PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

PARA REZAR


SALMO 22

Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES


BEATO AGOSTINHO THEVARPARAMPIL ("KUNJACHAN")

“… Agostinho Thevarparampil ‘Kunjachan’ foi um humilde sacerdote que se dedicou aos irmãos Dalit, marginalizados pela sociedade. Era conhecido somente no lugar onde nascera e nos arredores. Serviu como assistente na paróquia durante 47 anos. Embora o seu nome verdadeiro fosse Agostinho, todos o chamavam ‘Kunjachan’ - que na língua Malayalam da India significa ‘padre pequeno’ - porque era de baixa estatura.
Nasceu a 1 de Abril de 1891, em Ramapuram, na diocese de Palai, Kerala – Índia, na família Thevarparampil. Era o mais jovem de cinco filhos. Depois da escola primária, completou a formação sacerdotal no Seminário Menor de Changacherry e no de Puthenpally. No dia 17 de Dezembro de 1921, foi ordenado Sacerdote pelo Bispo Mar Thomas Kurianacherry. Começou o seu ministério sacerdotal como assistente paroquial, em Ramapuram e, em Fevereiro de 1923, ‘Kunjachan’ foi enviado como vice-pároco para a paróquia de São Sebastião, em Kadanad, onde permaneceu durante três anos. Em Março de 1926, por motivos de saúde, regressou à sua paróquia natal. Naquele período, involuntariamente, descobriu um novo âmbito de actividade. Durante o retiro anual na paróquia de Ramapuram, os pregadores reuniram cerca de 200 Dalit – os “intocáveis” ou “inaproximáveis”: os últimos no sistema das castas da Índia, que viviam nos terrenos dos membros das classes superiores, a quem serviam como assalariados rurais e mão-de-obra - na Igreja e transmitiram-lhes as verdades da fé. Tendo recebido o ensino religioso, demonstraram-se prontos a receber o Baptismo. ‘Kunjachan’ decidiu dedicar-se ao serviço daquelas pessoas. Tal decisão tornou-o guia e emancipador de muitos pobres daquela aldeia.
Prosseguiu o seu apostolado junto dos Dalit até à morte. Como afirmava São Arnold Janssen, fundador da Sociedade do Verbo Divino, o primeiro e prioritário acto de amor ao próximo consiste em transmitir-lhe a Boa Nova de Jesus Cristo. ‘Kunjachan realizou-se servindo com paciência e compaixão os outros, em particular os marginalizados, descobrindo neles o rosto de Jesus.
Durante quase 40 anos, dedicou-se ao progresso dos irmãos Dalit. Naquele tempo, as condições sociais dos Dalit eram dramáticas por causa da crescente intocabilidade e discriminação em relação a eles, baseadas na casta e na cor da pele. Eram todos analfabetos. Por conseguinte, eram supersticiosos e obrigados pela sociedade a realizar trabalhos manuais como escravos. Todos esses factores tornaram o ministério de ‘Kunjachan’ muito difícil.
O Padre Agostinho era muito humilde e simples; era um homem de serviço e de caridade, sobretudo para com os mais pobres e fracos da sociedade. Começava o seu dia às 4 da manhã; depois da missa, acompanhado do seu único ajudante - um catequista -, ia visitar as pobres cabanas dos ‘intocáveis’, imitando o Divino Pastor; ia à procura das suas ovelhas, não só no território da sua paróquia, mas onde quer que tivessem necessidade dele. Escutava-os, confortava-os, procurava eliminar as discórdias entre eles e tratava dos seus doentes. Nunca foi uma pessoa mediática, extraordinária, dotada de talentos ou capacidades excepcionais. Era um simples sacerdote de aldeia.
Não recebeu, nunca, nenhuma honra, nem reconhecimentos especiais pelo seu incansável serviço, dirigido à emancipação dos pobres. Contudo, conseguiu aproximar de Deus muitas pessoas. Não obstante isso, teve de enfrentar a oposição e as duras críticas não só das castas superiores de não-cristãos, mas também dos cristãos tradicionalistas. Estes obstáculos nunca foram capazes de diminuir o zelo de ‘Kunjachan’ que trouxe para a Igreja mais de 5.000 pessoas.
Criou um vínculo muito sólido com as pessoas que serviu. Chamava-lhes "meus filhos" e eles chamavam-lhe "nosso sacerdote". Estava tão próximo deles que conseguia chamá-los pelo nome, desde as crianças até aos idosos. Escreveu um diário espiritual em três volumes que continham informações pormenorizadas sobre eles, relativas ao relacionamento entre os membros de cada família, aos nascimentos, aos matrimónios, aos falecimentos, às confissões anuais, etc. Foi incansável no trazer para a fé aqueles que se distanciavam e quantos não respeitavam a fidelidade conjugal.
Era um homem de oração e rezava continuamente, até durante as suas deslocações. O seu objectivo não era somente a elevação espiritual dos Dalit, mas também a sua emancipação social, cultural, intelectual e artística. Resistiu à oposição, com calma e humildade. Não se desencorajou quando o governo negou privilégios aos Dalit convertidos ao cristianismo. A graça constante de Deus deu-lhe força e coragem. A oração ao Santíssimo Sacramento foi a fonte da sua força. Era também devoto da Bem-Aventurada Virgem Maria. Obedecia ao pároco e ao seu Bispo com grande humildade. (...) Com razão, pode ser considerado um dos maiores missionários dos marginalizados e é justamente chamado “Apóstolo dos Intocáveis”.
‘Kunjachan’ teve uma vida longa. Celebrou as suas Bodas de Ouro Sacerdotais, em 1971. Depois de grave doença, morreu com fama de santidade, no dia 16 de Outubro de 1973, com a idade de oitenta e dois anos. Queria ser sepultado entre os seus “filhos” bem-amados mas, conscientes da sua santidade, os paroquianos sepultaram-no na Igreja Paroquial, em frente ao altar dedicado a Santo Agostinho, padroeiro da paróquia.
O Padre Agostinho Thevarparampil ‘Kunjachan’ foi beatificado pelo Papa Bento XVI, no dia 30 de Abril de 2006, em cerimónia presidida pelo Cardeal Varkey Vithayathil, realizada na mesma aldeia de Ramapuram onde ele nasceu, trabalhou, morreu e foi enterrado.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 16 de Outubro.  


[cf. texto da homilia do Card. Varkey Vithayathil, durante a cerimónia de beatificação, celebrada em 30 de Abril de 2006, em Ramapuram (Índia)]

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…tudo o que é verdadeiro e nobre,
 tudo o que é justo e puro,
 tudo o que é amável e de boa reputação,
 tudo o que é virtude e digno de louvor
 é o que deveis ter no pensamento…” (Filipenses 4, 8)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 27 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Desejo falar, nesta catequese, sobre o tema “Missionários de esperança, hoje”. Sinto-me feliz por o fazer no início do mês de Outubro que, na Igreja, é dedicado, de modo especial, à missão, e, também, na festa de São Francisco de Assis, que foi um grande missionário de esperança!
Com efeito, o cristão não é um profeta de desventura. Nós não somos profetas de desventura. A essência do seu anúncio é o oposto, o contrário da desventura: é Jesus, morto por amor e que Deus ressuscitou, na manhã de Páscoa. É este o núcleo da fé cristã. Se os Evangelhos se tivessem interrompido com a sepultura de Jesus, a história deste profeta iria juntar-se às tantas biografias de personagens heroicos que deram a vida por um ideal. Neste caso, o Evangelho seria um livro edificante, até consolador, e não um anúncio de esperança.
Mas, os Evangelhos não se encerram com a Sexta-Feira Santa: vão além; e é precisamente este ulterior fragmento que transforma as nossas vidas. Os discípulos de Jesus estavam entristecidos, naquele sábado, depois da sua crucificação; aquela pedra colocada na entrada do sepulcro tinha fechado também os três anos entusiasmantes vividos por eles com o Mestre de Nazaré. Parecia que tudo tinha acabado e alguns, desiludidos e amedrontados, já estavam a abandonar Jerusalém.
Mas, Jesus ressuscita! Este facto inesperado inverte e subverte a mente e o coração dos discípulos. Porque Jesus não ressuscita só para si, como se o seu renascimento fosse uma prerrogativa da qual devêssemos ficar ciumentos. Ele eleva-se ao Pai porque deseja que a sua ressurreição seja comunicada a cada ser humano, e que arrebate, para o alto, todas as criaturas. E no dia de Pentecostes, os discípulos são transformados pelo sopro do Espírito Santo. Não receberão apenas uma boa notícia para levar a todos mas, eles mesmos se sentirão diferentes em relação a antes, como renascidos para uma vida nova. A ressurreição de Jesus transforma-nos com a força do Espírito Santo. Jesus está vivo; está vivo entre nós; está vivo e tem aquela força transformadora.
Como é bom pensar que somos anunciadores da ressurreição de Jesus não só com palavras, mas com os factos e com o testemunho da vida! Jesus não quer discípulos capazes unicamente de repetir fórmulas aprendidas de cor. Deseja testemunhas: pessoas que propaguem esperança com o seu modo de acolher, de sorrir, de amar. Principalmente de amar: porque a força da ressurreição torna os cristãos capazes de amar mesmo quando parece que o amor perdeu as suas razões. Há um “a mais” que habita a existência cristã e que não se explica apenas com a força de ânimo ou com mais optimismo: a fé… A nossa esperança não é um mero optimismo; é outra coisa, é mais! É como se os crentes fossem pessoas com um “pedaço de céu” a mais em cima da cabeça. Isto é bonito: nós somos pessoas com um pedaço de céu a mais em cima da cabeça, acompanhados por uma presença que alguns nem conseguem intuir.
Por conseguinte, é dever dos cristãos, neste mundo, abrir espaços de salvação, como células regeneradoras capazes de restituir linfa ao que parecia estar perdido para sempre. Quando o céu está totalmente enevoado, quem sabe falar do sol é uma bênção. O verdadeiro cristão é assim: não é lamentoso nem zangado, mas convicto, pela força da ressurreição, de que mal algum é infinito, noite alguma é sem fim, homem algum está definitivamente errado, ódio algum é invencível pelo amor.
Claro, muitas vezes, os discípulos pagaram muito caro esta esperança que Jesus lhes doou. Pensemos em tantos cristãos que não abandonaram o seu povo, quando chegou o momento da perseguição. Ficaram ali, onde havia a incerteza até do amanhã; onde não se podia fazer nenhum tipo de projecto; permaneceram esperando em Deus. E pensemos nos nossos irmãos, nas nossas irmãs do Médio Oriente que dão testemunho de esperança e oferecem, inclusive, a vida por este testemunho. Estes são verdadeiros cristãos! Estes trazem o céu no coração, olham além, sempre além. Quem teve a graça de abraçar a ressurreição de Jesus ainda pode esperar no inesperado. Os mártires de todos os tempos, com a sua fidelidade a Cristo, contam que a injustiça não tem a última palavra na vida. Em Cristo ressuscitado, podemos continuar a esperar. Os homens e as mulheres que têm um “por que” viver resistem mais nos tempos de desventura do que os outros. Mas quem tem Cristo ao seu lado nada teme, realmente. E, por isso, os cristãos, os verdadeiros cristãos, nunca são homens fáceis e condescendentes. A sua mansidão não deve ser confundida com um sentido de insegurança ou de submissão. São Paulo encoraja Timóteo a sofrer pelo evangelho, e diz assim: «Porque Deus não nos deu um espírito de temor, mas de fortaleza, de amor e de moderação» (2 Tm 1, 7). Se caem, levantam-se sempre.
Eis, queridos irmãos e irmãs, o motivo pelo qual o cristão é um missionário de esperança. Não por seu mérito, mas graças a Jesus, o grão de trigo que, ao cair na terra, morreu e deu muito fruto (cf. Jo 12, 24).  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 79

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.

SANTOS POPULARES


BEATO PEDRO ADRIANO TOULORGE

Pierre-Adrien (Pedro Adriano) nasceu no reinado de Luís XV, no dia 4 de Maio de 1757, em Quièze, uma pequena aldeia da Normandia, França. Foi baptizado no mesmo dia. Os seus pais eram lavradores – profissão que passava de pai para filho - e eram profundamente cristãos.
Pedro Adriano foi o terceiro e último filho do casal Toulorge.
Com 17 anos - quando começou o reinado de Luís XVI – começou a frequentar o Seminário de Coutances, mantido pelos Padres Eudistas. Em Junho de 1781, foi ordenado diácono.
Antigamente, em França, não se podia ordenar um padre sem dar-lhe "um título", ou seja, ligá-lo ao serviço de uma igreja, da qual receberia o digno sustento. Mas, como eram ordenados muitos padres, não havia benefícios ou "títulos" que chegassem para todos. Como a Igreja não podia sustentá-los, surgiu o hábito de criar "títulos clericais" que eram vinculados a uma terra ou bens, fornecidos pela família do futuro padre. Assim, o pai de Pedro Adriano, Juliano Toulorge, garantiu, em cartório, "uma renda de cem libras anuais" para o filho, a partir da sua ordenação ao subdiaconado. E, assim, Pedro Adriano recebeu o seu "título eclesiástico".
Pedro Adriano foi ordenado padre, em Junho de 1782. Em Janeiro de 1783, foi nomeado vigário de Doville, pequena paróquia de 168 lares, colocada sob o patrocínio da Abadia Premonstratense de Blanchelande.
Em 1787, o Padre Pedro aderiu à Ordem Premonstratense, fundada por São Norberto. Em Junho de 1788, emitiu os seus votos, sendo designado para o serviço desta Abadia de Blanchelande que, por falta de vocações, está prestes de ser encerrada.
Na primavera de 1789, têm início, em França, grandes convulsões políticas e sociais que culminam com a tomada da Bastilha, em Julho desse ano. A situação económica da França é desastrosa. Por sugestão "genial" do arcebispo Talleyrand, em Novembro de 1789, são confiscados todos os bens do clero que foram vendidos para cobrir a dívida francesa. Porém, a crise continua a agravar-se e o clero tornou-se parte do funcionalismo público, recebendo em troca um salário do Estado. Em 13 de Fevereiro de 1790, a Assembleia Nacional decretou a supressão, pura e simples, das ordens religiosas.
Em outubro de 1790, os religiosos da Abadia de Blanchelande foram obrigados a abandonar as instalações e os padres foram cada um para o seu lado.
O Padre Pedro Adriano foi residir na exploração agrícola de um casal amigo, que o acolheu de boa vontade, e aí permaneceu, discretamente, cerca de ano e meio lá um ano e meio, sem poder desenvolver abertamente o seu ministério sacerdotal.
No verão de 1790, tinha sido votada a "Constituição civil do clero" que previa - sem que o Papa tivesse uma palavra a dizer - a eleição dos bispos pelo povo e, também, a eleição das paróquias importantes, exigindo do clero pago pelo Estado um juramento de fidelidade. Alguns bispos e muitos padres recusaram tal determinação, dando origem a uma grande divisão na Igreja de França: os padres juramentados e os refractários.
A situação dos padres não juramentados (refractários) tornou-se cada vez mais difícil. Uma lei de Agosto de 1792, condenava à deportação todos os eclesiásticos que não tivessem prestado juramento. Sentindo-se em perigo, o Padre Pedro decidiu deixar a França e emigrar para as Ilhas Jersey, de domínio inglês, à espera de dias melhores.
Alguns dias antes de embarcar, nos inícios de Setembro, um pavoroso massacre de padres teve lugar em Paris, na prisão dos Carmelitas: 116 padres foram assassinados numa só noite.
Apenas chegado a Jersey, o Padre Pedro Adriano, falando com outros padres, compreendeu que poderia ter permanecido em França, sem estar preocupado, uma vez que as leis aprovadas não incluíam o clero religioso. Então, regressou a França. Mas, alguns dias após o seu regresso, uma nova lei decretou o desterro perpétuo dos emigrados e os emigrados, que, entretanto, tinham retornado a França, tinham de sair num prazo de quinze dias. O Padre Pedro Toulorge ficou perturbado, mas decidiu permanecer no seu país, e viver o seu sacerdócio na clandestinidade.
Durante nove meses, andou de casa em casa, viajando de noite e alterando, frequentemente, os seus disfarces. Os comités republicanos tiveram conhecimento da actividade clandestina destes padres fugidios que celebravam missas, faziam baptizados e casamentos, escondidos nas casas ou nas clareiras das florestas. Então, o Comité de Salvação Pública, em Paris, ordenou aos cidadãos que denunciassem estes padres antipatriotas.
O Padre Toulorge e os seus confrades fugitivos não ousam mais pedir hospitalidade, por medo de serem traídos. Na noite de 2 de Setembro de 1793, cansado, tolhido de frio, deitado num fosso, o Padre Pedro vê passar uma mulher. Para-a, pede-lhe auxílio e revela-lhe a sua condição sacerdotal. Esta confessa que também é religiosa: a"Irmã Santa Paula", antiga beneditina, expulsa do Priorado de Varenguebec, e agora refugiada em casa da sua família. Mas ela não pode esconder o Padre Pedro: é demasiado perigoso para os seus. Para enganar os inimigos, ela fornece-lhe roupas civis comuns. Mas, a aparência do Padre Adriano pareceu suspeita a dois trabalhadores que se cruzaram com ele. Estes alertaram a guarda nacional. E o Padre foi preso.
O Padre Pedro foi sujeito a um apertado interrogatório, mas omitiu, caritativa e prudentemente, o nome das pessoas que o acolheram. Declarou que, efectivamente não prestou o juramento mas, também, afirmou que não de o fazer, de acordo com a lei. Contou tudo, omitindo, porém, o facto de ter estado em Jersey. Viu-se forçado a improvisar: informou-se e viu que a lei não o obrigava a sair da França e, por conseguinte, não saiu... Neste pormenor, o Padre Pedro Adriano teve de mentir.
O presidente do tribunal quereria, sobretudo, provar - porque lhe parecia ter sido o mais provável - que o Padre Pedro Adriano tinha exercido, clandestinamente, o ministério sacerdotal e que, assim, o réu quis favorecer "os progressos do fanatismo religioso".
Durante o seu interrogatório, o Padre Toulorge entrelaçou habilmente a verdade e a falsidade, mas sofre por ter mentido, porque tinha medo. Muitas interrogações foram surgindo no seu coração: um padre de Jesus Cristo pode salvar a sua vida com mentiras? É necessário mentir para salvar a vida, ou deve-se morrer pela verdade? Se perseverar nas suas mentiras de homem medroso, e se sair em liberdade, nunca mais poderá ler honestamente, no Evangelho de São João, as palavras de Jesus: A verdade tornar-vos-á livres.
Então, no dia da Festa da Natividade da Virgem, a graça divina agiu no seu coração e fê-lo passar, num instante, do medo à coragem: a coragem do mártir que põe a sua vida em jogo por força destas leis perversas, dirigidas contra a Igreja católica e os seus padres. Do fundo da sua prisão, comunicou ao procurador que tinha uma declaração a acrescentar. E, com simplicidade e frontalidade, na frente do magistrado, o Padre Pedro Adriano contou a sua história, a sua verdadeira história.
Foi levado para Coutances, no dia 8 de Setembro, durante a noite. Nesse dia, a cidade estava a comemorar a chegada de Paris do deputado montanhês Le Carpentier, filho nativo da região: um fracassado a quem a Revolução forneceu a ocasião de uma vingança cruel sobre a aristocracia e a religião. Carpentier, a quem o ódio servia de eloquência, tornou-se conhecido pela sua virulência no processo contra o rei Luís XVI. Em Coutances, desde a noite da sua chegada, procedeu a numerosas execuções, entre as quais a de uma mãe de 13 filhos, que lhe valeu, para sempre, o apelido de ‘carrasco’.
Em Coutances, depois de novo julgamento sumário, o Padre Pedro Adriano foi condenado à morte. No meio de um silêncio impressionante, ouviu-se a voz serena do Padre Pedro pronunciar, distintamente, as palavras: “…Deo Gratias! Que a vontade de Deus seja feita e não a minha! Adeus, senhores, até a eternidade, se forem dignos dela”.
Uma testemunha notou que o seu rosto transparecia, realmente, de alegria.
No dia 13 de Outubro, um destacamento de regimento da cidade levou-o até o local do suplício. A guilhotina tinha sido erguida na praça onde, normalmente, se realizava a feira dos animais. Diante de uma multidão muda de emoção, o jovem padre foi conduzido até ao cadafalso. Disse apenas algumas, repetindo as palavras de Cristo, na Cruz: “Pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito”. Depois acrescentou: “ Peço-vos pelo restabelecimento e conservação da vossa Santa Igreja. Perdoai, peço-vos, aos meus inimigos”.
Às quatro e meia da tarde, o carrasco mostrou à multidão a cabeça ensanguentada do Padre Pedro Adriano Toulorge. Tinha 36 anos. Depois, numa carroça, levaram o corpo do jovem mártir para o cemitério Saint-Pierre, onde ficou sepultado. (cf. gaudiumpress.org)
O Padre Pedro Adriano, martirizado em 1793 pela Revolução Francesa, foi beatificado no dia 29 de Abril de 2012. A celebração da beatificação realizou-se na Catedral de Coutances e foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, em representação do Papa Bento XVI.
A memória litúrgica do beato Pedro Adriano celebra-se no dia 13 de Outubro.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EM DESTAQUE


- CATEQUESE NA IGREJA MATRIZ


A catequese paroquial, na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, terá o seu início, no dia 14 de Outubro, às 17 horas. As crianças, os adolescentes e os jovens que frequentam a catequese devem encontrar-se com os seus catequistas, nos lugares habituais. As crianças, ainda não inscritas na catequese, podem ser matriculadas neste dia. Os seus pais ou educadores devem trazer documento de identidade da criança e devem saber o dia e o lugar do seu baptismo. No fim, toda a catequese deve participar na Eucaristia, na qual os catequistas irão renovar o seu compromisso e testemunhar a alegria de serem chamados por Jesus para esta missão tão sublime e importante.

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Tende entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade,
 numa só alma e num só coração.
 Não façais nada por rivalidade nem por vanglória;
 mas, com humildade,
 considerai os outros superiores a vós mesmos,
 sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
 mas aos interesses dos outros.
 Tende em vós os mesmos sentimentos
 que havia em Cristo Jesus…” (Filipenses 2,  2-5)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 27 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Nestes últimos tempos, temos falado de esperança. Mas, hoje, gostaria de reflectir convosco acerca dos inimigos da esperança. Sim!... A esperança tem os seus inimigos: como cada bem neste mundo, ela tem os seus inimigos.
Veio-me à mente o antigo mito da caixa de Pandora: a abertura da caixa desencadeia muitas desgraças para a história do mundo. No entanto, poucos se recordam da última parte da história que abre uma espiral de luz: depois de todos os males saírem da caixa, um minúsculo dom parece ter a desforra diante de todo o mal que se propaga. Pandora, a mulher que conservava o jarro, vê-o no fim: os gregos chamam-lhe ‘elpís’, que significa esperança.
Este mito narra-nos por que razão a esperança é tão importante para a humanidade. Não é verdade que “enquanto há vida, há esperança”, como se costuma dizer. Mas, ao contrário: ‘enquanto há esperança, há vida’. É a esperança que mantém a vida de pé, que a protege, que a conserva, que a faz crescer. Se os homens não tivessem cultivado a esperança; se não tivessem sido animados por esta virtude, nunca teriam saído das cavernas, nem teriam deixado vestígios na história do mundo. É o que de mais divino pode existir no coração do homem.
Um poeta francês — Charles Péguy — deixou-nos páginas maravilhosas sobre a esperança (cf. O pórtico do mistério da segunda virtude). Ele diz, poeticamente, que Deus não se admira tanto com a fé dos seres humanos, e nem sequer com a sua caridade; mas o que realmente o enche de admiração e emoção é a esperança das pessoas: «Que aqueles pobres filhos — escreve — vejam como vão as coisas e que acreditem que será melhor amanhã de manhã». A imagem do poeta evoca o rosto de muitas pessoas que passaram por este mundo — camponeses, pobres operários, migrantes em busca de um futuro melhor — que lutaram tenazmente, não obstante a amargura de um presente difícil, cheio de numerosas provações, mas animada pela confiança de que os filhos teriam uma vida mais justa e mais tranquila. Pelejavam pelos filhos, lutavam na esperança.
A esperança é o impulso no coração de quem parte, deixando a casa, a terra, às vezes familiares e parentes — penso nos migrantes — em busca de uma vida melhor, mais digna para si e para os próprios entes queridos. E é também o ímpeto no coração de quem acolhe: o desejo de se encontrar, de se conhecer, de dialogar... A esperança é o impulso a “compartilhar a viagem”, porque a viagem se faz em dois: aqueles que vêm à nossa terra, e nós que vamos rumo ao seu coração, para os entender, para compreender a sua cultura, a sua língua. É uma viagem em dois… Mas, sem esperança, aquela viagem não se pode realizar. A esperança é o ímpeto a compartilhar a viagem da vida, como nos recorda a Campanha da Cáritas que hoje inauguramos. Irmãos, não tenhamos receio de compartilhar a viagem! Não tenhamos medo! Não temamos compartilhar a esperança!
A esperança não é uma virtude para pessoas de barriga cheia. Eis por que motivo, desde sempre, os pobres são os primeiros portadores de esperança. E, neste sentido, podemos dizer que os pobres, até os mendigos, são os protagonistas da História. Para entrar no mundo, Deus teve necessidade deles: de José e de Maria, dos pastores de Belém. Na noite do primeiro Natal, havia um mundo que dormia, acomodado em tantas certezas adquiridas. Mas, em segredo, os humildes preparavam a revolução da bondade. Eram totalmente pobres, alguns flutuavam pouco acima do limiar da sobrevivência, mas eram ricos do bem mais precioso que existe no mundo, ou seja, a vontade de mudança.
Por vezes, ter tudo na vida é uma desventura. Pensai num jovem a quem não foi ensinado a virtude da espera e da paciência; que não teve de suar por nada; que queimou etapas e, com vinte anos, “já sabe como vai o mundo”. Foi destinado à pior condenação: não desejar mais nada. Eis a pior condenação, fechar a porta aos desejos, aos sonhos. Parece um jovem mas, no seu coração, o outono já chegou. São os jovens de outono.
Ter uma alma vazia é o pior obstáculo para a esperança. Trata-se de um risco do qual ninguém se pode dizer excluído, porque podemos ser tentados contra a esperança até quando se percorre o caminho da vida cristã. Os monges da antiguidade denunciavam um dos piores inimigos do fervor. Diziam assim: aquele “demónio do meio-dia” que vai debilitar uma vida de compromissos, exactamente quando o sol arde lá no alto. Esta tentação surpreende-nos, quando menos esperamos: os dias tornam-se monótonos e tediosos; quase nenhum valor parece digno de esforço. Esta atitude chama-se preguiça: corrói a vida a partir de dentro, até a deixar como um invólucro vazio.
Quando isto acontece, o cristão sabe que aquela condição deve ser combatida, nunca aceite passivamente. Deus criou-nos para a alegria e a felicidade, não para nos remoermos em pensamentos melancólicos. Eis por que razão é importante preservar o próprio coração, opondo-nos às tentações de infelicidade, que certamente não derivam de Deus. E quando as nossas forças parecem frágeis e a batalha contra a angústia particularmente árdua, podemos recorrer sempre ao nome de Jesus. Podemos repetir aquela oração simples, da qual encontramos vestígios inclusive nos Evangelhos, e que se tornou o fulcro de muitas tradições espirituais cristãs: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, pecador!”. Uma linda oração! “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, pecador!”. Trata-se de uma prece de esperança, porque me dirijo Àquele que pode abrir, de par em par, as portas e resolver o problema e levar-me a fitar o horizonte, o horizonte da esperança.
Irmãos e irmãs, não lutamos sozinhos contra o desespero. Se Jesus venceu o mundo, é capaz de derrotar, em nós, tudo aquilo que se opõe ao bem. Se Deus estiver connosco, ninguém nos roubará aquela virtude, da qual temos absolutamente necessidade para viver. Ninguém nos furtará a esperança. Vamos em frente! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 24

Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia e do vosso amor.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador:
em vós espero sempre.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Não recordeis as minhas faltas
e os pecados da minha juventude.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.

SANTOS POPULARES


BEATO ALBERTO MARVELLI

Alberto Marvelli nasceu em Ferrara, Itália, no dia 21 de Março de 1918, segundo filho de uma família profundamente religiosa, mas também empenhada no mundo político, eclesial e caritativo.
Em 1930, a família transferiu-se para Rímini, onde Alberto frequentou o Oratório Salesiano da sua paróquia, incrementando assim a sua formação religiosa, que terá muita influência na sua vida espiritual.
Em 1933, o seu pai faleceu repentinamente e, em Outubro do mesmo ano, Alberto começou a escrever um diário, que é a história da sua vida interior, do seu caminho espiritual, da sua experiência de Deus. A sua pertença à Acção Católica enriqueceu a sua espiritualidade.
Aos quinze anos é delegado para os aspirantes da sua paróquia; em 1935, delegado diocesano; em 1937, inscreveu-se na Federação dos Universitários Católicos Italianos e, em 1946, tornou-se presidente dos Licenciados Católicos. Desempenhou, nestes anos, uma intensa actividade de apostolado.
Em 1936, inscreveu-se na Universidade de Bolonha, na Faculdade de Engenharia Mecânica, formando-se, com óptima classificação, em 1941. O percurso universitário marcou uma nova etapa no seu caminho espiritual, animado pela meditação do mistério eucarístico. Terminado o curso, começou a trabalhar na Fiat, em Turim. Aqui, dedicou-se, também, a diversas iniciativas: fazia conferências, organizava peregrinações, visitava os pobres da Conferência de São Vicente de Paulo.
Nesse ano, a Itália entrou na guerra – a Segunda Grande Guerra - e Alberto partiu como militar, desempenhando, na caserna, um apostolado intenso. Conseguiu mudar muitas coisas: venceu as blasfêmias e a imoralidade; despertou o sentido da fé no coração de muitos; constituiu um grupo de compromisso de vida cristã.
Terminada a sua participação na guerra, Alberto regressou a Rímini. No dia 1 de Novembro de 1943, um terrível bombardeamento destruiu, completamente, a cidade. Alberto tornou-se operário da caridade: socorria os feridos, tirando-os das ruínas; distribuía pelos pobres tudo o que tinha e o que conseguia recolher; salvou muitos jovens da deportação dos alemães.
Depois da libertação de Rímini, em Outubro de 1944, foi constituída a primeira Junta Municipal do Comité de Libertação e Alberto é um dos Assessores. Com apenas 26 anos, tinha dado provas de ser muito realista, corajoso e disponível. Era reconhecida a sua coragem para enfrentar as situações mais difíceis. Por isso, foram-lhe confiadas as tarefas mais delicadas e melindrosas.
Em 1945, inscreveu-se no Partido da Democracia Cristã, concebendo a sua actividade política como a expressão mais nobre da fé por ele vivida, de acordo com as palavras do Papa Pio XII: “o campo político é o campo de uma caridade mais ampla: a caridade política”.
Em 1946, sentiu que o Senhor o chamava para formar uma família e desejava para sua esposa a jovem com quem tinha partilhado uma forte amizade espiritual. Manifestou-lhe esta sua intenção, mas a jovem já tinha feito outra opção.
Na noite do dia 5 de Outubro de 1946, quando ia de bicicleta fazer um comício eleitoral, foi atropelado por um caminhão militar. Alberto faleceu algumas horas mais tarde, sem ter recuperado os sentidos.
No dia 22 de Maio de 1986, foi emanado o decreto que confirmava as suas virtudes heróicas, tendo sido proclamado ‘Venerável’. No dia 7 de Julho de 2003, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu à sua intercessão uma cura milagrosa.
Alberto Marvelli foi beatificado pelo Papa João Paulo II, na Basílica de Loreto, Itália. Na homilia da Missa, o Papa disse: “…Alberto Marvelli, jovem forte e livre, generoso filho da Igreja de Rímini e da Acção Católica, concebeu toda a sua breve vida, que durou apenas 28 anos, como um dom do amor a Jesus pelo bem dos irmãos. “Jesus envolveu-me com a sua graça”, escreveu no seu diário; “Mais não vejo do que Ele, penso unicamente n’Ele”.
Alberto fez da Eucaristia quotidiana o centro da sua vida. Na oração ele procurava inspiração também para o seu compromisso político, convicto da necessidade de viver plenamente como filhos de Deus na história, para fazer dela uma história de salvação.
No difícil período da segunda guerra mundial, que semeava morte e multiplicava violências e sofrimentos atrozes, o beato Alberto alimentava uma intensa vida espiritual, da qual brotava aquele amor a Jesus que o fazia esquecer-se constantemente de si próprio para carregar a cruz dos pobres…”

A memória litúrgica do Beato Alberto Marvelli celebra-se no dia 5 de Outubro.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

“…Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
 invocai-O, enquanto está perto.
 Deixe o ímpio o seu caminho
 e o homem perverso os seus pensamentos.
 Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
 ao nosso Deus, que é generoso em perdoar…” (Isaías 55, 6-7)

PALAVRA DE D. ANTÓNIO TAIPA, ADMINISTRADOR DIOCESANO DO PORTO


- na homilia da Missa de 7º dia de D. António Francisco dos Santos (18.09.2017)

1 – “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação em que se encontre, a renovar, hoje mesmo, o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar no dia-a-dia sem cessar” (EG nº 3)
É assim que o nosso Papa Francisco transforma em convite dirigido a todo o cristão, o desafio da Nova Evangelização de São João Paulo II, e a palavra de Bento XVI, “que não me cansarei de repetir”, diz Sua Santidade: “no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte, e, desta forma, um rumo decisivo” (DCE nº 1).

2 – Estamos diante dum pensamento e objectivo comuns: convidar todos os crentes a regressar à pessoa de Jesus de Nazaré, este Jesus que o evangelho de hoje, capítulo sétimo de S. Lucas, nos apresenta como a presença viva da misericórdia do Pai que ama os inimigos, que ouve e sente a dor dos mais pequeninos – ressuscita o filho da pobre viúva de Naim, e se compadece do pecador arrependido – perdoa à pecadora. Ele é o pólo da unidade da Igreja a que nos chama.
Precisamos de ir ao encontro deste Jesus que a poeira acumulada por 20 séculos de história nos vem ocultando.

3 – Foi o programa que nos deixou o nosso querido Bispo, D. António Francisco, num convite particularmente vivo, profundamente interpelativo e emocionado, também pela circunstância em que foi feito: “Igreja do Porto, vive esta hora que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e, a partir de Cristo, a anunciar com renovado vigor e acrescido encanto a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A Vossa e a minha missão.”

4 – Aqui resume, de maneira particularmente feliz, a orientação traçada pelos nossos últimos Papas, que referimos, e o programa pastoral que pensou, fez discutir e propôs à sua amada Diocese. Levar aos homens a alegria e a beleza do Evangelho. Ajudá-los a encontrar em Jesus a fonte autêntica da verdade e da vida e, por aí, da verdadeira alegria, da alegria de viver. E a encontrarem-se n’Ele com o infinito amor do Pai.
Ajudar o homem a saciar a sua sede de Deus e ajudar Deus a saciar a sua sede do homem. Se podemos falar assim. Deus e Homem, Jesus é, de facto, o espaço humano, humano/divino, de encontro da humanidade com o seu criador e salvador. O abraço da reconciliação universal. A paz.

5 – O amor ao nosso querido Bispo, o nosso obrigado, a nossa admiração e veneração e o nosso choro, a nossa saudade, havemos de significá-los e dar-lhes forma no esforço por levarmos a efeito este programa que nos deixou, aquele emocionado e particularmente vivo convite da última homilia que lhe ouvimos. É a sua grande palavra para nós. Há-de ser.
Deus estará connosco.

6 – Deixou-nos um programa e deixou-nos um testemunho, o testemunho de uma vida em Jesus Cristo. De Pastor. De Pastor Bom. Na sua alegria contagiante. Alegria que transparecia do seu rosto e do seu olhar meigo e profundo. A alegria com que envolvia o seu trabalho. Reflectia. Meditava. Calava-se e ouvia. Sabia ouvir, ver e apreciar o trabalho dos outros.
Viveu situações difíceis e muito duras, mas nunca o seu semblante significou perturbação ou angústia, nunca a sua voz se elevou. Era um homem sereno. Muito bom. De paz. Foi na bondade que fez do seu trabalho um serviço, um enorme serviço.
Como ninguém, soube integrar-se na tradição da diocese que lhe fora confiada. Quantas vezes citara escritos dos seus antecessores, quantas vezes referiu o seu pensamento e se serviu das suas orientações e recuperou pistas e caminhos pastorais. Também aí, procurou e encontrou a firmeza e segurança que lhe permitiu caminhar em frente. Ser novo e ser actual, no serviço. Original.

7 – Partilhava problemas e preocupações. Trazia a vida para a vida. Aquela vida que experimentava naqueles que visitava, que encontrava na rua ou que, de qualquer modo, se cruzavam no seu caminho de pastor, de pastor atento, sensível e transbordante de caridade, de apóstolo.

8 – Era um homem de oração e um homem pobre. Pobreza e oração, o segredo da sua força. Profundamente pobre, e livre. Livre. Livre em relação a tudo e a todos. Livre daquela liberdade dos apaixonados por Jesus. E foi por ser livre que deu e se deu todo, até ao fim.

9 – Temos o seu programa. Temos o seu convite, o seu grande convite, programático, temos a sua “presença” viva na intercessão junto do Pai: “Igreja do Porto vai ao encontro de Cristo e a partir de Cristo, aos homens que O procuram”.

+ António Maria Bessa Taipa


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 20 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese de hoje tem por tema: “educar para a esperança”. Por isso pronunciá-la-ei directamente com o “tu”, imaginando que falo como educador, como pai, a um jovem ou a qualquer pessoa aberta à aprendizagem.
Pensa, ali onde Deus te semeou, espera! Espera sempre.
Não te rendas à noite: recordas que o primeiro inimigo a vencer não está fora de ti: mas dentro de ti. Por conseguinte, não concedas espaço aos pensamentos amargos, obscuros. Este mundo é o primeiro milagre que Deus realizou; Deus pôs nas nossas mãos a graça de novos prodígios. Fé e esperança andam juntas. Crê na existência das verdades mais elevadas e bonitas. Confia no Deus Criador; no Espírito Santo que move tudo para o bem; no abraço de Cristo que espera cada homem no final da sua existência. Crê: Ele espera-te. O mundo caminha graças ao olhar de tantos homens que abriram frestas, que construíram pontes, que sonharam e acreditaram; mesmo quando, ao seu redor, ouviam palavras de escárnio.
Nunca penses que a luta que enfrentas na terra seja totalmente inútil. No final da existência não nos espera um naufrágio: em nós palpita uma semente de absoluto. Deus não desilude: se pôs uma esperança nos nossos corações, não a quer esmagar com frustrações contínuas. Tudo nasce para florescer numa primavera eterna. Também Deus nos criou para florescermos. Recordo aquele diálogo, quando o carvalho pediu à amendoeira: “Fala-me de Deus”. E a amendoeira floresceu.
Onde quer que estejas, constrói! Se estás no chão, levanta-te! Nunca permaneças caído, levanta-te, deixa-te ajudar para ficares de pé. Se estás sentado, começa a caminhar! Se o tédio te paralisa, derrota-o com as obras de bem! Se te sentes vazio ou desmoralizado, pede que o Espírito Santo possa encher de novo a tua carência.
Exerce a paz no meio dos homens e não escutes a voz de quem espalha ódio e divisões. Não escutes essas vozes. Os seres humanos, por mais que sejam diversos uns dos outros, foram criados para viver juntos. Nos contrastes, paciência: um dia descobrirás que cada um é depositário de um fragmento de verdade.
Ama as pessoas. Ama-as uma por uma. Respeita o caminho de todos, por muito linear ou complicado que seja, porque cada um tem uma história para contar. Também cada um de nós tem a sua história para contar. Cada criança que nasce é a promessa de uma vida que, de novo, se demonstra mais forte do que a morte. Cada amor que brota é um poder de transformação que anseia pela felicidade.
Jesus entregou-nos uma luz que brilha nas trevas: defende-a, protege-a. Esta luz única é a maior riqueza confiada à tua vida.
E, sobretudo, sonha! Não tenhas medo de sonhar. Sonha! Sonha um mundo que ainda não se vê mas que certamente chegará. A esperança leva-nos a crer na existência de uma criação que se estende até ao seu cumprimento definitivo, quando Deus será tudo em todos. Os homens capazes de imaginação ofereceram ao homem descobertas científicas e tecnológicas. Sulcaram os oceanos, calcaram terras que ninguém jamais tinha pisado. Os homens que cultivaram esperanças são os mesmos que venceram a escravidão e proporcionaram condições melhores de vida nesta terra. Pensa nestes homens.
Sê responsável por este mundo e pela vida de cada homem. Pensa que cada injustiça contra um pobre é uma ferida aberta e diminui a tua dignidade. A vida não cessa com a tua existência e, neste mundo, virão outras gerações que sucederão à nossa e muitas outras ainda. E todos os dias pede a Deus o dom da coragem. Recorda-te que Jesus venceu o medo por nós. Ele venceu o medo! O nosso inimigo mais pérfido nada pode contra a fé. E quando te encontrares amedrontado, diante de alguma dificuldade da vida, recorda-te que não vives só por ti mesmo. No Baptismo, a tua vida já foi imersa no mistério da Trindade e tu pertences a Jesus. E, se um dia te assustares, ou pensares que o mal é demasiado grande para ser derrotado, pensa simplesmente que Jesus vive em ti. E é Ele que, através de ti, com a sua mansidão quer submeter todos os inimigos do homem: o pecado, o ódio, o crime, a violência; todos os nossos inimigos.
Tem sempre a coragem da verdade, mas recorda-te: não és superior a ninguém. Recorda-te disto: não és superior a ninguém. Se tivesses de ser considerado o último a crer na verdade, não fujas, por causa disso, da companhia dos homens.
Mesmo se vivesses no silêncio de uma ermida, conserva no coração os sofrimentos de cada criatura. És cristão e, na oração, restituis tudo a Deus.
Cultiva ideais. Vive por algo que supera o homem. E mesmo se um dia estes ideais apresentarem uma conta alta a pagar, nunca deixes de os conservar no coração. A fidelidade obtém tudo.
Se errares, levanta-te: nada é mais humano do que cometer erros. E esses erros não devem tornar-se para ti uma prisão. Não fiques preso nos teus erros. O Filho de Deus veio não para os sadios, mas para os doentes: portanto, veio também para ti. E se errares ainda no futuro, não temas, levanta-te! Sabes porquê? Porque Deus é teu amigo.
Se a amargura te atingir, crê firmemente em todas as pessoas que ainda trabalham pelo bem: na sua humildade está a semente de um mundo novo. Frequenta pessoas que conservam o coração como o de uma criança. Aprende da maravilha, cultiva a admiração.
Vive, ama, sonha, crê. E, com a graça de Deus, nunca te desesperes. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 144

Refrão: O Senhor está próximo de quantos O invocam.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.

SANTOS POPULARES


BEATO LUÍS MONZA

Luís nasceu no dia 22 de Junho de 1898, em Cislago, na Itália, numa família extremamente pobre, cuja única riqueza era a fé e o trabalho. Em Setembro de 1913, com 15 anos, foi para o Seminário - depois de ter conhecido experimentado a dureza do trabalho do campo, na ajuda que prestava aos seus pais - no Instituto Missionário Salesiano de Penango Monferrato, nos arredores de Asti. A 16 de Janeiro de 1917, o seu pai faleceu. Logo depois, Luís foi chamado para o exército.
Após o final da guerra, retomou os estudos, sendo ordenado Sacerdote a 19 de Setembro de 1925. De seguida, foi incardinado na Diocese de Milão, ficando ao seu serviço.
Como primeiro trabalho pastoral, foi enviado para o Oratório masculino da Paróquia de Vedano Olona, onde exerceu o seu ministério dedicando-se à evangelização, ao exercício da caridade e à formação da comunidade.
Aqui, fundou três importantes grupos: a ‘schola cantorum’, a filodramática e a sociedade desportiva "Viribus unitis". Em 1926, após uma série de provocações da parte de um grupo fascista, tiveram início numerosas acções de violência contra o grupo ‘Viribus unitis’ que, não obstante a mediação do Padre Luís, culminaram com a prisão de oito jovens do oratório. Também ele foi preso e passou quatro meses na cadeia. Foi absolvido plenamente, embora com a proibição de ir a Vedano.
Após a libertação, a Diocese decidiu transferi-lo, por algum tempo, para a Paróquia de Santa Maria do Rosário, em Milão, para depois o destinar ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, em Saronno, onde chegou em Novembro de 1928. Foi neste ambiente familiar que o Pe. Luís se deparou com um mundo marcado pela solidão, tristeza e egoísmo. Assim, ele pediu a Deus que o ajudasse a fazer com que os jovens experimentassem o Seu grande amor. Esperou então, que o Senhor lhe indicasse o caminho a seguir.
Deus inspirou-o a ver no amor dos primeiros cristãos a maneira de chegar ao homem contemporâneo e anunciar o Evangelho. Formou o primeiro oratório, com um grupo de trinta jovens. Lentamente nasceu a ideia da Obra “A Nossa Família”.
“Os cristãos devem ser testemunhas do amor de Deus dentro da sociedade, na vida quotidiana e profissional. Cada um deve ser um artista, reproduzindo a beleza de Jesus, não nas telas, mas nas almas. O pincel do apostolado não deve sair das nossas mãos.”
No dia 30 de Outubro de 1936, o Pe. Luís participou na primeira reunião oficial que deu início ao Instituto ‘Pequenas Apóstolas da Caridade’.
As Pequenas Apóstolas da Caridade, pelo dom do Espirito Santo, amadurecido no coração do fundador têm como carisma criar disponibilidade para “seguir Jesus, vivendo, nos ambientes, a caridade testemunhada pelos primeiros cristãos”. Reconhecido como Instituto Secular de Vida Consagrada, os seus membros vivem a dimensão da fraternidade - como compromisso de doação total - em pequenos grupos ou individualmente; ocupam-se da gestão e animação de estruturas de apoio a crianças com problemas de deficiência; inserem-se, profissionalmente, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no serviço social, nos serviços de voluntariado e onde é urgente o testemunho da caridade cristã. Procuram ser contemplativas no meio do mundo, envolvidas nas comuns actividades de cada pessoa, na partilha, na oração, na solidariedade.
Entretanto, o Padre Luís Monza foi nomeado pároco da igreja de São João, na periferia da cidade. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, muitos jovens tiveram de deixar as famílias. O Padre Luís assumiu a tarefa de assistir espiritual e materialmente os que permaneceram na cidade. Foi um sacerdote segundo o coração de Deus, estando sempre disponível para os pobres, os doentes, os perseguidos.
Faleceu no dia 29 de Setembro de 1954, depois de ter recebido a Sagrada Comunhão. Expirou enquanto invocava: "Jesus meu, misericórdia...". O seu zelo no ministério paroquial, o esmero com que cuidava da catequese e da liturgia, a proximidade com os pobres do seu bairro fizeram do Padre Luís Monza um modelo de vida sacerdotal.
O padre Luís Monza foi beatificado pelo Papa Bento XVI, no dia 30 de Abril de 2006, na Catedral de Milão, em celebração presidida pelo Arcebispo de Milão, Cardeal Dionísio Tettamanzi.
A memória litúrgica do Beato Luís Monza celebra-se no dia 29 de Setembro.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

IN MEMORIAM


D. ANTÓNIO FRANCISCO DOS SANTOS

No dia 11 de Setembro de 2017, pelas 9,30 horas, faleceu aos 69 anos, na Casa Episcopal do Porto, D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto.
D. António Francisco dos Santos foi nomeado Bispo do Porto em Fevereiro de 2014 e tomou posse no dia 5 de Abril de 2014. Ordenado bispo em Março de 2005, na Sé de Lamego, foi nomeado bispo-auxiliar de Braga, pelo Papa João Paulo II e, posteriormente, nomeado bispo de Aveiro, pelo Papa Bento XVI, de onde transitou para a Diocese do Porto, sucedendo a D. Manuel Clemente.
Era natural de Tendais, no Concelho de Cinfães - Diocese de Lamego – onde foi ordenado presbítero, em Dezembro de 1972.
No momento da sua morte desempenhava o cargo de presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana e de vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, no âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa.
A Diocese do Porto e a Igreja Portuguesa vivem, ainda, em estado de choque e de emoção pela perda deste homem de simplicidade e de ternura e deste bispo tão humano e tão próximo que marcou o coração e a vida de todos os diocesanos e daqueles que puderam privar com ele.
Rezamos, em comunhão de irmãos e de amigos, para que viva, agora na eternidade, o grande abraço de Deus que plenifica e enche de alegria e paz.



HOMILIA DO SR. D. MANUEL CLEMENTE
- na Missa exequial de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto

Irmãos caríssimos:
Surpreendido ainda pelo súbito falecimento do Senhor D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, nosso irmão e amigo, correspondo à indicação que me foi feita para presidir a esta Santa Missa Exequial.
Com simplicidade e emoção o faço. Longos anos de amizade, a coincidência de idade e de percurso eclesial, tudo me aproximou do Senhor D. António Francisco, em muitos encontros institucionais e pessoais, projectos e desafios das nossas missões e tarefas. Sempre nele encontrei disponibilidade e competência, além da muita estima recíproca.
Num momento como este, são muitas as palavras possíveis, como aliás têm sido proferidas por grande número de pessoas da Igreja e da sociedade, não faltando o depoimento de altas figuras da vida nacional e local. Todas aliam sentimentos de admiração e já saudade pela grande figura pessoal, eclesial e social que entre nós viveu e verdadeiramente conviveu, pois grande e marcante era a sua capacidade de estar com os outros e, ainda mais, de estar para os outros.
Assim sendo, continuará connosco pelo que de si mesmo nos ofereceu e passou a integrar também. Se, em boa parte, somos o que os outros nos fazem ser, grande vantagem foi – e motivo de acção de graças agora – termos podido disfrutar da presença, da palavra, da grande generosidade do Senhor D. António Francisco. Os homens bons são a garantia do mundo, os bons pastores são a glória da Igreja.
Não precisei de procurar muito a alusão bíblica que melhor o identificasse, como pessoa, como cristão e como bispo. Logo se impôs a que o próprio Cristo escolheu para si, ao apresentar-se como Pastor – o Bom Pastor das ovelhas que somos.
Lembramos o passo evangélico, como acabámos de ouvir. No capítulo décimo do Evangelho de João, o Bom Pastor distingue-se pelo conhecimento que tem das ovelhas - de cada um dos seus, nome a nome, assim mesmo os conduzindo e defendendo. Jesus diz também, e sobretudo, que não apenas as conduz mas dá a própria vida pelas ovelhas.
É esta a novidade, pois não tinham faltado nos profetas e nos salmos preciosas referências a Deus como Pastor do seu povo. Mesmo os antigos reis e outros responsáveis o podiam e deviam ter sido, de algum modo. A imagem não era totalmente nova, mas a novidade estava ainda por cumprir de modo definitivo e sensível.
Também nós o esperamos de quem tenha responsabilidades na cidade dos homens e na Igreja dos crentes. Tocados como fomos e permanecemos pela tradição evangélica, há imagens de Cristo que se tornaram profundamente culturais, no sentido mais preenchido do termo. Creio mesmo ser essa a realidade que ainda nos pode definir colectivamente – e cheia de futuro, aliás.
Não é por acaso que, quando queremos significar a verdadeira ajuda, o serviço dos outros, usamos – mais ou menos conscientemente – os termos tão evangélicos de “bom samaritano” ou de verdadeiramente “próximo”. Não é por acaso que, quando se acolhe benevolamente quem regressa, falamos do “filho pródigo” e sobretudo do pai que o recebe. Não é por acaso que se classificam as grandes dedicações profissionais ou cívicas como “sacerdócio”, no sentido novo que o Cristianismo lhe deu.
Mas, de todas as imagens que Jesus toma para o Pai ou para si sobressai como particularmente impressiva a do “Bom Pastor”. Numa sociedade agrária e pastoril, como ainda era a sua e fora por tantos séculos a dos seus, a imagem evocava imediatamente o cuidado por todos e cada um, a atenção especial aos mais fracos, o aconchego duma presença certa. Por isso se impôs nas primeiras comunidades e na antiga iconografia cristã. Como se continua a impor na nossa meditação e oração. Cristo é o rosto definitivo e próximo de Deus, como nosso Pastor, como Pastor de todos.
E no entanto, caríssimos irmãos, creio que a alusão nunca seria tão forte e distintiva se não tivesse encontrado pleno e quase excessivo cumprimento na pessoa de Cristo, que não apenas guardou as suas ovelhas mas por elas deu a própria vida. Esta nova maneira de ser pastor, esta absoluta maneira de ser connosco, de ser por nós e para nós, é que dá ao passo evangélico a força e a sugestão que tão salutarmente mantém.
Digamos ainda que, assim como Jesus Cristo deu à imagem do Bom Pastor a realidade mais concreta e convincente, assim a sua presença ressuscitada encontra o sinal e o sacramento em quem, pela participação no seu Espírito, lhe dê agora o rosto e o gesto.
É precisamente neste ponto que – sem extrapolações nem lugares comuns – podemos e devemos reencontrar a figura do Senhor D. António Francisco, com toda a justiça em relação ao que foi entre nós e muita acção de graças a Deus que no-lo deu como sacramento de Cristo Pastor – em Lamego, em Braga, em Aveiro, no Porto e em todos os lugares que a sua vida visitou.
Ser bispo, nas actuais circunstâncias, é um trabalho complexo e quase inabarcável para quem o exerce. Não se está acima de nada nem de ninguém, muito pelo contrário, mas sim no centro de tudo ou quase tudo, no que à igreja se refere e mesmo além da vida da Igreja. A pressão é grande, inclusive a mediática, e as estruturas intermédias quase se desfazem, pois sempre se espera que, quem está no centro, responda imediatamente seja ao que for, por mais inesperado ou casual que possa ser.
A mentalidade é de contraste, o dia-a-dia atropela-se e a solicitação é forte ou latente. Por outro lado, tratando-se de acompanhar e conjugar a vida eclesial, a avaliação e a decisão requerem especial cuidado. São sempre realidades anímicas, trata-se afinal de pessoas.
D. António Francisco dos Santos foi um grande pastor da Igreja. No sentido plenamente cristão de quem dá a vida pelas ovelhas. Assim a deu generosamente, quase sem descanso e nas circunstâncias que esbocei.
Lembro-me de quando veio falar comigo, hesitante em aceitar o cargo. Estava feliz e realizado em Aveiro e tinha receio de não ser capaz. Foi capaz e capacíssimo, precisamente no essencial, de ser um pastor próximo e amigo de todos e de cada um dos seus. Não lhe faltaram dificuldades, mas nenhuma lhe endureceu o espírito nem o trato. Sábio e bondoso, assim permaneceu e assim nos fica, como memória e como estímulo.
Fisicamente, o coração pode parar. Espiritualmente, isto é, realmente, continua connosco no coração de Deus. No coração de Cristo, o nosso Bom Pastor.
Muito obrigado, caríssimo irmão e amigo!

Sé do Porto, 13 de setembro de 2017
+ Manuel Clemente



D. ANTÓNIO TAIPA, 
ADMINISTRADOR DIOCESANO

Com a morte do Sr. D. António Francisco dos Santos, o Colégio de Consultores da Diocese do Porto elegeu como Administrador Diocesano o Sr. D. António Maria Bessa Taipa, até agora Bispo-Auxiliar do Porto. A partir de agora e enquanto não for nomeado um novo bispo para a Diocese do Porto, na oração eucarística, no momento próprio, diremos: “…em comunhão com o Papa Francisco e o nosso Administrador Diocesano, António…”.

Entretanto, o Sr. D. António Taipa reconduziu nos seus cargos o Vigário Geral e todos aqueles, que, a teor do Direito Canónico, necessitam da confirmação da legítima autoridade eclesiástica para continuarem a exercer as suas funções, até que seja mandado o contrário. A todos concedeu as faculdades habituais necessárias para o desempenho das suas funções.