PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

SANTOS POPULARES


BEATO LUÍS ZEFERINO MOREAU

Foi o quinto de treze irmãos, filhos do casal Luís Zeferino Moreau e Maria Margarida Champoux, humildes agricultores. Nasceu, em Besançour, na diocese de Quebeque, no Canadá, no dia 1 de Abril de 1824. Aos 12 anos, tendo concluído os estudos primários, começou a aprender latim com o pároco da freguesia. Dois anos depois entrou no seminário.
Durante os estudos de teologia, começou a dar aulas, substituindo um professor doente mas o excesso de trabalho levou-o a um tal estado de fraqueza que teve de abandonar o seminário, em Novembro de 1845, e voltar para casa dos pais. A sua ânsia de ser padre impeliu-o a prosseguir o estudo da teologia, sob a orientação do seu pároco. Em Setembro de 1846, pediu licença ao Bispo de Quebeque para usar o traje eclesiástico e continuar os estudos em regime de externato, por não se sentir completamente curado, mas o Prelado disse-lhe que não.
Luís Zeferino não se desconcertou, nem perdeu as esperanças. Pediu ao Bispo de Montreal a incardinação na diocese. O Bispo-Auxiliar, D. João Carlos Prince, hospedou-o na sua residência e prontificou-se a orientá-lo nos estudos. Achando-o suficientemente versado em filosofia e teologia, no dia 19 de Dezembro daquele ano, conferiu-lhe a ordem de presbiterado.
No início de 1847, foi nomeado mestre-cerimónias e capelão, na catedral. Entregaram-lhe, além disso, o cuidado do Convento dos pobres da Providência, a direcção da comunidade do Bom Pastor e puseram-no á frente da chancelaria da cúria diocesana. No desempenho de todas estas funções, deu mostras de extraordinárias qualidades espirituais e intelectuais. Em 1852, foi criada a Diocese de S. Jacinto, sendo nomeado como seu primeiro Bispo, D. João Carlos Prince, até então Bispo-Auxiliar de Montreal. O Padre Luís Zeferino Moreau foi escolhido para o acompanhar, como seu secretário. Nas suas novas funções, foi encarregado, também, da direcção da chancelaria da nova diocese e de atender espiritualmente as religiosas de vários institutos, bem como a capelania do hospital da cidade.
De 1854 a 1860 e de 1869 a 1875, foi pároco da Sé catedral. Desempenhou, também, as funções de Vigário-Geral da diocese, cargo que o obrigou a governar a Diocese durante a sede vacante e as ausências demoradas do Prelado. Morto o terceiro Bispo, em 1875, o Padre Luís Zeferino governou a diocese como Vigário-Capitular. Viu-se, então, com mais evidência, a alta estima que todos tinham por ele. Isto levou os Prelados Canadianos a dar as melhores informações ao Santo Padre. O Papa Pio IX, acedendo a tão ardentes desejos, nomeou-o Bispo de S. Jacinto. Recebeu a ordenação episcopal, no dia 16 de Janeiro de 1876.
Nos 25 anos que esteve à frente da diocese, à imitação de S. Paulo, fez-se tudo para todos, com simplicidade, bondade e humildade. Procurou, sobretudo, trabalhar em união com o clero, manter no fervor as congregações religiosas existentes e atrair outras para a diocese. Ele mesmo, a 12 de Setembro de 1877, fundou a congregação das Irmãs de S. José, e a 21 de Novembro de 1890, o Instituto das Irmãs de Santa Marta para cuidarem dos seminários, residências episcopais e casas de educação da juventude.
Nele, os fiéis encontraram um homem inteiramente consagrado a Deus. Monsenhor Moreau sabia, quotidianamente, dedicar a sua atenção a todas as pessoas. Respeitava cada uma delas. Praticava a mais concreta caridade para com os pobres acolhidos na sua casa. Gostava de visitar as paróquias e as escolas. Estava junto dos sacerdotes que o procuravam para algum conselho; estimulava-os na sua acção, na vida espiritual e no aprofundamento intelectual, a fim de que transmitissem aos cristãos uma catequese iluminada por uma fé compreendida e vivida.
Como Bispo, gozava de um discernimento lúcido, e pregava o Evangelho com palavras claras e corajosas, tanto no ensinamento dirigido a todos, como nas respostas dadas a cada um. Consciente das necessidades de uma diocese que crescia, Monsenhor Moreau multiplicou as iniciativas para a educação religiosa e escolar dos jovens, a assistência aos doentes, a organização de ajuda mútua, a constituição de novas paróquias e a formação dos candidatos ao sacerdócio.
Em todos estes sectores, ele era audaz e superava, com paciência, os obstáculos. Procurou a cooperação das Congregações religiosas para numerosas tarefas. Compreendendo todo o valor da vida consagrada, soube favorecer fundações corajosas na própria pobreza. Pessoalmente, contribuiu de maneira profunda na animação espiritual e na orientação de Institutos religiosos que surgiam, ou de novo se estabeleciam na sua diocese… Apesar da fragilidade física, ele viveu numa austeridade exigente. Não conseguiu fazer frente às suas enormes tarefas senão com a força que lhe vinha da oração. Dizia muitas vezes: “não faremos bem as grandes coisas de que somos encarregados, senão mediante uma íntima união com Nosso Senhor”.
Morreu, santamente, no dia 24 de Maio de 1901, com 77 anos de idade, 54 de padre e 25 de bispo. Deixou cerca de vinte mil cartas a padres, religiosas e leigos, que tratam da vida ascética e espiritual, e provam a laboriosidade apostólica do seu ministério.
Foi beatificado, no dia 10 de Maio de 1987, pelo Papa João Paulo II. O Papa, na homilia da sua beatificação, disse: «No seguimento do Bom Pastor, Luís Zeferino Moreau consagrou a sua vida a guiar o rebanho que lhe foi confiado em S. Jacinto, no Canadá. Sacerdote, depois Bispo desta jovem diocese, ele conhecia as suas ovelhas. Trabalhava incansavelmente para lhes dar o alimento “para que os homens tivessem vida, e a tivessem em abundância”.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 24 de Maio.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

EM DESTAQUE:


- O PAPA EM FÁTIMA



O Papa Francisco veio a Fátima. Certamente, todos puderam experimentar a alegria e a emoção da sua presença, das suas palavras, dos seus gestos de amabilidade e de ternura, do seu testemunho de amor e de bondade. Veio como peregrino da Paz e da Esperança para rezar ao Pai, por Maria, que concedesse a Sua bênção ao mundo inteiro e, assim, se torne possível a convivência fraterna, a harmonia das nações e o diálogo, franco e transparente, das religiões. No centenário das aparições de Maria, em Fátima, o Papa proclamou como santos os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, uma celebração inédita em território português.
Na fórmula da canonização, o Papa disse: “Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa, depois de termos longamente reflectido, implorado várias vezes o auxílio divino e ouvido o parecer de muitos Irmãos nossos no Episcopado, declaramos e definimos como Santos os Beatos Francisco Marto e Jacinta Marto e inscrevemo-los no Catálogo dos Santos, estabelecendo que, em toda a Igreja, sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Da homilia da missa, destacamos: “…Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro.
Com esta esperança, congregamo-nos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário…”


- SEMANA DE ORAÇÃO PELA VIDA



De 14 a 21 de Maio, a Igreja celebra a Semana da Vida, sob o lema: “Com Maria, cuidar da alegria da Vida”. Do guião proposto para a reflexão, vivência e oração desta Semana, destacamos: “…Neste ano em que a Igreja de Portugal celebra o Centenário das Aparições, em Fátima, também a Semana da Vida estará naturalmente – bem – marcada por esta dimensão e rosto mariano da nossa Fé: Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, tem tudo para ensinar-nos como cuidarmos da Vida que nos é dada e confiada. Toda a vida e a vida toda. Vivemos, na sociedade portuguesa, algumas dificuldades e tensões, no que diz respeito à Vida: a questão do aborto e a questão da eutanásia, de maneira mais evidente, mas também muitas outras ameaças à qualidade da Vida e à Vida com qualidade.
Esta Semana da Vida quer ser – cada vez mais – um ‘tempo oportuno’ para agradecermos a vida, defendermos a vida, aprendermos a cuidar dela e aprofundar o convite a encontrar em Deus, fonte de toda a Vida, o sentido maior e inalienável e sagrado da vida de cada pessoa, desde a sua concepção até ao momento da morte, neste mundo.
No meio de situações verdadeiramente dramáticas, quando muitos contemporâneos estavam dominados pela angústia e a incerteza, quando a força do mal e do pecado parecia impor o seu domínio, a Virgem Maria faz brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela a extensão da sua ternura a todas as criaturas. O seu convite à conversão, à oração e à penitência pretende desbloquear os obstáculos que impedem os seres humanos de experimentar uma bondade que procede de Deus e foi depositada no coração humano.
A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento. Envolvidos por essa bênção, os três pastorinhos mostraram-se dispostos, pela boca de Lúcia, a serem louvor da glória de Deus e a entregarem-se plenamente aos desígnios de misericórdia que Deus manifestava através das aparições.” (Fátima, Sinal de Esperança para o nosso tempo – Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, 2016)

Talvez não seja descabido dizer que, hoje, agora, é cada um de nós, cada uma das nossas comunidades cristãs – paróquias, vigararias ou outras – que tem de assumir a mesma missão de sempre: ‘fazer brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela

a extensão da sua ternura a todas as criaturas’…”

DA PALAVRA DO SENHOR


- DO V DOMINGO DE PÁSCOA

“…Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva,
 rejeitada pelos homens,
 mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus.
 E vós mesmos, como pedras vivas,
 entrai na construção deste templo espiritual,
 para constituirdes um sacerdócio santo,
 destinado a oferecer sacrifícios espirituais,
 agradáveis a Deus por Jesus Cristo…” (cf. 1 Pedro 2, 4-5)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 10 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso itinerário de catequeses sobre a esperança cristã, hoje meditamos sobre Maria, Mãe da esperança. Maria atravessou mais de uma noite no seu caminho de mãe. Desde a primeira menção na história dos evangelhos, a sua figura destaca-se como se fosse o personagem de um drama. Não foi simples responder com um «sim» ao convite do anjo: e, no entanto, ainda na flor da idade, ela respondeu com coragem, não obstante nada soubesse do destino que a esperava. Maria, naquele instante, parece uma das muitas mães do nosso mundo, corajosas até ao extremo quando se trata de acolher, no próprio ventre, a história de um novo homem que nasce.
Aquele «sim» foi o primeiro passo de uma longa lista de obediências - longa lista de obediências! - que acompanharão todo o seu itinerário de mãe. Assim, nos evangelhos, Maria aparece como uma mulher silenciosa que, com frequência, não compreende tudo o que acontece ao seu redor, mas medita cada palavra e acontecimento no seu coração.
Nesta perspectiva, podemos ver um perfil belíssimo da psicologia de Maria: não é uma mulher que se deprime face às incertezas da vida, especialmente quando nada parece correr bem. Nem sequer uma mulher que protesta com violência, que se enfurece contra o destino da vida que, muitas vezes, nos revela um semblante hostil. Pelo contrário, é uma mulher que ouve. Não vos esqueçais que existe sempre uma grande relação entre a esperança e a escuta, e Maria é uma mulher que ouve. Maria acolhe a existência do modo como se nos apresenta: com os seus dias felizes, mas também com as suas tragédias que nunca gostaríamos de ter encontrado. Até a noite suprema de Maria, quando o seu Filho foi pregado na cruz.
Até àquele dia, Maria tinha quase desaparecido da trama dos evangelhos. Os escritores sagrados deixam entender este lento escondimento da sua presença; o seu permanecer muda diante do mistério de um Filho que obedece ao Pai. Contudo, Maria reaparece precisamente no momento crucial: quando grande parte dos amigos fogem por terem medo. As mães não traem e, naquele instante, aos pés da cruz, nenhum de nós pode dizer qual tenha sido a paixão mais cruel: se a de um homem inocente que morre no patíbulo da cruz, ou a agonia de uma mãe que acompanha os últimos instantes da vida do seu filho. Os evangelhos são lacónicos e extremamente discretos. Mencionam com um simples verbo a presença da Mãe: «estava» (Jo 19, 25). Ela estava. Nada dizem sobre a sua reacção: se chorou ou não... Nada!... Nem uma pincelada para descrever a sua dor. Sobre esses pormenores, mais tarde irrompeu a imaginação de poetas e pintores que nos deixaram imagens que entraram na história da arte e da literatura. Contudo, os evangelhos dizem só: ela «estava». Estava ali, no momento mais triste, mais cruel, e sofria com o filho. «Estava».
Maria «estava», simplesmente, lá. Ei-la novamente: a jovem de Nazaré, agora com cabelos brancos pelo passar dos anos, ainda ocupada com um Deus que só deve ser abraçado, e com uma vida que chegou ao limiar da escuridão mais densa. Maria «estava» na escuridão mais espessa, mas «estava». Não foi embora. Maria está fielmente presente, cada vez que surge a necessidade de manter uma vela acesa num lugar de bruma e neblina. Nem ela conhece o destino de ressurreição que o seu Filho estava a abrir, naquele instante, para todos nós, homens: está ali por fidelidade ao plano de Deus do qual se proclamou serva, no primeiro dia da sua vocação, mas também por causa do seu instinto de mãe que, simplesmente, sofre cada vez que um filho atravessa uma paixão. Os sofrimentos das mães: todos nós conhecemos mulheres fortes que enfrentaram muitos sofrimentos dos filhos!
Encontrá-la-emos no primeiro dia da Igreja, ela, mãe de esperança, no meio daquela comunidade de discípulos tão frágeis: um negou, muitos fugiram, todos sentiram medo (cf. At 1, 14). Mas ela, simplesmente, estava ali, do modo mais normal, como se fosse algo totalmente natural: na primeira Igreja envolvida pela luz da Ressurreição, mas também pelos tremores dos primeiros passos que devia dar no mundo.
Por isso, todos nós a amamos como Mãe. Não somos órfãos: temos uma mãe no céu, que é a Santa Mãe de Deus. Porque nos ensina a virtude da esperança, até quando tudo parece sem sentido: ela permanece sempre confiante no mistério de Deus, até quando Ele parece desaparecer por culpa do mal do mundo. Que nos momentos de dificuldade, Maria, a Mãe que Jesus ofereceu a todos nós, possa sempre amparar os nossos passos e dizer ao nosso coração: «Levanta-te! Olha em frente, olha para o horizonte», porque Ela é Mãe de esperança. Obrigado. (cf. Santa Sé)


PARA REZAR


SALMO 32

Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia. Que ela venha sobre nós.

Justos, aclamai o Senhor,
os corações rectos devem louvá 1’O.
Louvai o Senhor com a cítara,
cantai Lhe salmos ao som da harpa.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

SANTOS POPULARES


SÃO CARLOS EUGÉNIO
 DE MAZENOD

Carlos José Eugénio de Mazenod nasceu no dia 1 de Agosto de 1782, em Aix-en-Provence, no Sul da França. Era filho de Carlos António de Mazenod e de Maria Rosa Eugénia Joannis. Foi baptizado, no dia seguinte, na Igreja da Madalena, em Aix-en-Provence. A França estava mergulhada em profundas mudanças que abriram portas à “revolução francesa”. Aparentemente, o menino estava predestinado a uma carreira brilhante e uma vida abastada, graças à sua família que pertencia à pequena nobreza. O seu pai, jovem advogado, tornou-se aos 26 anos, em 1771, presidente do Tribunal de Contas de Aix. A sua mãe era filha de um abastado médico da cidade. A situação financeira dos de Mazenod era óptima.
No entanto, as perturbações decorrentes da Revolução Francesa (1789) iriam mudar, para sempre, a situação de Carlos Eugénio. Os de Mazenod opuseram-se tenazmente aos princípios orientadores da revolução. Por isso, corriam o rico de serem presos e decapitados. Carlos Eugénio, que tinha somente oito anos de idade, teve que fugir de França, com toda a sua família, deixando todos os seus bens para trás. Começou, então, para a família de Mazenod um longo e penoso exílio que duraria onze anos. 
A família de Mazenod refugiou-se em Itália, andando de cidade em cidade, até encontrar um modo seguro de vida. O pai viu-se obrigado a entrar para o ramo do comércio para poder manter a sua família. Porém, revelou-se tão inábil para os negócios que, ao fim de alguns anos, a sua família ficou à beira da ruína. Carlos Eugénio estudou, durante algum tempo, no Colégio dos Nobres, em Turim, mas a necessidade de partir rumo a Veneza marcaria, para ele, o fim de uma frequência escolar regular.
Um sacerdote local, Don Bartolo Zinelli, que era próximo da família de Mazenod, decidiu ajudar na formação do jovem francês. Don Bartolo deu a Carlos Eugénio uma educação fundamental, impregnada do sentido de Deus e do desejo de uma vida piedosa, algo que o acompanharia para sempre, apesar dos altos e baixos da sua existência.
Uma nova mudança, desta vez rumo a Nápoles, acarretou um período de aborrecimento, combinado com um sentimento de impotência. A família mudou-se novamente, desta vez para Palermo onde, graças à bondade do Duque e da Duquesa Cannizzaro, Carlos Eugénio pôde experimentar, pela primeira vez depois de muito tempo, do estilo de vida da nobreza que ele achava tão agradável. Recebeu o título de "Conde de Mazenod"; iniciou-se nos hábitos do tribunal e pôs-se a sonhar com um futuro brilhante.
Em 1802, aos 20 anos de idade, Carlos Eugénio pôde voltar ao seu país natal. Todos os seus sonhos e ilusões rapidamente se desfizeram. Em França, ele não passava de “cidadão” Mazenod. Com a “revolução”, aquele país tinha mudado demais! Os seus pais tinham-se separado. A sua mãe tentava recuperar o património familiar e ocupava-se a tentar casar Carlos Eugénio com uma herdeira rica. O jovem tornou-se pessimista face ao futuro que se lhe apresentava. Mas, o seu cuidado tão espontâneo para com os outros, aliado à fé que havia desenvolvido em Veneza, começaram a estabilizar a vida de Carlos Eugénio, que ficou profundamente chocado com a situação desastrosa em que se encontrava a Igreja, em França, provocada, atacada e dizimada pela Revolução Francesa.
Começou a sentir o chamamento ao sacerdócio e, apesar da oposição da mãe, entrou para o Seminário de Saint-Sulpice em Paris. No dia 21 de Dezembro de 1811, foi ordenado sacerdote em Amiens.
Regressando a Aix-en-Provence, o Padre de Mazenod não assumiu nenhuma paróquia, mas começou a exercer o seu ministério sacerdotal ocupando-se, especialmente, na ajuda espiritual aos mais pobres: os prisioneiros, os jovens, os empregados, os camponeses. Frequentemente, o Padre Carlos Eugénio tinha de enfrentar a oposição do clero local. Porém, encontrou outros sacerdotes igualmente zelosos e prontos a quebrar as práticas enraizadas na vida do clero francês.
O Padre Carlos Eugénio e os seus companheiros pregavam em provençal - a linguagem corrente dos seus interlocutores - e não em francês, que era a língua das pessoas instruídas. Iam de aldeia em aldeia, ensinando aos aldeões e passando horas e horas nos confessionários. Entre essas “missões paroquiais”, o grupo reencontrava-se para uma intensa vida comunitária de oração, estudo e de vivência da fraternidade. Atribuíram a si mesmos um nome: “Os Missionários da Provença”.
Para assegurar a continuidade da obra, o Padre de Mazenod tomou uma importante decisão: foi a Roma falar com o Papa e pediu-lhe autorização para que o seu grupo fosse reconhecido como Congregação de Direito Pontifício. A sua fé e a sua perseverança deram frutos e foi assim que, em 17 de Fevereiro de 1826, o Papa Leão XII aprovou a nova Congregação, sob o nome de "Oblatos de Maria Imaculada". O Padre Carlos Eugénio foi eleito Superior-Geral e continuou a inspirar e a guiar os seus membros durante 35 anos, até à sua morte.
O número de obras crescia: pregações, confissões, ministérios jovens, responsabilidade por santuários marianos e por paróquias, visitas às prisões, direcções de seminários, etc. No cumprimento de tantas tarefas, o Padre Carlos Eugénio sempre insistia na necessidade de uma profunda formação espiritual e de uma intensa vida comunitária. Amava Jesus Cristo apaixonadamente e estava sempre pronto a assumir um novo compromisso se enxergava nisso uma resposta às necessidades da Igreja. A “glória de Deus, o bem da Igreja e a santificação das almas” eram a fonte do seu dinamismo interior.
A diocese de Marselha tinha sido extinta, após a Concordata de 1802 entre Napoleão Bonaparte e o Papa Pio VII. Ao ser restabelecida, o tio do Padre Carlos Eugénio, o Cónego Fortunato de Mazenod, foi nomeado Bispo de Marselha. Então, o novo Bispo chamou o Padre Carlos Eugénio para ser o Vigário-Geral da diocese, com a responsabilidade de todas as acções que levassem a uma renovação e reconstrução da diocese.
Alguns anos depois, em 1832, o Padre Carlos Eugénio foi nomeado Bispo-Auxiliar do seu tio. A sua ordenação episcopal aconteceu em Roma, o que foi considerado como um desafio ao governo francês, que se achava no direito de confirmar tais nomeações. Seguiu-se uma acérrima batalha diplomática, com o Bispo Carlos Eugénio no centro de acusações, incompreensões, ameaças e recriminações. Foi, para ele, um período doloroso, uma dor aumentada ainda mais pelas crescentes dificuldades enfrentadas pela sua própria família religiosa. Todavia, o Bispo Carlos Eugénio manteve-se firme no rumo certo e, finalmente, as coisas acalmaram-se. Cinco anos mais tarde, depois da renúncia do seu tio, ele foi nomeado Bispo de Marselha.
Apesar de ter fundado os “Oblatos de Maria Imaculada” para levar os serviços da fé aos pobres dos campos da França, o zelo do Bispo de Mazenod pelo Reino de Deus e o seu amor pela Igreja conduziram os “Oblatos” a abrirem-se ao apostolado missionário, levando-os a instalar-se na Suíça, na Inglaterra e na Irlanda. Devido ao seu zelo apostólico, o Bispo Carlos de Mazenod era visto como um “segundo São Paulo”.
Bispos missionários vieram pedir-lhe que enviasse os “Oblatos” para as suas áreas apostólicas, em expansão. Apesar do pequeno número de membros do seu Instituto, o Bispo de Mazenod respondeu generosamente, enviando os seus missionários para o Canadá, os Estados Unidos, o Ceilão (actual Sri Lanka), a África do Sul e a Basutolândia (actual Lesoto).
Missionários ao seu modo, eles espalharam-se pregando, baptizando, levando a todos o seu apoio. Frequentemente, instalavam-se em terras remotas e ignoradas, estabelecendo e dirigindo novas dioceses e, ao seu jeito, “ousavam tudo para fazer avançar o Reino de Deus”. Durante os anos que se seguiram, o ímpeto missionário continuou de tal forma que actualmente o espírito de Carlos Eugénio de Mazenod está bem vivo, em 68 países.
Para além da sua dedicação às actividades missionárias dos “Oblatos”, o Bispo de Mazenod revelava-se um eminente pastor da Diocese de Marselha. Cuidou de assegurar a melhor formação para os seus sacerdotes; criou novas paróquias; construiu uma nova catedral e uma basílica espectacular, dedicada a Nossa Senhora da Guarda, que domina a paisagem da cidade. Encorajou os seus sacerdotes a buscarem o caminho da santidade; convidou um grande número de comunidades religiosas a trabalharem na sua diocese; liderou os Bispos franceses no apoio ao Papa para que fossem reconhecidos, em França, os seus direitos e os da Santa Sé. Tornou-se uma das mais reconhecidas figuras da Igreja, em França.
Em 1856, o imperador Napoleão III nomeou-o senador. Na ocasião da sua morte, o Bispo de Mazenod era o máximo responsável dos Bispos da França.
Carlos José Eugénio de Mazenod, Bispo de Marselha, e Primaz da França, faleceu no dia 21 de Maio de 1861, com 79 anos de idade. Terminava, assim, uma vida riquíssima de verdadeiro apostolado e de actividades missionárias, muitas das quais haviam sido conquistadas à base de muito sofrimento. Para a sua família religiosa e para a sua diocese, ele tinha sido, ao mesmo tempo, ponto de apoio e de inspiração; para Deus e para a Igreja, um filho fiel e generoso.
No momento da sua morte, o santo Bispo Carlos de Mazenod, deixou uma última recomendação aos seus filhos espirituais: “Entre vós, praticai bem a caridade! A caridade!... E, no mundo, o zelo pela salvação das almas.”
Carlos José Eugénio de Mazenod foi beatificado no dia 19 de Outubro de 1975, pelo Papa Paulo VI e canonizado em 3 de Dezembro de 1995, pelo Papa João Paulo II.

A sua memória litúrgica celebra-se no dia 21 de Maio.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- DO IV DOMINGO DE PÁSCOA

“…Ele suportou os nossos pecados
 no seu Corpo, no madeiro da cruz,
 a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça:
 pelas suas chagas fomos curados.
 Vós éreis como ovelhas desgarradas,
 mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas…” (cf. 1 Pedro 2, 24-25)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 3 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, desejo falar-vos sobre a Viagem Apostólica que, com a ajuda de Deus, realizei recentemente ao Egipto. Fui àquele país na sequência de um quádruplo convite: do Presidente da República, de Sua Santidade o Patriarca Copto-ortodoxo, do Grande Imã de Al-Azhar e do Patriarca Copto-Católico. Agradeço, a cada um deles, o acolhimento que me reservaram, verdadeiramente caloroso. E agradeço a todo o povo egípcio a participação e o afecto com que viveu esta visita do Sucessor de Pedro.
O Presidente e as Autoridades civis empenharam-se, de forma extraordinária, para que este evento pudesse desenrolar-se da melhor maneira possível; para que fosse um sinal de paz, um sinal de paz para o Egipto e para toda aquela região que, infelizmente, sofre pelos conflitos e pelo terrorismo. Com efeito, o lema da Viagem foi «O Papa da paz num Egipto de paz».
A minha visita à Universidade Al-Azhar, a mais antiga universidade islâmica e a máxima instituição académica do Islão sunita, teve um duplo horizonte: o diálogo entre os cristãos e os muçulmanos e, ao mesmo tempo, a promoção da paz no mundo. Em Al-Azhar, teve lugar o encontro com o Grande Imã, encontro que, depois, abrangeu a Conferência Internacional pela Paz. Neste contexto, apresentei uma reflexão que valorizou a história do Egipto como terra de civilização e terra de aliança. Para toda a humanidade, o Egipto é sinónimo de civilização antiga, de tesouros de arte e de conhecimento; e isto recorda-nos que a paz se constrói mediante a educação, a formação da sabedoria, de um humanismo que engloba, como parte integrante, a dimensão religiosa, a relação com Deus, como recordou o Grande Imã, no seu discurso. A paz constrói-se, também, partindo novamente da aliança entre Deus e o homem, fundamento da aliança entre todos os homens, baseada no Decálogo escrito nas tábuas de pedra do Sinai mas, muito mais profundamente, no coração de cada homem de todos os tempos e lugares; lei que se resume nos dois mandamentos do amor de Deus e do próximo.
Este mesmo fundamento está na base da construção da ordem social e civil, em que são chamados a colaborar todos os cidadãos, de todas as origens, culturas e religiões. Esta visão de laicidade sadia emergiu durante o intercâmbio de discursos com o Presidente da República do Egipto, na presença das autoridades do país e do Corpo diplomático. O grande património histórico e religioso do Egipto e o seu papel na região do Médio Oriente conferem-lhe uma tarefa peculiar no caminho rumo a uma paz estável e duradoura, que não se apoie no direito da força, mas na força do direito.
Os cristãos, no Egipto, assim como em cada nação da terra, estão chamados a ser fermento de fraternidade. E isto só é possível se viverem, em si mesmos, a comunhão em Cristo. Um forte sinal de comunhão, graças a Deus, foi possível oferecê-lo juntamente com o meu querido irmão Papa Tawadros II, Patriarca dos Coptas ortodoxos. Renovamos o compromisso - assinando inclusive uma Declaração Conjunta - de caminhar juntos e de nos comprometermos a fim de que não se repita o Baptismo administrado nas respectivas Igrejas. Rezamos juntos pelos mártires dos recentes atentados que atingiram tragicamente aquela Igreja venerável; e o seu sangue fecundou aquele encontro ecuménico, no qual participou também o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu: o Patriarca ecuménico, meu querido irmão.
O segundo dia da viagem foi dedicado aos fiéis católicos. A Santa Missa celebrada no Estádio disponibilizado pelas autoridades egípcias foi uma festa de fé e de fraternidade, em que sentimos a presença viva do Senhor Ressuscitado. Ao comentar o Evangelho, exortei a pequena comunidade católica no Egipto a reviver a experiência dos discípulos de Emaús: a encontrar sempre em Cristo, Palavra e Pão de vida, a alegria da fé, o fervor da esperança e a força de testemunhar no amor que «encontramos o Senhor!».
Vivi o último momento juntamente com os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os seminaristas, no Seminário Maior. Há muitos seminaristas: esta é uma consolação! Foi uma liturgia da Palavra, na qual foram renovadas as promessas da vida consagrada. Nesta comunidade de homens e mulheres que escolheram oferecer a vida a Cristo pelo Reino de Deus, vi a beleza da Igreja no Egipto, e rezei por todos os cristãos do Médio Oriente, para que, guiados pelos seus pastores e acompanhados pelos consagrados, sejam sal e luz naquelas terras, no meio daqueles povos. O Egipto, para nós, foi sinal de esperança, de refúgio, de ajuda. Quando aquela parte do mundo estava faminta, Jacob, com os seus filhos, foi lá ter; depois, quando Jesus foi perseguido, foi para lá. Por isso, narrar-vos esta viagem significa percorrer o caminho da esperança: para nós, o Egito é aquele sinal de esperança tanto para o passado como para o presente, desta fraternidade que eu quis contar-vos.
Agradeço novamente a quantos tornaram possível esta Viagem e àqueles que, de diversas maneiras, deram a sua contribuição, especialmente as muitas pessoas que ofereceram as suas orações e os seus sofrimentos. A Sagrada Família de Nazaré, que emigrou para as margens do Nilo, fugindo da violência de Herodes, abençoe e proteja sempre o povo egípcio e o guie pelas sendas da prosperidade, da fraternidade e da paz. Obrigado!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 22

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva me a descansar em verdes prados,
conduz me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES


SÃO FRANCISCO DE JERÓNIMO

Francisco de Jerónimo (di Girolamo) nasceu na pequena cidade de Grottaglia, perto de Tarento, no sul da Itália, no dia 17 de Setembro de 1642. Os seus pais, João Leonardo de Girolamo e Gentilesca Gravina, além de serem muito considerados e respeitados naquela região, destacavam-se, sobretudo, pela sua virtude e exemplo de vida cristã. Tiveram onze filhos, dos quais Francisco foi o primeiro. A todos proporcionaram uma excelente educação religiosa.
Como filho mais velho, Francisco destacava-se pela sua bondade, pela atenção aos outros e pelo seu cuidado em ser exemplo para os seus irmãos. Quando completou 11 anos, os pais confiaram-no a um grupo de sacerdotes que, não sendo uma comunidade religiosa, viviam em comunidade, ajudando-se mutuamente nos trabalhos apostólicos e no esforço da santidade. Devido às suas excelentes qualidades, Francisco foi encarregado da catequese das crianças e de cuidar da igreja. Impressionado pela sua piedade, o arcebispo de Tarento conferiu-lhe a tonsura eclesiástica, na idade de 16 anos. [A tonsura era o primeiro grau de Ordem, no itinerário para a vida sacerdotal. Consistia num pequeno corte, no cabelo, realizado pelo Bispo, no momento da atribuição deste grau eclesiástico. Era chamada também de "prima tonsura"] Depois disto, os pais enviaram-no para Tarento para estudar filosofia e teologia. Francisco foi, em seguida, para Nápoles para estudar direito canónico e direito civil no Colégio Gesù-Vecchio, dos jesuítas, que figurava, então, entre as melhores universidades da Europa.
Francisco foi ordenado sacerdote no dia 18 de Março de 1666. Depois de passar quatro anos no cargo de prefeito de disciplina, no colégio jesuíta de Nápoles, aos 28 anos de idade pediu admissão na Companhia de Jesus.
No noviciado - apesar de ser o mais humilde, fervoroso, mortificado e obediente - os superiores, para o pôr à prova, proibiram-no de celebrar a santa missa mais do que três vezes por semana. Conta-se, então, que nos outros dias, o próprio Jesus aparecia-lhe para lhe dar a santa comunhão.
Francisco foi, então, enviado a colaborar nas ‘missões populares’, acompanhando um famoso pregador da época, o Pe. Agnello Bruno. Durante três anos, evangelizaram a região de Otranto, convertendo pecadores e fortificando os justos, de tal maneira que se dizia na região: “Os Padres Bruno e Jerónimo não parecem ser simples mortais, mas anjos enviados expressamente para salvar as almas”.
Nomearam-no, depois, pregador da igreja de Gesù-Nuovo, a casa professa dos jesuítas, em Nápoles. Francisco começou por incrementar o entusiasmo religioso de um grupo de trabalhadores, cuja finalidade era secundar o trabalho missionário dos padres jesuítas. Queria que os colaboradores, mesmo os mais humildes, levassem muito a sério a religião: que frequentassem os sacramentos, aos domingos e nas festas de Nossa Senhora; que todos os dias fizessem oração mental, sem a qual não é possível qualquer progresso verdadeiro na vida espiritual; que fizessem também mortificações e penitências para dominar o próprio eu, e que fossem devotos da Via-Sacra e de Nossa Senhora. Aos poucos, esses trabalhadores tornaram-se excelentes cooperadores, fazendo muito apostolado e trazendo uma multidão de pecadores aos pés de Francisco para que se reconciliassem e obtivessem o perdão de Deus.
Como vivessem apenas de um pequeno salário, Francisco instituiu, entre eles, uma caixa de auxílio (uma espécie de caixa de previdência) que lhes permitisse contar com uma ajuda suplementar para as suas despesas, em caso de doença e, em caso de morte, poderem ter um funeral digno. Tinham, ainda, o privilégio de poderem ser enterrados no cemitério da própria igreja de Gesù-Nuovo.
Francisco estabeleceu, também, nessa igreja, o hábito da comunhão geral, no terceiro domingo de cada mês. Os seus congregados dedicavam-se a difundir essa devoção e faziam-no com tal êxito que era costume haver mais de 15 mil homens a comungar aos domingos.
Mas, o zelo apostólico de Francisco não se limitava a isso. Queria ir para as Índias converter infiéis, como o seu patrono São Francisco Xavier. Mas, os seus superiores responderam-lhe que as “suas Índias e o seu Japão” seriam a cidade e o reino de Nápoles. Durante 40 anos, ele evangelizará essa região de maneira notável: andava pelas ruas da cidade a pregar a necessidade da conversão e da penitência; do inesperado da morte e da necessidade de se estar preparado para ela; do juízo de Deus e da alegria da salvação. Escolhia, para a sua pregação, ruas onde tivesse ocorrido algum escândalo. Nalguns dias da semana, visitava os arredores de Nápoles e, às vezes, visitava até 50 povoados, num só dia. Pregava nas ruas, praças e igrejas. E o resultado era surpreendente. O povo acotovelava-se para se aproximar dele, vê-lo, beijar as suas mãos e tocar nas suas vestes. Os seus sermões eram curtos, mas enérgicos e eloquentes, e tocavam as consciências culpadas dos seus ouvintes, operando conversões milagrosas. Quando exortava os pecadores ao arrependimento, adquiria ares de profeta do Antigo Testamento e a sua voz tornava-se mais potente e terrível. Por isso o povo dizia: “Ele é um cordeiro quando fala; mas é um leão quando prega”.
O seu método ordinário era o de mostrar, em primeiro lugar, a enormidade do pecado, de maneira a suscitar, nos ouvintes, a indignidade dos seus pecados. Depois, mudava totalmente o tom, e falava da doçura e da bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira a fazer suceder a esperança ao desespero e conquistar assim os corações mais endurecidos. Era o momento que escolhia para dirigir um apelo à conversão, tão meigo e persuasivo que levava muitos a cair de joelhos e a pedir perdão pelos seus desmandos. No fim, acrescentava algum exemplo marcante das graças de Deus para deixar nas almas uma impressão mais profunda. Francisco utilizava tudo quanto pudesse ajudar à conversão e salvação daquela gente.
O Padre Francisco de Jerónimo deu, também, uma atenção especial à dimensão e cuidado social dos que mais precisavam: fundou dois refúgios para mulheres pecadoras arrependidas e o Asilo do Espírito Santo, para os seus filhos. Chegou a acolher 190 crianças a quem dava instrução e a oportunidade de construir um futuro menos sombrio. Francisco teve a consolação de ver 22 dessas mulheres abraçarem a vida religiosa.
Mas não era sempre assim. Um dia em que pregava numa praça, perto de uma casa de má fama, a mulher que nela habitava começou a fazer todos os ruídos possíveis para atrapalhar a pregação. Francisco, porém, sem se incomodar, continuou até ao fim.
A caridade de Francisco levava-o, também, ao encontro dos condenados às galés, transformando aqueles lugares de revolta e de dor em refúgios de paz e resignação. Ali, com a sua insuperável caridade e zelo pelas almas, conseguiu que vários escravos mouros se convertessem à verdadeira fé. Para que os seus baptismos influenciassem profundamente os corações, celebrava-os o mais pomposamente possível.
Francisco queria trabalhar até ao fim das suas forças. Dizia: “Enquanto eu conservar um alento de vida irei, ainda que arrastado, pelas ruas de Nápoles. Se cair debaixo da carga, darei graças a Deus. Um animal de carga deve morrer debaixo do seu fardo”. E isso aconteceu. Francisco trabalhou até não poder mais. Faleceu no dia 11 de Maio de 1716, com 73 anos de idade.
Francisco de Jerónimo foi beatificado, pelo Papa Pio VII, no dia 2 de Maio de 1806 e canonizado, pelo Papa Gregório XVI, no dia 26 de Maio de 1839.

A memória litúrgica de São Francisco de Jerónimo celebra-se no dia 11 de Maio.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

EM DESTAQUE


- O PAPA FRANCISCO NO EGIPTO

O Papa Francisco esteve no Egipto, nos dias 28 e 29 de Abril, numa visita apostólica carregada de sentimentos de solidariedade, de comunhão fraterna e de testemunho de fé em Jesus Cristo. Com um programa centrado no Cairo, capital do Egipto, o Papa apresentou-se como “peregrino da paz”, em busca de diálogo entre as várias confissões cristãs e a maioria muçulmana do país. O Papa declarou que o mundo precisa de construtores de pontes de paz, de diálogo, de fraternidade, de justiça e de humanidade. O Papa Francisco quis levar ao Egipto uma mensagem de amizade, com fortes apelos à fraternidade e à reconciliação entre judeus, cristãos e muçulmanos. O Papa quis que a sua visita fosse ainda “um abraço de consolação e encorajamento a todos os cristãos do Médio Oriente”.
Nesta sua visita, o Papa e o Patriarca da Igreja Copta assinaram uma declaração transcrevemos:


DECLARAÇÃO COMUM DE SUA SANTIDADE FRANCISCO E DE SUA SANTIDADE TAWADROS II

1. Nós, Francisco, Bispo de Roma e Papa da Igreja Católica, e Tawadros II, Papa de Alexandria e Patriarca da Sé de São Marcos, no Espírito Santo damos graças a Deus por nos ter concedido a feliz oportunidade de nos encontrarmos mais uma vez, trocarmos o abraço fraterno e juntarmo-nos novamente em oração comum. Damos glória ao Todo-Poderoso pelos laços de fraternidade e amizade existentes entre a Sé de São Pedro e a Sé de São Marcos. O privilégio de estar juntos aqui no Egipto é um sinal de que a solidez do nosso relacionamento tem aumentado de ano para ano e de que estamos a crescer na proximidade, na fé e no amor de Cristo nosso Senhor. Damos graças a Deus pelo amado Egipto, «terra natal que vive dentro de nós», como costumava dizer Sua Santidade Papa Shenouda III, «povo abençoado pelo Senhor» (cf. Is 19, 25) com a sua antiga civilização dos Faraós, a herança grega e romana, a tradição copta e a presença islâmica. O Egipto é o lugar onde a Sagrada Família encontrou refúgio, é terra de mártires e de santos.

2. O nosso vínculo profundo de amizade e fraternidade tem a sua origem na plena comunhão que existia entre as nossas Igrejas nos primeiros séculos, tendo-se expressado de várias maneiras nos primeiros Concílios Ecuménicos, a começar pelo Concílio de Nicéia, em 325, e a contribuição de Santo Atanásio, corajoso Padre da Igreja que mereceu o título de «Protector da Fé». A nossa comunhão manifestava-se através da oração e práticas litúrgicas semelhantes, da veneração dos mesmos mártires e santos, e no fomento e difusão do monaquismo, seguindo o exemplo do grande Santo Antão, conhecido como o pai de todos os monges.
Esta experiência comum de comunhão, anterior ao tempo de separação, assume um significado especial na nossa busca actual do restabelecimento da plena comunhão. A maior parte das relações que existiam nos primeiros séculos continuaram, apesar das divisões, entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa até ao dia de hoje e recentemente foram mesmo revitalizadas. Estas desafiam-nos a intensificar os nossos esforços comuns, perseverando na busca duma unidade visível na diversidade, sob a guia do Espírito Santo.

3. Recordamos, com gratidão, o encontro histórico de há quarenta e quatro anos entre os nossos predecessores Papa Paulo VI e Papa Shenouda III, aquele abraço de paz e fraternidade depois de muitos séculos em que os nossos vínculos mútuos de amor não tiveram possibilidade de se expressar devido à distância que se criara entre nós. A Declaração Comum, que eles assinaram em 10 de Maio de 1973, representou um marco no caminho ecuménico e serviu como ponto de partida para a instituição da Comissão de Diálogo Teológico entre as nossas duas Igrejas, que produziu muito fruto e abriu o caminho para um diálogo mais amplo entre a Igreja Católica e toda a família das Igrejas Ortodoxas Orientais. Naquela Declaração, as nossas Igrejas reconheceram que, no sulco da tradição apostólica, professam «uma só fé no Deus Uno e Trino» e «a divindade do Unigénito Filho de Deus (...) perfeito Deus, quanto à sua divindade, e perfeito homem quanto à sua humanidade». Reconheceu-se também que «a vida divina é-nos dada e alimentada em nós pelos sete sacramentos» e que «veneramos a Virgem Maria, Mãe da verdadeira Luz», a «Theotókos».

4. Com profunda gratidão, recordamos o encontro fraterno que nós próprios tivemos em Roma, a 10 de Maio de 2013, e a instituição do dia 10 de Maio como jornada anual em que aprofundamos a amizade e a fraternidade entre as nossas Igrejas. Este renovado espírito de proximidade permitiu-nos discernir ainda melhor como o vínculo que nos une foi recebido de nosso único Senhor no dia do Baptismo. Com efeito, é através do Baptismo que nos tornamos membros do único Corpo de Cristo que é a Igreja (cf. 1 Cor 12, 13). Esta herança comum é a base da peregrinação que juntos realizamos rumo à plena comunhão, crescendo no amor e na reconciliação.

5. Conscientes de que ainda há tanto caminho a fazer nesta peregrinação, recordamos o muito que já foi alcançado. Em particular, lembramos o encontro entre Papa Shenouda III e São João Paulo II, que veio como peregrino ao Egipto durante o Grande Jubileu do ano 2000. Estamos determinados a seguir os seus passos, movidos pelo amor de Cristo Bom Pastor, na convicção profunda de que, caminhando juntos, crescemos em unidade. Para isso auferimos a força de Deus, fonte perfeita de comunhão e de amor.

6. Este amor encontra a sua expressão mais alta na oração comum. Quando os cristãos rezam juntos, chegam a compreender que aquilo que os une é muito maior do que aquilo que os divide. O nosso desejo ardente de unidade encontra inspiração na oração de Cristo «para que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Para isso, aprofundemos as raízes que compartilhamos na única fé apostólica, rezando juntos e procurando traduções comuns do Pai Nosso e uma data comum para a celebração da Páscoa.

7. Enquanto caminhamos para o dia abençoado em que finalmente nos reuniremos à mesma Mesa Eucarística, podemos colaborar em muitas áreas e tornar tangível a grande riqueza que já temos em comum. Podemos testemunhar juntos certos valores fundamentais como a sacralidade e dignidade da vida humana, a sacralidade do matrimónio e da família, e o respeito por toda a criação, que Deus nos confiou. Não obstante a multiplicidade de desafios contemporâneos, como a secularização e a globalização da indiferença, somos chamados a oferecer uma resposta compartilhada, baseada nos valores do Evangelho e nos tesouros das nossas respectivas tradições. Nesta linha, somos encorajados a aprofundar o estudo dos Padres Orientais e Latinos e promover um frutuoso intercâmbio na vida pastoral, especialmente na catequese e num mútuo enriquecimento espiritual entre comunidades monásticas e religiosas.

8. O testemunho cristão que compartilhamos é um sinal providencial de reconciliação e esperança para a sociedade egípcia e suas instituições, uma semente semeada para frutificar na justiça e na paz. Uma vez que acreditamos que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, esforcemo-nos por promover a tranquilidade e a concórdia através duma coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos, testemunhando assim que Deus deseja a unidade e a harmonia de toda a família humana e a igual dignidade de cada ser humano. Temos a peito a prosperidade e o futuro do Egipto. Todos os membros da sociedade têm o direito e o dever de participar plenamente na vida do país, gozando de plena e igual cidadania e colaborando para construir a sua nação. A liberdade religiosa, que engloba a liberdade de consciência e está enraizada na dignidade da pessoa, é a pedra angular de todas as outras liberdades. É um direito sagrado e inalienável.

9. Intensifiquemos a nossa oração incessante por todos os cristãos, no Egipto e em todo o mundo, especialmente no Médio Oriente. Alguns acontecimentos trágicos e o sangue derramado pelos nossos fiéis, perseguidos e mortos unicamente pelo motivo de ser cristãos, recordam-nos ainda mais que o ecumenismo dos mártires nos une e encoraja no caminho da paz e da reconciliação. Pois, como escreve São Paulo, «se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26).

10. O mistério de Jesus, que morreu e ressuscitou por amor, situa-se no coração do nosso caminho para a plena unidade. Mais uma vez, os mártires são os nossos guias. Na Igreja primitiva, o sangue dos mártires foi semente de novos cristãos; assim também, em nossos dias, o sangue de tantos mártires seja semente de unidade entre todos os discípulos de Cristo, sinal e instrumento de comunhão e de paz para o mundo.

11. Obedientes à acção do Espírito Santo, que santifica a Igreja, a sustenta ao longo dos séculos e conduz àquela unidade plena pela qual Cristo rezou, hoje nós, Papa Francisco e Papa Tawadros II, para alegrar o coração do Senhor Jesus, bem como os corações dos nossos filhos e filhas na fé, declaramos mutuamente que, com uma só mente e um só coração, procuraremos sinceramente não repetir o Baptismo administrado numa das nossas Igrejas a alguém que deseje juntar-se à outra. Isto confessamos em obediência às Sagradas Escrituras e à fé expressa nos três Concílios Ecuménicos reunidos em Niceia, Constantinopla e Éfeso.
Pedimos a Deus nosso Pai que nos guie, nos tempos e modos que o Espírito Santo dispuser, para a unidade plena no Corpo místico de Cristo.


12. Concluindo, deixemo-nos guiar pelos ensinamentos e o exemplo do apóstolo Paulo, que escreve: «[Esforçai-vos] por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» (Ef 4, 3-6). 

DA PALAVRA DO SENHOR



- DO III DOMINGO DE PÁSCOA

“…fostes resgatados (…) pelo sangue precioso de Cristo,
 Cordeiro sem defeito e sem mancha (…)
 Por Ele acreditais em Deus,
 que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
 para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus …” (cf. 1 Pedro 1,  17-21)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 26 de Abril

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
«Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20). Estas últimas palavras do Evangelho de Mateus evocam o anúncio profético que encontramos no início: «Ele chamar-se-á Emanuel, que significa Deus connosco» (Mt 1, 23; cf. Is 7, 14). Deus estará ao nosso lado todos os dias, até ao fim do mundo. Jesus caminhará ao nosso lado todos os dias, até ao fim do mundo. O Evangelho inteiro está encerrado entre estas duas citações, palavras que comunicam o mistério de Deus cujo nome, cuja identidade é estar-com: não é um Deus isolado, mas um Deus-com, de modo particular connosco, ou seja, com a criatura humana. O nosso Deus não é um Deus ausente, raptado por um céu remoto; ao contrário, é um Deus «apaixonado» pelo homem, tão ternamente amante que chega a ser incapaz de se separar dele. Nós, humanos, somos peritos em romper vínculos e pontes. Ele, ao contrário, não! Se o nosso coração arrefece, o seu permanece sempre incandescente. O nosso Deus acompanha-nos sempre, inclusive se, por desventura, nos esquecêssemos d’Ele. No ponto que divide a incredulidade da fé, é decisiva a descoberta de que somos amados e acompanhados pelo nosso Pai, que Ele nunca nos deixa sozinhos.
A nossa existência é uma peregrinação, um caminho. Até aqueles que são impelidos por uma esperança simplesmente humana sentem a sedução do horizonte, que os leva a explorar mundos ainda desconhecidos. A nossa alma é uma alma migrante. A Bíblia está cheia de histórias de peregrinos e viajantes. A vocação de Abraão começa com esta exortação: «Deixa a tua terra» (Gn 12, 1). E o patriarca abandona aquele recanto de mundo que conhecia bem e que era um dos berços da civilização do seu tempo. Tudo conspirava contra a sensatez daquela viagem. E, no entanto, Abraão parte. Não nos tornamos homens e mulheres maduros se não sentirmos a atracção do horizonte: aquele limite entre o céu e a terra que pede para ser alcançado por um povo de caminhantes.
No seu caminhar no mundo, o homem nunca está sozinho. Sobretudo, o cristão nunca se sente abandonado, porque Jesus nos garante que não nos aguardará apenas no final da nossa longa viagem, mas que nos acompanhará em cada um dos nossos dias.
Até quando perdurará a atenção de Deus pelo homem? Até quando o Senhor Jesus, que caminha connosco, cuidará de nós? A resposta do Evangelho não deixa margem a dúvidas: até ao fim do mundo! Passarão os céus, passará a terra, serão anuladas as esperanças humanas, mas a Palavra de Deus é maior do que tudo e não passará. E Ele será o Deus connosco, o Deus Jesus que caminha ao nosso lado. Não haverá um dia da nossa vida em que deixaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Contudo, alguém poderia dizer: «Mas o que dizes?». Digo isto: não haverá um dia da nossa vida em que deixaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Ele preocupa-se connosco, caminha ao nosso lado. E por que faz isto? Simplesmente porque nos ama. Entendestes isto? Ele ama-nos! E, sem dúvida, Deus proverá a todas as nossas necessidades, não nos abandonará no tempo da prova e da escuridão. É preciso que esta certeza se grave no nosso espírito, para nunca mais se apagar. Há quem lhe dê o nome de «Providência». Ou seja, a proximidade de Deus, o amor de Deus, o caminhar de Deus ao nosso lado chama-se também «Providência de Deus»: Ele provê à nossa vida.
Não é por acaso que entre os símbolos cristãos da esperança existe um de que gosto muito: a âncora. Ela exprime que a nossa esperança não é vaga; não deve ser confundida com o sentimento mutável de quem deseja aperfeiçoar as situações deste mundo de maneira irrealista, apostando unicamente na sua força de vontade. Com efeito, a esperança cristã encontra a sua raiz não na atracção do futuro, mas na segurança daquilo que Deus nos prometeu e realizou em Jesus Cristo. Se Ele nos garantiu que nunca nos abandonará; se o princípio de cada vocação é um «Segue-me!», com o qual Ele nos assegura que permanecerá sempre à nossa frente, então, por que devemos recear? Com esta promessa, os cristãos podem ir por toda a parte. Inclusive atravessando as regiões de um mundo ferido, onde a situação não é boa. Nós estamos entre aqueles que até ali continuam a esperar. O salmo reza: «Ainda que eu atravesse um vale escuro, nada temerei, pois estais comigo» (Sl 23, 4). Exactamente onde se propaga a obscuridade é necessário manter acesa uma luz. Voltemos à âncora. A nossa fé é a âncora no céu. Mantemos a nossa vida ancorada no céu? Que devemos fazer? Segurar a corda: ela está sempre ali. E vamos em frente, porque estamos certos de que a nossa vida tem a sua âncora no céu, naquela margem onde chegaremos.
Sem dúvida, se confiássemos apenas nas nossas forças, teríamos razão de nos sentirmos desiludidos e derrotados, porque o mundo se demonstra, muitas vezes, refratário às leis do amor. Prefere, frequentemente, as leis do egoísmo. Mas, se em nós sobreviver a certeza de que Deus não nos abandona; de que Deus ama com ternura tanto a nós como a este mundo, então a perspetiva muda imediatamente. «Homo viator, spe erectus», diziam os antigos. Ao longo do caminho, a promessa de Jesus «Eu estou convosco» leva-nos a estar de pé, erguidos, com esperança, convictos de que o bom Deus já age para realizar aquilo que humanamente parece impossível, porque a âncora está na praia do céu.
O santo povo fiel de Deus é um povo que está de pé — «homo viator» — e caminha, mas de pé, «erectus», caminha na esperança. E onde quer que vá, sabe que o amor de Deus o precedeu: não há região do mundo que evite a vitória de Cristo Ressuscitado. E qual é a vitória de Cristo Ressuscitado? A vitória do amor. Obrigado! (cf. Santa Sé)


PARA REZAR


SALMO 15

Refrão: Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.

Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.

SANTOS POPULARES


SÃO PEDRO NOLASCO

Pedro Nolasco nasceu no dia 29 de Julho de 1183, no pequeno povoado de Mas-Saintes-Puelles, na Diocese de Saint Paul, no antigo condado de Languedoc, entre Toulouse e Carcassonne, no sul de França. O seu pai - um abastado comerciante de origem anglo-normanda - chamava-se Guillaume de Bigot e era filho de Hugh Bigot, 1.º conde de Norfolk. A sua mãe, de origem italiana, chama-se Catarina, e era descendente de Filipe I de França, através da família dos Saint-Gilles. Era natural da cidade de Nola, na Sicília, donde o santo recebeu o nome: Nolasco. No baptismo, deram-lhe o nome de Pedro.
O pequeno Pedro manifestou sempre um temperamento simples, doce, e muito sensível ao sofrimento dos outros.
Naquela época, havia, nos países ao redor do Mar Mediterrâneo, permanentes contendas entre os cristãos e os sarracenos, seguidores de Maomé, que semeavam a desolação por toda a parte. Muitos, tanto ricos como pobres, foram feitos prisioneiros e cativos em nome de Alá. Homens e mulheres, adultos, jovens e crianças, eram submetidos a um duro cativeiro e obrigados a realizar trabalhos pesados. As mulheres eram usadas nos mais baixos instintos: as jovens que eram violentadas. Seres humanos que se tornavam mercadoria em mãos daqueles que se diziam seus donos.
Jaime, irmão mais velho de Pedro, herdou o título de nobreza do seu avô materno. Por essa razão, o jovem Pedro, acompanhava o seu pai nas lides comerciais e cresceu como um talentoso comerciante.
Quando o seu pai se transferiu para Barcelona - onde se estabeleceu como rico mercador - o jovem Pedro acompanhou-o. Nesta tarefa de mecador, viajava constatemente pelas cidades do litoral para comprar e vender. Muitas vezes, Pedro testemunhou os maus tratos infligidos aos pobres e infelizes cativos. Alguns desses cativos eram oferecidos, também, como mercadoria. A alma de Pedro afligia-se com a dor, o abandono e o sofrimento daqueles pobres coitados e  prometeu a Deus que faria tudo para aliviar o sofrimento destes irmãos abandonados à sua sorte.
Em 1203, apemas com 20 anos, encontramos o jovem Pedro Nolasco a comprar cativos. Dava a liberdade aos pobres infelizes, devolvendo-os às suas famílias. Com a morte dos seus pais, o jovem Nolasco herdou toda a fortuna da família. Renunciou aos seus benefícios e usou toda a sua fortuna na redenção dos cativos.
As palavras de Jesus “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelo irmão” martelavam profundamente a sua alma. Então, reuniu  um grupo de jovens, rapazes e raparigas, que, com ele, se entregaram ao trabalho de redimir os cativos e de tratar dos doentes, vítimas da peste, no Hospital de Santa Eulália.
Para além das lutas com os árabes, a Espanha experimentou o flagelo da peste que se abateu sobre o povo, dizimando cidades inteiras e afectando milhares de pessoas. O atendimento hospitalar era insuficiente, incapaz de suster o avanço da peste. Então, estes jovens, cheios de amor ao próximo sofredor, cuidavam, por sua conta e risco, dos enfermos abandonados, levando-os para o Hospital de Santa Eulália e tratando-os de acordo com as medicinas da época. Este Hospital, mais tarde,  passou a fazer parte da estrutura das redenções, pois os cativos eram levados para lá, para uma quarentena, e lá eram tratados com todo carinho. Mas, os recursos económicos começaram a minguar; as reservas guardadas nos cofres já não davam para comprar tão rica mercadoria e o número dos cativos crescia cada vez  mais.
Numa certa noite, Pedro Nolasco não conseguiu conciliar o sono e pôs-se a rezar, pedindo à Mãe do Céu - de quem era profundamente devoto - que o auxiliasse. Nessa noite, Pedro teve uma visão. Sentiu-se envolvido por uma grande luz e viu Maria, cheia de ternura e com uma veste branca nas suas mãos. “Nolasco - disse a Mãe de Jesus - é vontade do meu Filho e  minha vontade que fundes uma Ordem religiosa para remir os cativos. Nós estaremos sempre contigo”. Quando Pedro Nolasco voltou a si, a linda Senhora tinha desaparecido.
Pedro Nolasco esperou o amanhecer e, depois, correu, apressadamente, para contar o sucedido ao seu confessor, o Padre Raimundo de Peñafort, e, ambos, foram contar ao Rei Dom Jaime I de Aragão e ao Bispo de Barcelona, Dom Berenguer de Palau, que aprovaram, entusiasmados, a inspiração de Pedro Nolasco.
No dia 2 de Agosto de 1218, o Rei achou por bem ter, no seu reino, uma estrutura organizada que cuidasse da redenção dos cativos, um desejo sentido já pelo Rei Afonso II, mas nunca concretizado. Dez dias depois, no dia 10 de Agosto, o som do órgão e dos cânticos enchiam a catedral de Barcelona. Uma nova Ordem religiosa constituía-se oficialmente e um grupo de jovens, vestidos de hábitos brancos, proclamavam as grandezas de Deus por meio de Maria Santíssima e emitiam três votos comuns a todas as ordens religiosas: votos de pobreza, obediência e castidade. Mas,  a vontade daquele grupo, movido pela caridade, levou os novos religiosos a afirmar, perante os fiéis reunidos no templo, um quarto voto: “daremos as nossas vidas, se necessário for, para tirar do cativeiro um irmão necessitado”. Um voto heroico que custou à Ordem Mercedária alguns milhares de vidas e muito sangue derramado, imitando assim o Redentor dos homens, Jesus, que Pedro Nolasco tão bem imitou durante toda a sua vida.
Esta Ordem, ao longo dos tempos, recebeu vários nomes: Ordem de Santa Eulália; Ordem das Mercês dos cativos; Ordem da Redenção dos cativos; Ordem das Mercês. Desde 1272, o verdadeiro nome é: Ordem da Virgem Maria das Mercês da Redenção dos Cativos.
Pouco tempo depois, surgiu o ramo feminino da Ordem, fundado por Santa Maria de Cervellón, com um grupo de raparigas que ajudaram muito a Pedro Nolasco e aos seus religiosos, rezando pelo êxito do trabalho em favor da redenção dos cativos.
Pedro Nolasco preocupou-se sempre em ser fiel imitador de Cristo, não só na caridade, mas também nos gestos e nas atitudes. Este homem de Deus dedicou toda a sua vida ao serviço do próximo, vendo em cada sofredor o próprio Cristo. Os historiadores mais recentes dizem que ele morreu em Barcelona, no dia 06 de Maio de 1245.
Para melhor realizar a sua missão, a sua “equipa” era constituída por clérigos: irmãos de obediência; donados: amigos piedosos que permaneciam com os religiosos, ajudando nos vários serviços domésticos e mais tarde emitiam os votos; e terciários: leigos que viviam com a sua família, mas participavam dos bens espirituais da Ordem. Em momentos determinados da história, a Ordem de Mercedária formou grupos armados para defender os navios, ou outros transportes de cativos, dos ataques dos piratas. Os membros deste grupo viviam nos seus castelos e usavam armas. Às vezes, eram requisitados pelo Rei para exercer a função de sua guarda pessoal. A missão principal de todos era recolher esmolas pagar o resgate dos cativos. Quando o dinheiro era insuficiente, ou se o cativo estivesse numa situação grave,  um ou dois mercedários ofereciam-se para ficar como reféns até ser possível satisfazer o peço pedido pelo resgate. É grande o número dos religiosos que deram a vida para salvar os cativos. Os mais exemplares e conhecidos são: São Raimundo Nonato, São Pedro Armengol, São Serápio, São Pedro Pascual, São Juán Gilaber Jofré. Alguns milhares de religiosos mercedários - dos quais desconhecemos os nomes – deram, também, a sua vida e os seus nomes estão escritos no céu. Entre os anos 1302 e 1489,  foram feitas, aproximadamente, 153 redenções, em que foram resgatados 18.623 cativos, segundo dados do historiador Garí e Siumell.
Pedro Nolasco foi um homem destemido, profundamente conhecedor das questões sociais e políticas do seu tempo, exímio articulador e organizador de expedições para resgatar cativos. Homem que sabia usar bem as estratégias do seu tempo para alcançar seus objectivos. Diz a história que, quando o seu dinheiro acabou, ele criou uma campanha de angariação de recursos pelas esquinas da cidade de Barcelona, colocando ‘arcas de redenção’, onde as pessoas podiam depositar as suas ofertas. Frei Pedro Nolasco tinha obtido, também, uma autorização do Bispo para andar pelas igrejas a pregar, com a finalidade de obter outras ajudas do povo cristão. Frei Pedro Nolasco era presença regular no palácio do Rei e era acolhido e respeitado nos ambientes mais ricos; mas, nunca deixou de viver, intensa e claramente, de forma desprendida e humilde entre os mais pobres.
Pedro Nolasco, pela sua humildade e simplicidade,  nunca quis ser ordenado sacerdote; morreu leigo, preferindo ser chamado Frei Pedro Nolasco. A Ordem por ele fundada, também, não recebeu o seu nome, mas o nome da Mãe de Jesus, com título de Mercês.
Frei Pedro Nolaco foi canonizado, em 1628, pelo Papa Urbano VIII.
A memória litúrgica de São Pedro Nolasco celebra-se no dia 6 de Maio.