PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM: SOLENIDADE DE CRISTO REI
        
“…Eu apascentarei as minhas ovelhas;
 Eu as levarei a repousar, diz o Senhor.
 Hei-de procurar a que anda tresmalhada.
 Tratarei a que estiver ferida,
 darei vigor à que andar enfraquecida
 e velarei pela gorda e vigorosa.
 Hei-de apascentá-las com justiça…” (Ezequiel 34, 15-16 )

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 22 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Prosseguindo as catequeses sobre a Missa, podemos questionar-nos: o que é, no essencial, a Missa? A Missa é o memorial do Mistério Pascal de Cristo. Ela torna-nos participantes da sua vitória sobre o pecado e a morte e confere pleno significado à nossa vida.
Por esta razão, a fim de compreender o valor da Missa, devemos entender, em primeiro lugar, o significado bíblico do “memorial”. Ele «não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas eles tornam-se, de certo modo, presentes e actuais. É assim que Israel entende a sua libertação do Egipto: sempre que se celebra a Páscoa, os acontecimentos do Êxodo tornam-se presentes à memória dos crentes, para que conformem com eles a sua vida» (Catecismo da Igreja Católica, 1363). Jesus Cristo - com a sua paixão, morte, ressurreição e ascensão ao céu - levou a cumprimento a Páscoa. E a Missa é o memorial da sua Páscoa, do seu “êxodo”, que cumpriu por nós, para nos fazer sair da escravidão e nos introduzir na terra prometida da vida eterna. Não é somente uma lembrança: não! É mais do que isso: significa evocar o que aconteceu há vinte séculos.
A Eucaristia leva-nos sempre ao ponto mais alto da acção de salvação de Deus: o Senhor Jesus, tornando-se pão partido para nós, derrama sobre nós toda a sua misericórdia e o seu amor, como fez na cruz, de modo a renovar o nosso coração, a nossa existência e a nossa forma de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos. O Concílio Vaticano II afirma: «Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, realiza-se também a obra da nossa redenção» (Cost. dogm. Lumen gentium, 3).
Cada celebração da Eucaristia é um raio daquele sol sem ocaso que é Jesus ressuscitado. Participar na Missa, em particular aos domingos, significa entrar na vitória do Ressuscitado; ser iluminados pela sua luz; abrasados pelo seu calor. Através da celebração eucarística, o Espírito Santo torna-nos participantes da vida divina que é capaz de transfigurar todo o nosso ser mortal. E, na sua passagem da morte para a vida, do tempo para a eternidade, o Senhor Jesus arrasta-nos, também, com Ele para fazer a Páscoa. Na Missa, faz-se a Pascoa. Nós, na Missa, estamos com Jesus, morto e ressuscitado e Ele arrasta-nos em frente, para a vida eterna. Na Missa, unimo-nos a Ele. Aliás, Cristo vive em nós e nós vivemos n’Ele: «Estou crucificado com Cristo - diz Paulo -, já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim» (Gl 2, 19-20). Paulo pensava desta forma.
Com efeito, o seu sangue liberta-nos da morte e do medo da morte. Liberta-nos não só do domínio da morte física, mas da morte espiritual que é o mal, o pecado, que se apodera de nós todas as vezes que somos vítimas do pecado nosso e alheio. E, então, a nossa vida é contaminada, perde beleza, perde significado, desflorece.
Ao contrário, Cristo restitui-nos a vida; Cristo é a plenitude da vida e, quando enfrentou a morte, aniquilou-a para sempre: «ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou vida», confessa a Igreja celebrando a Eucaristia (Oração eucarística IV). A Páscoa de Cristo é a vitória definitiva sobre a morte, porque Ele transformou a sua morte em acto supremo de amor. Morreu por amor! E na Eucaristia, Ele quer comunicar-nos este seu amor pascal, vitorioso. Se o recebermos com fé, também nós podemos amar verdadeiramente a Deus e ao próximo; podemos amar como Ele nos amou, oferecendo a vida.
Se o amor de Cristo estiver em mim, posso doar-me plenamente ao outro, na certeza interior de que, mesmo se o outro me ferir, eu não morrerei; caso contrário, teria que me defender. Os mártires ofereceram a sua vida devido a esta certeza da vitória de Cristo sobre a morte. Só se experimentarmos este poder de Cristo, o poder do seu amor, seremos realmente livres de nos doarmos sem medo. É este o significado da Missa: entrar nesta paixão, morte, ressurreição, ascensão de Jesus. Quando vamos à Missa é como se fôssemos ao calvário: é a mesma coisa. Mas, pensai: no momento da Missa vamos ao calvário - usemos a imaginação - e sabemos que o homem que ali está é Jesus. Sabendo isso, será que nos permitiríamos conversar, tirar fotografias, dar um pouco de espectáculo? Não! Porque é Jesus! Certamente, estaríamos em silêncio, no pranto e, também, na alegria de sermos salvos. Quando entrarmos na Igreja para celebrar a Missa, pensemos nisto: entro no calvário, onde Jesus oferece a sua vida por mim. E, assim, desaparece o espectáculo, desaparecem as tagarelices e os comentários. Estas coisas afastam-nos de algo tão bonito que é a Missa, o triunfo de Jesus.
Penso que agora ficou mais claro como a Páscoa se torna presente e operante todas as vezes que celebramos a Missa, e este é o sentido do memorial. A participação na Eucaristia faz-nos entrar no mistério pascal de Cristo, concedendo-nos a oportunidade de passar, com Ele, da morte à vida, ali no calvário. A Missa é refazer o calvário, não é um espectáculo. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 22

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas,
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA ROSA DE JESUS PELLESI

Bruna Pellesi nasceu no dia 11 de Novembro de 1917, em Prignano sulla Secchia, em Itália. Desde criança, era dotada de grande beleza, elegância, bom humor, doçura, alegria e muita paz. Aos 17 anos, despertou para o amor. A sua existência parecia ter tomado o caminho da plena realização e da felicidade. Este binómio - amor-felicidade - era o sonho que acalentava com todo o seu entusiasmo. Mas, deste mesmo sonho, Deus, com toda a exuberância do seu amor, traçou para ela, de um modo inesperado, um outro caminho. Nos seus sonhos, nas suas expectativas, surgiram dois protagonistas que, no íntimo do seu coração, geraram uma luta "difícil e profunda": seguir os anseios do seu coração: que lhe segredavam a felicidade de um amor partilhado na família; a alegria de uma realização profissional; o desafio de uma profunda inserção na sociedade para se dedicar ao bem comum, ou os da sua alma: que a desafiavam a ouvir a voz do Senhor; a deixar tudo para O seguir; a dedicar-se completa e radicalmente ao Seu projecto de vida e de amor incondicional a Cristo? Tratava-se de fazer as contas com dois "galanteios", para decidir se, e por quem, deixar-se seduzir. No fim, tratou-se de uma escolha de êxito previsto, pois, em todo o caso, teria sido um ceder ao amor e cair nos braços do amado. Contudo, este novo amor configurou-se como chamada e pressentimento de um misterioso dom. Bruna acabou por ceder ao Amor, àquele amor maior e que se sente com mais força.
Com um sonho a realizar, chegou à casa das Irmãs Franciscanas de Santo Onofre, em Rímini, Itália, fundadas, em 1885, por Faustina – filha dos Condes Zavagli - nobre de família e ainda mais de ânimo que, como religiosa, recebeu o nome de Irmã Teresa de Jesus Crucificado. Mais tarde, por sugestão da própria Irmã Maria Rosa Pellesi, esta Congregação mudou de nome e, actualmente, chamam-se Irmãs Franciscanas Missionárias de Cristo.
O coração faz as suas escolhas sofridas, que só o Amor maior consegue explicar e permite realizar. E a Irmã Maria Rosa de Jesus Pellesi, aos 22 anos, sem qualquer hesitação, obedeceu a este imperativo absoluto.
De 1940 a 1942, Bruna Pellesi permaneceu em formação. Foram anos do silêncio e da fadiga, da sementeira e da expectativa. O trabalho era interior, desenvolvido nas profundezas do coração. Dessa sementeira, feita em profundidade e no escondimento, ver-se-iam os frutos mais tarde. De facto, quando a tempestade da dor a surpreendeu, suportou o choque sem esmorecer, perdendo algumas folhas, mas nunca a raiz e a serenidade. 
No mês de Novembro de 1945, entrou, definitivamente, no sanatório, devido à tuberculose que a tinha contagiado. Tinha apenas 27 anos dos quais 22 tinham sido vividos no seio da sua família e 5 no convento. Ela ainda não sabia, mas restavam-lhe exactamente outros 27 anos, que seriam vividos inteiramente no sanatório. Dentro deste ‘claustro’, não escolhido nem previsto, aconteceu-lhe de tudo: chorou e sorriu, venceu a monotonia com a escuta e o amor, transformou o ordinário em extraordinário, fez grandes as mínimas coisas. Lá o seu dom nutriu-se da dor, o seu sorriso alimentou-se da doença e a sua felicidade de lágrimas. Livre e grande, desde o início até ao fim, permaneceu-lhe o coração. E isto foi suficiente para voar alto, para sonhar o sol, transfigurar os seus dias e inebriar-se de felicidade e, sem algum rumor, fazer-se santa.
A sua vida foi, claramente, dividida em duas partes. Os primeiros 27 anos, maravilhosos como os lírios do campo, foram um sonho e passaram rapidamente. Os outros 27, pesados e intermináveis, entrelaçados do início ao fim com a doença, serviram-lhe para se realizar. Ambos foram ligados pela mesma força: fazer a vontade de Deus e fazer-se santa a qualquer preço. Este foi o tesouro que, com fadiga e sem deixar ver, procurou, encontrou e conservou. Fê-lo entre lágrimas e sorrisos, densas sombras e fendas de luz, às vezes suspensa entre o céu e a terra, grandeza e pobreza, oscilando sem parar dos abismos aos cimos, mas sempre com as mesmas invencíveis paixão e paciência.
O mais curioso, em todas estas vicissitudes, é que a Irmã Maria Rosa passou a sua vida a falar de alegria, de paz, de serenidade, de amor e de felicidade para descrever a sua experiência: sentia-se "quase atordoada de alegria" por um "dom tão grande"; "não pude deixar de chorar pensando na bondade misericordiosa de Deus". A sua saúde era muito precária, mas ela dizia: "o meu coração canta e sou muito feliz!".
A Irmã Maria Rosa de Jesus Pellesi faleceu no dia 1 de Dezembro de 1972. Fechou os seus olhos na terra para os abrir no céu. O seu sorriso celeste transfigurou a noite sem fim do seu calvário na manhã do oitavo dia e no alvorecer da esperança!
Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, no dia 29 de Abril de 2007, na Catedral de Rimini, Itália, numa celebração presidida, em nome do Papa, pelo Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Na homilia, o Cardeal Saraiva Martins disse: “… Este quarto domingo da Páscoa é chamado do "Bom Pastor" devido ao trecho evangélico proposto, no qual aparece a alegoria ou comparação do pastor. Neste contexto litúrgico, celebra-se o Dia Mundial de Oração pelas Vocações(…)
Os três verbos pronunciados por Jesus são de acção muito personalizada: escutar, conhecer e seguir com os quais indica o movimento da fé que pode preencher a nossa necessidade de vida plena e feliz à qual aspiramos. Através desta constelação de palavras, ligadas entre si por um fio luminoso e espiritual, pode-se construir a história integral da vocação cristã. Em especial, como veremos daqui a pouco, nelas podemos encontrar traçado o caminho que levou a nova Beata Maria Rosa Pellesi à santidade. (…)
Todos nós, caríssimos fiéis, fomos colocados pelas mãos do Pai Bom nas mãos do Pastor Bom e chamados a alcançar quantos nos precederam na vitalidade da fé, aqueles "com palmas nas suas mãos" (Ap 7, 9). É a palma que Jesus entrega, através da Igreja, à sua esposa Rosa Pellesi, ao beatificar esta religiosa pouco conhecida, talvez, mas que agora poderá difundir o fascínio que promana do seu caminho de virgem franciscana.
Nas mãos do Senhor Crucificado e Ressuscitado Rosa Pellesi manteve-se sempre e pela mão do Filho de Deus Vivo fez-se orientar, sustentar, sem jamais se perder e fazendo de modo que não se desatasse o vínculo de Cristo, ao qual estava ligada, tornando-se uma obra-prima de humanidade e amor, de abandono e obediência, de mansidão e fortaleza.
A Palavra de Deus da hodierna liturgia é a moldura ideal, como se tivesse sido escolhida de propósito, para colocar a Beata Maria Rosa Pellesi, que ilumina a santidade da sua vida, revestindo-a de luz evangélica.
Nos longos 27 anos de vida no sanatório, obrigada à reclusão forçada mas heroicamente acolhida, desdobra-se nela o abismo do Mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo que se transmite a ela e, como tal, chama-a a passar através da grande tribulação, deixando que as suas vestes fossem lavadas, tornadas cândidas com o sangue do Cordeiro a quem Maria Rosa une, sem reservas, o seu holocausto, segundo quanto nos apresentou, na segunda leitura, a esplêndida página do Apocalipse.
Basta pensar que as costas da encantadora moça de Pigneto foi perfurada não por centenas, mas por milhares de toracocenteses para a extracção do líquido contido na cavidade pleural, sem que jamais - testemunham-no os médicos ainda vivos - tenha saído um só lamento da sua boca.
Era identificada no silêncio de Jesus, o cordeiro mudo conduzido ao matadouro, segundo a narração de Isaías: "Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador" (Is 53, 7).
Como símbolo da crucifixão da sua carne permaneceu-lhe, por 17 anos, cravado no tórax, um fragmento de agulha, quebrada devido a um erro médico, durante a quotidiana extracção. A este fragmento, a Irmã Maria Rosa, em atitude de profunda humildade, chamava "a minha lança". A crucifixão, na imagem da Irmã Maria Rosa aqui exposta, está simbolizada pela coroa de espinhos que, com feliz intuição, lhe foi colocada sobre o peito no acto de apertar-lhe o coração.
São Paulo recordou-nos na primeira Leitura, que acabámos de ouvir: "Estabeleci-te como luz das nações, para levares a salvação até aos confins da Terra". A Beata Maria Rosa, embora fechada num angustioso hospital, pairava com o anseio missionário de Cristo sobre a humanidade e dizia: "Gostaria de abraçar o mundo", e antes de morrer exclamou: "mando um beijo a toda a humanidade". 
É o seu grito de missionária do amor; é o completamento em si daquilo que falta à paixão de Cristo e ao sonho de Cristo para que n'Ele todos sejamos um só.
Se existe um sinal imediato de reconhecimento da Irmã Maria Rosa este é certamente o sorriso que se tornava a primeira caridade para quem vivia com ela, mas que se traduzia também em gestos humanos humilíssimos e fortes de escuta, paciência, serviço que lhe requeriam um preço elevado de abnegação e de dom de si: "O meu coração está apertado, não obstante eu sou feliz, muito feliz; iniciei a minha vida, no sanatório, chorando; mas pedi ao Bom Deus para a terminar cantando as suas misericórdias".
No cortejo das santas Virgens que seguem o Cordeiro onde quer que Ele vá acrescentou-se uma nova presença: a Beata Maria Rosa, sinal certo de que a orientação seguida por ela leva deveras à autêntica santidade.
A Beata Maria Rosa, colocada pela Igreja sobre o candelabro, exorta-nos à esperança e a não nos deixarmos esmorecer pelos nossos limites e culpas, porque Deus nada deixa incompleto. Rezemos também nós, como ela pedia para si mesma: "Que Jesus Senhor aja em mim, a fim de construir, sobre os escombros da minha miséria, aquela obra-prima que Ele determinou desde a Eternidade". A obra-prima da perfeição evangélica, a obra-prima da própria santificação…”

A memória litúrgica da Beata Maria Rosa de Jesus Pellesi celebra-se no dia 1 de Dezembro.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

EM DESTAQUE


1º DIA MUNDIAL DOS POBRES: 19 DE NOVEMBRO DE 2017

Por iniciativa do Papa Francisco que, no encerramento do Jubileu da Misericórdia, decidiu convocar a Igreja para uma atenção, cuidado e serviço especial aos pobres, celebramos, neste Domingo, 19 de Novembro - Domingo que antecede a Solenidade do Cristo-Rei- o 1º Dia Mundial dos Pobres.
Na mensagem para este Dia Mundial, o Papa Francisco evoca o exemplo de São Francisco de Assis que assumiu um caminho de apostolado ao lado dos mais desfavorecidos, encontrando neste trajecto a via para o seu relacionamento com Deus. Transcrevemos alguns parágrafos da mensagem do Papa.

“…Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!
Infelizmente, nos nossos dias - enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana - causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho; à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos; à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade. (…)

No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Predecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predilecção de Jesus pelos pobres.

Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.

Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.
Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam protecção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai…”

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…A graça é enganadora e vã a beleza;
 a mulher que teme o Senhor é que será louvada.
 Dai-lhe o fruto das suas mãos,
 e suas obras a louvem às portas da cidade…” (Provérbios 31, 30-31)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 15 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Continuamos com as catequeses sobre a Santa Missa. Para compreender a beleza da celebração eucarística, desejo iniciar com um aspecto muito simples: a Missa é oração; aliás, é a oração por excelência, a mais elevada, a mais sublime e, ao mesmo tempo, a mais “concreta”. Com efeito, é o encontro de amor com Deus, mediante a sua Palavra, o Corpo e o Sangue de Jesus. É um encontro com o Senhor.
Mas, primeiro, temos que responder a uma pergunta. O que é realmente a oração? Antes de mais, ela é diálogo, relação pessoal com Deus. O homem foi criado como ser em relação pessoal com Deus e tem a sua plena realização, unicamente, no encontro com o seu Criador. O caminho da vida está orientado para o encontro definitivo com o Senhor.
O Livro do Génesis afirma que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, numa relação perfeita de amor que é unidade. Daqui, podemos compreender que todos nós fomos criados para entrar numa relação perfeita de amor, num contínuo doar-nos e receber-nos para assim podermos encontrar a plenitude do nosso ser.
Quando Moisés, diante da sarça-ardente, recebeu o chamamento de Deus, perguntou-lhe qual era o seu nome. E o que respondeu Deus? «Eu sou Aquele que sou» (Êx 3, 14). Esta expressão, no seu sentido originário, manifesta presença e favor e, com efeito, imediatamente a seguir, Deus acrescenta: «O Senhor, o Deus dos vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob» (v. 15). Assim, também Cristo, quando chama os seus discípulos, chama-os para que estejam com Ele. Eis, por conseguinte, a maior graça: poder experimentar que a Missa, a Eucaristia é o momento privilegiado para estar com Jesus e, através d’Ele, com Deus e com os irmãos.
Rezar, como qualquer diálogo verdadeiro, significa saber também ficar em silêncio (nos diálogos há, também, momentos de silêncio): em silêncio, juntamente com Jesus. E, quando vamos à Missa, pode acontecer que cheguemos cinco minutos antes e comecemos a falar com quem está ao nosso lado. Mas, não é o momento para falar: é o momento do silêncio, a fim de nos prepararmos para o diálogo. É o momento de nos recolhermos no coração, a fim de nos prepararmos para o encontro com Jesus. O silêncio é muito importante! Recordai-vos do que disse na semana passada: não vamos a um espectáculo, vamos ao encontro com o Senhor e o silêncio prepara-nos e acompanha-nos. Permanecer em silêncio juntamente com Jesus. E, do misterioso silêncio de Deus brota a sua Palavra que ressoa no nosso coração. O próprio Jesus nos ensina como é possível “estar” realmente com o Pai e no-lo demonstra com a sua oração. Os Evangelhos mostram-nos Jesus que se retira, para lugares afastados, para rezar; os discípulos, ao ver esta sua relação íntima com o Pai, sentem o desejo de poder participar nela, e pedem-lhe: «Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11, 1). Assim ouvimos há pouco, na primeira Leitura, no início da audiência. Jesus responde que a primeira coisa necessária para rezar é saber dizer “Pai”. Estejamos atentos: se eu não for capaz de dizer “Pai” a Deus, não sou capaz de rezar. Temos de aprender a dizer “Pai”, ou seja, de nos pormos na sua presença, com confiança filial. Mas, a fim de poder aprender, é preciso reconhecer, humildemente, que precisamos de ser instruídos, e dizer com simplicidade: Senhor, ensina-me a rezar…
Este é o primeiro ponto: ser humildes, reconhecer-se filhos, repousar no Pai, confiar n’Ele. Para entrar no Reino dos céus é necessário fazer-se pequenino, como as crianças. No sentido de que as crianças sabem confiar, sabem que alguém se preocupará com elas, com o que hão-de comer, com o que vestirão e assim por diante (cf. Mt 6, 25-32). Esta é a primeira atitude: confiança e confidência, como a criança com os pais; saber que Deus se recorda de ti, cuida de ti, de ti, de mim, de todos.
A segunda predisposição, também ela própria das crianças, é deixar-se surpreender. A criança faz sempre muitas perguntas porque deseja descobrir o mundo; e admira-se até com coisas pequenas porque para ela tudo é novo. Para entrar no Reino dos céus é preciso deixar-se surpreender. Na nossa relação com o Senhor, na oração, eu pergunto: deixamo-nos surpreender ou pensamos que a oração é falar a Deus como fazem os papagaios? Não, é confiar e abrir o coração para se deixar surpreender. Deixamo-nos maravilhar por Deus que é sempre o Deus das surpresas? Porque o encontro com o Senhor é sempre um encontro vivo; não é um encontro de museu. É um encontro vivo e nós vamos à Missa e não a um museu. Vamos a um encontro vivo com o Senhor.
No Evangelho, fala-se de um certo Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21), um idoso, uma autoridade em Israel, que vai procurar Jesus para o conhecer; e o Senhor fala-lhe da necessidade de “renascer do alto” (cf. v. 3). Mas, que significa isto? Pode-se “renascer”? Voltar a ter o gosto, a alegria, a maravilha da vida, é possível, mesmo face a tantas tragédias? Esta é uma pergunta fundamental da nossa fé e este é o desejo de qualquer crente verdadeiro: o desejo de renascer, a alegria de recomeçar. Nós temos este desejo? Cada um de nós tem vontade de renascer sempre para se encontrar com o Senhor? Tendes este desejo? Com efeito, pode-se perdê-lo facilmente porque, por causa de tantas actividades, de tantos projectos a concretizar, no final temos pouco tempo e perdemos de vista o que é fundamental: a nossa vida do coração, a nossa vida espiritual, a nossa vida que é encontro com o Senhor na oração.
Na verdade, o Senhor surpreende-nos ao mostrar-nos que Ele nos ama até com as nossas debilidades: «Jesus Cristo [...] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo» (1 Jo 2, 2). Este dom, fonte de verdadeira consolação - o Senhor perdoa-nos sempre - conforta, é uma verdadeira consolação, é um dom que nos é concedido através da Eucaristia, aquele banquete nupcial no qual o Esposo encontra a nossa fragilidade. Posso dizer que quando recebo a comunhão, na Missa, o Senhor encontra a minha fragilidade? Sim! Podemos dizê-lo porque isto é verdade! O Senhor encontra a nossa fragilidade para nos reconduzir à nossa primeira vocação: ser imagem e semelhança de Deus. É este o ambiente da Eucaristia, é esta a oração. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 127

Refrão: Ditoso o que segue o caminho do Senhor.

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém,
todos os dias da tua vida.

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA ANA SALA

Maria Ana Sala nasceu no dia 21 de Abril de 1829, em Brívio, nas margens do Rio Adda, na província de Lecco, Itália. Era a quinta de 8 filhos de João Maria Sala e Joana Comi. Maria Ana foi baptizada, na paróquia vizinha, no dia do seu nascimento.
O seu pai, homem de grande fé e trabalhador, comerciante de madeira, possuía no centro da cidade urna casa cómoda, com entrada ampla, um pátio vasto e barulhento. Nesta casa, Maria Ana nasceu e cresceu, como os seus irmãos, no afecto do lar, num clima de paz e de serenidade.
Durante a sua infância, pura e simples, alimentou a sua profunda piedade com o assíduo estudo das verdades da fé, sempre presentes na sua lúcida inteligência. Maria Ana tinha um especial afecto e dedicação a um pequeno santuário - o Oratório de São Leonardo – que ficava um pouco fora da cidade, onde se venerava urna imagem de Nossa Senhora. Diante desta imagem, Maria Ana e uma das suas irmãs rezavam muitas vezes, prostrando-se em ardente oração, suplicando à Virgem o seu auxílio e a sua graça para a sua mãe que estava doente. Numa altura em que as crianças rezavam - como mostra um quadro votivo da família Sala - a enferma sentiu-se curada, com a íntima certeza de ter visto, junto a si, a Virgem Maria, abençoando-a.
Em Brívio, falava-se muito da recente fundação de um Instituto religioso feminino - o das Marcelinas - aberto em Cernusco sul Naviglio, em Milão, em 1838, pelo director espiritual do Seminário, o Beato Luís Biraghi. O objectivo deste Instituto era educar as jovens à luz da fé cristã, segundo programas sólidos de ensino, sem deixar de lado as actividades domésticas.
As Marcelinas (chamavam-se assim, em honra de Santa Marcelina, irmã e educadora dos Santos Ambrósio e Sátiro, que viveu no século IV. Foi escolhida como protectora e modelo por ter educado na fé cristã os irmãos menores, e por ter vivido o ideal da consagração virginal a Cristo, com outras jovens reunidas por ela, na sua própria casa, estudando juntas a Sagrada Escritura, rezando e praticando obras de caridade) abriram, em 1841, um segundo Colégio, em Vimercate, na baixa Brianza. Neste Colégio, João Maria Sala quis que as suas filhas, Maria Ana, Genoveva e Lúcia, completassem os seus estudos. Maria Ana distinguiu-se como aluna exemplar e, em 1846, obteve, com óptimos resultados, o diploma de professora primária.
No activo recolhimento do Colégio, encontrou um tesouro superior àquele que os títulos de estudo lhe asseguravam: acolher no coração o chamamento de Cristo para a vida consagrada, apostólica e evangelizadora, como as suas educadoras, das quais admirara o zelo e a piedade, sob a orientação da Madre Videmari, fervorosa colaboradora do Fundador.
Ao chamamento de Cristo, Maria Ana respondeu com o seu «SIM» de total dedicação. Porém, teve de esperar dois anos, antes de realizar o seu desejo. No dia 13 de Fevereiro de 1848, Maria Ana voltou ao Colégio de Vimercate como aspirante à vida religiosa. Após o noviciado, pronunciou os votos por ocasião da aprovação canónica da Congregação: 13 de Setembro de 1852.
Começou, então, a sua vida de Irmã educadora. O campo do seu fecundo apostolado foram os Colégios de Cernusco, em Milão; Via Amedei, em Génova e, durante as férias de Outono, Chambéry, na Savoia. Por fim, em Milão, na então Casa-Geral, na Via Quadronno.
A perfeita obediência da Irmã Maria Ana Sala não se manifestou só no acolhimento dócil dessas transferências, mas também na total obediência às Superioras e às outras irmãs. “Parecia haver feito voto de obediência a todas as Irmãs”, disse uma testemunha. Estava sempre disponível para as alunas e para os que dela se aproximavam. Tinha sempre consigo o Senhor: vivia sempre da presença de Deus, como do ar que se respira.
A Irmã Maria Ana dedicava-se, incansavelmente, às suas alunas para que se tornassem não só cultas, mas - como a mulher forte elogiada na Sagrada Escritura - também fortes na fé e em todas as virtudes cristãs. Encorajava-as nas dificuldades da vida. Na educação das alunas, tinha como único objectivo formar verdadeiras cristãs que pudessem formar cristãmente as próprias famílias, difundindo o Reino de Deus.
No seu caminho para a santidade, a Irmã Maria Ana passou por grandes sofrimentos espirituais provocados não só pelas misérias humanas - diárias e inevitáveis - da comunidade, mas também pelas repreensões frequentes da Madre Marina Videmari que, de carácter forte e impulsivo, estava convencida, em boa-fé, de que os santos devem ser provados.
Não lhe faltou, também, o sofrimento físico. Oito anos antes da morte, quando estava na casa de Via Quadronno, em Milão, manifestou-se nela o mal que a levaria à morte: um tumor na garganta, externamente visível. Uma echarpe preta, usada com desenvoltura, disfarçava as aparências, enquanto o sorriso imperturbável do seu rosto - após crises agudas de dor que a constrangiam a interromper as aulas - fazia esquecer, a quem dela se avizinhasse, o quanto havia sofrido. Aliás, numa maravilhosa superação de si mesma, habituara-se a chamar, em jeito de brincadeira, à horrível deformação do pescoço o ‘seu colar de pérolas’. Nunca revelou angústia perante o seu sofrimento e pelo mal de que padecia, nem mesmo nos últimos meses de vida.
A Irmã Maria Ana vivia o que afirmara, anos antes, com a lógica dos apaixonados pela Cruz: “Sirvamos o Senhor com coragem, minha boa Genoveva, mesmo quando nos pede algum sacrifício, se assim se podem chamar as pequenas dificuldades que encontramos no caminho da virtude. Realmente, o que é o que sofremos nós em confronto com o que, por nosso amor, sofreu o nosso amado Esposo? Aliás, não deveríamos antes alegrar-nos e agradecer-lhe, quando nos envia alguma ocasião de provar-lhe o nosso amor e a nossa fidelidade? Entreguemo-nos ao Senhor em tudo e por tudo, e Ele nos ajudará a tornarmo-nos santos”. (carta dirigida à Ir. Genoveva, 16-10-1874).
No outono de 1891, Irmã Maria Ana retomou as suas numerosas e absorventes actividades e, ao mesmo tempo, recomeçou o ensino nas classes das maiores. Mas, após os primeiros dias de aulas, foi obrigada a interromper o trabalho, recolhendo-se na enfermaria do colégio. A doença venceu a sua resistência física e moral. Aí, passou os últimos quinze dias da sua vida num sofrimento atroz.
No dia 24 de Novembro, enquanto as Irmãs rezavam, na Capela, a Ladainha de Nossa Senhora, ela sentiu o esplendor da invocação «Regina Virginum» e, no leito de morte, uma beleza nova resplandecia na sua fisionomia, tendo desaparecido, por completo, qualquer sinal do tumor que, durante tanto tempo, a tinha afligido.
Em 1920, por casualidade, encontraram os seus restos mortais intactos. Isso fez com que se voltasse a falar na já esquecida Irmã Maria Ana Sala. As suas ex-alunas uniram-se às Irmãs Marcelinas para pedirem a introdução da causa da sua beatificação e muitas testemunharam no processo informativo a heroicidade das suas virtudes.
A Irmã Maria Ana Sala foi beatificada no dia 26 de Outubro de 1980, em Roma, na Praça de São Pedro, no Vaticano, pelo Papa João Paulo II. Na Homilia da celebração, o Papa disse: “…A Irmã Maria Ana Sala ensina-nos a heróica fidelidade ao particular carisma da vocação. Tendo entrado para as Irmãs Marcelinas aos 21 anos, compreendeu que o seu ideal e a sua missão deviam ser unicamente o ensino, a educação, a formação das meninas na escola e na família. A Irmã Maria Ana foi, simples e totalmente, fiel ao carisma fundamental da sua Congregação. Três grandes lições brotam da sua vida e do seu exemplo: a necessidade da formação e da posse de um bom carácter firme, sensível e equilibrado; o valor santificante do empenho no dever, assinalado pela obediência; e a importância essencial da obra pedagógica.
A Irmã Maria Ana quis adquirir aptidões do mais alto grau, convencida que tanto se pode dar quanto se possui; e apaixonou-se pelo seu cargo de professora, santificando-se no cumprimento do seu trabalho quotidiano. Pôs em prática a mensagem de Jesus: "Quem é fiel no pouco também é fiel no muito" (Lc 16, 10). Aprendam da nova Beata, sobretudo as Religiosas, a estarem alegres e serem generosas no seu trabalho, embora oculto, monótono e humilde. Aprendam, todos aqueles que se dedicam à obra educativa, a não se amedrontarem nunca com as dificuldades dos tempos, mas a empenharem-se com amor, paciência e preparação, na sua tão importante missão, formando as almas e elevando-as aos supremos valores transcendentes. Particularmente hoje, a Escola precisa de educadores prudentes, sérios, preparados, sensíveis e responsáveis…”

A memória litúrgica da Beata Maria Ana Sala celebra-se no dia 24 de Novembro, dia da sua morte.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

EM DESTAQUE


*SEMANA NACIONAL DOS SEMINÁRIOS

De 12 a 19 de Novembro, a Igreja em Portugal celebra a Semana dos Seminários, sob o lema: “Fazei o que Ele vos disser”. Apresentamos a mensagem do Sr. D. António Augusto Azevedo, Bispo-Auxiliar do Porto e Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios:

“A Semana dos Seminários é ocasião privilegiada para que os cristãos tomem consciência da importância do Seminário como lugar indispensável para a formação dos futuros pastores da Igreja. Consciência que resulta da reflexão sobre as implicações da formação inicial, feita nos seminários, na missão da Igreja e no futuro da fé; consciência que se desdobra em oração ao Senhor da vinha para que chame trabalhadores para a sua vinha; consciência que se abre ainda à partilha e ajuda material aos seminários.
O lema desta semana é a frase pronunciada por Maria no episódio das Bodas de Caná: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo.2,5). Após a interpelação dirigida a Jesus - «Não têm vinho!», Maria volta-se para os serventes para que estes, seguindo a palavra de Jesus, tudo façam para que a sua Hora chegue. O apelo da Mãe do céu dirige-se agora a todos e a cada um: aos baptizados, chamados a servir o Senhor; a todos os que estão em formação nos seminários; àqueles que o servem nos vários ministérios e formas de vida consagrada.
O exemplo de Maria mostra que o fundamental é estar com Jesus, caminhar com Ele, sabendo estar no meio do mundo com atenção às circunstâncias em se pode revelar a novidade de Deus. Como em Caná, tantas situações de carência, dor ou fracasso podem ser ocasião de manifestação da misericórdia divina. Para isso é necessário escutar o que o Senhor diz e acolher a sua palavra no coração. Uma escuta que exige a atenção e o discernimento capazes de interpretar a vontade do Senhor, distinta dos apelos do mundo ou do eco das ambições e motivações individuais. Ele chama alguns à vocação sacerdotal que tem na sua origem «um dom da graça divina que se concretiza na ordenação sacramental. Esse dom exprime-se no tempo pela mediação da Igreja que chama e envia em nome de Deus» (Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis, 34).
O apelo de Maria em Caná sublinha o carácter imperativo do Fazer, isto é, a necessidade de levar à prática a palavra escutada. Naquela situação, tratou-se de exercitar um serviço concreto: encher as talhas e levar ao chefe de mesa. Desta forma, o evangelho evidencia o valor do serviço humilde e dedicado na concretização do que Jesus manda. O serviço é o horizonte proposto a todo aquele que quer ser verdadeiro discípulo de Jesus, de modo específico a quem escuta e responde ao apelo: «Vem e segue-me!». O seminário é tempo de formação na escola do serviço, é caminho de configuração a Cristo, Cabeça, Pastor, Servo e Esposo, de forma que, na ordenação presbiteral, o candidato seja capaz de um dom total de si ao serviço de Deus e do seu povo.
O cumprimento da frase de Maria conduz à realização do primeiro grande sinal de Jesus – a transformação da água em vinho – e desta forma Ele «manifestou a sua glória e os discípulos creram nele» (Jo.2, 11). Em Caná, Jesus revela-se como o verdadeiro noivo que está presente à humanidade para renovar com ela a aliança nupcial e ajudá-la a reencontrar o caminho da esperança, da alegria, e da paz. No nosso tempo, os seminários representam um sinal da esperança para a Igreja e para o mundo porque aqueles que neles se formam, em ordem ao ministério sacerdotal, serão expressão da presença de Jesus Cristo, o esposo sempre fiel que também hoje quer encher de misericórdia e alegria a humanidade que não desistiu de amar.
O Seminário é tempo de estar com Jesus e de aprender com Ele a viver no meio das realidades do mundo; é tempo para exercitar a escuta e aprofundar o discernimento acerca da vontade de Deus; é tempo de cultivar um coração dócil, livre e generoso para o serviço de Deus e dos irmãos; é tempo para descobrir o estilo mariano da evangelização que valoriza a proximidade, a ternura e o afecto.
Que Maria nos ajude com a sua intercessão materna para que os seminários sejam comunidades onde se formam verdadeiros discípulos missionários e contribuam «para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos, e torne possível o nascimento de um mundo novo» (Evangelii Gaudium, 288).”


DA PALAVRA DO SENHOR


- XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Não queremos, irmãos, deixar-vos na ignorância
 a respeito dos defuntos,
 para não vos contristardes como os outros,
 que não têm esperança.
 Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou,
 do mesmo modo, Deus levará com Jesus
 os que em Jesus tiverem morrido…” (1 Tes. 4, 13-14)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Oração do Angelus, no dia 8 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Iniciamos, hoje, uma nova série de catequeses, que fixará o nosso olhar no “coração” da Igreja, ou seja, na Eucaristia. Para nós cristãos, é fundamental compreender bem o valor e o significado da Santa Missa, a fim de viver cada vez mais plenamente a nossa relação com Deus.
Não podemos esquecer o grande número de cristãos que, no mundo inteiro, em dois mil anos de história, resistiram, até à morte, para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar na Missa dominical. No ano de 304, durante as perseguições de Diocleciano, um grupo de cristãos, do norte de África, foram surpreendidos a celebrar a Missa, numa casa, e foram aprisionados. O procônsul romano, no interrogatório, perguntou-lhes por que o fizeram, sabendo que era absolutamente proibido. E eles responderam: «Sem o Domingo não podemos viver», que significava: se não podemos celebrar a Eucaristia, não podemos viver, a nossa vida cristã morreria.
Com efeito, Jesus disse aos seus discípulos: «se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6, 53-54).
Aqueles cristãos do norte de África foram assassinados porque celebravam a Eucaristia. Deixaram o testemunho de que se pode renunciar à vida terrena pela Eucaristia, porque ela nos dá a vida eterna, tornando-nos participantes da vitória de Cristo sobre a morte. Um testemunho que nos interpela a todos, e exige uma resposta acerca do que significa, para cada um de nós, participar no Sacrifício da Missa e aproximarmo-nos da Mesa do Senhor. Estamos à procura daquela nascente da qual “jorra água viva” para a vida eterna?... E que torna a nossa vida um sacrifício espiritual de louvor e de agradecimento e faz de nós um só corpo com Cristo? É este o sentido mais profundo da sagrada Eucaristia, que significa “agradecimento”: agradecimento a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos abrange e nos transforma na sua comunhão de amor.
Nas próximas catequeses, gostaria de responder a algumas perguntas importantes sobre a Eucaristia e a Missa, a fim de redescobrir, ou descobrir, como o amor de Deus resplandece através deste mistério da fé.
O Concílio Vaticano II foi fortemente animado pelo desejo de levar os cristãos a compreender a grandeza da fé e a beleza do encontro com Cristo. Por este motivo, era necessário, antes de mais, realizar, com a ajuda do Espírito Santo, uma adequada renovação da Liturgia, porque a Igreja vive continuamente dela e renova-se graças a ela.
Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação. E é precisamente esta também a finalidade deste ciclo de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos concedeu na Eucaristia.
A Eucaristia é um acontecimento maravilhoso, no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente. Participar na Missa «é viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor. É uma teofania: o Senhor torna-se presente no altar para ser oferecido ao Pai, pela salvação do mundo» (Homilia, Santa Marta, 10 de fevereiro de 2014). O Senhor está ali connosco, ali presente. Muitas vezes, nós vamos ali, olhamos para as coisas, falamos entre nós, enquanto o sacerdote celebra a Eucaristia... e não celebramos ao lado d’Ele. Mas é o Senhor! Se hoje viesse aqui o Presidente da República ou qualquer pessoa muito importante do mundo, certamente todos estaríamos perto dela, e gostaríamos de a saudar. Mas repara: quando tu vais à missa, o Senhor está lá! E tu distrais-te. É o Senhor! Devemos pensar nisto. “Padre, mas as missas são tediosas" — “Que dizes, o Senhor é tedioso?" - Não, a Missa não! Os sacerdotes…" - "Ah, que os sacerdotes se convertam… Mas é o Senhor quem está ali!”. Está claro? Não o esqueçais. «Participar na Missa é como viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor».
Procuremos, agora, fazer-nos algumas perguntas simples. Por exemplo: por que fazemos o sinal da cruz e o acto penitencial, no início da Missa? Aqui gostaria de fazer outro parêntesis. Vistes como fazem as crianças o sinal da cruz? Não se sabe o que fazem. Não se sabe se é o sinal da cruz ou um desenho. Fazem uma gatafunhada [o Papa fez um gesto desajeitado]. É preciso ensinar bem as crianças a fazer o sinal da cruz. Assim começa a Missa, assim começa a vida, assim começa o dia. Isto significa que somos remidos com a cruz do Senhor. Olhai para as crianças e ensinai-lhes a fazer bem o sinal da cruz. E aquelas Leituras, na Missa, porque se fazem? Por que se lêem, ao Domingo, três Leituras e nos outros dias duas? Por que estão ali, o que significa a Leitura da Missa? Por que se lêem e o que têm a ver? Ou então, por que a um certo ponto o sacerdote que preside à celebração diz: “Corações ao alto?”. Não diz: “Telefones ao alto para fazer fotografias!”. Não, não é agradável! E digo-vos que me causa muita tristeza quando celebro, aqui na Praça ou na Basílica, e vejo tantos telefones elevados, não só dos fiéis, mas até de alguns sacerdotes e bispos. Por favor! A Missa não é um espectáculo: significa ir encontrar a paixão e a ressurreição do Senhor. Por isso, o sacerdote diz: “Corações ao alto”. Que significa isto? Recordai-vos: não levanteis os telefones.
É muito importante voltar aos fundamentos, redescobrir aquilo que é essencial, através do que se toca e se vê na celebração dos Sacramentos. O pedido do Apóstolo São Tomé (cf. Jo 20, 25), para poder ver e tocar as chagas dos pregos, no corpo de Jesus, é o desejo de poder, de alguma forma, “tocar” Deus para acreditar n’Ele. O que São Tomé pede ao Senhor é aquilo de que todos nós precisamos: vê-lo e tocar n’Ele para O poder reconhecer. Os Sacramentos vêm ao encontro desta exigência humana. Os Sacramentos, e a celebração eucarística de maneira especial, são os sinais do amor de Deus, os caminhos privilegiados para nos encontrarmos com Ele.
Assim, através destas catequeses que hoje começam, gostaria de redescobrir, juntamente convosco, a beleza que se esconde na celebração eucarística, e que, quando é revelada, dá pleno sentido à vida de cada um. Nossa Senhora nos acompanhe neste novo percurso. Obrigado! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 62

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Quando no leito Vos recordo,
passo a noite a pensar em Vós.
Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.

SANTOS POPULARES


BEATA MARIA DA PAIXÃO

Hélène Marie Philippine de Chappotin de Neuville nasceu no dia 21 de Maio de 1839, em Nantes, França, numa família católica da pequena aristocracia da Bretanha. Desde criança, manifestou grandes dons naturais e uma fé muito profunda.
Em Abril de 1856, com 17 anos, num retiro espiritual, teve uma primeira experiência de Deus que a chamava para uma vida de consagração total.
Após a morte súbita da sua mãe, que retardou a realização da sua vocação, em 1860, com o consentimento do Bispo de Nantes, aos 21 anos de idade, entrou, como postulante, num convento de Clarissas, daquela cidade. Em 23 de Janeiro de 1861, ainda postulante, Deus convidou-a a oferecer-se como vítima pela Igreja e pelo Papa. Esta experiência mística marcará toda a sua vida.
Nesta altura, por causa de uma doença grave que a afectou, teve de regressar à sua casa paterna. Após a recuperação da saúde, preferiu optar por uma congregação de vida activa, entrando na Sociedade de Maria Reparadora, na qual, a 15 de Agosto de 1864, em Toulouse, começou o seu noviciado adoptando, então, o nome religioso de Maria da Paixão.
Em 1865, ainda noviça, foi enviada como missionária para a Índia, passando a trabalhar no Vicariato Apostólico de Maduré, onde as Irmãs Reparadoras tinham como principal tarefa formar as religiosas de uma congregação autóctone, participando, também, em variadas actividades apostólicas. Este vicariato estava confiado à direcção da Companhia de Jesus.
No dia 3 de Maio de 1866, Maria da Paixão pronunciou os seus votos. E em 1867, com 28 anos de idade, pelos seus dons e virtudes, por todos reconhecidos, foi eleita superiora local. Em Julho do mesmo ano, foi eleita provincial, tendo a seu cuidado três conventos das Irmãs Reparadoras.
Em 1874, com um grupo de irmãs, fundou uma casa em Ootacamund, no Vicariato Apostólico de Coimbatore, assistida pelos padres da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris. Mas, em Maduré, surgiram grandes desentendimentos que, em 1876, fizeram com que vinte religiosas - entre elas a Irmã Maria da Paixão – deixassem a Sociedade de Maria Reparadora. Estas irmãs decidiram formar uma comunidade, em Ootacamund, sob a jurisdição do Vigário Apostólico de Coimbatore, Mons. José Bardou, M.E.P.
Em Novembro de 1876, a Irmã Maria da Paixão deslocou-se a Roma para regularizar a situação das vinte irmãs separadas. O Papa Pio IX regularizou a situação das religiosas, permitindo que a Irmã Maria da Paixão fundasse uma nova congregação, especificamente destinada às missões, com a designação de Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria. Para esta nova congregação - por sugestão da Congregação de Propaganda Fide - foi fundado um noviciado em Saint-Brieuc, na Bretanha, que rapidamente acolheu numerosas vocações.
Em Abril de 1880 e em Junho de 1882, a Irmã Maria da Paixão regressou a Roma para resolver as dificuldades que ameaçavam obstaculizar a estabilidade e o crescimento do jovem Instituto. A última viagem (Junho de 1882) marca uma etapa importante na sua vida: ela foi autorizada a fundar uma casa em Roma e, por circunstâncias providenciais, encontrou a orientação franciscana indicada por Deus, vinte e dois anos antes. Em 4 de Outubro de 1882, na Igreja de Aracoeli, é recebida na Ordem Terceira de São Francisco e entra em contacto com o Servo de Deus Padre Bernardino de Portogruaro, Ministro-Geral da Ordem dos Frades Menores, que a apoia nas suas provações, com paternal solicitude.
Em Março de 1883, no meio de forte controvérsia interna, a Madre Maria da Paixão foi destituída das suas funções de superiora do Instituto, mas, na sequência de um inquérito ordenado pelo Papa Leão XIII, a sua inocência foi plenamente reconhecida e ela foi reeleita, no capítulo de Julho de 1884.
O Instituto inicia o seu rápido desenvolvimento: em 12 de Agosto de 1885, foi emitido o Decreto laudatório e o da filiação na Ordem dos Frades Menores; as Constituições são aprovadas ‘ad experimentum’ em 17 de Julho de 1890 e, definitivamente, em 11 de Maio de 1896.
É chegado o momento do envio de missionárias, inclusive para os pontos mais distantes e perigosos. O zelo missionário da fundadora não conheceu limites para responder aos clamores dos pobres e abandonados.
Também a promoção da mulher e a situação social interessaram-lhe particularmente; com inteligência e discrição, ofereceu aos pioneiros, que trabalharam neste campo, uma colaboração que eles muito apreciaram.
A sua intensa actividade e o seu dinamismo brotavam da contemplação dos grandes mistérios da Fé. Para a Madre Maria da Paixão tudo confluía na Unidade-Trindade de Deus, Verdade-Amor, que se dá a nós através da Eucaristia. Unida a estes mistérios, viveu a sua vocação missionária. Jesus Eucaristia foi para ela “o Grande Missionário” e a Irmã Maria da Paixão, na disponibilidade do seu “Eis a serva…”, traçou o seu caminho da doação, sem reserva, à obra de Deus. Deste modo, abriu os horizontes da missão universal do seu Instituto no espírito evangélico de humildade, pobreza e caridade, testemunhados por São Francisco de Assis.
Dotada de uma extraordinária capacidade de trabalho, encontrou tempo para redigir numerosos escritos para a formação das suas religiosas e para manter uma frequente correspondência com as suas missionárias, espalhadas pelo mundo, exortando-as, com insistência, a uma vida de santidade.
Em 1900, o Instituto recebeu o selo de sangue, com o martírio de sete Franciscanas Missionárias de Maria, na China, que foram beatificadas, em 1946, e canonizadas durante o Grande Jubileu de 2000. Este martírio foi para a Madre Maria da Paixão, juntamente com uma grande dor, uma imensa alegria: a emoção intensa de ser a mãe espiritual destas missionárias que souberam viver o ideal da sua vocação até a efusão do seu sangue.
Esgotada pelas fadigas de viagens incessantes e pelo trabalho quotidiano, a Madre Maria da Paixão, após uma breve enfermidade, faleceu serenamente em San Remo - localidade para onde se tinha retirado, para tentar recuperar da sua doença - em 15 de Novembro de 1904, deixando 2.069 irmãs em 86 comunidades, distribuídas por 24 países. Os seus restos mortais repousam no oratório privado da Casa-Geral do Instituto, em Roma.
A Irmã Maria da Paixão, fundadora das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, foi beatificada, no dia 20 de Outubro de 2002, em cerimónia presidida pelo Papa João Paulo II, na Basílica de São Pedro, em Roma. Na homilia da missa, o Papa disse: “…A Irmã Maria da Paixão deixou-se arrebatar por Deus, capaz de saciar a sede de verdade que a impregnava. Fundando as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, ela apaixonava-se pela vontade de comunicar os jorros de amor que nela gorgolhavam e que queriam espalhar-se pelo mundo inteiro. No centro do compromisso missionário, colocava a oração e a Eucaristia, dado que para ela a adoração e a missão se fundiam numa única iniciativa. Alimentada pela Escritura e pelos Padres da Igreja, mística e activa, apaixonada e intrépida, consagrou-se com uma disponibilidade intuitiva e audaciosa à missão universal da Igreja. Queridas Religiosas, na escola da vossa fundadora e em profunda comunhão com a Igreja, acolhei o convite a viver com renovada fidelidade as intuições do vosso carisma fundador, para que sejam numerosas as pessoas capazes de descobrir Jesus, Aquele que nos faz entrar no mistério de amor existente em Deus…”

A sua festa litúrgica celebra-se a 15 de Novembro.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…nós damos graças a Deus sem cessar,
 porque, depois de terdes ouvido a palavra de Deus
 por nós pregada,
 vós a acolhestes, não como palavra humana,
 mas como ela é realmente, palavra de Deus,
 que permanece activa em vós, os crentes…” (1 Tes. 2, 13)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Oração do Angelus, no dia 1 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Prezados irmãos e irmãs, bom dia e feliz festa!

A solenidade de Todos os Santos é a “nossa” festa: não porque somos bons, mas porque a santidade de Deus tocou a nossa vida. Os santos não são pequenos modelos perfeitos, mas pessoas penetradas por Deus. Podemos compará-los com os vitrais das igrejas, que fazem entrar a luz em várias tonalidades de cor. Os santos são nossos irmãos e irmãs que receberam a luz de Deus no seu coração e a transmitiram ao mundo, cada qual segundo a sua “tonalidade”. Mas todos foram transparentes, lutaram para tirar as manchas e as obscuridades do pecado, de modo a fazer passar a luz gentil de Deus. Eis a finalidade da vida: fazer passar a luz de Deus; e é, também, o objectivo da nossa vida.
Com efeito, no Evangelho de hoje, Jesus dirige-se aos seus, a todos nós, dizendo-nos «Bem-aventurados» (Mt 5, 3). É a palavra com que começa a sua pregação, que é “Evangelho”, “boa nova” porque é o caminho da felicidade. Quem está com Jesus é bem-aventurado, feliz. A felicidade não consiste em possuir; nem em tornar-se ‘alguém’. Não!... A felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor. Queres acreditar nisto? Digo, novamente: A verdadeira felicidade não consiste em possuir o que quer que seja; nem em tornar-se ‘alguém’; a felicidade autêntica consiste em estar com o Senhor e viver por amor. Acreditais nisto? Devemos ir em frente para acreditar nisto. Então, aos ingredientes para uma vida feliz chama-se “bem-aventuranças”… São bem-aventurados os simples; os humildes que deixam espaço a Deus; os que sabem chorar pelo próximo e pelos próprios erros; os que permanecem mansos; os que lutam pela justiça; os que são misericordiosos para com todos; os que preservam a pureza do coração; os que trabalham sempre pela paz e vivem na alegria; os que não odeiam e, até quando sofrem, respondem ao mal com o bem.
Eis as bem-aventuranças. Não exigem gestos sensacionais; não são para super-homens, mas para quem vive as provações e as dificuldades de todos os dias: para nós. Assim são os santos: respiram, como todos, o ar poluído do mal que há no mundo mas, ao longo do caminho, nunca perdem de vista o caminho de Jesus, indicado nas bem-aventuranças, que são como o mapa da vida cristã. Hoje, é a festa daqueles que alcançaram a meta indicada por este mapa: não só os santos do calendário, mas muitos irmãos e irmãs “da porta ao lado”, que talvez tenhamos encontrado e conhecido. Hoje, é uma festa de família, de muitas pessoas simples e escondidas que, na realidade, ajudam Deus a fazer progredir o mundo. E, hoje, há tantas, muitas! Obrigado a estes irmãos e irmãs desconhecidos que ajudam Deus a fazer progredir o mundo; que vivem entre nós… Saudemo-los todos com um caloroso aplauso!
Em primeiro lugar — reza a primeira bem-aventurança — estão os «pobres de espírito» (Mt 5, 3). Que significa? Que não vivem para o sucesso, o poder ou o dinheiro; sabem que quem acumula tesouros para si não enriquece diante de Deus (cf. Lc 12, 21). Pelo contrário: julgam que o Senhor é o tesouro da vida e o amor ao próximo a única fonte verdadeira de lucro. Às vezes, ficamos descontentes por algo que nos falta ou preocupados se não somos considerados como gostaríamos; recordemos que a nossa bem-aventurança não consiste nisto, mas no Senhor e no amor: só com Ele, só amando vivemos felizes.
Por fim, gostaria de citar mais uma bem-aventurança, que não se encontra no Evangelho, mas na conclusão da Bíblia e fala do final da vida: «Felizes os mortos que morrem no Senhor» (Ap 14, 13). Amanhã, seremos chamados a acompanhar, com a oração, os nossos defuntos, para que rejubilem para sempre no Senhor. Recordemos com gratidão os nossos queridos e oremos por eles.
Que a Mãe de Deus, Rainha dos Santos e Porta do Céu, interceda pelo nosso caminho de santidade e pelos nossos queridos que nos precederam e já partiram para a Pátria celeste.  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 130

Refrão: Guardai-me junto de Vós, na vossa paz, Senhor.

Senhor, não se eleva soberbo o meu coração,
nem se levantam altivos os meus olhos.
Não ambiciono riquezas,
nem coisas superiores a mim.

Antes fico sossegado e tranquilo,
como criança ao colo da mãe.
Espera, Israel, no Senhor,
agora e para sempre.

SANTOS POPULARES


SANTA ISABEL DA TRINDADE

Maria Isabel Catez nasceu num acampamento militar - no Campo de Avor - perto de Bourges, França, no dia 18 de Julho de 1880. O seu pai, José Catez, era capitão do exército francês. A sua mãe, Maria Rolland, contava: “Quando tinha apenas 1 ano, já se manifestava sua natureza ardente e colérica”. No entanto, a sua mãe, atenta, soube modelar a fúria de Isabel e fazer sobressair nela a ternura. Ela mesma tomou a iniciativa de escrever no seu diário pessoal, aos 18 anos: “Hoje, tive a alegria de oferecer a Jesus muitos sacrifícios por causa do meu defeito dominante; mas, como eles me custaram! Reconheço minha fraqueza… Parece-me que quando recebo uma observação injusta, sinto esquentar todo o meu sangue nas veias; tanto que o meu ser se revolta… Mas Jesus está no meu coração e, por isso, estou pronta a suportar tudo por amor a Ele”.
Ainda criança, a família mudou-se para a cidade de Dijon. Com apenas 7 anos, ficou órfã de pai.
O dia da sua primeira comunhão, a 19 de Abril de 1891, foi “o grande dia” da vida de Isabel, então com 10 anos. Chorou de alegria. Ao descer a escadaria da Igreja, disse à sua amiguinha Marie-Louise Hallo: “Não tenho fome, Jesus saciou-me”...
Isabel estudou piano, desde os 8 anos de idade, no Conservatório, vindo a tornar-se uma “excelente pianista”, segundo a expressão do seu professor de música.
Ainda não tinha 14 anos e já tinha escolhido Jesus para seu único esposo, pensando seguir a vida religiosa. Confirmou esta sua decisão ao ler a ‘História de uma Alma’, a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus. Deste livro, copiou pelo seu punho o ‘Oferecimento ao Amor Misericordioso’ e, ainda, três poesias de Santa Teresinha.
Aos 18 anos, a sua mãe pretendeu casá-la, mas Isabel respondeu: “O meu coração já não está livre: dei-o ao Rei dos reis. Por isso, já não posso dispor dele”. O desgosto da mãe foi muito grande. Mas, tornou-se mais amargo quando soube que Isabel queria entrar para o Carmelo, onde tantas vezes tinham ido juntas e que ficava apenas a 200 metros da sua casa. Entre lágrimas, a mãe apenas consentiu a entrada da filha no Carmelo quando ela atingiu a maioridade: aos 21 anos de idade.
Isabel entrou no Carmelo de Dijon no dia 2 de Agosto de 1901, tendo recebido o nome de ‘Irmã Isabel da Santíssima Trindade’. Este início foi marcado, na sua vida, por muitas graças sensíveis e tornou-se um período extraordinário de descoberta de um profundo amor pelo silêncio, próprio da espiritualidade carmelitana.
A Irmã Isabel da Trindade tomou o hábito no dia 8 de Dezembro de 1901. Durante o ano de 1902, Isabel foi tocada por um grande sofrimento interior. A escuridão da sua alma - a sua noite - foi, no entanto, iluminada com a claridade da fé e da confiança. Ela mesma o explicou, nesse mesmo ano, à Senhora de Sourdon: “O abandono, eis o que nos entrega a Deus. Sou muito nova, mas parece-me que algumas vezes sofri bastante. Oh! Então quando tudo se obscurecia, quando o presente era tão doloroso e o futuro me aparecia ainda mais sombrio, fechava os olhos e abandonava-me, como uma criança, nos braços desse Pai que está nos céus...”
Irmã Isabel fez a sua profissão perpétua no dia 21 de Janeiro de 1903, tendo recuperado a paz e a serenidade interiores. Na véspera da sua profissão perpétua, passou toda a noite em oração, como era costume no Carmelo. Ela mesma afirmou ter percebido, nesse momento, o sentido da sua vocação: “Na noite que precedeu o grande dia, enquanto eu estava no coro à espera do Esposo, compreendi que o meu céu começaria na terra, o céu na fé, com o sofrimento e a imolação por Aquele que eu amo”.
Isabel descobriu a passagem de São Paulo, sobre o Louvor de Glória, na Carta aos Efésios: “Foi também em Cristo que fomos escolhidos como sua herança, predestinados de acordo com o desígnio daquele que tudo opera, de acordo com a decisão da sua vontade, para que nos entreguemos ao louvor da sua glória, nós, que previamente pusemos a nossa esperança em Cristo” (Ef 1, 11-12). Um dos seus biógrafos escreveu: “A Irmã Isabel da Trindade foi verdadeiramente a alma de uma ideia: ser, para a Santíssima Trindade, um louvor de Glória”.
Numa carta dirigida à sua mãe – que, à maneira francesa, tratava por “tu” – Isabel escreveu: “Ele escolheu a tua filha para associá-la à sua grande obra de Redenção. Ele marcou-a com o selo da sua Cruz e sofre nela, como que numa extensão da sua Paixão... Não ambiciono chegar ao Céu somente pura como um Anjo, mas transformada em Jesus Crucificado”.
Esta crucifixão atingiu-a, sobretudo nos últimos nove meses de vida, por meio de uma doença que a transformou numa hóstia de imolação. No Céu, para onde voou, consumou-se a união desta grande Mestra da vida espiritual.
Nos fins de Março de 1906, a Irmã Isabel foi levada para a enfermaria. As Irmãs rezavam pela sua cura e Isabel juntou o seu pedido às orações da comunidade, mas sentiu que Jesus lhe dizia que os ofícios da terra já não eram para ela.
No dia 1 de Novembro, a Irmã Isabel da Trindade comungou pela última vez e, dois dias antes da sua morte, disse ao seu médico: “É provável que dentro de dois dias eu esteja no seio da Santíssima Trindade. É a Virgem Maria - aquele ser tão luminoso, tão puro, com a pureza do mesmo Deus - que me levará pela mão e me introduzirá no céu tão deslumbrante”. Alguns dias antes da sua morte, Isabel dissera, às suas Irmãs, esta frase tão bela e que ficou célebre: “Tudo passa! No declinar da vida só o amor nos resta...”
A sua última noite foi terrivelmente penosa, pois às suas horríveis dores juntou-se-lhe também a falta de ar; mas, ao amanhecer, Isabel sossegou e, inclinando a cabeça, abriu os olhos e exclamou: “Vou para a Luz, para o Amor, para a Vida”… E adormeceu para sempre. Era a madrugada do dia 9 de Novembro de 1906.
Isabel da Trindade foi beatificada pelo João Paulo II, no dia 25 de Novembro de 1984, festa de Cristo Rei. Foi canonizada, em Roma, pelo Papa Francisco no dia 16 de Outubro de 2016. Na homilia, o Papa disse: “…Ouvimos a promessa de Jesus no Evangelho: Deus fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite (cf. Lc 18, 7). Eis o mistério da oração: grita, não te canses e, se te cansares, pede ajuda para manteres as mãos erguidas. Esta é a oração que Jesus nos revelou e deu no Espírito Santo. Rezar não é refugiar-se num mundo ideal; não é evadir-se numa falsa tranquilidade egoísta. Pelo contrário: rezar é lutar e deixar que o próprio Espírito Santo reze em nós. É o Espírito Santo que nos ensina a rezar, guia na oração e faz rezar como filhos.
Os Santos são homens e mulheres que se entranham profundamente no mistério da oração. Homens e mulheres que lutam mediante a oração, deixando rezar e lutar neles o Espírito Santo; lutam até ao fim, com todas as suas forças; e vencem, mas não sozinhos: o Senhor vence neles e com eles. Também estas sete testemunhas, que hoje foram canonizadas, travaram o bom combate da fé e do amor através da oração. Por isso, permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel. Que Deus nos conceda também a nós, pelo exemplo e intercessão delas, ser homens e mulheres de oração; gritar a Deus dia e noite, sem nos cansarmos; deixar que o Espírito Santo reze em nós, e orar apoiando-nos mutuamente para permanecermos com os braços erguidos, até que vença a Misericórdia Divina…”
A memória litúrgica de Santa Isabel da Trindade celebra-se no dia 9 de Novembro.
Para vivermos, mais intimamente, a nossa comunhão com Deus Trindade através da oração, podemos rezar a oração composta por Santa Isabel da Trindade, carmelita descalça, no dia 21 de Novembro de 1904. É, sem dúvida, uma das mais belas e profundas orações dedicadas à Santíssima Trindade, sendo uma espécie de síntese de sua vida espiritual.

“…Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica, como se a minha alma já estivesse na eternidade; que nada me possa perturbar a paz nem arrancar-me de Vós, ó meu Imutável, mas que cada minuto me transporte mais profundamente ao Vosso Mistério!
Pacificai a minha alma; fazei dela o Vosso Céu, a Vossa morada querida e o lugar do Vosso repouso; que eu não Vos deixe jamais só; mas fique, toda inteira, Convosco; toda atenta na minha fé, em atitude de adoração e entregue inteiramente à Vossa acção criadora.

Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quanto desejaria ser uma esposa para o Vosso coração; quanto desejaria cobrir-Vos de glória; quanto desejaria amar-Vos... Até morrer!... Mas sinto a minha impotência e, por isso, peço-Vos: revesti-me de Vós mesmo; identificai a minha alma com todos os movimentos da Vossa. Submergi-me, penetrai-me, substitui-Vos a mim, a fim de que a minha vida não seja senão uma irradiação da Vossa. Vinde a mim como Adorador, como Reparador, como Salvador.

Ó Verbo Eterno, Palavra do meu Deus: quero passar a minha vida a escutar-Vos; quero ser inteiramente dócil, para aprender tudo de Vós; e depois, através de todas as noites, de todos os vazios, de todas as impotências, quero ter sempre os olhos fitos em Vós e ficar sob a Vossa grande Luz. Ó meu Astro querido, fascinai-me a fim de que eu não possa mais sair dos Vossos raios.
Ó fogo devorador, Espírito de Amor: vinde a mim, para que em mim se opere como que uma encarnação do Verbo; que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove o seu Mistério.

E Vós, ó Pai, inclinai-Vos sobre esta vossa pobre criatura; cobri-a com a Vossa sombra; vede nela somente o Vosso Bem-Amado, no qual pusestes todas as vossas complacências.

Ó meus “Três”, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão Infinita, Imensidade em que me perco: eu me entrego a Vós, como uma presa; sepultai-Vos em mim, para que eu me sepulte em Vós, na esperança de ir contemplar, na Vossa Luz, o abismo de Vossa grandeza. Amém…”