PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

SANTOS POPULARES


SÃO LUÍS GUANELLA

Luís Antonio Guanella Bianchi nasceu no dia 19 de Dezembro de 1842, na aldeia alpina de Fraciscio di Campodolcino. Era o nono dos treze filhos de uma família montanhesa, dotada de sólidos princípios cristãos. O pai, Lorenzo di Tomaso Guanella, corpulento, robusto e de rija personalidade, inspirava confiança pela sua simples presença. Assim o descreveu Luís, na sua autobiografia: “Esbanjava saúde e oseu carácter era firme e decidido, à semelhança do monte Calcagnolo, logo acima de Fraciscio”. A mãe, Maria Antonieta Bianchi, piedosa e dedicada ao trabalho, como o marido, contrastava com ele pela sua notável doçura e sencibilidade. A seu respeito, escreveu o Padre Luís Guanella: “O peso da autoridade paterna, no tocante aos filhos, era contrabalançado, providencialmente, pela mãe […] uma mulher criativa e muito amorosa; um tesouro da Providência!”.
Entre os irmãos, todos se relacionavam bem. Mas, Catarina, apenas um ano mais velha, foi a sua predilecta. Ainda crianças, conversavam sobre as peripécias dos santos e aprenderam a ver, nos pobres, a figura de Jesus. Perto da sua casa, havia uma rocha com cavidades que pareciam panelas. Ali, as inocentes crianças misturavam água e terra, e mexiam aquela mescla dizendo: “Quando formos adultos, faremos assim a sopa dos pobres”.
Desde muito cedo, numerosos indícios, premonições e acontecimentos extraordinários iam indicando ao pequeno Luís as vias traçadas para ele pela Providência Divina. O primeiro desses fatos ocorreu tendo ele apenas seis anos de idade, na festa de São João Baptista. Encontrava-se na Praça da Matriz de Campodolcino, juntamente com o tio e o cunhado, quando este último deu-lhe de presente um saquinho de ‘diavoletti’, deliciosos rebuçados de menta, precisamente na hora de tocar o sino para a Missa. Não querendo entrar na igreja com os doces na mão, foi escondê-los num monte de lenha, onde estariam a salvo da cobiça de outra criança. Nesse momento, ouviu palmas e viu, junto à porta da Câmara Municipal, um velhinho que o fitava. Luís descreveu-o na mesma autobiografia: “Era franzino, de cabelos brancos, rosto moreno; trajava calças curtas; as meias eram de lã não tingida; o seu rosto amável como que implorava aqueles doces”. Com medo, escondeu os rebuçados e, quando se voltou para olhar, o homem havia desaparecido… Aquela imagem nunca mais se apagou da sua mente. Luís via diante de si, constantemente, aquele momento, sobretudo “ aquando do seu encontro com outros velhinhos, que pediam um pouco de bem e de doçura, no termo da sua vida”.
Outro facto marcante aconteceu no dia da sua Primeira Comunhão, aos nove anos. Por ser Quinta-Feira Santa, não houve festa e, regressando a casa, mandaram-no cuidar das ovelhas, como era costume todos os dias. Ainda tocado pela graça, sentou-se num monte de erva, na colina Motto, onde costumava descansar. Enquanto o rebanho pastava, pôs-se a rezar a Nossa Senhora, agradecendo-Lhe a alegria de ter recebido Jesus, no seu coração. Sentia-se tomado por uma suave doçura que o impelia a fazer generosos bons propósitos. Contudo, a certa altura, adormeceu agarrado ao seu livrinho de orações. Foi acordado por uma voz feminina que o chamava pelo seu nome. Não vendo ninguém ao redor, julgou tratar-se de um sonho. Retomou a leitura e adormeceu novamente. Mas, mais uma vez, repetiu-se este facto. E, como aconteceu com Samuel (cf. II Sm 3, 8), ainda houve uma terceira vez, na qual a voz se fez ouvir mais forte e nítida: “Luís, Luís”. Nesse momento, contou, mais tarde, o Padre Luís “eis que vejo uma Senhora estendendo o seu braço direito como a indicar alguma coisa. Ela disse-me: ‘Quando fores adulto, farás tudo isto em favor dos pobres’. E, como numa tela, vi tudo o que deveria fazer”.
Aos doze anos, Luís recebeu uma bolsa de estudos e matriculou-se no Colégio Gálio, em Como. Para este pastorzinho, acostumado às liberdades do campo e aos grandiosos panoramas alpinos, não faltaram sofrimentos na adaptação à rígida disciplina escolar. O colégio parecia-lhe uma prisão. Não obstante, isso ajudou-o a dominar seu carácter enérgico, por vezes impulsivo e irascível, e a manifestar os aspectos amáveis, expansivos e afectuosos do seu temperamento, herdados da sua mãe.
Fortalecido pela frequência aos Sacramentos e pela sua devoção a Maria, ali cultivou os gérmenes da vocação; manteve-se firme nos seus princípios e inabalável no grande apreço pelas virtudes da castidade e da modéstia, apesar dos ventos revolucionários e liberais que sopravam na Itália e no mundo.
Depois de seis anos de colégio, entrou no Seminário Diocesano Santo Abôndio, onde ficou ainda mais vincada a vocação específica que a Providência lhe dera desde a infância. Ao voltar, durante as férias, à sua aldeia natal, empenhava-se em ajudar os pobres e enfermos da região, sobretudo os mais desamparados.
Num ambiente de ressentimento e de raiva, marcado pelas profanações das igrejas, realizadas pelos seguidores de Garibaldi, Luís foi ordenado presbítero, em 26 de Maio de 1866, por Dom Bernardino Frascolla, Bispo de Foggia. Naquele dia, com a alma transbordante de júbilo, o novo sacerdote fez uma promessa a Deus e aos seus irmãos: “Quero ser uma espada de fogo no ministério santo!” Celebrou a sua primeira Missa, em Prosto - onde tinha servido como Diácono - na solenidade do Corpus Christi ( Festa do Corpo de Deus), e ali permaneceu cerca de um ano como vigário.
Nomeado pároco de Savogno, valeu-se do seu diploma de mestre para, ali, abrir uma escola, que logo se encheu de alunos. Dedicou-se, então, com grande entusiasmo, ao apostolado com os mais pobres. Durante oito anos, deu formação religiosa a pessoas de todas as idades, convidando-as a unirem-se ao Santo Padre e alertando-as a respeito das novas doutrinas da época, hostis à Igreja. Por isso e, sobretudo, pela publicação de um livrinho intitulado ‘Saggio di ammonimenti’, (Resumo de advertências) contendo esses seus ensinamentos, acabou por ser vigiado  pelas autoridades civis como um “elemento perigoso”. A sua escola foi fechada e ele viu-se forçado a sair da diocese.
Atraído pela pessoa de São João Bosco, optou por se dirigir a Turim. Ali passou três anos (1875-1878) em “aprendizagem”, como diria depois, seguindo os passos do fundador dos salesianos no caminho da santidade e colaborando com a sua obra pedagógica em favor da juventude. Nesta mesma ocasião, conheceu a obra caritativa de São José de Cottolengo, a qual também deixou profundas impressões na sua alma.
Contudo, tinha muitas dúvidas e inquietações. Estaria a seguir o caminho para o qual se sentia chamado? Onde estaria a realização de tudo quanto vira no dia da sua Primeira Comunhão? No seu coração, continuava a soar a voz da Providência, incitando-o a fundar uma instituição própria, para o que muito colaborou todo esse tempo de provações e experiência.
Convocado pelo seu Bispo, regressou à Diocese de Como. Sair de Turim, separar-se dos salesianos e principalmente de Dom Bosco, foi-lhe muito doloroso. “Não senti tamanha dor nem mesmo quando faleceram os meus pais, tendo-os em meus braços”, afirmou na sua autobiografia.
Na Paróquia de Traona, para onde foi enviado, em 1878, com a missão de ajudar o pároco enfermo, tentou transformar um antigo convento numa escola para jovens pobres, aspirantes ao sacerdócio, no estilo salesiano. Entretanto, continuava a ser um “padre sob suspeita” e não conseguiu a necessária autorização do poder civil.
O Bispo transferiu-o, em 1881, para Olmo, paróquia confinada entre altas montanhas, onde talvez pudesse ficar livre da desconfiança de exercer “perigosas influências” contra o governo. Ali, sentiu-se exilado e abandonado por Deus, vendo impossível a realização do seu chamamento.
Poucos meses depois, recebeu ordem de ir para Pianello, onde haveriam de cessar essas provações. Encontrou ali um orfanato e um asilo - fundados pelo seu antecessor recém-falecido, o padre Carlos Coppini – que estavam confiados aos cuidados de algumas jovens aspirantes à vida religiosa. Foi a partir deste empreendimento que se originou, em 1886, a sua primeira fundação: a Congregação das Filhas de Santa Maria da Providência, contando com a valiosa colaboração da Madre Marcelina Bosatta e da sua irmã, a Beata Clara Bosatta.
Sempre dócil à vontade divina, dizia Dom Guanella: “O segredo da perfeição é fazer a vontade de Deus”.
Abriu, por fim, em Como, a primeira Casa da Divina Providência - o mesmo nome utilizado por São José de Cottolengo -, com o objectivo de atender os pobres e necessitados. A instituição começou a crescer e não faltaram generosos benfeitores, nem pessoas dispostas a se dedicarem àquela obra de caridade.
Numa viagem a Turim, pediu orientação a Dom Bosco sobre o seu desejo de fundar, também, um instituto masculino. Dom Bosco falou-lhe da importância e da conveniência de tal empresa e, assim, nasceu, sob as bênçãos do Arcebispo de Milão, Beato André Carlos Ferrari – que até 1874 fora Bispo de Como – a Congregação dos Servos da Caridade. Erigida, canonicamente, com a colaboração dos padres Aurélio Bacciarini e Leonardo Mazzucchi, no dia 24 de Março de 1908, chegou o momento tão longamente aguardado: Dom Guanella e um pequeno grupo de sacerdotes emitiram, diante do sacrário, os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.
A espiritualidade do santo fundador baseava-se na compreensão do Evangelho como a história de amor de um progenitor para com os seus filhos: Deus é Pai de todos, e Pai Providente, que cuida de cada um, especialmente dos mais débeis e necessitados. Por meio de Jesus Cristo, todos são chamados a fazer parte da família divina. E nela merecem especial ajuda as pessoas mais necessitadas, como os anciãos abandonados, os órfãos, os enfermos terminais desenganados, ou os deficientes físicos e psíquicos.
O Padre Luís resumia a formação a ser dada dentro desta congregação com o lema “Pão e Senhor”. O “Pão” seria o desenvolvimento integral da pessoa: físico, intelectual, psíquico e social. E por “Senhor” entendia o atendimento das “necessidades mais profundas da alma humana, chamada a descobrir a sua plenitude na vida de fé, esperança e caridade”.
Nesta família religiosa, destaca-se a figura da Mãe, que encaminha todos para Cristo. O Padre Guanella passava horas e horas diante da imagem da Nossa Senhora da Divina Providência. Nunca duvidava da intercessão d’Aquela que lhe mostrara, na sua infância, a envergadura da sua obra: “Ficai perto de Maria e procedei com segurança”, recomendava aos seus discípulos.
Depois de passar inúmeras vicissitudes e provas, Dom Guanella viu, no fim da sua existência, a sua obra expandir-se pelos quatro continentes. Convencido de que os homens são meros instrumentos, pois “è Dio che fa” - quem faz é Deus -, o fundador estimulava o ardor missionário dos seus filhos e filhas dizendo-lhes: “A vossa pátria é o mundo”. Ele próprio acompanhou a fundação de novas casas noutros países, como a dos Estados Unidos, em 1912.
A obra guanelliana contou com valiosos apoios, inclusive do Papa São Pio X, que distinguia o fundador com a sua amizade. Ele mesmo lhe propôs a fundação, perto do Vaticano, da Paróquia de São José al Trionfale, hoje basílica menor, com uma casa assistencial para auxiliar as famílias que ali viviam em tugúrios.
No meio a tantas actividades, o Padre Luís Guanella ainda encontrou tempo para escrever numerosas obras de formação cristã, além de mais de três mil cartas nas quais transparecem as suas virtudes, o seu senso profético e o seu particular amor aos pobres e abandonados.
Um dos seus últimos empreendimentos, e talvez o mais popular, foi a ‘Pia União do Trânsito de São José’, fundada em 1913, para a assistência aos moribundos. “Existe uma necessidade de viver bem”, dizia ele, “mas mais necessário é morrer bem. Uma boa morte é tudo, especialmente na actualidade, quando as pessoas só pensam nas coisas materiais e em divertir-se, rejeitando a eternidade”.
Coroando uma vida santa, essa boa morte chegou também para Dom Guanella, no dia 24 de Outubro de 1915, aos 73 anos de idade.
Luís Guanella foi beatificado pelo Papa Paulo VI, no dia 25 de Outubro de 1964, em Roma e canonizado pelo Papa Bento XVI, no dia 23 de Outubro de 2011.

A memória litúrgica de São Luís Guanella celebra-se no dia 24 de Outubro.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

EM DESTAQUE


* CRISMA, EM SANTA MARIA DA FEIRA


Neste Domingo, 15 de Outubro, foram crismados, na Igreja Matriz, 105 jovens e alguns adultos que, diante da Comunidade, assumiram o compromisso de viver a sério como cristãos, testemunhando Jesus no meio da vida, sobretudo nos ambientes mais periféricos da fé. Presidiu a esta celebração o Senhor Dom António Augusto, Bispo-Auxiliar do Porto.






* DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

A Igreja celebra, no próximo dia 22 de Outubro, o Dia Mundial das Missões. Trata-se de um grande acontecimento e de uma oportunidade de fazer sentir a vocação missionária da Igreja. O documento ‘Redemptoris Missio’, Encíclica do Papa João Paulo II sobre a validade permanente do mandato missionário, exorta, “todas as Igrejas e os pastores, os sacerdotes, os religiosos e os fiéis, a abrirem-se à universalidade da Igreja, evitando todas as formas de particularismo, exclusivismo, ou qualquer sentimento de autossuficiência (RM 85)”.
Este documento, tão importante, faz um apelo a toda a Igreja para se abrir à Missão além-fronteiras, conforme o mandato do próprio Jesus Cristo. A Igreja “foi enviada para manifestar e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos (Jo 10, 10)”, mandato que a ‘Redemptoris Missio’ também sublinha. “Esta Missão é única, sendo a mesma a sua origem e o seu fim; mas, na sua dinâmica de realização, há diversas funções e actividades. Antes de tudo, está a acção missionária denominada ‘missão ad gentes’”.
O Dia Mundial das Missões tem por objectivo celebrar a unidade da Igreja através da partilha e da fraternidade. Os filhos de Deus, nesse dia, devem festejar a universalidade da Missão, em comunhão e oração e, também, numa generosa partilha de bens, em favor da acção missionária da Igreja.

- A origem do Dia Mundial das Missões

Em 1922, foi eleito Papa o Cardeal Arcebispo de Milão, Achille Ratti, que tomou o nome de Pio XI (1922-1939). O seu ardor missionário era conhecido de todos, e esperava-se dele um grande impulso para a Missão.
- Nesse ano, constituiu em ‘Pontifícias’ as Obras Missionárias já existentes, recomendando-as como instrumentos principais e oficiais da Cooperação Missionária de toda a Igreja.
- Estimulou a criação de novas Missões e ordenou os primeiros bispos indianos (1923) e chineses (1926).
- No Ano Santo de 1925, abriu, no Vaticano, uma Exposição Missionária Mundial.
- Em 1926, publicou uma Encíclica sobre as Missões, ‘Rerum Ecclesiae’, na qual reafirmava a importância dos objectivos missionários programados no início do seu pontificado.

A ideia de um Dia das Missões, a nível mundial, nasceu no ‘Círculo Missionário’ do Seminário Arquidiocesano de Sássari (Sardenha, Itália).
- De 14 a 16 de Maio de 1925, o Círculo Missionário organizou um tríduo missionário, com a participação do Arcebispo, que suscitou muita animação.
- No ano seguinte, de 17 a 20 de Março de 1926, repetiu-se a celebração.
Na ocasião, chegou de Roma Mons. Luigi Drago, Secretário da Sagrada Congregação de Propaganda Fide (actual Congregação para a Evangelização dos Povos, no Vaticano). Os seminaristas pediram-lhe que propusesse ao Papa Pio XI a celebração de um Dia todo dedicado às Missões, como se fazia na Universidade do Sagrado Coração. Mons. Drago prometeu que falaria com o Papa a esse respeito. E, de Roma, mandou dizer que o Papa havia enviado uma resposta ao pedido: "Esta é uma inspiração que vem do céu".
No final de Março de 1926, realizou-se a Plenária do Conselho Superior Geral da Obra, já Pontifícia, da Propagação da Fé. Naquela ocasião, decidiu-se pedir oficialmente ao Papa Pio XI "a instituição, em todo o mundo católico, de um Dia de oração e de ofertas em prol da propagação da fé".
Em 14 de Abril de 1926, a Congregação dos Ritos comunicava que o Santo Padre havia concedido o pedido. Seria celebrado, anualmente, no penúltimo domingo do mês de Outubro.
Oficialmente, o primeiro Dia Mundial das Missões foi celebrado em Outubro de 1927.
Este ano de 2017, no dia 22 de Outubro, celebra-se o 90º Dia Mundial das Missões.




* PALAVRAS DE D. PIO ALVES, 
BISPO-AUXILIAR DO PORTO
- na homilia da Missa de 30º dia da morte 
do Senhor D. António Francisco dos Santos

Virgem Maria, Mãe da Santa Esperança

1. O dia 11 de Outubro, trigésimo dia da morte do Senhor D. António Francisco, coincide, liturgicamente, com a memória de S. João XXIII e, na cidade do Porto, com a solenidade de Nossa Senhora de Vandoma. Falando humanamente - muito humanamente! -, o Senhor D. António estará feliz com esta dupla coincidência.
Nos seus tempos de jovem estudante de Teologia, conviveu com o ar fresco que trouxe à Igreja o Bom Papa João. Sintonizou com a sua espontânea bondade e gastou a sua vida – seminarista, sacerdote, bispo – percorrendo os caminhos abertos pelo Concílio Vaticano II.
A Virgem Maria – de Vandoma, da Assunção, dos Remédios, de Fátima – alimentou o seu mundo de afectos. Porque é Mãe de Jesus Cristo: Mãe de Deus. Porque é a outra Mãe que amplia, de modo inefável, os laços que o prendiam, de modo singular, à mãe que o deu à luz. As conhecidas circunstâncias familiares e pessoais potenciaram esta espécie de sobreposição maternal.
Em Fátima, no passado dia 13 de Maio, escutou, seguramente com particular emoção, o grito do Santo Padre: “Temos Mãe! Temos Mãe!”. Sim, o Senhor D. António, agora sabe, com a certeza da visão e do amor, que temos Mãe. Nós, por cá, continuamos a caminhar à luz da fé e movidos pela esperança. Escolhemos, por isso, para a celebração do seu trigésimo dia, a Missa da “Virgem Maria, Mãe da Santa Esperança”.

2. O texto do Livro de Ben Sirá (24, 14-16. 24-31), da primeira leitura, procurou as palavras mais belas e as comparações mais reconfortantes para falar da Sabedoria: que não deixará “de existir por toda a eternidade”; e os que a “tornarem conhecida terão a vida eterna”. Não é ousadia desmedida que a Liturgia da Igreja tenha transposto este texto para o apropriar a Nossa Senhora.
Com as inevitáveis limitações de toda a linguagem humana, Maria, pela sua irrepetível fidelidade aos desígnios de Deus, abre-nos as portas da esperança: no fim de um caminho para uma eternidade feliz.
É assim que se nos mostra, entre outros, no episódio das Bodas de Caná (Jo 2, 1-11). De um modo discreto, sem palavras a mais, resume a dimensão missionária e materna da sua condição de discípula: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. E fizeram.
O milagre resulta da convergência: de uma mediação (da Virgem Maria); de uma dócil, generosa e efectiva obediência (dos serventes); da acção de Deus. Um milagre que, como é óbvio, tem as marcas de Deus: a sobreabundância, a qualidade, a surpresa, a felicidade.
Os figurantes do relato do milagre abrem espaço a diversificadas oportunidades de aprendizagem e crescimento. Podemos inscrever-nos, por exemplo, no grupo dos serventes. E aprenderemos: a perguntar menos e a fazer mais; a levar ao limite a nossa cooperação, enchendo até acima as talhas de pedra; a não nos autoatribuirmos a condição de senhores dos milagres; a cultivarmos a alegria e a gratidão pelos resultados visíveis dos dons de Deus nas vidas do próximo mais próximo. E tudo isto, levando à prática a discreta insinuação de Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Muito do que há para fazer, e dos seus modos, está condensado nessa espécie de testamento espiritual, transcrito no verso da memória do falecimento do Senhor D. António: “Igreja do Porto: Vive esta hora, que te chama, guiada pelas mãos de Maria, a ir ao encontro de Cristo e, a partir de Cristo, a anunciar, com renovado vigor e acrescido encanto, a beleza da fé e a alegria do Evangelho. Viver em Igreja esta paixão evangelizadora é a nossa missão. A vossa e a minha missão!”.

3. Não é este o lugar nem o momento para traçar perfis biográficos. Mas não é difícil descobrir na vida do Senhor D. António Francisco muitos dos traços que a celebração de hoje nos sugere.
Damos graças a Deus pelo estimulante exemplo de fidelidade que nos deixou. Justificadamente, invocamos, para si, Senhor D. António, e para nós, a Virgem Maria, Mãe da Santa Esperança.

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces
 e fará desaparecer da terra inteira
 o opróbrio que pesa sobre o seu povo …” (Isaías 25,    )

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 11 de Outubro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de reflectir sobre aquela dimensão da esperança que é a expectativa vigilante. O tema da vigilância é um dos fios condutores do Novo Testamento. Jesus prega aos seus discípulos: «Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas. Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram» (Lc 12, 35-36). Neste tempo que segue a ressurreição de Jesus, no qual se alternam, em continuação, momentos serenos e outros angustiados, os cristãos nunca repousam. O Evangelho recomenda que sejam como servos que nunca dormem, até que o patrão volte. Este mundo exige a nossa responsabilidade, e nós devemos assumi-la totalmente com amor. Jesus quer que a nossa existência seja laboriosa, que nunca baixemos a guarda, para acolher - com gratidão e admiração - cada novo dia que Deus nos concede. Cada manhã é uma página em branco que o cristão começa a escrever com obras de bem. Já fomos salvos pela redenção de Jesus; mas, agora, estamos à espera da manifestação plena do seu senhorio: quando finalmente Deus será tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28). Nada é mais certo, na fé dos cristãos, do que este “encontro”, este encontro com o Senhor, quando Ele voltar. E, quando este dia chegar, nós cristãos queremos ser como aqueles servos que passaram a noite com os rins cingidos e as lâmpadas acesas: é preciso estar prontos para a salvação que chega, prontos ao encontro. Pensastes como será aquele encontro com Jesus quando Ele vier? Mas será um abraço, uma alegria enorme, uma grande alegria! Devemos viver na expectativa deste encontro!
O cristão não é feito para o tédio; mas tem de ter paciência. Sabe que até na monotonia de certos dias sempre iguais está escondido um mistério de graça. Há pessoas que, com a perseverança do seu amor, se tornam como poços que irrigam o deserto. Nada acontece em vão e nenhuma situação, na qual um cristão se encontre imerso, é completamente refractária ao amor. Nenhuma noite é tão longa a ponto de fazer esquecer a alegria da aurora. E quanto mais escura é a noite, tanto mais próxima está a aurora. Se permanecermos unidos com Jesus, o frio dos momentos difíceis não nos paralisará. E, mesmo se o mundo inteiro pregar contra a esperança; se disser que o futuro trará só nuvens obscuras, o cristão sabe que, nesse futuro, ocorrerá a vinda de Cristo. Ninguém sabe quando acontecerá isso; mas, o simples pensamento de que no final da nossa história está Jesus Misericordioso é suficiente para manter a confiança e não maldizer a vida. Tudo será salvo. Tudo!... Sofreremos, haverá momentos que suscitam raiva e indignação, mas a suave e poderosa memória de Cristo afastará a tentação de pensar que esta vida é errada.
Depois de ter conhecido Jesus, nós só podemos perscrutar a história com confiança e esperança. Jesus é como uma casa: nós estamos dentro dela e, das janelas desta casa, olhamos para o mundo. Portanto, não nos fechemos em nós mesmos; não tenhamos saudades de um passado que se presume dourado, mas olhemos sempre para a frente, para um futuro que não é só obra das nossas mãos mas que, antes de tudo, é uma preocupação constante da providência de Deus. Tudo o que é escuro, um dia tornar-se-á luz.
Pensemos que Deus não se desmente a si mesmo. Nunca!... Deus nunca desilude. A sua vontade, em relação a nós, não é enevoada, mas um projecto de salvação bem delineado: «Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4). Por conseguinte, não nos abandonemos ao fluir dos acontecimentos com pessimismo, como se a história fosse um comboio do qual se perdeu o controlo. A resignação não é uma virtude cristã. Assim como não é dos cristãos encolher os ombros ou baixar a cabeça diante de um destino que nos parece inevitável.
Quem anuncia esperança ao mundo nunca é uma pessoa subjugada. Jesus recomenda que o esperemos sem estar de braços cruzados: «Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier!» (Lc 12, 37). Não há construtor de paz que, no fim de contas, não tenha comprometido a sua paz pessoal, assumindo os problemas dos outros. A pessoa subjugada não é um construtor de paz mas um preguiçoso, alguém que deseja a comodidade. Pelo contrário: o cristão é construtor de paz quando arrisca; quando tem coragem de arriscar para testemunhar o bem: o bem que Jesus nos doou; que nos doou como um tesouro.
Em todos os dias da nossa vida, deveríamos repetir a invocação dos primeiros discípulos que, na língua aramaica, exprimiam com as palavras Marana tha, e que encontramos no último versículo da Bíblia: «Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22, 20). É o refrão de todas as existências cristãs: no nosso mundo só precisamos de uma carícia de Cristo. Que bom seria se, na nossa oração, nos dias difíceis desta vida, sentíssemos a sua voz que nos responde e nos tranquiliza: «Sim, venho depressa!» (Ap. 22, 7) (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 22

Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES


BEATO AGOSTINHO THEVARPARAMPIL ("KUNJACHAN")

“… Agostinho Thevarparampil ‘Kunjachan’ foi um humilde sacerdote que se dedicou aos irmãos Dalit, marginalizados pela sociedade. Era conhecido somente no lugar onde nascera e nos arredores. Serviu como assistente na paróquia durante 47 anos. Embora o seu nome verdadeiro fosse Agostinho, todos o chamavam ‘Kunjachan’ - que na língua Malayalam da India significa ‘padre pequeno’ - porque era de baixa estatura.
Nasceu a 1 de Abril de 1891, em Ramapuram, na diocese de Palai, Kerala – Índia, na família Thevarparampil. Era o mais jovem de cinco filhos. Depois da escola primária, completou a formação sacerdotal no Seminário Menor de Changacherry e no de Puthenpally. No dia 17 de Dezembro de 1921, foi ordenado Sacerdote pelo Bispo Mar Thomas Kurianacherry. Começou o seu ministério sacerdotal como assistente paroquial, em Ramapuram e, em Fevereiro de 1923, ‘Kunjachan’ foi enviado como vice-pároco para a paróquia de São Sebastião, em Kadanad, onde permaneceu durante três anos. Em Março de 1926, por motivos de saúde, regressou à sua paróquia natal. Naquele período, involuntariamente, descobriu um novo âmbito de actividade. Durante o retiro anual na paróquia de Ramapuram, os pregadores reuniram cerca de 200 Dalit – os “intocáveis” ou “inaproximáveis”: os últimos no sistema das castas da Índia, que viviam nos terrenos dos membros das classes superiores, a quem serviam como assalariados rurais e mão-de-obra - na Igreja e transmitiram-lhes as verdades da fé. Tendo recebido o ensino religioso, demonstraram-se prontos a receber o Baptismo. ‘Kunjachan’ decidiu dedicar-se ao serviço daquelas pessoas. Tal decisão tornou-o guia e emancipador de muitos pobres daquela aldeia.
Prosseguiu o seu apostolado junto dos Dalit até à morte. Como afirmava São Arnold Janssen, fundador da Sociedade do Verbo Divino, o primeiro e prioritário acto de amor ao próximo consiste em transmitir-lhe a Boa Nova de Jesus Cristo. ‘Kunjachan realizou-se servindo com paciência e compaixão os outros, em particular os marginalizados, descobrindo neles o rosto de Jesus.
Durante quase 40 anos, dedicou-se ao progresso dos irmãos Dalit. Naquele tempo, as condições sociais dos Dalit eram dramáticas por causa da crescente intocabilidade e discriminação em relação a eles, baseadas na casta e na cor da pele. Eram todos analfabetos. Por conseguinte, eram supersticiosos e obrigados pela sociedade a realizar trabalhos manuais como escravos. Todos esses factores tornaram o ministério de ‘Kunjachan’ muito difícil.
O Padre Agostinho era muito humilde e simples; era um homem de serviço e de caridade, sobretudo para com os mais pobres e fracos da sociedade. Começava o seu dia às 4 da manhã; depois da missa, acompanhado do seu único ajudante - um catequista -, ia visitar as pobres cabanas dos ‘intocáveis’, imitando o Divino Pastor; ia à procura das suas ovelhas, não só no território da sua paróquia, mas onde quer que tivessem necessidade dele. Escutava-os, confortava-os, procurava eliminar as discórdias entre eles e tratava dos seus doentes. Nunca foi uma pessoa mediática, extraordinária, dotada de talentos ou capacidades excepcionais. Era um simples sacerdote de aldeia.
Não recebeu, nunca, nenhuma honra, nem reconhecimentos especiais pelo seu incansável serviço, dirigido à emancipação dos pobres. Contudo, conseguiu aproximar de Deus muitas pessoas. Não obstante isso, teve de enfrentar a oposição e as duras críticas não só das castas superiores de não-cristãos, mas também dos cristãos tradicionalistas. Estes obstáculos nunca foram capazes de diminuir o zelo de ‘Kunjachan’ que trouxe para a Igreja mais de 5.000 pessoas.
Criou um vínculo muito sólido com as pessoas que serviu. Chamava-lhes "meus filhos" e eles chamavam-lhe "nosso sacerdote". Estava tão próximo deles que conseguia chamá-los pelo nome, desde as crianças até aos idosos. Escreveu um diário espiritual em três volumes que continham informações pormenorizadas sobre eles, relativas ao relacionamento entre os membros de cada família, aos nascimentos, aos matrimónios, aos falecimentos, às confissões anuais, etc. Foi incansável no trazer para a fé aqueles que se distanciavam e quantos não respeitavam a fidelidade conjugal.
Era um homem de oração e rezava continuamente, até durante as suas deslocações. O seu objectivo não era somente a elevação espiritual dos Dalit, mas também a sua emancipação social, cultural, intelectual e artística. Resistiu à oposição, com calma e humildade. Não se desencorajou quando o governo negou privilégios aos Dalit convertidos ao cristianismo. A graça constante de Deus deu-lhe força e coragem. A oração ao Santíssimo Sacramento foi a fonte da sua força. Era também devoto da Bem-Aventurada Virgem Maria. Obedecia ao pároco e ao seu Bispo com grande humildade. (...) Com razão, pode ser considerado um dos maiores missionários dos marginalizados e é justamente chamado “Apóstolo dos Intocáveis”.
‘Kunjachan’ teve uma vida longa. Celebrou as suas Bodas de Ouro Sacerdotais, em 1971. Depois de grave doença, morreu com fama de santidade, no dia 16 de Outubro de 1973, com a idade de oitenta e dois anos. Queria ser sepultado entre os seus “filhos” bem-amados mas, conscientes da sua santidade, os paroquianos sepultaram-no na Igreja Paroquial, em frente ao altar dedicado a Santo Agostinho, padroeiro da paróquia.
O Padre Agostinho Thevarparampil ‘Kunjachan’ foi beatificado pelo Papa Bento XVI, no dia 30 de Abril de 2006, em cerimónia presidida pelo Cardeal Varkey Vithayathil, realizada na mesma aldeia de Ramapuram onde ele nasceu, trabalhou, morreu e foi enterrado.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 16 de Outubro.  


[cf. texto da homilia do Card. Varkey Vithayathil, durante a cerimónia de beatificação, celebrada em 30 de Abril de 2006, em Ramapuram (Índia)]

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…tudo o que é verdadeiro e nobre,
 tudo o que é justo e puro,
 tudo o que é amável e de boa reputação,
 tudo o que é virtude e digno de louvor
 é o que deveis ter no pensamento…” (Filipenses 4, 8)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 27 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Desejo falar, nesta catequese, sobre o tema “Missionários de esperança, hoje”. Sinto-me feliz por o fazer no início do mês de Outubro que, na Igreja, é dedicado, de modo especial, à missão, e, também, na festa de São Francisco de Assis, que foi um grande missionário de esperança!
Com efeito, o cristão não é um profeta de desventura. Nós não somos profetas de desventura. A essência do seu anúncio é o oposto, o contrário da desventura: é Jesus, morto por amor e que Deus ressuscitou, na manhã de Páscoa. É este o núcleo da fé cristã. Se os Evangelhos se tivessem interrompido com a sepultura de Jesus, a história deste profeta iria juntar-se às tantas biografias de personagens heroicos que deram a vida por um ideal. Neste caso, o Evangelho seria um livro edificante, até consolador, e não um anúncio de esperança.
Mas, os Evangelhos não se encerram com a Sexta-Feira Santa: vão além; e é precisamente este ulterior fragmento que transforma as nossas vidas. Os discípulos de Jesus estavam entristecidos, naquele sábado, depois da sua crucificação; aquela pedra colocada na entrada do sepulcro tinha fechado também os três anos entusiasmantes vividos por eles com o Mestre de Nazaré. Parecia que tudo tinha acabado e alguns, desiludidos e amedrontados, já estavam a abandonar Jerusalém.
Mas, Jesus ressuscita! Este facto inesperado inverte e subverte a mente e o coração dos discípulos. Porque Jesus não ressuscita só para si, como se o seu renascimento fosse uma prerrogativa da qual devêssemos ficar ciumentos. Ele eleva-se ao Pai porque deseja que a sua ressurreição seja comunicada a cada ser humano, e que arrebate, para o alto, todas as criaturas. E no dia de Pentecostes, os discípulos são transformados pelo sopro do Espírito Santo. Não receberão apenas uma boa notícia para levar a todos mas, eles mesmos se sentirão diferentes em relação a antes, como renascidos para uma vida nova. A ressurreição de Jesus transforma-nos com a força do Espírito Santo. Jesus está vivo; está vivo entre nós; está vivo e tem aquela força transformadora.
Como é bom pensar que somos anunciadores da ressurreição de Jesus não só com palavras, mas com os factos e com o testemunho da vida! Jesus não quer discípulos capazes unicamente de repetir fórmulas aprendidas de cor. Deseja testemunhas: pessoas que propaguem esperança com o seu modo de acolher, de sorrir, de amar. Principalmente de amar: porque a força da ressurreição torna os cristãos capazes de amar mesmo quando parece que o amor perdeu as suas razões. Há um “a mais” que habita a existência cristã e que não se explica apenas com a força de ânimo ou com mais optimismo: a fé… A nossa esperança não é um mero optimismo; é outra coisa, é mais! É como se os crentes fossem pessoas com um “pedaço de céu” a mais em cima da cabeça. Isto é bonito: nós somos pessoas com um pedaço de céu a mais em cima da cabeça, acompanhados por uma presença que alguns nem conseguem intuir.
Por conseguinte, é dever dos cristãos, neste mundo, abrir espaços de salvação, como células regeneradoras capazes de restituir linfa ao que parecia estar perdido para sempre. Quando o céu está totalmente enevoado, quem sabe falar do sol é uma bênção. O verdadeiro cristão é assim: não é lamentoso nem zangado, mas convicto, pela força da ressurreição, de que mal algum é infinito, noite alguma é sem fim, homem algum está definitivamente errado, ódio algum é invencível pelo amor.
Claro, muitas vezes, os discípulos pagaram muito caro esta esperança que Jesus lhes doou. Pensemos em tantos cristãos que não abandonaram o seu povo, quando chegou o momento da perseguição. Ficaram ali, onde havia a incerteza até do amanhã; onde não se podia fazer nenhum tipo de projecto; permaneceram esperando em Deus. E pensemos nos nossos irmãos, nas nossas irmãs do Médio Oriente que dão testemunho de esperança e oferecem, inclusive, a vida por este testemunho. Estes são verdadeiros cristãos! Estes trazem o céu no coração, olham além, sempre além. Quem teve a graça de abraçar a ressurreição de Jesus ainda pode esperar no inesperado. Os mártires de todos os tempos, com a sua fidelidade a Cristo, contam que a injustiça não tem a última palavra na vida. Em Cristo ressuscitado, podemos continuar a esperar. Os homens e as mulheres que têm um “por que” viver resistem mais nos tempos de desventura do que os outros. Mas quem tem Cristo ao seu lado nada teme, realmente. E, por isso, os cristãos, os verdadeiros cristãos, nunca são homens fáceis e condescendentes. A sua mansidão não deve ser confundida com um sentido de insegurança ou de submissão. São Paulo encoraja Timóteo a sofrer pelo evangelho, e diz assim: «Porque Deus não nos deu um espírito de temor, mas de fortaleza, de amor e de moderação» (2 Tm 1, 7). Se caem, levantam-se sempre.
Eis, queridos irmãos e irmãs, o motivo pelo qual o cristão é um missionário de esperança. Não por seu mérito, mas graças a Jesus, o grão de trigo que, ao cair na terra, morreu e deu muito fruto (cf. Jo 12, 24).  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 79

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.

SANTOS POPULARES


BEATO PEDRO ADRIANO TOULORGE

Pierre-Adrien (Pedro Adriano) nasceu no reinado de Luís XV, no dia 4 de Maio de 1757, em Quièze, uma pequena aldeia da Normandia, França. Foi baptizado no mesmo dia. Os seus pais eram lavradores – profissão que passava de pai para filho - e eram profundamente cristãos.
Pedro Adriano foi o terceiro e último filho do casal Toulorge.
Com 17 anos - quando começou o reinado de Luís XVI – começou a frequentar o Seminário de Coutances, mantido pelos Padres Eudistas. Em Junho de 1781, foi ordenado diácono.
Antigamente, em França, não se podia ordenar um padre sem dar-lhe "um título", ou seja, ligá-lo ao serviço de uma igreja, da qual receberia o digno sustento. Mas, como eram ordenados muitos padres, não havia benefícios ou "títulos" que chegassem para todos. Como a Igreja não podia sustentá-los, surgiu o hábito de criar "títulos clericais" que eram vinculados a uma terra ou bens, fornecidos pela família do futuro padre. Assim, o pai de Pedro Adriano, Juliano Toulorge, garantiu, em cartório, "uma renda de cem libras anuais" para o filho, a partir da sua ordenação ao subdiaconado. E, assim, Pedro Adriano recebeu o seu "título eclesiástico".
Pedro Adriano foi ordenado padre, em Junho de 1782. Em Janeiro de 1783, foi nomeado vigário de Doville, pequena paróquia de 168 lares, colocada sob o patrocínio da Abadia Premonstratense de Blanchelande.
Em 1787, o Padre Pedro aderiu à Ordem Premonstratense, fundada por São Norberto. Em Junho de 1788, emitiu os seus votos, sendo designado para o serviço desta Abadia de Blanchelande que, por falta de vocações, está prestes de ser encerrada.
Na primavera de 1789, têm início, em França, grandes convulsões políticas e sociais que culminam com a tomada da Bastilha, em Julho desse ano. A situação económica da França é desastrosa. Por sugestão "genial" do arcebispo Talleyrand, em Novembro de 1789, são confiscados todos os bens do clero que foram vendidos para cobrir a dívida francesa. Porém, a crise continua a agravar-se e o clero tornou-se parte do funcionalismo público, recebendo em troca um salário do Estado. Em 13 de Fevereiro de 1790, a Assembleia Nacional decretou a supressão, pura e simples, das ordens religiosas.
Em outubro de 1790, os religiosos da Abadia de Blanchelande foram obrigados a abandonar as instalações e os padres foram cada um para o seu lado.
O Padre Pedro Adriano foi residir na exploração agrícola de um casal amigo, que o acolheu de boa vontade, e aí permaneceu, discretamente, cerca de ano e meio lá um ano e meio, sem poder desenvolver abertamente o seu ministério sacerdotal.
No verão de 1790, tinha sido votada a "Constituição civil do clero" que previa - sem que o Papa tivesse uma palavra a dizer - a eleição dos bispos pelo povo e, também, a eleição das paróquias importantes, exigindo do clero pago pelo Estado um juramento de fidelidade. Alguns bispos e muitos padres recusaram tal determinação, dando origem a uma grande divisão na Igreja de França: os padres juramentados e os refractários.
A situação dos padres não juramentados (refractários) tornou-se cada vez mais difícil. Uma lei de Agosto de 1792, condenava à deportação todos os eclesiásticos que não tivessem prestado juramento. Sentindo-se em perigo, o Padre Pedro decidiu deixar a França e emigrar para as Ilhas Jersey, de domínio inglês, à espera de dias melhores.
Alguns dias antes de embarcar, nos inícios de Setembro, um pavoroso massacre de padres teve lugar em Paris, na prisão dos Carmelitas: 116 padres foram assassinados numa só noite.
Apenas chegado a Jersey, o Padre Pedro Adriano, falando com outros padres, compreendeu que poderia ter permanecido em França, sem estar preocupado, uma vez que as leis aprovadas não incluíam o clero religioso. Então, regressou a França. Mas, alguns dias após o seu regresso, uma nova lei decretou o desterro perpétuo dos emigrados e os emigrados, que, entretanto, tinham retornado a França, tinham de sair num prazo de quinze dias. O Padre Pedro Toulorge ficou perturbado, mas decidiu permanecer no seu país, e viver o seu sacerdócio na clandestinidade.
Durante nove meses, andou de casa em casa, viajando de noite e alterando, frequentemente, os seus disfarces. Os comités republicanos tiveram conhecimento da actividade clandestina destes padres fugidios que celebravam missas, faziam baptizados e casamentos, escondidos nas casas ou nas clareiras das florestas. Então, o Comité de Salvação Pública, em Paris, ordenou aos cidadãos que denunciassem estes padres antipatriotas.
O Padre Toulorge e os seus confrades fugitivos não ousam mais pedir hospitalidade, por medo de serem traídos. Na noite de 2 de Setembro de 1793, cansado, tolhido de frio, deitado num fosso, o Padre Pedro vê passar uma mulher. Para-a, pede-lhe auxílio e revela-lhe a sua condição sacerdotal. Esta confessa que também é religiosa: a"Irmã Santa Paula", antiga beneditina, expulsa do Priorado de Varenguebec, e agora refugiada em casa da sua família. Mas ela não pode esconder o Padre Pedro: é demasiado perigoso para os seus. Para enganar os inimigos, ela fornece-lhe roupas civis comuns. Mas, a aparência do Padre Adriano pareceu suspeita a dois trabalhadores que se cruzaram com ele. Estes alertaram a guarda nacional. E o Padre foi preso.
O Padre Pedro foi sujeito a um apertado interrogatório, mas omitiu, caritativa e prudentemente, o nome das pessoas que o acolheram. Declarou que, efectivamente não prestou o juramento mas, também, afirmou que não de o fazer, de acordo com a lei. Contou tudo, omitindo, porém, o facto de ter estado em Jersey. Viu-se forçado a improvisar: informou-se e viu que a lei não o obrigava a sair da França e, por conseguinte, não saiu... Neste pormenor, o Padre Pedro Adriano teve de mentir.
O presidente do tribunal quereria, sobretudo, provar - porque lhe parecia ter sido o mais provável - que o Padre Pedro Adriano tinha exercido, clandestinamente, o ministério sacerdotal e que, assim, o réu quis favorecer "os progressos do fanatismo religioso".
Durante o seu interrogatório, o Padre Toulorge entrelaçou habilmente a verdade e a falsidade, mas sofre por ter mentido, porque tinha medo. Muitas interrogações foram surgindo no seu coração: um padre de Jesus Cristo pode salvar a sua vida com mentiras? É necessário mentir para salvar a vida, ou deve-se morrer pela verdade? Se perseverar nas suas mentiras de homem medroso, e se sair em liberdade, nunca mais poderá ler honestamente, no Evangelho de São João, as palavras de Jesus: A verdade tornar-vos-á livres.
Então, no dia da Festa da Natividade da Virgem, a graça divina agiu no seu coração e fê-lo passar, num instante, do medo à coragem: a coragem do mártir que põe a sua vida em jogo por força destas leis perversas, dirigidas contra a Igreja católica e os seus padres. Do fundo da sua prisão, comunicou ao procurador que tinha uma declaração a acrescentar. E, com simplicidade e frontalidade, na frente do magistrado, o Padre Pedro Adriano contou a sua história, a sua verdadeira história.
Foi levado para Coutances, no dia 8 de Setembro, durante a noite. Nesse dia, a cidade estava a comemorar a chegada de Paris do deputado montanhês Le Carpentier, filho nativo da região: um fracassado a quem a Revolução forneceu a ocasião de uma vingança cruel sobre a aristocracia e a religião. Carpentier, a quem o ódio servia de eloquência, tornou-se conhecido pela sua virulência no processo contra o rei Luís XVI. Em Coutances, desde a noite da sua chegada, procedeu a numerosas execuções, entre as quais a de uma mãe de 13 filhos, que lhe valeu, para sempre, o apelido de ‘carrasco’.
Em Coutances, depois de novo julgamento sumário, o Padre Pedro Adriano foi condenado à morte. No meio de um silêncio impressionante, ouviu-se a voz serena do Padre Pedro pronunciar, distintamente, as palavras: “…Deo Gratias! Que a vontade de Deus seja feita e não a minha! Adeus, senhores, até a eternidade, se forem dignos dela”.
Uma testemunha notou que o seu rosto transparecia, realmente, de alegria.
No dia 13 de Outubro, um destacamento de regimento da cidade levou-o até o local do suplício. A guilhotina tinha sido erguida na praça onde, normalmente, se realizava a feira dos animais. Diante de uma multidão muda de emoção, o jovem padre foi conduzido até ao cadafalso. Disse apenas algumas, repetindo as palavras de Cristo, na Cruz: “Pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito”. Depois acrescentou: “ Peço-vos pelo restabelecimento e conservação da vossa Santa Igreja. Perdoai, peço-vos, aos meus inimigos”.
Às quatro e meia da tarde, o carrasco mostrou à multidão a cabeça ensanguentada do Padre Pedro Adriano Toulorge. Tinha 36 anos. Depois, numa carroça, levaram o corpo do jovem mártir para o cemitério Saint-Pierre, onde ficou sepultado. (cf. gaudiumpress.org)
O Padre Pedro Adriano, martirizado em 1793 pela Revolução Francesa, foi beatificado no dia 29 de Abril de 2012. A celebração da beatificação realizou-se na Catedral de Coutances e foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, em representação do Papa Bento XVI.
A memória litúrgica do beato Pedro Adriano celebra-se no dia 13 de Outubro.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EM DESTAQUE


- CATEQUESE NA IGREJA MATRIZ


A catequese paroquial, na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, terá o seu início, no dia 14 de Outubro, às 17 horas. As crianças, os adolescentes e os jovens que frequentam a catequese devem encontrar-se com os seus catequistas, nos lugares habituais. As crianças, ainda não inscritas na catequese, podem ser matriculadas neste dia. Os seus pais ou educadores devem trazer documento de identidade da criança e devem saber o dia e o lugar do seu baptismo. No fim, toda a catequese deve participar na Eucaristia, na qual os catequistas irão renovar o seu compromisso e testemunhar a alegria de serem chamados por Jesus para esta missão tão sublime e importante.

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Tende entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade,
 numa só alma e num só coração.
 Não façais nada por rivalidade nem por vanglória;
 mas, com humildade,
 considerai os outros superiores a vós mesmos,
 sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
 mas aos interesses dos outros.
 Tende em vós os mesmos sentimentos
 que havia em Cristo Jesus…” (Filipenses 2,  2-5)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 27 de Setembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Nestes últimos tempos, temos falado de esperança. Mas, hoje, gostaria de reflectir convosco acerca dos inimigos da esperança. Sim!... A esperança tem os seus inimigos: como cada bem neste mundo, ela tem os seus inimigos.
Veio-me à mente o antigo mito da caixa de Pandora: a abertura da caixa desencadeia muitas desgraças para a história do mundo. No entanto, poucos se recordam da última parte da história que abre uma espiral de luz: depois de todos os males saírem da caixa, um minúsculo dom parece ter a desforra diante de todo o mal que se propaga. Pandora, a mulher que conservava o jarro, vê-o no fim: os gregos chamam-lhe ‘elpís’, que significa esperança.
Este mito narra-nos por que razão a esperança é tão importante para a humanidade. Não é verdade que “enquanto há vida, há esperança”, como se costuma dizer. Mas, ao contrário: ‘enquanto há esperança, há vida’. É a esperança que mantém a vida de pé, que a protege, que a conserva, que a faz crescer. Se os homens não tivessem cultivado a esperança; se não tivessem sido animados por esta virtude, nunca teriam saído das cavernas, nem teriam deixado vestígios na história do mundo. É o que de mais divino pode existir no coração do homem.
Um poeta francês — Charles Péguy — deixou-nos páginas maravilhosas sobre a esperança (cf. O pórtico do mistério da segunda virtude). Ele diz, poeticamente, que Deus não se admira tanto com a fé dos seres humanos, e nem sequer com a sua caridade; mas o que realmente o enche de admiração e emoção é a esperança das pessoas: «Que aqueles pobres filhos — escreve — vejam como vão as coisas e que acreditem que será melhor amanhã de manhã». A imagem do poeta evoca o rosto de muitas pessoas que passaram por este mundo — camponeses, pobres operários, migrantes em busca de um futuro melhor — que lutaram tenazmente, não obstante a amargura de um presente difícil, cheio de numerosas provações, mas animada pela confiança de que os filhos teriam uma vida mais justa e mais tranquila. Pelejavam pelos filhos, lutavam na esperança.
A esperança é o impulso no coração de quem parte, deixando a casa, a terra, às vezes familiares e parentes — penso nos migrantes — em busca de uma vida melhor, mais digna para si e para os próprios entes queridos. E é também o ímpeto no coração de quem acolhe: o desejo de se encontrar, de se conhecer, de dialogar... A esperança é o impulso a “compartilhar a viagem”, porque a viagem se faz em dois: aqueles que vêm à nossa terra, e nós que vamos rumo ao seu coração, para os entender, para compreender a sua cultura, a sua língua. É uma viagem em dois… Mas, sem esperança, aquela viagem não se pode realizar. A esperança é o ímpeto a compartilhar a viagem da vida, como nos recorda a Campanha da Cáritas que hoje inauguramos. Irmãos, não tenhamos receio de compartilhar a viagem! Não tenhamos medo! Não temamos compartilhar a esperança!
A esperança não é uma virtude para pessoas de barriga cheia. Eis por que motivo, desde sempre, os pobres são os primeiros portadores de esperança. E, neste sentido, podemos dizer que os pobres, até os mendigos, são os protagonistas da História. Para entrar no mundo, Deus teve necessidade deles: de José e de Maria, dos pastores de Belém. Na noite do primeiro Natal, havia um mundo que dormia, acomodado em tantas certezas adquiridas. Mas, em segredo, os humildes preparavam a revolução da bondade. Eram totalmente pobres, alguns flutuavam pouco acima do limiar da sobrevivência, mas eram ricos do bem mais precioso que existe no mundo, ou seja, a vontade de mudança.
Por vezes, ter tudo na vida é uma desventura. Pensai num jovem a quem não foi ensinado a virtude da espera e da paciência; que não teve de suar por nada; que queimou etapas e, com vinte anos, “já sabe como vai o mundo”. Foi destinado à pior condenação: não desejar mais nada. Eis a pior condenação, fechar a porta aos desejos, aos sonhos. Parece um jovem mas, no seu coração, o outono já chegou. São os jovens de outono.
Ter uma alma vazia é o pior obstáculo para a esperança. Trata-se de um risco do qual ninguém se pode dizer excluído, porque podemos ser tentados contra a esperança até quando se percorre o caminho da vida cristã. Os monges da antiguidade denunciavam um dos piores inimigos do fervor. Diziam assim: aquele “demónio do meio-dia” que vai debilitar uma vida de compromissos, exactamente quando o sol arde lá no alto. Esta tentação surpreende-nos, quando menos esperamos: os dias tornam-se monótonos e tediosos; quase nenhum valor parece digno de esforço. Esta atitude chama-se preguiça: corrói a vida a partir de dentro, até a deixar como um invólucro vazio.
Quando isto acontece, o cristão sabe que aquela condição deve ser combatida, nunca aceite passivamente. Deus criou-nos para a alegria e a felicidade, não para nos remoermos em pensamentos melancólicos. Eis por que razão é importante preservar o próprio coração, opondo-nos às tentações de infelicidade, que certamente não derivam de Deus. E quando as nossas forças parecem frágeis e a batalha contra a angústia particularmente árdua, podemos recorrer sempre ao nome de Jesus. Podemos repetir aquela oração simples, da qual encontramos vestígios inclusive nos Evangelhos, e que se tornou o fulcro de muitas tradições espirituais cristãs: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, pecador!”. Uma linda oração! “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, pecador!”. Trata-se de uma prece de esperança, porque me dirijo Àquele que pode abrir, de par em par, as portas e resolver o problema e levar-me a fitar o horizonte, o horizonte da esperança.
Irmãos e irmãs, não lutamos sozinhos contra o desespero. Se Jesus venceu o mundo, é capaz de derrotar, em nós, tudo aquilo que se opõe ao bem. Se Deus estiver connosco, ninguém nos roubará aquela virtude, da qual temos absolutamente necessidade para viver. Ninguém nos furtará a esperança. Vamos em frente! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 24

Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia e do vosso amor.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador:
em vós espero sempre.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Não recordeis as minhas faltas
e os pecados da minha juventude.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.

SANTOS POPULARES


BEATO ALBERTO MARVELLI

Alberto Marvelli nasceu em Ferrara, Itália, no dia 21 de Março de 1918, segundo filho de uma família profundamente religiosa, mas também empenhada no mundo político, eclesial e caritativo.
Em 1930, a família transferiu-se para Rímini, onde Alberto frequentou o Oratório Salesiano da sua paróquia, incrementando assim a sua formação religiosa, que terá muita influência na sua vida espiritual.
Em 1933, o seu pai faleceu repentinamente e, em Outubro do mesmo ano, Alberto começou a escrever um diário, que é a história da sua vida interior, do seu caminho espiritual, da sua experiência de Deus. A sua pertença à Acção Católica enriqueceu a sua espiritualidade.
Aos quinze anos é delegado para os aspirantes da sua paróquia; em 1935, delegado diocesano; em 1937, inscreveu-se na Federação dos Universitários Católicos Italianos e, em 1946, tornou-se presidente dos Licenciados Católicos. Desempenhou, nestes anos, uma intensa actividade de apostolado.
Em 1936, inscreveu-se na Universidade de Bolonha, na Faculdade de Engenharia Mecânica, formando-se, com óptima classificação, em 1941. O percurso universitário marcou uma nova etapa no seu caminho espiritual, animado pela meditação do mistério eucarístico. Terminado o curso, começou a trabalhar na Fiat, em Turim. Aqui, dedicou-se, também, a diversas iniciativas: fazia conferências, organizava peregrinações, visitava os pobres da Conferência de São Vicente de Paulo.
Nesse ano, a Itália entrou na guerra – a Segunda Grande Guerra - e Alberto partiu como militar, desempenhando, na caserna, um apostolado intenso. Conseguiu mudar muitas coisas: venceu as blasfêmias e a imoralidade; despertou o sentido da fé no coração de muitos; constituiu um grupo de compromisso de vida cristã.
Terminada a sua participação na guerra, Alberto regressou a Rímini. No dia 1 de Novembro de 1943, um terrível bombardeamento destruiu, completamente, a cidade. Alberto tornou-se operário da caridade: socorria os feridos, tirando-os das ruínas; distribuía pelos pobres tudo o que tinha e o que conseguia recolher; salvou muitos jovens da deportação dos alemães.
Depois da libertação de Rímini, em Outubro de 1944, foi constituída a primeira Junta Municipal do Comité de Libertação e Alberto é um dos Assessores. Com apenas 26 anos, tinha dado provas de ser muito realista, corajoso e disponível. Era reconhecida a sua coragem para enfrentar as situações mais difíceis. Por isso, foram-lhe confiadas as tarefas mais delicadas e melindrosas.
Em 1945, inscreveu-se no Partido da Democracia Cristã, concebendo a sua actividade política como a expressão mais nobre da fé por ele vivida, de acordo com as palavras do Papa Pio XII: “o campo político é o campo de uma caridade mais ampla: a caridade política”.
Em 1946, sentiu que o Senhor o chamava para formar uma família e desejava para sua esposa a jovem com quem tinha partilhado uma forte amizade espiritual. Manifestou-lhe esta sua intenção, mas a jovem já tinha feito outra opção.
Na noite do dia 5 de Outubro de 1946, quando ia de bicicleta fazer um comício eleitoral, foi atropelado por um caminhão militar. Alberto faleceu algumas horas mais tarde, sem ter recuperado os sentidos.
No dia 22 de Maio de 1986, foi emanado o decreto que confirmava as suas virtudes heróicas, tendo sido proclamado ‘Venerável’. No dia 7 de Julho de 2003, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu à sua intercessão uma cura milagrosa.
Alberto Marvelli foi beatificado pelo Papa João Paulo II, na Basílica de Loreto, Itália. Na homilia da Missa, o Papa disse: “…Alberto Marvelli, jovem forte e livre, generoso filho da Igreja de Rímini e da Acção Católica, concebeu toda a sua breve vida, que durou apenas 28 anos, como um dom do amor a Jesus pelo bem dos irmãos. “Jesus envolveu-me com a sua graça”, escreveu no seu diário; “Mais não vejo do que Ele, penso unicamente n’Ele”.
Alberto fez da Eucaristia quotidiana o centro da sua vida. Na oração ele procurava inspiração também para o seu compromisso político, convicto da necessidade de viver plenamente como filhos de Deus na história, para fazer dela uma história de salvação.
No difícil período da segunda guerra mundial, que semeava morte e multiplicava violências e sofrimentos atrozes, o beato Alberto alimentava uma intensa vida espiritual, da qual brotava aquele amor a Jesus que o fazia esquecer-se constantemente de si próprio para carregar a cruz dos pobres…”

A memória litúrgica do Beato Alberto Marvelli celebra-se no dia 5 de Outubro.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

“…Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
 invocai-O, enquanto está perto.
 Deixe o ímpio o seu caminho
 e o homem perverso os seus pensamentos.
 Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
 ao nosso Deus, que é generoso em perdoar…” (Isaías 55, 6-7)