PALAVRA COM SENTIDO
“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)
Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
EM DESTAQUE
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Dado que, para hoje, as previsões meteorológicas eram um pouco incertas - previa-se chuva -, esta audiência realiza-se, ao mesmo tempo, em dois lugares: nós, aqui na praça e, na sala Paulo VI, onde se encontram setecentos enfermos que seguem a audiência através de um grande ecrã. Todos estamos unidos; saudemo-los com um aplauso!
Hoje a palavra de Jesus é forte: «Ai do mundo por causa dos escândalos!». Jesus é realista e diz: «É inevitável que haja escândalos, mas ai do homem por causa do qual se verifica o escândalo». Antes de dar início à catequese, em nome da Igreja, gostaria de vos pedir perdão pelos escândalos que nestes últimos tempos ocorreram tanto em Roma, como no Vaticano. Peço-vos perdão!
Hoje, meditaremos sobre um tema muito importante: as promessas que fazemos às crianças. Não me refiro tanto às promessas que fazemos aqui e ali, durante o dia, para os contentar ou para que se comportem bem (talvez com algum pequeno truque inocente: dou-te um doce, e promessas semelhantes...), para os encorajar a aplicar-se na escola ou para os dissuadir de algum capricho. Refiro-me a outras promessas, às promessas mais importantes e decisivas para as suas expectativas em relação à vida, para a sua confiança nos seres humanos, para a sua capacidade de conceber o nome de Deus como uma bênção. São promessas que nós lhes fazemos.
Nós, adultos, estamos prontos para falar das crianças como de uma promessa de vida. Todos nós dizemos: as crianças são uma promessa de vida. E também nos comovemos facilmente, dizendo que os jovens são o nosso porvir; é verdade! Mas às vezes pergunto-me se somos igualmente sérios em relação ao seu futuro, ao porvir das crianças, ao futuro dos jovens! Eis uma pergunta que deveríamos fazer com frequência: quão leais somos às promessas que fazemos às crianças, permitindo-lhes que venham ao nosso mundo? Nós fazemo-las vir ao mundo, e esta é uma promessa; mas o que lhes prometemos?
Acolhimento e cuidado, proximidade e atenção, confiança e esperança são outras promessas básicas, que se podem resumir numa só: amor. Nós prometemos amor, ou seja, amor que se expressa no acolhimento, no cuidado, na proximidade, na atenção, na confiança e na esperança, mas a grande promessa é o amor. Este é o modo mais recto de receber um ser humano que vem ao mundo, e todos nós o aprendemos ainda antes de adquirirmos consciência acerca disto. Quando passo entre vós, gosto muito de ver os pais e as mães que me trazem um menino, uma menina pequeninos e pergunto: «Qual é a sua idade?» — «Três, quatro semanas... peço a bênção do Senhor!». Também isto se chama amor. O amor é a promessa que o homem e a mulher fazem a cada filho: desde que o concebem no pensamento. As crianças vêm ao mundo e esperam o cumprimento desta promessa: esperam-no de modo total, confiante, indefeso. É suficiente observá-las: em todas as etnias, em todas as culturas, em todas as condições de vida! Quando acontece o contrário, as crianças são feridas por um «escândalo», por um escândalo insuportável, ainda mais grave porque não dispõem dos meios para o decifrar. Não conseguem entender o que acontece. Deus vela sobre esta promessa, desde o primeiro instante. Recordais o que diz Jesus? Os Anjos das crianças reflectem o olhar de Deus, e Deus nunca perde de vista as crianças (cf. Mt 18, 10). Ai daqueles que traem a sua confiança, ai deles! O seu abandono confiante à nossa promessa, que nos compromete desde o primeiro instante, julga-nos.
E gostaria de acrescentar mais um aspecto, com muito respeito por todos, mas também com muita franqueza. A sua confiança espontânea em Deus nunca deveria ser ferida, sobretudo quando isto acontece por causa de uma certa presunção (mais ou menos inconsciente) de se substituir a Ele. A relação terna e misteriosa de Deus com a alma das crianças nunca deveria ser violada. Trata-se de uma relação real, que Deus deseja e preserva. A criança está pronta desde o seu nascimento para se sentir amada por Deus; está pronta para isto. Assim que se torna capaz de sentir que é amado por si mesmo, o filho sente também que existe um Deus que ama as crianças.
Recém-nascidas, as crianças começam a receber em dom, juntamente com o alimento e os cuidados, a confirmação das qualidades espirituais do amor. Os gestos de amor passam através do dom do seu nome pessoal, da partilha da linguagem, das intenções dos olhares, das iluminações dos sorrisos. Assim, aprendem que a beleza do vínculo entre os seres humanos aposta na nossa alma, procura a nossa liberdade, aceita a diversidade do outro, reconhece-o e respeita-o como interlocutor. Um segundo milagre, uma segunda promessa: nós — pai e mãe — entregamo-nos a ti, para te doar a ti mesmo! E isto é amor, que contém uma centelha do amor de Deus! Mas vós, pais e mães, tendes em vós esta centelha de Deus, que transmitis aos vossos filhos; vós sois instrumento do amor Deus, e isto é deveras bonito!
Somente se fitarmos as crianças com o olhar de Jesus conseguiremos compreender deveras em que sentido, defendendo a família, salvaguardamos a humanidade! O ponto de vista das crianças é o ponto de vista do Filho de Deus. No Baptismo, a própria Igreja faz grandes promessas às crianças, comprometendo assim os pais e a comunidade cristã. A santa Mãe de Jesus — por meio da qual o Filho de Deus veio até nós, amado e gerado como um Menino — torne a Igreja capaz de seguir o caminho da sua maternidade e da sua fé. E são José — homem justo, que o acolheu e protegeu, honrando intrepidamente a bênção e a promessa de Deus — nos torne todos capazes e dignos de hospedar Jesus em cada criança que Deus envia à terra. (cf. Santa Sé)
PARA REZAR
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do senhor.
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
SANTOS POPULARES
BEATO CARLOS I DA ÁUSTRIA
Bem cedo, cresceu em Carlos um grande amor pela Eucaristia e pelo Coração de Jesus. Carlos rezava sempre, pedindo a luz do Espírito Santo, antes de todas as decisões importantes.
No dia 21 de Outubro de 1911, Carlos casou com a Princesa Zita de Bourbon e Parma. Nos dez anos da sua vida matrimonial, formaram um casal imensamente feliz e extraordinariamente exemplar, que recebeu o dom de oito filhos. No seu leito da morte, Carlos dizia ainda a Zita: «Amo-te sem limites!».
Em 28 de Junho de 1914, após o assassinato, num atentado, do Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono – acontecimento que originou a Primeira Guerra Mundial -, Carlos tornou-se o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Com a morte do Imperador Francisco José, a 21 de Novembro de 1916, Carlos tornou-se Imperador da Áustria. No dia 30 de Dezembro é, também, coroado Rei apostólico da Hungria.
A missão e serviço de governar foram entendidos pelo Imperador Carlos como um caminho para seguir e servir Cristo: no amor pelos povos a ele confiados, no empenho pelo seu bem e no dom da sua vida por eles. O dever mais sagrado de um Rei - o empenho pela paz - foi colocado por Carlos no centro das suas preocupações, no decorrer da terrível guerra. Único entre todos os responsáveis políticos, apoiou os esforços para a paz protagonizados pelo Papa Bento XV.
No que diz respeito à política interna, mesmo nos tempos extremamente difíceis, encetou uma ampla e exemplar legislação social, inspirada no ensinamento social cristão.
O seu comportamento tornou possível, no final do conflito, uma transição para uma nova ordem sem guerra civil. Todavia, foi banido da sua própria pátria. Carlos foi obrigado a abdicar do trono Austro-Húngaro no dia 11 de Novembro de 1918.
Depois de viver algum tempo na Suíça, Carlos foi mandado para o exílio: o seu destino foi a Ilha da Madeira.
Reduzido à pobreza, viveu com a sua família numa casa extremamente humilde e bastante húmida. Por isso, adoeceu gravemente, aceitando a doença como um sacrifício pela paz e pela unidade dos seus povos.
Carlos suportou o seu sofrimento sem lamentações, perdoando a todos aqueles que o tinham magoado e ofendido.
Carlos I, imperador da Áustria morreu no dia 1 de Abril de 1922, com seu o olhar dirigido para o Santíssimo Sacramento e o seu coração entregue a Jesus. Carlos, no leito da morte, recordava, constantemente, o lema da sua vida: «Todo o meu empenho é sempre, em todas as coisas, conhecer o mais claramente possível e seguir a vontade de Deus, e isto da forma perfeita».
Carlos da Áustria foi beatificado, no dia 3 de Outubro de 2004, pelo Papa João Paulo II. O dia litúrgico da sua memória é 21 de Outubro.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
EM DESTAQUE
A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas. Quando nos detemos em oração diante de Jesus crucificado, reconhecemos a grandeza do seu amor, que nos dignifica e sustenta e, simultaneamente, apercebemo-nos de que aquele amor, saído do seu coração trespassado, estende-se a todo o povo de Deus e à humanidade inteira; e, precisamente deste modo, sentimos também que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado (cf. Ibid., 268) e de todos aqueles que O procuram de coração sincero. Na ordem de Jesus – «Ide» –, estão contidos os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Nesta, todos são chamados a anunciar o Evangelho pelo testemunho da vida; e, de forma especial aos consagrados, é pedido para ouvirem a voz do Espírito que os chama a partir para as grandes periferias da missão, entre os povos onde ainda não chegou o Evangelho.(…) Para viver o testemunho cristão e os sinais do amor do Pai entre os humildes e os pobres, os consagrados são chamados a promover, no serviço da missão, a presença dos fiéis leigos. Como já afirmava o Concílio Ecuménico Vaticano II, «os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos» (Ad gentes, 41). É necessário que os consagrados missionários se abram, cada vez mais corajosamente, àqueles que estão dispostos a cooperar com eles, mesmo durante um tempo limitado numa experiência ao vivo. São irmãos e irmãs que desejam partilhar a vocação missionária inscrita no Baptismo. As casas e as estruturas das missões são lugares naturais para o seu acolhimento e apoio humano, espiritual e apostólico.
As Instituições e as Obras Missionárias da Igreja estão postas totalmente ao serviço daqueles que não conhecem o Evangelho de Jesus. Para realizar eficazmente este objectivo, aquelas precisam dos carismas e do compromisso missionário dos consagrados, mas também os consagrados precisam duma estrutura de serviço, expressão da solicitude do Bispo de Roma para garantir de tal modo a ‘koinonia’ que a colaboração e a sinergia façam parte integrante do testemunho missionário. Jesus colocou a unidade dos discípulos como condição para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). A referida convergência não equivale a uma submissão jurídico-organizativa a organismos institucionais, nem a uma mortificação da fantasia do Espírito que suscita a diversidade, mas significa conferir maior eficácia à mensagem evangélica e promover aquela unidade de intentos que é fruto também do Espírito. (…) Queridos irmãos e irmãs, a paixão do missionário é o Evangelho. São Paulo podia afirmar: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). O Evangelho é fonte de alegria, liberdade e salvação para cada homem. Ciente deste dom, a Igreja não se cansa de anunciar, incessantemente, a todos «O que existia desde o princípio, O que ouvimos, O que vimos com os nossos olhos» (1 Jo 1, 1). A missão dos servidores da Palavra – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – é colocar a todos, sem excluir ninguém, em relação pessoal com Cristo. No campo imenso da actividade missionária da Igreja, cada baptizado é chamado a viver o melhor possível o seu compromisso, segundo a sua situação pessoal. Uma resposta generosa a esta vocação universal pode ser oferecida pelos consagrados e consagradas através duma vida intensa de oração e união com o Senhor e com o seu sacrifício redentor.
Ao mesmo tempo que confio a Maria, Mãe da Igreja e modelo de missionaridade, todos aqueles que - ‘ad gentes’ ou no próprio território, em todos os estados de vida - cooperam no anúncio do Evangelho, de coração, concedo a cada um a Bênção Apostólica.”
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
Um olhar atento à vida quotidiana dos homens e das mulheres de hoje demonstra imediatamente a necessidade que há, em toda a parte, de uma vigorosa injecção de espírito familiar. Com efeito, o estilo das relações — civis, económicas, jurídicas, profissionais, de cidadania — parece muito racional, formal, organizado, mas também muito «desidratado», árido, anónimo. Às vezes torna-se insuportável. Não obstante deseje ser inclusivo nas suas formas, na realidade abandona à solidão e ao descarte um número cada vez maior de pessoas.
Eis por que razão a família abre à sociedade inteira uma perspectiva muito mais humana: abre os olhos dos filhos para a vida — e não apenas a vista, mas também todos os outros sentidos — representando uma visão da relação humana edificada sobre a livre aliança de amor. A família introduz na necessidade de vínculos de fidelidade, sinceridade, confiança, cooperação e respeito; encoraja a programar um mundo habitável e a acreditar nos relacionamentos de confiança, até em condições difíceis; ensina a honrar a palavra dada, o respeito pelas pessoas na sua individualidade, a partilha dos limites pessoais e dos outros. E todos nós estamos conscientes da insubstituibilidade da atenção familiar aos membros mais pequeninos, mais vulneráveis, mais feridos e inclusive mais desastrados nos comportamentos da sua vida. Na sociedade, quem pratica estas atitudes, assimilou-as a partir do espírito familiar, certamente não da competição nem do desejo de auto-realização.
Pois bem, mesmo ciente de tudo isto, não se dá à família o devido peso — reconhecimento e apoio — na organização política e económica da sociedade contemporânea. Gostaria de dizer algo mais: a família não só não recebe um reconhecimento adequado, mas não gera ulterior aprendizagem! Às vezes, poder-se-ia dizer que, com toda a sua ciência e técnica, a sociedade moderna ainda não é capaz de traduzir estes conhecimentos em formas melhores de convivência civil. Não só a organização da vida comum se encalha cada vez mais numa burocracia totalmente alheia aos vínculos humanos fundamentais, mas até o costume social e político dá frequentemente sinais de degradação — agressividade, vulgaridade, desprezo... — que estão muito abaixo do limite de uma educação familiar até mínima. Nesta conjuntura, os extremos opostos desta brutalização das relações — ou seja, a obtusidade tecnocrática e o familismo amoral — unem-se e alimentam-se reciprocamente. Este é um paradoxo!
Hoje, neste ponto exacto, a Igreja identifica o sentido histórico da sua missão a respeito da família e do autêntico espírito familiar: começando por uma atenta revisão de vida, que se refere a si mesma. Poder-se-ia dizer que o «espírito familiar» é uma carta constitucional para a Igreja: assim o cristianismo deve parecer e deve ser. Está escrito claramente: «Vós que estáveis longe — diz são Paulo — [...] já não sois hóspedes nem peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Ef 2, 17.19). A Igreja é e deve ser a família de Deus.
Quando chamou Pedro a segui-lo, Jesus disse-lhe que o levaria a tornar-se «pescador de homens»; e para isto é preciso um novo tipo de rede. Poderíamos dizer que hoje as famílias são uma das redes mais importantes para a missão de Pedro e da Igreja. Esta não é uma rede que aprisiona! Pelo contrário, liberta das águas negativas do abandono e da indiferença, que afogam muitos seres humanos no mar da solidão e da indiferença. As famílias sabem bem o que é a dignidade do sentir-se filhos, não escravos nem estrangeiros, nem sequer só um número de bilhete de identidade.
A partir daqui, da família, Jesus recomeça a sua passagem entre os seres humanos, para os persuadir que Deus não se esqueceu deles. Daqui Pedro adquire vigor para o seu ministério. Daqui a Igreja, obedecendo à palavra do Mestre, sai para pescar no lago convicta de que, se o fizer, a pesca será milagrosa. Possa o entusiasmo dos Padres sinodais, animados pelo Espírito Santo, fomentar o impulso de uma Igreja que abandona as velhas redes, voltando a pescar com confiança na palavra do seu Senhor. Oremos intensamente por isto! Aliás, Cristo prometeu e encoraja-nos: se nem sequer os maus pais deixam de dar o pão aos filhos famintos, muito menos Deus deixará de infundir o Espírito em quantos — mesmo imperfeitos como são — lho pedirem com insistência apaixonada (cf. Lc 11, 9-13)! (cf. Santa Sé)
PARA REZAR
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.
SANTOS POPULARES
BEATO JORGE (JERZY) POPIELUSZKO
Desde o início da agitação laboral, na Polónia, o Padre Popiełuszko foi "alvo" dos Serviços Secretos da República Popular da Polónia. Várias vezes, os agentes invadiram o presbitério. Várias vezes, esteve preso. Foi por milagre que escapou da condenação de uma prisão mais prolongada. Ao ficar em liberdade, ocupou-se, com devoção, à organização de ajuda aos presos, às suas famílias e todos que se encontravam em situação difícil.
O Padre Popiełuszko gostava das pessoas; interessava-se por cada uma, pela sua vida, pelas suas ideias, pelos seus problemas. Atraía-as para si porque sentiam a sua bondade. Foi mestre em estabelecer contactos, construir relacionamentos, criar laços… Apoiava todos os que andavam à procura de realização ou sofriam de isolamento. Ajudava, com um carinho especial, aqueles que precisavam de tratamento psiquiátrico, chegando a pagar os tratamentos aos que não tinham possibilidade, uma vez que eram muito caros. Sem temer as dificuldades, intercedia por aqueles que eram os mais oprimidos, defendendo a sua dignidade humana.
Como escreveu o Papa João Paulo II, na Encíclica ‘Veritas Splendor’, os mártires são os guardiões “da fronteira entre a verdade e a mentira”. O Padre Popiełuszko defendeu, durante toda a sua vida, uma fronteira clara entre a verdade e a mentira. Falava do valor da verdade e da mediocridade das mentiras apoiadas em muitas palavras que, mesmo assim, desapareciam rapidamente. Nos seus sermões, falou muito sobre a liberdade; ressaltava, constantemente, que a liberdade não significava anarquia, isto é, fazer tudo o que se quisesse, mas, sim, a livre busca do bem: vencer o mal com o bem; recusar o ódio, a repressão e a vingança.
Na fidelidade à sua pregação, o Padre Popiełuszko, frequentemente, levava café quente aos policiais enregelados que, durante o inverno, em plena lei marcial, vigiavam a sua casa.
A partir de Fevereiro de 1982, começou a celebrar a missa pela Polónia, no último domingo de cada mês: a igreja enchia-se de multidões de fiéis que vinham rezar com ele e escutar a sua palavra: ouviam-no os trabalhadores, os professores, os opositores e até mesmo aqueles que pertenciam ao partido ao partido comunista polaco. Vinham de toda a Polónia e, de mês para mês, vinham mais e mais pessoas. Não é de admirar que, imediatamente, as autoridades aparecessem com atitudes provocatórias e intimidatórias. Nas ‘Missas pela Pátria’ ocorriam muitas conversões; muitos voltaram ao seio da Igreja depois de muitos anos, ou até depois de dezenas de anos; muitos pediram para ser baptizados.
Mês após mês, a atmosfera em volta do Padre Popiełuszko começou a ser cada vez mais tensa.
Era sempre seguido pela polícia; a sua residência estava constantemente vigiada; o seu telefone estava sob escuta e as suas chamadas eram sempre gravadas. Na imprensa surgiram escritos difamatórios. Passou muitas horas a ser ouvido, no posto policial.
Em Setembro de 1983, juntamente com Lech Walesa, organizou a primeira peregrinação de trabalhadores a Jasna Góra (o santuário mariano de Częstochowa ). Esta iniciativa ainda hoje se mantém. Um ano mais tarde, começaram a surgir os telefonemas anónimos, com ameaças: “Se fores novamente a Jasna Góra, vais morrer”.
Em 19 de Outubro de 1984, o Padre Popiełuszko foi para Bydgoszcz onde, na Igreja dos Santos Mártires Polacos, celebrou a Santa Missa. As suas últimas palavras foram: "Rezemos para que não nos deixemos dominar pelo medo e pela intimidação, mas principalmente do desejo de vingança e de violência." À noite, no caminho de regresso a casa, o carro do padre foi mandado parar, na estrada, por uma patrulha “policial”. Na verdade, vestidos com uniformes da milícia estavam os agentes dos Serviços Secretos: Grzegorz Piotrowski, Waldemar Chmielewski e Leszek Pękała. Tinham recebido, do seu comandante, Adão Pietruszka, ordens especiais que os isentaria de qualquer controle. O Padre Popieluszko foi amordaçado; foi espancado, com um bastão de madeira, até ficar inconsciente. O seu o corpo mutilado foi colocado num saco, cheio de pedras, e atirado ao rio Vístula, perto de uma barragem, na região de Włocławek. O corpo foi encontrado no dia 30 de Outubro. Durante este período, toda a Polónia rezou pelo regresso do Padre Jorge Popieluszko. A notícia do seu assassinato deu a volta ao mundo. O seu funeral, realizado no dia 3 de Novembro de 1984, reuniu cerca de 800 mil pessoas de todo o país. Dois dias depois, começaram a chegar à Cúria Diocesana de Varsóvia os primeiros pedidos para a sua beatificação.
Os lugares associados ao martírio do Padre Jorge Popiełuszko tornaram-se, rapidamente, lugares de peregrinação. Milhares e milhares de pessoas rezavam, depositavam flores e ascendiam velas no local do assassinato do padre Jorge. No dia 6 de Novembro de 1984, nesse lugar, foi levantada uma grande cruz, aí colocada pelos paroquianos de Bydgoszcz. Ao lugar onde foi sepultado, começaram a chegar multidões de peregrinos que, em fila, tinham de esperar várias horas para poderem rezar junto do seu túmulo. Muitas pessoas rezam ao Senhor por intercessão do Padre Jorge Popieluszko e, muitos, recebem graças especiais.
O Presidente Lech Kaczyński decidiu homenagear o Padre Popiełuszko, a título póstumo, com a mais alta condecoração polaca: a Ordem da Águia Branca.
No dia 6 de Junho de 2010, em Varsóvia, o Padre Jorge Popieluszko foi beatificado numa celebração presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, em representação do Papa Bento XVI. Uma semana depois, dia 13 de Junho, o Papa, na Audiência-Geral, em Roma, lembrando o testemunho de vida do Padre Popieluszko, disse: “…Exerceu o seu generoso e corajoso ministério junto de todos os que se empenhavam em favor da liberdade, a defesa da vida e da sua dignidade. Essa sua acção ao serviço do bem e da verdade era um sinal de contradição para o regime que então governava a Polónia. Foi o amor do Coração de Cristo que o levou a dar a vida, e o seu testemunho foi semente de uma nova primavera na Igreja e na sociedade…”.
A memória litúrgica do Beato Jorge Popieluszko celebra-se no dia 19 de Outubro.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
EM DESTAQUE
A valorização da mulher, dos mais velhos e das pessoas com deficiência na família, contra “formas impiedosas de estigma e preconceito”, são outros temas em destaque, abordando-se também a crise demográfica e a “revolução biotecnológica” no campo da procriação, bem como o número de “abortos e esterilizações forçadas”.
O “Evangelho da Família, que inclui a defesa da “indissolubilidade” do Matrimónio, é proposto como um “ideal de vida”, apesar de todas as dificuldades sociais e culturais, para comunicar "a esperança".
Representam Portugal o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e o Bispo de Portalegre e Castelo Branco, D. Antonino Dias.
Na Eucaristia que abriu o Sínodo, o Papa francisco disse: “…Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade. A Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade ao seu Mestre como voz que grita no deserto, para defender o amor fiel e encorajar as inúmeras famílias que vivem o seu matrimónio como um espaço onde se manifesta o amor divino; para defender a sacralidade da vida, de toda a vida; para defender a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da capacidade que o homem tem de amar seriamente.
A Igreja é chamada a viver a sua missão na verdade que não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes. A verdade que protege o homem e a humanidade das tentações da auto-referencialidade e de transformar o amor fecundo em egoísmo estéril, a união fiel em ligações temporárias. «Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 3).
E a Igreja é chamada a viver a sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas – fiel à sua natureza de mãe – sente-se no dever de procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia; de ser «hospital de campanha», com as portas abertas para acolher todo aquele que bate pedindo ajuda e apoio; e mais, de sair do próprio redil ao encontro dos outros com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para a integrar e conduzir à fonte de salvação.
Uma Igreja que ensina e defende os valores fundamentais, sem esquecer que «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Mc 2, 27); e sem esquecer que Jesus disse também: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17). Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida…” (cf. Ecclesia e News.va)
Em 29 de Junho de 2008, o Padre João Evangelista Pimentel Lavrador, sacerdote do presbitério da diocese de Coimbra, era ordenado Bispo e enviado pelo Papa Bento XVI a servir a Igreja do Porto. Aqui trabalhou generosamente ao longo destes sete anos. Deus conhece todo o bem que aqui realizou numa entrega alegre, serena e feliz à missão.
Sabemos bem como foi importante para toda a diocese, para as comunidades paroquiais, para os movimentos apostólicos, para os serviços pastorais e para os secretariados diocesanos a sua presença no Porto, a sua palavra evangelizadora, o seu conselho prudente e o seu trabalho incansável.
Os leigos, os consagrados, os diáconos e os sacerdotes guardarão sempre a memória viva da sua proximidade fraterna e do seu testemunho episcopal.
É do Porto que, hoje, 29 de Setembro de 2015, o Papa Francisco chama o Sr. D. João para o enviar a servir a Igreja dos Açores, como Bispo Coadjutor da Diocese de Angra.
A disponibilidade diante da nova missão afirma e renova a comunhão com o Sucessor de Pedro, o Papa Francisco, a quem compete dar a cada Igreja os servidores de que, em cada momento, precisam. Assim cumpre, também, o desígnio de liberdade interior expresso no lema episcopal que escolheu para o seu ministério e que diariamente o convida a assumir como dirigidas a si as palavras de Jesus a Pedro: “Tu segue-ME” (Jo. 21, 22).
A Igreja do Porto acompanhará o senhor D. João com alegria, a Alegria do Evangelho, nossa missão; com amizade, a amizade que dele sempre recebeu; com gratidão, a gratidão que todos lhe devemos. A Igreja do Porto sentir-se-á, a partir de agora, mais unida na comunhão da oração e do afecto espiritual à Igreja dos Açores.
Quero, em nome da Igreja do Porto e em comunhão com todos os Bispos com quem o senhor D. João partilhou o ministério episcopal e a solicitude pastoral, dizer-lhe esta palavra fraterna e este testemunho agradecido.
Confiamos o senhor D. João ao Divino Salvador, Redentor do Mundo, padroeiro da sua Catedral e invocado na sua diocese como o Senhor Santo Cristo, para que seja sempre, nos Açores, Pastor segundo o Coração de Cristo, o Bom Pastor, como sempre o soube ser no Porto.
(cf. Diocese do Porto)
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
A audiência de hoje será em dois lugares: aqui na praça e também na sala Paulo VI, onde se encontram numerosos doentes que a seguem através de um grande ecrã. Visto que o tempo está um pouco mau, preferimos que eles ficassem abrigados e mais tranquilos ali. Unamo-nos uns aos outros e saudemo-nos!
Em Nova Iorque pude visitar a Sede central da ONU e saudar os funcionários que aí trabalham. Dialoguei com o Secretário-Geral e com os Presidentes das últimas Assembleias Gerais e do Conselho de Segurança. Dirigindo-me aos Representantes das Nações, no sulco dos meus Predecessores, renovei o encorajamento da Igreja católica àquela Instituição e ao papel que desempenha na promoção do desenvolvimento e da paz, evocando de modo particular a necessidade do compromisso concorde e concreto no cuidado da criação. Reiterei também o apelo a pôr fim e a prevenir as violências contra as minorias étnicas e religiosas, e contra as populações civis.
Pela paz e pela fraternidade pudemos rezar no Memorial do Ground Zero, juntamente com os representantes das religiões, com os parentes de numerosas vítimas e com a população de Nova Iorque, tão rica de variedades culturais. E no Madison Square Garden celebrei a Eucaristia pela paz e pela justiça.
Tanto em Washington como em Nova Iorque pude encontrar-me com algumas realidades caritativas e educativas, emblemáticas do enorme serviço que as comunidades católicas — sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos — oferecem nestes campos.
O apogeu da viagem foi o Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, onde o horizonte se ampliou para o mundo inteiro, através do «prisma», por assim dizer, da família. A família, ou seja, a aliança fecunda entre o homem e a mulher, é a resposta ao grande desafio do nosso mundo, que constitui um duplo desafio: a fragmentação e a massificação, dois extremos que convivem e que se sustêm reciprocamente e, ao mesmo tempo, apoiam o modelo económico consumista. A família é a resposta porque representa a célula de uma sociedade que equilibra as dimensões pessoal e comunitária, e que ao mesmo tempo pode ser o modelo de uma gestão sustentável dos bens e dos recursos da criação. A família é a protagonista de uma ecologia integral, porque constitui o sujeito social primário, que contém no seu interior os dois princípios-base da civilização humana sobre a terra: o princípio de comunhão e o princípio de fecundidade. O humanismo bíblico apresenta-nos este ícone: o casal humano, unido e fecundo, posto por Deus no jardim do mundo, para o cultivar e preservar.
PARA REZAR
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.
no íntimo do teu lar;
teus filhos como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.
De Sião o Senhor te abençoe:
vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida;
e possas ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel.
SANTOS POPULARES
Os primeiros anos de Bruno parecem ter sido vividos em Colónia; depois mudou-se para Reims, em França. Fez os seus primeiros estudos em Colónia, possivelmente na Escola Capitular de S. Cuniberto, da qual, mais tarde, veio a ser Cónego Honorário.
Ainda jovem, Bruno chegou a Reims. As escolas de Reims, sobretudo a Escola Catedral, tinham muita fama havia já alguns séculos, atraindo a si estudantes de toda a Europa. Gerbert, que um dia seria o Papa Silvestre II, tinha sido seu Reitor, entre 979 e 990, iluminando-a com o seu verdadeiro génio. Quando Bruno chegou, as escolas de Reims estavam no seu apogeu.
Em 1049 - Bruno era ainda estudante - aconteceu algo que marcaria para sempre o seu carácter: o Papa Leão IX, no contexto da sua reforma eclesial, convocou um Concílio, em Reims, que teve início no dia 3 de Outubro, com a presença do Papa Leão IX. O Concílio e o Sumo Pontífice empreendem, sobretudo, uma acção contra a simonia (compra e venda das coisas sagradas), promoção escandalosa de bispos, abades e beneficiados que permitia também a intromissão de “leigos” nos lugares, bens e assuntos da Igreja. O Papa e o Concílio depuseram e excomungaram alguns deles.
Em tempo de estudo e formação, ao despertar para a vida de acção, Bruno foi confrontado com esta realidade eclesial, através do Concílio. Profundamente religioso e recto, penetrado do espírito nobre da Sagrada Escritura e dos grandes princípios da Fé, reflectindo a situação da Igreja e a necessidade de reforma, Bruno depressa sintonizou com os sentimentos do Concílio de Reims neste esforço. Ele próprio, um dia, entraria na “luta” a que a necessidade de reforma das estruturas daria ocasião.
Entretanto, Bruno passou longos anos em Reims: primeiramente como estudante; depois, como professor e Mestre da Escola Catedral e, depois, acumulando com a sua nomeação para membro do Cabido da Catedral e seu Chanceler.
Entretanto, a reputação de Bruno era excelente e, em 1056, substituindo Mestre Hérimann, foi nomeado Mestre da Escola de Reims. O agora Mestre Bruno teria, nesta altura, cerca de 28 anos de idade o que, a priori, faz sobressair as suas qualidades de estudante e de professor. Os testemunhos dos contemporâneos de Bruno atestam isso mesmo; Guibert de Nogent afirmou ter sido Bruno ‘um magnífico professor da Escola da Catedral de Reims’.
O Arcebispo Gervais, que o tinha escolhido e nomeado, morreu, em 1067, com fama de santidade. Sucedeu-lhe Manassés de Gournay, com o nome de Manassés I. Foi um Arcebispo que Reims não nunca poderá esquecer e que esteve profundamente relacionado com a evolução da vida e da vocação Bruno. Manassés só foi ordenado Bispo de Reims, em 1068 ou 1069, apesar do seu antecessor ter falecido já em 1067. A história do Arcebispo Manassés I de Reims não é simples. Tendo comprado a Sede de Reims, em cumplicidade com o Rei de França, Filipe I, começou por administrar a Diocese de forma tranquila, o que fazia esperar uma governação normal. Homem nobre, Manassés carecia, contudo, do equilíbrio necessário para proceder com rectidão. O Arcebispo era um ‘homem de armas’, que esquecia o seu estado clerical. A tradição consagrou uma frase que lhe é atribuída: “Reims seria um bom bispado se não se tivesse de cantar missa”.
É no contexto da Reforma Gregoriana que se inicia a grande luta com o Arcebispo Manassés. De um lado, vai estar o Papa Gregório VII, o seu Legado em França, Hugues de Die, e os Cónegos de Reims; do outro, vai estar o Arcebispo Manassés. Em 27 de Dezembro de 1080, o Papa Gregório VII depôs o Arcebispo Manassés que, segundo a tradição, se refugiou junto de Henrique IV, o excomungado Imperador da Alemanha. Entretanto, e findo o processo da deposição do Arcebispo Manassés, que trouxe nova paz à Igreja de Reims, foi dada ao Clero desta diocese a missão de eleger um novo Arcebispo. É no contexto da eleição do novo Arcebispo que as atenções se voltam para o discreto Mestre Bruno a quem, apesar da sua discrição e modéstia, os acontecimentos puseram em evidência. E, mesmo não tendo voltado a exercer os seus cargos de Mestre-Escola ou de Chanceler, caíram sobre ele os olhares de toda a Igreja de Reims. Mestre Bruno, contudo, recusou a nomeação. Começou, então, um novo período na vida de Bruno: decidiu romper com todos os laços do mundo e consagrar-se inteiramente a Deus, na solidão. A solidão não foi, para Bruno, um desterro, mas a plenitude da fé viva e da caridade. Numa data que não se pode indicar com grande precisão, mas que se situará entre 1081 e 1083, Bruno deixou Reims. Dirigiu-se, com dois companheiros, Pedro e Lamberto, para Troyes. Aí perto, em Molesmes, existia uma Abadia Beneditina, para a qual Bruno e seus companheiros se dirigiram. O seu Abade era Roberto de Molesmes.
Foi em terrenos cedidos por esta Abadia que Bruno e os seus companheiros se instalaram: um local denominado Séche-Fontaine, que ficava localizado na floresta de Fiel, a uns 40 Kms a sudeste de Troyes e a 8 Kms do Mosteiro de Molesmes. Aí viveram - segundo uma Carta de Molesmes, que relata o início da experiência de Séche-Fontaine - uma vida verdadeiramente eremítica. Esta seria, contudo, uma breve etapa no itinerário espiritual de Bruno.
Pouco tempo depois, Pedro e Lamberto escolheram ir viver para um mosteiro. Bruno partiu, então, para Grenoble. A data da sua chegada à Chartreuse (montanhas junto de Grenoble) está fixada com precisão: Junho de 1084, por ocasião da Festa de S. João Baptista; a biografia de S. Hugo, Bispo de Grenoble, escrita por Guigo I (+ 1136), contém a narração da entrada de Mestre Bruno e dos seus novos companheiros no vale de Chartreuse.
O local agora escolhido situa-se a 1175 metros de altitude, no fundo de um estreito vale, no coração do maciço da Chartreuse, uma região montanhosa e de difícil acesso, de rigorosos nevões de inverno. Em todas essas características e circunstâncias, Bruno vai encontrar francas vantagens. No fundo, Bruno procura a solidão, uma vida estritamente eremítica, e essas circunstâncias favorecem-na. O acesso ao local é feito por uma estreita garganta, entre desfiladeiros, que isola o vale. Verdadeiramente esta era a ‘porta’ da clausura.
A Cartuxa, com os seus eremitérios, vai ser construída ainda mais acima, a cerca de quatro quilómetros desta ‘porta’. Os novos eremitas vão, desde logo, ocupar-se da construção da Igreja e das celas, bem como pôr em prática uma observância concreta e muito rigorosa. A construção do primeiro Mosteiro iniciou-se no Verão de 1084. Esta construção resistiria até 1132, quando uma avalanche destruiu o Mosteiro, matando sete monges. Era, então, Prior do Mosteiro Guigo I que mandou construir outro Mosteiro, mais abaixo, cerca de uns dois quilómetros e num local menos propício a gelos e avalanches. As celas dos eremitas foram agrupadas ao redor de uma fonte que, ainda hoje, alimenta o actual Mosteiro da Cartuxa. As primeiras celas foram construídas com troncos de madeira, à maneira das cabanas dos pastores ou lenhadores. No primitivo Mosteiro apenas a Igreja foi construída em pedra. Foi consagrada pelo Bispo Hugo de Grenoble em 2 de Setembro de 1085 e dedicada à Santíssima Virgem e a São João Baptista. Mais tarde, as celas foram edificadas ao longo de um Claustro, muito semelhante ao dos Mosteiros Cenobitas, mas cujo papel, contudo, é diferente. A razão de ser desta distribuição tem a ver com a própria protecção do rigoroso clima. As celas, ligadas pelo dito Claustro, estão ligadas também pelo mesmo Claustro à Igreja do Mosteiro.
Os monges cartuxos recitam uma parte dos seus ofícios na solidão da cela e não se reúnem senão para Vésperas e Matinas. É, também, na cela que permanecem em oração, estudam, lêem e fazem os seus trabalhos manuais. As refeições são feitas, igualmente, de forma solitária, com a excepção do domingo e festas, em que são realizadas num refeitório comum. Nas circunstâncias que exigem uma liturgia mais solene, a oração é feita em comum. Os trabalhos necessários à subsistência da comunidade eram realizados por conversos (irmãos leigos) que se instalaram um pouco mais abaixo, mas ainda dentro da clausura.
No Ocidente cristão, esta forma de vida religiosa é uma total novidade. A sua inspiração alimenta-se especificamente nos Padres do Deserto, do Oriente. Um dos primeiros dados que sobressai quando se olha para este género de vida é que ele não tem nada em comum com o tipo de vida eremítica de um mosteiro cenobítico. Bruno desejava uma vida eremítica pura, em estrita solidão, ainda que temperada com alguma vida comunitária. A especificidade desta experiência monástica faz com que a vida comunitária não seja habitual.
Depois de algum tempo ao serviço do Papa Urbano II, em Roma, Bruno retirou-se para o Sul de Itália, para a região de Calábria. O lugar onde se instalou chamava-se ‘Santa Maria da Torre’ e era um enorme “deserto”, situado a 850 metros de altitude, um planalto não habitado, rodeado de colinas e florestas que, em certa medida, fazia lembrar a Chartreuse.
Bruno faleceu, com fama de sanato, no dia 6 de Outubro de 1101, com pouco mais de 70 anos, após ter pronunciado a sua “Profissão de Fé”: "Eu creio nos Santos Sacramentos da Igreja Católica, em particular, creio que o pão e o vinho consagrados, na Santa Missa, são o Corpo e o Sangue, verdadeiros, de Jesus Cristo". A população da Calábria tinha tão grande respeito e veneração por Bruno que os Monges tiveram de deixar, durante três dias, o seu corpo em exposição, para sentida homenagem que o povo lhe queria prestar.
Em 1514, o Papa Leão X autorizou que os monges cartuxos celebrassem o culto de São Bruno. Em 1623, o Papa Gregório XV estendeu o culto de São Bruno a toda a Igreja. A sua memória litúrgica faz-se no dia 6 de Outubro.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
EM DESTAQUE
Durante o anterior ano pastoral, Deus chamou ao Seu encontro os sacerdotes do nosso Presbitério: António de Almeida Garrido, António José Pacheco Gonçalves, António Alves Roriz, José Maria de Sousa Barbosa e Manuel Agostinho Pereira de Moura.
Queremos igualmente lembrar e trazer à nossa oração os sacerdotes das Congregações Religiosas que aqui trabalharam e aqui faleceram neste último ano: Padres Alberto Moreira (OFM), Pedro António Pinto (CM), Joaquim Monteiro (OFM.Cap) e Manuel dos Santos Neves (SMBN).
Venho, deste modo e com este sentido de memória e de gratidão, convidar toda a Igreja Diocesana, para a celebração da Eucaristia, na Sé Catedral, no próximo dia 29 de Setembro, às 19 horas. Esta hora de acção de graças é, também, hora de confiança no futuro e de esperança vocacional, certos e crentes que estamos de que o grão de trigo lançado à terra germinará a seu tempo e se transformará em colheita abundante. Sempre que acompanho um sacerdote no momento de encontro definitivo com Deus rezo e confio que novas vocações hão-de surgir neste chão fecundo da nossa Diocese, semeado pela vida e pelo testemunho dos sacerdotes de ontem e de hoje.
Junto de Deus, aqueles que partem continuarão a ser para todos nós uma presença e uma bênção.
Porto, 21 de setembro de 2015
(cf. Diocese do Porto)
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
Mas eles, por sua vez, souberam mostrar-me a outra face deste atentado, a outra face da sua angústia: o poder do amor e da recordação. Uma recordação que não nos deixa vazios. Os nomes de tantas pessoas queridas encontram-se escritos aqui, onde estavam as bases das torres; e, assim, podemos vê-los, tocá-los e nunca mais esquecê-los.
Aqui, no meio duma angústia lancinante, podemos palpar a bondade heróica de que também é capaz o ser humano, a força escondida a que sempre devemos recorrer. No momento de maior angústia, sofrimento, fostes testemunhas dos maiores actos de dedicação e de ajuda. Mãos estendidas, vidas oferecidas. Numa metrópole que pode parecer impessoal, anónima, de grandes solidões, fostes capazes de mostrar a poderosa solidariedade da ajuda mútua, do amor e do sacrifício pessoal. Naquele momento, não era uma questão de sangue, de origem, de bairro, de religião ou de opção política; era questão de solidariedade, de emergência, de fraternidade. Era questão de humanidade. Os bombeiros de Nova Iorque entraram nas torres que estavam a ruir sem dar muita atenção à sua própria vida. Muitos caíram em serviço e, com o seu sacrifício, salvaram a vida de muitos outros.
E este lugar de morte transforma-se também num lugar de vida, de vidas salvas, numa canção que nos leva a afirmar que a vida está destinada sempre a triunfar sobre os profetas da destruição, sobre a morte, que o bem prevalece sempre sobre o mal, que a reconciliação e a unidade sairão vencedores sobre o ódio e a divisão.
Neste lugar de angústia e recordação, enche-me de esperança a oportunidade de me associar aos líderes que representam as numerosas religiões que enriquecem a vida desta cidade. Espero que a nossa presença aqui seja um sinal vigoroso das nossas vontades de compartilhar e reiterar o desejo de sermos forças de reconciliação, forças de paz e justiça nesta comunidade e em todo o mundo. Apesar das diferenças, das discrepâncias, é possível viver um mundo de paz. Perante qualquer tentativa de uniformizar, é possível e necessário que nos reunamos, das diferentes línguas, culturas, religiões, para dar voz a tudo aquilo que o quer impedir. Juntos, hoje, somos convidados a dizer «não» a qualquer tentativa de uniformização e «sim» a uma diferença acolhida e reconciliada.
E, com tal finalidade, precisamos de banir os nossos sentimentos de ódio, vingança, rancor. Mas sabemos que isto só é possível como dom do Céu. Aqui, neste lugar da memória, proponho a cada um de vós que faça, à sua maneira mas juntos, um momento de silêncio e oração. Peçamos ao Céu o dom de nos comprometermos pela causa da paz. Paz nas nossas casas, nas nossas famílias, nas nossas escolas, nas nossas comunidades. Paz naqueles lugares onde a guerra parece não ter fim. Paz naqueles rostos que nada mais conheceram senão angústia. Paz neste vasto mundo que Deus nos deu como casa de todos e para todos. Somente, paz. Rezemos em silêncio.
PARA REZAR
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.
e permanece eternamente;
Os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.
e os observe com cuidado,
quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros?
Purificai-me dos que me são ocultos.
para que não tenha poder algum sobre mim:
então serei irrepreensível
e imune de culpa grave.
SANTOS POPULARES
Em 382 transferiu-se para Roma: aqui o Papa Dâmaso, conhecendo a sua fama de asceta e a sua competência de estudioso, assumiu-o como secretário e conselheiro; encorajou-o a empreender uma nova tradução latina dos textos bíblicos por motivos pastorais e culturais. Algumas pessoas da aristocracia romana, sobretudo fidalgas como Paula, Marcela, Asella, Lea e outras, desejosas de se empenharem no caminho da perfeição cristã e de aprofundarem o seu conhecimento da Palavra de Deus, escolheram-no como sua guia espiritual e mestre na abordagem metódica aos textos sagrados. Estas fidalgas aprenderam também grego e hebraico.
Depois da morte do Papa Dâmaso, Jerónimo deixou Roma em 385, e empreendeu uma peregrinação, primeiro à Terra Santa, testemunha silenciosa da vida terrena de Cristo, depois ao Egipto, terra de eleição de muitos monges (cf. Contra Rufinum 3, 22; Ep. 108, 6-14). Em 386 permaneceu em Belém onde, por generosidade da fidalga Paula, foram construídos um mosteiro masculino, um feminino e uma estalagem para os peregrinos que iam à Terra Santa, "pensando que Maria e José não tinham encontrado onde repousar" (Ep. 108, 14). Permaneceu em Belém até à morte, continuando a desempenhar uma intensa actividade: comentou a Palavra de Deus; defendeu a fé, opondo-se vigorosamente a várias heresias; exortou os monges à perfeição; ensinou a cultura clássica e cristã a jovens alunos; acolheu com alma pastoral os peregrinos que visitavam a Terra Santa. Faleceu na sua cela, perto da gruta da Natividade, a 30 de Setembro de 419/420.
A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, dos Setenta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata", o texto "oficial" da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto "oficial" da Igreja de língua latina. É interessante ressaltar os critérios aos quais o grande biblista se ateve na sua obra de tradutor. Revela-o ele mesmo quando afirma respeitar até a ordem das palavras das Sagradas Escrituras, porque nelas, diz, "até a ordem das palavras é um mistério" (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação. Reafirma ainda a necessidade de recorrer aos textos originários: "Quando surge um debate entre os Latinos sobre o Novo Testamento, para as relações discordantes dos manuscritos, recorremos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Do mesmo modo para o Antigo Testamento, se existem divergências entre os textos gregos e latinos, apelamos ao texto original, o hebraico; assim tudo o que brota da nascente, podemo-lo encontrar nos ribeiros" (Ep. 106, 2). Além disso, Jerónimo comentou também muitos textos bíblicos. Para ele os comentários devem oferecer numerosas opiniões, "de modo que o leitor cauteloso, depois de ter lido as diversas explicações e conhecido numerosas opiniões para aceitar ou rejeitar julgue qual seja a mais fidedigna e, como um perito de câmbios, rejeite a moeda falsa" (Contra Rufinum 1, 16).
Contestou enérgica e vivazmente os hereges que recusavam a tradição e a fé da Igreja. Demonstrou também a importância e a validade da literatura cristã, que se tornou uma verdadeira cultura já digna de ser posta em confronto com a clássica: fê-lo compondo o De viris illustribus, uma obra na qual Jerónimo apresenta as biografias de mais de uma centena de autores cristãos. Escreveu também biografias de monges, ilustrando ao lado de outros percursos espirituais também o ideal monástico; traduziu também várias obras de autores gregos. Por fim, no importante Epistolário, uma obra-prima da literatura latina, Jerónimo sobressai com as suas características de homem culto, de asceta e de guia das almas.
Que podemos nós aprender de São Jerónimo? Sobretudo, penso, o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Diz São Jerónimo: "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo". Por isso é importante que cada cristão viva em contacto e em diálogo pessoal com a palavra de Deus, que nos é dada na Sagrada Escritura. Este nosso diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve ser um diálogo realmente pessoal, porque Deus fala com cada um de nós através da Sagrada Escritura e cada um tem uma mensagem. Devemos ler a Sagrada Escritura não como palavra do passado, mas como Palavra de Deus que se dirige também a nós e procurar compreender o que o Senhor nos quer dizer. Mas para não cair no individualismo devemos ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para nos unir na verdade no nosso caminho para Deus. Portanto, ela, mesmo sendo sempre uma palavra pessoal, é também uma Palavra que constrói comunidade, que constrói a Igreja. Por isso, devemos lê-la em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a liturgia, na qual, celebrando a Palavra e tornando presente no Sacramento o Corpo de Cristo, actualizamos a Palavra na nossa vida e tornámo-la presente entre nós. Nunca devemos esquecer que a Palavra de Deus transcende os tempos. As opiniões humanas vão e voltam. O que hoje é muito moderno, amanhã será velho. A Palavra de Deus, ao contrário, é Palavra de vida eterna, tem em si a eternidade, ou seja, é válida para sempre. Trazendo em nós a Palavra de Deus, trazemos também em nós o eterno, a vida eterna.
E concluo com uma palavra de São Jerónimo a São Paulino de Nola. Nela o grande exegeta expressa precisamente esta realidade, isto é, que na Palavra de Deus recebemos a eternidade, a vida eterna. Diz São Jerónimo: "Procuremos aprender na terra aquelas verdades cuja consistência persistirá também no céu" (Ep. 53, 10). (cf. Santa Sé)
A memória litúrgica de São Jerónimo celebra-se no dia 30 de Setembro





















