PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- do discurso aos Movimentos Populares reunidos na Bolívia, em Santa Cruz – Expo Feira, 9 de Julho de 2015

Boa tarde a todos!
Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.
Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.
Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, tecto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.

1. Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas que têm uma matriz global e que actualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem tecto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada actividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.
Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.
Hoje quero reflectir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.

O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecónomico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crónica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.
Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, tecto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!

2. Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».
Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem tecto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstracta ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita acção comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um ‘plus’ de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.

Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência activa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas actividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, tecto e trabalho.
Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade sectorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.
Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adoptar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem tecto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.

3. Por último, gostaria que reflectíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflicta este projecto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.

Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:

3.1 A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.

Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.
A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos». Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de actividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».
Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo». Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objectivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos económicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projecto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afecta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.
Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.
Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!
Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, activam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.

3.2 A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.

Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efectivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afectam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência».
Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.
Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.
Apesar destes avanços, ainda subsistem factores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anónimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações». Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma acção internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.
Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adopta o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interacção dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos económicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode actuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interacção não é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.
Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.
Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas acções da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos». E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América.

Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.
Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.

3.3 A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.

A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se, uma após outra, cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de actuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adopção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4. Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem tecto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim. (cf. Radiovaticano)

PARA REZAR



SALMO 84

 

Refrão: Mostrai-nos o vosso amor; dai-nos a vossa salvação.

 

Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis

e a quantos de coração a Ele se convertem.

A sua salvação está perto dos que O temem

e a sua glória habitará na nossa terra.

 

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,

abraçaram-se a paz e a justiça.

A fidelidade vai germinar da terra

e a justiça descerá do Céu.

 

O Senhor dará ainda o que é bom,

e a nossa terra produzirá os seus frutos.

A justiça caminhará à sua frente

e a paz seguirá os seus passos.

SANTOS POPULARES


BEATA ANA MARIA JAVOUHEY

Ana Maria Javouhey nasceu em Jallongers, região vinícola da Borgonha, no dia 10 de Novembro de 1779, numa família profundamente católica. Pouco depois, a família transferiu-se para Chamblanc.
Certa noite, em 1791, em plena Revolução Francesa, um sacerdote não juramentado [Em Janeiro de 1791, começou a vigorar, em França, a chamada “Constituição Civil do Clero”, que obrigava os sacerdotes a prestar um juramento cismático de obediência àquela constituição, sob pena de prisão ou mesmo de morte. NR ] bateu na porta: “Pediram-me para assistir a um doente e não conheço o caminho”. Ana, intrépida, ofereceu-se para o acompanhar. Pelo caminho, o sacerdote explicou-lhe a importância e a necessidade de se permanecer fiel à Igreja de Roma. A partir desse momento, e com a colaboração da sua família, Ana passou a organizar cerimónias clandestinas e a esconder sacerdotes perseguidos pelos revolucionários.
Em 1798, com dezanove anos, consagrou-se definitivamente a Deus. Em 1800, o pároco de Chamblanc convenceu Baltasar Javouhey a deixar a filha entrar na Congregação das Irmãs da Caridade de Besançon. Nessa altura, era Superiora e Mestra das Noviças a própria fundadora, a Irmã Joana Antide Thouret, religiosa de grande valor, que foi declarada Santa.
Foi ali que, num estranho sonho, Ana viu-se rodeada de muitas pessoas - na maioria crianças - de todas as cores e sobretudo negras, e ouviu uma voz que dizia: “São os filhos que Deus te dá… Sou Santa Teresa. Serei a protectora da tua Ordem”.
Vendo que a sua vocação era outra, Ana saiu de Besançon e voltou a dar aulas na sua terra. Começaram a segui-la, com o mesmo ideal de vida religiosa, não só as suas irmãs (com 16, 14 e 11 anos), mas também outras jovens.
Em 1802, um encontro providencial com D. Augustin de Lestrange, restaurador da Ordem dos Trapistas, em França, levou Ana a encaminhar-se para a Trapa. Mais uma vez, os seus directores e ela perceberam que não seria aquela a sua vocação. Mas, os poucos meses de permanência no Convento, permitiram-lhe receber uma sólida formação na vida religiosa. Depois de várias tentativas de criar escolas na região do Jura, Ana Maria regressou à casa paterna para estabelecer a sua obra educativa. Em Chamblanc, continuou as suas actividades apostólicas nas aldeias com as suas irmãs e outras jovens.
Na Páscoa de 1805, regressando a Roma após a sagração de Napoleão, o Papa Pio VII ficou uns dias em Châlon-sur-Saône, a poucos quilómetros de Chamblanc. Ana e as suas amigas assistiram à Missa do Papa, na Igreja de São Pedro; comungaram da sua mão e, no fim, são recebidas em audiência privada. A jovem expõe ao Santo Padre os seus projectos. O Papa Pio VII, ao abençoar Ana, disse-lhe: “Coragem, minha filha! Deus fará, por meio de ti, grandes coisas para a Sua glória”.
Na vigília da Assunção de 1805, Ana fixou-se em Châlon-sur-Saône. A Câmara Municipal ofereceu-lhe parte do antigo Seminário Maior desocupado, mobília e subsídios para a obra de educação da juventude.
No dia 12 de Maio de 1807, o novo Bispo de Autun presidiu à cerimónia de consagração das jovens, na Igreja de São Pedro. Aos votos religiosos de pobreza, obediência e castidade, juntaram um 4° voto: o de se dedicarem à educação da juventude. Naquela mesma tarde, o Bispo reuniu as religiosas em capítulo e presidiu à eleição da Superiora-Geral. Os votos recaíram sobre a Irmã Ana Maria.
Em Janeiro de 1812, a Madre Ana Maria viu um anúncio que dizia estar à venda o antigo convento dos recoletos, em Cluny. Recorreu, então, ao seu pai, que se deixou convencer e adquiriu a propriedade; ali se instalam as monjas, convertendo-se na Congregação de São José de Cluny. A princípio, a dimensão missionária da Congregação parecia não ter sido prevista pela fundadora. Mas, apesar das dificuldades, a Madre Ana Maria conseguiu abrir uma escola em Paris.
Em 1816, o intendente da Ilha Bourbon (actual Ilha da Reunião) fez-lhe uma visita e pediu que enviasse algumas monjas para a Ilha, acrescentando que ela era povoada “de brancos, mulatos e negros”. Diante destas palavras, a Madre sobressaltou-se, recordando a profecia de Besançon. Pouco tempo depois, o Ministro do Interior pedia-lhe, também, monjas para as possessões da França no ultramar. As suas perspectivas missionárias levam-na a aceitar tudo.
Em 10 de Janeiro de 1817, partiram de Rochefort, a bordo do “Eléphant” - um barco da marinha mercante - quatro novas professas. A viagem do grande veleiro durou cinco meses e 18 dias, fazendo escala no Rio de Janeiro. Foi a primeira aventura missionária da Congregação de São José de Cluny.
No início de 1819, um contingente de sete religiosas embarcou para o Senegal. Porém, neste local, o hospital - que as irmãs deveriam administrar - encontrava-se num estado lamentável; a cidade não tinha igreja; a catequização estava apenas a começar. As monjas desanimam…
Então, a própria Madre Ana Maria partiu para o Senegal, em 1822. Persuadida de que os negros se sentem inclinados à religião por natureza, afirmou: “Somente a religião pode proporcionar a este povo princípios, conhecimentos sólidos e sem perigo, porque as suas leis e os seus dogmas não só reformam os vícios grosseiros e externos, mas também são capazes de mudar o coração. Dê solenidade à religião, para que a pompa do culto os atraia e que o respeito os retenha, e em seguida, a face deste país terá mudado”.
Por outro lado, ela percebeu que a África tinha vocação agrícola. Em finais de 1823, ela fundou uma granja-escola, em Dagana, o que lhe permitiu manter relações com a população. Em seguida, chamam-na para a Gâmbia; depois de Serra Leoa, onde se encarregou dos hospitais.
Entretanto, chegam-lhe cartas de França pedindo-lhe para voltar. Em Fevereiro de 1824, regressou a França, depois de ter assentado as bases de uma obra perseverante para a civilização e a cristianização da África.
Em França, a revolução de Julho de 1830 gerou profundas transformações políticas, pouco favoráveis à religião católica. E foi diminuindo o apoio económico do governo às obras da Madre Ana Maria. Contudo, ela prosseguiu o seu trabalho, organizando de tal forma a gestão dos seus centros que conseguiram resistir às dificuldades. Em 1833, fundou um leprosário próximo de Mana, na Guiana Francesa.
Em finais de Abril de 1835, Mons. d’Héricourt, à época Bispo de Autun, impõe à Congregação novos estatutos que modificam os antigos e, segundo os quais, ele se convertia no superior-geral das Irmãs. Mas, a Madre Ana Maria escreveu ao bispo comunicando-lhe que manteria os estatutos de 1827.
Por essa altura, começou a ser debatida a questão da escravatura. Em 18 de Setembro de 1835, uma ordem ministerial confiou, oficialmente, à Madre a missão de reflectir e de combater a realidade triste da escravização nas possessões francesas. O próprio rei, Luís Felipe, recebeu-a, várias vezes, debatendo com ela o plano relativo à emancipação dos negros.
À sua chegada à Guiana, em Fevereiro de 1836, a Madre Ana Maria encarregou-se de cerca de quinhentos escravos negros, libertados dos negreiros. A sua pedagogia não consistia em recorrer à força, mas em educar com doçura, paciência e persuasão. Ela mesma escreveu: “Instalei-me como uma mãe no meio da sua numerosa família”.
Apesar de todas as dificuldades, dois anos depois, um certo espírito de ordem e de sobriedade reinava em Mana. Em 21 de Maio de 1838, a Madre presidiu a emancipação de cento e cinco escravos.
Contudo, a oposição do Bispo de Autun perseguiu-a até à Guiana. Em 16 de Abril de 1842, a fundadora escreveu que o Bispo de Autun “proibiu que o prefeito apostólico me administrasse os sacramentos, a menos que o reconheça como superior-geral da congregação. Eu perdoo-lhe de todo coração, pelo amor de Deus”.
O sofrimento intenso provocado por esta situação durou dois anos. O sofrimento agravou-se com a circulação de panfletos infamatórios contra a madre. No momento em que as suas Irmãs se aproximavam da Santa Eucaristia, e ela estava privada de o fazer, eram abundantes as lágrimas que derramava.
Em 28 de Agosto de 1845, tendo voltado para a França, a Madre Ana Maria foi a Cluny onde, com grande serenidade, falou às suas filhas, deixando-as livres para escolher entre ela e o bispo. Das oitenta jovens, somente sete se recusaram a segui-la.
Finalmente, o Bispo de Autun reconheceu estar errado na sua posição e, em 15 de Janeiro de 1846, chegou a um acordo com a madre.
No início de 1851, a saúde da Madre Ana Maria decaiu bastante e, no mês de Maio, teve de permanecer de cama. No dia 8 de Julho, tomou conhecimento da deposição do Bispo de Autun. Uns dias depois, ela afirmou: “Devemos considerá-lo como um dos nossos benfeitores. Deus serviu-se dele para nos enviar momentos de tribulação, numa altura em que, ao nosso redor, só ouvíamos elogios. Isto foi necessário porque, com o êxito que a nossa congregação tinha alcançado, corríamos o risco de nos julgarmos importantes se não tivéssemos sofrido essas penalidades e contradições”.
A Madre Ana Maria Javouhey faleceu pouco tempo depois, no dia 15 de Julho de 1851, na actual Casa-Mãe, em Paris. Tinha 71 anos de idade, 44 de generalato e 14 anos passados em terras longínquas, tendo percorrido mais de 45 mil quilómetros, navegando em frágeis barcos que singravam os mares, no início do século XIX.
No momento da sua morte, a congregação por ela fundada contava com 1.200 religiosas, dedicadas a fazer em tudo a vontade de Deus, por meio do ensino, das obras hospitalares e missionárias.
Uma das suas máximas era: “Estar onde há bem a fazer”. Pela sua luta em favor da liberdade dos escravos da Guiana, ficou conhecida como ‘Mãe dos Negros’.
Ana Maria Javouhey foi beatificada pelo Papa Pio XII, no dia 15 de Outubro de 1950.
A memória litúrgica da Beata Ana Maria Javouhey celebra-se no dia 15 de Julho.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

EM DESTAQUE:



- VISITA DO PAPA À AMÉRICA LATINA

 

O Papa Francisco está a realizar uma viagem de nove dias ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai. É a sua segunda visita à América Latina – visitou já o Brasil - na qual quer ir ao encontro dos marginalizados. Na mensagem enviada aos católicos desses três países, disse o Papa: “A fé que todos nós compartilhamos é fonte de fraternidade e solidariedade; constrói povos; forma uma família de famílias; promove a concórdia e anima o desejo e o compromisso em prol da paz… Vou como testemunha da alegria do Evangelho para levar a ternura e a carícia de Deus, especialmente aos seus filhos mais necessitados, aos idosos, aos doentes, aos presos, aos pobres e a quantos são vítimas da cultura do descartável … Desejo estar convosco, compartilhar as vossas preocupações e transmitir-vos o meu carinho e a minha proximidade, mas também alegrar-me convosco…”

 

 - MENSAGEM DO SENHOR BISPO DO PORTO

1. Laudato Si’

O Papa Francisco publicou, com data de 24 de maio passado, uma nova encíclica, a segunda do seu pontificado e a primeira exclusivamente sua, sob o tema da ecologia e com o sugestivo título: Laudato Si’.
Apresento, deste modo, a toda a Diocese este belo texto do Papa Francisco, já traduzido e editado em português, e desejo que ele seja divulgado em todas as comunidades cristãs e refletido profundamente nas famílias, nos grupos e nos movimentos apostólicos.
Trata-se de um texto pleno de oportunidade, inscrito na doutrina social da Igreja, que revela a coragem profética do Papa Francisco, ao trazer para a vanguarda da missão da Igreja a urgência de velarmos pelos dons da criação, de cuidarmos da casa comum da Humanidade e de velarmos pela “mãe terra, que nos sustenta e governa”.
As primeiras palavras do cântico das criaturas de São Francisco oferecem ao Papa a inspiração do título da encíclica e do desenvolvimento deste tema para que façamos da defesa da ecologia um verdadeiro cântico de louvor a Deus e de serviço à Humanidade.
Estamos unidos neste mesmo cântico e convocados por esta preocupação comum de salvaguardarmos os dons da criação, porque nada deste mundo nos é indiferente. Este texto, mais do que uma oportuna reflexão, é um convite e um alerta do Papa Francisco dirigidos a todos os habitantes da terra, nossos irmãos e conterrâneos, em ordem a um compromisso comum, a uma cultura nova e a uma educação diferente em prol de uma aliança entre a humanidade e o ambiente, fundamentos essenciais de um estilo de vida sóbrio e feliz.
Cuidar da casa comum da humanidade é também uma verdadeira e bela missão da Igreja, hoje.

2. Felizes os misericordiosos! (Mt, 5,7)

Vamos apresentar, no próximo dia 10 de julho, às 21h30, na Casa Diocesana de Vilar, o Plano Diocesano de Pastoral 2015-2020.
Abre este Plano Diocesano de Pastoral do Porto para uma nova perspetiva eclesial e para um horizonte temporário de cinco anos, 2015-2020.
Continuará a guiar-nos o lema: A alegria do Evangelho é a nossa missão. Partimos para este Plano Diocesano de Pastoral conscientes da importância de termos um Lema que nos una e nos congregue, um Plano que nos anime e mobilize, um Programa que nos organize e incentive e um Calendário que nos informe das atividades delineadas e dê visibilidade às ações realizadas.
Enraizados em Cristo, alicerce firme da nossa fé e farol do nosso caminho pastoral, faremos da Alegria do Evangelho fonte da nossa missão e encontraremos no magistério do Papa Francisco o programa do nosso ministério e o paradigma da nossa ação pastoral.
Atentos ao sonho de Deus para a Igreja do Porto, queremos, neste Ano Jubilar da Misericórdia, acolher os dons de Deus e traduzi-los em obras de misericórdia, conscientes de que isso só é possível se vivermos e agirmos de acordo com as Bem-aventuranças do Evangelho.
A apresentação, assim antecipada no tempo, deste Plano Diocesano de Pastoral é um gesto pedagógico a anunciar um verdadeiro caminho sinodal que a todos envolva e mobilize para a ação pastoral. Os secretariados, os serviços diocesanos, as vigararias e as paróquias foram chamados, ao longo deste ano em curso, a participar e a colaborar na elaboração deste Plano através das diversas instâncias de corresponsabilidade pastoral, concretamente nas várias reuniões do Conselho Episcopal, Conselho Presbiteral, Conselho Diocesano de Pastoral e Encontro de Vigários.

Este Plano é o fruto deste trabalho comum e deste esforço conjunto. Importa, agora, conhecer este texto que é de todos, para que aí se inspire um trabalho coordenado e concretizado nos planos dos secretariados e serviços, das vigararias e das paróquias, das comunidades religiosas e dos movimentos apostólicos. Estamos, assim o cremos, a delinear novos traços do rosto belo da Igreja do Porto.
Convido, por isso, os sacerdotes, diáconos, consagrados, leigos, os secretariados, serviços, movimentos apostólicos, instituições e comunidades da nossa Diocese para a apresentação do Plano Diocesano de Pastoral, no próximo dia 10, às 21,30, na Casa Diocesana.
Convido expressamente as Comissões Permanentes dos Conselhos Paroquiais de Pastoral ou representantes de cada paróquia, onde não houver Conselhos Pastorais, a participar na apresentação do Plano Diocesano de Pastoral para que juntamente com os Párocos possam implementar a sua concretização em todas as comunidades da nossa Diocese.

3. Louvado sejas meu Senhor, pelos novos sacerdotes e diáconos!

Vamos celebrar, no próximo dia 12 de julho, a Ordenação de novos presbíteros e diáconos a caminho do Presbiterado.
Queremos preparar este dia na oração, na alegria e na gratidão para podermos viver as Ordenações de novos servidores da Igreja como uma bênção de Deus concedida à Igreja do Porto.
Um dia de Ordenações nasce sempre no coração generoso dos jovens que se decidem a ouvir o chamamento do Mestre e a seguir Jesus. Prossegue, depois, no ambiente da Família, no longo tempo de formação vivido nos Seminários, no percurso académico da Universidade Católica e completa-se na vida e na inserção pastoral das Comunidades cristãs.
Um dia de Ordenações supõe e exige um longo e demorado tempo prévio, trabalhado pela oração pessoal dos candidatos, consolidado pela vivência humana e espiritual da comunidade formativa, fortalecido pela doação e testemunho dos formadores, amparado pelo ambiente e estímulo das comunidades de origem e de estágio pastoral, incentivado pela bondade e generosidade de amigos e beneméritos dos nossos Seminários e ampliado na vida e na alegria da Igreja diocesana que forma, educa e acolhe.
São muitos, aqueles a quem devemos e a quem agradecemos e dedicamos este abençoado dia de Ordenações!
Convido, com muita alegria e renovada gratidão, toda a Diocese para a celebração, na nossa Sé, no próximo dia 12 de julho, às 16 horas, da ordenação de presbíteros de João Emanuel Pinheiro Pereira, José Joaquim Santos Ribeiro, Mário Jorge de Sousa Ferreira, e Prabesh Jacob, da nossa Diocese, e de André Bruno Teixeira de Olim, da Ordem de S. Bento, Igor André Barbosa de Oliveira e Jorge André Ferreira Magalhães, da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos).
Serão ordenados diáconos rumo ao Presbiterado os alunos do nosso Seminário: Diogo José de Oliveira Barbosa Pereira, Júlio Dinis Osório de Castro Taveira Lobo e Vítor Emanuel Dionísio Ramos.
Junta-se a esta bênção da ordenação de novos diáconos e presbíteros a alegria de celebrarmos, no próximo dia 8 de julho, o jubileu sacerdotal de 25 anos de ordenação dos Padres Fernando Silvestre Rosas Magalhães e José da Rocha Ramos e, no dia 1 de agosto, o jubileu de 50 anos de ordenação do Cónego Arnaldo Cardoso de Pinho e dos Padres Adriano Leite Gomes, Américo de Sá Rebelo, António Augusto de Pinho Alves, António Maria de Sousa Moreira da Silva, António Orlando Ramos dos Santos, Joaquim de Jesus Ferreira da Cunha, Joaquim de Sousa Ribeiro e José da Fonseca Lemos.
Uns e outros constituem uma bênção de gratidão e de esperança para a Igreja do Porto. Por eles e em nome de toda a Diocese, quero dizer, como quem reza, agradece e louva: Louvado sejas meu Senhor pelos sacerdotes e diáconos dados a esta amada Igreja do Porto!

Porto, 29 de junho, na solenidade litúrgica de S. Pedro e S. Paulo, de 2015.
António Francisco, Bispo do Porto

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


-na Homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de Junho, na Basílica de São Pedro, em Roma

A leitura, tirada dos Actos dos Apóstolos, fala-nos da primeira comunidade cristã assediada pela perseguição. Uma comunidade duramente perseguida por Herodes, que «mandou matar à espada Tiago (...) e mandou também prender Pedro (...). Depois de o mandar prender, meteu-o na prisão» (12, 2-4). Mas não quero deter-me nas atrozes, desumanas e inexplicáveis perseguições, infelizmente ainda hoje presentes em tantas partes do mundo, muitas vezes sob o olhar e o silêncio de todos. Prefiro hoje venerar a coragem dos Apóstolos e da primeira comunidade cristã; a coragem de levar por diante a obra de evangelização, sem medo da morte nem do martírio, no contexto social dum império pagão; venerar a sua vida cristã, que para nós, crentes de hoje, é um forte apelo à oração, à fé e ao testemunho.
Um apelo à oração. A comunidade era uma Igreja em oração: «Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus, instantemente, por ele» (Act 12, 5). E, pensando em Roma, as catacumbas não eram lugares para escapar das perseguições, mas principalmente lugares de oração, para santificar o domingo e para elevar, do seio da terra, uma adoração a Deus que nunca esquece os seus filhos. A comunidade de Pedro e Paulo ensina-nos que uma Igreja em oração é uma Igreja de pé, sólida, em caminho! Na verdade, um cristão que reza é um cristão protegido, guardado e sustentado, mas sobretudo não está sozinho.
E a primeira leitura continua: «Diante da porta estavam sentinelas de guarda à prisão. De repente apareceu o anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz. O anjo despertou Pedro, tocando-lhe no lado (…) e as correntes caíram-lhe das mãos» (12, 6-7).
Pensamos porventura nas vezes sem conta que o Senhor respondeu à nossa oração enviando-nos um Anjo? Aquele Anjo que, inesperadamente, vem ao nosso encontro para nos salvar de situações difíceis? Para nos arrancar das mãos da morte e do maligno; para nos apontar o caminho perdido; para reacender em nós a chama da esperança; para nos fazer uma carícia; para consolar o nosso coração dilacerado; para nos despertar do sono existencial; ou simplesmente para nos dizer: «Não estás sozinho». Quantos anjos coloca Ele no nosso caminho, mas nós, dominados pelo medo ou a incredulidade ou então pela euforia, deixamo-los fora da porta – precisamente como aconteceu a Pedro quando bateu à porta da casa e «uma serva chamada Rode veio atender. Reconheceu a voz de Pedro e com alegria, em vez de abrir, correu a anunciar que Pedro se encontrava em frente da porta» (12, 13-14).
Nenhuma comunidade cristã pode prosseguir sem o apoio da oração perseverante! A oração que é o encontro com Deus, com Deus que jamais desilude; com o Deus fiel à sua palavra; com Deus que não abandona os seus filhos. Assim Jesus nos punha a questão: «E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite?» (Lc 18, 7). Na oração, o crente exprime a sua fé, a sua confiança, e Deus exprime a sua proximidade, inclusive através do dom dos Anjos, os seus mensageiros.
Um apelo à fé. Na segunda leitura, São Paulo escreve a Timóteo: «O Senhor, porém, esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, o anúncio [do Evangelho] fosse plenamente proclamado (…). Assim fui arrebatado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me levará a salvo para o seu Reino celeste» (2 Tm 4, 17-18). Deus não tira os seus filhos do mundo ou do mal, mas dá-lhes a força para vencê-los. Só quem acredita pode verdadeiramente dizer: «O Senhor é meu pastor, nada me falta» (Sal 22/23, 1).
Ao longo da história, quantas forças procuraram – e procuram – aniquilar a Igreja, tanto a partir do exterior como do interior, mas todas foram aniquiladas e a Igreja permanece viva e fecunda! Inexplicavelmente, permanece firme para poder – como diz São Paulo – aclamar, «a Ele, a glória pelos séculos dos séculos» (2 Tm 4, 18). Tudo passa, só Deus resta. Na verdade, passaram reinos, povos, culturas, nações, ideologias, potências, mas a Igreja, fundada sobre Cristo, não obstante as inúmeras tempestades e os nossos muitos pecados, permanece fiel ao depósito da fé no serviço, porque a Igreja não é dos Papas, dos Bispos, dos padres e nem mesmo dos fiéis; é só e unicamente de Cristo. Só quem vive em Cristo promove e defende Igreja com a santidade da vida, a exemplo de Pedro e Paulo. Em nome de Cristo, os crentes ressuscitaram os mortos; curaram os enfermos; amaram os seus perseguidores; demonstraram que não existe uma força capaz de derrotar quem possui a força da fé!
Um apelo ao testemunho. Pedro e Paulo, como todos os Apóstolos de Cristo que na vida terrena fecundaram a Igreja com o seu sangue, beberam o cálice do Senhor e tornaram-se os amigos de Deus. Em tom comovente, Paulo escreve a Timóteo: «Quanto a mim, já estou pronto para oferecer-me como sacrifício; avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permanecia fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz; e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda» (2 Tm 4, 6-8). Uma Igreja ou um cristão sem testemunho é estéril; um morto que pensa estar vivo; uma árvore ressequida que não dá fruto; um poço seco que não dá água! A Igreja venceu o mal, através do testemunho corajoso, concreto e humilde dos seus filhos. Venceu o mal, graças à convicta proclamação de Pedro: «Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo», e à promessa eterna de Jesus (cf. Mt 16, 13-18).
Amados Arcebispos que, hoje, recebestes o pálio! Este é o sinal que representa a ovelha que o pastor carrega aos seus ombros como Cristo, Bom Pastor, sendo, pois, símbolo da vossa tarefa pastoral; é «sinal litúrgico da comunhão que une a Sé de Pedro e o seu Sucessor aos Metropolitas e, através deles, aos outros Bispos do mundo» (Bento XVI, Angelus do dia 29 de Junho de 2005).
Hoje, com o pálio, quero confiar-vos este apelo à oração, à fé e ao testemunho.
A Igreja quer-vos homens de oração, mestres de oração: que ensinam ao povo que o Senhor vos confiou que a libertação de todas as prisões é apenas obra de Deus e fruto da oração; que Deus, no momento oportuno, envia o seu anjo para nos salvar das muitas escravidões e das inúmeras cadeias mundanas. E sede vós também, para os mais necessitados, anjos e mensageiros da caridade!
A Igreja quer-vos homens de fé, mestres de fé: que ensinem os fiéis a não terem medo de tantos Herodes que afligem com perseguições, com cruzes de todo o género. Nenhum Herodes é capaz de apagar a luz da esperança, da fé e da caridade daquele que crê em Cristo!
A Igreja quer-vos homens de testemunho: como dizia São Francisco aos seus frades, pregai sempre o Evangelho e, se for necessário, também com as palavras! (cf. Fontes Franciscanas, 43). Não há testemunho sem uma vida coerente! Hoje sente-se necessidade não tanto de mestres, mas de testemunhas corajosas, convictas e convincentes; testemunhas que não se envergonham do Nome de Cristo e da sua Cruz, nem diante dos leões que rugem nem perante as potências deste mundo. Seguindo o exemplo de Pedro e Paulo e de muitas outras testemunhas ao longo de toda a história da Igreja; testemunhas que, embora pertencendo a diferentes confissões cristãs, contribuíram para manifestar e fazer crescer o único Corpo de Cristo. Apraz-me sublinhá-lo na presença – sempre muito grata – da Delegação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, enviada pelo querido irmão Bartolomeu I.
O motivo é muito simples: o testemunho mais eficaz e mais autêntico é aquele que não contradiz, com o comportamento e a vida, aquilo que se prega com a palavra e aquilo que se ensina aos outros!
Ensinai a oração, orando; anunciai a fé, acreditando; dai testemunho, vivendo!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 122

Refrão: Os nossos olhos estão postos no Senhor, até que Se compadeça de nós.

Levanto os olhos para Vós,
para Vós que habitais no Céu,
como os olhos do servo
se fixam nas mãos do seu senhor.

Como os olhos da serva
se fixam nas mãos da sua senhora,
assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus,
até que tenha piedade de nós.

Piedade, Senhor, tende piedade de nós,
porque estamos saturados de desprezo.
A nossa alma está saturada do sarcasmo dos arrogantes
e do desprezo dos soberbos.

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA DE JESUS CRUCIFICADO PETKOVIC

Maria Petkovic nasceu no dia 10 de Dezembro de 1892, na ilha de Korcula, em Blato, na Diocese de Dubrovnik , Croácia. Desde a mais tenra infância - apesar da precariedade da sua saúde - mostrou nobreza de espírito, apego à família e à Igreja, e sensibilidade para com os necessitados. As mortes e destruições causadas pela primeira guerra mundial influenciaram a sua opção vocacional, já marcada por uma vida familiar cristã exemplar, caracterizada pela obediência, o amor filial e a observância dos preceitos divinos.
Em 21 de Novembro de 1906, fez o voto de virgindade e, depois de alguns anos de contacto com os membros da Associação das Filhas de Maria, foi inspirada a fundar a Associação do Bom Pastor, cujo carisma se caracterizava pela visita aos doentes, a preparação dos adolescentes para a primeira comunhão e a reparação das ofensas feitas a Jesus.
Em 1915, fundou também a Sociedade das Mães Católicas, formada por uma centena de mulheres e, a partir de 1917, passou a orientar as Terceiras Franciscanas que, então, contavam com cerca de duzentos membros, ajudando a "Cozinha Popular" das Irmãs Servas da Caridade a distribuir, aproximadamente, três mil refeições às pessoas mais necessitadas, e prometendo solenemente ao Bispo Ordinário local que, a partir de então, viveria no meio dos pobres. E o Senhor infundiu muitos dons na sua alma eleita, que difundia luminosidade à sua volta.
Em 1919, Maria entrou no convento das Servas da Caridade. Todavia, por motivos políticos, as irmãs fundadoras, que eram italianas, tiveram de regressar à pátria e, por isso, o Bispo local nomeou Maria superiora provisória da nova ordem, cujos fundamentos espirituais seriam a obediência, o amor e o altruísmo. No final desse mesmo ano, Maria fundou três instituições de assistência à infância necessitada e, embora se considerasse indigna, compreendeu, com grande clarividência, que Deus a estava a preparar para grandes obras. A nova congregação, do ramo franciscano, foi fundada oficialmente no dia 4 de Outubro de 1920, com o título de Filhas da Misericórdia e a jovem recebeu o nome religioso de Maria de Jesus Crucificado e foi eleita superiora-geral.
A jovem fundadora encontrou-se imediatamente diante de infinitas dificuldades, que procurava vencer com a oração, a fé em Deus e o trabalho árduo:  a educação dos jovens membros, o plano de trabalho, a construção de novas casas, a falta de meios de sustento, a redacção das primeiras Constituições (aprovadas em 1923), a consolidação e a conservação da identidade da sua instituição religiosa. Durante quarenta anos à frente da Congregação (de 1920 a 1952, foi eleita superiora-geral cinco vezes consecutivas), a Madre Maria abriu vinte e duas casas, preparando trinta religiosas para as missões na América Latina, onde viriam a ser fundadas novas casas (Argentina, Paraguai, Chile, Peru e Uruguai), assim como em Itália e em Espanha. A Sagrada Congregação para os Religiosos reconheceu esta ordem como "instituição canónica" em 1927 atribuindo-lhe, no ano seguinte, a condição de "direito diocesano" e, em 1944, por ocasião do 25º aniversário de fundação, também o "decretum laudis".
A espiritualidade de Maria apresenta três aspectos de base:  provavelmente marcada pela experiência de bondade vivida em família, manifestava uma relação filial repleta de confiança no Pai misericordioso; além disso, a profunda confiança no amor ao Filho, que inspirou toda a sua vida; por fim, a incessante invocação da sabedoria do Espírito Santo, que é o actor de toda a santificação. As virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, em relação a Deus e ao próximo, e as virtudes cardeais que ela exerceu ao nível mais excelso, realçaram a sua sensibilidade ao voto de castidade. Maria de Jesus Crucificado distinguiu-se ainda na fidelidade à Igreja e na obediência perfeita, mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida:  quando recebeu respostas negativas dos responsáveis a vários níveis; quando deixou o cargo do governo da sua Congregação;  quando ficou paralisada na parte esquerda do seu corpo, nos últimos três anos de vida, aceitando como sinal da Vontade divina tudo aquilo que a Igreja lhe ensinava.
Foi uma mulher forte, de consciência recta, grande trabalhadora e capaz de suportar todo o tipo de dor e sofrimento, permanecendo sempre aberta às inspirações do Espírito Santo e aos preceitos da Igreja, como no-lo mostram a sua vida e as suas numerosas obras. É por isso que, com fama de santidade e um milagre já reconhecido, agora pode ser elevada às honras dos altares pela Igreja que ela tanto amou.
A semente de santidade que Deus lançou no coração da pequena Maria cresceu primeiro na sua consciência e depois no seu compromisso, revigorando-se na família e na comunidade paroquial, onde amadureceram os primeiros frutos de amor ao próximo, no carisma que a levou a fundar novas casas em ordem a ajudar as pessoas marginalizadas da sociedade, para maior glória de Deus e a honra da Igreja católica.
A Irmã Maria de Jesus Petkovic faleceu no dia 9 de Julho de 1966, em Roma, depois de um prolongado período de enfermidade e indizíveis sofrimentos.
As “Filhas da Misericórdia” contam com mais de 430 religiosas que trabalham em 12 países da Europa e da América. Dedicam-se à educação das crianças e da juventude; à assistência de pessoas idosas e enfermas e ao apostolado nas paróquias.
Foi beatificada em Dubrovnik, na Croácia, no dia 6 de Junho de 2003, pelo Papa João Paulo II. É a primeira mulher da Igreja croata a ser beatificada, nos tempos mais recentes.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 9 de Julho.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

EM DESTAQUE:



- LAUDATO SI
(Louvado sejas…)

O Papa Francisco publicou uma nova encíclica: ‘Laudato si’. O Papa, tendo como modelo São Francisco de Assis, propõe uma profunda reflexão sobre o presente e o futuro da nossa terra, apontando a necessidade de uma radical mudança na relação da humanidade com o meio ambiente e alertando para as consequências, já visíveis, do aquecimento global e das alterações climáticas. O Papa fala da crise ecológica, do sobreaquecimento da terra, de um novo modelo de desenvolvimento, da responsabilidade humana na alteração de meio ambiente, do necessário equilíbrio na natureza. O Papa afirma a necessidade de se procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, novos estilos de vida, redobrada responsabilidade frente aos atentados contra a vida humana. (cf. Agência Ecclesia)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



-na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 17 de Junho

“ …Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

No percurso de catequeses sobre a família, hoje inspiramo-nos directamente no episódio narrado pelo evangelista Lucas, que há pouco ouvimos (cf. Lc 7, 11-15). Trata-se de uma cena muito comovedora, que nos mostra a compaixão de Jesus por quantos sofrem — neste caso, uma viúva que perdeu o seu único filho — e nos manifesta também o poder de Jesus sobre a morte.

A morte é uma experiência que diz respeito a todas as famílias, sem excepção alguma. Faz parte da vida; e no entanto, quando atinge os afectos familiares, a morte nunca consegue parecer-nos natural. Para os pais, sobreviver aos próprios filhos é algo de particularmente desolador, que contradiz a natureza elementar das relações que dão sentido à própria família. A perda de um filho ou de uma filha é como se o tempo parasse: abre-se um abismo que engole o passado e também o futuro. A morte, que leva embora o filho pequeno ou jovem, é uma bofetada às promessas, aos dons e aos sacrifícios de amor jubilosamente confiados à vida que fizemos nascer. Muitas vezes vêm à Missa em Santa Marta pais com a fotografia de um filho, filha, criança, rapaz, moça, e dizem-me: «Ele foi-se, ela foi-se!». E o seu olhar está cheio de dor. A morte acontece, e quando se trata de um filho, fere profundamente. A família inteira permanece como que paralisada, emudecida. E algo semelhante padece também a criança que permanece sozinha, com a perda de um dos pais, ou de ambos. E pergunta: «Mas onde está o meu pai? Onde está a minha mãe?» — Está no Céu!» — «Mas por que não o vejo?». Esta pergunta oculta uma angústia no coração da criança que permanece sozinha. O vazio do abandono que se abre dentro dela é ainda mais angustiante porque ela nem sequer tem a experiência suficiente para «dar um nome» àquilo que lhe aconteceu. «Quando volta o meu pai? Quando volta a minha mãe?». Que responder, quando a criança sofre? Assim é a morte em família.

Nestes casos, a morte é como um buraco negro que se abre na vida das famílias e ao qual não sabemos dar explicação alguma. E às vezes chega-se até a dar a culpa a Deus! Quantas pessoas — entendo-as — ficam com raiva de Deus e blasfemam: «Por que me tiraste o filho, a filha? Não há Deus, Deus não existe! Por que me fez Ele isto?». Muitas vezes ouvimos frases como esta. Mas a raiva é um pouco aquilo que provém do cerne de uma grande dor; a perda de um filho ou de uma filha, do pai ou da mãe, é uma dor enorme! Isto acontece continuamente nas famílias. Em tais casos, como eu disse, a morte é como que um buraco. Mas a morte física possui «cúmplices» que são até piores do que ela, e que se chamam ódio, inveja, soberba, avareza; em síntese, o pecado do mundo que trabalha para a morte, tornando-a ainda mais dolorosa e injusta. Os afectos familiares parecem as vítimas predestinadas e inermes destes poderes auxiliares da morte, que acompanham a história do homem. Pensemos na absurda «normalidade» com que, em certos momentos e lugares, os acontecimentos que acrescentam horror à morte são provocados pelo ódio e pela indiferença de outros seres humanos. O Senhor nos livre de nos habituarmos a isto!

No povo de Deus, com a graça da sua compaixão conferida em Jesus, muitas famílias demonstram concretamente que a morte não tem a última palavra: trata-se de um verdadeiro acto de fé. Todas as vezes que a família em luto — até terrível — encontra a força de conservar a fé e o amor que nos unem a quantos amamos, ela impede desde já que a morte arrebate tudo. A escuridão da morte deve ser enfrentada com um esforço de amor mais intenso. «Meu Deus, ilumina as minhas trevas!», é a invocação de liturgia da noite. À luz da Ressurreição do Senhor, que não abandona nenhum daqueles que o Pai lhe confiou, nós podemos privar a morte do seu «aguilhão», como dizia o apóstolo Paulo (1 Cor 15, 55); podemos impedir que ela envenene a nossa vida, que torne vãos os nossos afectos, que nos leve a cair no vazio mais obscuro.

Nesta fé, podemos consolar-nos uns aos outros, conscientes de que o Senhor venceu a morte de uma vez para sempre. Os nossos entes queridos não desapareceram nas trevas do nada: a esperança assegura-nos que eles estão nas mãos bondosas e vigorosas de Deus. O amor é mais forte do que a morte. Por isso, o caminho consiste em fazer aumentar o amor, em torná-lo mais sólido, e o amor preservar-nos-á até ao dia em que todas as lágrimas serão enxugadas, quando «já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor» (Ap 21, 4). Se nos deixarmos amparar por esta fé, a experiência do luto poderá gerar uma solidariedade de vínculos familiares mais forte, uma renovada abertura ao sofrimento das outras famílias, uma nova fraternidade com as famílias que nascem e renascem na esperança. Nascer e renascer na esperança, é isto que nos propicia a fé. Contudo, gostaria de ressaltar a última frase do Evangelho que ouvimos hoje (cf. Lc 7, 11-15). Depois que Jesus restituiu à vida este jovem, filho da mãe que era viúva, o Evangelho reza: «Jesus entregou-o à sua mãe». Esta é a nossa esperança! O Senhor restituir-nos-á todos os nossos entes queridos que já partiram, e encontrar-nos-emos todos juntos. Esta esperança não desilude! Recordemos bem este gesto de Jesus: «Jesus entregou-o à sua mãe», assim fará o Senhor com todos os nossos amados familiares!

Esta fé protege-nos da visão niilista da morte, assim como das falsas consolações do mundo, de tal maneira que a verdade cristã «não corra o risco de se misturar com mitologias de vários tipos», cedendo aos ritos da superstição, antiga ou moderna» (Bento XVI, Angelus de 2 de Novembro de 2008). Hoje é necessário que os Pastores e todos os cristãos exprimam de modo mais concreto o sentido da fé em relação à experiência familiar do luto. Não se deve negar o direito de chorar — devemos chorar no luto — pois até Jesus «começou a chorar» e sentiu-se «intensamente comovido» pelo grave luto de uma família que Ele amava (Jo 11, 33-37). Ao contrário, podemos haurir do testemunho simples e vigoroso de numerosas famílias que souberam ver, na dificílima passagem da morte, também a passagem certa do Senhor, crucificado e ressuscitado, com a sua promessa irrevogável da ressurreição dos mortos. O esforço amoroso de Deus é mais forte do que a obra da morte. É deste amor, precisamente deste amor, que nos devemos tornar «cúmplices» laboriosos, com a nossa fé! E recordemos aquele gesto de Jesus: «Jesus entregou-o à sua mãe»; assim fará Ele com todos os nossos entes queridos e também connosco, quando nos encontrarmos, quando a morte for derrotada definitivamente em nós. Ela é vencida pela cruz de Jesus. Jesus restituir-nos-á todos à família!...” (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 106


Refrão: Cantai ao Senhor, porque é eterno o seu amor. Cantai ao Senhor! Cantai!

 
Os que se fizeram ao mar em seus navios,
a fim de labutar na imensidão das águas,
esses viram os prodígios do Senhor
e as suas maravilhas no alto mar.

 
À sua palavra, soprou um vento de tempestade,
que fez encapelar as ondas:
subiam até aos céus, desciam até ao abismo,
lutavam entre a vida e a morte.

 
Na sua angústia invocaram o Senhor
e Ele salvou-os da aflição.
Transformou o temporal em brisa suave
e as ondas do mar amainaram.

 
Alegraram-se ao vê-las acalmadas,
e Ele conduziu-os ao porto desejado.
Graças ao Senhor pela sua misericórdia,
pelos seus prodígios em favor dos homens.

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA RAFAELA CIMATTI

Santina Cimatti nasceu no dia 6 de Junho de 1861, em Faenza, na província da Romagna – Itália. O seu pai era um humilde lavrador; a sua mãe trabalhava como tecedeira. A natureza dotou-a com um rosto sorridente, sereno e bonito, iluminado por olhos profundos e calmos. Vivendo no seio de uma família pobre, Santina não teve oportunidade de estudar: a sua família precisava do seu trabalho para ajudar no orçamento familiar. Por isso, começou a ajudar a mãe nos trabalhos de tecelagem e a cuidar dos afazeres domésticos. Teve vários irmãos, mas os únicos que sobreviveram, Luís e Vicente, entraram, ainda muito jovens, para a Congregação Salesiana. Então, Santina considerou importante ficar junto da sua mãe para a ajudar e cuidar dela. Entretanto, surgiu a oportunidade de ir trabalhar para casa de um sacerdote, como empregada doméstica.
Em Novembro de 1889, com 28 anos de idade, entrou para a Congregação das Irmãs Hospitaleiras da Misericórdia, na Casa-Mãe da congregação, em São João de Latrão, Roma. Como era costume, naquela época, adoptou o nome de Maria Rafaela. Em 1893, foi enviada para o Hospital de São Bento, em Alatri, onde começou a exercer a sua profissão de enfermeira. Depois, foi enviada para o Hospital Humberto I, em Frosinone, onde, a partir de 1921, exerceu, também, a missão de superiora da Comunidade. Entre 1928 e 1940, desempenhou a missão de superiora, na Comunidade de Alatri.
Em 1943, contraiu uma doença que se viria a manifestar incurável. A Irmã Maria Rafaela Cimatti faleceu no dia 23 de Junho de 1945.
O principal campo de apostolado da Irmã Rafaela foi a farmácia, onde trabalhou durante 34 anos. No entanto, quando era necessário, estava sempre disponível para os doentes e para qualquer serviço da sua comunidade. O trabalho da farmácia - entre pílulas, xaropes e preparados no almofariz – foi, para Rafaela, um dom de Deus: através deste compromisso, simples e contínuo, vivido no dia-a-dia, ela pôde realizar, com exemplar dedicação, o verdadeiro amor ao próximo.
Quando a doença bateu, fortemente, à sua porta, encontrou, na oração, o seu grande apoio e a sua fortaleza. Dias difíceis e dramáticos foram vividos pela Irmã Rafaela, em Frosinone, durante o tempo da guerra. Visitou e confortou os doentes. Quando percebeu - através da agitação e inquietação do pessoal do Hospital – que a cidade de Alatri poderia ser bombardeada, a fim de suster o avanço das forças aliadas, Rafaela – usando todas as suas últimas energias – pediu ao Bispo que a acompanhasse até ao General Kesselring, a fim de o pressionarem a mudar o plano estratégico dos alemães. Com esta acção, conseguiu que Alatri fosse preservada. "Milagre” – ouviu-se gritar por toda a parte – “Um anjo salvou a nossa cidade."
Todos os dias, a irmã Rafaela experimentava a presença de Deus naqueles que sofriam: nunca se esquecia que o homem precisava de um amor concreto, mesmo nos pequenos acontecimentos diários. Uma sua paciente contou: "…Era muito jovem, mas já sofria de várias doenças. Então, fui internada no Hospital para uma operação ao apêndice. Estava muito preocupada e senti-me perdida com a ausência da minha mãe… Comecei a chorar convulsivamente, como nunca tinha chorado antes. A Irmã Rafaela notou minha profunda prostração moral e perguntou-me: ‘Porque estás a chorar?’ Eu respondi: ‘Eu estou mal e não tenho aqui a minha mãe!...’ Num tom cheio de carinho e de compreensão, disse-me: ‘E eu não sou a mãe? Porque estou aqui? Cada irmã hospitaleira deve ser a mãe de quem sofre…’."
A Irmã Rafaela soube ser, para as irmãs da sua comunidade, uma superiora atenta e gentil. Nunca quis ser servida mas, que cada uma servisse a comunidade. Uma das Irmãs escreveu: "Não exibia a importância do cargo que desempenhava… Considerava-se a serva das Irmãs, ajudando-as no seu trabalho. Se fosse necessário, também ela ajudava a remendar e a confecionar as meias das outras Irmãs.
A Irmã Maria Rafaela Cimatti foi beatificada, pelo Papa João Paulo II, no dia 12 de Maio de 1996. Na homilia, disse o Papa: “ … A Misericórdia divina é a chave de leitura da espiritualidade simples e profunda de Maria Rafaela Cimatti, religiosa das Irmãs Hospitaleiras da Misericórdia. Na infinita misericórdia de Deus, de que fala o salmista, ela encontrou inspiração para a sua acção, especialmente no serviço aos pobres e aos sofredores. Esta mulher, que hoje é elevada à glória dos altares, gastou a sua vida numa total consagração a Deus e no silencioso e diário serviço aos doentes. Viveu com espírito de sacrifício e sempre com pronta disponibilidade quer nas humildes tarefas diárias, quer na escuta e no acolhimento de quantos a ela recorriam à procura de conselho ou conforto, quer nas funções de responsabilidade a que, repetidamente, foi chamada. No nosso tempo, marcado frequentemente pela indiferença e pela tentação de se fechar, frente às necessidades do próximo, esta humilde religiosa é um luminoso exemplo de feminilidade plenamente realizada no dom de si. Ela anuncia e testemunha a esperança evangélica, manifestando a quantos sofrem, no corpo ou no espírito, o rosto de ‘Deus, Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações’ (cf. 2 Cor. 1,4).
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 23 de Junho.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

FESTA DA VIDA



No sábado, dia 13 de Junho, o 8º ano da catequese da Igreja Matriz celebrou a Festa da Vida. A liturgia convidava-os a olhar para a vida e para o mundo com confiança e esperança. A observarem Deus, fiel ao seu plano de salvação e, que continua, hoje como sempre, a conduzir a história humana para uma meta de vida plena e de felicidade sem fim. Os adolescentes verificaram que como a semente, querem dar muito fruto; como o grão de mostarda, querem crescer no testemunho de amor pela Vida e colocarem-se, sempre ao serviço da Vida. Descobriram que “a vida com Jesus é mais feliz”. Por isso, pediram-Lhe: Fazei-nos portadores da Vossa Mensagem, construtores do Vosso Reino, testemunhas do Vosso projecto de Vida.

 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

EM DESTAQUE:


 
 
- 1º CICLO DE MÚSICA SACRA DAS TERRAS DE SANTA MARIA
 
Sábado, dia 20 de Junho, às 21,30 horas, na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, dá-se início ao 1º Ciclo de Música Sacra das Terras de Santa Maria. O Concerto será da responsabilidade do Coro do Mosteiro de Grijó. Esta iniciativa, que envolve Paróquias, Coros, Escolas de Música Sacra, procura promover, junto das populações, o apreço pela boa música e despertar para a necessidade da formação coral litúrgica que dê às celebrações paroquiais a dignidade e a beleza que a música confere. A entrada é livre e gratuita.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


-na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 10 de Junho

“ …Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuemos com as catequeses sobre a família, e nesta audiência gostaria de me referir a um aspecto muito comum na vida das nossas famílias: a doença. Trata-se de uma experiência da nossa fragilidade, que vivemos principalmente em família, desde a infância e depois, sobretudo, na velhice, quando chegam os achaques. No âmbito dos vínculos familiares, a enfermidade das pessoas que amamos é padecida com um «suplemento» de dor e de angústia. É o amor que nos faz sentir este «suplemento». Muitas vezes, para um pai e uma mãe é mais difícil suportar o mal de um filho, de uma filha, do que uma dor pessoal. Podemos dizer que a família foi, desde sempre, o «hospital» mais próximo. Ainda hoje, em muitas regiões do mundo, o hospital é um privilégio para poucos e, muitas vezes, fica distante. São a mãe, o pai, os irmãos, as irmãs, as avós que garantem os cuidados e ajudam a curar.
Nos Evangelhos, muitas páginas narram os encontros de Jesus com os doentes e o seu compromisso em cuidar deles. Ele apresenta-se publicamente como alguém que luta contra a enfermidade e que veio para curar o homem de todos os males: o mal do espírito e o mal do corpo. É verdadeiramente comovedora a cena evangélica, recém-narrada pelo Evangelho de Marcos. Reza assim: «À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e endemoninhados» (1, 32). Se penso nas grandes cidades contemporâneas, pergunto-me onde estão as portas a onde levar os enfermos, na esperança de que sejam curados? Jesus nunca se subtraiu aos seus cuidados. Jamais passou além, nunca virou o rosto para o outro lado. E, quando um pai ou uma mãe, ou então até simplesmente pessoas amigas traziam um doente à sua presença para que o tocasse e curasse, não perdia tempo; a cura vinha antes da lei, até daquela tão sagrada como era a do descanso do Sábado (cf. Mc 3, 1-6). Os doutores da lei repreendiam Jesus porque Ele curava no dia de sábado; fazia o bem no dia de sábado. Mas o amor de Jesus consistia em dar a saúde, em fazer o bem: e isto vem sempre em primeiro lugar!
Jesus manda os discípulos realizar a obra que Ele mesmo faz, conferindo-lhes o poder de curar, ou seja, de se aproximar dos enfermos e de cuidar deles até ao fim (cf. Mt 10, 1). Devemos ter presente aquilo que Ele disse aos discípulos, no episódio do cego de nascença (cf. Jo 9, 1-5). Os discípulos — com o cego ali em frente! — debatiam sobre quem tinha pecado para ter nascido cego - ele ou os seus pais? -, para ter provocado a sua cegueira. O Senhor disse claramente: nem ele, nem os seus pais; é assim para que nele se manifestem as obras de Deus. E curou-o. Eis a glória de Deus! Eis a tarefa da Igreja! Ajudar os doentes - sem se perder em bisbilhotices - assistir sempre, consolar, aliviar, estar próximo dos doentes… Esta é a sua tarefa.
A Igreja convida à oração incessante pelos nossos entes queridos, atingidos pelo mal. A prece pelos doentes nunca deve faltar. Aliás, temos de rezar ainda mais, quer pessoalmente, quer como em comunidade. Pensemos no episódio evangélico da mulher cananeia (cf. Mt 15, 21-28). Trata-se de uma mulher pagã, não pertence ao povo de Israel, mas é uma pagã que suplica a Jesus a cura da própria filha. Para pôr à prova a sua fé, Jesus primeiro responde duramente: «Não posso, devo pensar primeiro nas ovelhas de Israel!». A mulher não desiste — quando pede ajuda para a sua criatura, uma mãe nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos — e responde: «Até os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!», como se dissesse: «Trata-me pelo menos como uma cachorrinha!». Então, Jesus diz-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu desejas» (v. 28).

Diante da doença, até em família, surgem dificuldades, por causa da debilidade humana. Mas, em geral, o tempo da enfermidade faz aumentar a força dos vínculos familiares. E penso como é importante educar, desde crianças, os filhos para a solidariedade na hora da doença. Uma educação que mantenha à distância a sensibilidade pela enfermidade humana torna árido o coração; e leva os jovens a ser «anestesiados» em relação ao sofrimento do próximo, incapazes de se confrontar com o sofrimento e de viver a experiência do limite. Quantas vezes nós vemos chegar ao trabalho um homem, uma mulher com o rosto cansado, com uma atitude fatigada, e quando lhe perguntamos: «O que aconteceu?», responde: «Eu dormi só duas horas, porque em casa nos revezamos para estar próximos do filho, da filha, do doente, do avô, da avó». E o dia continua com o trabalho. São coisas heróicas: é a heroicidade das famílias! Estas formas de heroicidade escondida verificam-se com ternura e com coragem, quando em casa alguém está doente.
A debilidade e o sofrimento dos nossos afectos mais queridos e mais sagrados podem ser, para os nossos filhos e os nossos netos, uma escola de vida — é importante educar os filhos, os netos, para que compreendam esta proximidade na doença em família — e tornam-se isso quando os momentos de enfermidade são acompanhados pela oração e pela proximidade carinhosa e cheia de esmero dos familiares. A comunidade cristã sabe bem que, na prova da doença, a família não deve ser deixada sozinha. E temos de dar graças ao Senhor pelas lindas experiências de fraternidade eclesial que ajudam as famílias a atravessar o árduo momento da dor e do sofrimento. Esta proximidade cristã, de uma família em relação à outra, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um tesouro de sabedoria, que assiste as famílias nas fases difíceis, levando-as a compreender o Reino de Deus melhor do que muitos discursos! São carícias de Deus!

PARA REZAR

SALMO 91

 
Refrão: É bom louvar-Vos, Senhor.
 

É bom louvar o Senhor
e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo,
proclamar pela manhã a vossa bondade
e durante a noite a vossa fidelidade.


O justo florescerá como a palmeira,
crescerá como o cedro do Líbano;
plantado na casa do Senhor,
florescerá nos átrios do nosso Deus.

 
Mesmo na velhice dará o seu fruto,
cheio de seiva e de vigor,
para proclamar que o Senhor é justo:
n’Ele, que é o meu refúgio, não há iniquidade.

SANTOS POPULARES


BEATO JOSÉ MARIA CASSANT

José Maria Cassant nasceu em Casseneuil, França, no dia 6 de Março de 1878, de pais camponeses e muito católicos. Recebeu uma sólida educação cristã e, desde pequeno, sentiu uma grande identificação com a Missa e a liturgia, manifestando o desejo de ser sacerdote. Sempre preferiu o silêncio e a solidão da capela às brincadeiras de criança. Estudou no colégio dos Irmãos de São João Baptista de la Salle, revelando muita dificuldade em aprender e memorizar o conteúdo das aulas, embora a elas se aplicasse com afinco. Aos quinze anos ainda estudava no meio de meninos de oito a dez anos. Este obstáculo intelectual impediu-o de ser aceite no Seminário Diocesano, após ter manifestado aos seus familiares o desejo de ser padre. O seu director espiritual sugeriu-lhe que fosse para o Mosteiro da Trapa. Depois de ter contactado com o orientador vocacional do Mosteiro, foi admitido, no dia 5 de dezembro de 1894, na abadia cisterciense de Santa Maria do Deserto, na Diocese de Toulouse. Durante o tempo de noviciado, desenvolveu uma profunda espiritualidade contemplativa, a partir da sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus e o seu lema era: “Tudo para Jesus, tudo por Maria”. Contemplando Jesus na sua Paixão, o jovem monge deixou-se impregnar pelo amor de Cristo. Consciente das suas lacunas e debilidades, confiava única e totalmente em Jesus, que era a sua força. Pronunciou os votos perpétuos na Solenidade da Ascensão e começou a preparação definitiva para o sacerdócio, que considerava em função da Eucaristia, em que Cristo Salvador se entrega inteiramente aos homens, e em cujo Coração traspassado na cruz, recebe todos os que a Ele recorrem com confiança.
Apesar das dificuldades em concluir os estudos teológicos na Abadia, foi aprovado satisfatoriamente no exame final e recebeu a Ordenação Diaconal no dia 22 de Fevereiro de 1902. Foi ordenado Presbítero no dia 12 de Outubro de 1902.
Atingido pela tuberculose, o jovem presbítero só revelou os seus sofrimentos quando já não os podia esconder, oferecendo-os sempre por Cristo e pela Igreja e meditando assiduamente sobre a Via-Sacra do Salvador. Esta doença tornou a sua vida, a cada dia, mais difícil. No leito de morte, afirmou: "Quando já não puder celebrar a Santa Missa, Jesus poderia levar-me deste mundo".
O Padre José Maria faleceu na madrugada do dia 17 de Junho de 1903, depois de ter recebido a Sagrada Comunhão. Tinha 25 anos de idade, dos quais 16 transcorridos na discrição, em Casseneuil, e 9 no claustro de um Mosteiro, dedicando-se às coisas mais simples: oração, estudo e trabalho. Coisas ordinárias, porém, que ele soube viver de maneira extraordinária, com uma generosidade incondicional. Por isso, a mensagem do Padre José Maria é muito actual: num mundo em que reina a desconfiança, que muitas vezes é vítima do desespero, mas que é sequioso de amor e de ternura, a sua vida pode ser uma resposta para quem, sobretudo entre os jovens, se põe em busca de um sentido para a sua vida.
João Paulo II reconheceu a heroicidade das suas virtudes, no dia 19 de Junho de 1984.
O Padre José Maria Cassant foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 3 de Outubro de 2004. Na homilia da missa da beatificação, disse o Papa: “…O Padre José Maria depositou sempre a sua confiança em Deus, na contemplação do mistério da Paixão e na união com Cristo presente na Eucaristia. Assim, ele impregnava-se do amor de Deus, abandonando-se a Ele, "a única felicidade da terra", e desapegando-se dos bens do mundo, no silêncio da Trapa. No meio das provações, com o olhar fixo em Cristo, oferecia os seus sofrimentos pelo Senhor e pela Igreja. Possam os nossos contemporâneos, especialmente os contemplativos e os doentes, descobrir, no seu exemplo, o mistério da oração que eleva o mundo a Deus e que revigora nos momentos de prova!...”
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 17 de Junho.