PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

EM DESTAQUE

 
- MENSAGEM E BÊNÇÃO URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO
            na Praça de São Pedro – Roma, dia de Natal
 
Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!
Cristo nasceu para nós, exultemos no dia da nossa salvação! Abramos os nossos corações para receber a graça deste dia, que é Ele próprio: Jesus é o «dia» luminoso que surgiu no horizonte da humanidade. Dia de misericórdia, em que Deus Pai revelou à humanidade a sua imensa ternura. Dia de luz que dissipa as trevas do medo e da angústia. Dia de paz, em que se torna possível encontrar-se, dialogar, reconciliar-se. Dia de alegria: uma «grande alegria» para os pequenos e os humildes, e para todo o povo (cf. Lc 2, 10).
Neste dia, nasceu da Virgem Maria Jesus, o Salvador. O presépio mostra-nos o «sinal» que Deus nos deu: «um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). Como fizeram os pastores de Belém, vamos também nós ver este sinal, este acontecimento que, em cada ano, se renova na Igreja. O Natal é um acontecimento que se renova em cada família, em cada paróquia, em cada comunidade que acolhe o amor de Deus encarnado em Jesus Cristo. Como Maria, a Igreja mostra a todos o «sinal» de Deus: o Menino que Ela trouxe no seu ventre e deu à luz, mas que é Filho do Altíssimo, porque «é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). Ele é o Salvador, porque é o Cordeiro de Deus que toma sobre Si o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29). Juntamente com os pastores, prostremo-nos diante do Cordeiro, adoremos a Bondade de Deus feita carne e deixemos que lágrimas de arrependimento inundem os nossos olhos e lavem o nosso coração.
Ele, só Ele, nos pode salvar. Só a Misericórdia de Deus pode libertar a humanidade de tantas formas de mal – por vezes monstruosas – que o egoísmo gera nela. A graça de Deus pode converter os corações e suscitar vias de saída em situações humanamente irresolúveis.
Onde nasce Deus, nasce a esperança. Onde nasce Deus, nasce a paz. E, onde nasce a paz, já não há lugar para o ódio e a guerra. E no entanto, precisamente lá onde veio ao mundo o Filho de Deus feito carne, continuam tensões e violências, e a paz continua um dom que deve ser invocado e construído. Oxalá israelitas e palestinenses retomem um diálogo directo e cheguem a um acordo que permita a ambos os povos conviverem em harmonia, superando um conflito que há muito os mantém contrapostos, com graves repercussões na região inteira.
Ao Senhor, pedimos que o entendimento alcançado nas Nações Unidas consiga quanto antes silenciar o fragor das armas na Síria e pôr remédio à gravíssima situação humanitária da população exausta. É igualmente urgente que o acordo sobre a Líbia encontre o apoio de todos, para se superarem as graves divisões e violências que afligem o país. Que a atenção da Comunidade Internacional se concentre unanimemente em fazer cessar as atrocidades que, tanto nos referidos países, como no Iraque, Líbia, Iémen e na África subsaariana, ainda ceifam inúmeras vítimas, causam imensos sofrimentos e não poupam sequer o património histórico e cultural de povos inteiros. Penso ainda em quantos foram atingidos por hediondos actos terroristas, em particular pelos massacres recentes ocorridos nos céus do Egipto, em Beirute, Paris, Bamaco e Túnis.
Aos nossos irmãos, perseguidos em muitas partes do mundo por causa da sua fé, o Menino Jesus dê consolação e força.
Pedimos a paz e a concórdia para as queridas populações da República Democrática do Congo, do Burundi e do Sudão do Sul, a fim de se reforçar, através do diálogo, o compromisso comum em prol da edificação de sociedades civis animadas por sincero espírito de reconciliação e compreensão mútua.
Que o Natal traga verdadeira paz também à Ucrânia, proporcione alívio a quem sofre as consequências do conflito e inspire a vontade de cumprir os acordos assumidos para se restabelecer a concórdia no país inteiro.
Que a alegria deste dia ilumine os esforços do povo colombiano, para que, animado pela esperança, continue empenhado na busca da desejada paz.
Onde nasce Deus, nasce a esperança; e, onde nasce a esperança, as pessoas reencontram a dignidade. E, todavia, ainda hoje há multidões de homens e mulheres que estão privados da sua dignidade humana e, como o Menino Jesus, sofrem o frio, a pobreza e a rejeição dos homens. Chegue hoje a nossa solidariedade aos mais inermes, sobretudo às crianças-soldado, às mulheres que sofrem violência, às vítimas do tráfico de seres humanos e do narcotráfico.
Não falte o nosso conforto às pessoas que fogem da miséria ou da guerra, viajando em condições tantas vezes desumanas e, não raro, arriscando a vida. Sejam recompensados com abundantes bênçãos quantos, indivíduos e Estados, generosamente se esforçam por socorrer e acolher os numerosos migrantes e refugiados, ajudando-os a construir um futuro digno para si e seus entes queridos e a integrar-se nas sociedades que os recebem.
Neste dia de festa, o Senhor dê esperança àqueles que não têm trabalho e sustente o compromisso de quantos possuem responsabilidades públicas em campo político e económico a fim de darem o seu melhor na busca do bem comum e na protecção da dignidade de cada vida humana.
Onde nasce Deus, floresce a misericórdia. Esta é o presente mais precioso que Deus nos dá, especialmente neste ano jubilar em que somos chamados a descobrir a ternura que o nosso Pai celeste tem por cada um de nós. O Senhor conceda, particularmente aos encarcerados, experimentar o seu amor misericordioso que cura as feridas e vence o mal.
E assim hoje, juntos, exultemos no dia da nossa salvação. Ao contemplar o presépio, fixemos o olhar nos braços abertos de Jesus, que nos mostram o abraço misericordioso de Deus, enquanto ouvimos as primeiras expressões do Menino que nos sussurra: «Por amor dos meus irmãos e amigos, proclamarei: “A paz esteja contigo”»! (Sal 122/121, 8). (cf. Rádio Vaticano)
 
- MENSAGEM DE NATAL
DO SR. BISPO DO PORTO
E SEUS AUXILIARES
Natal – dom de Deus e mistério de Misericórdia 
             
O Natal é um mistério que não cabe num dia nem se contem num gesto. São muitos os dias que antecipam e continuam o Natal e muitos os gestos que o precedem e o prolongam no tempo. Há mesmo quem sonhe com o Natal todos os dias!
As nossas cidades, vilas, aldeias, ruas e casas já há muito se revestem de cores do Natal, brilham com iluminações de festa e vivem ao som de cânticos de alegria, que nos lembram o feliz anúncio do nascimento de um Menino Deus, nascido em Belém de Judá (Luc 2, 1-14).
Na liturgia da Igreja, o Advento precede no tempo, ao longo de quatro semanas, o Natal e prepara-nos espiritualmente para a celebração do nascimento do Filho de Deus. Por seu lado, o Natal prolonga-se no tempo e conduz-nos à Epifania, ao Batismo no Jordão e ao início da vida pública de Jesus.
O Natal não se esgota na magia das cores, não se reduz aos sinais externos da festa, não se circunscreve ao apressado ritmo do consumismo, não se limita à habitual troca de prendas nem se confina aos gestos sinceros e solidários que, por uns momentos, nos fazem membros de uma sociedade fraterna e habitantes de um mundo de sonho.
O Natal é dom de Deus; é milagre de vida; é escola do amor humano aprendido no berço do amor divino; é caminho de dádiva da vida (Há mais alegria em dar-(Se); é o mistério da encarnação do Filho de Deus, celebrado no tempo humano, para salvação da Humanidade. O Natal é sempre acontecimento novo e belo!
O Natal é Jesus! É Jesus nascido na humilde manjedoura dos subúrbios da cidade, que os nossos presépios recordam e representam. É Jesus presente no coração de todas as cidades, no berço de todos os corações, no regaço de todas as mães, nas Eucaristias de todas as comunidades, na Palavra viva de Deus, Verbo eterno feito Homem (Jo 1, 14). A Igreja, que transporta em si a Alegria do Evangelho, tem a missão de nos fazer compreender que o Natal é Jesus: “Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor” (Luc 2, 11) .
Celebremos assim Natal, fazendo presépio o nosso coração, alojando Jesus no aconchego das nossas famílias e cantando a alegria do nascimento do Filho de Deus nas nossas comunidades. Queremos prosseguir, na Igreja do Porto, a Caminhada de Advento – Natal, multiplicando em cada dia do ano o milagre do cabaz cheio e do cesto de partilha fraterna a transbordar, transformados em acolhedora manjedoura onde Jesus nasça e em mesa de irmãos onde o pão se reparta com os pobres e as Obras de Misericórdia se cumpram com aumentado empenho neste Ano Santo da Misericórdia.
Há no coração humano das pessoas, no ambiente abençoado das famílias, no agir criativo das instituições e na ação pastoral das comunidades da Igreja do Porto belos sinais de Natal e imensos gestos que a fé em Jesus, Filho de Deus, nascido de Maria de Nazaré, nos inspira.
Lembremos apenas três desses sinais, por entre tantos milagres que no nosso tempo acontecem, sempre que Deus encontra homens e mulheres de boa vontade, disponíveis para acolher os seus dons e realizar os sonhos divinos:
- No passado dia 13 de dezembro abrimos a Porta Santa da Misericórdia na Catedral do Porto, como nos mandou fazer o Papa Francisco, ao anunciar ao mundo o Jubileu da Misericórdia. Antes de abrir a Porta Santa da Catedral e passar a soleira multissecular desta entrada na Casa de Deus, percorremos as ruas íngremes, estreitas e belas do Bairro da Sé.
Deste percurso, acompanhados por uma multidão de gente vinda de toda a Diocese, trouxemos as preces que ouvimos balbuciar, as lágrimas que vimos chorar e a curiosidade feliz de crianças e turistas, que também por ali andavam. Neste caminho da Igreja nas periferias e neste gesto de antecipado Natal, quisemos proclamar, como nos lembra o lema do Plano diocesano de pastoral deste ano e como reflete a nossa Carta Pastoral: “Felizes os Misericordiosos! (Mt. 5,7).
- São, neste tempo, na nossa Diocese, muitos os cabazes de Natal distribuídos, muitos os apelos à generosidade respondidos, muitas as famílias reunidas e unidas, muitas as ceias de Natal organizadas! Demos graças a Deus por isso!
Numa dessas Ceias, promovida e servida com este espírito na nossa Cidade, eram mais de mil os pobres e, entre eles, muitas crianças sentadas à mesa de Natal. Perguntamo-nos e perguntemo-nos todos: o que fazer e como fazer para transformar estes momentos de festa e estes gestos solidários em verdadeiro Natal, que celebre o nascimento de Jesus e signifique o nascimento de vidas novas, diferentes e felizes para tanta gente?
- Chegaram à nossa Diocese, no mês de outubro, os primeiros refugiados da Síria, agora a viver em Ovar. No passado dia 18 deste mês foi recebida pela Santa Casa da Misericórdia de Penafiel uma família de refugiados. Outros virão mais tarde! Este é o primeiro Natal vivido por eles entre nós. Vai ser felizmente diferente para eles este Natal, mesmo que seja outra a sua fé, porque encontraram casa junto de nós, abrigo na cidade e acolhimento humano em terra de gente de paz e de bem.
Tem de ser, graças a eles, diferente, também, para nós este mesmo Natal, para que os nossos presépios transformem o desespero que bate à porta da Europa em portas de esperança para o Mundo.
Somos chamados a construir com eles um Mundo melhor e uma Humanidade comum onde não haja violência, nem guerra, nem perseguição e onde a Europa cristã possa ser casa, abrigo de todos os que não têm pátria, e refúgio seguro para todos os que sonham com a liberdade e procuram a paz.
Estes sinais vividos à luz da fé em tempo de Natal dizem-nos que os milagres de Deus acontecem, também, nos nossos dias.
Um Santo e Feliz Natal!
Porto, 24 de dezembro de 2015
+ António Francisco dos Santos, Bispo do Porto
+ António Bessa Taipa, Bispo Auxiliar do Porto
+ Pio Alves de Sousa, Bispo Auxiliar do Porto   (Cf. Diocese do Porto)
 
 
- SERVIÇO RELIGIOSO,
NO HOSPITAL
SÃO SEBASTIÃO
No passado dia 21 de Dezembro, o Capelão do Hospital São Sebastião, Padre Artur Pinto, tomou posse do serviço de apoio espiritual e religioso que a Igreja Católica presta aos doentes e demais comunidade hospitalar. Numa celebração eucarística presidida pelo Sr. Bispo do Porto e na qual participaram vários sacerdotes e diáconos, o capelão foi apresentado aos responsáveis do Hospital. No fim da missa, o Sr. Bispo e o capelão tiveram oportunidade de visitar alguns serviços do Hospital. Ao Padre Artur endereçamos as nossas saudações e os votos de muitas felicidades na sua missão de serviço espiritual aos doentes que, fragilizados, precisam do consolo da fé e da presença solidária dos cristãos.
 
- SOLENIDADE DA
SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ
No primeiro Domingo a seguir ao Natal, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família. Neste tempo - tempo de festa, de alegria, de partilha, de amor – somos convidados a olhar para Maria, José e Jesus e aprender deles a unidade, a comunhão, a corresponsabilidade, a confiança. Partilhamos, com os nossos leitores, palavras do Papa Francisco, no Angelus do Domingo da Sagrada Família de 2014:
“…A mensagem que provém da Sagrada Família é, antes de tudo, uma mensagem de fé. Na vida familiar de Maria e José, Deus está verdadeiramente no centro, na Pessoa de Jesus. Por isso a Família de Nazaré é sagrada. Por quê? Porque está centrada em Jesus.
Quando pais e filhos respiram o mesmo clima de fé, possuem uma energia que lhes permite enfrentar até provações difíceis, como demonstra a experiência da Sagrada Família, no dramático acontecimento da fuga para o Egipto: uma prova difícil.
O Menino Jesus com a sua Mãe, Maria, e com São José são um ícone familiar simples mas muito luminoso. A luz que dela irradia é luz de misericórdia e de salvação para o mundo inteiro; luz de verdade para todos os homens, para a família humana e para cada família. Esta luz que vem da Sagrada Família encoraja-nos a oferecer calor humano naquelas situações familiares em que, por vários motivos, faltam a paz, a harmonia e o perdão. Não falte a nossa solidariedade concreta às famílias que vivem situações mais difíceis por causa de doenças, desemprego, discriminações, necessidade de emigrar... Rezemos por todas as famílias em dificuldade, quer por doença, falta de trabalho, discriminação, necessidade de emigrar, dificuldade de se entender e também por desunião…Rezemos por todas essas famílias.
Confiemos a Maria, Rainha e mãe da família, todas as famílias do mundo, a fim de que possam viver na fé, na concórdia, na ajuda recíproca, e por isso, invoco sobre elas a protecção materna daquela que foi mãe e filha do seu Filho…” (cf. Santa Sé)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 
- na Homilia da Missa da Noite de Natal,  no dia 24 de Dezembro, na Basílica de São Pedro, Roma
Nesta noite, resplandece «uma grande luz» (Is 9, 1); sobre todos nós, brilha a luz do nascimento de Jesus. Como são verdadeiras e actuais as palavras que ouvimos do profeta Isaías: «Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo» (9, 2)! O nosso coração já estava cheio de alegria vislumbrando este momento; mas, agora, aquele sentimento multiplica-se e sobreabunda, porque a promessa se cumpriu: finalmente realizou-se. Júbilo e alegria garantem-nos que a mensagem contida no mistério desta noite provém verdadeiramente de Deus. Não há lugar para a dúvida; deixemo-la aos cépticos, que, por interrogarem apenas a razão, nunca encontram a verdade. Não há espaço para a indiferença, que domina no coração de quem é incapaz de amar, porque tem medo de perder alguma coisa. Fica afugentada toda a tristeza, porque o Menino Jesus é o verdadeiro consolador do coração.
Hoje, o Filho de Deus nasceu: tudo muda. O Salvador do mundo vem para Se tornar participante da nossa natureza humana: já não estamos sós e abandonados. A Virgem oferece-nos o seu Filho como princípio de vida nova. A verdadeira luz vem iluminar a nossa existência, muitas vezes encerrada na sombra do pecado. Hoje descobrimos de novo quem somos! Nesta noite, torna-se-nos patente o caminho que temos de percorrer para alcançar a meta. Agora, deve cessar todo o medo e pavor, porque a luz nos indica a estrada para Belém. Não podemos permanecer inertes. Não nos é permitido ficar parados. Temos de ir ver o nosso Salvador, deitado numa manjedoura. Eis o motivo do júbilo e da alegria: este Menino «nasceu para nós», foi-nos «dado a nós», como anuncia Isaías (cf. 9, 5). A um povo que, há dois mil anos, percorre todas as estradas do mundo para tornar cada ser humano participante desta alegria, é confiada a missão de dar a conhecer o «Príncipe da paz» e tornar-se um instrumento eficaz d’Ele no meio das nações.
Por isso, quando ouvirmos falar do nascimento de Cristo, permaneçamos em silêncio e deixemos que seja aquele Menino a falar; gravemos no nosso coração as suas palavras, sem afastar o olhar do seu rosto. Se O tomarmos nos nossos braços e nos deixarmos abraçar por Ele, dar-nos-á a paz do coração que jamais terá fim. Este Menino ensina-nos aquilo que é verdadeiramente essencial na nossa vida. Nasce na pobreza do mundo, porque, para Ele e sua família, não há lugar na hospedaria. Encontra abrigo e protecção num estábulo e é deitado numa manjedoura para animais. E todavia, a partir deste nada, surge a luz da glória de Deus. A partir daqui, para os homens de coração simples, começa o caminho da verdadeira libertação e do resgate perene. Deste Menino, que, no seu rosto, traz gravados os traços da bondade, da misericórdia e do amor de Deus Pai, brota – em todos nós, seus discípulos, como ensina o apóstolo Paulo – a vontade de «renúncia à impiedade» e à riqueza do mundo, para vivermos «com sobriedade, justiça e piedade» (Tt 2, 12).
Numa sociedade frequentemente embriagada de consumo e prazer, de abundância e luxo, de aparência e narcisismo, Ele chama-nos a um comportamento sóbrio, isto é, simples, equilibrado, linear, capaz de individuar e viver o essencial. Num mundo que demasiadas vezes é duro com o pecador e brando com o pecado, há necessidade de cultivar um forte sentido da justiça, de buscar e pôr em prática a vontade de Deus. No seio duma cultura da indiferença, que não raramente acaba por ser cruel, o nosso estilo de vida seja, pelo contrário, cheio de piedade, empatia, compaixão, misericórdia, extraídas diariamente do poço de oração.
Como os pastores de Belém, possam também os nossos olhos encher-se de espanto e maravilha, contemplando no Menino Jesus o Filho de Deus. E, diante d’Ele, brote dos nossos corações a invocação: «Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, concede-nos a tua salvação» (Sal 85/84, 8).
(cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 
SALMO 127
 
Refrão: Ditosos os que temem o Senhor;
              ditosos os que seguem os seus caminhos.
 
Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.
 
Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira
ao redor da tua mesa.
 
Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.

SANTOS POPULARES

 
SÃO CIRÍACO ELIAS CHAVARA
Ciríaco Elias Chavara, nasceu no dia 10 de Fevereiro de  1805. Filho  de pais piedosos, foi baptizado na Igreja Sírio-Malabar, em Kainakary, Kerala -Índia, no oitavo dia após o seu nascimento, conforme o costume local.  
Frequentou o ensino primário numa escola de aldeia, Kalari, onde foi  educado e aprendeu as línguas e  os dialetos locais, bem como as ciências elementares. Foi seu orientador um professor hindu, de nome Asan.  Sentindo o chamamento de Deus para ser sacerdote,  começou a preparar-se, sob a orientação do Pároco da Igreja de  São José,  frequentando, na escola paroquial, algumas disciplinas que poderiam abrir-lhe as portas do Seminário.  
Em 1818, quando tinha 13  anos de idade, Ciríaco entrou no Seminário de Pallipuran, onde fez toda a preparação e formação doutrinal e teológica para ser Padre.
Foi ordenado presbítero no dia 29 de Novembro de 1829, quando tinha 24 anos de idade. A sua missa nova – a sua primeira missa - foi celebrada na igreja de Chennankari. 
Logo após a sua ordenação, foi nomeado pároco, dedicando-se ao seu ministério pastoral. Mais tarde, foi chamado para o Seminário, para ser professor e vice-reitor, com a missão de substituir o reitor, Padre Tomás Palackal, nas suas ausências.  O Padre Palackal e o seu amigo e colega, Padre Tomás Porukara, tinham um projecto: a formação de uma congregação religiosa. O Padre Ciríaco aderiu a este projecto, assumindo-o, também, como seu. Assim, em 1830, assumiu a responsabilidade de construir a primeira casa da nova congregação, em Mannanam. A primeira pedra desta obra foi lançada no dia 11 de Maio de 1831. Com a morte do Padre Palackal e do Padre Porukara, idealizadores da congregação, o Padre Ciríaco assumiu, com empenho resoluto, a liderança da congregação. No dia 8 de Dezembro de 1855, festa da Imaculada Conceição, fez  a profissão religiosa, juntamente com outros dez companheiros. Estava assim,  consolidada,  a Ordem Carmelita de Maria Imaculada. 
O Padre Chavara foi prior-geral da Ordem Carmelita de Maria Imaculada, para todos os mosteiros da congregação, de 1856 a 1871, ano da sua morte.
Lutou heroicamente pela unidade da Igreja quando um grande cisma atingiu a Igreja daquela região de Kerala, em 1861.  Com a supressão das  dioceses de Cranganor e Cochin - por decisão do Papa Gregório XVI, muitos anos antes (1838) - todos os  católicos malabares passaram a fazer parte da Diocese de Verapoli. Durante este período, cismáticos que defendiam a manutenção de ritos indianos/orientais nas cerimónias da Igreja, tiveram de suportar, contrariados, as ordens da autoridade eclesiástica de rito latino. Tentaram, então, estabelecer um bispado próprio, por intermédio do patriarca caldeu, José Audo VI. Este mandou-lhes, em 1861,  um bispo caldeu, de nome Tomás Rokos, que, sem autoridade eclesiástica reconhecida por Roma,  tentou impor-se, como liderança e autoridade, à comunidade católica local, enganando a comunidade dizendo que vinha em nome do Papa de Roma. Pela resistência que encontrou, principalmente pela actuação brilhante do Padre Ciríaco - que manteve e difundiu a fidelidade a Roma - a  autoridade de Tomás Rokos não foi reconhecida, o que o obrigou a retornar ao seu local de origem. Como consequência destes acontecimentos, o Padre Ciríaco Chavara foi nomeado Vigário-Geral da Igreja Sírio-Malabar, pelo Arcebispo de Verapoli.  Por isso, até hoje, o Padre Chavara é reconhecido, pela  comunidade católica e pelos mais altos dignitários da Igreja, como defensor da Igreja de Cristo, pela sua incansável e árdua luta pelo  respeito e fidelidade a Roma, e pela sua histórica  liderança,  rápida e  eficaz, no combate à infiltração cismática de Tomás Rokos.  
Apesar de tudo, a tentativa frustrada do cisma deixou marcas de divisão que perduram, ainda hoje, na região. Três anos após a morte do Padre Ciríaco (1874),  um bispo, de nome Mar Elias Mellus, recusando-se a  obedecer às ordens  de Roma, formou uma comunidade  independente, denominada "melusinos": esta comunidade conta, nos nossos dias, com cerca de 5 mil seguidores. Se a Igreja Católica  continua presente nesta região indiana, isso deve-se  à acção e dinamismo do Padre Chavara. Se não fosse o seu empenho e  o apoio de católicos iluminados por Deus, certamente o catolicismo estaria, hoje, extinto na região. 
Aos 66 anos de idade e ao fim de muitos anos de acção apostólica e de muitos sofrimentos, o Padre Ciríaco Elias adoeceu gravemente: uma doença de curta duração mas extremamente dolorosa. Morreu em Koonammavu, localidade indiana próxima de Kochin, no dia 3 de Janeiro de 1871. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 8 de Fevereiro de 1986 e canonizado, pelo Papa Francisco, no dia 23 de Novembro de 2014. Na homilia da Missa, o Papa disse:”… A salvação não começa pela confissão da realeza de Cristo, mas pela imitação das obras de misericórdia mediante as quais Ele realizou o Reino. Quem as cumpre demonstra que acolheu a realeza de Jesus, porque deu espaço no seu coração à caridade de Deus. Na noite da vida, seremos julgados sobre o amor, sobre a proximidade e sobre a ternura para com os irmãos. Disto dependerá a nossa entrada, ou não, no reino de Deus, a nossa colocação de um lado ou do outro. Jesus, com a sua vitória, abriu-nos o seu reino, mas depende de cada um de nós entrar nele, já desde esta vida — o Reino começa agora — tornando-nos concretamente próximos do irmão que pede pão, roupa, acolhimento, solidariedade, catequese. E se amamos deveras aquele irmão ou irmã, seremos levados a compartilhar com ele ou com ela o que temos de mais precioso, ou seja, o próprio Jesus e o seu Evangelho!
Hoje a Igreja põe à nossa frente modelos como os novos Santos que, precisamente mediante as obras de uma generosa dedicação a Deus e aos irmãos, serviram, cada um no seu âmbito, o reino de Deus e dele se tornaram herdeiros. Cada um deles respondeu com extraordinária criatividade ao mandamento do amor de Deus e do próximo. Dedicaram-se incansavelmente ao serviço dos últimos, assistindo indigentes, doentes, idosos e peregrinos. A sua predilecção pelos pequeninos e pelos pobres era o reflexo e a medida do amor incondicional a Deus. Com efeito, procuraram e descobriram a caridade na relação forte e pessoal com Deus, da qual se liberta o amor verdadeiro ao próximo. Por isso, no momento do juízo, ouviram este doce convite: «Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo» (Mt  25, 34)…”
A memória litúrgica de São Ciríaco Elias Chavara faz-se no dia 3 de Janeiro.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

TEMPO DO ADVENTO

 
PALAVRA DO SENHOR
- da Liturgia do 4º Domingo do Advento
            . “…Viver-se-á em segurança… Ele será a paz…”
            . “… Eu venho, ó Deus, para fazer a Tua vontade…”
            . “… Bem-aventurada aquela que acreditou…”

EM DESTAQUE

 
- É NATAL
O Natal está a chegar. Esta festa cristã inunda o mundo de luz, de paz e de esperança. O Nascimento de Jesus Cristo é um permanente desafio ao amor, ao carinho, ao perdão, à alegria, à misericórdia. A salvação que Jesus semeou nos nossos corações deve desabrochar na terra, abrindo caminho a uma humanidade nova que acolha Deus e os seus desígnios e desenhe a perspectiva da fraternidade universal. Transcrevemos parte da homilia do Papa Bento XVI, na Missa da Noite de Natal de 2013:
“…Nesta noite, como um facho de luz claríssima, ressoa o anúncio do Apóstolo: «Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens» (Tt 2, 11). A graça que se manifestou no mundo é Jesus, nascido da Virgem Maria, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Entrou na nossa história, partilhou o nosso caminho. Veio para nos libertar das trevas e nos dar a luz. N’Ele manifestou-se a graça, a misericórdia, a ternura do Pai: Jesus é o Amor feito carne. Não se trata apenas dum mestre de sabedoria, nem dum ideal para o qual tendemos e do qual sabemos estar inexoravelmente distantes, mas é o sentido da vida e da história que pôs a sua tenda no meio de nós.
Os pastores foram os primeiros a ver esta «tenda», a receber o anúncio do nascimento de Jesus. Foram os primeiros, porque estavam entre os últimos, os marginalizados. E foram os primeiros porque velavam durante a noite, guardando o seu rebanho. É lei do peregrino velar, e eles velavam. Com eles, detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil.
Nesta Noite, partilhamos a alegria do Evangelho: Deus ama-nos; e ama-nos tanto que nos deu o seu Filho como nosso irmão, como luz nas nossas trevas. O Senhor repete-nos: «Não temais» (Lc 2, 10). Assim disseram os anjos aos pastores: «Não temais». E repito também eu a todos vós: Não temais! O nosso Pai é paciente, ama-nos, dá-nos Jesus para nos guiar no caminho para a terra prometida. Ele é a luz que ilumina as trevas. Ele é a misericórdia: o nosso Pai perdoa-nos sempre. Ele é a nossa paz. Amém!...”(cf. Santa Sé)
 
 
A todos os que nos visitam, aos homens e mulheres de boa vontade, aos cristãos da nossa Paróquia de Santa Maria da Feira: UM SANTO E FELIZ NATAL, NO AMOR E NA BONDADE DE DEUS, NOSSO PAI E NA ALEGRIA DE JESUS CRISTO, NOSSO SALVADOR.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 
- na Audiência-Geral, no dia 16 de Dezembro, na Praça de São Pedro, Roma
Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
No domingo passado foi aberta a Porta Santa na Catedral de Roma, a Basílica de São João de Latrão, e abriu-se uma Porta da Misericórdia na Catedral de cada diocese do mundo, inclusive nos santuários e nas igrejas indicadas pelos bispos. O Jubileu realiza-se em todo o mundo, não apenas em Roma. Desejei que este sinal da Porta Santa estivesse presente em cada Igreja particular, para que o Jubileu da Misericórdia possa tornar-se uma experiência compartilhada por todas as pessoas. Deste modo, o Ano Santo teve início na Igreja inteira e é celebrado em cada uma das dioceses, como em Roma. Além disso, a primeira Porta Santa foi aberta precisamente no coração da África. Quanto a Roma, é o sinal visível da comunhão universal. Possa esta comunhão eclesial tornar-se cada vez mais intensa, a fim de que a Igreja seja no mundo o sinal vivo do amor e da misericórdia do Pai.
Também na data de 8 de Dezembro, quis sublinhar esta exigência unindo, cinquenta anos mais tarde, o início do Jubileu com o encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II. Com efeito, o Concílio contemplou e apresentou a Igreja à luz do mistério da comunhão. No entanto, espalhada pelo mundo inteiro e subdividida em numerosas Igrejas particulares, ela é sempre e exclusivamente a única Igreja de Jesus Cristo, aquela que Ele quis e pela qual se ofereceu a si mesmo. A Igreja «una» que vive da comunhão do próprio Deus.
Este mistério de comunhão, que faz da Igreja um sinal do amor do Pai, cresce e amadurece no nosso coração, quando o amor, que reconhecemos na Cruz de Cristo e na qual nos imergimos, nos leva a amar do mesmo modo como nós somos amados por Ele. Trata-se de um Amor sem fim, que tem o semblante do perdão e da misericórdia.
No entanto, a misericórdia e o perdão não devem permanecer só palavras, mas realizar-se na vida quotidiana. Amar e perdoar constituem o sinal concreto e visível de que a fé transformou os nossos corações, permitindo-nos expressar em nós a vida do próprio Deus. Amar e perdoar como o próprio Deus ama e perdoa. Trata-se de um programa de vida que não pode conhecer interrupções nem excepções, mas impele-nos a ir sempre mais além, sem nos cansarmos, com a certeza de que somos sustentados pela presença paternal de Deus. Este grandioso sinal da vida cristã transforma-se depois em muitos outros sinais que são característicos do Jubileu. Penso em quantos atravessarão uma das Portas Santas, que neste Ano constituem verdadeiras Portas da Misericórdia. A Porta indica o próprio Jesus, que disse: «Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo; tanto entrará como sairá, e encontrará pastagem» (Jo 10, 9). Atravessar a Porta Santa é o sinal da nossa confiança no Senhor Jesus, que não veio para julgar, mas para salvar (cf. Jo 12, 47). Prestai atenção para que não haja ninguém, pouco dinâmico ou demasiado astuto, que vos diga que é preciso pagar. Não! A salvação não se paga. A salvação não se compra. A Porta é Jesus, e Jesus é grátis! Ele mesmo fala de quantos tentam entrar como não se deve; e simplesmente afirma que são ladrões e salteadores. Repito-vos, estai atentos: a salvação é grátis! Atravessar a Porta Santa é sinal de uma verdadeira conversão do nosso coração. Quando atravessarmos aquela Porta, será bom recordar que devemos manter escancarada também a porta do nosso coração. Ponho-me diante da Porta Santa e peço: «Senhor, ajudai-me a abrir de par em par a porta do meu coração!». O Ano Santo não seria muito eficaz, se a porta do nosso coração não deixasse passar Cristo, que nos impele a ir ao encontro dos outros, para lhes levar Ele e o seu amor. Portanto, do mesmo modo como a Porta Santa permanece aberta, porque constitui o sinal da aceitação que o próprio Deus nos reserva, assim também a nossa porta, a porta do nosso coração, permaneça sempre aberta de par em par, para não excluir ninguém. Nem sequer aquele, ou aquela, que me aborrece: ninguém!
Um sinal importante do Jubileu é também a Confissão. Aproximar-se do Sacramento mediante o qual nos reconciliamos com Deus equivale a fazer uma experiência pessoal da sua misericórdia. Significa encontrar o Pai que perdoa: Deus perdoa tudo! Deus compreende-nos também nos nossos limites, entende-nos inclusive nas nossas contradições. E não só! Através do seu amor, diz-nos que precisamente quando reconhecemos os nossos pecados Ele faz-se ainda próximo de nós, encorajando-nos a olhar para a frente. E diz mais ainda: que quando reconhecemos os nossos pecados e pedimos perdão, faz-se festa no Céu. Jesus faz festa: nisto consiste a sua misericórdia, não desanimemos! Em frente, em frente com isto!
Quantas vezes ouvi dizer: «Padre, não consigo perdoar ao meu vizinho, ao colega de trabalho, à vizinha, à sogra, à cunhada». Todos nós ouvimos isto: «Não consigo perdoar!». Contudo, como podemos pedir a Deus que nos perdoe, se depois nós mesmos não somos capazes de conceder o nosso perdão? Perdoar é algo grandioso; e no entanto, não é fácil perdoar, porque o nosso coração é pobre, e unicamente com as suas forças não o conseguirá fazer. Contudo, se nos abrirmos ao acolhimento da misericórdia de Deus por nós, tornar-nos-emos, por nossa vez, capazes de perdão. Muitas vezes ouvi dizer: «Não podia ver aquela pessoa: sentia ódio por ela. Mas um dia aproximei-me do Senhor e pedi-lhe perdão pelos meus pecados, mas também perdoei aquela pessoa». São coisas de todos os dias. E temos esta oportunidade perto de nós!
Por conseguinte, ânimo! Vivamos o Jubileu a começar por estes sinais que exigem uma grande força de amor. O Senhor acompanhar-nos-á para nos levar a fazer a experiência de outros sinais importantes para a nossa vida. Coragem e em frente!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 
SALMO 79
Refrão: Senhor nosso Deus, fazei-nos voltar,
             mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos.
 
Pastor de Israel, escutai,
Vós estais sobre os Querubins, aparecei.
Despertai o vosso poder
e vinde em nosso auxílio.
 
 
Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha;
protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.
 
 
Estendei a mão sobre o homem que escolhestes,
sobre o filho do homem que para Vós criastes.
Nunca mais nos apartaremos de Vós,
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.

SANTOS POPULARES

 
SANTA MARIA MARGARIDA D’YOUVILLE
Maria Margarida Dufrost de Lajemmerais nasceu no dia 15 de Outubro de 1701, em Varennes, Montreal, no Estado do Quebec, Canadá, perto do grandioso Rio São Lourenço. Era filha de Christophe-Dufrost de Lajemmerais e de Renée de Varennes da família nobre dos Dufrost de Lajemmerais.
O seu pai, chefe das tropas da colónia francesa, faleceu quando Margarida tinha 7 anos, deixando a família na ruína. Recebida pelas Irmãs Ursulinas, viveu com elas durante dois anos. Passou depois a viver com a mãe, em Montreal.
Com o passar do tempo, começou a frequentar as reuniões sociais e, aos 21 anos, em 1722, casou-se com Francisco Madalena d'Youville, jovem rico, do qual teve seis filhos. Porém, Francisco, mulherengo, contrabandista de álcool com os índios, tratava-a com total indiferença. 
Em 1730, no oitavo ano de casamento, o marido faleceu, deixando-a cheia de dívidas por haver delapidado o património comum. Então, Margarida teve de trabalhar duramente. Com o auxílio da família e de amigos, montou um pequeno bazar. Conseguiu pagar as dívidas e garantir aos dois filhos - que sobreviveram e chegaram à idade adulta - a educação no Seminário de Montreal. Estes filhos, terminados os seus cursos de formação teológica, foram ordenados sacerdotes.
Margarida, apesar das dificuldades económicas da sua vida, entregou-se, com zelo ilimitado, ao cuidado dos pobres, que eram muitos naqueles anos - inválidos, imigrantes sem fortuna, idosos, enfermos - empregando parte dos lucros do seu pequeno negócio em auxiliá-los, sob a direcção espiritual do Padre Luís Normant. Nesta missão, começou a ter a ajuda de três senhoras que se uniram a ela na prática da caridade. Da acção destas mulheres, em 30 de Outubro de 1738, a primeira fundação religiosa canadiana: a Congregação das Irmãs da Caridade do Hospital ou ‘Soeurs Grises’ – Irmãs Cinza (por causa da cor do hábito que usavam).
 Este empreendimento, porém, não foi fácil. Margarida d'Youville herdou do marido uma fama tão ruim e detestável, que um dia lhe negaram a comunhão sob o pretexto de ser uma pecadora pública. A este ponto chegaram as perseguições e calúnias contra a santa fundadora, que tudo suportou com paciência heróica.
Mas, não ficaram por aqui os seus sofrimentos. Apareceram-lhe, num joelho, duas chagas que nenhum médico conseguiu curar em anos de tratamento.
 Maria Margarida deu às suas filhas religiosas uma espiritualidade muito bela e profunda: «Nós, dizia ela, desposamo-nos com os pobres, como membros de Jesus Cristo, nosso Esposo». E «este casamento místico com os membros miseráveis de Cristo» há-de ser, por sua vez, entendido «como uma participação na paternidade divina».
As religiosas de Margarida «devem tirar do Pai Eterno o espírito e as virtudes da sua vocação. Ao tomar o hábito, fazem um acto de consagração ao Pai Eterno e, depois, por toda a vida, recitam, diariamente, as “ladainhas do Pai Eterno”. Deus Pai, fonte de todo bem, é a providência das suas filhas e, através delas, é a providência dos necessitados. Sob a acção do Pai Eterno, a Irmã ‘cinza’ une-se a Cristo e n’Ele a favor deles”. (Canada, en Dictionnaire de spiritualité, París 1963,V, 998-999).
Um acontecimento mostra-nos o espírito que animava esta santa mulher: no 31 de Janeiro de 1745, um incêndio destruiu o seu hospital de Montreal, conseguido com tanto esforço. Margarida e as suas Irmãs, diante das chamas, cantavam de todo coração um ‘Te Deum’. Ela viu na cruz uma indicação providencial que a convidava a despojar-se totalmente de qualquer propriedade. Tudo foi consagrado ao serviço dos pobres: o tempo, as iniciativas e a vida.
Pelos finais de 1770, a Irmã Maria Margarida começou a sentir um mal-estar que a impedia de falar e de andar normalmente. Era o princípio da paralisia que a levou à morte no dia 23 de Dezembro do ano seguinte.
A Irmã Maria Margarida d’Youville foi beatificada, no dia 3 de Maio de 1959, pelo Papa João XXIII. A cura de uma pessoa atacada de leucemia, ocorrida em 1978, foi atribuída à sua intercessão. Foi canonizada, pelo Papa João Paulo II, no dia 9 de Dezembro de 1990, em Roma. Na homilia da Celebração Eucarística da canonização, o Papa disse: “… A fundadora das “Irmãs Cinza” deu-nos um grande exemplo: soube vencer as suas desilusões; aceitar o sofrimento, levado como uma Cruz com Cristo. Abandonada nas mãos da Providência, seguiu o seu caminho com esperança. A fé nunca a abandonou. Recomeçava o trabalho com todas as suas forças, com toda a sua habilidade, contra todas as aparências. No secreto mistério da provação, sabia acolher a presença do Salvador que vem, pela misericórdia do Deus fiel, o verdadeiro mestre da História. Margarida sabia que a salvação está próxima daqueles temem o Senhor. Mesmo nas horas mais escuras, via levantar-se a Luz de Deus…”
A memória litúrgica de Santa Maria Margarida celebra-se no dia 23 de Dezembro.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

TEMPO DO ADVENTO


 
 
PALAVRA DO SENHOR
- da Liturgia do 3º Domingo do Advento
            . “… O Senhor teu Deus está no meio de ti como poderoso salvador…”
            . “… Seja de todos conhecida a vossa bondade…”
            . “… Que devemos fazer?...”

EM DESTAQUE

 

ABERTURA DA PORTA SANTA
Neste dia 13 de Dezembro, será aberta a Porta Santa, na Catedral do Porto. A celebração tem início às 15,30 horas, na Igreja de São Lourenço, no Seminário Maior da Sé, donde partirá a procissão rumo à Catedral, onde será aberta a porta santa. Preside a esta celebração o Sr. D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto.
 
 
PALAVRA DO BISPO DO PORTO
- na Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição, na Sé do Porto

“…Ao abrir, nesta manhã, a Porta santa da Misericórdia, na Basílica de S. Pedro, o Papa Francisco convidou a Igreja e o Mundo a olhar para Maria, Mãe de Jesus, “cheia de graça”, e a descobrir que só “a plenitude da graça é capaz de transformar o coração. Só a graça divina vence em nós a tentação da desobediência, que se exprime no desejo de projectar a nossa vida independentemente da vontade de Deus. Neste ano, continua o Papa Francisco, devemos todos crescer na convicção da misericórdia e viver a alegria do encontro com a graça divina que tudo transforma” (Roma, homilia de 08.12. 2015).
Em comunhão com o Papa Francisco e no espírito de quanto nos propomos no nosso Plano diocesano de Pastoral, também nós somos chamados a viver este Jubileu da Misericórdia. Recordo as palavras da recente Carta Pastoral, que nós bispos dirigimos à Igreja do Porto: “A contemplação da misericórdia – em última instância, da misericórdia divina – oferece-nos, a todos, o conforto de estarmos a coberto do seu manto protector. Mas implica-nos, também – também a todos - no exercício da misericórdia: sempre e em todas as circunstâncias. A misericórdia não é, pois, uma realidade de um único sentido. Envolve-nos a todos: como destinatários e como actores” (Carta pastoral – Felizes os misericordiosos” (Porto, 03.12.2015).
Sem querermos ser melhores ou privilegiados em relação a outros povos ou nações, lembremos que somos Terra de Santa Maria e celebramos hoje a Padroeira de Portugal.
A geografia da alma portuguesa e os caminhos da história de Portugal são marcadamente marianos. Desde a Senhora da Oliveira, no berço da nacionalidade em Guimarães, à Senhora da Conceição, padroeira do Reino, em Vila Viçosa, à Senhora de Vandoma, padroeira do Porto, a Cidade da Virgem, à Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria, Altar do Mundo, vivemos aconchegados pela ternura da Mãe de Deus e nossa Mãe.
Neste momento de vida do nosso País e no contexto perturbado da história do Mundo cumpre-nos implorar de Maria, Mãe da misericórdia, do perdão e da fraternidade, que nos ensine diariamente, como só e sempre as mães sabem fazer, a percorrer caminhos de fé, de progresso e de paz.
Não esquecemos que celebramos, também hoje, aqui bem perto, no Seminário Maior da Sé, a Imaculada Conceição, sua padroeira. Vivemos ali este dia festivo, que aqui se continua e prolonga, como dia de Encontro da Equipa Formadora e dos Seminaristas com as suas Famílias. Damos graças a Deus pelo dom dos nossos Seminários, dos Seminaristas e das Vocações na Igreja do Porto e queremos agradecer quanto aos Seminários, às Famílias e às Comunidades todos devemos.

Que Maria, a Imaculada Conceição, por todos interceda e a todos abençoe, ilumine e proteja!...” (cf. Diocese do Porto)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 
- na Audiência-Geral, no dia 9 de Dezembro, na Praça de São Pedro, Roma
Ontem abri aqui na Basílica de São Pedro a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia, depois de a ter já aberto na Catedral de Bangui, na África Central. Hoje gostaria de meditar convosco sobre o significado deste Ano Santo, respondendo à pergunta: por que um Jubileu da Misericórdia? O que significa isto?
A Igreja tem necessidade deste momento extraordinário. Não digo: é bom para a Igreja este momento extraordinário. Digo: a Igreja tem necessidade deste momento extraordinário. Na nossa época de profundas mudanças, a Igreja é chamada a oferecer a sua contribuição peculiar, tornando visíveis os sinais da presença e da proximidade de Deus. E o Jubileu é um tempo favorável para todos nós a fim de que, contemplando a Misericórdia Divina que supera todos os limites humanos e resplandece na obscuridade do pecado, possamos tornar-nos testemunhas mais convictas e eficazes.
Dirigir o olhar para Deus, Pai misericordioso, e para os irmãos necessitados de misericórdia, significa prestar atenção ao conteúdo essencial do Evangelho: Jesus, Misericórdia que se fez carne, que torna visível aos nossos olhos o grande mistério do Amor trinitário de Deus. Celebrar um Jubileu da Misericórdia equivale a pôr de novo no centro da nossa vida pessoal e das nossas comunidades o específico da fé cristã, ou seja Jesus Cristo, o Deus misericordioso.
Portanto, um Ano Santo para viver a misericórdia. Sim, caros irmãos e irmãs, este Ano Santo é-nos oferecido para experimentar na nossa vida o toque dócil e suave do perdão de Deus, a sua presença ao nosso lado e a sua proximidade sobretudo nos momentos de maior privação.
Em síntese, este Jubileu é um momento privilegiado para que a Igreja aprenda a escolher unicamente «o que mais agrada a Deus». E, o que é que «mais agrada a Deus»? Perdoar aos seus filhos, ter misericórdia deles a fim de que, por sua vez, também eles possam perdoar aos irmãos, resplandecendo como tochas da misericórdia de Deus no mundo. É isto o que mais agrada a Deus! Num livro de teologia que tinha escrito acerca de Adão, Santo Ambrósio medita sobre a história da criação do mundo e diz que cada dia, depois de ter criado algo — a lua, o sol ou os animais — Deus diz: «E Deus viu que isto era bom!». Mas quando criou o homem e a mulher, a Bíblia diz: «Viu que era muito bom». E Santo Ambrósio interroga-se: «Mas por que motivo Deus diz que é “muito bom”? Por que se sente Deus tão feliz depois da criação do homem e da mulher?». Porque no final tinha alguém a quem perdoar. E isto é bonito: a alegria de Deus é perdoar; o ser de Deus é a misericórdia. Por isso, neste ano, devemos abrir o nosso coração para que este amor, esta alegria de Deus, nos encha todos desta misericórdia. O Jubileu será um «tempo favorável» para a Igreja, se aprendermos a escolher «o que mais agrada a Deus», sem ceder à tentação de pensar que existe algo mais importante ou prioritário. Nada é mais importante do que escolher «o que mais agrada a Deus», ou seja a sua misericórdia, o seu amor, a sua ternura, o seu abraço, as suas carícias!
Inclusive a necessária obra de renovação das instituições e das estruturas da Igreja é um meio que deve levar-nos a fazer a experiência viva e vivificante da misericórdia de Deus, a única que pode garantir que a Igreja seja aquela cidade posta sobre um monte que não pode permanecer escondida (cf. Mt 5, 14). Só resplandece uma Igreja misericordiosa! Se, por um só momento, nos esquecêssemos de que a misericórdia é «o que mais agrada a Deus», todos os nossos esforços seriam vãos, porque nos tornaríamos escravos das nossas instituições e das nossas estruturas, por mais renovadas que possam ser. Mas seríamos sempre escravos!
«Sentirmos intensamente em nós a alegria de ter sido reencontrados por Jesus que veio, como Bom Pastor, à nossa procura, porque nos tínhamos extraviado» (Homilia nas Primeiras Vésperas do Domingo da Divina Misericórdia, 11 de Abril de 2015): eis a finalidade que a Igreja se propõe neste Ano Santo. Assim fortaleceremos em nós a certeza de que a misericórdia pode contribuir realmente para a edificação de um mundo mais humano. Especialmente nesta nossa época, em que o perdão é um hóspede raro nos âmbitos da vida humana, a exortação à misericórdia faz-se mais urgente, e isto em todos os lugares: na sociedade, nas instituições, no trabalho e também na família.
Sem dúvida, alguém poderia objectar: «Mas Padre, neste Ano, a Igreja não deveria fazer algo mais? É bom contemplar a misericórdia de Deus, mas há muitas necessidades urgentes!». É verdade, há muito para fazer, e eu sou o primeiro que não me canso de o recordar. Mas é preciso ter em consideração que, na raiz do esquecimento da misericórdia está sempre o amor-próprio. No mundo, ele assume a forma da busca exclusiva dos próprios interesses, de prazeres e honras unidas ao desejo de acumular riquezas, enquanto na vida dos cristãos se disfarça muitas vezes de hipocrisia e mundanidade. Tudo isto é contrário à misericórdia. Os impulsos do amor-próprio, que tornam alheia a misericórdia no mundo, são tantos e tão numerosos que muitas vezes nem sequer somos capazes de os reconhecer como limites e como pecado. Eis porque é necessário reconhecer que somos pecadores, para revigorar em nós a certeza da misericórdia divina. «Senhor, sou um pecador; Senhor, sou uma pecadora: vem com a tua misericórdia!». É uma oração muito bonita. É uma prece fácil de recitar todos os dias: «Senhor, sou um pecador; Senhor, sou uma pecadora: vem com a tua misericórdia!».
Queridos irmãos e irmãs, faço votos de que neste Ano Santo cada um de nós viva a experiência da misericórdia de Deus, para ser testemunha do que «mais agrada a Ele». É ingénuo crer que isto possa mudar o mundo? Sim, humanamente falando é uma loucura; mas «a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Cor 1, 25).  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 
CÂNTICO DE ISAÍAS
Refrão: Povo do Senhor, exulta e canta de alegria.
 
 
Deus é o meu Salvador,
tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Ele é a minha salvação.
 
 
Tirareis água com alegria das fontes da salvação.
Agradecei ao Senhor, invocai o seu nome;
anunciai aos povos a grandeza das suas obras,
proclamai a todos que o seu nome é santo.
 
 
Cantai ao Senhor, porque Ele fez maravilhas,
anunciai-as em toda a terra.
Entoai cânticos de alegria, habitantes de Sião,
porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

SANTOS POPULARES

 
BEATA MARIA DOS ANJOS FONTANELLA
Mariana Fontanella nasceu, em Turim, a 7 de Janeiro de 1661, e foi baptizada no dia 11 de Janeiro do mesmo ano, na igreja paroquial de São Simão e São Judas. Era a última dos 11 filhos do Conde João Donato Fontanella e de Maria Tana de Santena, parente da mãe exemplar de São Luís de Gonzaga, dos Condes de Chieri. Mariana cresceu tendo, diante dos olhos e no coração, São Luís Gonzaga como seu modelo e intercessor. Imita-o na fé, na caridade, na pureza e na dedicação a Jesus. Recebeu dos seus pais uma boa educação religiosa que a levou a ter uma grande devoção a Nossa Senhora e a São José. Em 15 de Agosto de 1672, recebeu, pela primeira vez, Jesus Sacramentado, das mãos do pároco da freguesia, o Pe. Emílio Malliano. Mariana era uma criança inteligente, de temperamento forte, mas muito sensível não só aos valores religiosos e cristãos, mas também aberta e sensível às realidades do mundo. De acordo com os costumes da época, a sua educação foi confiada a um mestre que vivia com a família. Quanto ao resto, seguiu em tudo a formação que normalmente era dada às meninas da sua condição social. A sua paixão pela dança era singular, Mariana era exímia nessa arte. Um dia, por acaso, encontrou, no sótão, um crucifixo sem braços e ficou profundamente tocada; imediatamente deitou fora a sua boneca e substituiu-a por Cristo na cruz que, a partir de então, se tornou objecto das suas manifestações de carinho. O Pe. Malliano guiou-a numa vida de oração intensa; moderou os seus desejos de penitência e, em vez disso, ensinou-a a temer-se a si mesma e a separar-se das frivolidades da vida da sociedade. Em 1673, entrou, como pensionista, no Mosteiro das Clarissas de Santa Maria da Estrela, em Rifreddo de Saluzzo, e ali permaneceu ano e meio, voltando para junto da sua família em 5 de Janeiro de 1675. Quando Mariana estava com 14 anos, o seu pai faleceu e a mãe colocou a administração dos bens da família nas mãos do seu filho mais velho, João Baptista. Este, por sua vez, pediu que Mariana cuidasse da direcção da casa. Apesar de muito jovem, ela mostrou grande equilíbrio, sabedoria, prudência, delicadeza e perspicácia. Cada vez mais atraída por Jesus Crucificado, quis dar-lhe toda a sua vida. Incentivada por Pe. Malliano – pároco, desde 1669, da vizinha igreja de S. Roque -,falou sobre isso com a sua mãe que, em resposta, lhe propôs um bom casamento. Mariana respondeu que o seu coração agora pertencia somente a Deus e que não se envolveria com qualquer criatura por muito nobre e boa que pudesse ser. A Condessa Maria acabou por se resignar com a vocação da filha; concordou com ela, iniciando conversações com as Irmãs Cistercienses de Saluzzo, para que a aceitassem no Mosteiro, onde já era monja professa outra irmã de Mariana, Clara Cecília. Por volta de 1675/1676, houve, em Turim, uma exposição do Santo Sudário. Mariana foi venerá-lo e encontrou ali um velho carmelita descalço que percebendo a sua vocação lhe falou sobre as Carmelitas do Carmelo de Santa Cristina. Mariana escutou-o com muito interesse, sobretudo quando ele lhe falou do espírito da regra, que correspondia perfeitamente aos seus desejos. Mariana percebeu que era para ali que o Senhor a chamava. De regresso a casa, declarou a todos que se faria carmelita e, nessa mesma noite, escreveu para o Convento de Saluzzo a anunciar a sua decisão. Surgiram, então, novas lutas com a mãe que não queria deixá-la entrar num Mosteiro tão austero. Mas, a sua tenaz perseverança obteve o efeito esperado: a Condessa acabou por aceitar a escolha da filha e deixou-a entrar no Carmelo. Mariana entrou no Carmelo no dia 19 de Novembro de 1676 e, ali, tomou o nome de Maria dos Anjos. Pouco mais de um ano após a sua entrada no Carmelo de Santa Cristina, em 26 de Dezembro de 1677, fez a sua profissão religiosa. A Irmã Maria dos Anjos prestava um generoso serviço à comunidade, mostrando sempre uma dedicação exemplar. Começou para ela um longo período de provações interiores, acompanhado por graças místicas extraordinárias que duraram cerca de catorze anos. Nos finais de 1691, cessaram as dolorosas provações interiores (a “purificação” de que os místicos falam, especialmente São João da Cruz). A Irmã Maria dos Anjos adquiriu um perfeito equilíbrio interior que brilhava em todo o seu comportamento. Os superiores julgaram bem confiar-lhe a educação das noviças, embora ela tivesse apenas 30 anos de idade. Em 1694, após pedirem, sem o seu conhecimento, dispensa à Santa Sé - porque a Irmã Maria dos Anjos ainda não tinha a idade exigida pelos Santos Cânones -, elegeram-na Prioresa. Quando o rei Victor Amadeu II assumiu o governo, em 1684, a pressão da França tornou-se mais forte do que nunca; as pretensões francesas tornaram-se intoleráveis e Victor Amadeu declarou a guerra. No Carmelo de Santa Cristina, a Madre Maria dos Anjos rezava. Em 1696, com o apoio de Joana Baptista de Saboia Nemours, a Irmã Maria dos Anjos obteve a instituição, na Diocese de Turim, da festa do Patrocínio de São José, garantindo que, assim, a guerra que assolava o Ducado desde 1690 iria acabar. A paz de Vigevano, assinada em Outubro 1696, deu-lhe razão. As graças místicas das quais era depositária vão-se tornando cada vez mais sublimes e, para maior confusão da beneficiária, são demasiado evidentes para permanecerem escondidas. A fama da sua santidade espalhou-se pela cidade, suscitando grande interesse em torno da sua pessoa. Algumas curas milagrosas, atribuídas à sua intercessão, faziam chover mais e mais pedidos de orações no mosteiro. Personagens ilustres do clero – o Beato Sebastião Valfré, o Pe. Provana, o Núncio Monsenhor Sforza etc. – e da aristocracia, Madame Real, a duquesa Ana e o duque Victor Amadeu II, procuravam a Madre para lhe submeter os seus problemas espirituais, como provam as cartas assinadas pela Madre Maria dos Anjos e a eles endereçadas. Estas cartas estão conservadas nos Arquivos do Estado, em Turim. Impulsionada pelo desejo de fundar um novo Carmelo, que pudesse acolher jovens que não podiam ser recebidas em Santa Cristina, por falta de espaço - o número de religiosas, em cada Carmelo, não pode ser maior de 21 - iniciou negociações com os superiores. Em 16 de Setembro de 1703, vencendo múltiplas dificuldades, o Carmelo de Moncalieri foi solenemente inaugurado, na presença da Madre Maria dos Anjos. A este mosteiro foi dado o nome de São José. Por outro lado, a família Saboia fazia muita pressão, sobre os seus superiores religiosos, para impedir que a Madre deixasse Turim. Partiram de Santa Catarina três Irmãs, entre elas a Madre Maria Vitória da Santíssima Anunciada que ocuparia o cargo de Prioresa com o título de “vigária”, para significar que a verdadeira prioresa do mosteiro era a Madre Maria dos Anjos. Na verdade, de Turim, ela continuou a prover as monjas de Moncalieri do necessário, cuidando da sua formação espiritual através de correspondência e velando, com coração de mãe, pelo bom funcionamento da comunidade. Assim o fez até à sua morte. Autêntica carmelita, a Irmã Maria dos Anjos participou intensamente da vida da Igreja, oferecendo-se como uma “hóstia de penitência” pelos irmãos, especialmente por aqueles cujas necessidades ela conhecia, mas também pelos mais afastados. Era singular a sua solicitude pelas almas daqueles que esperavam a purificação final no Purgatório. A sua caridade, forte e generosa, estendia-se a todas as categorias de pessoas: os pobres, os doentes, os soldados feridos, as meninas sem dote, aqueles que estavam em dificuldade. Ela, que era tão tímida, atreveu-se a enviar uma petição ao rei para salvar a vida de um soldado condenado à morte como desertor; numa outra vez, escreveu para garantir recursos financeiros suficientes para financiar os estudos de um calvinista convertido, que desejava abraçar o sacerdócio.
Foi extremamente importante o papel que desempenhou durante o terrível cerco, de 1706. Turim foi cercada pelos franceses, durante quatro meses. Enquanto Pedro Micca se sacrificava para impedir que os franceses entrassem na cidade, Madre Maria dos Anjos recorria a Nossa Senhora para obter protecção para Turim. Quando as forças invasoras já tinham chegado perto do mosteiro, ela, tranquilizada por duas visões sucessivas da Virgem Maria, garantia que na festa de Maria Bambina (Nossa Senhora Menina) se alcançaria a vitória. Tornou-se famosa a sua frase, repetida nas muralhas e na cidade por Valfré: "Com a Bambina venceremos. A Bambina será a nossa libertadora". A vitória foi alcançada pelos turineses no dia 7 de Setembro, dia em que, então, era celebrada a festa de Maria Santíssima Menina. Estes e outros factos singulares - curas, profecias, etc. - fizeram crescer enormemente a sua fama de santidade, de modo que, a quando da sua morte, que ocorreu em 16 de Dezembro de 1717, os turineses acorreram em massa ao mosteiro de Santa Cristina, pois todos queriam venerá-la, tocar com objectos no seu corpo, obter fragmentos de algo que lhe tivesse pertencido.
Em 1802, Turim dominada pelas tropas napoleónicas e o Mosteiro de Santa Cristina foi confiscado. De noite, com medo de uma possível profanação, o corpo da venerável Madre Maria dos Anjos foi levado para a igreja de Santa Teresa dos Carmelitas Descalços. Ali foi sepultado e ali permaneceu até ao dia 25 de Abril de 1865, dia da sua beatificação pelo Bem-aventurado Pio IX, após a aprovação de duas curas milagrosas obtidas por sua intercessão. A Beata Maria dos Anjos foi a primeira carmelita italiana a ser elevada à honra dos altares.
Em 1866, São João Bosco escreveu uma biografia da Beata, que difundiu entre as suas "Leituras Católicas", descrevendo-a como um modelo de santidade e de amor cristão à pátria.
A memória litúrgica da Beata Maria dos Anjos Fontanella celebra-se no dia 16 de Dezembro.