor de Deus. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 14

Refrão: Ensinai-me, Senhor: quem habitará na vossa casa?

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração
e guarda a sua língua da calúnia.

O que não faz mal ao seu próximo nem ultraja o seu semelhante,
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor.

O que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder jamais será abalado

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA MADALENA DA PAIXÃO

Constância Starace nasceu em Castellammare di Stabia, província de Nápoles, Itália, no dia 5 de Setembro de 1845. A sua mãe, muito piedosa, consagrou-a a Nossa Senhora das Dores. Com 4 anos de idade começou a frequentar a escola, onde se relacionou com meninas pobres, experiência que deixou uma marca muito profunda no seu coração.
Em 1850, as Irmãs “Filhas da Caridade” estabeleceram-se em Castellammare, para dar assistência aos doentes do Hospital São Leonardo; em seguida, abriram um orfanato e um internato para meninas. Constança foi admitida nesse internato e começou a viver um clima de oração e de dedicação que acendeu nela o desejo de se consagrar ao Senhor. Fez a Primeira Comunhão e, na idade de 10 anos, recebeu o Sacramento da Confirmação.
Por motivos de saúde, teve de voltar para a sua família e prosseguiu os estudos em casa, continuando a viver em espírito de piedade, cuidando, sobretudo, da assiduidade na oração. Entretanto, começou a frequentar o Conservatório das Teresianas, de Vico Equense; contudo, sempre devido à sua saúde delicada, não pôde continuar o Conservatório e teve de regressar a casa. Depois de ter melhorado, sentiu o desejo de entrar num convento de clausura, mas os seus pais opuseram-se, conhecendo a dureza da vida conventual. Para a consolar, o confessor concedeu-lhe a comunhão quotidiana e, aos 15 anos, permitiu que se consagrasse ao Senhor com os três votos perpétuos, aconselhando-a a tornar-se "monja em casa".
No dia 8 de Junho de 1867, emitiu a sua profissão entre as Terciárias dos Servos de Maria, assumindo o nome de Irmã Maria Madalena da Paixão. O Bispo de Castellammare, Mons. Francisco Xavier Petagna, confiou-lhe a direcção da “Pia União das Filhas de Maria” e a catequese das meninas da cidade.
As várias epidemias de cólera que se abateram sobre Castellammare impeliram a jovem a fundar, naquela altura, o “Instituto das Irmãs Compassionistas” (1869), que, segundo as suas próprias palavras, deveria "compadecer-se de Jesus apaixonado e de Nossa Senhora das Dores, e, a partir deles, do próximo em todas as suas necessidades, tanto do espírito como do corpo".
As suas companheiras também vestiram o hábito das Terciárias Servitas, e, em 27 de Maio de 1871, D. Petagna aprovou o Instituto, concedendo-lhe identidade canónica. Em 10 de Novembro de 1893, o Geral dos Servitas assinou o decreto que agregava o Instituto à Ordem, e em 10 de Julho de 1928, o Papa Pio XI aprovou o Instituto, concedendo-lhe reconhecimento pontifício.
As inúmeras provações físicas e espirituais que a Madre Maria Madalena teve de suportar no seu caminho para a santidade contribuíram para fortalecer a sua fé. Nada diminuiu a seu empenho na obra por ela iniciada, à qual se dedicou incansavelmente.
A Madre Maria Madalena morreu de pneumonia, no dia 13 de Dezembro de 1921. No dia 19 de Agosto de 1929, os seus restos mortais foram transladados para o Santuário do Sagrado Coração, em Scanzano, que ela tinha mandado construir.
A Congregação das Irmãs Compassionistas Servas de Maria, fundada pela Madre Maria Madalena da Paixão, desempenha uma grande obra em favor da infância através de escolas, de semi-internatos e de casas-família. A semente lançada pela Madre Maria Madalena da Paixão converteu-se, hoje, numa grande árvore, cujos ramos se estenderam às terras que acolheram as suas raízes. Actualmente, existem 24 comunidades, na Itália; 14 no Canadá, Chile, Índia, Filipinas, Indonésia e México. Constituem a Congregação cerca de 350 religiosas, 34 noviças e 35 postulantes.
Maria Madalena da Paixão foi beatificada no dia 15 de Abril de 2007, pelo Papa Bento XVI, em cerimónia presidida pela Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Na homilia da missa, o Cardeal disse: “…Para a Madre Maria Madalena Starace, Jesus era verdadeiramente "o Primeiro e o Último, o Vivente"; basta pensar que dedicava num só dia, por vezes oito horas, outras vezes cinco horas contínuas ao diálogo com Deus. Ela dirigia o seu Instituto ajoelhada diante do altar, falando primeiro ao Senhor da vida de cada uma das fundações e dos problemas individuais das suas filhas. Desde os anos da infância, vivida à sombra da mãe tão devota da Virgem das Dores, foi-se radicando no coração de Constância (assim se chamava no século a nossa Beata), o estímulo a uma relação interior com Jesus cada vez mais forte. Quem a orientou para as necessidades de se ocupar das necessidades da juventude foi o Pastor da Diocese, animado por santo zelo, D. Petagna, que não duvidou em lhe confiar a tarefa quer de dirigir um pequeno grupo de jovens da Piedosa União das Filhas de Maria, quer de ensinar o catecismo às crianças. O pequeno grupo cresceu, aumentaram as órfãs e também as jovens dispostas a unir-se ao apostolado realizado pela irmã Starace, até chegar à aprovação do novo Instituto das "Compassionistas" em 1871. (…)Ao espírito de sacrifício e de disponibilidade para ser vítima do amor divino, a Beata Maria Madalena tinha sido predisposta pelo exemplo luminoso de Santa Margarida Alacoque beatificada por Pio IX em 1864, com 19 anos de idade. O Coração de Jesus, vítima sacrificada por nós, juntamente com a dor do Coração da Mãe aos pés da Cruz, tornou-se o tema constante da reflexão espiritual da Madre Starace. Falava disto, podemos dizer, quotidianamente às suas Filhas, para as exortar à generosidade ao enfrentar os sacrifícios exigidos para realizar a união profunda com Deus. Às provações Madre Starace opunha a arma da oração, a aceitação da cruz e o abandono à vontade de Deus. "Da Cruz não se desce, escreveu ela, mas ressuscita-se quando tudo está cumprido".(…) A nova Beata Maria Madalena,(…) mostra-nos que força exercem no coração de Deus a fé, a humildade, o sacrifício de si, a total abnegação pessoal, a pobreza e a caridade vividas evangelicamente. Aprendamos dela a elevar o olhar para o alto, para Aquele que é o Primeiro e o Último, o Vivo, em cujo nome sacrificou a vida em benefício dos pobres, das crianças, dos idosos e em cujo espírito educou as suas filhas, com a certeza de que só vivendo assim se consegue ser felizes também na terra…”

A memória litúrgica da Beata Maria Madalena da Paixão celebra-se a 5 de Setembro.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral,  no dia 19 de Agosto de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Depois de ter reflectido sobre o valor da festa na vida da família, hoje meditaremos sobre o elemento complementar, que é o trabalho. Ambos fazem parte do desígnio criador de Deus, a festa e o trabalho.
O trabalho - diz-se normalmente - é necessário para manter a família, criar os filhos, garantir aos próprios entes queridos uma vida digna. De uma pessoa séria, honesta, o que de mais bonito se possa dizer é: «É um trabalhador», precisamente uma pessoa que trabalha, que na comunidade não vive às custas dos outros. Há muitos argentinos aqui, vejo-vos, e direi como dizemos nós: «No vive de arriba».
Com efeito, o trabalho - nas suas mil formas, e mesmo o trabalho doméstico - cuida também do bem comum. E onde se aprende este estilo de vida laboriosa? Antes de mais, aprende-se em família. A família educa para o trabalho com o exemplo dos pais: pai e mãe que trabalham para o bem da família e da sociedade.
No Evangelho, a Sagrada Família de Nazaré aparece como uma família de trabalhadores e o próprio Jesus é chamado «filho do carpinteiro» (cf. Mt 13, 55) ou até «o carpinteiro» (cf. Mc 6, 3). São Paulo não deixa de advertir os cristãos: «Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer» (2 Ts 3, 10). Esta é uma boa receita para emagrecer: não trabalhas, não comes! O apóstolo refere-se explicitamente ao falso espiritualismo de alguns que, de facto, vivem às custas dos seus irmãos e irmãs «ocupando-se de futilidades» (2 Ts 3, 11). O compromisso do trabalho e a vida do espírito, na concepção cristã, não estão absolutamente em contraste entre si. É muito importante entender isto! Oração e trabalho podem e devem estar juntos, em harmonia, como ensina São Bento. A falta de trabalho prejudica também o espírito, assim como a falta de oração deteriora, inclusive, a actividade prática.
Trabalhar — repito, nas suas mil formas — é próprio da pessoa humana. Exprime a sua dignidade de ter sido criada à imagem de Deus. Por isso, diz-se que o trabalho é sagrado. E, portanto, a gestão do emprego é uma grande responsabilidade humana e social, que não pode ser deixada nas mãos de alguns, nem acabar num «mercado» divinizado. Causar uma perda de lugares de trabalho significa provocar um grave dano social. Entristeço-me quando vejo que há pessoas sem trabalho, que não encontram emprego e não têm a dignidade de levar o pão para casa. Alegro-me muito quando vejo que os governantes fazem grandes esforços para criar postos de trabalho a fim de que todos o tenham. Ele é sagrado, confere dignidade à família. Devemos rezar para que não falte trabalho, na família.
Por conseguinte, também o trabalho, como a festa, faz parte do desígnio de Deus Criador. No livro do Génesis, o tema da terra como casa-jardim, confiada aos cuidados e ao trabalho do homem (cf. 2, 8.15), é antecipado com um trecho muito comovedor: «Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus, não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para a cultivar. Mas da terra elevava-se um vapor que regava toda a superfície» (2, 5-6). Não é romantismo!... É revelação de Deus; e nós temos a responsabilidade de a compreender e assimilar até ao fundo. A Encíclica Laudato si’, que propõe uma ecologia integral, contém também esta mensagem: a beleza da terra e a dignidade do trabalho existem para estar juntas. Caminham juntas: a terra torna-se bonita quando é trabalhada pelo homem. Quando o trabalho se afasta da aliança de Deus com o homem e a mulher; quando se separa das suas qualidades espirituais; quando é refém só da lógica do lucro e despreza os afectos da vida, o aviltamento da alma contamina tudo: inclusive o ar, a água, as ervas, os alimentos... A vida civil corrompe-se e o habitat deteriora-se. E as consequências atingem sobretudo os mais pobres e as famílias mais pobres. A moderna organização do trabalho, às vezes, mostra uma perigosa tendência a considerar a família como um obstáculo, um peso, uma passividade, para a produtividade do trabalho. Mas esquecemo-nos: qual produtividade? E para quem? A chamada «cidade inteligente» sem dúvida é rica de serviços e organização; contudo, por exemplo, com frequência, é hostil a crianças e a idosos.
Às vezes, quem projecta está interessado na gestão da força de trabalho individual, para montar e utilizar ou descartar de acordo com a conveniência económica. A família é um grande teste. Quando a organização do trabalho a mantém refém, ou até lhe impede o caminho, então estamos certos de que a sociedade humana começou a agir contra si mesma!
As famílias cristãs recebem desta conjuntura um grande desafio e uma grande missão. Elas apresentam os fundamentos da criação de Deus: a identidade e o vínculo do homem e da mulher, a geração dos filhos, o trabalho que torna a terra doméstica e habitável. A perda desses fundamentos é um problema muito sério, e já temos demasiadas fendas na casa comum! A tarefa não é fácil. Às vezes as associações de famílias podem ter a impressão de ser como David diante de Golias... mas, sabemos como se concluiu aquele desafio! São necessárias fé e astúcia. Deus nos conceda receber com alegria e esperança o seu chamamento, neste momento difícil da nossa história, o chamamento ao trabalho para dar dignidade a nós mesmos e à própria família. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Os olhos do Senhor estão voltados para os justos
e os ouvidos atentos aos seus rogos.
A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal,
para apagar da terra a sua memória.

Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,
livrou-os de todas as suas angústias.
O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado
e salva os de ânimo abatido.

Muitas são as tribulações do justo,
mas de todas elas o livra o Senhor.
Guarda todos os seus ossos,
nem um só será quebrado.

A maldade leva o ímpio à morte,
os inimigos do justo serão castigados.
O Senhor defende a vida dos seus servos,
não serão castigados os que n’Ele se refugiam.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

SANTOS POPULARES



BEATO JUNÍPERO SERRA

José Miguel Serra nasceu no dia 24 de Novembro de 1713, em Petra – Maiorca, Espanha, filho de Antonio Serra e de Margarita Ferrer. Os seus pais eram humildes agricultores, honestos, dedicados e cristãos devotos e exemplares. À medida que ia crescendo, os pais procuravam educa-lo nos caminhos da fé católica e do verdadeiro amor a Deus. Apesar de serem analfabetos, procuraram dar ao seu filho uma melhor educação; por isso, levaram-no a frequentar a escola do Convento Franciscano de São Bernardino. Foi neste convento, na sua cidade natal, que José Miguel aprendeu as primeiras letras e fez, com grande sucesso, a sua formação básica. Depois, por influência dos Padres Franciscanos, partiu para Palma de Maiorca para prosseguir o ensino superior. Com 15 anos de idade, começou a frequentar aulas de filosofia, no Convento de São Francisco de Palma e, sentindo-se chamado à vida religiosa, no ano seguinte, vestiu o hábito franciscano, no Convento de Jesus, situado fora da cidade. No dia 15 de Setembro de 1731 emitiu os votos religiosos, mudando o nome José Miguel por Junípero: Frei Junípero.
Frequenta, com muito brilhantismo, os estudos eclesiásticos e, logo o incumbem de leccionar filosofia, no Convento de São Francisco, cátedra que obteve com a aprovação máxima e o consentimento unânime de todos os seus examinadores. Aqui, lecionou durante três anos; depois assumiu a cadeira de Teologia Escotista, na então famosa Universidade Luliana, de Palma de Maiorca, onde formou alunos notáveis que testemunham a elevada categoria educacional do Padre Serra.
Depois de ter obtido as mais altas honras e aplausos, decidiu deixar tudo para seguir a vocação missionária. Em 1749, quando estava a pregar a quaresma, em Petra, a sua cidade natal, recebeu a notícia de que estava tudo resolvido para partir para o Colégio dos Missionários de São Fernando, na capital do México.
Frei Junípero sempre tinha escondido dos seus pais a vocação missionária que o animava e, terminada a Quaresma, despediu-se deles, já idosos, sem mencionar a sua nova missão, a sua próxima partida para a América. Naquele momento, não queria preocupá-los e, com um forte abraço que lhe que lhe esmagava o coração, partiu para não mais voltar a vê-los. A 13 de Abril de 1749, deixou para trás a sua terra e embarcou para a aventura da sua nova missão.
Depois de uma longa e perigosa viagem de 99 dias, chegou a Veracruz na costa mexicana. Com outro companheiro, percorreu, a pé, cem léguas, até chegar ao Colégio dos Missionários de São Fernando. Durante esta caminhada, por causa da picada de um insecto, abriu-se-lhe numa perna uma ferida que o acompanhou até à morte.
Seis meses após a sua chegada, partiu, com um grupo de voluntários, para o coração da Sierra Gorda, onde iniciou a sua brilhante carreira missionária. Permaneceu oito anos naquela terra inóspita, onde muitos outros falharam. O seu historial foi muito diferente. Sempre incansável e empreendedor, aprendeu a língua nativa. Ensinou a cultivar as terras. Edificou fazendas e oficinas. Iniciou os índios nos mais elementares rudimentos das ciências e das artes. Treinou-os nos princípios básicos do comércio. Ensinou-lhes, de modo particular, os fundamentos doutrinários da fé católica. Foi tal a transformação realizada naquela área montanhosa que, de um areal infrutífero, os vales se transformaram em fecundo pomar. E os índios, semi-selvagens e grosseiros, converteram-se em cidadãos sociáveis, instruídos nos diferentes campos da actividade humana, daqueles tempos. Da actividade extraordinária do Padre Serra neste recanto da montanha, existe, ainda hoje, em Jalpan, como testemunho eloquente, um esbelto e artístico templo, em estilo churrigueresco, construído sob a sua direcção. [N.T.- Estilo barroco espanhol, da primeira metade do séc. XVIII, criado pelos arquitectos Churriguera: uma família de arquitectos barrocos cuja obra se caracteriza por uma decoração pesada.]
Em plena euforia pelo seu trabalho na Sierra Gorda, foi chamado para cuidar das missões de São Saba, no Texas, que tinham sido devastadas pelos Apaches, tendo morrido os seus missionários. Frei Junípero aceitou, feliz, esta missão, estando ciente de que se expõe a sofrer o martírio. Mas Deus tinha-lhe reservado um caminho bem diferente. Na verdade, o projecto que lhe tinha sido proposto não se concretizou. Frei Junípero, livre destas obrigações, dedicou-se à pregação, promovendo missões populares em todo o território da Nova Espanha, mostrando, uma vez mais, as suas grandes qualidades pastorais. Fruto da sua pregação fervorosa, houve muitas conversões e multidões de penitentes se jorraram a seus pés pedindo o perdão para os seus pecados.
Naquela época, os jesuítas foram expulsos de todos os territórios espanhóis e, por isso, foram abandonadas as missões de Baixa Califórnia. O Governo do Vice-Rei encarregou os Franciscanos de preencher esse vazio e, mais uma vez, o P. Serra foi chamado para partir, com outros dezasseis religiosos, a cumprir nova tarefa.
Em 14 de Março de 1769, embarcou para Loreto, na Baixa Califórnia e, enquanto toma posse do seu cargo, elaborou planos, distribuiu o pessoal e visitou várias missões. Depois de um ano neste ministério, chegou a notícia de que os russos, partindo do Alaska, pretendiam ocupar a costa oeste da América do Norte. Para se lhes adiantar, o Vice-Rei, Marquês de Croix, encarregou o General D. José de Gálvez de organizar uma expedição para conquistar aquelas terras.
Gálvez começou imediatamente a tratar da operação, reunindo os seus oficiais para elaborar o plano; mas, logo se dá conta de que há uma pessoa chave e imprescindível para o feliz êxito daquele empreendimento: o Padre Junípero Serra. Gálvez sabia bem que as armas e os canhões eram insuficientes para uma conquista estável e duradoura. Era essencial conquistar, para além do território, o coração dos índios, e esta tarefa fundamental só se poderia enfrentar com as armas da fé e o estandarte da cruz. Então, o próprio General convocou o responsável dos missionários franciscanos e, ambos, elaboram o plano a seguir. Importa sublinhar o papel desempenhado pelo P. Serra no cuidado e no desenvolvimento dos preparativos.
O P. Serra iniciou a sua caminhada para norte, incorporado na expedição militar do Comandante Portolá. A preocupante ferida da sua perna ulcerada tornava tão pesado e desajeitado o seu caminhar que outros ter-se-iam dados por vencidos e desistindo do empreendimento. Porém, Frei Junípero não desiste.
No dia 1 de Julho de 1769, chegaram no porto de San Diego e, enquanto as tropas içavam a bandeira de Espanha e levantavam o acampamento, o Padre Serra implantou a cruz, solidamente fixada ao chão, e fundou a primeira missão na Alta Califórnia. Concluído o lançamento da primeira pedra do Cristianismo, naquelas terras distantes, Frei Junípero, enxugando o rosto, deixou escapar um profundo suspiro de satisfação ao ver o sinal de Cristo levantado no meio de um povo completamente pagão.
Ao princípio, as relações com os nativos não foram tão cordial como seria desejável. A rapina e a violência faziam parte do dia-a-dia daquela gente. Os índios roubavam o que podiam e, em dado momento, atacaram o desprevenido o acampamento espanhol. Como resultado desta luta sangrenta, morreu o colaborador índio a quem o P. Serra muito apreciava.
Este primeiro contacto com os naturais do lugar, tão adverso como desagradável, não foi capaz de impedir a acção missionária de Frei Junípero. Pelo contrário, o seu espírito saiu fortalecido e aumentou a seu amor por aqueles índios, a quem apreciava e queria converter em vassalos de ambas as majestades: o Rei dos Céus e o Rei de Espanha. Sem dúvida alguma, a tenacidade do Padre Serra foi um factor importantíssimo para que não fracassasse, logo de início, a conquista da Alta Califórnia. As provisões de alimentos chegaram a escassear de tal forma que o Comandante Portolá ordenou a retirada. Com este passo atrás, o Padre Serra via cair por terra todo o seu afã de converter aquelas populações. Mas as suas orações foram atendidas: foi suspensa a ordem de retirada e, entretanto, chegou o barco com novos recursos.
Foi retomada a marcha seguindo o plano pré-determinado. Logo que chegaram a Monterrey, Frei Junípero instalou-se junto do Rio Carmelo e, aí, fundou a segunda missão, que se tornou na residência habitual. Daqui, Frei Junípero partiu, muitas vezes, para ampliar as fronteiras de conquista espiritual.
As maiores dificuldades que o P. Serra encontrou na sua tarefa missionária, e que muito o fez sofrer, foram as incompreensões e a falta de apoio dos governantes da Califórnia. A acção dos missionários estava sujeita ao poder civil e militar; por isso, mais de uma vez, os frades foram oprimidos e constrangidos pelos interesses e caprichos daqueles que tinham outros projectos e outros ideais. Foram tempos difíceis para os missionários, ultrapassados com diplomacia, muita persistência, paciência e caridade.
Apesar das dores provocadas pela úlcera da sua perna e do desconforto da viagem, Frei Junípero dirigiu-se à Corte do Vice-Rei do México para, aí, tratar dos problemas das missões e encontrar soluções para intromissões e discrepâncias do Governador do Califórnia. O Vice-Rei, D. Antonio Maria Bucareli, recebeu, com singular afecto, o zeloso missionário. Escutou as suas razões ficou convencido quer dos seus argumentos, quer do seu zelo e da sua santidade. O Padre Serra agiu com tal entusiasmo e determinação que não só convenceu e saiu airoso desta tarefa, mas também pôde voltar às suas missões carregado com abundantes alimentos, tecidos e utensílios de toda a espécie.
Com tais reforços e protegido pelas novas regras emitidas para o governo da Província da Califórnia, elaboradas por ele e aprovadas pelo Vice-Rei, Frei Junípero encheu de entusiasmo os seus missionários e, de novo, se abrem largos horizontes ao zelo evangelizador daqueles homens.
Já tinham sido fundadas as missões de San Diego, São Carlos em Carmelo, Santo Antonio, São Gabriel e São Luís; agora, foram criadas as missões de São Francisco, São João Capistrano, Santa Clara e São Boaventura. Para além disso, iniciou-se a fundação da missão de Santa Bárbara, que o Padre Serra não chegou a ver porque, antes, foi visitado pela irmã morte.
O seu zelo pelas almas e o seu dinamismo em erigir mais obras levavam-no a deslocar-se, continuamente, de cerro em cerro, entre vales e montanhas, para assim poder congregar o índio disperso e desprovido de tudo, dando-lhe abrigo e sustento junto da acolhedora missão. Frei Junípero percorreu milhares e milhares de quilómetros, durante a sua vida tão fecunda. Coxeando e valendo-se de um bastão, atravessou, repetidamente, os campos floridos da Califórnia para visitar as missões e estar mais perto dos seus irmãos missionários. A todos escuta e atende. Toma a seu cargo cada situação específica. Procura e apresenta acertadas soluções. Dá novas orientações e sábios conselhos. Prega, baptiza, confirma, confessa, e ainda tem tempo para o que lhe é mais precioso: cuidar dos problemas e das necessidades dos seus queridos índios.
Este homem, de temperamento forte e de carácter firme, mas afável, de dotes singulares e de iniciativas ambiciosas, nunca cedeu e nunca recuou. Mas, por fim, caiu rendido no encontro com a irmã morte. Frei junípero faleceu no dia 28 de Agosto de 1784, na missão São Carlos Borromeo, junto do Rio Carmelo, perto de Monterrey.
Os que permaneceram ao seu lado, choraram a perda de um verdadeiro pai. Experimentaram o triste desaparecimento do seu grande benfeitor. Como expressão da mais sincera gratidão, amortalharam "pai velho" - como carinhosamente era chamado - com as suas abundantes lágrimas de tristeza e com as flores daqueles campos, tantas vezes trilhados por aqueles pés de peregrino.
Além da imensa actividade missionária e civilizadora desenvolvida pelo Padre Serra ao longo da sua vida, à sua iniciativa se devem as nove primeiras missões das vinte e uma fundadas pelos franciscanos espanhóis, na Alta Califórnia. Não é de admirar que o Padre Francisco Palou, seu discípulo, amigo e biógrafo, tivesse deixado gravadas estas palavras proféticas: "A sua memória não se apagará, porque as obras que ele fez, enquanto vivia, hão-de ficar estampadas nos habitantes da Nova Califórnia".
O Padre Frei Junípero Serra foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em Roma, no dia 25 de Setembro de 1988. Será canonizado no dia 23 de Setembro, pelo Papa Francisco, aquando da sua visita aos Estados Unidos. São Junípero Serra será o primeiro santo hispânico dos Estados Unidos da América.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 28 de Agosto.

sábado, 22 de agosto de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  no dia 12 de Agosto de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, percorreremos um pequeno caminho de reflexão sobre três dimensões que marcam, por assim dizer, o ritmo de vida familiar: a festa, o trabalho e a oração.
Começamos pela festa. Hoje, falaremos da festa. Dizemos logo que a festa é uma invenção de Deus. Recordemos a conclusão do relato da criação, no Livro do Génesis, que ouvimos ler:
“Deus, no sétimo dia, completou o trabalho que tinha feito, descansou do seu trabalho. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, porque nesse dia descansou de toda a obra da criação" (2,2-3). O próprio Deus ensina-nos a importância de dedicar algum tempo a contemplar e desfrutar do que no trabalho foi bem feito. Falo de trabalho, é claro, não só no sentido de ofício e de profissão, mas no sentido mais amplo: cada acção com a qual nós, homens e mulheres, podemos colaborar na obra criadora de Deus.
Assim, a festa não é a preguiça de estar sentado num cadeirão, ou a embriaguez de uma evasão tonta. Não!... A festa é, antes de mais, um olhar amoroso e agradecido sobre o trabalho bem feito: festejamos um trabalho. Também vós, jovens esposos, estais a celebrar o trabalho de um bom tempo de noivado: e isso é bonito! É o tempo de olhar para os filhos, ou para os netos, que estão a crescer, e pensar: que belo!...É hora de olhar para a nossa casa, para os amigos que hospedamos, a comunidades que nos circunda, e pensar: que bom! Deus assim o fez quando criou o mundo. Ele continuamente faz assim, porque Deus cria sempre, mesmo neste momento!
Pode acontecer que uma festa se realize em circunstâncias difíceis ou dolorosas, e se celebre até "com o nó na garganta." No entanto, mesmo nestes casos, peçamos a Deus a força para a não esvaziar completamente. Vós, mães e pais, sabei-lo bem: quantas vezes, por amor dos filhos , fostes capazes esquecer os lamentos para deixar que eles vivessem bem a festa, saboreando o bom sentido da vida! Há tanto amor nisto!...
Mesmo nos ambientes de trabalho, às vezes – sem tirar nada às obrigações! - sabemos "infiltrar" alguns momentos de festa: um aniversário, um casamento, um novo nascimento, bem como uma despedida ou uma nova chegada... É importante. É importante fazer festa. São momentos de familiaridade na engrenagem da máquina produtiva: isto faz-nos bem!
Mas, o verdadeiro tempo da festa suspende o trabalho profissional, e é sagrado, porque recorda ao homem e à mulher que são feitos à imagem de Deus, que não é escravo do trabalho, mas Senhor; portanto, também nós não devemos nunca ser escravos do trabalho, mas "senhores". Há um mandamento para isso; um mandamento que se aplica a todos, sem excepção! Contudo, sabemos que há milhões de homens e mulheres, e até mesmo crianças, escravos do trabalho! Neste momento são escravos, são explorados: escravos do trabalho… E isso é contra Deus e contra a dignidade da pessoa humana! A obsessão do lucro económico e o eficientismo da técnica põem em risco os ritmos humanos da vida, porque a vida humana tem os seus ritmos humanos. O tempo do repouso, especialmente o dominical, é-nos destinado para possamos apreciar o que não se produz e não se consome; não se compra e não se vende. Mas, vemos que a ideologia do lucro e do consumo quer engolir, também, a festa: também ela é, por vezes, reduzida a um "negócio", a uma maneira de ganhar dinheiro e de o gastar. Mas, é para isto que trabalhamos? A ganância do consumir, que leva ao desperdício, é um vírus ruim que, entre outras coisas, nos faz chegar ao fim mais cansados do que antes. Prejudica o trabalho verdadeiro, consome vida. Os ritmos desordenados da festa fazem vítimas, muitas vezes entre os jovens.
Finalmente, o tempo da festa é sagrado, porque Deus o habita de um modo especial. A Eucaristia dominical leva à festa toda a graça de Jesus Cristo: a sua presença, o seu amor, o seu sacrifício, o seu fazer-se comunidade, o seu estar connosco… E, assim, cada realidade recebe o seu pleno significado: o trabalho, a família, as alegrias e os cansaços de cada dia, e mesmo o sofrimento e morte; tudo é transfigurado pela graça de Cristo.
A família é dotada de uma competência extraordinária para compreender, orientar e apoiar o autêntico valor do tempo da festa. Como são belas as festas em família: são lindíssimas! E, especialmente, as do domingo. Não é por acaso que as festas de família, onde todos colaboram, são as que correm melhor!
A própria vida familiar, vista com os olhos da fé, parece-nos resistente e melhor quando testada no esforço que, constantemente, temos de fazer. Parece-nos uma obra-prima de simplicidade, bela precisamente porque não é artificial, não é fingida, mas capaz de incorporar em si todos os aspectos da vida real. Parece-nos uma coisa "muito boa", como Deus disse no termo da criação do homem e da mulher (cf. Gn 1,31). Assim, a festa é um dom precioso de Deus; um precioso presente que Deus fez à família humana: não o destruamos!

PARA REZAR


SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Temei o Senhor, vós os seus fiéis,
porque nada falta aos que O temem.
Os poderosos empobrecem e passam fome,
aos que procuram o Senhor não faltará riqueza alguma.

Vinde, filhos, escutai-me,
vou ensinar-vos o temor do Senhor.
Qual é o homem que ama a vida,
que deseja longos dias de felicidade?

Guarda do mal a tua língua
e da mentira os teus lábios.
Evita o mal e faz o bem,
procura a paz e segue os seus passos.

SANTOS POPULARES



SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

         - na palavra do Papa Bento XVI, no dia 21 de Outubro de 2009

“…Queridos irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado "o último dos Padres" da Igreja porque, no século XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres. Não conhecemos os pormenores dos anos da sua infância; sabemos contudo que nasceu em 1090, em Fontaines, em França, numa família numerosa e discretamente abastada. Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, da retórica e da dialéctica – na escola dos Cónegos da igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa. Por volta dos vinte anos, entrou em Cîteaux, uma fundação monástica nova, mais activa em relação aos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cîteaux, para fundar o mosteiro de Claraval (Clairvaux). Aqui, o jovem Abade - tinha apenas vinte e cinco anos - pôde apurar a sua concepção da vida monástica e empenhar-se em pô-la em prática. Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo recordou, com decisão, a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres. Entretanto, a comunidade de Claraval tornava-se cada vez mais numerosa e multiplicava as suas fundações.
Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes quer de modestas condições sociais. Às muitas Cartas deste período, é preciso acrescentar numerosos Sermões, assim como Sentenças e Tratados. Remonta sempre a este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, figuras entre as mais importantes do século XII. A partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo, teve de sair muitas vezes do seu mosteiro e, por vezes, até de França. Fundou, também, alguns mosteiros femininos, e foi protagonista de um vivaz epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny (…) Dirigiu sobretudo os seus escritos polémicos contra Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de fazer teologia, introduzindo sobretudo o método dialéctico-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo cada vez mais difundidas. Devido a este aspecto da sua acção apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim, rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem. Naquele mesmo período, o santo Abade escreveu as suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua vida – a sua morte verificou-se em 1153 – Bernardo teve que limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente. Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Merece ser mencionado um livro bastante particular, que ele terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa, com o nome de Eugénio III. Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual, escreveu a este seu filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura conveniente para os Papas de todos os tempos, Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na contemplação do mistério de Deus trino e uno:  "Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não é bastante procurado", escreve o santo Abade "mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa" (XIV, 32:  PL 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.
Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo:  eles referem-se a Jesus Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua solicitude pela participação íntima e vital do cristão no amor de Deus, em Jesus Cristo, não contribui com novas orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de modo mais do que decidido, o Abade de Clairvaux configura o teólogo com o contemplativo e com o místico. Só Jesus – insiste Bernardo diante dos complexos raciocínios dialécticos do seu tempo – só Jesus é "mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração" (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum)". Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela tradição, de Doctor mellifluus:  de facto, o seu louvor de Jesus Cristo "escorre como o mel". Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época – o Abade de Claraval não se cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré. "Todo o alimento da alma é árido", confessa, "se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus". E conclui:  "Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus" (Sermones in Cantica Canticorum XV, 6:  PL 183, 847). De facto, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para cada cristão:  a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais. Que isto se verifique com cada um de nós!
Noutro célebre Sermão no domingo entre a oitava da Assunção, o santo Abade descreve em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do Filho. "Ó santa Mãe – exclama ele – deveras uma espada trespassou a tua alma!... A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio" (14:  PL 183, 437-438). Bernardo não tem dúvidas:  "per Mariam ad Iesum", através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermone documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, após a particularíssima participação da Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não foi por acaso que, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina Comédia, colocará nos lábios do "Doutor melífluo" a sublime oração a Maria:  "Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo do eterno conselho,..." (Paraíso 33, vv. 1 ss.).
Estas reflexões, características de um apaixonado por Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo saudável não só os teólogos, mas todos os crentes. Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a "ciência dos santos", para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus "com a oração do que com o debate". No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua cabeça no coração do Mestre.
Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia. "Nos perigos, nas angústias, nas incertezas – diz ele – pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar; se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta..." (Hom. II super "Missus est", 17:  PL 183, 70-71)…” (cf. Santa Sé)
São Bernardo morreu em 1153, aos 63 anos. Foi canonizado, em 18 de Julho de 1174, pelo Papa Alexandre III e declarado Doutor da Igreja pelo Papa Pio VIII, em 1830. A sua memória litúrgica celebra-se no dia 20 de Agosto.

Há muitas histórias que associam São Bernardo e Portugal.
Diz-se, por exemplo, que o próprio São Bernardo teria vindo a Portugal, por altura da introdução da Ordem Cisterciense no país, no Mosteiro de São João de Tarouca, em 1142; que teria estado na Abadia de Alcobaça, um dos maiores mosteiros cistercienses de toda a Europa. Estudos recentes dão como certo que São Bernardo esteve associado à independência de Portugal. Parece ter sido por sua mediação (ou pelo menos, pela mediação da sua Abadia) que o Papa enviou um legado à Península Ibérica, o qual reconheceu, senão a independência nacional, pelo menos o título de dux atribuído a Afonso Henriques e a submissão do novo país à Santa Sé.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  no dia 5 de Agosto de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Com esta catequese retomemos a nossa reflexão sobre a família. Depois de ter falado, na última vez, das famílias feridas por causa da incompreensão dos cônjuges, hoje gostaria de chamar a nossa atenção para outra realidade: como ocupar-nos daqueles que, depois do fracasso irreversível do seu vínculo matrimonial, empreenderam uma nova união.
A Igreja sabe bem que tal situação contradiz o Sacramento cristão. Contudo, o seu olhar de mestra haure sempre de um coração de mãe; um coração que, animado pelo Espírito Santo, procura sempre o bem e a salvação das pessoas. Eis o motivo pelo qual sente o dever, «por amor à verdade», de «discernir bem as situações». Assim se expressava João Paulo II, na Exortação apostólica “Familiaris consortio” (n. 84), dando como exemplo a diferença entre quem sofreu a separação em relação a quem a causou. Este discernimento deve ser feito.
Se considerarmos depois também estes novos vínculos com o olhar dos filhos pequenos — e os pequeninos vêem — com o olhar das crianças, vermos ainda mais a urgência de desenvolver nas nossas comunidades um acolhimento real para com as pessoas que vivem essas situações. Por isso é importante que o estilo da comunidade, a sua linguagem, as suas atitudes, estejam sempre atentas às pessoas, a partir dos pequeninos. São eles que mais sofrem, nestas situações. De resto, como poderíamos recomendar a estes pais que façam de tudo para educar os filhos na vida cristã, dando-lhes o exemplo de uma fé convicta e praticada, se os mantivéssemos à distância da vida da comunidade, como se estivessem excomungados? Devemos fazer de maneira que não se acrescentem outros pesos além dos que os filhos, nestas situações, já se encontram a ter que suportar! Infelizmente, o número destas crianças e jovens é deveras grande. É importante que eles sintam a Igreja como mãe atenta a todos, sempre disposta à escuta e ao encontro.
Na realidade, nestes decénios a Igreja não foi nem insensível nem indolente. Graças ao aprofundamento realizado pelos Pastores, guiado e confirmado pelos meus Predecessores, aumentou muito a consciência de que é necessário um acolhimento fraterno e atento, no amor e na verdade, em relação aos baptizados que estabeleceram uma nova convivência depois da falência do matrimónio sacramental: não estão excomungados; com efeito, estas pessoas não devem absolutamente ser tratadas como tais: elas fazem parte da Igreja.
O Papa Bento XVI interveio sobre esta questão, solicitando um discernimento atento e um acompanhamento pastoral sábio, consciente de que não existem «receitas simples» (Discurso no VII Encontro Mundial das Famílias, Milão, 2 de Junho de 2012, resposta n. 5).
Eis o motivo do repetido convite dos Pastores a manifestar, aberta e coerentemente, a disponibilidade da comunidade para acolhê-los e para encorajá-los, para que vivam e desenvolvam cada vez mais a sua pertença a Cristo e à Igreja com a oração, com a escuta da Palavra de Deus, com a frequência da liturgia, com a educação cristã dos filhos, com a caridade e o serviço aos pobres, com o compromisso pela justiça e a paz.
O ícone bíblico do Bom Pastor (Jo 10, 11-18) resume a missão que Jesus recebeu do Pai: dar a vida pelas ovelhas. Esta atitude é um modelo também para a Igreja, que acolhe os seus filhos como uma mãe que oferece a sua vida por eles. «A Igreja está chamada a ser sempre a casa aberta do Pai [...]» — Não às portas fechadas! Não às portas fechadas! «…Todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade. A Igreja [...] é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fatigante» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 47).

Do mesmo modo, todos os cristãos estão chamados a imitar o Bom Pastor. Sobretudo as famílias cristãs devem colaborar com Ele, ocupando-se das famílias feridas, acompanhando-as na vida de fé da comunidade. Cada qual faça a sua parte, assumindo a atitude do Bom Pastor, o qual conhece cada uma das suas ovelhas e não exclui nenhuma do seu amor infinito!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Enaltecei comigo o Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,
libertou-me de toda a ansiedade.

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,
o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,
salvou-o de todas as angústias.

O Anjo do Senhor protege os que O temem
e defende-os dos perigos.
Saboreai e vede como o Senhor é bom:
feliz o homem que n’Ele se refugia.

SANTOS POPULARES


BEATO CLÁUDIO GRANZOTTO

Ricardo Granzotto nasceu no dia 23 de Agosto de 1900, em Santa Lucia di Piave, Treviso - Itália. A sua família era de condição modesta, mas muito cristã. A natureza dotou-o de uma vontade forte e de uma bondade transparente que o tornava simpático a todos. Trabalhou na dureza do campo e, depois, como carpinteiro e pedreiro. Esta experiência moldou o seu carácter e formou o seu coração no sacrifício e na generosidade. Aos 15 anos, sentiu a paixão pela arte, especialmente a escultura que, imediatamente, se tornou o maior sonho da sua vida. No dia 2 de Abril de 1918, decorrendo a 1ª grande guerra, foi forçado a partir para a frente militar. Depois, passou quatro anos em Roma, Forli, Nápoles, Sant'Arcangelo di Romagna e Albânia. Com a idade de 22 anos e com a ajuda do seu pároco, Mons. Morando, entrou, com grandes sacrifícios e com uma determinação admirável, na Academia de Belas Artes de Veneza. Aos 29 anos, já professor na Academia, ganhou o mais alto diploma atribuído pela Academia, com a pontuação máxima na área da escultura. Quando tudo apontava um caminho brilhante a este jovem professor, o Senhor chamou-o para a vida franciscana, unindo a beleza do seu ideal artístico à beleza, ainda mais sublime, da santidade. Em 7 de Dezembro de 1933, entrou para a Ordem dos Frades Menores em São Francisco do Deserto, em Veneza, adoptando o nome de Cláudio. Naquela altura, o ministro provincial dos Frades Menores de Veneza, escreveu ao arcipreste de Santa Lucia di Piave, dizendo: "A Ordem recebe não só um artista, mas também um santo".
Começou, então, a sua subida ao monte santo de Deus: uma viagem marcada pelo imenso amor de Deus; pelo abandono total nas Suas mãos. Frei Cláudio fez da sua vida uma vida de oração. Muitas vezes, sente-se atraído para a capela, onde passa muitas horas em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Tinha um grande amor por todos mas, especialmente, pelos pobres e pelos doentes. Na sua simplicidade e humildade, obedecia pronta e generosamente. Vivia uma castidade feliz e radiante.
A heroicidade das suas virtudes alimentava-se na Eucaristia, na piedade reparadora e na devoção filial a Maria Imaculada. Amava a Mãe do Senhor do mais fundo do coração, a ponto de dizer: "Eu sou o escravo da Virgem... A Virgem quer a minha salvação, porque há muito tempo que estou dedicado ao seu Coração Imaculado…" Para mostrar o seu amor filial a Maria, a Virgem de Nazaré, construiu quatro grutas à semelhança da Gruta de Lurdes.
Frei Cláudio escreveu: "Senhor, concede-me o dom dos teus espinhos e, assim, terei a certeza de que aceitaste o sacrifício da minha vida…” Atacado por um tumor cerebral, no dia 15 de Agosto de 1947, no Hospital Civil de Pádua, encontrou-se com Aquele a quem tinha confessado: "Eu quero viver e morrer dizendo e mostrando a todos que eu Te amo mais do que a todos os tesouros da terra e partir para o céu”. A Rainha dos Anjos, a quem reverenciou e honrou com todo seu coração, acolheu-o no dia em que a Igreja celebra a Festa da sua Assunção, satisfazendo assim o desejo do seu servo: "… No dia da Assunção eu vou…"
Os seus restos mortais repousam em Chiampo, ao pé da gruta de Lourdes, convertida, segundo o seu desejo, em "lugar de oração e de encontro de Deus com cada pessoa."
No início da sua vida franciscana, Frei Cláudio escreveu: "Eu quero que a minha vida permaneça escondida como um grão de areia." Mas o plano de Deus para este humilde frade menor era muito diferente. A sua fama de santidade - que ele procurou agarrar durante a sua vida -, depois da sua morte, espalhou-se, rapidamente, através do Veneto, por toda a Itália e muitas outras partes do mundo. A 16 de Dezembro de 1959, o então bispo de Vittorio Veneto, Mons. Albino Luciani, o futuro Papa João Paulo I, começou o processo diocesano em ordem à sua beatificação.
Com a sua vida de artista, de franciscano e de fidelidade ao Evangelho, ele transmitiu uma mensagem de alegria e de esperança não só aos homens da sua época, mas também aos de hoje. Escultor de matéria inerte, soube tornar-se eloquente testemunho da beleza divina. Frei Cláudio Granzotto era, acima de tudo, um escultor da alma: "Entreguei-me totalmente a Jesus. Tive de me esforçar muito... É preciso deixarmo-nos moldar por Ele, caso contrário, viveremos a vida em vão…"
Em Cristo, ele bebeu o ardor que fez de toda a sua vida um fogo da caridade. Com a santidade da sua vida, aparece diante da Igreja, diante dos artistas e dos homens mais importantes dos nossos tempos, como expressão da nova humanidade que o Espírito de Jesus ressuscitado quer fazer irradiar pela terra inteira, abrindo os horizontes infinitos do Amor.
Frei Cláudio (Ricardo) Granzotto foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 20 de Novembro de 1994. Na homilia da missa, o Papa disse: “… O amor a Cristo, "Filho do Homem" e o serviço ao reino de Deus resplandecem, de um modo muito especial, na vida do Beato Cláudio Granzotto. Último de nove filhos, aprendeu, na sua família e no trabalho duro dos campos, o temor de Deus, a prática sincera da vida cristã, a generosa solidariedade, a disponibilidade de sacrifício e de amor. Graças à sua docilidade ao Espírito e à educação familiar tão incisiva, a existência terrena de Cláudio Granzotto tornou-se uma peregrinação constante para a santidade, para o cume da perfeição evangélica. Verdadeiro filho do ‘Pobrezinho de Assis’, foi capaz de expressar a contemplação da infinita beleza divina na arte da escultura, da qual ele era mestre, transformando-a num instrumento privilegiado de apostolado e evangelização. A sua santidade brilhou, especialmente na aceitação do sofrimento e da morte, em união com a Cruz de Cristo. Assim, tornou-se modelo para os religiosos, na sua total dedicação ao amor do Senhor; para os artistas em busca da beleza de Deus e para os doentes, na sua amorosa adesão a Cristo crucificado…”
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 15 de Agosto.