PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

EM DESTAQUE



- MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA 2018

«Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12)

Amados irmãos e irmãs!
Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus, na sua providência, oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.
Com a presente mensagem, desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).
Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes, que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!
Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?
O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n'Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.Tudo isto se transforma em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expectativas.
A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.
E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica ‘Evangelii gaudium’ procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.

Que fazer?

Se porventura detectamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio, por vezes amargo, da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.
Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.
A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na colecta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem colectas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade.
Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia-a-dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.
Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo; se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a acção; se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O fogo da Páscoa

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender, com ardor, o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se, por vezes, parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões para podermos recomeçar a amar.
Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa «24 horas para o Senhor», que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando-se nestas palavras do Salmo 130: «Em Ti, encontramos o perdão» (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e de confissão sacramental.
Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito», para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.
Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.



DA PALAVRA DO SENHOR



- VI DOMINGO DO TEMPO COMUM         

“…Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer coisa,
 fazei tudo para glória de Deus.
 Portai-vos de modo que não deis escândalo
 nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus.
 Fazei como eu, que em tudo procuro agradar a toda a gente,
 não buscando o próprio interesse, mas o de todos,
 para que possam salvar-se.
 Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo… (cf. 1 Coríntios 10, 31 – 11, 1)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 7 de Fevereiro

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Continuemos as catequeses sobre a Santa Missa. Tínhamos chegado às Leituras.
O diálogo entre Deus e o seu povo, desenvolvido na Liturgia da Palavra da Missa, alcança o ápice na proclamação do Evangelho. Precede-o o cântico do Aleluia — ou então, na Quaresma, outra aclamação — com o qual «a assembleia dos fiéis acolhe e saúda o Senhor que está prestes a falar no Evangelho». Do mesmo modo que os mistérios de Cristo iluminam toda a revelação bíblica, assim, na Liturgia da Palavra, o Evangelho constitui a luz para compreender o sentido dos textos bíblicos que o precedem, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Com efeito, «de toda a Escritura, assim como de toda a celebração litúrgica, Cristo é o centro e a plenitude». Jesus Cristo está sempre no centro, sempre!...
Por isso, a própria liturgia distingue o Evangelho das outras leituras, circundando-o de honra e veneração especiais. Com efeito, a sua leitura é reservada ao ministro ordenado, que no final beija o Livro; pomo-nos à escuta de pé, traçando o sinal da cruz na testa, nos lábios e no peito; os círios e o incenso honram Cristo que, mediante a leitura evangélica, faz ressoar a sua palavra eficaz. Destes sinais, a assembleia reconhece a presença de Cristo, o qual lhe dirige a “boa notícia” que converte e transforma. Tem lugar um discurso directo, como atestam as aclamações com as quais se responde à proclamação: «Glória a Vós, Senhor». Levantamo-nos para ouvir o Evangelho: ali é Cristo quem nos fala. É por isso que prestamos atenção, porque se trata de um diálogo directo. É o Senhor quem nos fala…
Portanto, na Missa, não lemos o Evangelho para saber o que aconteceu; mas, ouvimos o Evangelho para tomar consciência do que fez e disse Jesus outrora; e aquela Palavra é viva: a Palavra de Jesus que está no Evangelho é viva e chega ao meu coração. Por isso, ouvir o Evangelho é muito importante; ouvir com o coração aberto, porque é Palavra viva. Santo Agostinho escreveu que «a boca de Cristo é o Evangelho. Ele reina no céu, mas não cessa de falar na terra». Se é verdade que na Liturgia «Cristo ainda anuncia o Evangelho», consequentemente, participando na Missa, devemos dar-lhe uma resposta. Nós ouvimos o Evangelho e devemos dar uma resposta, na nossa vida.
Para transmitir a sua mensagem, Cristo serve-se, inclusive, da palavra do sacerdote que, após o Evangelho, pronuncia a homilia. Recomendada, vivamente, pelo Concílio Vaticano II, como parte da própria Liturgia, a homilia não é um discurso de circunstância — nem sequer uma catequese, como esta que agora faço — nem uma conferência, nem sequer uma lição; a homilia é outra coisa. O que é a homilia? É «um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo», para que seja posta em prática, na vida. A autêntica exegese do Evangelho é a nossa vida santa! A Palavra do Senhor termina o seu curso fazendo-se carne em nós, traduzindo-se em obras, como aconteceu em Maria e nos Santos. Recordai aquilo que eu disse na última vez: a Palavra do Senhor entra pelos ouvidos, chega ao coração e vai às mãos, às boas obras. E também a homilia segue a Palavra do Senhor, fazendo inclusive este percurso para nos ajudar, a fim de que a Palavra do Senhor chegue às mãos, passando pelo coração.
Já abordei o tema da homilia na Exortação ‘Evangelii gaudium’, onde recordei que o contexto litúrgico «exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida».
Quem profere a homilia deve cumprir bem o seu ministério — aquele que prega, sacerdote, diácono ou bispo — oferecendo um serviço real a todos aqueles que participam na Missa; mas, também, quantos o ouvem, devem desempenhar a sua parte. Antes de tudo, prestando a devida atenção, ou seja, assumindo as justas disposições interiores, sem pretensões subjectivas, consciente de que cada pregador tem qualidades e limites. Se, às vezes, há motivos para se entediar, porque a homilia é longa, ou não está centrada, ou é incompreensível, outras vezes, ao contrário, o obstáculo é o preconceito. E quem pronuncia a homilia deve estar consciente de que não faz algo próprio, mas prega dando voz a Jesus, prega a Palavra de Jesus. E a homilia deve ser bem preparada, deve ser breve, breve! Dizia-me um sacerdote que, certa vez, tinha ido a outra cidade, onde moravam os pais, e o pai disse-lhe: “Sabes, estou feliz, porque com os meus amigos encontramos uma igreja onde se celebra a Missa sem homilia!”. E, quantas vezes, vemos que na homilia alguns adormecem, outros conversam, ou saem para fumar um cigarro... Por isso, por favor, que a homilia seja curta, mas bem preparada. E como se prepara uma homilia, caros sacerdotes, diáconos, bispos? Como se prepara? Com a oração, com o estudo da Palavra de Deus e fazendo uma síntese clara e breve; não deve superar 10 minutos, por favor! Concluindo, podemos dizer que na Liturgia da Palavra, mediante o Evangelho e a homilia, Deus dialoga com o seu povo, que o ouve com atenção e veneração e, ao mesmo tempo, reconhece-o presente e activo. Portanto, se nos pusermos à escuta da “boa notícia”, seremos convertidos e transformados por ela e, consequentemente, capazes de transformarmo-nos a nós mesmos e ao mundo. Porquê? Porque a Boa Notícia, a Palavra de Deus entra pelos ouvidos, vai ao coração e chega às mãos para fazer boas obras. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



SALMO 31

Refrão: Sois para mim refúgio;
             Vós me envolveis na alegria da salvação.

Feliz daquele a quem foi perdoada a culpa
e absolvido o pecado.
Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade
e em cujo espírito não há engano.

Confessei-vos o meu pecado
e não escondi a minha culpa.
Disse: Vou confessar ao Senhor a minha falta
e logo me perdoastes a culpa do pecado.

Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos,
fazei que à minha volta só haja hinos de vitória.
Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor,
exultai, vós todos os que sois rectos de coração.


SANTOS POPULARES



BEATO VICENTE VILAR DAVID

Vicente Vilar David teve como marco histórico da sua vida a última década do século XIX e as quatro primeiras do século XX. Estes anos, em Espanha, foram caracterizados por fortes contrastes e instabilidade política, assim como por fortes transformações socioeconómicas que tiveram como consequência a proclamação da república e a guerra civil. Foi neste clima e nestas circunstâncias ambientais concretas que se desenrolou a vida de Vicente Vilar David que, como leigo católico, soube dar uma resposta exacta e adequada às necessidades sociais e eclesiais do seu tempo.
Vicente nasceu em Manises – Valência, Espanha no dia 28 de Junho de 1889. Os seus pais foram Justo Vilar Arenes e Cármen David Gimeno. Foi o último de oito irmãos. Recebeu o baptismo no dia seguinte ao seu nascimento, na igreja paroquial de S. João Baptista, das mãos do Padre Nicolau David Campos, primo directo da sua mãe. Viveu e foi crescendo no ambiente de um lar cristão, cheio de virtudes cristãs e de um grande amor ao próximo.
No dia 1 de Abril de 1898, o Cardeal Ciríaco Sancha y Hervás, arcebispo de Valência, administrou-lhe o Sacramento de Confirmação e, dois anos mais tarde, no dia 24 de Abril de 1900, recebeu a primeira Comunhão das mãos do Padre José Catalã Sanchis.
Frequentou a escola primária da sua terra natal. Do seu mestre, Buenaventura Guillem, recebeu, então, os primeiros rudimentos do ensino, mas também valores cristãos e humanos que afirmaram a sua personalidade. Realizou, depois, os seus estudos secundários num dos colégios dos padres Esculápios de Valência. Formou-se em Engenharia na Escola Superior de Barcelona. Durante estes anos, deu sempre mostras da sua dedicação à Igreja e ao apostolado secular.
Casou com Isabel Rodes Reig, no dia 30 de Novembro de 1922 e, desde então, ambos se entregaram fervorosamente ao apostolado em Manises.
Depois da morte do seu pai e tendo terminado os estudos de Engenharia, assumiu a direcção da empresa de cerâmica, chamada “Filhos de Justo Vilar”: foi aqui que Vicente exerceu, pela sua acção secular exemplar, o melhor do seu apostolado, sobretudo sob o ponto de vista social, procurando para todos a maior harmonia, buscando a paz nas desavenças e procurando que sempre se chegasse a um acordo que a todos satisfizesse.
Destacou-se igualmente pelo respeito, a educação e a caridade para com todos os empregados, o que teve como resultado que todos, igualmente, o amassem, porque nele viam mais um amigo do que um patrão. Sempre se mostrou disposto a ajudá-los nas suas necessidades, quaisquer que fossem as circunstâncias e dificuldades. Deu, assim, um bom exemplo de patrão católico, consciente de tudo quanto o Papa Leão XIII pedira na sua famosa Encíclica “Rerum novarum”.
Tendo novas ideias sobre a cerâmica, quis pôr em prática quanto aprendera, quanto idealizara durante os seus estudos, e assim fez. Com efeito, criou uma escola de cerâmica, na qual pôs em prática o que aprendera e idealizara e, pouco depois mostrava já uma visão de futuro e se percebia que com esta se conseguia a actualização industrial da cerâmica a fim de a tornar competitiva sob o ponto de vista internacional.
Mas o “selo” de Vicente Vilar não se limitou as estas acções “terra à terra”, mas também e, talvez sobretudo, a acções espirituais desenvolvidas na sua própria paróquia. Foi catequista, membro de associações eucarísticas e colaborador incondicional do pároco.
Quando, com a República, em 1931, se implantou um regime que começou a perseguir a Igreja e os cristãos, Vicente Vilar ajudou muitos sacerdotes no exercício do seu ministério e colaborou, activamente, no ensino religioso, na dinamização paroquial e no encorajamento dos movimentos e organizações paroquiais. Para que isso se tornasse possível, não hesitou em fundar um Patronado de Acção Social.
Em Agosto de 1936, no auge da perseguição religiosa, pelo simples facto de ser católico, foi destituído do cargo de secretário e de professor da escola de cerâmica que ele mesmo tinha fundado.
Naqueles tempos difíceis, Vicente Vilar foi o auxílio de todos; o semeador de alegria e de paciência cristãs. Mesmo os seus trabalhadores, naqueles momentos difíceis, foram os seus protectores, demonstrando, assim, o reconhecimento e o carinho que tinham para com este homem de Deus, cuja missão muito apreciavam. Mas, se os seus empregados o amavam, todos aqueles que odiavam a religião e os que para eles trabalhavam, não podiam aceitar que este homem rico, mas pobre segundo o Evangelho, continuasse a sua missão. Vicente tornara-se, para eles e para a sua ideologia, um estorvo. Por isso, na noite de 14 de Fevereiro de 1937, Vicente foi preso e levado diante de um “tribunal popular” - como então constantemente se fazia - e, como não negou a sua fé, nem a bondade do seu trabalho empresarial e apostólico, e não aceitou as soluções que o dito tribunal lhe propunha, depois de um julgamento sumário, foi condenado, não de maneira explícita, mas condenado na mesma. Foi imediatamente fuzilado, perdoando a todos os que eram responsáveis por tão triste e temerária decisão.
Este acto, que se pode chamar bárbaro, foi considerado pelos paroquianos de Manises como uma vingança, pelo facto de Vicente ser católico; um zeloso apóstolo das verdades cristãs; e também por ser um patrão social e amigo dos seus empregados.
Os restos mortais de Vicente encontram-se na igreja paroquial de São João Baptista de Manises, onde, de diversas partes de Espanha, e mesmo do estrangeiro, os peregrinos se inclinam e veneram o homem que preferiu dar a sua vida do que renegar a sua fé autêntica.
Vicente Vilar David foi beatificado, no dia 1 de Outubro de 1995, pelo Papa João Paulo II, sendo o primeiro mártir secular, beatificado nos tempos modernos. Na homilia da Missa, o Papa disse: “… ‘Irmão, servo de Deus: pratica… a justiça’. Enriquece, também, o martirológico de Valência, desde a sua cidade natal de Manises, o Beato Vicente Vilar David, que coroou com o martírio a sua existência, vivida com total dedicação a Deus, ao próximo e à promoção da justiça no mundo laboral, de forma especial na Escola de Cerâmica e no Patronato de Acção Social. A oração e a sua grande devoção à Eucaristia alimentaram toda a sua vida, de modo que o seu trabalho tinha a marca da presença de Deus. O estado matrimonial, o exercício da profissão, as actividades que são próprias dos seculares são caminhos que conduzem à santidade, se são vividos com sinceridade e entrega evangélica, como exigências do baptismo…”
A memória litúrgica do Beato Vicente David celebra-se no dia 14 de Fevereiro.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR


- V DOMINGO DO TEMPO COMUM 

“…Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória,
 é uma obrigação que me foi imposta.
Ai de mim se não anunciar o Evangelho! (…)
Livre como sou em relação a todos, de todos me fiz escravo,
para ganhar o maior número possível.
Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos.
Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo.
E tudo faço por causa do Evangelho,
para me tornar participante dos seus bens… (cf. 1 Coríntios 9, 16-19.22-23)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na homilia da Santa Missa com os membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, no XXII Dia Mundial da Vida Consagrada, Basílica de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 2 de Fevereiro

Quarenta dias depois do Natal, celebramos o Senhor que, entrando no templo, vem ao encontro do seu povo. No Oriente cristão, esta festa é chamada precisamente «Festa do Encontro»: é o encontro entre o Deus Menino, que traz vida nova, e a humanidade à sua espera, representada pelos anciãos no templo.
No templo, verifica-se ainda outro encontro: o encontro entre dois pares humanos, ou seja, os jovens Maria e José, por um lado, e os anciãos Simeão e Ana, por outro. Os anciãos recebem dos jovens, os jovens aprendem dos anciãos. Com efeito, no templo, Maria e José encontram as raízes do povo, o que é importante, pois a promessa de Deus não se realiza individualmente e duma vez só, mas conjuntamente e ao longo da história. E encontram também as raízes da fé, porque a fé não é uma noção que se deve aprender num livro, mas a arte de viver com Deus, que se recebe da experiência de quem nos precedeu no caminho. Assim, encontrando os anciãos, os dois jovens encontram-se a si mesmos. E os dois anciãos, caminhando já para o fim dos seus dias, recebem Jesus, sentido da sua vida. Assim, este episódio cumpre a profecia de Joel: «Os vossos anciãos terão sonhos, e os vossos jovens terão visões» (3, 1). Naquele encontro, os jovens veem a sua missão e os anciãos realizam os seus sonhos; e tudo isto porque, no centro do encontro, está Jesus.
Olhemos o nosso caso, amados irmãos e irmãs consagrados! Tudo começou pelo encontro com o Senhor. Dum encontro e duma chamada, nasceu o caminho de consagração. É preciso recordá-lo. E, se nos recordarmos bem, veremos que, naquele encontro, não estávamos sozinhos com Jesus: estava também o povo de Deus, a Igreja, jovens e anciãos, como no Evangelho. Neste, há um detalhe interessante: enquanto os jovens Maria e José observam fielmente as prescrições da Lei – o Evangelho repete-o quatro vezes – e nunca falam, os anciãos Simeão e Ana acorrem e profetizam. Parece que devia ser o contrário! Geralmente são os jovens que falam com entusiasmo do futuro, enquanto os anciãos guardam o passado. No Evangelho, sucede o contrário, porque, quando nos encontramos no Senhor, chegam pontualmente as surpresas de Deus. Para permitir que as mesmas aconteçam na vida consagrada, convém lembrar-nos que não se pode renovar o encontro com o Senhor sem o outro: nunca o deixeis para trás; nunca façais descartes geracionais; mas, diariamente, caminhai lado a lado, com o Senhor no centro. Porque, se os jovens são chamados a abrir novas portas, os anciãos têm as chaves. E a juventude dum instituto [de vida consagrada] encontra-se indo às raízes, ouvindo as pessoas anciãs. Não há futuro sem este encontro entre anciãos e jovens; não há crescimento sem raízes, e não há florescimento sem novos rebentos. Jamais profecia sem memória; jamais memória sem profecia; mas que sempre se encontrem!
A vida agitada de hoje induz-nos a fechar muitas portas ao encontro e, com frequência, por medo do outro. As portas dos centros comerciais e as conexões de rede estão sempre abertas. Mas, na vida consagrada, não deve ser assim: o irmão e a irmã que Deus me dá são parte da minha história, são presentes que devo guardar. Que não nos aconteça olhar mais para o ecrã do telemóvel do que para os olhos do irmão, ou fixarmo-nos mais nos nossos programas do que no Senhor. Com efeito, quando se colocam no centro os projectos, as técnicas e as estruturas, a vida consagrada deixa de atrair e comunicar-se a outros; não floresce, porque esquece «aquilo que tem debaixo da terra», isto é, as raízes.
A vida consagrada nasce e renasce do encontro com Jesus assim como é: pobre, casto e obediente. A linha sobre a qual caminha é dupla: por um lado, a amorosa iniciativa de Deus, da qual tudo começa e à qual sempre devemos retornar; e, por outro, a nossa resposta, que é de amor verdadeiro quando não há «se» nem «mas»; quando imita Jesus pobre, casto e obediente. Deste modo, enquanto a vida do mundo procura acumular, a vida consagrada deixa as riquezas que passam, para abraçar Aquele que permanece. A vida do mundo corre atrás dos prazeres e ambições pessoais; a vida consagrada deixa o afecto livre de qualquer propriedade para amar plenamente a Deus e aos outros. A vida do mundo aposta em poder fazer o que se quer; a vida consagrada escolhe a obediência humilde como liberdade maior. E, enquanto a vida do mundo depressa deixa vazias as mãos e o coração, a vida segundo Jesus enche de paz até ao fim, como no Evangelho, onde os anciãos chegam felizes ao ocaso da vida, com o Senhor nos seus braços e a alegria no coração.
Como nos faz bem ter o Senhor «nos braços» (Lc 2, 28), à semelhança de Simeão! Não só na mente e no coração, mas também nas mãos, ou seja, em tudo o que fazemos: na oração, no trabalho, à mesa, ao telefone, na escola, com os pobres, por todo o lado. Ter o Senhor nas mãos é o antídoto contra o misticismo isolado e o activismo desenfreado, porque o encontro real com Jesus endireita tanto os sentimentalistas devotos como os activistas frenéticos. Viver o encontro com Jesus é o remédio também contra a paralisia da normalidade, abrindo-se ao rebuliço diário da graça. Deixar-se encontrar por Jesus, fazer encontrar Jesus: é o segredo para manter viva a chama da vida espiritual. É o modo para não ser absorvido numa vida asfixiadora, onde prevalecem as queixas, a amargura e as inevitáveis decepções. Encontrar-se em Jesus como irmãos e irmãs, jovens e anciãos, para superar a retórica estéril dos «bons velhos tempos» – aquela nostalgia que mata a alma –, para silenciar o «aqui nada funciona». O coração, se encontrar cada dia Jesus e os seus irmãos, não se polariza para o passado nem para o futuro, mas vive o «hoje» de Deus, em paz com todos.
No final dos Evangelhos, há outro encontro com Jesus que pode inspirar a vida consagrada: o das mulheres no sepulcro. Foram para encontrar um morto, o seu caminho parecia inútil. Também, vós caminhais, no mundo, contra corrente: a vida do mundo facilmente rejeita a pobreza, a castidade e a obediência. Mas, como aquelas mulheres, continuai para diante, não obstante as preocupações com as pedras pesadas a remover (cf. Mc 16, 3). E, como aquelas mulheres, primeiro encontrai o Senhor ressuscitado e vivo, estreitai-O ao coração (cf.  Mt 28, 9) e, logo a seguir, anunciai-O aos irmãos, com olhos que brilham de grande alegria (cf. Mt 28, 8). Sois, assim, a alvorada perene da Igreja: vós, consagrados e consagradas, sois a alvorada perene da Igreja! Desejo que hoje mesmo possais reavivar o encontro com Jesus, caminhando juntos para Ele: isto dará luz aos vossos olhos e vigor aos vossos passos…  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 146

Refrão: Louvai o Senhor, que salva os corações atribulados.

Louvai o Senhor, porque é bom cantar,
é agradável e justo celebrar o seu louvor.
O Senhor edificou Jerusalém,
congregou os dispersos de Israel.

Sarou os corações dilacerados
e ligou as suas feridas.
Fixou o número das estrelas
e deu a cada uma o seu nome.

Grande é o nosso Deus e todo-poderoso,
é sem limites a sua sabedoria.
O Senhor conforta os humildes
e abate os ímpios até ao chão.


SANTOS POPULARES


BEATO PIO IX, PAPA

João (Giovanni) Maria Mastai-Ferretti nasceu em Senigallia, Itália, no dia 13 de Maio de 1792. O seu pai, Jerónimo, era da nobre família dos Mastai-Ferretti, e a sua mãe, Catarina Solazzi, era da nobreza local. Foi baptizado no mesmo dia do seu nascimento. Recebeu o sacramento da Confirmação em 1799 e, como era norma naquela época, fez a sua primeira Comunhão em 1803.
Em 1809, transferiu-se para Roma, a fim de continuar os seus estudos. Ainda não pensava ser padre, mas já vivia de modo exemplar, como o demonstram alguns propósitos feitos em 1810, ao concluir um retiro espiritual:  lutar contra o pecado, evitar qualquer ocasião perigosa, estudar "não por ambição de saber" mas para o bem dos demais, abandono de si mesmo nas mãos de Deus.
Devido a uma enfermidade, teve de abandonar os estudos, em 1812, e foi dispensado do serviço militar obrigatório. Em 1815, começou a fazer parte da Guarda nobre pontifícia, mas teve que deixá-la também por motivo de saúde. Foi então que São Vicente Pallotti lhe vaticinou o supremo pontificado e a Virgem de Loreto o curou, gradualmente, da enfermidade.
Em 1816, participou, como catequista, numa importante missão em Senigallia e, em seguida, optou pelos estudos eclesiásticos. Recebeu as Ordens menores, em 1817; o subdiaconado, em 1818; o diaconado, em 1819. Nesse mesmo ano, por concessão especial, foi ordenado sacerdote.
Celebrou a sua primeira Missa, na igreja de Santa Ana dos Carpinteiros, do Instituto Tata Giovanni, do qual foi nomeado reitor, permanecendo como tal até 1823. Desde o início, manifestou-se como homem de oração, consagrado ao ministério da Palavra e do sacramento da Reconciliação, e também ao serviço dos mais humildes e necessitados. De maneira admirável, uniu a vida activa à contemplativa. Apesar de estar sempre atento às necessidades pastorais e sociais, vivia, ao mesmo tempo, com grande recolhimento. uma intensa devoção eucarístico-mariana. Era muito fiel à sua meditação diária e ao exame de consciência.
Em 1820, deixou o Instituto Tata Giovanni para acompanhar o Núncio Apostólico, D. Giovanni Muzzi, ao Chile. Ali permaneceu até 1825. Segundo palavras de Mons. Pietro Capraro, Secretário de "Propaganda Fide", "poucos poderiam ser escolhidos para o seu lugar; ele era dotado de uma profunda  e  sólida piedade, doçura de carácter, prudência e clarividência..., grande zelo, desejo de servir a Deus e de ser útil ao próximo".
Em 1825, foi escolhido como Director do Asilo de São Miguel, uma importante instituição religiosa, mas ao mesmo tempo complexa, que necessitava de uma reforma eficaz. Dedicou-se a esta tarefa com grande empenho, mas sem descuidar as obrigações habituais do seu ministério.
Aos 36 anos de idade, foi nomeado Bispo e destinado à Arquidiocese de Espoleto. Aceitou por obediência e foi um modelo de zelo pastoral, apesar dos grandes sofrimentos. Em 1831, a revolução iniciada em Parma e Módena chegou a Espoleto. O Arcebispo, profundamente entristecido, não quis derramamento de sangue e, enquanto lhe foi possível, reparou os destruidores efeitos da violência. Restituída a calma, dedicou-se a obter a paz e o perdão para todos, inclusive para os que não o mereciam.
Em 1832, foi transferido para outra diocese turbulenta, Ímola, onde continuou com o seu estilo de pregador fecundo e persuasivo, disposto a praticar a caridade com todos, zeloso do bem sobrenatural e material dos seus diocesanos, amante do clero e dos jovens seminaristas, promotor de iniciativas em favor da educação da juventude, muito sensível à importância e às exigências da vida contemplativa, inflamado de devoção ao Sagrado Coração de Jesus e à Virgem, bondoso para com todos, mas firme nos seus princípios.
Em 1840, com apenas quarenta e oito anos, foi nomeado Cardeal.
Na tarde do dia 16 de Junho de 1846, o Cardeal Mastai-Ferretti, que fugia das honras, foi eleito Papa e quis chamar-se Pio: Pio IX.
O seu pontificado, devido às circunstâncias políticas derivadas da unificação da Itália e da perda dos Estados pontifícios, tornou-se sumamente difícil:  por isso mesmo, foi um grande Papa, certamente um dos maiores. Impelido pelo desejo de cumprir a sua missão de "Vigário de Cristo", responsável dos direitos de Deus e da Igreja, foi sempre claro e directo:  soube unir firmeza e compreensão, fidelidade e abertura.
Começou o seu pontificado com um acto de generosidade, concedendo uma amnistia para delitos políticos. A sua primeira Encíclica foi uma visão programática e, ao mesmo tempo, uma antecipação do "Syllabus"; condenou as sociedades secretas, a maçonaria e o comunismo. Em 1847, promulgou um decreto de ampla e surpreendente liberdade de imprensa.
Entre as realizações do seu pontificado, podem destacar-se:  o restabelecimento da hierarquia católica na Inglaterra, na Holanda e na Escócia; a condenação das doutrinas galicanas; a definição solene, a 8 de Dezembro de 1854, do dogma da Imaculada Conceição; o envio de missionários ao Pólo norte, à Índia, à Birmânia, à China e ao Japão; a criação de um Dicastério para as questões relativas aos orientais; a promulgação do "Syllabus errorum", no qual condenou os erros do modernismo; a celebração, com particular solenidade, do XVIII centenário do martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo; a celebração do Concílio Ecuménico Vaticano I - ápice do seu pontificado - que teve início em 1869 e se concluiu a 18 de Julho de 1870.
Depois da queda de Roma (20/9/1870) e do fim do poder temporal, Pio IX encerrou-se no Vaticano, considerando-se prisioneiro. No dia 7 de Fevereiro de 1878, com a sua piedosa morte, chegou ao seu fim o pontificado mais longo da história.
Agora é elevado à glória dos altares não pelas suas definições dogmáticas, nem pelas suas realizações como autoridade suprema dos Estados pontifícios, nem sequer pelas suas actividades pastorais, mas sobretudo porque levou sempre uma vida santa, como jovem seminarista, Bispo e Pastor supremo da Igreja universal, e porque praticou as virtudes teologais e cardeais em grau heróico.
Foi beatificado em 3 de Setembro de 2000, pelo Papa João Paulo II. Na homilia da Missa da beatificação, o Papa disse: “…Ao ouvir as palavras da aclamação ao Evangelho: "Senhor, guia-nos pelo caminho recto", o pensamento dirige-se espontaneamente para as vicissitudes humanas e religiosas do Papa Pio IX, João Maria Mastai-Ferretti. Perante os acontecimentos turbulentos do seu tempo, ele foi exemplo de incondicionada adesão ao depósito imutável das verdades reveladas. Fiel em qualquer circunstância aos empenhos do seu ministério, soube dar sempre a primazia absoluta a Deus e aos valores espirituais. O seu longuíssimo pontificado não foi deveras fácil e teve que sofrer muito no cumprimento da sua missão ao serviço do Evangelho. Foi muito amado, mas também muito odiado e caluniado.
Mas, precisamente no meio destes contrastes, brilhou mais resplandecente a luz das suas virtudes: as prolongadas tribulações mitigaram a sua confiança na divina Providência, de cujo soberano domínio sobre as vicissitudes humanas ele jamais duvidou. Nascia aqui a profunda serenidade de Pio IX, mesmo no meio das incompreensões e dos ataques de tantas pessoas hostis. Gostava de dizer a quem lhe estava próximo: "nas coisas humanas é necessário contentar-se em fazer o melhor que se pode e, no resto, abandonar-se à Providência, que curará os defeitos e as insuficiências do homem".
Sustentado por esta convicção interior, ele convocou o Concílio Ecuménico Vaticano I, o qual esclareceu com magistral autoridade algumas questões que naquele tempo eram debatidas, confirmando a harmonia entre fé e razão. Nos momentos de provação, Pio IX encontrou apoio em Maria, da qual era muito devoto. Ao proclamar o dogma da Imaculada Conceição, recordou a todos que, nas tempestades da existência humana, brilha na Virgem a luz de Cristo, mais forte que o pecado e a morte…”

A sua memória litúrgica é celebrada no dia 7 de Fevereiro.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR


- IV DOMINGO DO TEMPO COMUM         

“…farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos,
 um profeta como tu.
 Porei as minhas palavras na sua boca
 e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar.
 Se alguém não escutar as minhas palavras
 que esse profeta disser em meu nome,
 Eu próprio lhe pedirei contas… (cf. Deuteronómio 18, 18-19)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 24 de Janeiro

Bom dia, queridos irmãos e irmãs!
Esta audiência realiza-se em dois lugares, ligados entre si: vós, aqui na Praça, e um grupo de crianças doentes, que estão na Sala. Elas ver-vos-ão, e vós as vereis: e, assim, estamos unidos. Saudemos as crianças que estão na Sala: achamos melhor que não apanhassem frio, e é por isso que estão lá.
Regressei, há dois dias, da Viagem Apostólica ao Chile e ao Peru. Um aplauso para o Chile e para o Peru! Dois povos bons, bons... Dou graças ao Senhor porque tudo correu bem: pude encontrar-me com o Povo de Deus em caminho naquelas terras — inclusive com aqueles que não estão a caminho, que estão um pouco parados... mas, são boa gente — e encorajar o desenvolvimento social daqueles países. Renovo a minha gratidão às autoridades civis e aos irmãos Bispos - que me acolheram com muita atenção e generosidade – e a todos os colaboradores e voluntários. Pensai que, em ambos os países, havia mais de vinte mil voluntários: mais de vinte mil no Chile e vinte mil no Peru. Boa gente: na maioria, jovens…
A minha chegada ao Chile foi precedida por diversas manifestações de protesto, por vários motivos, como lestes nos jornais. E isto tornou ainda mais actual e vivo o lema da minha visita: «Mi paz os doy — Dou-vos a minha paz». São palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, que repetimos em cada Missa: o dom da paz, que somente Jesus morto e ressuscitado pode oferecer a quantos confiam n’Ele. Nem só cada um de nós tem necessidade da paz; mas, também o mundo de hoje, nesta terceira guerra mundial aos pedaços..., tem necessidade de paz. Peço-vos: oremos pela paz!
No encontro com as autoridades políticas e civis do país, encorajei o caminho da democracia chilena, como espaço de encontro solidário e capaz de incluir as diversidades; para esta finalidade, indiquei como método o caminho da escuta: em particular, a escuta dos pobres, dos jovens e dos idosos, dos imigrantes e, também, a escuta da terra.
Na primeira Eucaristia, celebrada pela paz e pela justiça, ressoaram as Bem-Aventuranças, especialmente: «Bem-aventurados os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). Uma Bem-Aventurança que deve ser testemunhada com o estilo da proximidade, da vizinhança e da partilha, fortalecendo, assim, com a graça de Cristo, o tecido da comunidade eclesial e da sociedade inteira.
Neste estilo de proximidade, contam mais as acções do que as palavras, e um gesto importante que pude realizar foi visitar a prisão feminina de Santiago: o rosto daquelas mulheres, muitas das quais jovens mães, com os seus filhinhos ao colo, apesar de tudo exprimiam muita esperança. Encorajei-as a exigir, de si mesmas e das instituições, um sério caminho de preparação para a reinserção, como horizonte que dá sentido à pena quotidiana. Não podemos pensar num cárcere, em qualquer prisão, sem esta dimensão da reinserção, porque se não houver esta esperança da reinserção social, o cárcere será uma tortura infinita. Ao contrário, quando nos esforçamos para reinserir — até os condenados à prisão perpétua podem voltar a inserir-se — mediante o trabalho da prisão a favor da sociedade, abre-se um diálogo. Mas, um cárcere deve ter sempre esta dimensão da reinserção, sempre…
Com os sacerdotes e os consagrados, e com os Bispos do Chile, vivi dois encontros muito intensos, que se tornaram ainda mais fecundos pelo sofrimento partilhado por causa de algumas feridas que afligem a Igreja, naquele país. Em particular, confirmei os meus irmãos na rejeição de qualquer cumplicidade com os abusos sexuais contra menores e, ao mesmo tempo, na confiança em Deus que, através desta dura prova, purifica e renova os seus ministros.
As outras duas Missas, no Chile, foram celebradas, uma no sul e a outra no norte. No sul, na Araucanía, terra onde vivem os índios Mapuches, transformou em alegria os dramas e as dificuldades deste povo, lançando um apelo a favor de uma paz que seja harmonia das diversidades e da rejeição de toda a violência. No norte, em Iquique, entre o oceano e o deserto, foi um hino ao encontro entre os povos, que se exprime, de modo singular, na religiosidade popular.
Os encontros com os jovens e com a Universidade Católica do Chile responderam ao desafio crucial de conferir um sentido relevante à vida das novas gerações. Aos jovens deixei a palavra programática de Santo Alberto Hurtado: “Que faria Cristo no meu lugar?”. E à Universidade, propus um modelo de formação integral, que traduz a identidade católica em capacidade de participar na construção de sociedades unidas e plurais, onde os conflitos não são ocultados, mas geridos no diálogo. Há sempre conflitos: até em casa; existem sempre. Mas, tratar mal os conflitos é pior ainda. Não se devem esconder os conflitos debaixo da cama: os conflitos que vêm à tona devem ser enfrentados e resolvidos mediante o diálogo. Pensai nos pequenos conflitos que certamente tendes em casa: não deveis escondê-los, mas enfrentá-los. Procurai o momento e falai entre vós: o conflito resolve-se, assim, com o diálogo.

No Peru, o lema da Visita foi: “Unidos por la esperanza — Unidos pela esperança”. Unidos não numa uniformidade estéril, todos iguais: isto não é união; mas em toda a riqueza das diferenças que herdamos da história e da cultura. Testemunhou-o, emblematicamente, o encontro com os povos da Amazónia peruana, que deu também início ao itinerário do Sínodo pan-amazónico, convocado para o mês de Outubro de 2019, assim como o testemunharam os momentos vividos com a população de Puerto Maldonado e com as crianças da Casa de acolhimento “O Principezinho”. Juntos, dissemos “não” à colonização económica e à colonização ideológica.
Falando às autoridades políticas e civis do Peru, apreciei o património ambiental, cultural e espiritual daquele país, e pus em evidência as duas realidades que mais gravemente o ameaçam: a degradação ecológico-social e a corrupção. Não sei se, aqui, ouvistes falar de corrupção...não sei... Ela não existe só naqueles lados: também aqui, e é mais perigosa que a gripe! Mistura-se e arruína os corações. A corrupção arruína os corações. Por favor, não à corrupção! E salientei que ninguém está isento da responsabilidade diante destes dois flagelos, e que o compromisso para os contrariar diz respeito a todos.
A primeira Missa pública, no Peru, celebrei-a à beira-mar, nos arredores da cidade de Trujillo, onde a tempestade chamada “el Niño costeiro” atingiu, no ano passado, duramente a população. Por isso, encorajei-a a reagir a essa e também a outras tempestades, como a criminalidade, a falta de educação, de trabalho e de alojamento seguro. Em Trujillo, encontrei-me também com os sacerdotes e os consagrados do norte do Peru, partilhando com eles a alegria do chamamento e da missão, e a responsabilidade da comunhão na Igreja. Exortei-os a ser ricos de memória e fiéis às suas raízes. E entre estas raízes há a devoção popular à Virgem Maria. Ainda em Trujillo, teve lugar a celebração mariana durante a qual coroei a Virgem da Porta, proclamando-a “Mãe da Misericórdia e da Esperança”.
O último dia da viagem, domingo passado, passei-o em Lima, com um forte significado espiritual e eclesial. No Santuário mais célebre do Peru, onde se venera a pintura da Crucificação, chamada “Señor de los Milagros”, encontrei-me com, aproximadamente, 500 religiosas de clausura, de vida contemplativa: um verdadeiro “pulmão” de fé e de oração para a Igreja e para a sociedade inteira. Na Catedral, realizei um especial acto de oração, por intercessão dos Santos peruanos, seguindo-se o encontro com os Bispos do país, aos quais propus a figura exemplar de São Turíbio de Mongrovejo. Também aos jovens peruanos indiquei os Santos como homens e mulheres que não perderam tempo a “pintar” a própria imagem, mas seguiram Cristo, que os fitou com esperança. Como sempre, a palavra de Jesus dá sentido pleno a tudo, e assim também o Evangelho da última celebração eucarística resumiu a mensagem de Deus ao seu povo, no Chile e no Peru: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15). Assim — parecia dizer o Senhor — recebereis a paz que Eu vos concedo e estareis unidos na minha esperança. Eis, mais ou menos, o resumo desta minha viagem. Oremos por estas duas nações irmãs, o Chile e o Peru, a fim de que o Senhor as abençoe.  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 94

Refrão: Hoje, se escutardes a voz do Senhor,
             não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou;
pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».

SANTOS POPULARES


BEATO JUSTO TAKAYAMA UKON
            - O “SAMURAI DE CRISTO”

Takayama Ukon (de acordo com o uso japonês, o sobrenome vai antes do nome), também conhecido como Hikogoro Shigetomo, nasceu entre 1552 e 1553, no castelo de Takayama, perto de Nara. O seu pai, Takayama Zusho (ou Takayama Tomoteru), pertenceu à nobreza militar que, na época, estava frequentemente envolvida em várias guerras entre os diferentes senhores feudais: de facto, a partir de 1538, Zusho Takayama serviu, como samurai, o nobre Matsunaga Hisashide e tornou-se comandante do castelo de Sawa.
Naquele tempo, em 1563, Zusho também foi um dos juízes encarregados de examinar o trabalho do jesuíta Padre Gaspar Vilela, que, quatro anos antes, tinha fundado a primeira missão católica, em Kyoto, a sede do Imperador. O padre Vilela respondeu com tanta firmeza às acusações que lhe foram dirigidas que o samurai ficou convencido de que ele é que estava certo: reconheceu a seriedade da doutrina cristã e converteu-se ao cristianismo. No baptismo, recebeu o nome de Dario.
Quando voltou para o seu castelo de Sawa, convidou o catequista Lorenzo, fiel companheiro do Padre Vilela, a explicar a sua fé à sua família. Em 1563, muitos dos seus soldados, a sua esposa e os seus seis filhos foram baptizados. Ukon, o filho mais velho, recebeu o nome cristão de Justo.
Por causa das contendas entre os vários chefes militares, o clã Takayama sofreu um duro golpe: teve de abandonar o castelo de Sawa, por causa dos inimigos do nobre que ele servia. Dario, então, juntou-se ao seu amigo Wada Koremasa e ao seu exército. Ambos, começaram a mover influências para que os missionários católicos pudessem instalar-se em Kyoto. O senhor do lugar, Oda Nobunaga, consentiu na vinda dos missionários e, depois, protegeu a pequena comunidade cristã ali fundada.
Nesta altura, Justo estava na idade adequada para seguir a carreira militar. Em 1571, participou numa batalha muito importante da qual saiu vitorioso. No entanto, com a morte de Wada Koremasa, Justo desentendeu-se, radicalmente, com o filho de Wada, Korenaga: os filhos dos dois amigos tiveram de lutar, um contra o outro, num duelo. Justo venceu, matando o seu adversário, mas ficou gravemente ferido. Permaneceu, muito tempo, entre a vida e a morte e, ao recuperar a saúde, reconheceu que não se tinha conduzido de acordo com a fé que lhe fora ensinada.
Dois anos depois, como recompensa pelos seus serviços, Zusho Takayama recebeu o condado de Takatsuki. Justo Ukon assumiu o governo deste condado, uma vez que o seu pai estava muito debilitado, por causa da sua idade avançada.
Em 1574, Justo casou-se com uma cristã, de quem ele teve três filhos e uma filha: dois dos filhos morreram pouco depois do nascimento.
Sob sua liderança, Takatsuki tornou-se um importante centro de actividades missionárias. Aqui, os que se preparavam para o baptismo podiam reunir-se, em locais adequados, para receber, regularmente, a formação doutrinal, ministrada por sacerdotes e religiosos. Justo aproveitou as facilidades desta circunstância para aprofundar os conteúdos do Evangelho e, em pouco tempo, foi considerado, pelos outros irmãos na fé, cristão exemplar.
No entanto, as questões da guerra ainda não tinham sido concluídas. Em 1578, o daimyō Araki Murashige rebelou-se, abertamente, contra Oda Nobunaga e aprisionou a irmã e filho de Justo Ukon. Este viu-se frente a um dilema: sabia que o seu pai queria permanecer fiel ao compromisso com o nobre mas, entretanto, o seu rival acampou frente ao castelo de Takatsuki, exigindo a sua rendição e ameaçando perseguir os fiéis cristãos.
Justo rezou longamente e tomou uma decisão: devolveu os direitos feudais ao seu pai e entregou-se pacificamente. Oda apreciou o seu gesto e confirmou-o como senhor local, mas exilou Dario na província setentrional de Echizen (hoje, província de Fukui). Dario aproveitou esta circunstância para espalhar o cristianismo naquela região do Japão.
Entretanto, Justo fez uma carreira brilhante ao serviço de Oda Nobunaga, tornando-se um dos seus primeiros generais. Continuou a ajudar os cristãos: obteve licença para a construção da primeira igreja em Kyoto (já não existente), de um outro edifício sagrado e de um seminário, em Azuchi, no Lago Biwa.  Em Takatsuki, o número de crentes ia aumentando ano a ano.
Quando Oda Nobunaga foi assassinado por Akechi Mitsuhide, os generais que lhe eram leais moveram guerra contra Mitsuhide e, depois, colocaram-se ao serviço de Toyotomi Hideyoshi, o novo shogun. Justo ganhou, rapidamente, a estima e a confiança do novo shogun. Assim, pôde continuar a ajudar os cristãos, conseguindo muitas conversões, mesmo entre as personalidades mais proeminentes. Em 1585, o shogun Toyotomi recompensou-o com um novo condado: o de Akashi cuja população se converteu ao cristianismo.
No entanto, por várias razões, a partir de 1587, Toyotomi Hideyoshi tornou-se hostil aos cristãos e ordenou a expulsão de todos os missionários e dos estrangeiros em geral, e começou a pressionar os nobres para que regressassem à religião dos seus antepassados.
Na noite de 24 de Julho, Justo Ukon foi convocado pelo shogun, que lhe expressou o seu desagrado por ele ter levado à conversão ao cristianismo muitos senhores feudais. Então, ordenou-lhe que abandonasse a sua fé cristã, sob pena de o exilar e de expropriar as suas propriedades. O daimyo Justo recusou-se firmemente a abandonar a sua fé, declarando que por nada deste mundo rejeitaria o seu Deus, em quem os missionários o ensinaram a acreditar.
De imediato, foi condenado a perder as suas propriedades. Justo implorou algum tempo para que pudesse, com a sua família, reorganizar a sua vida. Passado este tempo de tolerância, Justo e a sua família refugiaram-se na Ilha de Shodoshima, acolhidos na casa de um seu amigo, Konishi Yukinaga.
No entanto, o shogun Toyotomi Hideyoshio descobriu o seu paradeiro e propôs a sua reintegração, concedendo-lhe a mesma posição anterior, mas Justo rejeitou esta proposta. Então, foi feito prisioneiro e levado para Kanazawa, onde sofreu grandes vexames e privações.
Algum tempo depois, talvez por se ter arrependido do mal feito a um seu servo fiel, Toyotomi Hideyoshi mandou libertá-lo e concedeu-lhe uma renda anual. Em 1592, o shogun reconciliou-se com Justo Ukon, durante uma cerimónia solene, preparada para o efeito. Embora não tivesse sido seja reintegrado como um daimyo, Justo podia mover-se livremente por todo o império japonês. Justo aproveitou esta circunstância para desenvolver uma nova acção missionária, colaborando nas actividades missionárias dos jesuítas que, um ano antes da sua reconciliação com o shogun, tinham voltado às suas missões.
Em 1597, começaram novas perseguições contra os cristãos: 26 católicos - estrangeiros e nativos - foram crucificados na colina de Nagasaki, e um novo édito expulsou os cristãos do Japão. A morte súbita do shogun parecia abrir uma certa esperança mas, Tokugawa Ieyasu, assumiu o comando e, gradualmente, apoderou-se do trono, substituindo o herdeiro legítimo.
Após uma fase inicial de apaziguamento para com a religião cristã, o novo shogun, Tokugawa Ieyasu, começou a proibir vários dignitários e nobres de receberem o baptismo. Finalmente, em 1614, emitiu uma ordem de expulsão de todos os missionários. Os cristãos japoneses foram forçados a retomar os costumes dos seus antepassados.
Com o reinício das perseguições, Justo Ukon foi levado, sob prisão, para Kanazawa. Os seus amigos sugeriram-lhe que realizasse alguns actos de abjuração formal da fé - como calcar imagens sagradas - mas Justo recusou-se corajosamente. A quem lho sugeria, respondeu que estava ciente do extraordinário tesouro que era a fé e a religião cristã. Por isso, não deveriam fazer tal proposta, nem mesmo a brincar.  
Juntamente com a sua família, Justo foi levado para Nagasaki. Aqui, foi metido na prisão onde estavam reunidos os missionários e os cristãos que não renegaram a sua fé. Passou sete meses à espera de morrer como mártir mas, em 8 de Novembro de 1614, juntamente com um grupo de cerca de 300 cristãos, foi metido, como se fosse lixo, num barco que rumou em direcção a Manila, nas Filipinas. Durante o trajecto, Justo dedicou-se a consolar os outros, sobretudo os doentes que, como ele, iam empilhados naquele pequeno barco. Quando desembarcou, Justo teve uma recepção triunfal, como se tratasse de um verdadeiro herói da fé.
Quarenta dias depois, Justo começou a ter febres muito altas. Com a certeza estar no fim da sua vida, chamou o seu director espiritual, o Padre Morejón, e recebeu os últimos sacramentos.
Apesar de gravemente doente, encorajava, os que o rodeavam, a perseverar na fé e, constantemente, repetia o nome de Jesus. No dia 3 de Fevereiro de 1615, por volta da meia-noite, Justo depositou o seu espírito nas mãos do Pai. Tinha 62 anos de idade.
Os espanhóis, que na época governavam as Filipinas e tinham-lhe proposto ajudar a derrubar o shogun Tokugawa, deram-lhe um funeral solene e com honras militares. Algum tempo depois, na Piazza Dilao, em Manila, foi colocada uma estátua, em sua memória. Justo é apresentado vestido com a roupa típica da sua posição, com a ‘katana, a tradicional espada japonesa, segurando, nas mãos, a cruz de Cristo, que domina toda a estátua.
A Igreja Católica japonesa sempre viu em Justo um testemunho genuíno da fé e, repetidamente, tentou iniciar o seu processo de beatificação. A primeira tentativa, que remonta aos primeiros anos após a sua morte, foi iniciativa dos sacerdotes de Manila. No entanto, a política isolacionista do shogun Tokugawa impediu a recolha de provas documentais para este efeito.
A última e mais frutuosa intervenção, com o objectivo da beatificação de Justo Ukon, começou em Outubro de 2012. Monsenhor Leone Jun Ikenaga, arcebispo de Osaka e, na época, presidente da Conferência Episcopal Japonesa, entregou uma carta ao Papa Bento XVI pedindo a análise do caso. Em Agosto do ano seguinte, a Conferência Episcopal do Japão enviou os documentos do processo à Congregação para as Causas dos Santos.
Em 2015, a "Positio" (documento da Santa Sé que declara que alguém foi reconhecido como Venerável – primeiro passo para a beatificação) foi transmitida à Igreja Japonesa. Nela, Justo Takayama é apresentado como mártir: ficou reconhecido que a sua morte foi resultado das privações e dos maus-tratos sofridos na prisão. Em 20 de Janeiro de 2016, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto pelo qual o seu martírio foi realmente reconhecido.
No dia 7 de Fevereiro de 2017, Justo Ukon Takayama, também chamado ‘Samurai de Cristo’, foi beatificado pelo Papa Francisco, no Osaka-jō Hall, em Kyōbashi, perto de Osaka, em cerimónia presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, enviado do Santo Padre.
Foi a primeira vez que se fez uma celebração própria para beatificar um único mártir, originário do Japão.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

EM DESTAQUE


- FESTA DAS FOGACEIRAS

Com simplicidade, beleza e piedade, celebrámos, em Santa Maria da Feira, a Festa em Honra do Mártir São Sebastião, no dia 20 de Janeiro. Como habitualmente, muita gente acorreu a esta festividade. A Igreja Matriz foi pequena para acolher todos os que desejavam agradecer as bênçãos de Deus, pela intercessão do Santo Mártir. Transcrevemos a homilia do Sr. D. Manuel Pelino, que presidiu às nossas festas.


«…São Sebastião, Padroeiro de Santa Maria da Feira

1.      Um santo corajoso
Celebramos hoje a memória do Mártir São Sebastião, padroeiro muito amado destas terras de Santa Maria da Feira. É uma veneração antiga e sólida em reconhecimento pela proteção concedida num momento angustiante de uma peste que ameaçava a vida de todos os habitantes da região. São Sebastião é, aliás, um dos santos mais admirados e estimados pelos fiéis católicos. A sua imagem encontra-se ao culto em inúmeros edifícios religiosos. As catacumbas de São Sebastião em Roma, onde repousam os seus restos mortais, são das mais visitadas desde remota antiguidade. Porquê esta veneração tão difundida? Certamente pelas experiências de proteção recebidas e transmitidas de geração em geração. Mas igualmente pela admiração que a sua vida, corajosamente dedicada ao serviço da fé em tempos difíceis, desperta em toda a gente.
Os séculos não deixam apagar a sua memória nem esquecer o seu testemunho. Da sua vida histórica chegaram até nós muitas lendas e alguns dados seguros. Natural da Narbona, viveu, cresceu e estudou em Milão como nos atesta Santo Ambrósio, bispo desta cidade. A exemplo de seu pai, seguiu a carreira militar. A dedicação, disciplina e boa relação que mostrava promoveram-no à responsabilidade de capitão da guarda pretoriana. A certa altura da sua vida, conta Santo Ambrósio, compreendeu que deveria deixar a cidade de Milão e partir para Roma onde o imperador Diocleciano havia desencadeado feroz perseguição aos cristãos. Sebastião sentiu que Deus o chamava para o lugar do combate da fé, para socorrer as vítimas, encorajar os perseguidos e fazer chegar a todos a partilha fraterna. A Igreja de Roma precisava da sua ajuda e ele estava bem posicionado para a prestar. Portanto, assumiu com valentia essa missão.
O nosso padroeiro mostra-nos, assim, o evangelho concretizado nas atitudes práticas da sua vida. Se o consideramos como padroeiro e protetor de confiança, devemos tê-lo também como referência que inspira o estilo da nossa vida. Do seu testemunho podemos colher algumas orientações muito atuais para vivermos e testemunharmos a fé no nosso tempo.
2.      Proximidade evangélica.
Seguir Jesus Cristo é tornar-se próximo daqueles que precisam de ajuda, é sair da sua zona de conforto e ir ao encontro dos que sofrem. Assim procedeu o Senhor Jesus vindo ao nosso encontro para habitar no meio de nós. Do mesmo modo fez o nosso Santo deixando a vida sossegada em Milão para apoiar e animar os que em Roma precisavam de ajuda. As guerras e as perseguições deixavam muita gente desamparada, sem qualquer meio de subsistência. Presos, perseguidos, viúvas e órfãos precisavam de ajuda material, de afeto, de proteção. Na altura não havia segurança social alguma. Mas os cristãos não estavam sós. Num mundo cruel e dilacerado, os discípulos de Cristo testemunhavam sentido de grupo, amor fraterno, assistência nas necessidades. Eram irmãos no sentido verdadeiro do termo. A comunidade cristã era uma família onde todos davam e encontravam afeto, onde todos partilhavam os bens. Sebastião vai ser o rosto e o mediador da caridade da Igreja de Roma. O seu estatuto militar permitia-lhe o acesso a muitos lugares de necessidade.
O estilo de proximidade é proposto por Jesus a todos os seus discípulos. Desde o início da sua vida pública, o nosso Mestre e Senhor chocava pela sua proximidade revolucionária em relação aos pecadores, aos impuros e a outros que os costumes da época afastavam e separavam. Tocar o leproso, levantar pela mão a sogra de Pedro que estava de cama com febre, sentar-se à mesa com pecadores, eram gestos de proximidade inusitada. A quem lhe perguntou “quem é o meu próximo”, Jesus contou a parábola do bom samaritano para concluir: procede assim, faz-te próximo do que está caído à beira da estrada da vida, levanta-o, coloca-o aos ombros se for necessário, cuida dele enquanto ele precisar. Portanto, não basta saber quem é o meu próximo. Importante é tornar-me próximo daquele que precisa da minha ajuda.
É esta proximidade que o Papa Francisco pede hoje aos cristãos que formam a Igreja. Num mundo marcado pela indiferença e por forte individualismo, a Igreja de Jesus, diz o Papa, deve tornar-se um hospital de campanha, próxima dos que sofrem, dedicada a curar as feridas e a erguer os que estão caídos. E a Igreja somos nós chamados a ser próximos de todos quantos sofrem tribulações.
3.      Alegria em dar e em se dar
“A felicidade está mais em dar do que em receber”. É São Paulo que nos recorda esta afirmação de Jesus e confirma-a com a sua própria experiência. Também Paulo, o apóstolo das gentes, sentia felicidade em dar e refere, a propósito, que, na sua afadigada vida de evangelizador, ainda encontrava tempo para fabricar tendas com as suas mãos e assim podia prover às suas necessidades e dos companheiros e ajudar outros mais necessitados (Atos 20, 34-35)
Muita gente pensa e age como se a felicidade estivesse apenas em receber e a doação fosse um sacrifício que empobrece. A mentalidade reinante sensibiliza-nos mais para receber do que para dar. Serão as pessoas mais felizes só por receber?
Descobrimos muita gente de todas as idades, designadamente jovens, que encontra a felicidade em dar e em se dar. No voluntariado, no cuidado dos mais desvalidos e frágeis. São muitos os que tocam as feridas das pessoas para as curarem. E sentem-se felizes, realizados. De facto, ser generoso, abrir as mãos para a partilha faz bem à autoestima e à saúde espiritual e física. Dar e dar-se gera uma personalidade positiva e irradiante. Por isso, não nos apressemos apenas para receber mas adiantemo-nos também para dar.
Na linha do evangelho, a doação verdadeira não se limita a partilhar bens. Deve ser mais profunda e ir mais longe, conduz a dar-se a si mesmo, como o Senhor que, por nós, se entregou. Assim recomenda São Paulo aos Romanos: “Peço-vos irmãos que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Não vos conformeis com este mundo; mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”(Rm 12, 1-2). Esforcemo-nos, pois, por dar afeto, estima, atenção, fazendo da vida uma oferta e unindo-a à oferta de Jesus. Rezemos com Santo Inácio de Loiola: “Tomai Senhor e recebei tudo o que tenho e tudo o que possuo. Vós mo destes, a Vós Senhor o restituo”.
A doação suprema é o martírio. Só a fé muito firme e o desejo profundo de estar com Cristo e se assemelhar a Ele na entrega à morte, pode explicar a doação do martírio. Como escreveu Santo Inácio de Antioquia: “Estou disposto a morrer de bom grado por Deus (…).Deixai-me ser pasto das feras pelas quais poderei chegar à posse de Deus (..) Procuro Aquele que por nós morreu; quero estar com Aquele que para nós ressuscitou (…). Estou prestes a nascer”. São Sebastião atingiu esta doação admirável. Por isso, alcançou a vitória sobre a morte e recebeu de Deus a coroa da eterna glória. Assim nos ensina como conclusão para a peregrinação terrena: “a graça vale mais do que a vida, por isso os meus lábios hão-de cantar-vos louvores”…»