PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

SANTOS POPULARES


SÃO JOSÉ DE ANCHIETA

José de Anchieta nasceu na Ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de Março de 1534. Era filho de João López de Anchieta e de Mência Diaz de Clavijo y Llarena, descendente da nobreza canária. Foi baptizado no dia 7 Abril de 1534, na Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, actual Catedral de São Cristóvão de La Laguna, onde ainda existe a pia de calcário vermelho onde, segundo a tradição, teria sido baptizado. A sua certidão de baptismo, inscrita no Livro I da Igreja dos Remédios, está preservada no Arquivo Histórico Diocesano de Tenerife, onde se lê: ‘José, filho de Juan de Anchieta e de sua esposa, foi baptizado no dia 7 de Abril por Juan Gutiérrez, vigário e seus padrinhos foram Domenigo Riso e Don Alonso’.
O seu pai foi um revolucionário basco que tomou parte na revolta dos Comuneros contra o Imperador Carlos V, de Espanha, e um grande devoto da Virgem Maria. Era aparentado com os Loyola: daí o parentesco de Anchieta com o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. A sua mãe era natural das Ilhas Canárias, filha de judeus cristãos-novos. O avô materno, Sebastião de Llarena, era um judeu convertido do Reino de Castela. Teve doze irmãos; alguns deles abraçaram, também, o sacerdócio.
José viveu com a família até aos catorze anos de idade. Nessa altura, mudou-se para Coimbra, em Portugal, a fim de estudar filosofia, no Real Colégio das Artes e Humanidades, anexo à Universidade de Coimbra. A ascendência judaica foi determinante para que o enviassem para estudar em Portugal, uma vez que, em Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa. No dia 1 de Maio de 1551, entrou, como noviço, para a Companhia de Jesus.
Tendo o padre Manuel da Nóbrega - Provincial dos Jesuítas no Brasil - solicitado mais braços para a actividade da evangelização do Brasil, o Provincial da Ordem, Padre Simão Rodrigues, indicou, entre outros, José de Anchieta. Desde muito jovem, José de Anchieta padecia de tuberculose óssea, o que lhe causou uma escoliose, agravada durante o noviciado na Companhia de Jesus. Este facto foi determinante para que deixasse os estudos religiosos e viajasse para o Brasil. Chegou a São Salvador da Baía, no dia 13 de Julho de 1553, com menos de 20 anos de idade, viajando na armada do segundo governador-geral do Brasil, Dom Duarte da Costa. Com ele, viajaram outros seis companheiros, sob a chefia do Padre Luis da Grã.
José Anchieta ficou menos de três meses em São Salvador da Baía. Foi enviado para a Capitania de São Vicente, no princípio de Outubro, com o padre jesuíta Leonardo Nunes. Aqui, conheceu o Padre Manuel da Nóbrega e, aqui, permaneceu durante doze anos.
José de Anchieta abriu os caminhos do sertão, aprendeu a língua tupi, catequizou e ensinou latim aos índios. Escreveu a primeira gramática sobre uma língua do tronco tupi: a "Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil", que foi publicada, em Coimbra, em 1595.
No seguimento da sua acção missionária, participou, com outros padres da Companhia, na fundação - no planalto de Piratininga - do Colégio de São Paulo - um colégio de jesuítas, do qual foi regente – e que foi o embrião da cidade de São Paulo. Este acontecimento realizou-se no dia 25 de Janeiro de 1554, dia em que se comemora a Conversão de São Paulo. Daí o nome dado ao Colégio e à povoação que surgiu à sua volta. No primeiro ano da sua existência, a povoação contava com 130 habitantes, dos quais 36 tinham recebido o baptismo.
Sabe-se que a data da fundação de São Paulo é o dia 25 de Janeiro por causa de uma carta de Anchieta aos seus superiores da Companhia de Jesus, na qual diz: “ A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554, celebrámos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa! ”
 O Padre José de Anchieta cuidava não apenas de educar e catequizar os indígenas, mas também de defendê-los dos abusos dos colonizadores. Esteve em Itanhaém e Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, na Quaresma que antecedeu a sua ida à aldeia de Iperoig, juntamente com o Padre Manuel da Nóbrega, em missão de preparo para o Armistício com os Tupinambás de Ubatuba (Armistício de Iperoig). Nesse período, em 1563, intermediou as negociações entre os portugueses e os indígenas, reunidos na Confederação dos Tamoios, oferecendo-se como refém dos tamoios, em Iperoig, enquanto o Padre Manuel da Nóbrega retornou a São Vicente, juntamente com Cunhambebe filho, para ultimar as negociações de paz entre os indígenas e os portugueses. Entre os índios baptizados pelo Padre Anchieta destaca-se o cacique Tibiriçá.
A pregação de jesuítas - como os Padres Anchieta e Nóbrega - no Brasil foi uma inculturação recíproca entre a influência do cristianismo e as crenças e costumes dos nativos. Os padres utilizaram elementos da cultura indígena como a melhor forma de lhes ensinar a doutrina cristã.
Durante o tempo em que passou entre os gentios, o Padre José de Anchieta compôs o "Poema à Virgem". Segundo uma tradição, tê-lo-ia escrito nas areias da praia e, depois, memorizado o poema. Só mais tarde, em São Vicente, o teria escrito em papel. Ainda segundo a tradição, foi também durante o cativeiro que o Padre Anchieta teria "levitado" entre os indígenas, os quais, imbuídos de grande pavor, pensavam tratar-se de um feiticeiro.
José de Anchieta lutou contra os franceses, estabelecidos na França Antártica, na baía da Guanabara. Foi companheiro de Estácio de Sá, a quem assistiu nos seus últimos momentos (1567). Em 1566, foi enviado à Capitania da Bahia com o encargo de informar ao governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses para o Rio de Janeiro. Por esta época, foi ordenado sacerdote aos 32 anos de idade.
Dirigiu o Colégio dos Jesuítas, do Rio de Janeiro, durante três anos, de 1570 a 1573. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba (ou Iriritiba), actual Anchieta, no Espírito Santo. Em 1577, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu durante dez anos, sendo substituído, em 1587, a seu pedido. Retirou-se para Reritiba, mas teve ainda de dirigir o Colégio do Jesuítas, em Vitória, no Espírito Santo. Em 1595, obteve dispensa dessas funções e conseguiu retirar-se definitivamente para Reritiba, onde veio a falecer, no dia 9 de Junho de 1597. Foi sepultado em Vitória.
O Padre José de Anchieta foi beatificado, no dia 22 de Junho de 1980, em Roma, pelo Papa João Paulo II. Na cerimónia de beatificação, disse o Papa: “…Um incansável e genial missionário é José de Anchieta, que aos dezassete anos, diante da imagem da Santa Virgem Maria, na Catedral de Coimbra, faz voto de virgindade perpétua e decide dedicar-se ao serviço de Deus. Tendo entrado na Companhia de Jesus, parte para o Brasil no ano de 1553, onde, na missão de Piratininga, empreende múltiplas actividades pastorais com o objectivo de aproximar e ganhar para Cristo os índios das florestas virgens. Ele ama com imenso afecto os seus irmãos «Brasis»; participa da sua vida; aprofunda-se nos seus costumes e compreende que a sua conversão à fé cristã deve ser preparada, ajudada e consolidada por um apropriado trabalho de civilização, para a sua promoção humana. O seu zelo ardente move-o a realizar inúmeras viagens, cobrindo distâncias imensas no meio de grandes perigos. Mas a oração contínua, a mortificação constante, a caridade fervente, a bondade paternal, a união íntima com Deus, a devoção filial à Virgem Santíssima - que ele celebra num longo poema de elegantes versos latinos -, dão a este grande filho de Santo Inácio uma força sobre-humana, especialmente quando deve defender, contras as injustiças dos colonizadores, os seus irmãos indígenas. Para eles compõe um catecismo, adaptado à sua mentalidade e que contribuiu grandemente para a sua cristianização. Por tudo isto, ele bem mereceu o título de «Apóstolo do Brasil»…”
O Beato José de Anchieta foi canonizado, no dia 3 de Abril de 2014, pelo Papa Francisco. No dia 24 de Abril de 2014, na Igreja de Santo Inácio de Loyola - Roma, numa celebração de acção de graças pela canonização do Padre José de Anchieta, o Papa Francisco disse: “…Também São José de Anchieta soube comunicar o que ele mesmo experimentara com o Senhor, aquilo que tinha visto e ouvido dele; o que o Senhor lhe comunicava nos seus exercícios. Ele, juntamente com Nóbrega, é o primeiro jesuíta que Inácio envia para a América. Um jovem de 19 anos... Era tão grande a alegria que sentia, era tão grande o seu júbilo, que fundou uma Nação: lançou os fundamentos culturais de uma Nação, em Jesus Cristo. Não estudou teologia, também não estudou filosofia, era um jovem! No entanto, sentiu sobre si mesmo o olhar de Jesus Cristo e deixou-se encher de alegria, escolhendo a luz. Esta foi e é a sua santidade. Ele não teve medo da alegria.
São José de Anchieta escreveu um maravilhoso hino à Virgem Maria à Qual, inspirando-se no cântico de Isaías 52, compara o mensageiro que proclama a paz, que anuncia a alegria da Boa Notícia. Ela, que naquela madrugada de Domingo sem sono por causa da esperança, não teve medo da alegria, nos acompanhe no nosso peregrinar, convidando todos a levantar-se, a renunciar às paralisias para entrar juntos na paz e na alegria que nos promete Jesus, Senhor Ressuscitado…”

A memória litúrgica de São José de Anchieta celebra-se no dia 9 de Junho.

terça-feira, 30 de maio de 2017

EM DESTAQUE


- ASCENSÃO DO SENHOR


Neste Domingo, a Igreja celebra a Solenidade da Ascensão do Senhor. Quarenta dias depois da Páscoa, Jesus subiu ao Céu. Cumprida a Sua missão terrena, Jesus voltou para junto do Pai e tornou-se o nosso verdadeiro mediador diante do Pai. A Ascensão é garantia da nossa própria subida ao Céu, depois do juízo de Deus. Jesus preparou-nos um lugar no seu Reino e prometeu voltar para nos levar com Ele. Transcrevemos palavras do Papa Francisco, no dia 8 de Maio de 2016, Festa da Ascensão: “ …[Neste dia]contemplamos o mistério de Jesus que deixa o nosso espaço terreno para entrar na plenitude da glória de Deus, levando consigo a nossa humanidade. Isto é, nós, a nossa humanidade entra pela primeira vez no céu. O Evangelho de Lucas mostra-nos a reação dos discípulos diante do Senhor que «se separou deles e foi arrebatado ao céu» (24, 51)… Neste céu reside o Deus que se revelou tão próximo que até assumiu o rosto de um homem, Jesus de Nazaré. Ele permanece sempre o Deus-connosco — recordemos isto: Emanuel, Deus connosco — e não nos deixa sós! Podemos olhar para o alto e reconhecer o nosso futuro. Na Ascensão de Jesus, o Crucificado Ressuscitado, há a promessa da nossa participação na plenitude de vida junto de Deus. Antes de se separar dos seus amigos, Jesus, referindo-se ao evento da sua morte e ressurreição, dissera-lhes: «Disto sois testemunhas» (v. 48). Isto é os discípulos, os apóstolos são testemunhas da morte e da ressurreição de Cristo, naquele dia, também da Ascensão de Cristo. Com efeito, depois de ter visto o seu Senhor subir ao céu, os discípulos voltaram à cidade como testemunhas que com alegria anunciam a todos a vida nova que vem do Crucificado Ressuscitado, em cujo nome «se prega a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações» (n. 47). Este é o testemunho — oferecido não só com palavras mas também com a vida diária — o testemunho que todos os domingos deveria sair das nossas igrejas para entrar durante a semana nas casas, nos escritórios, na escola, nos lugares de encontro e de divertimento, nos hospitais, nas prisões, nas casas para idosos, nos locais cheios de imigrantes, nas periferias da cidade... Devemos oferecer este testemunho todas as semanas: Cristo está connosco; Jesus subiu ao céu, está connosco; Cristo está vivo!...”

DA PALAVRA DO SENHOR


- DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR

“…O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória,
 vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
 para O conhecerdes plenamente
 e ilumine os olhos do vosso coração,
 para compreenderdes a esperança a que fostes chamados,
 os tesouros de glória que encerra a sua herança entre os santos
 e a incomensurável grandeza que representa o seu poder
 para nós os crentes…” (cf. Efésios 1, 17-19)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 24 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de analisar a experiência dos dois discípulos de Emaús, sobre a qual fala o Evangelho de Lucas (cf. 24, 13-35). Imaginemos a cena: dois homens caminham desiludidos, tristes, decididos a deixar para trás a amargura de um vicissitude mal sucedida. Antes daquela Páscoa estavam cheios de entusiasmo: convencidos de que aqueles dias teriam sido determinantes para as suas expetativas e para a esperança do povo inteiro. Jesus, ao qual tinham confiado a própria vida, parecia ter finalmente chegado à batalha decisiva: agora manifestaria o seu poder, depois de uma longa fase de preparação e de escondimento. Era isso o que eles esperavam. Mas não foi assim.
Os dois peregrinos cultivavam uma esperança somente humana, que agora desabava. Aquela cruz erguida no Calvário era o sinal mais eloquente de uma derrota que não tinham previsto. Se deveras aquele Jesus era segundo o coração de Deus, deviam chegar à conclusão que Deus estava inerme, indefeso nas mãos dos violentos, incapaz de opor resistência ao mal.
Assim, naquela manhã de domingo, os dois fogem de Jerusalém. Ainda tinham nos olhos os momentos da paixão, a morte de Jesus; e na alma o pensamento atormentado pelos acontecimentos, durante o repouso forçado do sábado. Aquela festa de Páscoa, que devia entoar o canto da libertação, transformou-se pelo contrário no dia mais doloroso da sua vida. Deixam Jerusalém para ir alhures, a uma aldeia tranquila. Têm toda a aparência de pessoas empenhadas em apagar uma recordação que magoa. Portanto, encontram-se numa estrada, andam, tristes. Este cenário — a estrada — já tinha sido importante nas narrações dos evangelhos; agora tornar-se-á cada vez mais relevante, no momento em que se começa a narrar a história da Igreja.
O encontro de Jesus com aqueles dois discípulos parece ser totalmente casual: assemelha-se a uma das numerosas encruzilhadas que se encontram na vida. Os dois discípulos prosseguem pensativos e um desconhecido caminha ao lado deles. É Jesus; mas os seus olhos não são capazes de o reconhecer. E então Jesus começa a sua “terapia da esperança”. O que acontece nesta estrada é uma terapia da esperança. Quem a faz? Jesus.
Em primeiro lugar pergunta e escuta: o nosso Deus não é um Deus intrometido. Embora já conheça o motivo da deceção dos dois, deixa-lhes o tempo para poder sondar profundamente a amargura que se apoderou deles. Daqui surge uma confissão que é um refrão da existência humana: «Nós esperávamos, mas... Nós esperávamos, mas...» (v. 21). Quantas tristezas, quantas derrotas, quantas falências há na vida de cada pessoa! No fundo somos todos um pouco como esses dois discípulos. Quantas vezes na vida esperamos, quantas vezes nos sentimos a um passo da felicidade e, no fim, ficamos desiludidos. Mas Jesus caminha com todas as pessoas desanimadas que procedem cabisbaixas. E caminhando com elas, de forma discreta, consegue restituir-lhes a esperança.
Jesus fala com eles sobretudo através das Escrituras. Quem pega o livro de Deus nas mãos não se cruza com histórias de fácil heroísmo, campanhas de conquista impetuosas. A verdadeira esperança nunca é pouco dispendiosa: passa sempre através das derrotas. A esperança de quem não sofre, talvez nem sequer seja tal. Deus não gosta de ser amado como poderíamos amar um general que leva o seu povo à vitória, aniquilando no sangue os seus adversários. O nosso Deus é uma chama esmorecida que arde num dia de frio e de vento, e não obstante a sua presença neste mundo possa parecer frágil, Ele escolheu o lugar que todos nós desdenhamos.
Em seguida Jesus repete também aos dois discípulos o gesto fulcral de cada Eucaristia: pegou no pão, abençoou-o e, depois de o partir, ofereceu-o. Nesta sequência de gestos, não há porventura toda a história de Jesus? E não há, em cada Eucaristia, também o sinal do que deve ser a Igreja? Jesus pega em nós, abençoa-nos, “parte” a nossa vida — porque não há amor sem sacrifício — e oferece-a aos outros, oferece-a a todos.
O encontro de Jesus com os dois discípulos de Emaús é rápido. Todavia, nele está todo o destino da Igreja. Narra-nos que a comunidade cristã não está fechada numa cidadela fortificada, mas caminha no seu ambiente mais vital, ou seja, a estrada. E ali encontra as pessoas com as suas esperanças e as suas desilusões, por vezes pesadas. A Igreja escuta as histórias de todos, assim como sobressaem do íntimo da consciência pessoal; para depois oferecer a Palavra de vida, o testemunho de amor, amor fiel até ao fim. E então o coração das pessoas volta a arder de esperança.
Todos nós, na nossa vida, tivemos momentos difíceis, obscuros; momentos nos quais caminhávamos tristes, pensativos, sem horizontes, somente com um muro à nossa frente. E Jesus sempre está ao nosso lado para nos dar esperança, para nos aquecer o coração e dizer: “Vai em frente, estou contigo. Vai em frente”. O segredo da estrada que conduz a Emaús resume-se inteiramente nisto: mesmo através das aparências contrárias, continuamos a ser amados, e Deus nunca deixará de nos querer bem. Deus caminhará sempre connosco, sempre, até nos momentos mais dolorosos, nos períodos mais difíceis, também nos momentos de derrota: ali está o Senhor. E esta é a nossa esperança. Vamos em frente com esta esperança! Porque Ele está ao nosso lado e caminha connosco, sempre! (cf. Santa Sé)


PARA REZAR


SALMO 46

Refrão: Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som de trombetas.

Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.

Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado.


SANTOS POPULARES


BEATO JOSÉ GÉRARD

José Gérard nasceu em Bouxieres-aux-Chênes - França, no dia 12 de Março de 1831. Os seus pais, João Gerárd e Úrsula Stofflet, honrados e piedosos agricultores. Foi baptizado logo no dia seguinte. Aos dez anos, como era costume na época, fez a primeira comunhão, no dia 2 de Fevereiro de 1842, e recebeu o Crisma dois anos depois. Por esta altura, graças ao bom ambiente familiar e ao testemunho do seu pároco, nasceu nele a vontade de ser sacerdote.
Entrou no seminário da Diocese de Nancy para continuar os estudos e, cedo, deu provas de ser um estudante aplicado e piedoso. O desejo de salvar almas foi crescendo no seu coração e, nos seus sonhos, via-se impelido para ir mais longe, para as longínquas missões entre os infiéis. Entrou, sem demora, em contacto com um Instituto Missionário que, especialmente, o atraia: os Oblatos de Maria Imaculada. No dia 9 de Maio de 1851, foi admitido nos Oblatos, já com alguns estudos teológicos feitos.
Durante o ano de noviciado, José sobressaiu pela sua devoção a Nossa Senhora e pelo seu zelo apostólico, a ponto de merecer a graça que tanto desejava. O seu Superior - sendo ele apenas diácono – achou por bem enviá-lo para a África do Sul, aonde chegou, no dia 21 de Janeiro de 1854, depois de oito meses de trabalhosa navegação. Aí, no mês seguinte, foi ordenado sacerdote, para logo entrar nas lides apostólicas. Coube-lhe, de início, trabalhar numa região onde nada de apreciável conseguiu, ao longo de sete anos de trabalho exaustivo: os seus habitantes recusaram o Evangelho. Então, foi incumbido de ir evangelizar os povos de Basutolândia, actual Lesoto. Aqui trabalhou durante 50 anos, com tanto zelo e tanto fruto que mereceu ser chamado o fundador das missões entre os Basutos. As qualidades e virtudes do Padre Gerárd fizeram dele um insigne missionário. Não havia para ele empreendimento impossível, nem estorvo insuperável. Confiava totalmente no Senhor e insistia na oração frequente. Pobre e humilde, tirava da humildade força para tudo levar a bom termo.
Verdadeiro religioso, tinha como norma proceder sempre conforme as exigências da vocação, no fiel seguimento de Cristo e na constante comunicação com Deus. Daqui, provinham o espírito de sacrifício e de abnegação, o ardor da sua fé, o afã de em tudo e alegremente cumprir a vontade de Deus. Entregou-se totalmente ao serviço de todos. O Papa João Paulo II, na homilia da sua beatificação, disse: «Por onde quer que o Beato Gerárd andasse, sabia viver a vocação missionária com extraordinário fervor apostólico. O seu amor a Deus, cada vez mais ardente, manifestava-se no amor concreto para com o próximo. Ele é conhecido pela sua especial solicitude a favor dos doentes. Através de visitas frequentes e de um trato muito gentil, em todos infundia coragem e esperança. Com aqueles que se encontravam à beira da morte, tinha palavras que os dispunham para o seu encontro com Deus».
Por isso, não é de estranhar que o apelidassem de santo e que uma idosa mulher, testemunha das suas virtudes durante 40 anos, dissesse: «Ele foi o melhor sacerdote de quantos conheci. Não poderá haver outro mais santo. Se ele não é santo e não entrou no Céu, ninguém lá poderá entrar, nem branco, nem preto».
O Padre José Gérard parecia um Evangelho vivo, comprovando, com as obras, a doutrina que ensinava. São do seu diário as frases seguintes: «O bom Deus quer que sejamos santos, puros». «É uma obrigação para mim e para todos». «Sinto continuamente o dever de ser um com Jesus e Maria, para fazer bem às almas. Sem isto, que cristianismo, que santidade poderei inculcar?». De novo uma referência do Santo Padre: «O segredo da sua santidade, a chave da sua alegria e do seu amor às almas residia no facto de andar sempre unido a Deus… As pessoas queriam estar perto dele, porque parecia estar continuamente junto de Deus… Durante as longas e difíceis viagens, conversava frequentemente com o seu amado Senhor. Este sentido vivo de estar sempre na presença de Deus, explica a sua constante fidelidade aos votos religiosos de castidade, pobreza e obediência, e às suas obrigações como sacerdote».
Os últimos anos da sua vida decorreram na humildade, dedicando-se ao trabalho apostólico de olhos postos só em Cristo e na sua Igreja. Padeceu breve enfermidade, sendo então de notar a sua perfeita submissão à vontade de Deus.
Gasto pelo trabalho e pela idade, o Padre José Gérard faleceu no dia 29 de Maio de 1914, na missão chamada ‘Roma’, tão querida para ele. O seu funeral converteu-se em verdadeiro triunfo. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em Maseru, capital de Lesoto, no dia 15 de Setembro de 1988.

A memória litúrgica do Beato José Gérard celebra-se no dia 29 de Maio.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- DO VI DOMINGO DE PÁSCOA

“…Venerai Cristo Senhor em vossos corações,
 prontos sempre a responder, a quem quer que seja,
 sobre a razão da vossa esperança…  (cf. 1 Pedro 3, 15)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 17 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Durante estas semanas, a nossa reflexão moveu-se, por assim dizer, na órbita do mistério pascal. Hoje, encontramos aquela que, segundo os Evangelhos, foi a primeira que viu Jesus ressuscitado: Maria Madalena. Tinha terminado, há pouco, o repouso do sábado. No dia da paixão não houve tempo para completar os ritos fúnebres; por isso, naquela aurora, cheia de tristeza, as mulheres vão ao sepulcro de Jesus com o bálsamo perfumado. A primeira que chega é ela: Maria de Magdala, uma das discípulas que tinham acompanhado Jesus desde a Galileia, colocando-se ao serviço da Igreja nascente. No seu trajecto rumo ao túmulo reflecte-se a fidelidade de muitas mulheres que, durante anos, são devotas às vielas dos cemitérios, em recordação de alguém que já não está entre nós. Os vínculos mais autênticos não são interrompidos nem sequer pela morte: alguns continuam a amar, não obstante a pessoa amada tenha partido para sempre.
O Evangelho (cf. Jo 20, 1-2.11-18) descreve Maria Madalena, pondo de imediato em evidência que ela não era uma mulher que se entusiasmava facilmente. Com efeito, depois da primeira visita ao sepulcro, volta desiludida ao lugar onde os discípulos se escondiam; refere que a pedra foi removida da entrada do túmulo, e a sua primeira hipótese é a mais simples que se possa formular: alguém deve ter roubado o corpo de Jesus. Assim, o primeiro anúncio que Maria faz não é o da Ressurreição, mas de um furto perpetrado por pessoas desconhecidas, enquanto toda a Jerusalém dormia.
Em seguida, os Evangelhos descrevem uma segunda visita de Maria Madalena ao sepulcro de Jesus. Ela era teimosa! Foi, voltou... porque não se convencia! Desta vez, o seu andar é lento, extremamente pesado. Maria sofre duplamente: antes de tudo, pela morte de Jesus e, depois, pelo inexplicável desaparecimento do seu corpo.
Enquanto está inclinada perto do túmulo, com os olhos rasos de água, Deus surpreende-a da maneira mais inesperada. O evangelista João sublinha como a sua cegueira é persistente: não se dá conta da presença de dois anjos que a interrogam, e nem sequer desconfia vendo o homem atrás de si, que ela julga ser o guardião do jardim. E, ao contrário, descobre o acontecimento mais surpreendente da história humana, quando finalmente é chamada por nome: «Maria!» (v. 16).
Como é bonito pensar que a primeira aparição do Ressuscitado — segundo os Evangelhos — teve lugar de um modo tão pessoal! Que há alguém que nos conhece, que vê o nosso sofrimento e a nossa desilusão, que se comove por nós e nos chama pelo nome. É uma lei que encontramos esculpida em muitas páginas do Evangelho. Em volta de Jesus, há muitas pessoas que procuram Deus; mas a realidade mais prodigiosa é que, muito antes, há sobretudo Deus que se preocupa com a nossa vida; que a quer reanimar; e, para fazer isto, chama-nos pelo nome, reconhecendo o semblante pessoal de cada um. Cada homem é uma história de amor que Deus escreve nesta terra. Cada um de nós é uma história de amor de Deus. Deus chama cada um de nós pelo nome: conhece-nos pelo nome, olha para nós, está à nossa espera, perdoa-nos, tem paciência com cada um de nós. É verdade ou não? Cada um de nós vive esta experiência.
E Jesus chama-a: «Maria!». A revolução da sua vida, a revolução destinada a transformar a existência de cada homem e mulher, começa com um nome que ressoa no jardim do sepulcro vazio. Os Evangelhos descrevem-nos a felicidade de Maria: a Ressurreição de Jesus não é uma alegria concedida a conta-gotas, mas é uma cascata que abrange a vida inteira. A existência cristã não é constituída por pequenas felicidades, mas por ondas que subvertem tudo. Procurai pensar também vós, neste instante, com a bagagem de desilusões e de reveses que cada um tem no seu coração, que há um Deus perto de nós que nos chama pelo nome, dizendo: «Ergue-te, para de chorar, porque Eu vim libertar-te!». Isto é bonito!
Jesus não é alguém que se adapta ao mundo, tolerando que nele perdurem a morte, a tristeza, o ódio, a destruição moral das pessoas... O nosso Deus não é inerte, mas o nosso Deus — permiti-me esta palavra — é um sonhador: sonha a transformação do mundo, tendo-a já realizada no mistério da Ressurreição.
Maria gostaria de abraçar o seu Senhor, mas Ele já está orientado para o Pai celestial, enquanto ela é enviada a levar o anúncio aos irmãos. E, assim, aquela mulher, que antes de encontrar Jesus estava à mercê do maligno (cf. Lc 8, 2), agora torna-se apóstola de uma esperança nova e maior. A sua intercessão nos ajude a viver, também nós, esta experiência: na hora do pranto e na hora do abandono, ouvir Jesus Ressuscitado que nos chama pelo nome e, com o coração repleto de júbilo, partir para anunciar: «Eu vi o Senhor!» (cf. Jo 20, 18). Mudei de vida porque vi o Senhor! Agora sou diferente de outrora, sou outra pessoa. Mudei porque vi o Senhor — esta é a nossa força e a nossa esperança. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 65

Refrão: A terra inteira aclame o Senhor.

Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores,
dizei a Deus: «Maravilhosas são as vossas obras».

«A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome».
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens.

Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia.

SANTOS POPULARES


BEATO LUÍS ZEFERINO MOREAU

Foi o quinto de treze irmãos, filhos do casal Luís Zeferino Moreau e Maria Margarida Champoux, humildes agricultores. Nasceu, em Besançour, na diocese de Quebeque, no Canadá, no dia 1 de Abril de 1824. Aos 12 anos, tendo concluído os estudos primários, começou a aprender latim com o pároco da freguesia. Dois anos depois entrou no seminário.
Durante os estudos de teologia, começou a dar aulas, substituindo um professor doente mas o excesso de trabalho levou-o a um tal estado de fraqueza que teve de abandonar o seminário, em Novembro de 1845, e voltar para casa dos pais. A sua ânsia de ser padre impeliu-o a prosseguir o estudo da teologia, sob a orientação do seu pároco. Em Setembro de 1846, pediu licença ao Bispo de Quebeque para usar o traje eclesiástico e continuar os estudos em regime de externato, por não se sentir completamente curado, mas o Prelado disse-lhe que não.
Luís Zeferino não se desconcertou, nem perdeu as esperanças. Pediu ao Bispo de Montreal a incardinação na diocese. O Bispo-Auxiliar, D. João Carlos Prince, hospedou-o na sua residência e prontificou-se a orientá-lo nos estudos. Achando-o suficientemente versado em filosofia e teologia, no dia 19 de Dezembro daquele ano, conferiu-lhe a ordem de presbiterado.
No início de 1847, foi nomeado mestre-cerimónias e capelão, na catedral. Entregaram-lhe, além disso, o cuidado do Convento dos pobres da Providência, a direcção da comunidade do Bom Pastor e puseram-no á frente da chancelaria da cúria diocesana. No desempenho de todas estas funções, deu mostras de extraordinárias qualidades espirituais e intelectuais. Em 1852, foi criada a Diocese de S. Jacinto, sendo nomeado como seu primeiro Bispo, D. João Carlos Prince, até então Bispo-Auxiliar de Montreal. O Padre Luís Zeferino Moreau foi escolhido para o acompanhar, como seu secretário. Nas suas novas funções, foi encarregado, também, da direcção da chancelaria da nova diocese e de atender espiritualmente as religiosas de vários institutos, bem como a capelania do hospital da cidade.
De 1854 a 1860 e de 1869 a 1875, foi pároco da Sé catedral. Desempenhou, também, as funções de Vigário-Geral da diocese, cargo que o obrigou a governar a Diocese durante a sede vacante e as ausências demoradas do Prelado. Morto o terceiro Bispo, em 1875, o Padre Luís Zeferino governou a diocese como Vigário-Capitular. Viu-se, então, com mais evidência, a alta estima que todos tinham por ele. Isto levou os Prelados Canadianos a dar as melhores informações ao Santo Padre. O Papa Pio IX, acedendo a tão ardentes desejos, nomeou-o Bispo de S. Jacinto. Recebeu a ordenação episcopal, no dia 16 de Janeiro de 1876.
Nos 25 anos que esteve à frente da diocese, à imitação de S. Paulo, fez-se tudo para todos, com simplicidade, bondade e humildade. Procurou, sobretudo, trabalhar em união com o clero, manter no fervor as congregações religiosas existentes e atrair outras para a diocese. Ele mesmo, a 12 de Setembro de 1877, fundou a congregação das Irmãs de S. José, e a 21 de Novembro de 1890, o Instituto das Irmãs de Santa Marta para cuidarem dos seminários, residências episcopais e casas de educação da juventude.
Nele, os fiéis encontraram um homem inteiramente consagrado a Deus. Monsenhor Moreau sabia, quotidianamente, dedicar a sua atenção a todas as pessoas. Respeitava cada uma delas. Praticava a mais concreta caridade para com os pobres acolhidos na sua casa. Gostava de visitar as paróquias e as escolas. Estava junto dos sacerdotes que o procuravam para algum conselho; estimulava-os na sua acção, na vida espiritual e no aprofundamento intelectual, a fim de que transmitissem aos cristãos uma catequese iluminada por uma fé compreendida e vivida.
Como Bispo, gozava de um discernimento lúcido, e pregava o Evangelho com palavras claras e corajosas, tanto no ensinamento dirigido a todos, como nas respostas dadas a cada um. Consciente das necessidades de uma diocese que crescia, Monsenhor Moreau multiplicou as iniciativas para a educação religiosa e escolar dos jovens, a assistência aos doentes, a organização de ajuda mútua, a constituição de novas paróquias e a formação dos candidatos ao sacerdócio.
Em todos estes sectores, ele era audaz e superava, com paciência, os obstáculos. Procurou a cooperação das Congregações religiosas para numerosas tarefas. Compreendendo todo o valor da vida consagrada, soube favorecer fundações corajosas na própria pobreza. Pessoalmente, contribuiu de maneira profunda na animação espiritual e na orientação de Institutos religiosos que surgiam, ou de novo se estabeleciam na sua diocese… Apesar da fragilidade física, ele viveu numa austeridade exigente. Não conseguiu fazer frente às suas enormes tarefas senão com a força que lhe vinha da oração. Dizia muitas vezes: “não faremos bem as grandes coisas de que somos encarregados, senão mediante uma íntima união com Nosso Senhor”.
Morreu, santamente, no dia 24 de Maio de 1901, com 77 anos de idade, 54 de padre e 25 de bispo. Deixou cerca de vinte mil cartas a padres, religiosas e leigos, que tratam da vida ascética e espiritual, e provam a laboriosidade apostólica do seu ministério.
Foi beatificado, no dia 10 de Maio de 1987, pelo Papa João Paulo II. O Papa, na homilia da sua beatificação, disse: «No seguimento do Bom Pastor, Luís Zeferino Moreau consagrou a sua vida a guiar o rebanho que lhe foi confiado em S. Jacinto, no Canadá. Sacerdote, depois Bispo desta jovem diocese, ele conhecia as suas ovelhas. Trabalhava incansavelmente para lhes dar o alimento “para que os homens tivessem vida, e a tivessem em abundância”.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 24 de Maio.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

EM DESTAQUE:


- O PAPA EM FÁTIMA



O Papa Francisco veio a Fátima. Certamente, todos puderam experimentar a alegria e a emoção da sua presença, das suas palavras, dos seus gestos de amabilidade e de ternura, do seu testemunho de amor e de bondade. Veio como peregrino da Paz e da Esperança para rezar ao Pai, por Maria, que concedesse a Sua bênção ao mundo inteiro e, assim, se torne possível a convivência fraterna, a harmonia das nações e o diálogo, franco e transparente, das religiões. No centenário das aparições de Maria, em Fátima, o Papa proclamou como santos os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, uma celebração inédita em território português.
Na fórmula da canonização, o Papa disse: “Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e Nossa, depois de termos longamente reflectido, implorado várias vezes o auxílio divino e ouvido o parecer de muitos Irmãos nossos no Episcopado, declaramos e definimos como Santos os Beatos Francisco Marto e Jacinta Marto e inscrevemo-los no Catálogo dos Santos, estabelecendo que, em toda a Igreja, sejam devotamente honrados entre os Santos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Da homilia da missa, destacamos: “…Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro.
Com esta esperança, congregamo-nos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário…”


- SEMANA DE ORAÇÃO PELA VIDA



De 14 a 21 de Maio, a Igreja celebra a Semana da Vida, sob o lema: “Com Maria, cuidar da alegria da Vida”. Do guião proposto para a reflexão, vivência e oração desta Semana, destacamos: “…Neste ano em que a Igreja de Portugal celebra o Centenário das Aparições, em Fátima, também a Semana da Vida estará naturalmente – bem – marcada por esta dimensão e rosto mariano da nossa Fé: Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, tem tudo para ensinar-nos como cuidarmos da Vida que nos é dada e confiada. Toda a vida e a vida toda. Vivemos, na sociedade portuguesa, algumas dificuldades e tensões, no que diz respeito à Vida: a questão do aborto e a questão da eutanásia, de maneira mais evidente, mas também muitas outras ameaças à qualidade da Vida e à Vida com qualidade.
Esta Semana da Vida quer ser – cada vez mais – um ‘tempo oportuno’ para agradecermos a vida, defendermos a vida, aprendermos a cuidar dela e aprofundar o convite a encontrar em Deus, fonte de toda a Vida, o sentido maior e inalienável e sagrado da vida de cada pessoa, desde a sua concepção até ao momento da morte, neste mundo.
No meio de situações verdadeiramente dramáticas, quando muitos contemporâneos estavam dominados pela angústia e a incerteza, quando a força do mal e do pecado parecia impor o seu domínio, a Virgem Maria faz brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela a extensão da sua ternura a todas as criaturas. O seu convite à conversão, à oração e à penitência pretende desbloquear os obstáculos que impedem os seres humanos de experimentar uma bondade que procede de Deus e foi depositada no coração humano.
A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento. Envolvidos por essa bênção, os três pastorinhos mostraram-se dispostos, pela boca de Lúcia, a serem louvor da glória de Deus e a entregarem-se plenamente aos desígnios de misericórdia que Deus manifestava através das aparições.” (Fátima, Sinal de Esperança para o nosso tempo – Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, 2016)

Talvez não seja descabido dizer que, hoje, agora, é cada um de nós, cada uma das nossas comunidades cristãs – paróquias, vigararias ou outras – que tem de assumir a mesma missão de sempre: ‘fazer brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela

a extensão da sua ternura a todas as criaturas’…”

DA PALAVRA DO SENHOR


- DO V DOMINGO DE PÁSCOA

“…Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva,
 rejeitada pelos homens,
 mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus.
 E vós mesmos, como pedras vivas,
 entrai na construção deste templo espiritual,
 para constituirdes um sacerdócio santo,
 destinado a oferecer sacrifícios espirituais,
 agradáveis a Deus por Jesus Cristo…” (cf. 1 Pedro 2, 4-5)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 10 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso itinerário de catequeses sobre a esperança cristã, hoje meditamos sobre Maria, Mãe da esperança. Maria atravessou mais de uma noite no seu caminho de mãe. Desde a primeira menção na história dos evangelhos, a sua figura destaca-se como se fosse o personagem de um drama. Não foi simples responder com um «sim» ao convite do anjo: e, no entanto, ainda na flor da idade, ela respondeu com coragem, não obstante nada soubesse do destino que a esperava. Maria, naquele instante, parece uma das muitas mães do nosso mundo, corajosas até ao extremo quando se trata de acolher, no próprio ventre, a história de um novo homem que nasce.
Aquele «sim» foi o primeiro passo de uma longa lista de obediências - longa lista de obediências! - que acompanharão todo o seu itinerário de mãe. Assim, nos evangelhos, Maria aparece como uma mulher silenciosa que, com frequência, não compreende tudo o que acontece ao seu redor, mas medita cada palavra e acontecimento no seu coração.
Nesta perspectiva, podemos ver um perfil belíssimo da psicologia de Maria: não é uma mulher que se deprime face às incertezas da vida, especialmente quando nada parece correr bem. Nem sequer uma mulher que protesta com violência, que se enfurece contra o destino da vida que, muitas vezes, nos revela um semblante hostil. Pelo contrário, é uma mulher que ouve. Não vos esqueçais que existe sempre uma grande relação entre a esperança e a escuta, e Maria é uma mulher que ouve. Maria acolhe a existência do modo como se nos apresenta: com os seus dias felizes, mas também com as suas tragédias que nunca gostaríamos de ter encontrado. Até a noite suprema de Maria, quando o seu Filho foi pregado na cruz.
Até àquele dia, Maria tinha quase desaparecido da trama dos evangelhos. Os escritores sagrados deixam entender este lento escondimento da sua presença; o seu permanecer muda diante do mistério de um Filho que obedece ao Pai. Contudo, Maria reaparece precisamente no momento crucial: quando grande parte dos amigos fogem por terem medo. As mães não traem e, naquele instante, aos pés da cruz, nenhum de nós pode dizer qual tenha sido a paixão mais cruel: se a de um homem inocente que morre no patíbulo da cruz, ou a agonia de uma mãe que acompanha os últimos instantes da vida do seu filho. Os evangelhos são lacónicos e extremamente discretos. Mencionam com um simples verbo a presença da Mãe: «estava» (Jo 19, 25). Ela estava. Nada dizem sobre a sua reacção: se chorou ou não... Nada!... Nem uma pincelada para descrever a sua dor. Sobre esses pormenores, mais tarde irrompeu a imaginação de poetas e pintores que nos deixaram imagens que entraram na história da arte e da literatura. Contudo, os evangelhos dizem só: ela «estava». Estava ali, no momento mais triste, mais cruel, e sofria com o filho. «Estava».
Maria «estava», simplesmente, lá. Ei-la novamente: a jovem de Nazaré, agora com cabelos brancos pelo passar dos anos, ainda ocupada com um Deus que só deve ser abraçado, e com uma vida que chegou ao limiar da escuridão mais densa. Maria «estava» na escuridão mais espessa, mas «estava». Não foi embora. Maria está fielmente presente, cada vez que surge a necessidade de manter uma vela acesa num lugar de bruma e neblina. Nem ela conhece o destino de ressurreição que o seu Filho estava a abrir, naquele instante, para todos nós, homens: está ali por fidelidade ao plano de Deus do qual se proclamou serva, no primeiro dia da sua vocação, mas também por causa do seu instinto de mãe que, simplesmente, sofre cada vez que um filho atravessa uma paixão. Os sofrimentos das mães: todos nós conhecemos mulheres fortes que enfrentaram muitos sofrimentos dos filhos!
Encontrá-la-emos no primeiro dia da Igreja, ela, mãe de esperança, no meio daquela comunidade de discípulos tão frágeis: um negou, muitos fugiram, todos sentiram medo (cf. At 1, 14). Mas ela, simplesmente, estava ali, do modo mais normal, como se fosse algo totalmente natural: na primeira Igreja envolvida pela luz da Ressurreição, mas também pelos tremores dos primeiros passos que devia dar no mundo.
Por isso, todos nós a amamos como Mãe. Não somos órfãos: temos uma mãe no céu, que é a Santa Mãe de Deus. Porque nos ensina a virtude da esperança, até quando tudo parece sem sentido: ela permanece sempre confiante no mistério de Deus, até quando Ele parece desaparecer por culpa do mal do mundo. Que nos momentos de dificuldade, Maria, a Mãe que Jesus ofereceu a todos nós, possa sempre amparar os nossos passos e dizer ao nosso coração: «Levanta-te! Olha em frente, olha para o horizonte», porque Ela é Mãe de esperança. Obrigado. (cf. Santa Sé)


PARA REZAR


SALMO 32

Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia. Que ela venha sobre nós.

Justos, aclamai o Senhor,
os corações rectos devem louvá 1’O.
Louvai o Senhor com a cítara,
cantai Lhe salmos ao som da harpa.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

SANTOS POPULARES


SÃO CARLOS EUGÉNIO
 DE MAZENOD

Carlos José Eugénio de Mazenod nasceu no dia 1 de Agosto de 1782, em Aix-en-Provence, no Sul da França. Era filho de Carlos António de Mazenod e de Maria Rosa Eugénia Joannis. Foi baptizado, no dia seguinte, na Igreja da Madalena, em Aix-en-Provence. A França estava mergulhada em profundas mudanças que abriram portas à “revolução francesa”. Aparentemente, o menino estava predestinado a uma carreira brilhante e uma vida abastada, graças à sua família que pertencia à pequena nobreza. O seu pai, jovem advogado, tornou-se aos 26 anos, em 1771, presidente do Tribunal de Contas de Aix. A sua mãe era filha de um abastado médico da cidade. A situação financeira dos de Mazenod era óptima.
No entanto, as perturbações decorrentes da Revolução Francesa (1789) iriam mudar, para sempre, a situação de Carlos Eugénio. Os de Mazenod opuseram-se tenazmente aos princípios orientadores da revolução. Por isso, corriam o rico de serem presos e decapitados. Carlos Eugénio, que tinha somente oito anos de idade, teve que fugir de França, com toda a sua família, deixando todos os seus bens para trás. Começou, então, para a família de Mazenod um longo e penoso exílio que duraria onze anos. 
A família de Mazenod refugiou-se em Itália, andando de cidade em cidade, até encontrar um modo seguro de vida. O pai viu-se obrigado a entrar para o ramo do comércio para poder manter a sua família. Porém, revelou-se tão inábil para os negócios que, ao fim de alguns anos, a sua família ficou à beira da ruína. Carlos Eugénio estudou, durante algum tempo, no Colégio dos Nobres, em Turim, mas a necessidade de partir rumo a Veneza marcaria, para ele, o fim de uma frequência escolar regular.
Um sacerdote local, Don Bartolo Zinelli, que era próximo da família de Mazenod, decidiu ajudar na formação do jovem francês. Don Bartolo deu a Carlos Eugénio uma educação fundamental, impregnada do sentido de Deus e do desejo de uma vida piedosa, algo que o acompanharia para sempre, apesar dos altos e baixos da sua existência.
Uma nova mudança, desta vez rumo a Nápoles, acarretou um período de aborrecimento, combinado com um sentimento de impotência. A família mudou-se novamente, desta vez para Palermo onde, graças à bondade do Duque e da Duquesa Cannizzaro, Carlos Eugénio pôde experimentar, pela primeira vez depois de muito tempo, do estilo de vida da nobreza que ele achava tão agradável. Recebeu o título de "Conde de Mazenod"; iniciou-se nos hábitos do tribunal e pôs-se a sonhar com um futuro brilhante.
Em 1802, aos 20 anos de idade, Carlos Eugénio pôde voltar ao seu país natal. Todos os seus sonhos e ilusões rapidamente se desfizeram. Em França, ele não passava de “cidadão” Mazenod. Com a “revolução”, aquele país tinha mudado demais! Os seus pais tinham-se separado. A sua mãe tentava recuperar o património familiar e ocupava-se a tentar casar Carlos Eugénio com uma herdeira rica. O jovem tornou-se pessimista face ao futuro que se lhe apresentava. Mas, o seu cuidado tão espontâneo para com os outros, aliado à fé que havia desenvolvido em Veneza, começaram a estabilizar a vida de Carlos Eugénio, que ficou profundamente chocado com a situação desastrosa em que se encontrava a Igreja, em França, provocada, atacada e dizimada pela Revolução Francesa.
Começou a sentir o chamamento ao sacerdócio e, apesar da oposição da mãe, entrou para o Seminário de Saint-Sulpice em Paris. No dia 21 de Dezembro de 1811, foi ordenado sacerdote em Amiens.
Regressando a Aix-en-Provence, o Padre de Mazenod não assumiu nenhuma paróquia, mas começou a exercer o seu ministério sacerdotal ocupando-se, especialmente, na ajuda espiritual aos mais pobres: os prisioneiros, os jovens, os empregados, os camponeses. Frequentemente, o Padre Carlos Eugénio tinha de enfrentar a oposição do clero local. Porém, encontrou outros sacerdotes igualmente zelosos e prontos a quebrar as práticas enraizadas na vida do clero francês.
O Padre Carlos Eugénio e os seus companheiros pregavam em provençal - a linguagem corrente dos seus interlocutores - e não em francês, que era a língua das pessoas instruídas. Iam de aldeia em aldeia, ensinando aos aldeões e passando horas e horas nos confessionários. Entre essas “missões paroquiais”, o grupo reencontrava-se para uma intensa vida comunitária de oração, estudo e de vivência da fraternidade. Atribuíram a si mesmos um nome: “Os Missionários da Provença”.
Para assegurar a continuidade da obra, o Padre de Mazenod tomou uma importante decisão: foi a Roma falar com o Papa e pediu-lhe autorização para que o seu grupo fosse reconhecido como Congregação de Direito Pontifício. A sua fé e a sua perseverança deram frutos e foi assim que, em 17 de Fevereiro de 1826, o Papa Leão XII aprovou a nova Congregação, sob o nome de "Oblatos de Maria Imaculada". O Padre Carlos Eugénio foi eleito Superior-Geral e continuou a inspirar e a guiar os seus membros durante 35 anos, até à sua morte.
O número de obras crescia: pregações, confissões, ministérios jovens, responsabilidade por santuários marianos e por paróquias, visitas às prisões, direcções de seminários, etc. No cumprimento de tantas tarefas, o Padre Carlos Eugénio sempre insistia na necessidade de uma profunda formação espiritual e de uma intensa vida comunitária. Amava Jesus Cristo apaixonadamente e estava sempre pronto a assumir um novo compromisso se enxergava nisso uma resposta às necessidades da Igreja. A “glória de Deus, o bem da Igreja e a santificação das almas” eram a fonte do seu dinamismo interior.
A diocese de Marselha tinha sido extinta, após a Concordata de 1802 entre Napoleão Bonaparte e o Papa Pio VII. Ao ser restabelecida, o tio do Padre Carlos Eugénio, o Cónego Fortunato de Mazenod, foi nomeado Bispo de Marselha. Então, o novo Bispo chamou o Padre Carlos Eugénio para ser o Vigário-Geral da diocese, com a responsabilidade de todas as acções que levassem a uma renovação e reconstrução da diocese.
Alguns anos depois, em 1832, o Padre Carlos Eugénio foi nomeado Bispo-Auxiliar do seu tio. A sua ordenação episcopal aconteceu em Roma, o que foi considerado como um desafio ao governo francês, que se achava no direito de confirmar tais nomeações. Seguiu-se uma acérrima batalha diplomática, com o Bispo Carlos Eugénio no centro de acusações, incompreensões, ameaças e recriminações. Foi, para ele, um período doloroso, uma dor aumentada ainda mais pelas crescentes dificuldades enfrentadas pela sua própria família religiosa. Todavia, o Bispo Carlos Eugénio manteve-se firme no rumo certo e, finalmente, as coisas acalmaram-se. Cinco anos mais tarde, depois da renúncia do seu tio, ele foi nomeado Bispo de Marselha.
Apesar de ter fundado os “Oblatos de Maria Imaculada” para levar os serviços da fé aos pobres dos campos da França, o zelo do Bispo de Mazenod pelo Reino de Deus e o seu amor pela Igreja conduziram os “Oblatos” a abrirem-se ao apostolado missionário, levando-os a instalar-se na Suíça, na Inglaterra e na Irlanda. Devido ao seu zelo apostólico, o Bispo Carlos de Mazenod era visto como um “segundo São Paulo”.
Bispos missionários vieram pedir-lhe que enviasse os “Oblatos” para as suas áreas apostólicas, em expansão. Apesar do pequeno número de membros do seu Instituto, o Bispo de Mazenod respondeu generosamente, enviando os seus missionários para o Canadá, os Estados Unidos, o Ceilão (actual Sri Lanka), a África do Sul e a Basutolândia (actual Lesoto).
Missionários ao seu modo, eles espalharam-se pregando, baptizando, levando a todos o seu apoio. Frequentemente, instalavam-se em terras remotas e ignoradas, estabelecendo e dirigindo novas dioceses e, ao seu jeito, “ousavam tudo para fazer avançar o Reino de Deus”. Durante os anos que se seguiram, o ímpeto missionário continuou de tal forma que actualmente o espírito de Carlos Eugénio de Mazenod está bem vivo, em 68 países.
Para além da sua dedicação às actividades missionárias dos “Oblatos”, o Bispo de Mazenod revelava-se um eminente pastor da Diocese de Marselha. Cuidou de assegurar a melhor formação para os seus sacerdotes; criou novas paróquias; construiu uma nova catedral e uma basílica espectacular, dedicada a Nossa Senhora da Guarda, que domina a paisagem da cidade. Encorajou os seus sacerdotes a buscarem o caminho da santidade; convidou um grande número de comunidades religiosas a trabalharem na sua diocese; liderou os Bispos franceses no apoio ao Papa para que fossem reconhecidos, em França, os seus direitos e os da Santa Sé. Tornou-se uma das mais reconhecidas figuras da Igreja, em França.
Em 1856, o imperador Napoleão III nomeou-o senador. Na ocasião da sua morte, o Bispo de Mazenod era o máximo responsável dos Bispos da França.
Carlos José Eugénio de Mazenod, Bispo de Marselha, e Primaz da França, faleceu no dia 21 de Maio de 1861, com 79 anos de idade. Terminava, assim, uma vida riquíssima de verdadeiro apostolado e de actividades missionárias, muitas das quais haviam sido conquistadas à base de muito sofrimento. Para a sua família religiosa e para a sua diocese, ele tinha sido, ao mesmo tempo, ponto de apoio e de inspiração; para Deus e para a Igreja, um filho fiel e generoso.
No momento da sua morte, o santo Bispo Carlos de Mazenod, deixou uma última recomendação aos seus filhos espirituais: “Entre vós, praticai bem a caridade! A caridade!... E, no mundo, o zelo pela salvação das almas.”
Carlos José Eugénio de Mazenod foi beatificado no dia 19 de Outubro de 1975, pelo Papa Paulo VI e canonizado em 3 de Dezembro de 1995, pelo Papa João Paulo II.

A sua memória litúrgica celebra-se no dia 21 de Maio.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- DO IV DOMINGO DE PÁSCOA

“…Ele suportou os nossos pecados
 no seu Corpo, no madeiro da cruz,
 a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça:
 pelas suas chagas fomos curados.
 Vós éreis como ovelhas desgarradas,
 mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas…” (cf. 1 Pedro 2, 24-25)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 3 de Maio

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, desejo falar-vos sobre a Viagem Apostólica que, com a ajuda de Deus, realizei recentemente ao Egipto. Fui àquele país na sequência de um quádruplo convite: do Presidente da República, de Sua Santidade o Patriarca Copto-ortodoxo, do Grande Imã de Al-Azhar e do Patriarca Copto-Católico. Agradeço, a cada um deles, o acolhimento que me reservaram, verdadeiramente caloroso. E agradeço a todo o povo egípcio a participação e o afecto com que viveu esta visita do Sucessor de Pedro.
O Presidente e as Autoridades civis empenharam-se, de forma extraordinária, para que este evento pudesse desenrolar-se da melhor maneira possível; para que fosse um sinal de paz, um sinal de paz para o Egipto e para toda aquela região que, infelizmente, sofre pelos conflitos e pelo terrorismo. Com efeito, o lema da Viagem foi «O Papa da paz num Egipto de paz».
A minha visita à Universidade Al-Azhar, a mais antiga universidade islâmica e a máxima instituição académica do Islão sunita, teve um duplo horizonte: o diálogo entre os cristãos e os muçulmanos e, ao mesmo tempo, a promoção da paz no mundo. Em Al-Azhar, teve lugar o encontro com o Grande Imã, encontro que, depois, abrangeu a Conferência Internacional pela Paz. Neste contexto, apresentei uma reflexão que valorizou a história do Egipto como terra de civilização e terra de aliança. Para toda a humanidade, o Egipto é sinónimo de civilização antiga, de tesouros de arte e de conhecimento; e isto recorda-nos que a paz se constrói mediante a educação, a formação da sabedoria, de um humanismo que engloba, como parte integrante, a dimensão religiosa, a relação com Deus, como recordou o Grande Imã, no seu discurso. A paz constrói-se, também, partindo novamente da aliança entre Deus e o homem, fundamento da aliança entre todos os homens, baseada no Decálogo escrito nas tábuas de pedra do Sinai mas, muito mais profundamente, no coração de cada homem de todos os tempos e lugares; lei que se resume nos dois mandamentos do amor de Deus e do próximo.
Este mesmo fundamento está na base da construção da ordem social e civil, em que são chamados a colaborar todos os cidadãos, de todas as origens, culturas e religiões. Esta visão de laicidade sadia emergiu durante o intercâmbio de discursos com o Presidente da República do Egipto, na presença das autoridades do país e do Corpo diplomático. O grande património histórico e religioso do Egipto e o seu papel na região do Médio Oriente conferem-lhe uma tarefa peculiar no caminho rumo a uma paz estável e duradoura, que não se apoie no direito da força, mas na força do direito.
Os cristãos, no Egipto, assim como em cada nação da terra, estão chamados a ser fermento de fraternidade. E isto só é possível se viverem, em si mesmos, a comunhão em Cristo. Um forte sinal de comunhão, graças a Deus, foi possível oferecê-lo juntamente com o meu querido irmão Papa Tawadros II, Patriarca dos Coptas ortodoxos. Renovamos o compromisso - assinando inclusive uma Declaração Conjunta - de caminhar juntos e de nos comprometermos a fim de que não se repita o Baptismo administrado nas respectivas Igrejas. Rezamos juntos pelos mártires dos recentes atentados que atingiram tragicamente aquela Igreja venerável; e o seu sangue fecundou aquele encontro ecuménico, no qual participou também o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu: o Patriarca ecuménico, meu querido irmão.
O segundo dia da viagem foi dedicado aos fiéis católicos. A Santa Missa celebrada no Estádio disponibilizado pelas autoridades egípcias foi uma festa de fé e de fraternidade, em que sentimos a presença viva do Senhor Ressuscitado. Ao comentar o Evangelho, exortei a pequena comunidade católica no Egipto a reviver a experiência dos discípulos de Emaús: a encontrar sempre em Cristo, Palavra e Pão de vida, a alegria da fé, o fervor da esperança e a força de testemunhar no amor que «encontramos o Senhor!».
Vivi o último momento juntamente com os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os seminaristas, no Seminário Maior. Há muitos seminaristas: esta é uma consolação! Foi uma liturgia da Palavra, na qual foram renovadas as promessas da vida consagrada. Nesta comunidade de homens e mulheres que escolheram oferecer a vida a Cristo pelo Reino de Deus, vi a beleza da Igreja no Egipto, e rezei por todos os cristãos do Médio Oriente, para que, guiados pelos seus pastores e acompanhados pelos consagrados, sejam sal e luz naquelas terras, no meio daqueles povos. O Egipto, para nós, foi sinal de esperança, de refúgio, de ajuda. Quando aquela parte do mundo estava faminta, Jacob, com os seus filhos, foi lá ter; depois, quando Jesus foi perseguido, foi para lá. Por isso, narrar-vos esta viagem significa percorrer o caminho da esperança: para nós, o Egito é aquele sinal de esperança tanto para o passado como para o presente, desta fraternidade que eu quis contar-vos.
Agradeço novamente a quantos tornaram possível esta Viagem e àqueles que, de diversas maneiras, deram a sua contribuição, especialmente as muitas pessoas que ofereceram as suas orações e os seus sofrimentos. A Sagrada Família de Nazaré, que emigrou para as margens do Nilo, fugindo da violência de Herodes, abençoe e proteja sempre o povo egípcio e o guie pelas sendas da prosperidade, da fraternidade e da paz. Obrigado!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 22

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva me a descansar em verdes prados,
conduz me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES


SÃO FRANCISCO DE JERÓNIMO

Francisco de Jerónimo (di Girolamo) nasceu na pequena cidade de Grottaglia, perto de Tarento, no sul da Itália, no dia 17 de Setembro de 1642. Os seus pais, João Leonardo de Girolamo e Gentilesca Gravina, além de serem muito considerados e respeitados naquela região, destacavam-se, sobretudo, pela sua virtude e exemplo de vida cristã. Tiveram onze filhos, dos quais Francisco foi o primeiro. A todos proporcionaram uma excelente educação religiosa.
Como filho mais velho, Francisco destacava-se pela sua bondade, pela atenção aos outros e pelo seu cuidado em ser exemplo para os seus irmãos. Quando completou 11 anos, os pais confiaram-no a um grupo de sacerdotes que, não sendo uma comunidade religiosa, viviam em comunidade, ajudando-se mutuamente nos trabalhos apostólicos e no esforço da santidade. Devido às suas excelentes qualidades, Francisco foi encarregado da catequese das crianças e de cuidar da igreja. Impressionado pela sua piedade, o arcebispo de Tarento conferiu-lhe a tonsura eclesiástica, na idade de 16 anos. [A tonsura era o primeiro grau de Ordem, no itinerário para a vida sacerdotal. Consistia num pequeno corte, no cabelo, realizado pelo Bispo, no momento da atribuição deste grau eclesiástico. Era chamada também de "prima tonsura"] Depois disto, os pais enviaram-no para Tarento para estudar filosofia e teologia. Francisco foi, em seguida, para Nápoles para estudar direito canónico e direito civil no Colégio Gesù-Vecchio, dos jesuítas, que figurava, então, entre as melhores universidades da Europa.
Francisco foi ordenado sacerdote no dia 18 de Março de 1666. Depois de passar quatro anos no cargo de prefeito de disciplina, no colégio jesuíta de Nápoles, aos 28 anos de idade pediu admissão na Companhia de Jesus.
No noviciado - apesar de ser o mais humilde, fervoroso, mortificado e obediente - os superiores, para o pôr à prova, proibiram-no de celebrar a santa missa mais do que três vezes por semana. Conta-se, então, que nos outros dias, o próprio Jesus aparecia-lhe para lhe dar a santa comunhão.
Francisco foi, então, enviado a colaborar nas ‘missões populares’, acompanhando um famoso pregador da época, o Pe. Agnello Bruno. Durante três anos, evangelizaram a região de Otranto, convertendo pecadores e fortificando os justos, de tal maneira que se dizia na região: “Os Padres Bruno e Jerónimo não parecem ser simples mortais, mas anjos enviados expressamente para salvar as almas”.
Nomearam-no, depois, pregador da igreja de Gesù-Nuovo, a casa professa dos jesuítas, em Nápoles. Francisco começou por incrementar o entusiasmo religioso de um grupo de trabalhadores, cuja finalidade era secundar o trabalho missionário dos padres jesuítas. Queria que os colaboradores, mesmo os mais humildes, levassem muito a sério a religião: que frequentassem os sacramentos, aos domingos e nas festas de Nossa Senhora; que todos os dias fizessem oração mental, sem a qual não é possível qualquer progresso verdadeiro na vida espiritual; que fizessem também mortificações e penitências para dominar o próprio eu, e que fossem devotos da Via-Sacra e de Nossa Senhora. Aos poucos, esses trabalhadores tornaram-se excelentes cooperadores, fazendo muito apostolado e trazendo uma multidão de pecadores aos pés de Francisco para que se reconciliassem e obtivessem o perdão de Deus.
Como vivessem apenas de um pequeno salário, Francisco instituiu, entre eles, uma caixa de auxílio (uma espécie de caixa de previdência) que lhes permitisse contar com uma ajuda suplementar para as suas despesas, em caso de doença e, em caso de morte, poderem ter um funeral digno. Tinham, ainda, o privilégio de poderem ser enterrados no cemitério da própria igreja de Gesù-Nuovo.
Francisco estabeleceu, também, nessa igreja, o hábito da comunhão geral, no terceiro domingo de cada mês. Os seus congregados dedicavam-se a difundir essa devoção e faziam-no com tal êxito que era costume haver mais de 15 mil homens a comungar aos domingos.
Mas, o zelo apostólico de Francisco não se limitava a isso. Queria ir para as Índias converter infiéis, como o seu patrono São Francisco Xavier. Mas, os seus superiores responderam-lhe que as “suas Índias e o seu Japão” seriam a cidade e o reino de Nápoles. Durante 40 anos, ele evangelizará essa região de maneira notável: andava pelas ruas da cidade a pregar a necessidade da conversão e da penitência; do inesperado da morte e da necessidade de se estar preparado para ela; do juízo de Deus e da alegria da salvação. Escolhia, para a sua pregação, ruas onde tivesse ocorrido algum escândalo. Nalguns dias da semana, visitava os arredores de Nápoles e, às vezes, visitava até 50 povoados, num só dia. Pregava nas ruas, praças e igrejas. E o resultado era surpreendente. O povo acotovelava-se para se aproximar dele, vê-lo, beijar as suas mãos e tocar nas suas vestes. Os seus sermões eram curtos, mas enérgicos e eloquentes, e tocavam as consciências culpadas dos seus ouvintes, operando conversões milagrosas. Quando exortava os pecadores ao arrependimento, adquiria ares de profeta do Antigo Testamento e a sua voz tornava-se mais potente e terrível. Por isso o povo dizia: “Ele é um cordeiro quando fala; mas é um leão quando prega”.
O seu método ordinário era o de mostrar, em primeiro lugar, a enormidade do pecado, de maneira a suscitar, nos ouvintes, a indignidade dos seus pecados. Depois, mudava totalmente o tom, e falava da doçura e da bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, de maneira a fazer suceder a esperança ao desespero e conquistar assim os corações mais endurecidos. Era o momento que escolhia para dirigir um apelo à conversão, tão meigo e persuasivo que levava muitos a cair de joelhos e a pedir perdão pelos seus desmandos. No fim, acrescentava algum exemplo marcante das graças de Deus para deixar nas almas uma impressão mais profunda. Francisco utilizava tudo quanto pudesse ajudar à conversão e salvação daquela gente.
O Padre Francisco de Jerónimo deu, também, uma atenção especial à dimensão e cuidado social dos que mais precisavam: fundou dois refúgios para mulheres pecadoras arrependidas e o Asilo do Espírito Santo, para os seus filhos. Chegou a acolher 190 crianças a quem dava instrução e a oportunidade de construir um futuro menos sombrio. Francisco teve a consolação de ver 22 dessas mulheres abraçarem a vida religiosa.
Mas não era sempre assim. Um dia em que pregava numa praça, perto de uma casa de má fama, a mulher que nela habitava começou a fazer todos os ruídos possíveis para atrapalhar a pregação. Francisco, porém, sem se incomodar, continuou até ao fim.
A caridade de Francisco levava-o, também, ao encontro dos condenados às galés, transformando aqueles lugares de revolta e de dor em refúgios de paz e resignação. Ali, com a sua insuperável caridade e zelo pelas almas, conseguiu que vários escravos mouros se convertessem à verdadeira fé. Para que os seus baptismos influenciassem profundamente os corações, celebrava-os o mais pomposamente possível.
Francisco queria trabalhar até ao fim das suas forças. Dizia: “Enquanto eu conservar um alento de vida irei, ainda que arrastado, pelas ruas de Nápoles. Se cair debaixo da carga, darei graças a Deus. Um animal de carga deve morrer debaixo do seu fardo”. E isso aconteceu. Francisco trabalhou até não poder mais. Faleceu no dia 11 de Maio de 1716, com 73 anos de idade.
Francisco de Jerónimo foi beatificado, pelo Papa Pio VII, no dia 2 de Maio de 1806 e canonizado, pelo Papa Gregório XVI, no dia 26 de Maio de 1839.

A memória litúrgica de São Francisco de Jerónimo celebra-se no dia 11 de Maio.