PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

SANTOS POPULARES


BEATO PIO CAMPIDELLI

Luigi Nazareno Francesco Campidelli nasceu no dia 29 de Abril de 1868, na localidade de Trebbio, na Diocese de Rimini, na província italiana de Emília-Romagna, filho de Giuseppe Campidelli e Filomena Belpani. Foi o quarto dos seis filhos nascidos do matrimônio de dois agricultores: José e Filomena, que viram partir prematuramente deste mundo dois deles.
A sua mãe educou-o solidamente na fé cristã como, sem dúvida, fez com o resto dos seus filhos.
O seu pai morreu em consequência do tifo quando Luís tinha apenas quatro anos. Não teve
tempo de conhecer as qualidades deste filho estudioso, sensível, cheio de bondade, em cujo coração foram caindo e frutificando os bons ensinamentos que recebia em sua casa. Como sucedia naquela época e em muitas localidades, muitas vezes eram os sacerdotes que tomavam a iniciativa de acolher as crianças para lhes proporcionar uma adequada formação.
Luís - antes de ir para a escola pública - ia, todos os dias, ao centro formativo paroquial, aberto pelo padre Ângelo Bertozzi, onde aprendeu latim, além dos primeiros ensinamentos básicos. Ao mesmo tempo, ajudava nos trabalhos do campo.
Sofria muito ao ouvir os palavrões e blasfêmias proferidas pelo seu tio, Bertoldo, que convivia com a família. Por isso, tinha-o especialmente presente nas suas orações, para que se convertesse desses maus hábitos.
A sua mãe, a maioria do povo e o pároco, o padre Filipe, admiravam-se da sua excelente conduta. Em conversa com a sua mãe, o padre Filipe disse-lhe que Deus estava a trabalhar o coração do pequeno, que Lhe estava a responder admiravelmente. A madrinha do Luís, como outras pessoas próximas, não duvidava que a graça divina resplandecia nele. Assim o deixava entrever nos seus comentários, dizendo que parecia haver nascido para o paraíso.
A formação espiritual que recebeu no seio familiar converteu-se na base da sua jovem vocação. As suas aspirações à vida religiosa surgiram, em 1880, ao escutar os padres passionistas, do santuário da Madonna di Casale, construído nas proximidades de Sant’Arcangelo, que pregavam as missões pela região.
Nessa altura, já estava acostumado às práticas de piedade. Percorria, diariamente, a pé, cinco quilómetros para participar na Santa Missa. Tinha presente, na sua oração, todas as pessoas a quem mais estimava, principalmente o seu avô que tinha falecido seis anos atrás. Ensinava catequese e desprezava a coscuvilhice de alguns vizinhos que qualificavam a sua conduta como própria de um beato.
Aos doze anos, Luís sentiu vivamente o chamamento de Deus. No entanto, ainda que fosse quase um menino, interpretou perfeitamente o chamamento interior para seguir Cristo através do carisma passionista. Falou disso com o superior de Casale di Vito; porém, teve de esperar até completar os 14 anos, idade na qual poderia ser admitido. No dia 02 de Maio de 1882, Luís entrou no convento. A sua mãe e os irmãos caíram em lágrimas. Ele consolou-os dizendo: “Por mim não deveis chorar; eu sou verdadeiramente feliz”. Queria ser sacerdote, um grande missionário, e, sobretudo, um santo.
No dia 27 de Maio, Luís tomou o hábito e o nome de “Pio”. Em 1883, iniciou o noviciado em San Eutizio de Soriano. Em seguida, regressou a Casale, onde professou no dia 30 de Abril de 1884.
Enquanto se formava nos estudos eclesiásticos, que o levariam ao sacerdócio, testemunhava eficazmente a sua vocação com uma vida de entrega e fidelidade, no quotidiano. Era alegre, estudioso, caritativo, modesto, obediente, generoso, dando mostras de poder ser um óptimo religioso. Tinha uma grande devoção pela Eucaristia, por Cristo crucificado e pela Virgem Maria. Os seus modelos de vida eram São Luís Gonzaga e São Gabriel de Nossa Senhora das Dores. Se a sua família pensava que poderia sentir-se infeliz ou desanimado na forma de vida e lugar escolhido para entrega-la a Deus, enganaram-se. A sua irmã Teresa, sempre que o visitava, constatava, no seu rosto, a alegria que o envolvia. Uma vez, a sua mãe perguntou-lhe se queria voltar para casa. A sua resposta foi pronta e inequívoca: “Nem por todo o ouro do mundo”!
A sua constituição física era frágil. Depois de ter recebido as ordens menores, foi tocado pela tuberculose, em 1888. Acolheu, serenamente, esta enfermidade e, quando a sua mãe o foi ver, animou-a dizendo-lhe que fosse forte, porque se reuniriam de novo no Céu.
Pio Campidelli morreu no dia 2 de Novembro de 1889, com apenas 21 anos, arrebatado pelo amor divino, comunicando, aos que o assistiam nos seus últimos momentos, que a Virgem Maria estava ali para levá-lo para o Céu. Segundo as suas próprias palavras, oferecia a sua vida “pela Igreja, o Papa, pela Congregação (Passionista), para a conversão dos pecadores e, sobretudo, pelo bem de sua querida Romagna”. Os seus restos mortais são venerados no santuário de Casale, desde 1923.
Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 17 de Novembro de 1985.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 2 de Novembro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

EM DESTAQUE


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
- na Audiência-Geral, no dia 21 de Outubro, na Praça de São Pedro - Roma

 Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Na última meditação, reflectimos sobre as importantes promessas que os pais fazem às crianças, desde quando elas são pensadas no amor e concebidas no ventre.
Podemos acrescentar que, observando bem, a inteira realidade familiar está fundada na promessa. Pensai nisto: a identidade familiar está fundada na promessa. Podemos dizer que a família vive da promessa de amor e de fidelidade que o homem e a mulher trocam reciprocamente. Ela inclui o compromisso de receber e educar os filhos; mas realiza-se, também, no cuidado dos pais idosos; na protecção e cura dos membros mais frágeis da família; na ajuda recíproca para realizar as próprias qualidades e na aceitação dos próprios limites. E a promessa conjugal alarga-se na partilha das alegrias e dos sofrimentos de todos os pais, mães, crianças, com abertura generosa em relação à convivência humana e ao bem comum. Uma família que se fecha em si mesma é como uma contradição, uma humilhação da promessa que a fez nascer e a faz viver. Nunca esqueçais: a identidade da família é sempre uma promessa que se alarga e se estende a toda a família e também a toda a humanidade.
Nos nossos dias, a honra da fidelidade à promessa da vida familiar parece muito enfraquecida. Por um lado, porque um direito mal compreendido de procurar a própria satisfação, a qualquer preço e em qualquer relação, é exaltado como um princípio inegociável de liberdade. Por outro, porque os vínculos da vida de relação e do compromisso pelo bem comum se confiam exclusivamente à constrição da lei. Mas, na realidade, ninguém quer ser amado só pelos próprios bens, nem por obrigação. O amor, assim como a amizade, devem a sua força e beleza precisamente a este facto: geram um vínculo sem privar da liberdade. O amor é livre; a promessa da família é livre e esta é a beleza. Sem liberdade não há amizade; sem liberdade não há amor; sem liberdade não há matrimónio.
Portanto, liberdade e fidelidade não se opõem uma à outra; aliás, apoiam-se reciprocamente, nas relações quer interpessoais, quer sociais. De facto, pensemos nos danos que produzem - na civilização da comunicação global - o aumento de promessas não mantidas, em vários campos; a complacência para com a infidelidade, a palavra dada e os compromissos assumidos!
Sim, queridos irmãos e irmãs, a fidelidade é uma promessa de compromisso que se auto-realiza, crescendo na obediência livre à palavra dada. A fidelidade é uma confiança que «quer» ser realmente partilhada, e uma esperança que «quer» ser cultivada em conjunto. E, falando de fidelidade, vem-me à mente o que os nossos idosos e avós narravam: «Antigamente, quando se estabelecia um acordo, um aperto de mão era suficiente, porque havia a fidelidade às promessas». E também isto, que é um facto social, tem origem na família, no dar-se a mão do homem e da mulher para ir em frente juntos, por toda a vida.

A fidelidade às promessas é uma verdadeira obra-prima de humanidade! Se olharmos para a sua beleza audaz, sentimos temor; mas se desprezarmos a sua tenacidade corajosa, estaremos perdidos. Nenhuma relação de amor - nenhuma amizade, nenhuma forma de querer bem, nenhuma felicidade do bem comum - chega à altura do nosso desejo e da nossa esperança, se não conseguir habitar este milagre da alma. E digo «milagre», porque a força e a certeza da fidelidade, apesar de tudo, não deixam de nos encantar e de nos admirar. A honra à palavra dada, a fidelidade à promessa, não se podem comprar nem vender. Não podem ser obrigadas pela força e, nem sequer, guardadas sem sacrifício.
Nenhuma escola pode ensinar a verdade do amor, se a família o não fizer. Nenhuma lei pode impor a beleza e a herança deste tesouro da dignidade humana, se o vínculo pessoal entre amor e geração não for escrito na nossa carne.
Irmãos e irmãs: é necessário restituir honra social à fidelidade do amor!... Restituir honra social à fidelidade do amor! É necessário tirar da clandestinidade o milagre diário de milhões de homens e mulheres que regeneram o seu fundamento familiar, do qual hoje a sociedade vive, sem ser capaz de o garantir de modo algum. Não é por acaso que este princípio da fidelidade à promessa do amor e da geração está inscrito na criação de Deus como uma bênção perene, à qual o mundo está confiado.
Se São Paulo pôde afirmar que no vínculo familiar se revela misteriosamente uma verdade decisiva também para o vínculo do Senhor e da Igreja, quer dizer que a própria Igreja encontra aqui uma bênção a ser conservada e da qual aprender sempre, antes ainda de a ensinar e disciplinar. A nossa fidelidade à promessa está sempre confiada à graça e à misericórdia de Deus. O amor pela família humana, na boa e má sorte, é um ponto de honra para a Igreja! Deus nos conceda que estejamos à altura desta promessa. E rezemos também pelos Padres do Sínodo: o Senhor abençoe o seu trabalho, desempenhado com fidelidade criativa, na confiança de que Ele - em primeiro lugar, o Senhor…Ele em primeiro lugar! - é fiel às suas promessas. Obrigado.  (cf. Santa Sé)

 

PARA REZAR


SALMO 125

Refrão: O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.

Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,
parecia-nos viver um sonho.
Da nossa boca brotavam expressões de alegria
e dos nossos lábios cânticos de júbilo. 

Diziam então os pagãos:
«O Senhor fez por eles grandes coisas».
Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,
estamos exultantes de alegria. 

Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,
como as torrentes do deserto.
Os que semeiam em lágrimas
recolhem com alegria. 

À ida vão a chorar,
levando as sementes;
à volta vêm a cantar,
trazendo os molhos de espigas.

SANTOS POPULARES


BEATA IRENE MERCEDES STEFANI

Aurélia Mercedes Stefani nasceu em Anfo, na província de Bréscia, Itália, no dia 22 de Agosto de 1891. Foi baptizada no dia seguinte e cresceu numa família muito católica. Aos treze anos disse aos seus pais: "Vou ser missionária." Em 1905, aconteceu um facto curioso: um Missionário da Consolata, o Pe Ângelo Bellani, passou por Anfo. Mercedes - como era conhecida por todos - que tinha apenas 14 anos, queria ir imediatamente para o convento e fazer-se freira missionária. O pai opôs-se, não autorizando a sua ida: era ainda muito jovem, ainda uma criança, e o seu desejo não passava de uma ilusão momentânea. O Padre Capitanio, pároco de Anfo, no entanto, acreditou na sinceridade da sua vocação e, em 5 de Maio de 1911, escreveu uma carta para Turim, dirigida ao cónego Padre José Allamano, fundador do Instituto dos Missionários da Consolata. Por fim, o pai cedeu e, a contragosto, deu a sua permissão.
No dia 19 Junho de 1911, Mercedes partiu para Turim, onde se inseriu, perfeitamente, no novo Instituto fundado pelo Reitor do Santuário da Consolata, sobrinho de São José Cafasso. Em 28 de Janeiro de 1912, celebrou a sua “tomada de hábito” e mudou o seu nome, assumindo o nome Irene: Irmã Irene. Concluiu o noviciado dois anos mais tarde, em 24 de Janeiro 1914, e emitiu os votos pelas mãos do Beato Allamano. Em 28 de Dezembro de 1914, partiu para África. Chegou a Mombasa, no Quénia, no dia 31 de Janeiro de 1915 e exclamou: "Tokumye Yesu Kristo!" que quer dizer: "Louvado seja Jesus Cristo!" Naquele momento, esta era a única frase que sabia dizer na língua kikuyu.
Começou logo a trabalhar e a sua primeira preocupação foi evangelizar: levando Cristo – ela bem o sabia, graças aos ensinamentos do mestre Allamano - chegaria também a civilização, como sempre aconteceu. A sua catequese foi a da Tradição da Igreja: Deus amou tanto os homens que lhes deu o seu Filho unigénito, para que todos os homens sejam salvos; acreditar é oferecer-se a Deus com a mente, com o coração e com as obras; a única riqueza que se deve guardar é a alma espiritual e imortal; o único mal de que devemos ter medo é o pecado que recusa Deus e arruína a alma; o diabo existe e é preciso, com todas as forças, vencer as tentações; a morte não é uma fatalidade, mas passagem para a vida verdadeira, "entrada feliz na Casa de Deus ou queda ruinosa no fogo do inferno, de acordo com o julgamento que Deus fará de cada um de nós", assim explica, no livro “À luz de uma candeia”, a irmã Gian Paola Mina, missionária da Consolata e a primeira biógrafa da Irmã Irene Stefani. "Para a Irmã Irene, a vida é um olhar para o alto e, por isso, a grande visão do Céu permeia todas as suas cartas com o anúncio da Ressurreição que, já na Igreja primitiva, tinha influenciado um novo conceito de vida e de morte, dando força incrível aos mártires: … ‘Se Cristo ressuscitou, nós também ressuscitaremos com Ele '.
A partir da sua correspondência, é possível realçar a fé e a caridade que permeava a vida da Irmã Irene, como, mostra a carta enviada, em 1928, a Filipe Warothe, um cristão de Ghekondi, que trabalhava em Nairobi: "Caro Filipe: peço-te para cuidares dos nossos cristãos que chegam aí. Tu conheces bem a situação de Nairobi e sabes, também, quantos perigos existem aí, pelo que os nossos cristãos, correm o risco de se perder. Cuida das suas almas e, procura, também, obter ajuda para a igreja. São duas coisas que não podem ser separadas: o coração dos homens e o templo material. De facto, o Espírito Santo revelou que Deus habita no coração dos homens bons. Sabes que se fizeres o que te peço, terás realizado uma obra verdadeiramente apostólica. Pensa como o Senhor é bom para connosco: por uma coisa pequena que lhe damos, Ele recompensa-nos com um prémio tão grande que ultrapassa a nossa imaginação. Além disso, não basta que um se torne rico: é preciso enriquecer todos os outros: falo da verdadeira riqueza, a única que é necessária, a riqueza da alma. Tu, portanto, deves instruir os outros para darem o seu contributo para as necessidades da Igreja, como tu foste beneficiado pelos seus sacerdotes... ".
Durante a Primeira Guerra Mundial, a Irmã Irene ajudou - no hospital militar, em Kilwa Kivinje, na Tanzânia - os transportadores ou carregadores indígenas, vítimas da fome e da peste. A Irmã Irene, bela e sorridente, cuida de todos com amor materno e infinita doçura, guardando tudo no seu coração, como Maria. Em 1920, vai para Ghekondi, onde começou a trabalhar na escola. Quando não estava a ensinar, andava de palhota em palhota, com o rosário na mão e, enquanto passava as contas e rezava a ‘Ave Maria’, procurava novos alunos para a alfabetização mas, também, mães em dificuldade, idosos a quem levar Jesus e auxílio... e baptizava. Nos anos de missão, a Irmã Irene obteve muitas conversões e baptizou cerca de quatro mil pessoas. Um apostolado silencioso, mas muito fértil. Para os doentes e as pessoas de Ghekondi - que a vê sempre pronta a acudir, a ajudar, a cuidar, a ensinar com uma sensibilidade angélica - a Irmã Irene é Nyaata, que significa "Mãe de Misericórdia". Desta mãe permaneceram, como relíquia, sinal e símbolo emblemático do seu apostolado, as botas que usou para percorrer quilómetros e quilómetros, a pé e depressa, de dia e de noite, com alegria ou cansaço, com o único objectivo da salvar as almas.
Uma manhã, entrando num acampamento militar, encontrou uma cama vazia, pertencente a um certo Athiambo, um homem que ela estava a preparar para o baptismo. Perguntou por ele e disseram-lhe que estava na praia, junto de outros cadáveres. Ela não desistiu. Correu à praia e, encontrando-o ainda vivo, levou-o para longe da maré e baptizou-o; depois, correu depressa ao hospital e voltou com uma maca e dois carregadores. À Irmã Cristina Moresco, sua companheira, que lhe perguntou se não tinha sentido nojo ao tocar naqueles cadáveres para encontrar Athiambo, a Irmã Irene respondeu: "Na verdade, sim; mas eu não pensava senão na alma".
Em 14 de Setembro 1930, foi a Nyeri, para participar num retiro. Foi aqui que aconteceu uma coisa extraordinária, verdadeiramente mística: a Irmã Irene viu toda a sua vida como num filme... e Jesus falou-lhe, comunicando-lhe palavras que, na sua alma missionária, a marcaram como um fogo: "O pecado crucifica Jesus, novamente. É melhor mil mortes que um só pecado…Esquece tudo... Esvazia-te de ti mesma… Ser missionária é o mesmo que ser apóstolo, virgem, mártir…"
Neste contexto inteiramente sobrenatural, a Irmã Irene Stefani amadureceu a sua oferta, a sua oblação: para o bem das missões e para a salvação das almas não é suficiente trabalhar como o fazia até agora; devia dar toda a sua vida.
A Irmã Irene revelou, à sua Superiora, a sua vontade de oferecer toda a sua vida, em sacrifício, pela salvação das almas. Mas, a Superiora, não lhe permitiu este seu acto de heroicidade. Então, recomeçou a trabalhar com mais zelo e eficiência do que antes. No entanto, a Irmã Irene não desistiu e, muitas vezes, voltou a interrogar a sua Superiora acerca daquele desejo que a assaltava constantemente: dar a vida pelas missões. Por fim, a Superiora cedeu.
Então, em Ghekondi, surgiu uma epidemia de peste. A Irmã Irene acorria, prontamente, a oferecer a sua ajuda, o seu conforto e a sua oração. No Domingo, dia 26 de Outubro de 1930, Festa de Cristo Rei, a Irmã, durante a missa, acusou os primeiros sintomas da peste. A Irmã Margarida Maria Durando ficou de vigília, durante todas as noites, e sugeriu-lhe uma pequenina oração: "Coração de Jesus, vítima de caridade, faz-me para Ti hóstia pura, santa e agradável a Deus". Na sua fragilidade, a Irmã Irene repetia, vezes sem conta, aquela oração de entrega e de confiança. No dia 31 de Outubro de 1930, morreu, com 39 anos, e com o nome de Jesus, José e Maria nos lábios. Com São Paulo, ela podia dizer: "Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo o custo. Faço tudo por causa do Evangelho "(1 Cor 9,22-23).
“Foi o amor que a matou” logo comentaram os africanos. Era o selo de uma existência toda marcada pela caridade heroica, que emanava da constante e profunda busca da santidade. Expressou este anseio nas suas últimas palavras: “sou toda de Jesus, de Maria, de São José, agora e sempre por toda a eternidade”
A Irmã Irene Stefani morreu com uma grande fama de santidade, que permaneceu sempre viva, testemunhada com vivacidade, mesmo à distância de mais de cinquenta anos.
A Irmã Irene Mercedes Stefani foi beatificada pelo Papa Francisco, no dia 23 de Maio de 2015, numa celebração eucarística, em Nyeri,  presidida pelo Arcebispo de Nairobi, o cardeal John Njue, em representação do Papa. 
A sua memória litúrgica celbra-se no dia 31 de Outubro.

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

EM DESTAQUE


- MUDANÇA DA HORA

No próximo Domingo, 25 de Outubro, faz-se a mudança da hora. Entramos na chamada “hora de inverno”: os relógios devem ser atrasados uma hora, às 2 horas de Domingo.

Na Igreja Matriz, a partir de Domingo, a missa da tarde, ao Domingo e durante a semana, passa a celebrar-se às 18,00 horas. Ao Sábado, mantém-se a hora habitual: 18,30 h.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


 
- na Audiência-Geral, no dia 14 de Outubro, na Praça de São Pedro - Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Dado que, para hoje, as previsões meteorológicas eram um pouco incertas - previa-se chuva -, esta audiência realiza-se, ao mesmo tempo, em dois lugares: nós, aqui na praça e, na sala Paulo VI, onde se encontram setecentos enfermos que seguem a audiência através de um grande ecrã. Todos estamos unidos; saudemo-los com um aplauso!
Hoje a palavra de Jesus é forte: «Ai do mundo por causa dos escândalos!». Jesus é realista e diz: «É inevitável que haja escândalos, mas ai do homem por causa do qual se verifica o escândalo». Antes de dar início à catequese, em nome da Igreja, gostaria de vos pedir perdão pelos escândalos que nestes últimos tempos ocorreram tanto em Roma, como no Vaticano. Peço-vos perdão!
Hoje, meditaremos sobre um tema muito importante: as promessas que fazemos às crianças. Não me refiro tanto às promessas que fazemos aqui e ali, durante o dia, para os contentar ou para que se comportem bem (talvez com algum pequeno truque inocente: dou-te um doce, e promessas semelhantes...), para os encorajar a aplicar-se na escola ou para os dissuadir de algum capricho. Refiro-me a outras promessas, às promessas mais importantes e decisivas para as suas expectativas em relação à vida, para a sua confiança nos seres humanos, para a sua capacidade de conceber o nome de Deus como uma bênção. São promessas que nós lhes fazemos.
Nós, adultos, estamos prontos para falar das crianças como de uma promessa de vida. Todos nós dizemos: as crianças são uma promessa de vida. E também nos comovemos facilmente, dizendo que os jovens são o nosso porvir; é verdade! Mas às vezes pergunto-me se somos igualmente sérios em relação ao seu futuro, ao porvir das crianças, ao futuro dos jovens! Eis uma pergunta que deveríamos fazer com frequência: quão leais somos às promessas que fazemos às crianças, permitindo-lhes que venham ao nosso mundo? Nós fazemo-las vir ao mundo, e esta é uma promessa; mas o que lhes prometemos?
Acolhimento e cuidado, proximidade e atenção, confiança e esperança são outras promessas básicas, que se podem resumir numa só: amor. Nós prometemos amor, ou seja, amor que se expressa no acolhimento, no cuidado, na proximidade, na atenção, na confiança e na esperança, mas a grande promessa é o amor. Este é o modo mais recto de receber um ser humano que vem ao mundo, e todos nós o aprendemos ainda antes de adquirirmos consciência acerca disto. Quando passo entre vós, gosto muito de ver os pais e as mães que me trazem um menino, uma menina pequeninos e pergunto: «Qual é a sua idade?» — «Três, quatro semanas... peço a bênção do Senhor!». Também isto se chama amor. O amor é a promessa que o homem e a mulher fazem a cada filho: desde que o concebem no pensamento. As crianças vêm ao mundo e esperam o cumprimento desta promessa: esperam-no de modo total, confiante, indefeso. É suficiente observá-las: em todas as etnias, em todas as culturas, em todas as condições de vida! Quando acontece o contrário, as crianças são feridas por um «escândalo», por um escândalo insuportável, ainda mais grave porque não dispõem dos meios para o decifrar. Não conseguem entender o que acontece. Deus vela sobre esta promessa, desde o primeiro instante. Recordais o que diz Jesus? Os Anjos das crianças reflectem o olhar de Deus, e Deus nunca perde de vista as crianças (cf. Mt 18, 10). Ai daqueles que traem a sua confiança, ai deles! O seu abandono confiante à nossa promessa, que nos compromete desde o primeiro instante, julga-nos.
E gostaria de acrescentar mais um aspecto, com muito respeito por todos, mas também com muita franqueza. A sua confiança espontânea em Deus nunca deveria ser ferida, sobretudo quando isto acontece por causa de uma certa presunção (mais ou menos inconsciente) de se substituir a Ele. A relação terna e misteriosa de Deus com a alma das crianças nunca deveria ser violada. Trata-se de uma relação real, que Deus deseja e preserva. A criança está pronta desde o seu nascimento para se sentir amada por Deus; está pronta para isto. Assim que se torna capaz de sentir que é amado por si mesmo, o filho sente também que existe um Deus que ama as crianças.
Recém-nascidas, as crianças começam a receber em dom, juntamente com o alimento e os cuidados, a confirmação das qualidades espirituais do amor. Os gestos de amor passam através do dom do seu nome pessoal, da partilha da linguagem, das intenções dos olhares, das iluminações dos sorrisos. Assim, aprendem que a beleza do vínculo entre os seres humanos aposta na nossa alma, procura a nossa liberdade, aceita a diversidade do outro, reconhece-o e respeita-o como interlocutor. Um segundo milagre, uma segunda promessa: nós — pai e mãe — entregamo-nos a ti, para te doar a ti mesmo! E isto é amor, que contém uma centelha do amor de Deus! Mas vós, pais e mães, tendes em vós esta centelha de Deus, que transmitis aos vossos filhos; vós sois instrumento do amor Deus, e isto é deveras bonito!
Somente se fitarmos as crianças com o olhar de Jesus conseguiremos compreender deveras em que sentido, defendendo a família, salvaguardamos a humanidade! O ponto de vista das crianças é o ponto de vista do Filho de Deus. No Baptismo, a própria Igreja faz grandes promessas às crianças, comprometendo assim os pais e a comunidade cristã. A santa Mãe de Jesus — por meio da qual o Filho de Deus veio até nós, amado e gerado como um Menino — torne a Igreja capaz de seguir o caminho da sua maternidade e da sua fé. E são José — homem justo, que o acolheu e protegeu, honrando intrepidamente a bênção e a promessa de Deus — nos torne todos capazes e dignos de hospedar Jesus em cada criança que Deus envia à terra. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 32

Refrão: Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

SANTOS POPULARES


BEATO CARLOS I DA ÁUSTRIA

Carlos de Áustria nasceu no dia 17 de Agosto de 1887, no Castelo de Persenbeug, na região da Áustria Inferior. Os seus pais eram o Arquiduque Otto Francisco da Áustria e a Princesa Maria Josefina da Saxónia, filha do último Rei da Saxónia. O Imperador Francisco José I era o tio-avô de Carlos.
Carlos recebeu uma educação verdadeiramente católica e, até ao fim da adolescência, foi acompanhado pela oração de um grupo de pessoas, uma vez que uma religiosa estigmatizada lhe tinha profetizado grandes sofrimentos e ataques contra ele. Desta “cadeia de oração” surgiu, depois da morte de Carlos, a «Liga de oração do imperador Carlos, para a paz dos povos» que, em 1963, se tornou numa comunidade de oração reconhecida pela Igreja.
Bem cedo, cresceu em Carlos um grande amor pela Eucaristia e pelo Coração de Jesus. Carlos rezava sempre, pedindo a luz do Espírito Santo, antes de todas as decisões importantes.
No dia 21 de Outubro de 1911, Carlos casou com a Princesa Zita de Bourbon e Parma. Nos dez anos da sua vida matrimonial, formaram um casal imensamente feliz e extraordinariamente exemplar, que recebeu o dom de oito filhos. No seu leito da morte, Carlos dizia ainda a Zita: «Amo-te sem limites!».
Em 28 de Junho de 1914, após o assassinato, num atentado, do Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono – acontecimento que originou a Primeira Guerra Mundial -, Carlos tornou-se o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Com a morte do Imperador Francisco José, a 21 de Novembro de 1916, Carlos tornou-se Imperador da Áustria. No dia 30 de Dezembro é, também, coroado Rei apostólico da Hungria.
A missão e serviço de governar foram entendidos pelo Imperador Carlos como um caminho para seguir e servir Cristo: no amor pelos povos a ele confiados, no empenho pelo seu bem e no dom da sua vida por eles. O dever mais sagrado de um Rei - o empenho pela paz - foi colocado por Carlos no centro das suas preocupações, no decorrer da terrível guerra. Único entre todos os responsáveis políticos, apoiou os esforços para a paz protagonizados pelo Papa Bento XV.
No que diz respeito à política interna, mesmo nos tempos extremamente difíceis, encetou uma ampla e exemplar legislação social, inspirada no ensinamento social cristão.
O seu comportamento tornou possível, no final do conflito, uma transição para uma nova ordem sem guerra civil. Todavia, foi banido da sua própria pátria. Carlos foi obrigado a abdicar do trono Austro-Húngaro no dia 11 de Novembro de 1918.
Depois de viver algum tempo na Suíça, Carlos foi mandado para o exílio: o seu destino foi a Ilha da Madeira.
Reduzido à pobreza, viveu com a sua família numa casa extremamente humilde e bastante húmida. Por isso, adoeceu gravemente, aceitando a doença como um sacrifício pela paz e pela unidade dos seus povos.
Carlos suportou o seu sofrimento sem lamentações, perdoando a todos aqueles que o tinham magoado e ofendido.
Carlos I, imperador da Áustria morreu no dia 1 de Abril de 1922, com seu o olhar dirigido para o Santíssimo Sacramento e o seu coração entregue a Jesus. Carlos, no leito da morte, recordava, constantemente, o lema da sua vida: «Todo o meu empenho é sempre, em todas as coisas, conhecer o mais claramente possível e seguir a vontade de Deus, e isto da forma perfeita».
Carlos da Áustria foi beatificado, no dia 3 de Outubro de 2004, pelo Papa João Paulo II. O dia litúrgico da sua memória é 21 de Outubro.  

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

EM DESTAQUE



- DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

A Igreja celebra, no próximo Domingo, 18 de Outubro, o Dia Mundial das Missões, chamando a atenção dos fiéis para a importância da evangelização dos povos e para a necessidade da oração como força espiritual para a fidelidade à vocação original dos que acreditam em Jesus. Decorrendo o Ano da Vida Consagrada, o Papa Francisco centrou a sua mensagem na dimensão missionária da vida consagrada.

 

DA MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

“Neste ano de 2015, o Dia Mundial das Missões tem como pano de fundo o Ano da Vida Consagrada, que serve de estímulo para a sua oração e reflexão. Na verdade, entre a vida consagrada e a missão subsiste uma forte ligação, porque, se todo o baptizado é chamado a dar testemunho do Senhor Jesus, anunciando a fé que recebeu em dom, isto vale de modo particular para a pessoa consagrada. O seguimento de Jesus, que motivou a aparição da vida consagrada na Igreja, é resposta à chamada para se tomar a cruz e segui-Lo, imitar a sua dedicação ao Pai e os seus gestos de serviço e amor, perder a vida a fim de a reencontrar. E, dado que toda a vida de Cristo tem carácter missionário, os homens e mulheres que O seguem mais de perto assumem plenamente este mesmo carácter.
A dimensão missionária, que pertence à própria natureza da Igreja, é intrínseca também a cada forma de vida consagrada, e não pode ser transcurada sem deixar um vazio que desfigura o carisma. A missão não é proselitismo, nem mera estratégia; a missão faz parte da «gramática» da fé, é algo de imprescindível para quem se coloca à escuta da voz do Espírito, que sussurra «vem» e «vai». Quem segue Cristo não pode deixar de tornar-se missionário, e sabe que Jesus «caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 266).
A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas. Quando nos detemos em oração diante de Jesus crucificado, reconhecemos a grandeza do seu amor, que nos dignifica e sustenta e, simultaneamente, apercebemo-nos de que aquele amor, saído do seu coração trespassado, estende-se a todo o povo de Deus e à humanidade inteira; e, precisamente deste modo, sentimos também que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado (cf. Ibid., 268) e de todos aqueles que O procuram de coração sincero. Na ordem de Jesus – «Ide» –, estão contidos os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Nesta, todos são chamados a anunciar o Evangelho pelo testemunho da vida; e, de forma especial aos consagrados, é pedido para ouvirem a voz do Espírito que os chama a partir para as grandes periferias da missão, entre os povos onde ainda não chegou o Evangelho.(…) Para viver o testemunho cristão e os sinais do amor do Pai entre os humildes e os pobres, os consagrados são chamados a promover, no serviço da missão, a presença dos fiéis leigos. Como já afirmava o Concílio Ecuménico Vaticano II, «os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos» (Ad gentes, 41). É necessário que os consagrados missionários se abram, cada vez mais corajosamente, àqueles que estão dispostos a cooperar com eles, mesmo durante um tempo limitado numa experiência ao vivo. São irmãos e irmãs que desejam partilhar a vocação missionária inscrita no Baptismo. As casas e as estruturas das missões são lugares naturais para o seu acolhimento e apoio humano, espiritual e apostólico.
As Instituições e as Obras Missionárias da Igreja estão postas totalmente ao serviço daqueles que não conhecem o Evangelho de Jesus. Para realizar eficazmente este objectivo, aquelas precisam dos carismas e do compromisso missionário dos consagrados, mas também os consagrados precisam duma estrutura de serviço, expressão da solicitude do Bispo de Roma para garantir de tal modo a ‘koinonia’ que a colaboração e a sinergia façam parte integrante do testemunho missionário. Jesus colocou a unidade dos discípulos como condição para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). A referida convergência não equivale a uma submissão jurídico-organizativa a organismos institucionais, nem a uma mortificação da fantasia do Espírito que suscita a diversidade, mas significa conferir maior eficácia à mensagem evangélica e promover aquela unidade de intentos que é fruto também do Espírito. (…) Queridos irmãos e irmãs, a paixão do missionário é o Evangelho. São Paulo podia afirmar: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). O Evangelho é fonte de alegria, liberdade e salvação para cada homem. Ciente deste dom, a Igreja não se cansa de anunciar, incessantemente, a todos «O que existia desde o princípio, O que ouvimos, O que vimos com os nossos olhos» (1  Jo 1, 1). A missão dos servidores da Palavra – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – é colocar a todos, sem excluir ninguém, em relação pessoal com Cristo. No campo imenso da actividade missionária da Igreja, cada baptizado é chamado a viver o melhor possível o seu compromisso, segundo a sua situação pessoal. Uma resposta generosa a esta vocação universal pode ser oferecida pelos consagrados e consagradas através duma vida intensa de oração e união com o Senhor e com o seu sacrifício redentor.

Ao mesmo tempo que confio a Maria, Mãe da Igreja e modelo de missionaridade, todos aqueles que - ‘ad gentes’ ou no próprio território, em todos os estados de vida - cooperam no anúncio do Evangelho, de coração, concedo a cada um a Bênção Apostólica.”

 

- CELEBRAÇÃO DO CRISMA

Neste Sábado, dia 10 de Outubro, houve celebração do Crisma, na Igreja Matriz. Os 91 crismados eram da Paróquia de Escapães e desta Paróquia da Feira ( da Igreja Matriz e da Igreja dos Passioniostas). Presidiu à celebração o Sr. D. João Lavrador, até agora Bispo auxiliar do Porto, nomeado pelo Papa Francisco Bispo Coadjutor de Angra do Heroísmo, nos Açores.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 7 de Outubro, na Praça de São Pedro - Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Há poucos dias começou o Sínodo dos Bispos sobre o tema «A vocação e missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». A família que caminha na vereda do Senhor é fundamental no testemunho do amor de Deus e por isso merece toda a dedicação da qual a Igreja é capaz. O Sínodo é chamado a interpretar, hoje, esta solicitude e este cuidado da Igreja. Acompanhemos todo o percurso sinodal antes de tudo com a nossa oração e atenção. E neste período as catequeses serão reflexões inspiradas por alguns aspectos da relação — que podemos dizer indissolúvel! — entre a Igreja e a família, com o horizonte aberto para o bem de toda a comunidade humana.
Um olhar atento à vida quotidiana dos homens e das mulheres de hoje demonstra imediatamente a necessidade que há, em toda a parte, de uma vigorosa injecção de espírito familiar. Com efeito, o estilo das relações — civis, económicas, jurídicas, profissionais, de cidadania — parece muito racional, formal, organizado, mas também muito «desidratado», árido, anónimo. Às vezes torna-se insuportável. Não obstante deseje ser inclusivo nas suas formas, na realidade abandona à solidão e ao descarte um número cada vez maior de pessoas.
Eis por que razão a família abre à sociedade inteira uma perspectiva muito mais humana: abre os olhos dos filhos para a vida — e não apenas a vista, mas também todos os outros sentidos — representando uma visão da relação humana edificada sobre a livre aliança de amor. A família introduz na necessidade de vínculos de fidelidade, sinceridade, confiança, cooperação e respeito; encoraja a programar um mundo habitável e a acreditar nos relacionamentos de confiança, até em condições difíceis; ensina a honrar a palavra dada, o respeito pelas pessoas na sua individualidade, a partilha dos limites pessoais e dos outros. E todos nós estamos conscientes da insubstituibilidade da atenção familiar aos membros mais pequeninos, mais vulneráveis, mais feridos e inclusive mais desastrados nos comportamentos da sua vida. Na sociedade, quem pratica estas atitudes, assimilou-as a partir do espírito familiar, certamente não da competição nem do desejo de auto-realização.
Pois bem, mesmo ciente de tudo isto, não se dá à família o devido peso — reconhecimento e apoio — na organização política e económica da sociedade contemporânea. Gostaria de dizer algo mais: a família não só não recebe um reconhecimento adequado, mas não gera ulterior aprendizagem! Às vezes, poder-se-ia dizer que, com toda a sua ciência e técnica, a sociedade moderna ainda não é capaz de traduzir estes conhecimentos em formas melhores de convivência civil. Não só a organização da vida comum se encalha cada vez mais numa burocracia totalmente alheia aos vínculos humanos fundamentais, mas até o costume social e político dá frequentemente sinais de degradação — agressividade, vulgaridade, desprezo... — que estão muito abaixo do limite de uma educação familiar até mínima. Nesta conjuntura, os extremos opostos desta brutalização das relações — ou seja, a obtusidade tecnocrática e o familismo amoral — unem-se e alimentam-se reciprocamente. Este é um paradoxo!
Hoje, neste ponto exacto, a Igreja identifica o sentido histórico da sua missão a respeito da família e do autêntico espírito familiar: começando por uma atenta revisão de vida, que se refere a si mesma. Poder-se-ia dizer que o «espírito familiar» é uma carta constitucional para a Igreja: assim o cristianismo deve parecer e deve ser. Está escrito claramente: «Vós que estáveis longe — diz são Paulo — [...] já não sois hóspedes nem peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Ef 2, 17.19). A Igreja é e deve ser a família de Deus.
Quando chamou Pedro a segui-lo, Jesus disse-lhe que o levaria a tornar-se «pescador de homens»; e para isto é preciso um novo tipo de rede. Poderíamos dizer que hoje as famílias são uma das redes mais importantes para a missão de Pedro e da Igreja. Esta não é uma rede que aprisiona! Pelo contrário, liberta das águas negativas do abandono e da indiferença, que afogam muitos seres humanos no mar da solidão e da indiferença. As famílias sabem bem o que é a dignidade do sentir-se filhos, não escravos nem estrangeiros, nem sequer só um número de bilhete de identidade.
A partir daqui, da família, Jesus recomeça a sua passagem entre os seres humanos, para os persuadir que Deus não se esqueceu deles. Daqui Pedro adquire vigor para o seu ministério. Daqui a Igreja, obedecendo à palavra do Mestre, sai para pescar no lago convicta de que, se o fizer, a pesca será milagrosa. Possa o entusiasmo dos Padres sinodais, animados pelo Espírito Santo, fomentar o impulso de uma Igreja que abandona as velhas redes, voltando a pescar com confiança na palavra do seu Senhor. Oremos intensamente por isto! Aliás, Cristo prometeu e encoraja-nos: se nem sequer os maus pais deixam de dar o pão aos filhos famintos, muito menos Deus deixará de infundir o Espírito em quantos — mesmo imperfeitos como são — lho pedirem com insistência apaixonada (cf. Lc 11, 9-13)!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 89

Refrão: Enchei-nos da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.

Manifestai a vossa obra aos vossos servos
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.

SANTOS POPULARES


BEATO JORGE (JERZY) POPIELUSZKO

Jorge nasceu no dia 14 de Setembro de 1947, na aldeia de Okopy, na região de Białystok, Polónia. Os seus pais, Mariana e Vladislau, trabalhavam na agricultura. As condições de vida eram difíceis, mas o casal Popieluszko criou os filhos com muito cuidado. Católicos fervorosos, em primeiro lugar estava o Senhor, a Santa Missa e a oração em família. Jorge decidiu ir para o Seminário depois de ter terminado o ensino secundário. O chamamento ao sacerdócio levou-o a entrar no Seminário Arquidiocesano de Varsóvia, em 1965. Foi ordenado sacerdote no dia 28 de Maio de 1972.
Durante o seu ministério sacerdotal realizou imensas tarefas apostólicas. Em Fevereiro de 1979, foi nomeado capelão dos médicos católicos de Varsóvia. Dedicou-se, com muita atenção, às questões da defesa da vida dos nascituros e da necessidade de verdadeira às mulheres grávidas, sobretudo às que se encontravam em situações difíceis. No domingo, 31 de Agosto de 1980, quando o país inteiro estava paralisado por uma onda de greves, os trabalhadores dos estaleiros de Huta - que estavam em protesto, em Varsóvia - procuraram um sacerdote que pudesse celebrar a santa missa nas suas instalações. O Cardeal Wyszyński, acompanhado pelo seu secretário e sem qualquer plano prévio, parou em frente da Igreja de Santo Estanislau Kostka. Ali, constatou que apenas o padre Popiełuszko poderia ir. Este episódio poderia parecer um acaso mas, naquele momento, começou a grande aventura do ministério espiritual do Padre Popieluszko em favor do povo trabalhador da Polónia. Depois da missa, o Padre Jorge ficou nos estaleiros até à noite e, a partir daí, começou a vir várias vezes por semana.
Desde o início da agitação laboral, na Polónia, o Padre Popiełuszko foi "alvo" dos Serviços Secretos da República Popular da Polónia. Várias vezes, os agentes invadiram o presbitério. Várias vezes, esteve preso. Foi por milagre que escapou da condenação de uma prisão mais prolongada. Ao ficar em liberdade, ocupou-se, com devoção, à organização de ajuda aos presos, às suas famílias e todos que se encontravam em situação difícil.
O Padre Popiełuszko gostava das pessoas; interessava-se por cada uma, pela sua vida, pelas suas ideias, pelos seus problemas. Atraía-as para si porque sentiam a sua bondade. Foi mestre em estabelecer contactos, construir relacionamentos, criar laços… Apoiava todos os que andavam à procura de realização ou sofriam de isolamento. Ajudava, com um carinho especial, aqueles que precisavam de tratamento psiquiátrico, chegando a pagar os tratamentos aos que não tinham possibilidade, uma vez que eram muito caros. Sem temer as dificuldades, intercedia por aqueles que eram os mais oprimidos, defendendo a sua dignidade humana.
Como escreveu o Papa João Paulo II, na Encíclica ‘Veritas Splendor’, os mártires são os guardiões “da fronteira entre a verdade e a mentira”. O Padre Popiełuszko defendeu, durante toda a sua vida, uma fronteira clara entre a verdade e a mentira. Falava do valor da verdade e da mediocridade das mentiras apoiadas em muitas palavras que, mesmo assim, desapareciam rapidamente. Nos seus sermões, falou muito sobre a liberdade; ressaltava, constantemente, que a liberdade não significava anarquia, isto é, fazer tudo o que se quisesse, mas, sim, a livre busca do bem: vencer o mal com o bem; recusar o ódio, a repressão e a vingança.
Na fidelidade à sua pregação, o Padre Popiełuszko, frequentemente, levava café quente aos policiais enregelados que, durante o inverno, em plena lei marcial, vigiavam a sua casa.
A partir de Fevereiro de 1982, começou a celebrar a missa pela Polónia, no último domingo de cada mês: a igreja enchia-se de multidões de fiéis que vinham rezar com ele e escutar a sua palavra: ouviam-no os trabalhadores, os professores, os opositores e até mesmo aqueles que pertenciam ao partido ao partido comunista polaco. Vinham de toda a Polónia e, de mês para mês, vinham mais e mais pessoas. Não é de admirar que, imediatamente, as autoridades aparecessem com atitudes provocatórias e intimidatórias. Nas ‘Missas pela Pátria’ ocorriam muitas conversões; muitos voltaram ao seio da Igreja depois de muitos anos, ou até depois de dezenas de anos; muitos pediram para ser baptizados.
Mês após mês, a atmosfera em volta do Padre Popiełuszko começou a ser cada vez mais tensa.
Era sempre seguido pela polícia; a sua residência estava constantemente vigiada; o seu telefone estava sob escuta e as suas chamadas eram sempre gravadas. Na imprensa surgiram escritos difamatórios. Passou muitas horas a ser ouvido, no posto policial.
Em Setembro de 1983, juntamente com Lech Walesa, organizou a primeira peregrinação de trabalhadores a Jasna Góra (o santuário mariano de Częstochowa ). Esta iniciativa ainda hoje se mantém. Um ano mais tarde, começaram a surgir os telefonemas anónimos, com ameaças: “Se fores novamente a Jasna Góra, vais morrer”.
Em 19 de Outubro de 1984, o Padre Popiełuszko foi para Bydgoszcz onde, na Igreja dos Santos Mártires Polacos, celebrou a Santa Missa. As suas últimas palavras foram: "Rezemos para que não nos deixemos dominar pelo medo e pela intimidação, mas principalmente do desejo de vingança e de violência." À noite, no caminho de regresso a casa, o carro do padre foi mandado parar, na estrada, por uma patrulha “policial”. Na verdade, vestidos com uniformes da milícia estavam os agentes dos Serviços Secretos: Grzegorz Piotrowski, Waldemar Chmielewski e Leszek Pękała. Tinham recebido, do seu comandante, Adão Pietruszka, ordens especiais que os isentaria de qualquer controle. O Padre Popieluszko foi amordaçado; foi espancado, com um bastão de madeira, até ficar inconsciente. O seu o corpo mutilado foi colocado num saco, cheio de pedras, e atirado ao rio Vístula, perto de uma barragem, na região de Włocławek. O corpo foi encontrado no dia 30 de Outubro. Durante este período, toda a Polónia rezou pelo regresso do Padre Jorge Popieluszko. A notícia do seu assassinato deu a volta ao mundo. O seu funeral, realizado no dia 3 de Novembro de 1984, reuniu cerca de 800 mil pessoas de todo o país. Dois dias depois, começaram a chegar à Cúria Diocesana de Varsóvia os primeiros pedidos para a sua beatificação.
Os lugares associados ao martírio do Padre Jorge Popiełuszko tornaram-se, rapidamente, lugares de peregrinação. Milhares e milhares de pessoas rezavam, depositavam flores e ascendiam velas no local do assassinato do padre Jorge. No dia 6 de Novembro de 1984, nesse lugar, foi levantada uma grande cruz, aí colocada pelos paroquianos de Bydgoszcz. Ao lugar onde foi sepultado, começaram a chegar multidões de peregrinos que, em fila, tinham de esperar várias horas para poderem rezar junto do seu túmulo. Muitas pessoas rezam ao Senhor por intercessão do Padre Jorge Popieluszko e, muitos, recebem graças especiais.
O Presidente Lech Kaczyński decidiu homenagear o Padre Popiełuszko, a título póstumo, com a mais alta condecoração polaca: a Ordem da Águia Branca.
No dia 6 de Junho de 2010, em Varsóvia, o Padre Jorge Popieluszko foi beatificado numa celebração presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, em representação do Papa Bento XVI. Uma semana depois, dia 13 de Junho, o Papa, na Audiência-Geral, em Roma, lembrando o testemunho de vida do Padre Popieluszko, disse: “…Exerceu o seu generoso e corajoso ministério junto de todos os que se empenhavam em favor da liberdade, a defesa da vida e da sua dignidade. Essa sua acção ao serviço do bem e da verdade era um sinal de contradição para o regime que então governava a Polónia. Foi o amor do Coração de Cristo que o levou a dar a vida, e o seu testemunho foi semente de uma nova primavera na Igreja e na sociedade…”.
A memória litúrgica do Beato Jorge Popieluszko celebra-se no dia 19 de Outubro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

EM DESTAQUE


 
 
- SÍNODO DOS BISPOS

Hoje, dia 4 de Outubro, iniciou, no Vaticano, o Sínodo dos Bispos. Durante três semanas debaterá a situação das famílias, na Igreja e na sociedade.
A assembleia convocada pelo Papa prossegue os trabalhos da reunião extraordinária de Outubro de 2014. As propostas e questões centrais da reunião consultiva de episcopados católicos estão presentes no documento de trabalho (instrumentum laboris), após uma nova consulta aos católicos de todo o mundo. O documento procura superar a aparente divisão entre “doutrina” e “misericórdia” que marcou alguns dos debates, afirmando que “a misericórdia é verdade revelada”; pede comunidades “acolhedoras” para os casais em dificuldade e em “risco de separação”, capazes de acompanhar também os divórcios, tendo em vista a protecção dos filhos. O texto lamenta a confusão sobre a “especificidade social” dos vários tipos de união, rejeitando o ‘casamento’ entre pessoas do mesmo sexo, pedindo respeito pela “dignidade” de todas as pessoas, “independentemente da sua tendência sexual”; alerta-se para as dificuldades que colocam as famílias em risco, desde as guerras e migrações à crise económica, falando em “órfãos sociais”.
A valorização da mulher, dos mais velhos e das pessoas com deficiência na família, contra “formas impiedosas de estigma e preconceito”, são outros temas em destaque, abordando-se também a crise demográfica e a “revolução biotecnológica” no campo da procriação, bem como o número de “abortos e esterilizações forçadas”.
O “Evangelho da Família, que inclui a defesa da “indissolubilidade” do Matrimónio, é proposto como um “ideal de vida”, apesar de todas as dificuldades sociais e culturais, para comunicar "a esperança".
Representam Portugal o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e o Bispo de Portalegre e Castelo Branco, D. Antonino Dias.
Na Eucaristia que abriu o Sínodo, o Papa francisco disse: “…Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade. A Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade ao seu Mestre como voz que grita no deserto, para defender o amor fiel e encorajar as inúmeras famílias que vivem o seu matrimónio como um espaço onde se manifesta o amor divino; para defender a sacralidade da vida, de toda a vida; para defender a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da capacidade que o homem tem de amar seriamente.
A Igreja é chamada a viver a sua missão na verdade que não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes. A verdade que protege o homem e a humanidade das tentações da auto-referencialidade e de transformar o amor fecundo em egoísmo estéril, a união fiel em ligações temporárias. «Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade» (Bento XVI, Enc.  Caritas in veritate, 3).
E a Igreja é chamada a viver a sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas – fiel à sua natureza de mãe – sente-se no dever de procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia; de ser «hospital de campanha», com as portas abertas para acolher todo aquele que bate pedindo ajuda e apoio; e mais, de sair do próprio redil ao encontro dos outros com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para a integrar e conduzir à fonte de salvação.
Uma Igreja que ensina e defende os valores fundamentais, sem esquecer que «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Mc 2, 27); e sem esquecer que Jesus disse também: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17). Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida…” (cf. Ecclesia e News.va)

 

- D. JOÃO LAVRADOR NOMEADO BISPO COADJUTOR DE ANGRA, AÇORES

Mensagem de gratidão do Sr. Bispo do Porto 

“Tu segue-Me” (Jo 21, 22)

Em 29 de Junho de 2008, o Padre João Evangelista Pimentel Lavrador, sacerdote do presbitério da diocese de Coimbra, era ordenado Bispo e enviado pelo Papa Bento XVI a servir a Igreja do Porto. Aqui trabalhou generosamente ao longo destes sete anos. Deus conhece todo o bem que aqui realizou numa entrega alegre, serena e feliz à missão.
Sabemos bem como foi importante para toda a diocese, para as comunidades paroquiais, para os movimentos apostólicos, para os serviços pastorais e para os secretariados diocesanos a sua presença no Porto, a sua palavra evangelizadora, o seu conselho prudente e o seu trabalho incansável.
Os leigos, os consagrados, os diáconos e os sacerdotes guardarão sempre a memória viva da sua proximidade fraterna e do seu testemunho episcopal.
É do Porto que, hoje, 29 de Setembro de 2015, o Papa Francisco chama o Sr. D. João para o enviar a servir a Igreja dos Açores, como Bispo Coadjutor da Diocese de Angra.
A disponibilidade diante da nova missão afirma e renova a comunhão com o Sucessor de Pedro, o Papa Francisco, a quem compete dar a cada Igreja os servidores de que, em cada momento, precisam. Assim cumpre, também, o desígnio de liberdade interior expresso no lema episcopal que escolheu para o seu ministério e que diariamente o convida a assumir como dirigidas a si as palavras de Jesus a Pedro: “Tu segue-ME” (Jo. 21, 22).
A Igreja do Porto acompanhará o senhor D. João com alegria, a Alegria do Evangelho, nossa missão; com amizade, a amizade que dele sempre recebeu; com gratidão, a gratidão que todos lhe devemos. A Igreja do Porto sentir-se-á, a partir de agora, mais unida na comunhão da oração e do afecto espiritual à Igreja dos Açores.
Quero, em nome da Igreja do Porto e em comunhão com todos os Bispos com quem o senhor D. João partilhou o ministério episcopal e a solicitude pastoral, dizer-lhe esta palavra fraterna e este testemunho agradecido.
Confiamos o senhor D. João ao Divino Salvador, Redentor do Mundo, padroeiro da sua Catedral e invocado na sua diocese como o Senhor Santo Cristo, para que seja sempre, nos Açores, Pastor segundo o Coração de Cristo, o Bom Pastor, como sempre o soube ser no Porto.

Porto, 29 de setembro de 2015
António Francisco, Bispo do Porto
(cf. Diocese do Porto)

Também nós, cristãos da Paróquia de Santa Maria da Feira, nos unimos em sincero agradecimento e rezamos pela fecundidade apostólica e pastoral do Sr. D. João Lavrador, na Diocese de Angra do Heroísmo.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


Amados irmãos e irmãs, bom dia!

A audiência de hoje será em dois lugares: aqui na praça e também na sala Paulo VI, onde se encontram numerosos doentes que a seguem através de um grande ecrã. Visto que o tempo está um pouco mau, preferimos que eles ficassem abrigados e mais tranquilos ali. Unamo-nos uns aos outros e saudemo-nos!

Nos últimos dias realizei a viagem apostólica a Cuba e aos Estados Unidos da América. Ela nasceu da vontade de participar no Encontro Mundial das Famílias, há tempos programado em Filadélfia. Este «núcleo originário» ampliou-se a uma visita aos Estados Unidos da América e à Sede central da Organização das Nações Unidas, e depois também a Cuba, que se tornou a primeira etapa do itinerário. Exprimo novamente o meu reconhecimento ao Presidente Castro, ao Presidente Obama e ao Secretário-Geral Ban Ki-moon pela hospitalidade que me reservaram. Agradeço de coração aos irmãos Bispos e a todos os colaboradores, o grande trabalho levado a cabo e o amor à Igreja que o animou.

«Misionero de la Misericordia»: foi assim que me apresentei em Cuba, uma terra rica de beleza natural, de cultura e de fé. A misericórdia de Deus é maior do que qualquer ferida, conflito e ideologia; e com este olhar de misericórdia consegui abraçar todo o povo cubano, na pátria e fora, para além de qualquer divisão. Símbolo desta profunda unidade da alma cubana é a Virgem da Caridade do Cobre, que precisamente há cem anos foi proclamada Padroeira de Cuba. Fui como peregrino ao Santuário desta Mãe de esperança, Mãe que guia pelo caminho de justiça, paz, liberdade e reconciliação.
Pude compartilhar com o povo cubano a esperança da realização da profecia de são João Paulo II: que Cuba se abra ao mundo, e o mundo se abra a Cuba. Não mais fechamentos, nem exploração da pobreza, mas liberdade na dignidade. Este é o caminho que faz vibrar o coração de numerosos jovens cubanos: não um percurso de evasão, de lucro fácil, mas de responsabilidade, de serviço ao próximo e de cuidado pela fragilidade. Um caminho que encontra forças nas raízes cristãs daquele povo, que sofreu em grande medida. Um caminho no qual encorajei de modo particular os sacerdotes e todos os consagrados, os estudantes e as famílias. Com a intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo faça crescer as sementes que pudemos lançar.

 De Cuba para os Estados Unidos da América: foi uma passagem emblemática, uma ponte que, graças a Deus, se vai reconstruindo. Deus sempre deseja construir pontes; somos nós que levantamos muros. E os muros desabam sempre!

E nos Estados Unidos fiz três etapas: Washington, Nova Iorque e Filadélfia.
Em Washington encontrei-me com as Autoridades políticas, com as pessoas simples, os Bispos, os sacerdotes, os consagrados e os mais pobres e marginalizados. Recordei que a grande riqueza daquele país e do seu povo está no património espiritual e ético. E assim desejei encorajar a dar continuidade à construção social, em fidelidade ao seu princípio fundamental, isto é, que todos os homens são criados iguais por Deus e dotados de direitos inalienáveis como a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Estes valores, compartilháveis por todos, encontram no Evangelho o seu pleno cumprimento, como evidenciou oportunamente a canonização do frade franciscano Junípero Serra, grande evangelizador da Califórnia. São Junípero indica o caminho da alegria: ir e partilhar com os outros o amor de Cristo. Esta é a senda do cristão, mas também de cada homem que conheceu o amor: não o conservar para si, mas dividi-lo com os outros. Foi a partir desta base religiosa e moral que nasceram e cresceram os Estados Unidos da América, e com esta base eles podem continuar a ser terra de liberdade e acolhimento, cooperando para um mundo mais justo e fraterno.
Em Nova Iorque pude visitar a Sede central da ONU e saudar os funcionários que aí trabalham. Dialoguei com o Secretário-Geral e com os Presidentes das últimas Assembleias Gerais e do Conselho de Segurança. Dirigindo-me aos Representantes das Nações, no sulco dos meus Predecessores, renovei o encorajamento da Igreja católica àquela Instituição e ao papel que desempenha na promoção do desenvolvimento e da paz, evocando de modo particular a necessidade do compromisso concorde e concreto no cuidado da criação. Reiterei também o apelo a pôr fim e a prevenir as violências contra as minorias étnicas e religiosas, e contra as populações civis.
Pela paz e pela fraternidade pudemos rezar no Memorial do Ground Zero, juntamente com os representantes das religiões, com os parentes de numerosas vítimas e com a população de Nova Iorque, tão rica de variedades culturais. E no Madison Square Garden celebrei a Eucaristia pela paz e pela justiça.
Tanto em Washington como em Nova Iorque pude encontrar-me com algumas realidades caritativas e educativas, emblemáticas do enorme serviço que as comunidades católicas — sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos — oferecem nestes campos.
O apogeu da viagem foi o Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, onde o horizonte se ampliou para o mundo inteiro, através do «prisma», por assim dizer, da família. A família, ou seja, a aliança fecunda entre o homem e a mulher, é a resposta ao grande desafio do nosso mundo, que constitui um duplo desafio: a fragmentação e a massificação, dois extremos que convivem e que se sustêm reciprocamente e, ao mesmo tempo, apoiam o modelo económico consumista. A família é a resposta porque representa a célula de uma sociedade que equilibra as dimensões pessoal e comunitária, e que ao mesmo tempo pode ser o modelo de uma gestão sustentável dos bens e dos recursos da criação. A família é a protagonista de uma ecologia integral, porque constitui o sujeito social primário, que contém no seu interior os dois princípios-base da civilização humana sobre a terra: o princípio de comunhão e o princípio de fecundidade. O humanismo bíblico apresenta-nos este ícone: o casal humano, unido e fecundo, posto por Deus no jardim do mundo, para o cultivar e preservar.

Desejo dirigir um agradecimento, fraternal e caloroso, a D. Chaput, Arcebispo de Filadélfia, pelo seu compromisso, piedade e entusiasmo, e pelo seu grande amor à família na organização deste evento. Vendo bem, não é um caso, mas é providencial que a mensagem, aliás o testemunho do Encontro Mundial das Famílias, tenha vindo neste momento dos Estados Unidos da América, ou seja, do país que no século passado alcançou o máximo desenvolvimento económico e tecnológico, sem renegar as suas raízes religiosas. Agora, estas raízes pedem para recomeçar a partir da família, para repensar e mudar o modelo de desenvolvimento, a bem de toda a família humana.  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 127

Refrão: O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida.

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião o Senhor te abençoe:
vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida;
e possas ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel.

 

SANTOS POPULARES


SÃO BRUNO

Bruno nasceu por volta de 1030, em Colónia, na Alemanha. Quase nada se sabe acerca da sua família, nem sequer o seu apelido, mas alguns elementos conhecidos indicam que era uma família com uma certa posição social, na época e no meio.
A única notícia biográfica de S. Bruno - redigida na Cartuxa, na primeira metade do séc. XII - não é muito extensa. Diz, sucintamente, que «Mestre Bruno, alemão, originário da ilustre Cidade de Colónia, nasceu de pais não desconhecidos. Tendo recebido uma sólida formação nas letras profanas e sagradas, tornou-se Cónego e Reitor da Escola da Igreja de Reims que não cede o primeiro lugar a nenhuma nas Gálias. Mestre Bruno deixou o mundo e fundou o Eremitério da Cartuxa que governou durante seis anos. O Papa Urbano II, de quem outrora havia sido professor, chamou-o para a Cúria Romana como preceptor e conselheiro nas coisas eclesiásticas. Mas, como ele não suportava nem a agitação nem o género de vida da Cúria; como ele ardia de amor pela solidão e quietudes perdidas, deixou a Cúria. Renunciando ao Arcebispado de Reggio, para onde havia sido eleito sob ordem do Papa, Mestre Bruno retirou-se para a Calábria, para um eremitério chamado ‘A Torre’. Rodeado por um grande número de leigos e clérigos realizou o seu propósito de vida solitária em todo o tempo que viveu. Morreu e foi sepultado aí cerca de dez anos depois do seu retiro, na Chartreuse».
Os primeiros anos de Bruno parecem ter sido vividos em Colónia; depois mudou-se para Reims, em França. Fez os seus primeiros estudos em Colónia, possivelmente na Escola Capitular de S. Cuniberto, da qual, mais tarde, veio a ser Cónego Honorário.
Ainda jovem, Bruno chegou a Reims. As escolas de Reims, sobretudo a Escola Catedral, tinham muita fama havia já alguns séculos, atraindo a si estudantes de toda a Europa. Gerbert, que um dia seria o Papa Silvestre II, tinha sido seu Reitor, entre 979 e 990, iluminando-a com o seu verdadeiro génio. Quando Bruno chegou, as escolas de Reims estavam no seu apogeu.
Em 1049 - Bruno era ainda estudante - aconteceu algo que marcaria para sempre o seu carácter: o Papa Leão IX, no contexto da sua reforma eclesial, convocou um Concílio, em Reims, que teve início no dia 3 de Outubro, com a presença do Papa Leão IX. O Concílio e o Sumo Pontífice empreendem, sobretudo, uma acção contra a simonia (compra e venda das coisas sagradas), promoção escandalosa de bispos, abades e beneficiados que permitia também a intromissão de “leigos” nos lugares, bens e assuntos da Igreja. O Papa e o Concílio depuseram e excomungaram alguns deles.
Em tempo de estudo e formação, ao despertar para a vida de acção, Bruno foi confrontado com esta realidade eclesial, através do Concílio. Profundamente religioso e recto, penetrado do espírito nobre da Sagrada Escritura e dos grandes princípios da Fé, reflectindo a situação da Igreja e a necessidade de reforma, Bruno depressa sintonizou com os sentimentos do Concílio de Reims neste esforço. Ele próprio, um dia, entraria na “luta” a que a necessidade de reforma das estruturas daria ocasião.
Entretanto, Bruno passou longos anos em Reims: primeiramente como estudante; depois, como professor e Mestre da Escola Catedral e, depois, acumulando com a sua nomeação para membro do Cabido da Catedral e seu Chanceler.
Entretanto, a reputação de Bruno era excelente e, em 1056, substituindo Mestre Hérimann, foi nomeado Mestre da Escola de Reims. O agora Mestre Bruno teria, nesta altura, cerca de 28 anos de idade o que, a priori, faz sobressair as suas qualidades de estudante e de professor. Os testemunhos dos contemporâneos de Bruno atestam isso mesmo; Guibert de Nogent afirmou ter sido Bruno ‘um magnífico professor da Escola da Catedral de Reims’.
O Arcebispo Gervais, que o tinha escolhido e nomeado, morreu, em 1067, com fama de santidade. Sucedeu-lhe Manassés de Gournay, com o nome de Manassés I. Foi um Arcebispo que Reims não nunca poderá esquecer e que esteve profundamente relacionado com a evolução da vida e da vocação Bruno. Manassés só foi ordenado Bispo de Reims, em 1068 ou 1069, apesar do seu antecessor ter falecido já em 1067. A história do Arcebispo Manassés I de Reims não é simples. Tendo comprado a Sede de Reims, em cumplicidade com o Rei de França, Filipe I, começou por administrar a Diocese de forma tranquila, o que fazia esperar uma governação normal. Homem nobre, Manassés carecia, contudo, do equilíbrio necessário para proceder com rectidão. O Arcebispo era um ‘homem de armas’, que esquecia o seu estado clerical. A tradição consagrou uma frase que lhe é atribuída: “Reims seria um bom bispado se não se tivesse de cantar missa”.
É no contexto da Reforma Gregoriana que se inicia a grande luta com o Arcebispo Manassés. De um lado, vai estar o Papa Gregório VII, o seu Legado em França, Hugues de Die, e os Cónegos de Reims; do outro, vai estar o Arcebispo Manassés. Em 27 de Dezembro de 1080, o Papa Gregório VII depôs o Arcebispo Manassés que, segundo a tradição, se refugiou junto de Henrique IV, o excomungado Imperador da Alemanha. Entretanto, e findo o processo da deposição do Arcebispo Manassés, que trouxe nova paz à Igreja de Reims, foi dada ao Clero desta diocese a missão de eleger um novo Arcebispo. É no contexto da eleição do novo Arcebispo que as atenções se voltam para o discreto Mestre Bruno a quem, apesar da sua discrição e modéstia, os acontecimentos puseram em evidência. E, mesmo não tendo voltado a exercer os seus cargos de Mestre-Escola ou de Chanceler, caíram sobre ele os olhares de toda a Igreja de Reims. Mestre Bruno, contudo, recusou a nomeação. Começou, então, um novo período na vida de Bruno: decidiu romper com todos os laços do mundo e consagrar-se inteiramente a Deus, na solidão. A solidão não foi, para Bruno, um desterro, mas a plenitude da fé viva e da caridade. Numa data que não se pode indicar com grande precisão, mas que se situará entre 1081 e 1083, Bruno deixou Reims. Dirigiu-se, com dois companheiros, Pedro e Lamberto, para Troyes. Aí perto, em Molesmes, existia uma Abadia Beneditina, para a qual Bruno e seus companheiros se dirigiram. O seu Abade era Roberto de Molesmes.
Foi em terrenos cedidos por esta Abadia que Bruno e os seus companheiros se instalaram: um local denominado Séche-Fontaine, que ficava localizado na floresta de Fiel, a uns 40 Kms a sudeste de Troyes e a 8 Kms do Mosteiro de Molesmes. Aí viveram - segundo uma Carta de Molesmes, que relata o início da experiência de Séche-Fontaine - uma vida verdadeiramente eremítica. Esta seria, contudo, uma breve etapa no itinerário espiritual de Bruno.
Pouco tempo depois, Pedro e Lamberto escolheram ir viver para um mosteiro. Bruno partiu, então, para Grenoble. A data da sua chegada à Chartreuse (montanhas junto de Grenoble) está fixada com precisão: Junho de 1084, por ocasião da Festa de S. João Baptista; a biografia de S. Hugo, Bispo de Grenoble, escrita por Guigo I (+ 1136), contém a narração da entrada de Mestre Bruno e dos seus novos companheiros no vale de Chartreuse.
O local agora escolhido situa-se a 1175 metros de altitude, no fundo de um estreito vale, no coração do maciço da Chartreuse, uma região montanhosa e de difícil acesso, de rigorosos nevões de inverno. Em todas essas características e circunstâncias, Bruno vai encontrar francas vantagens. No fundo, Bruno procura a solidão, uma vida estritamente eremítica, e essas circunstâncias favorecem-na. O acesso ao local é feito por uma estreita garganta, entre desfiladeiros, que isola o vale. Verdadeiramente esta era a ‘porta’ da clausura.
A Cartuxa, com os seus eremitérios, vai ser construída ainda mais acima, a cerca de quatro quilómetros desta ‘porta’. Os novos eremitas vão, desde logo, ocupar-se da construção da Igreja e das celas, bem como pôr em prática uma observância concreta e muito rigorosa. A construção do primeiro Mosteiro iniciou-se no Verão de 1084. Esta construção resistiria até 1132, quando uma avalanche destruiu o Mosteiro, matando sete monges. Era, então, Prior do Mosteiro Guigo I que mandou construir outro Mosteiro, mais abaixo, cerca de uns dois quilómetros e num local menos propício a gelos e avalanches. As celas dos eremitas foram agrupadas ao redor de uma fonte que, ainda hoje, alimenta o actual Mosteiro da Cartuxa. As primeiras celas foram construídas com troncos de madeira, à maneira das cabanas dos pastores ou lenhadores. No primitivo Mosteiro apenas a Igreja foi construída em pedra. Foi consagrada pelo Bispo Hugo de Grenoble em 2 de Setembro de 1085 e dedicada à Santíssima Virgem e a São João Baptista. Mais tarde, as celas foram edificadas ao longo de um Claustro, muito semelhante ao dos Mosteiros Cenobitas, mas cujo papel, contudo, é diferente. A razão de ser desta distribuição tem a ver com a própria protecção do rigoroso clima. As celas, ligadas pelo dito Claustro, estão ligadas também pelo mesmo Claustro à Igreja do Mosteiro.
Os monges cartuxos recitam uma parte dos seus ofícios na solidão da cela e não se reúnem senão para Vésperas e Matinas. É, também, na cela que permanecem em oração, estudam, lêem e fazem os seus trabalhos manuais. As refeições são feitas, igualmente, de forma solitária, com a excepção do domingo e festas, em que são realizadas num refeitório comum. Nas circunstâncias que exigem uma liturgia mais solene, a oração é feita em comum. Os trabalhos necessários à subsistência da comunidade eram realizados por conversos (irmãos leigos) que se instalaram um pouco mais abaixo, mas ainda dentro da clausura.
No Ocidente cristão, esta forma de vida religiosa é uma total novidade. A sua inspiração alimenta-se especificamente nos Padres do Deserto, do Oriente. Um dos primeiros dados que sobressai quando se olha para este género de vida é que ele não tem nada em comum com o tipo de vida eremítica de um mosteiro cenobítico. Bruno desejava uma vida eremítica pura, em estrita solidão, ainda que temperada com alguma vida comunitária. A especificidade desta experiência monástica faz com que a vida comunitária não seja habitual.
Depois de algum tempo ao serviço do Papa Urbano II, em Roma, Bruno retirou-se para o Sul de Itália, para a região de Calábria. O lugar onde se instalou chamava-se ‘Santa Maria da Torre’ e era um enorme “deserto”, situado a 850 metros de altitude, um planalto não habitado, rodeado de colinas e florestas que, em certa medida, fazia lembrar a Chartreuse.
Bruno faleceu, com fama de sanato, no dia 6 de Outubro de 1101, com pouco mais de 70 anos, após ter pronunciado a sua “Profissão de Fé”: "Eu creio nos Santos Sacramentos da Igreja Católica, em particular, creio que o pão e o vinho consagrados, na Santa Missa, são o Corpo e o Sangue, verdadeiros, de Jesus Cristo". A população da Calábria tinha tão grande respeito e veneração por Bruno que os Monges tiveram de deixar, durante três dias, o seu corpo em exposição, para sentida homenagem que o povo lhe queria prestar.
Em 1514, o Papa Leão X autorizou que os monges cartuxos celebrassem o culto de São Bruno. Em 1623, o Papa Gregório XV estendeu o culto de São Bruno a toda a Igreja. A sua memória litúrgica faz-se no dia 6 de Outubro.