PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

PALAVRA DE D. ANTÓNIO TAIPA, ADMINISTRADOR DIOCESANO DO PORTO


- na homilia da Missa de 7º dia de D. António Francisco dos Santos (18.09.2017)

1 – “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação em que se encontre, a renovar, hoje mesmo, o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar no dia-a-dia sem cessar” (EG nº 3)
É assim que o nosso Papa Francisco transforma em convite dirigido a todo o cristão, o desafio da Nova Evangelização de São João Paulo II, e a palavra de Bento XVI, “que não me cansarei de repetir”, diz Sua Santidade: “no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte, e, desta forma, um rumo decisivo” (DCE nº 1).

2 – Estamos diante dum pensamento e objectivo comuns: convidar todos os crentes a regressar à pessoa de Jesus de Nazaré, este Jesus que o evangelho de hoje, capítulo sétimo de S. Lucas, nos apresenta como a presença viva da misericórdia do Pai que ama os inimigos, que ouve e sente a dor dos mais pequeninos – ressuscita o filho da pobre viúva de Naim, e se compadece do pecador arrependido – perdoa à pecadora. Ele é o pólo da unidade da Igreja a que nos chama.
Precisamos de ir ao encontro deste Jesus que a poeira acumulada por 20 séculos de história nos vem ocultando.

3 – Foi o programa que nos deixou o nosso querido Bispo, D. António Francisco, num convite particularmente vivo, profundamente interpelativo e emocionado, também pela circunstância em que foi feito: “Igreja do Porto, vive esta hora que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e, a partir de Cristo, a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A Vossa e a minha missão.”

4 – Aqui resume, de maneira particularmente feliz, a orientação traçada pelos nossos últimos Papas, que referimos, e o programa pastoral que pensou, fez discutir e propôs à sua amada Diocese. Levar aos homens a alegria e a beleza do Evangelho. Ajudá-los a encontrar em Jesus a fonte autêntica da verdade e da vida e, por aí, da verdadeira alegria, da alegria de viver. E a encontrarem-se n’Ele com o infinito amor do Pai.
Ajudar o homem a saciar a sua sede de Deus e ajudar Deus a saciar a sua sede do homem. Se podemos falar assim. Deus e Homem, Jesus é, de facto, o espaço humano, humano/divino, de encontro da humanidade com o seu criador e salvador. O abraço da reconciliação universal. A paz.

5 – O amor ao nosso querido Bispo, o nosso obrigado, a nossa admiração e veneração e o nosso choro, a nossa saudade, havemos de significá-los e dar-lhes forma no esforço por levarmos a efeito este programa que nos deixou, aquele emocionado e particularmente vivo convite da última homilia que lhe ouvimos. É a sua grande palavra para nós. Há-de ser.
Deus estará connosco.

6 – Deixou-nos um programa e deixou-nos um testemunho, o testemunho de uma vida em Jesus Cristo. De Pastor. De Pastor Bom. Na sua alegria contagiante. Alegria que transparecia do seu rosto e do seu olhar meigo e profundo. A alegria com que envolvia o seu trabalho. Reflectia. Meditava. Calava-se e ouvia. Sabia ouvir, ver e apreciar o trabalho dos outros.
Viveu situações difíceis e muito duras, mas nunca o seu semblante significou perturbação ou angústia, nunca a sua voz se elevou. Era um homem sereno. Muito bom. De paz. Foi na bondade que fez do seu trabalho um serviço, um enorme serviço.
Como ninguém, soube integrar-se na tradição da diocese que lhe fora confiada. Quantas vezes citara escritos dos seus antecessores, quantas vezes referiu o seu pensamento e se serviu das suas orientações e recuperou pistas e caminhos pastorais. Também aí, procurou e encontrou a firmeza e segurança que lhe permitiu caminhar em frente. Ser novo e ser actual, no serviço. Original.

7 – Partilhava problemas e preocupações. Trazia a vida para a vida. Aquela vida que experimentava naqueles que visitava, que encontrava na rua ou que, de qualquer modo, se cruzavam no seu caminho de pastor, de pastor atento, sensível e transbordante de caridade, de apóstolo.

8 – Era um homem de oração e um homem pobre. Pobreza e oração, o segredo da sua força. Profundamente pobre, e livre. Livre. Livre em relação a tudo e a todos. Livre daquela liberdade dos apaixonados por Jesus. E foi por ser livre que deu e se deu todo, até ao fim.

9 – Temos o seu programa. Temos o seu convite, o seu grande convite, programático, temos a sua “presença” viva na intercessão junto do Pai: “Igreja do Porto vai ao encontro de Cristo e a partir de Cristo, aos homens que O procuram”.

+ António Maria Bessa Taipa


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 20 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese de hoje tem por tema: “educar para a esperança”. Por isso pronunciá-la-ei directamente com o “tu”, imaginando que falo como educador, como pai, a um jovem ou a qualquer pessoa aberta à aprendizagem.
Pensa, ali onde Deus te semeou, espera! Espera sempre.
Não te rendas à noite: recordas que o primeiro inimigo a vencer não está fora de ti: mas dentro de ti. Por conseguinte, não concedas espaço aos pensamentos amargos, obscuros. Este mundo é o primeiro milagre que Deus realizou; Deus pôs nas nossas mãos a graça de novos prodígios. Fé e esperança andam juntas. Crê na existência das verdades mais elevadas e bonitas. Confia no Deus Criador; no Espírito Santo que move tudo para o bem; no abraço de Cristo que espera cada homem no final da sua existência. Crê: Ele espera-te. O mundo caminha graças ao olhar de tantos homens que abriram frestas, que construíram pontes, que sonharam e acreditaram; mesmo quando, ao seu redor, ouviam palavras de escárnio.
Nunca penses que a luta que enfrentas na terra seja totalmente inútil. No final da existência não nos espera um naufrágio: em nós palpita uma semente de absoluto. Deus não desilude: se pôs uma esperança nos nossos corações, não a quer esmagar com frustrações contínuas. Tudo nasce para florescer numa primavera eterna. Também Deus nos criou para florescermos. Recordo aquele diálogo, quando o carvalho pediu à amendoeira: “Fala-me de Deus”. E a amendoeira floresceu.
Onde quer que estejas, constrói! Se estás no chão, levanta-te! Nunca permaneças caído, levanta-te, deixa-te ajudar para ficares de pé. Se estás sentado, começa a caminhar! Se o tédio te paralisa, derrota-o com as obras de bem! Se te sentes vazio ou desmoralizado, pede que o Espírito Santo possa encher de novo a tua carência.
Exerce a paz no meio dos homens e não escutes a voz de quem espalha ódio e divisões. Não escutes essas vozes. Os seres humanos, por mais que sejam diversos uns dos outros, foram criados para viver juntos. Nos contrastes, paciência: um dia descobrirás que cada um é depositário de um fragmento de verdade.
Ama as pessoas. Ama-as uma por uma. Respeita o caminho de todos, por muito linear ou complicado que seja, porque cada um tem uma história para contar. Também cada um de nós tem a sua história para contar. Cada criança que nasce é a promessa de uma vida que, de novo, se demonstra mais forte do que a morte. Cada amor que brota é um poder de transformação que anseia pela felicidade.
Jesus entregou-nos uma luz que brilha nas trevas: defende-a, protege-a. Esta luz única é a maior riqueza confiada à tua vida.
E, sobretudo, sonha! Não tenhas medo de sonhar. Sonha! Sonha um mundo que ainda não se vê mas que certamente chegará. A esperança leva-nos a crer na existência de uma criação que se estende até ao seu cumprimento definitivo, quando Deus será tudo em todos. Os homens capazes de imaginação ofereceram ao homem descobertas científicas e tecnológicas. Sulcaram os oceanos, calcaram terras que ninguém jamais tinha pisado. Os homens que cultivaram esperanças são os mesmos que venceram a escravidão e proporcionaram condições melhores de vida nesta terra. Pensa nestes homens.
Sê responsável por este mundo e pela vida de cada homem. Pensa que cada injustiça contra um pobre é uma ferida aberta e diminui a tua dignidade. A vida não cessa com a tua existência e, neste mundo, virão outras gerações que sucederão à nossa e muitas outras ainda. E todos os dias pede a Deus o dom da coragem. Recorda-te que Jesus venceu o medo por nós. Ele venceu o medo! O nosso inimigo mais pérfido nada pode contra a fé. E quando te encontrares amedrontado, diante de alguma dificuldade da vida, recorda-te que não vives só por ti mesmo. No Baptismo, a tua vida já foi imersa no mistério da Trindade e tu pertences a Jesus. E, se um dia te assustares, ou pensares que o mal é demasiado grande para ser derrotado, pensa simplesmente que Jesus vive em ti. E é Ele que, através de ti, com a sua mansidão quer submeter todos os inimigos do homem: o pecado, o ódio, o crime, a violência; todos os nossos inimigos.
Tem sempre a coragem da verdade, mas recorda-te: não és superior a ninguém. Recorda-te disto: não és superior a ninguém. Se tivesses de ser considerado o último a crer na verdade, não fujas, por causa disso, da companhia dos homens.
Mesmo se vivesses no silêncio de uma ermida, conserva no coração os sofrimentos de cada criatura. És cristão e, na oração, restituis tudo a Deus.
Cultiva ideais. Vive por algo que supera o homem. E mesmo se um dia estes ideais apresentarem uma conta alta a pagar, nunca deixes de os conservar no coração. A fidelidade obtém tudo.
Se errares, levanta-te: nada é mais humano do que cometer erros. E esses erros não devem tornar-se para ti uma prisão. Não fiques preso nos teus erros. O Filho de Deus veio não para os sadios, mas para os doentes: portanto, veio também para ti. E se errares ainda no futuro, não temas, levanta-te! Sabes porquê? Porque Deus é teu amigo.
Se a amargura te atingir, crê firmemente em todas as pessoas que ainda trabalham pelo bem: na sua humildade está a semente de um mundo novo. Frequenta pessoas que conservam o coração como o de uma criança. Aprende da maravilha, cultiva a admiração.
Vive, ama, sonha, crê. E, com a graça de Deus, nunca te desesperes. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 144

Refrão: O Senhor está próximo de quantos O invocam.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.

SANTOS POPULARES


BEATO LUÍS MONZA

Luís nasceu no dia 22 de Junho de 1898, em Cislago, na Itália, numa família extremamente pobre, cuja única riqueza era a fé e o trabalho. Em Setembro de 1913, com 15 anos, foi para o Seminário - depois de ter conhecido experimentado a dureza do trabalho do campo, na ajuda que prestava aos seus pais - no Instituto Missionário Salesiano de Penango Monferrato, nos arredores de Asti. A 16 de Janeiro de 1917, o seu pai faleceu. Logo depois, Luís foi chamado para o exército.
Após o final da guerra, retomou os estudos, sendo ordenado Sacerdote a 19 de Setembro de 1925. De seguida, foi incardinado na Diocese de Milão, ficando ao seu serviço.
Como primeiro trabalho pastoral, foi enviado para o Oratório masculino da Paróquia de Vedano Olona, onde exerceu o seu ministério dedicando-se à evangelização, ao exercício da caridade e à formação da comunidade.
Aqui, fundou três importantes grupos: a ‘schola cantorum’, a filodramática e a sociedade desportiva "Viribus unitis". Em 1926, após uma série de provocações da parte de um grupo fascista, tiveram início numerosas acções de violência contra o grupo ‘Viribus unitis’ que, não obstante a mediação do Padre Luís, culminaram com a prisão de oito jovens do oratório. Também ele foi preso e passou quatro meses na cadeia. Foi absolvido plenamente, embora com a proibição de ir a Vedano.
Após a libertação, a Diocese decidiu transferi-lo, por algum tempo, para a Paróquia de Santa Maria do Rosário, em Milão, para depois o destinar ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, em Saronno, onde chegou em Novembro de 1928. Foi neste ambiente familiar que o Pe. Luís se deparou com um mundo marcado pela solidão, tristeza e egoísmo. Assim, ele pediu a Deus que o ajudasse a fazer com que os jovens experimentassem o Seu grande amor. Esperou então, que o Senhor lhe indicasse o caminho a seguir.
Deus inspirou-o a ver no amor dos primeiros cristãos a maneira de chegar ao homem contemporâneo e anunciar o Evangelho. Formou o primeiro oratório, com um grupo de trinta jovens. Lentamente nasceu a ideia da Obra “A Nossa Família”.
“Os cristãos devem ser testemunhas do amor de Deus dentro da sociedade, na vida quotidiana e profissional. Cada um deve ser um artista, reproduzindo a beleza de Jesus, não nas telas, mas nas almas. O pincel do apostolado não deve sair das nossas mãos.”
No dia 30 de Outubro de 1936, o Pe. Luís participou na primeira reunião oficial que deu início ao Instituto ‘Pequenas Apóstolas da Caridade’.
As Pequenas Apóstolas da Caridade, pelo dom do Espirito Santo, amadurecido no coração do fundador têm como carisma criar disponibilidade para “seguir Jesus, vivendo, nos ambientes, a caridade testemunhada pelos primeiros cristãos”. Reconhecido como Instituto Secular de Vida Consagrada, os seus membros vivem a dimensão da fraternidade - como compromisso de doação total - em pequenos grupos ou individualmente; ocupam-se da gestão e animação de estruturas de apoio a crianças com problemas de deficiência; inserem-se, profissionalmente, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no serviço social, nos serviços de voluntariado e onde é urgente o testemunho da caridade cristã. Procuram ser contemplativas no meio do mundo, envolvidas nas comuns actividades de cada pessoa, na partilha, na oração, na solidariedade.
Entretanto, o Padre Luís Monza foi nomeado pároco da igreja de São João, na periferia da cidade. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, muitos jovens tiveram de deixar as famílias. O Padre Luís assumiu a tarefa de assistir espiritual e materialmente os que permaneceram na cidade. Foi um sacerdote segundo o coração de Deus, estando sempre disponível para os pobres, os doentes, os perseguidos.
Faleceu no dia 29 de Setembro de 1954, depois de ter recebido a Sagrada Comunhão. Expirou enquanto invocava: "Jesus meu, misericórdia...". O seu zelo no ministério paroquial, o esmero com que cuidava da catequese e da liturgia, a proximidade com os pobres do seu bairro fizeram do Padre Luís Monza um modelo de vida sacerdotal.
O padre Luís Monza foi beatificado pelo Papa Bento XVI, no dia 30 de Abril de 2006, na Catedral de Milão, em celebração presidida pelo Arcebispo de Milão, Cardeal Dionísio Tettamanzi.
A memória litúrgica do Beato Luís Monza celebra-se no dia 29 de Setembro.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

IN MEMORIAM


D. ANTÓNIO FRANCISCO DOS SANTOS

No dia 11 de Setembro de 2017, pelas 9,30 horas, faleceu aos 69 anos, na Casa Episcopal do Porto, D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto.
D. António Francisco dos Santos foi nomeado Bispo do Porto em Fevereiro de 2014 e tomou posse no dia 5 de Abril de 2014. Ordenado bispo em Março de 2005, na Sé de Lamego, foi nomeado bispo-auxiliar de Braga, pelo Papa João Paulo II e, posteriormente, nomeado bispo de Aveiro, pelo Papa Bento XVI, de onde transitou para a Diocese do Porto, sucedendo a D. Manuel Clemente.
Era natural de Tendais, no Concelho de Cinfães - Diocese de Lamego – onde foi ordenado presbítero, em Dezembro de 1972.
No momento da sua morte desempenhava o cargo de presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana e de vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, no âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa.
A Diocese do Porto e a Igreja Portuguesa vivem, ainda, em estado de choque e de emoção pela perda deste homem de simplicidade e de ternura e deste bispo tão humano e tão próximo que marcou o coração e a vida de todos os diocesanos e daqueles que puderam privar com ele.
Rezamos, em comunhão de irmãos e de amigos, para que viva, agora na eternidade, o grande abraço de Deus que plenifica e enche de alegria e paz.



HOMILIA DO SR. D. MANUEL CLEMENTE
- na Missa exequial de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto

Irmãos caríssimos:
Surpreendido ainda pelo súbito falecimento do Senhor D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, nosso irmão e amigo, correspondo à indicação que me foi feita para presidir a esta Santa Missa Exequial.
Com simplicidade e emoção o faço. Longos anos de amizade, a coincidência de idade e de percurso eclesial, tudo me aproximou do Senhor D. António Francisco, em muitos encontros institucionais e pessoais, projectos e desafios das nossas missões e tarefas. Sempre nele encontrei disponibilidade e competência, além da muita estima recíproca.
Num momento como este, são muitas as palavras possíveis, como aliás têm sido proferidas por grande número de pessoas da Igreja e da sociedade, não faltando o depoimento de altas figuras da vida nacional e local. Todas aliam sentimentos de admiração e já saudade pela grande figura pessoal, eclesial e social que entre nós viveu e verdadeiramente conviveu, pois grande e marcante era a sua capacidade de estar com os outros e, ainda mais, de estar para os outros.
Assim sendo, continuará connosco pelo que de si mesmo nos ofereceu e passou a integrar também. Se, em boa parte, somos o que os outros nos fazem ser, grande vantagem foi – e motivo de acção de graças agora – termos podido disfrutar da presença, da palavra, da grande generosidade do Senhor D. António Francisco. Os homens bons são a garantia do mundo, os bons pastores são a glória da Igreja.
Não precisei de procurar muito a alusão bíblica que melhor o identificasse, como pessoa, como cristão e como bispo. Logo se impôs a que o próprio Cristo escolheu para si, ao apresentar-se como Pastor – o Bom Pastor das ovelhas que somos.
Lembramos o passo evangélico, como acabámos de ouvir. No capítulo décimo do Evangelho de João, o Bom Pastor distingue-se pelo conhecimento que tem das ovelhas - de cada um dos seus, nome a nome, assim mesmo os conduzindo e defendendo. Jesus diz também, e sobretudo, que não apenas as conduz mas dá a própria vida pelas ovelhas.
É esta a novidade, pois não tinham faltado nos profetas e nos salmos preciosas referências a Deus como Pastor do seu povo. Mesmo os antigos reis e outros responsáveis o podiam e deviam ter sido, de algum modo. A imagem não era totalmente nova, mas a novidade estava ainda por cumprir de modo definitivo e sensível.
Também nós o esperamos de quem tenha responsabilidades na cidade dos homens e na Igreja dos crentes. Tocados como fomos e permanecemos pela tradição evangélica, há imagens de Cristo que se tornaram profundamente culturais, no sentido mais preenchido do termo. Creio mesmo ser essa a realidade que ainda nos pode definir colectivamente – e cheia de futuro, aliás.
Não é por acaso que, quando queremos significar a verdadeira ajuda, o serviço dos outros, usamos – mais ou menos conscientemente – os termos tão evangélicos de “bom samaritano” ou de verdadeiramente “próximo”. Não é por acaso que, quando se acolhe benevolamente quem regressa, falamos do “filho pródigo” e sobretudo do pai que o recebe. Não é por acaso que se classificam as grandes dedicações profissionais ou cívicas como “sacerdócio”, no sentido novo que o Cristianismo lhe deu.
Mas, de todas as imagens que Jesus toma para o Pai ou para si sobressai como particularmente impressiva a do “Bom Pastor”. Numa sociedade agrária e pastoril, como ainda era a sua e fora por tantos séculos a dos seus, a imagem evocava imediatamente o cuidado por todos e cada um, a atenção especial aos mais fracos, o aconchego duma presença certa. Por isso se impôs nas primeiras comunidades e na antiga iconografia cristã. Como se continua a impor na nossa meditação e oração. Cristo é o rosto definitivo e próximo de Deus, como nosso Pastor, como Pastor de todos.
E no entanto, caríssimos irmãos, creio que a alusão nunca seria tão forte e distintiva se não tivesse encontrado pleno e quase excessivo cumprimento na pessoa de Cristo, que não apenas guardou as suas ovelhas mas por elas deu a própria vida. Esta nova maneira de ser pastor, esta absoluta maneira de ser connosco, de ser por nós e para nós, é que dá ao passo evangélico a força e a sugestão que tão salutarmente mantém.
Digamos ainda que, assim como Jesus Cristo deu à imagem do Bom Pastor a realidade mais concreta e convincente, assim a sua presença ressuscitada encontra o sinal e o sacramento em quem, pela participação no seu Espírito, lhe dê agora o rosto e o gesto.
É precisamente neste ponto que – sem extrapolações nem lugares comuns – podemos e devemos reencontrar a figura do Senhor D. António Francisco, com toda a justiça em relação ao que foi entre nós e muita acção de graças a Deus que no-lo deu como sacramento de Cristo Pastor – em Lamego, em Braga, em Aveiro, no Porto e em todos os lugares que a sua vida visitou.
Ser bispo, nas actuais circunstâncias, é um trabalho complexo e quase inabarcável para quem o exerce. Não se está acima de nada nem de ninguém, muito pelo contrário, mas sim no centro de tudo ou quase tudo, no que à igreja se refere e mesmo além da vida da Igreja. A pressão é grande, inclusive a mediática, e as estruturas intermédias quase se desfazem, pois sempre se espera que, quem está no centro, responda imediatamente seja ao que for, por mais inesperado ou casual que possa ser.
A mentalidade é de contraste, o dia-a-dia atropela-se e a solicitação é forte ou latente. Por outro lado, tratando-se de acompanhar e conjugar a vida eclesial, a avaliação e a decisão requerem especial cuidado. São sempre realidades anímicas, trata-se afinal de pessoas.
D. António Francisco dos Santos foi um grande pastor da Igreja. No sentido plenamente cristão de quem dá a vida pelas ovelhas. Assim a deu generosamente, quase sem descanso e nas circunstâncias que esbocei.
Lembro-me de quando veio falar comigo, hesitante em aceitar o cargo. Estava feliz e realizado em Aveiro e tinha receio de não ser capaz. Foi capaz e capacíssimo, precisamente no essencial, de ser um pastor próximo e amigo de todos e de cada um dos seus. Não lhe faltaram dificuldades, mas nenhuma lhe endureceu o espírito nem o trato. Sábio e bondoso, assim permaneceu e assim nos fica, como memória e como estímulo.
Fisicamente, o coração pode parar. Espiritualmente, isto é, realmente, continua connosco no coração de Deus. No coração de Cristo, o nosso Bom Pastor.
Muito obrigado, caríssimo irmão e amigo!

Sé do Porto, 13 de setembro de 2017
+ Manuel Clemente



D. ANTÓNIO TAIPA, 
ADMINISTRADOR DIOCESANO

Com a morte do Sr. D. António Francisco dos Santos, o Colégio de Consultores da Diocese do Porto elegeu como Administrador Diocesano o Sr. D. António Maria Bessa Taipa, até agora Bispo-Auxiliar do Porto. A partir de agora e enquanto não for nomeado um novo bispo para a Diocese do Porto, na oração eucarística, no momento próprio, diremos: “…em comunhão com o Papa Francisco e o nosso Administrador Diocesano, António…”.

Entretanto, o Sr. D. António Taipa reconduziu nos seus cargos o Vigário Geral e todos aqueles, que, a teor do Direito Canónico, necessitam da confirmação da legítima autoridade eclesiástica para continuarem a exercer as suas funções, até que seja mandado o contrário. A todos concedeu as faculdades habituais necessárias para o desempenho das suas funções.

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio;
 pensa na corrupção e na morte,
 e guarda os mandamentos.
 Recorda os mandamentos
 e não tenhas rancor ao próximo;
 pensa na Aliança do Altíssimo
 e não repares nas ofensas que te fazem…” (Ben-Sirá 28, 6-9)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 13 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Como sabeis, nos dias anteriores realizei a viagem apostólica à Colômbia. De todo o coração dou graças ao Senhor por este grande dom; e desejo renovar a expressão do meu reconhecimento ao Senhor Presidente da República, que me recebeu com tanta cortesia, aos Bispos colombianos que muito trabalharam para preparar esta visita, assim como às Autoridades do país e a quantos colaboraram na realização desta visita. Transmito um agradecimento especial ao povo colombiano que me acolheu com muito afecto e tanta alegria! Um povo jubiloso entre os muitos sofrimentos, mas alegre; um povo com esperança. Um dos aspectos que mais me impressionou - em todas as cidades, no meio da multidão – foi ver os pais e as mães com os filhos, que os erguiam para que o Papa os abençoasse, mas também sentir o seu orgulho ao mostrarem os próprios filhos, como se dissessem: “Este é o nosso orgulho! Esta é a nossa esperança”. Pensei: um povo capaz de ter filhos e de os mostrar com orgulho, como esperança: este povo tem futuro. Gostei muito disso.
De modo particular, nesta viagem, senti a continuidade com os dois Papas que, antes de mim, visitaram a Colômbia: o beato Paulo VI, em 1968, e São João Paulo II, em 1986. Uma continuidade fortemente animada pelo Espírito, que guia os passos do povo de Deus, nos caminhos da história.
O lema da viagem foi “Demos o primeiro passo”, referido ao processo de reconciliação que a Colômbia vive para sair de meio século de conflito interno, que semeou sofrimentos e inimizades, causando tantas feridas, difíceis de cicatrizar. Mas, com a ajuda de Deus, o caminho já começou. Com a minha visita quis abençoar o esforço daquele povo, confirmá-lo na fé e na esperança e receber o seu testemunho, que é uma riqueza para o meu ministério e para toda a Igreja. O testemunho deste povo é uma riqueza para toda a Igreja.
A Colômbia - como a maior parte das nações latino-americanas - é um país no qual as raízes cristãs são fortíssimas. E se este facto torna ainda mais aguda a dor pela tragédia da guerra que o dilacerou, ao mesmo tempo constitui a garantia da paz, o firme fundamento da sua reconstrução, a linfa da sua esperança invencível. É evidente que o maligno quis dividir o povo para destruir a obra de Deus, mas também é evidente que o amor de Cristo, a sua infinita Misericórdia é mais forte do que o pecado e a morte.
Esta viagem levou a bênção de Cristo, a bênção da Igreja ao desejo de vida e de paz que transborda do coração daquela nação: pude observar isto nos olhos dos milhares e milhares de crianças, adolescentes e jovens que encheram a praça de Bogotá e que encontrei em toda parte; aquela força de vida que também a própria natureza proclama com a sua exuberância e a sua biodiversidade. A Colômbia é o segundo país do mundo pela biodiversidade. Em Bogotá pude encontrar-me com os Bispos do país e também com o Comité Directivo da Conferência Episcopal Latino-americana. Dou graças a Deus por os ter podido abraçar e lhes ter dado o meu encorajamento pastoral, para a sua missão ao serviço da Igreja, sacramento de Cristo nossa paz e nossa esperança.
O dia dedicado, de modo particular, ao tema da reconciliação - momento culminante de toda a viagem - foi realizado em Villavicencio. Na parte da manhã, houve a grande celebração eucarística, com a beatificação dos mártires Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, bispo, e Pedro Maria Ramírez Ramos, sacerdote; à tarde, a especial Liturgia de Reconciliação, simbolicamente orientada para o Cristo de Bocayá, sem braços nem pernas, mutilado como o seu povo.
A beatificação dos dois mártires recordou, plasticamente, que a paz se funda, também e talvez sobretudo, no sangue de tantas testemunhas do amor, da verdade, da justiça, e de mártires verdadeiros, assassinados pela fé, como os dois que acabei de citar. Ouvir as suas biografias, foi comovedor até às lágrimas: lágrimas de dor e de alegria ao mesmo tempo. Diante das relíquias e das suas imagens, o santo povo fiel de Deus sentiu, com força, a própria identidade, com dor, pensando nas muitas, demasiadas vítimas, e com alegria, pela misericórdia de Deus que se estende sobre os que o temem (cf. Lc 1, 50).
«Misericórdia e verdade encontrar-se-ão, / justiça e paz beijar-se-ão» (Sl 85, 11), escutámos no início. Este versículo do salmo contém a profecia do que aconteceu, deveras, na última sexta-feira na Colômbia; a profecia e a graça de Deus por aquele povo ferido, a fim de que possa ressurgir e caminhar numa vida nova. Vimos estas palavras proféticas cheias de graça encarnadas nas histórias das testemunhas, que falaram em nome de muitos e muitos que, a partir das suas feridas, com a graça de Cristo, saíram de si mesmos e abriram-se ao encontro, ao perdão, à reconciliação.
Em Medellín, a perspectiva foi a da vida cristã como discipulado: a vocação e a missão. Quando os cristãos se esforçam até ao fim no caminho do seguimento de Jesus Cristo, tornam-se deveras sal, luz e fermento no mundo, e vêem-se frutos abundantes. Um destes frutos são os Hogares, isto é, as casas onde crianças e adolescentes feridos pela vida podem encontrar uma nova família, na qual são amados, acolhidos, protegidos e acompanhados. Outros frutos, abundantes como cachos, são as vocações à vida sacerdotal e consagrada, que pude abençoar e encorajar com alegria num encontro inesquecível com os consagrados e os seus familiares.
Por fim, em Cartagena, a cidade de São Pedro Claver, apóstolo dos escravos, o “focus” foi sobre a promoção da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. São Pedro Claver, e também mais recentemente santa Maria Bernarda Bütler, deram a vida pelos mais pobres e marginalizados, mostrando assim a via da verdadeira revolução, a evangélica, não ideológica, que liberta deveras as pessoas e as sociedades das escravidões de ontem e, infelizmente, também de hoje. Neste sentido, “dar o primeiro passo” - o lema da viagem - significa aproximar-se, inclinar-se, tocar a carne do irmão ferido e abandonado. E fazê-lo com Cristo, o Senhor que se tornou escravo por nós. Graças a Ele há esperança, porque Ele é a misericórdia e a paz.
Novamente confio a Colômbia e o seu amado povo à Mãe, Nossa Senhora de Chiquinquirá, que pude venerar na catedral de Bogotá. Com a ajuda de Maria, cada colombiano todos os dias possa dar o primeiro passo em direcção do irmão e da irmã, e assim construir juntos, dia após dia, a paz no amor, na justiça e na verdade. (cf. Santa Sé)


PARA REZAR


SALMO 102

Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,
 cheio de misericórdia para com todos.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.

Não está sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.

Como a distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados.


SANTOS POPULARES


BEATA MARIA TERESA DE SÃO JOSÉ

Ana Maria Tauscher van den Bosch nasceu em Sandow, na Marca de Brandemburgo (actualmente pertence à Polónia) no dia 19 de Junho de 1855. Era filha de Herman Traugott Tauscher e de Paulina van den Bosch O seu pai era pastor protestante, exercendo um alto cargo dentro da Comunidade, em continuidade com as tarefas já exercidas pelos seus antepassados, desde os tempos de Martinho Lutero. A sua família, de tradição luterana, era muito empenhada nas diversas actividades pastorais e caritativas. Em 1865, a família transferiu-se para Berlim.
Desde a idade de 15 anos, Ana Maria aspirava a uma verdade mais profunda do que aquela que lhe tinha sido transmitida através da sua educação luterana. Aos 22 anos, começou a ler quotidianamente a Sagrada Escritura e a Imitação de Cristo. Um dia, frente a alguns colegas do seu pai, atreveu-se a defender a doutrina da infalibilidade pontifícia. Também acreditava na virgindade de Maria, sem nunca ter estado em contacto com católicos, nem ter lido obras católicas.
Aos 22 anos, Ana Maria teve a intuição de que Deus a chamaria para o seu serviço quando tivesse 30 anos. Porém, não sabia nem onde, nem como isso ia acontecer. Ela tudo entregava nas mãos da Divina Providência.
Em Fevereiro de 1886, estando em Berlim, na casa de amigos, Ana Maria leu num jornal de Colónia um anúncio propondo um trabalho de enfermeira-chefe, num hospital psiquiátrico. Seria este o sacrifício, o tal serviço que tinha intuído há oito anos? No dia 6 de Março de 1886, Ana Maria deixou Berlim para começar a trabalhar na clínica de Lindenburg. Não tinha nenhuma experiência de enfermeira, mas a sua entrega e o seu amor quase maternal logo transformaram o asilo num autêntico Lar. À excepção do director, todas as pessoas da clínica de Lindenburg eram católicas. Um dos sacerdotes que vinha visitar os doentes ofereceu-lhe um catecismo da Igreja Católica. Nele, ela encontrou o que até então ela chamava de “sua religião pessoal”. E, assim, começou rapidamente a preparar, em segredo, a sua conversão.
O director acabou por descobrir as intenções de Ana Maria. Mandou-a de volta para casa, mas voltou a chamá-la algumas semanas mais tarde. Quando se preparava para entrar no comboio com destino a Colónia, o seu pai exortou-a a que não se convertesse ao catolicismo. Ela prometeu-lhe unicamente “que tal não aconteceria hoje ou amanhã”. Quando Ana Maria fez a sua profissão de fé na Igreja Católica, no dia 30 de Outubro de 1888, deixou para trás todo o seu passado.
Desaprovada pelo seu pai, despedida de Lindenburg, Ana Maria colocou toda a sua confiança em Deus. Apesar de se ter proposto para vários empregos, não conseguiu um outro trabalho, porque o seu ex-director tinha feito uma carta de recomendação pouco favorável. A partir de então, viu-se sem trabalho e sem casa. Graças à ajuda de amigos católicos, Ana Maria foi recebida num convento, onde também se cuidava de pessoas de idade.
Todas as tardes e todas as noites, Ana Maria vinha junto do Senhor, frente ao altar do Santíssimo Sacramento, fortalecendo, assim, os laços que a uniam ao seu Divino Esposo. Continuava, no entanto, a sua séria procura de trabalho.
“Senhor, segundo a Vossa vontade, mandai-me trabalhar para a salvação das almas onde quiserdes. Escutai o ardente desejo da minha alma de poder demonstrar o meu amor e a minha gratidão. (...) meu Deus, se for possível, não me mandeis para Berlim, mas seja feita a Vossa vontade e não a minha.”
Era deste modo que Ana Maria rezava todos os dias. Desejava entrar numa ordem religiosa mas, ao mesmo tempo, sentia no seu íntimo a vontade de fundar a sua própria Congregação. Ana Maria chamava a este desejo profundo a ‘sua tentação’. Ela, porém, não podia partilhar com ninguém esta sua ideia. Esperava que, entrando numa comunidade, esta provação desaparecesse. Os seus confessores sabiam que Deus a chamava para o seu serviço, mas aconselharam-na a não entrar numa ordem já existente. Passados 10 meses, Ana Maria recebeu uma carta da Condessa de Savigny - uma católica fervorosa que vivia em Berlim - que lhe propunha um trabalho de dama de companhia. Apesar da sua tristeza em deixar Colónia, Ana Maria aceitou.
Acompanhando a Condessa de Savigny nas suas viagens, Ana Maria começou a ler ‘A Vida de Santa Teresa de Jesus’, uma santa que tinha reformado o Carmelo, no século XVI. A humildade de Teresa, o seu amor a Deus, o seu desejo ardente de salvar almas e o seu heroísmo correspondiam perfeitamente aos anseios de Ana Maria. Desde então, ela queria uma só coisa: entrar no Carmelo. Mas, uma vez mais, o seu confessor dissuadiu-a e ela continuou a resistir à “sua tentação”. Quando o seu confessor partiu para as missões, Ana Maria procurou o conselho de um outro padre. As palavras dele foram libertadoras: “Pare de resistir à graça!”
Ana Maria começou, desde logo, a trabalhar naquilo para que se sentia chamada. Em Berlim, ela tinha presenciado o grande desespero das crianças sem casa. Colocou-se em contacto com o Delegado Episcopal de Berlim e obteve autorização para abrir um Lar para crianças. Com 500 marcos - que a Condessa lhe tinha dado, em sinal de agradecimento - Ana Maria abriu o primeiro ‘Lar São José’, a 2 de Agosto de 1891. Começou por instalar três crianças, uma educadora e uma empregada doméstica, nalguns quartos de um prédio antigo, situado em “Pappelallee.” As crianças chamavam-lhe “Mãe” e, muito rapidamente, passou a ser conhecida como “Mãe da Pappelallee”. Mas, ainda faltava algo muito importante: a presença eucarística. Ana Maria não se cansava de rezar: “Senhor, se vierdes, eu venho também”. Estava firmemente decidida a só se instalar no Lar São José, quando o Santíssimo Sacramento aí estivesse presente.
A Eucaristia tinha-se tornado o centro da vida e do trabalho de Madre Maria Teresa de São José. Na capela de Colónia, passou horas e horas a rezar, silenciosamente, a Jesus, “o Amado da sua alma”. Diante do Sacrário, na sua união pessoal com Cristo, Madre Teresa de São José encontrava alegria, paz e o mais profundo amor que um coração humano pode experimentar. “Deus inflamou o meu coração com tanta veemência de amor, que todo o sofrimento que a graça de Deus, mais tarde, me mandou ou permitiu que caísse sobre mim, não me parecia mais do que uma gota de água que cai em cima de um ferro incandescente”.
Com Jesus e por seu amor, ela estava pronta para tudo suportar, mas a sua ausência era para ela uma verdadeira tortura. “Coração de Jesus, ninguém pode compreender como anseio por Vós. Ninguém é capaz de contar as lágrimas de desejo que chorei por Vós. Senhor, se vierdes, eu venho também!” Era esta a sua oração constante. Era a fonte que alimentava todas as suas actividades apostólicas.
O Amor nunca é estéril. A sua força criativa expande-se. Madre Maria Teresa desejava reunir outras pessoas à volta da ‘Fonte de Amor’ que ela tinha encontrado. Só assim, bebendo constantemente desta fonte, é que ela própria e as outras jovens que se tinham juntado a ela, poderiam tornar-se instrumentos de Deus.
A 8 de Dezembro de 1891, Cristo veio morar na “Pappelallee”. Para Ana Maria foi “o dia mais feliz da sua vida”. “As nossas almas ganham vida nova na grande fonte de amor que é o Santíssimo Sacramento e todos os dias se reacendem no fogo do Divino Amor que nunca descansa, mas que espalha, ao redor de si, as suas centelhas que são as obras de caridade em que Ele se consome.”
Em 1897, mais de quarenta jovens já se tinham associado à obra de Madre Teresa, servindo nos Lares São José. Para além dos dois Lares de crianças em Berlim, havia ainda mais dois na Boémia e um outro em Oldenburg. Em Berlim, ela abriu também um centro de acolhimento para os padres que trabalhavam ou estudavam nesta cidade. No entanto, Madre Maria Teresa não fundava os Lares São José para serem somente instituições sociais. Em 1891, contemplando a beleza de um pôr-do-sol, ela compreendeu a razão de ser das suas fundações: “A consagração das Servas do Divino Coração de Jesus implica viver para a expiação dos pecados; no esforço da santificação pessoal e na entrega para a salvação das almas”. Ela tinha conhecido o Carmelo através de Santa Teresa de Jesus e tinha encontrado no zelo e nas orações dos santos do Carmelo - que tinham oferecido as suas vidas como vítimas de Amor pela salvação das almas e glória da Igreja - uma fonte de inspiração para a sua própria vocação. A sua Congregação deveria seguir a espiritualidade carmelita. Santa Teresa tinha aberto o caminho.
A partir de Novembro de 1896, Madre Maria Teresa e a sua comunidade cuidam das crianças e fazem missão nos domicílios, observando, ao mesmo tempo, a regra Primitiva da Ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Tal como a sua mãe espiritual, Santa Teresa de Jesus, a maior alegria da Madre Maria Teresa era a de ser filha da Igreja. A sua humildade era imensa ao aperceber-se de que Deus a tinha chamado a si, “uma filha do deserto”, para fundar uma comunidade religiosa e para guiar outras mulheres já nascidas no seio da Igreja. Como uma verdadeira filha da Igreja, sempre se mostrou fiel e obedeceu aos bispos e aos ensinamentos da Igreja. A “voz do Bispo” representava para ela o “voz de Deus”, mesmo quando se tratava de encerrar um convento ou um Lar.
Madre Maria Teresa viu a Igreja ser perseguida e devendo fazer face a inúmeros entraves. Em profunda união com o Sagrado Coração de Jesus, os sofrimentos e a glória do Corpo Místico de Cristo – a Igreja – tornam-se os seus próprios sofrimentos e a sua glória.
Em 1897, Madre Maria Teresa esperava obter do Cardeal Kopp, Bispo de Breslau  - de que Berlim dependia nessa altura -, o reconhecimento da sua fundação como Congregação religiosa. Apesar de financiar o trabalho das Irmãs, o prelado continuou inflexível e recusou a aprovação canónica da Congregação. Seguindo os conselhos de um padre, Madre Maria Teresa decidiu ir procurar ajuda a Roma. Lá, encontrou o Padre Geral da Ordem do Carmelo e expôs-lhe o seu desejo de reunir, numa mesma espiritualidade, os dois aspectos do espírito do Carmelo – oração contemplativa e zelo apostólico - para responder às necessidades da época. Esta iniciativa entusiasmou de tal maneira o Superior-Geral que ele abençoou o seu escapulário e a ajudou a obter uma carta de recomendação do Cardeal Parocchi, protector da Ordem do Carmelo.
Contudo, devido a situação tensa que se vivia na Igreja da Alemanha, o Cardeal Kopp continuou a recusar considerar como religiosas as Irmãs que trabalhavam nos Lares São José. Madre Maria Teresa começou a procurar um Bispo que aceitasse receber as suas noviças e criar uma Casa-Mãe, na sua Diocese. Durante seis anos, viajou desde a Baviera até à Holanda, passando pela Inglaterra e pela Itália. Por duas vezes obteve autorização de fundar uma Casa-Mãe mas, circunstâncias adversas obrigaram-na a deixar essas dioceses, fechando os noviciados, antes mesmo que as irmãs pudessem pronunciar os seus votos.
Finalmente, em 1904, em Rocca di Papa, Itália, surge a Casa-Mãe. Aí, manteve-se durante 18 anos, tendo sido transferida para Sittard, depois da Primeira Guerra Mundial.
Em Berlim, um grande número de padres e outros católicos criticaram severamente a Madre Maria Teresa no seu desejo de criar uma nova Congregação religiosa. As jovens, que tinham intenção de entrar para a comunidade, ou ajudá-la, eram constantemente dissuadidas. A calúnia e a difamação dos opositores pareciam vir de todo o lado, onde quer que a Madre Maria Teresa se instalasse. Mas nunca ela retorquiu dizendo mal deles. Durante todos esses anos, teve de enfrentar a solidão, o afastamento da sua família, a doença e a pobreza.
O sofrimento tinha-se tornado, para a Madre Maria Teresa, uma fonte de alegria profunda, pois era um meio que ela utilizava para unir a sua alma a Deus, e para, com o Salvador, participar na redenção do mundo.
Ao fundar as Irmãs Carmelitas do Divino Coração de Jesus, a Madre Maria Teresa entregou-se inteiramente a Deus como vítima do seu amor. Passou a sua vida a servir os pobres, a rezar, a trabalhar e a sofrer pela salvação das almas e pela liberdade da Igreja. Em 1930, o trabalho e o sacrifício da Madre Maria Teresa foram coroados pela aprovação da sua Congregação, pelo Papa Pio XI.
A Madre Maria Teresa percorreu a Europa e os Estados Unidos para fundar os Lares para as crianças, e mais tarde os Lares para os idosos. Os últimos anos da sua vida, passou-os em Sittard, na Holanda, dirigindo a Congregação a partir da Casa-Mãe, aí estabelecida desde 1922.
Apesar de muito enfraquecida fisicamente e quase cega, passava largas horas em oração, de joelhos, diante do Santíssimo Sacramente, e continuou sempre meiga e atenciosa para com as suas Irmãs.
Antes de morrer, a 20 de Setembro de 1938, deixou às suas Irmãs, como sendo a sua última vontade e o seu testamento, uma linda declaração: “Tudo o que Deus faz é bem feito. Seja sempre louvado e exaltado o Senhor”.
Na noite em que morreu, a Madre Maria Teresa pediu que lhe trouxessem a relíquia: o crucifixo que a tinha acompanhado durante todas as suas viagens. Desde esse momento e até ao seu último suspiro, não mais a largou. Então, de repente, ritmando as sílabas com o dedo, foi dizendo o que seriam suas últimas palavras à Comunidade: “Tudo – o – que – Deus – faz – é – bem – feito -. Seja – sempre – louvado - e – exaltado – o – Senhor!”
Foi como um último raio de sol de um fim de tarde, esta sua exortação final, antes de deixar a terra. Durante toda a noite, só teve uma oração: “Tenho de voltar à casa do Pai! Deixem-me ir para casa!”.
A Madre Maria Teresa de São José foi beatificada, no dia 13 de Maio de 2006, na Catedral de Roermond, na Holanda, em cerimónia solene presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, em nome do Papa Bento XVI. A memória litúrgica da Beata Maria Teresa de São José faz-se no dia 20 de Setembro.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
 Como são insondáveis os seus desígnios
 e incompreensíveis os seus caminhos!
 Quem conheceu o pensamento do Senhor?
 Quem foi o seu conselheiro?
 Quem Lhe deu primeiro,
 para que tenha de receber retribuição?
 D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
 Glória a Deus para sempre. Amém…” (Romanos 11, 33-36)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 23 de Agosto, na Praça de São Pedro – Roma

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
Ouvimos a Palavra de Deus no livro do Apocalipse: «Eis que eu renovo todas as coisas» (21, 5). A esperança crisã baseia-se na fé em Deus que cria sempre novidades na vida do homem, cria novidades na história, cria novidades no cosmos. O nosso Deus é o Deus que cria novidades, porque é o Deus das surpresas.
Não é cristão caminhar cabisbaixo — como os porcos: eles caminham sempre assim — sem erguer os olhos rumo ao horizonte. Como se todo o nosso caminho acabasse aqui, no arco de poucos metros de viagem; como se na nossa vida não houvesse meta alguma, nenhum ponto de chegada, como se nós fôssemos obrigados a um perambular eterno, sem qualquer razão para todos os nossos cansaços. Isto não é cristão.
As páginas finais da Bíblia mostram-nos o derradeiro horizonte do caminho do crente: a Jerusalém do Céu, a Jerusalém celeste. Ela é imaginada antes de tudo como um imenso tabernáculo, onde Deus acolherá todos os homens para habitar definitivamente com eles (cf. Ap 21, 3). Esta é a nossa esperança. E o que fará Deus quando, finalmente, estivermos com Ele? Terá uma ternura infinita por nós, como um pai ao receber os seus filhos que se cansaram e sofreram prolongadamente. No Apocalipse, João profetiza: «Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens! [...Ele] enxugará todas as lágrimas de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição [...] Eis que eu renovo todas as coisas!» (21, 3-5). O Deus na novidade!
Procurai meditar sobre este trecho da Sagrada Escritura, não de maneira abstrata, mas depois de ter lido uma crónica dos nossos dias, depois de ter visto o telejornal ou a primeira página dos jornais, onde há muitas tragédias, onde se anunciam notícias tristes às quais todos nós corremos o risco de nos habituarmos. Saudei algumas pessoas de Barcelona: quantas notícias tristes vêm dali! Saudei algumas pessoas do Congo, e quantas notícias tristes chegam de lá! E muitas outras! Para mencionar apenas dois países, de vós que estais aqui... Procurai pensar no rosto das crianças apavoradas pela guerra, no pranto das mães, nos sonhos interrompidos de tantos jovens, nos refugiados que enfrentam viagens terríveis e muitas vezes são explorados... Infelizmente, a vida é também isto. Por vezes diríamos que é sobretudo isto.
Talvez. Mas há um Pai que chora connosco; existe um Pai que verte lágrimas de piedade infinita pelos seus filhos. Temos um Pai que sabe chorar, que chora connosco. Um Pai que nos espera para nos consolar, porque conhece os nossos sofrimentos e preparou para nós um futuro diverso. Esta é a grandiosa visão da esperança cristã, que se dilata ao longo de todos os dias da nossa existência e deseja consolar-nos.
Deus não quis a nossa vida por engano, obrigando-se a si mesmo e a nós a duras noites de angústia. Ao contrário, criou-nos porque nos quer felizes. É o nosso Pai, e se nós aqui e agora experimentamos uma vida diversa daquela que Ele desejou para nós, Jesus garante-nos que o próprio Deus realiza o seu resgate. Ele trabalha para nos resgatar.
Acreditamos e sabemos que a morte e o ódio não são as últimas palavras pronunciadas sobre a parábola da existência humana. Ser cristão implica uma nova perspetiva: um olhar cheio de esperança. Alguns julgam que a vida encerra todas as suas felicidades na juventude e no passado, e que o viver é uma lenta decadência. Outros ainda acham que as nossas alegrias são apenas episódicas e passageiras, e que na vida dos homens está inscrita a insensatez. Há aqueles que, diante de tantas calamidades, dizem: “Mas a vida não tem sentido. O nosso caminho é a insensatez”. Mas nós cristão não acreditamos nisto. Ao contrário, cremos que no horizonte do homem existe um sol que ilumina para sempre. Acreditamos que os nossos dias mais bonitos ainda devem chegar. Somos pessoas mais de primavera do que de outono. Gostaria de perguntar agora — cada qual responda no seu coração, em silêncio, mas responda — “Sou um homem, uma mulher, um jovem, uma jovem de primavera ou de outono? A minha alma está na primavera ou no outono?”. Cada um responda a si mesmo. Vislumbramos os rebentos de um mundo novo, em vez de folhas amareladas nos ramos. Não nos embalemos em nostalgias, arrependimentos e lamentações: sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos. Não vos esqueçais daquela pergunta: “Sou uma pessoa de primavera ou de outono?”. De primavera, que espera a flor, que aguarda o fruto, que se põe à espera do sol que é Jesus, ou de outono, sempre cabisbaixo, amargurado e, como às vezes eu disse, com a cara de pimenta avinagrada.
O cristão sabe que o Reino de Deus, o seu Senhorio de amor continua a crescer como um grande campo de trigo, não obstante no meio haja o joio. Há sempre problemas, bisbilhotices, guerras, enfermidades... existem problemáticas. Mas o trigo cresce, e no final o mal será eliminado. O futuro não nos pertence, mas sabemos que Jesus Cristo é a maior graça da vida: é o abraço de Deus que nos espera no fim, mas que já agora nos acompanha e nos consola ao longo do caminho. Ele leva-nos ao grande “tabernáculo” de Deus com os homens (cf. Ap 21, 3), com muitos outros irmãos e irmãs, levaremos a Deus a recordação dos dias vividos aqui na terra. E naquele instante será bom descobrir que nada se perdeu, nenhum sorriso e nenhuma lágrima. Por mais longa que a nossa vida tiver sido, teremos a impressão de ter vivido num sopro. E que a criação não acabou no sexto dia do Génesis, mas continuou sem se cansar, porque Deus sempre se preocupou connosco. Até ao dia em que tudo se completar, na manhã em que se extinguirem as lágrimas, no próprio instante em que Deus pronunciar a sua última palavra de bênção: «Eis — diz o Senhor — que eu renovo todas as coisas!» (v. 5). Sim, o nosso Pai é o Deus das novidades e das suspresas. E naquele dia nós seremos verdadeiramente felizes, e choraremos. Sim, mas choraremos de alegria! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 137

Refrão: Por vossa misericórdia, não nos abandoneis, Senhor.

De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças
porque ouvistes as palavras da minha boca.
Na presença dos Anjos Vos hei-de cantar
e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

Hei-de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade,
porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa.
Quando Vos invoquei, me respondestes,
aumentastes a fortaleza da minha alma.

O Senhor é excelso e olha para o humilde,
ao soberbo conhece-o de longe.
Senhor, a vossa bondade é eterna,
não abandoneis a obra das vossas mãos.

SANTOS POPULARES


SANTA JOAQUINA DE VEDRUNA

Joaquina nasceu em Barcelona, Espanha, no dia 16 de Abril de 1783, e era filha de Dom Lourenço de Vedruna – de nobre família, rico e alto funcionário do governo – e de Teresa Vidal. Joaquina era a quinta de oito irmãos. A sua família era muito católica.
Desde muito pequena, deixou-se impressionar pela devoção ao Menino Jesus e às benditas almas do Purgatório.
Joaquina tinha um grande zelo pela limpeza, uma característica que acompanhou toda a sua vida: não tolerava qualquer mancha ou nódoa na sua roupa. E, este amor pela limpeza marcou-a, também, no desejo de ter sempre o coração e a alma limpos de qualquer mancha de pecado.
Aos doze anos, sentiu um grande desejo de ser freira carmelita. Mas as freiras não a aceitaram porque lhes parecia ainda muito jovem para decidir-se pela vocação religiosa.
Com 26 anos, no dia 24 de Março de 1799, casou-se com um rico advogado, Dom Teodoro de Mas, que era muito amigo do seu pai e, como ele, funcionário público. Teodoro estimava muito as três filhas de Dom Lourenço e, para decidir-se por uma delas, levou-lhes um pacotinho de guloseimas como presente. As duas primeiras rejeitaram-no como um presente demasiado infantil; mas, Joaquina aceitou-o com alegria, exclamando: "Eu gosto muito de amêndoas." Este gesto de humildade fez com que o jovem decidisse escolhê-la como esposa.
Nos primeiros tempos de casamento, Joaquina sentiu, por vezes, alguns escrúpulos por não ter seguido a vocação religiosa que, em criança, tanto lhe chamara a atenção. Mas, o seu esposo confortava-a dizendo-lhe que, também, na vida doméstica se podia chegar a uma santidade tão elevada como num convento e que, com suas boas obras de piedade, iria substituindo aquelas que teria feito na vida religiosa. Isso tranquilizou-a.
Joaquina viveu 16 anos com o seu esposo e Deus presenteou-a com nove filhos. Facto extraordinário e experimentado como recompensa Deus pelos seus sacrifícios: quatro das suas filhas tornaram-se freiras e várias das suas netas, também.
Quando Napoleão invadiu a Espanha, Dom Teodoro de Mas, seu esposo, alistou-se no exército para defender a sua pátria e participou, com bravura, em cinco batalhas contra os invasores. Joaquina e os seus filhos tiveram de deixar a cidade de Barcelona e de fugir para a pequena cidade de Vich.
Quando Joaquina e os seus filhos fugiam pela planície, de repente, apareceu-lhe uma misteriosa Senhora e a levou até Vich, a casa de uma família muito boa que os recebeu com grande carinho. Em seguida, a Senhora desapareceu e ninguém encontrou explicação para isso. Joaquina sempre acreditou que havia sido a Santíssima Virgem que veio para a ajudar.
Um dia, estando rodeada pela sua família, Joaquina julgou ter ouvido uma voz que lhe dizia: “Brevemente, ficará viúva". Então, começou a preparar o seu coração para aceitar a vontade de Deus, qualquer que ela fosse. Dois meses mais tarde, no dia 3 de Março de 1816, recebeu a notícia da morte inesperada do seu marido, embora parecesse estar bem de saúde e tivesse apenas 42 anos. Joaquina ficou viúva aos 33 anos e com a tarefa de cuidar, sozinha, dos seus seis filhos, ainda crianças, que haviam sobrevivido.
A partir daquele dia, Joaquina deixou todas as suas roupas de senhora rica e dedicou-se, completamente, a ajudar os pobres e a assistir os doentes nos hospitais. No início, as pessoas pensaram que ela tinha enlouquecido, por causa da tristeza pela morte do seu esposo; mas, rapidamente, perceberam que ela estava a tornar-se uma pessoa santa. E admiravam a sua generosidade para com os necessitados.
Joaquina vivia como as pessoas mais pobres, mas todas as suas energias eram para ajudar aqueles que sofriam da miséria ou da doença. Durante 10 anos, dedicou-se à penitência, às orações e às obras de caridade, pedindo a Deus que a iluminasse para poder discernir e preparar o seu futuro. Como já se referiu, quatro das suas filhas decidiram seguir o Senhor na vida religiosa. Quando os outros filhos se casaram, Joaquina - finalmente livre de toda a responsabilidade familiar e doméstica – decidiu realizar o seu grande desejo de criança: ser religiosa.
Providencialmente, encontrou-se com um padre muito santo - o Padre Esteban Olot, capuchinho - que lhe disse que Deus a tinha escolhido para fundar uma comunidade religiosa, dedicada à vida activa de apostolado. O Padre Esteban escreveu as ‘Constituições’ da nova comunidade e, no dia 26 de Fevereiro de 1826, diante do Bispo de Vich, que a apoiou plenamente, Joaquina começou, com oito jovenzinhas, a sua nova comunidade, a que deu o nome de "Irmãs Carmelitas da Caridade de Vedruna". A sede desta comunidade foi a sua própria casa, conhecida como "Manso Escorial".
Em pouco tempo, a comunidade passou a ser constituída por treze religiosas e, mais tarde, por cerca de cem. Esta congregação religiosa, como a sementinha de mostarda do Evangelho, começou por ser muito pequenina mas, rapidamente, transformou-se em árvore e uma grande árvore cheia de bons frutos. Por isso, Joaquina começou a construir novas comunidades de religiosas, por toda província.
Nestas suas andanças, Joaquina teve a sorte de se encontrar, também, com um grande missionário, bispo e fundador - António Maria Claret [… António Maria Claret, fundou, em 16 de Julho de 1849, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Missionários Claretianos).Morreu no dia 24 de Outubro de 1870, na Abadia cisterciense de Fontfroide, no sul da França. Foi beatificado no dia 25 de Fevereiro de 1934, pelo Papa Pio XI que o considerou "apóstolo incansável dos tempos modernos". No dia 7 de Maio de 1950 foi canonizado pelo Papa Pio XII …] - cujos conselhos lhe foram de grande proveito para o progresso da sua nova congregação.
Depois veio a guerra civil chamada "Guerra Carlista" e Joaquina, perseguida pelos esquerdistas, teve de fugir para França, onde esteve desterrada três anos. Ali, recebeu a assistência bem oportuna de um jovem misterioso, que ela sempre acreditou tratar-se de São Miguel Arcanjo, e Deus encaminhou-a, nesta terra, para uma família espanhola que a tratou com amor verdadeiro.
Quando voltou a Espanha, talvez como fruto dos sofrimentos padecidos e de tantas orações, a sua comunidade recomeçou a crescer admiravelmente e as casas religiosas foram-se multiplicando como verdadeira bênção de Deus.
Em 1850, começou a sentir os primeiros sintomas da paralisia que a imobilizaria completamente. Aconselhada pelo Vigário Episcopal, renunciou a todos os seus encargos e dedicou-se a viver humildemente como uma simples religiosa, sem posto algum. Apesar de conservar totalmente as suas qualidades mentais, deixou que outras Irmãs dirigissem a Congregação. Nessa altura, pediu ao Padre Bernardo Sala - um padre beneditino, prudente, santo e sábio - que ajudasse espiritualmente a congregação e formasse as Irmãs na fidelidade ao espírito da fundadora.
Em 1850, Joaquina viveu a imensa alegria de ver aprovada, pela Santa Igreja, a sua comunidade religiosa.
Durante quatro anos, a paralisia espalhou-se por todo o seu corpo e Joaquina ficou imobilizada por completo, perdendo, até, a faculdade de falar. Então, veio uma epidemia de cólera que lhe tirou a vida.
Vítima da paralisia e da cólera, Joaquina faleceu, no dia 28 Agosto de 1854.
Os seus restos mortais repousam na capela do Manso Escorial de Vich.
Desde então, a sua intercessão tem ajudado, de maneira prodigiosa, as suas religiosas a espalharem-se por muitos países.
As Carmelitas da Caridade - Instituto religioso feminino de direito pontifício - foram definitivamente aprovadas pela Santa Sé, no dia 5 de Agosto de 1857, e foram agregadas à Ordem Carmelita no dia 14 de Setembro de 1860.
A Congregação das ‘Carmelitas da Caridade’ tem, agora, 290 comunidades religiosas, espalhadas por 25 países, dos 5 continentes. É formada por mais de 2.700 irmãs Vedruna. As diversas comunidades cuidam da educação de mais de 40.000 meninas, nas suas escolas e assistem mais de 4.500 pessoas nos seus hospitais. A sede generalícia está localizada em Roma.
Joaquina de Vedruna foi beatificada pelo Papa Pio XII, em 19 de Maio de 1940, e declarada santa -canonizada - pelo Papa João XXIII, no dia 12 de Abril de 1959.

A memória litúrgica de Santa Joaquina de Vedruna celebra-se no dia 28 de Agosto.