PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

quarta-feira, 14 de março de 2018

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 7 de Março

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuamos as catequeses sobre a Santa Missa e, com esta catequese, vamos reflectir sobre a Oração Eucarística. Depois de se concluir o rito da apresentação do pão e do vinho, tem início a Oração Eucarística, que qualifica a celebração da Missa, constitui o seu momento central e leva à sagrada comunhão. Corresponde ao que o próprio Jesus fez, à mesa, com os Apóstolos, na Última Ceia, quando «deu graças» sobre o pão e depois sobre o cálice do vinho (cf. Mt 26, 27; Mc 14, 23; Lc 22, 17.19; 1 Cor 11, 24): a sua acção de graças é vivida em cada Eucaristia, associando-nos ao seu sacrifício de salvação.
Nesta Oração solene — a Oração eucarística é solene —, a Igreja exprime o que ela realiza quando celebra a Eucaristia e o motivo pelo qual a celebra, ou seja, fazer comunhão com Cristo, realmente presente no pão e no vinho consagrados. Depois de convidar o povo a elevar os corações ao Senhor e a dar-lhe graças, o sacerdote pronuncia a Oração em voz alta, em nome de todos os presentes, dirigindo-se ao Pai, por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo. «O significado desta Oração é que toda a assembleia dos fiéis se una com Cristo para magnificar as grandes obras de Deus e para oferecer o sacrifício» (Ordenamento Geral do Missal Romano, 78). E, para nos unir, devemos compreender. Por isso, a Igreja quis celebrar a Missa na língua que as pessoas entendem, a fim de que cada um possa unir-se a este louvor e a esta grande oração, juntamente com o sacerdote. Na verdade, «o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício» (Catecismo da Igreja Católica, 1367).
No Missal, há várias fórmulas de Oração eucarística, todas constituídas por elementos característicos, que gostaria de recordar agora (cf. OGMR, 79; CIC, 1352-1354). Todas são belíssimas. Antes de tudo, há o Prefácio, que é uma acção de graças pelos dons de Deus, em particular pelo envio do seu Filho como Salvador. O Prefácio conclui-se com a aclamação do «Santo», normalmente cantada. É bom cantar o “Santo”: “Santo, Santo, Santo é o Senhor”. É bom cantá-lo. Toda a assembleia une a própria voz àquela dos Anjos e dos Santos para louvar e glorificar a Deus.
Depois há a invocação do Espírito, a fim de que, com o seu poder, consagre o pão e o vinho. Invocamos o Espírito para que venha e, no pão e no vinho, esteja presente Jesus. A acção do Espírito Santo e a eficácia das próprias palavras de Cristo, proferidas pelo sacerdote, tornam realmente presente, sob as espécies do pão e do vinho, o seu Corpo e o seu Sangue, o seu sacrifício, oferecido na cruz de uma vez para sempre (cf. CIC, 1375). Nisto, Jesus foi claríssimo. Ouvimos como São Paulo, no início, narra as palavras de Jesus: «Este é o meu corpo, este é o meu sangue». «Este é o meu sangue, este é o meu corpo». O próprio Jesus disse isto. Não devemos formular pensamentos estranhos: “Mas, isso será possível?...”. É o corpo de Jesus; ponto final! A fé… Ajuda-nos a fé; com um acto de fé, acreditamos que é o corpo e o sangue de Jesus. É o “mistério da fé”, como dizemos depois da consagração. O sacerdote diz: «Mistério da fé» e respondemos com uma aclamação. Celebrando o memorial da morte e ressurreição do Senhor, na expectativa da sua vinda gloriosa, a Igreja oferece ao Pai o sacrifício que reconcilia céu e terra: oferece o sacrifício pascal de Cristo, oferecendo-se com Ele e pedindo, em virtude do Espírito Santo, para se tornar “em Cristo um só corpo e um só espírito” (Oração eucarística III; cf.  Sacrosanctum Concilium, 48 OGMR, 79f). A Igreja deseja unir-nos a Cristo e tornar-se, com o Senhor, um só corpo e um só espírito. É esta a graça e o fruto da Comunhão sacramental: alimentamo-nos do Corpo de Cristo para nos tornarmos, nós que o comemos, o seu Corpo vivo, hoje, no mundo.
Este é o mistério de comunhão: a Igreja une-se à oferta de Cristo e à sua intercessão e, nesta luz, «nas catacumbas, a Igreja é muitas vezes representada como uma mulher em oração, de braços largamente abertos, em atitude orante. Como Cristo, que estendeu os braços na Cruz, assim, por Ele, com Ele e n’Ele, a Igreja oferece-se e intercede por todos os homens» (CIC, 1368). A Igreja que ora, a Igreja orante. É bom pensar que a Igreja ora, reza. Há um trecho no livro dos Actos dos Apóstolos que refere que, quando Pedro estava no cárcere, a comunidade cristã rezava. Diz assim: “Orava incessantemente por ele”. A Igreja que ora, a Igreja orante. E quando vamos à Missa é para fazer isto: fazer Igreja orante.
A Oração eucarística pede a Deus que receba todos os seus filhos na perfeição do amor, em união com o Papa e o Bispo, mencionados pelo nome, sinal de que celebramos em comunhão com a Igreja universal e com a Igreja particular. A súplica, como oferenda, é apresentada a Deus por todos os membros da Igreja, vivos e defuntos, na expectativa da bem-aventurada esperança de partilhar a herança eterna do céu, com a Virgem Maria (cf. CIC, 1369-1371). Ninguém, nem nada, fica esquecido na Oração eucarística; mas, cada coisa é reconduzida a Deus, como recorda a doxologia que a conclui. Ninguém é esquecido. E se eu tiver uma pessoa, parentes, amigos, que estão em necessidade ou passaram deste mundo para o outro, posso nomeá-los neste momento, interiormente e em silêncio ou escrever para que o nome seja pronunciado. “Padre, quanto devo pagar para que o meu nome seja dito?” — “Nada”. Entendestes isto? Nada! Não se paga a Missa. Ela é o sacrifício de Cristo, que é gratuito. A redenção é gratuita. Se quiseres, faz uma oferta, mas não se paga. É importante entender isto.
Esta fórmula codificada de oração, talvez a possamos sentir como algo do passado — é verdade, é uma fórmula antiga — mas, se compreendermos bem o seu significado, então certamente participaremos melhor. De facto, ela exprime tudo o que realizamos na celebração eucarística: e, além disso, ensina-nos a cultivar três atitudes que nunca deveriam faltar aos discípulos de Jesus. As três atitudes: primeira, aprender a “dar graças, sempre e em todos os lugares”, e não só em determinas ocasiões, quando tudo corre bem; segunda, fazer da nossa vida um dom de amor, livre e gratuito; terceira, fazer comunhão concreta, na Igreja e com todos. Portanto, esta Oração central da Missa educa-nos, aos poucos, a fazer de toda a nossa vida uma “eucaristia”, isto é uma acção de graças. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



SALMO 136

Refrão: Se eu de ti me não lembrar, Jerusalém,
             fique presa a minha língua.

Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar,
com saudades de Sião.
Nos salgueiros das suas margens,
dependurámos nossas harpas.

Aqueles que nos levaram cativos
queriam ouvir os nossos cânticos
e os nossos opressores uma canção de alegria:
«Cantai-nos um cântico de Sião».

Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor
em terra estrangeira?
Se eu me esquecer de ti, Jerusalém,
esquecida fique a minha mão direita.

Apegue-se-me a língua ao paladar,
se não me lembrar de ti,
se não fizer de Jerusalém
a maior das minhas alegrias.

SANTOS POPULARES



SANTA MARIA AFONSINA DANIL GHATTAS

Maryam Soultaneh Danil Ghattas nasceu, em Jerusalém, no dia 4 de Outubro de 1843. Desde pequena, sentia uma devoção especial pela Virgem Maria e pela a recitação do Rosário. “Que Mãe bela, Maria! Não a posso descrever. Nenhuma imagem se assemelha, sequer um pouco, à sua imensa beleza. Bem-aventurado aquele que goza eternamente”, disse ela num dos seus escritos, divulgados pela sua comunidade.
Foi baptizada no dia 19 de Novembro de 1843, e recebeu o Sacramento da Confirmação das mãos do primeiro Patriarca latino de Jerusalém, D. José Valerga, depois da restauração do patriarcado em 18 de Julho de 1842.
Foi graças ao seu estreito relacionamento com Maria que D. José pode ver, com clareza – quando ela tinha apenas 14 anos – que o Senhor a chamava para a vida religiosa. O seu amor à Virgem ajudou-a, também, a enfrentar algumas dificuldades, como a oposição do seu pai à sua vocação. Finalmente, em 1860, vestiu o hábito no Instituto das Irmãs de São José da Aparição, tomando o nome de Maria Afonsina.
 “Sobressaia-se pela sua profunda piedade e firme adesão à fé católica. Fundou a associação das Filhas de Maria e, também, outra orientada para as mães cristãs. Continuou o seu trabalho apostólico, em Belém”, escreveu  o postulador para sua causa, Pe. Vitor Tomás Gomez, OP.
A Irmã Maria Afonsina foi favorecida com várias aparições de Nossa Senhora, que lhe revelou o seu desejo de que ela fundasse a Congregação do Santo Rosário. A Virgem Maria falou-lhe do Pe. José Tannus, um santo sacerdote do patriarcado latino, sugerindo que ele fosse o seu director espiritual e administrador da Congregação. Foi ele que encontrou, em Jerusalém, não longe do Patriarcado, uma modesta casa na qual entraram as cinco primeiras postulantes - entre elas Irmã Maria Afonsina - em 24 de Julho de 1880. O Patriarca Vicente Bracco impõe o hábito às postulantes, em 15 de Dezembro de 1881.
A Irmã Maria Afonsina enfrentou várias dificuldades para obter de Roma a sua dispensa, do Instituto das Irmãs de São José da Aparição, para se dedicar à nova congregação: a Congregação do Santo Rosário.
Em 6 de Outubro de 1883, a Irmã Maria Afonsina - que quis conservar o mesmo nome na nova congregação - recebeu o hábito da Congregação do Rosário. Em 1885, foi admitida à profissão e pronunciou os seus primeiros votos.
A 25 de Julho de 1885, foi viver numa nova casa da Congregação, em Jaffa de Galileia, perto de Nazaré, com outra Irmã, para dar apoio à paróquia local. Foi ali que se deu um milagre: um dia, Nathira I'd, uma menina, caiu num poço profundo, cheio de água. A Irmã Maria Afonsina teve, então, a inspiração de lançar o seu Rosário ao poço e dirigiu-se, em seguida, à igreja para invocar Nossa Senhora e rezar o Rosário com outras meninas. Passado pouco tempo, Nathira saiu do poço são e salva, dizendo que viu uma grande luz e uma escada em forma de rosário que a ajudou a sair.
Em 1886, fundou uma escola feminina em Beit Sahour, pequena localidade de pastores, perto de Belém, dando trabalho às jovens pobres da cidade.
Em 1887, com três Irmãs, deixou Beit Sahour e foi para Salt, a primeira missão na Transjordânia. Dois anos mais tarde, foi enviada a Naplouse; porém voltou para a casa central de Jerusalém por razões de saúde. Uma vez restabelecida, foi enviada para Zababdeh. Em 1892, viajou para Nazaré, onde cuidou do Pe.Tannus até à sua morte.
Em 1893, a Irmã Maria Afonsina abriu, em Belém, uma oficina para dar trabalho às jovens pobres da cidade. Passou ali 15 anos de zelo e entusiasmo.
Em 1909, foi enviada para a casa central de Jerusalém, onde fundou um orfanato, permanecendo naquela cidade até 1917, ocasião em que foi enviada para fundar um orfanato em Aïn-Karem, a aldeia onde viveu Santa Isabel e onde Maria a foi visitar e proclamou o seu ‘Magnificat’. Ali pôde voltar à sua vida de oração e cumprir o desejo da Virgem Maria: que o Rosário fosse rezado perpetuamente. Ali permaneceu até à sua morte, em 25 de Março de 1927. A Madre Maria Afonsina morreu rezando o rosário com a sua irmã, Hanneh Danil Ghattas.
 “Ó Senhor! É assim que te mostras generoso e consolas os pecadores que não te suplicam! Do que é feita tua caridade para com teus amigos e eleitos? Ó Maria, minha mãe! Quem te pode compreender? Quem pode dar-se conta da tua compaixão para com as filhas da tua raça, especialmente aquelas que se sentem desorientadas em sua vida?”, escreveu a Irmã Afonsina.
A Irmã Maria Afonsina viveu 42 anos ao serviço de seu Instituto. Em todos os lugares onde morava, concentrava sua aação em ensinar a ler e a escrever, a fazer trabalhos manuais, fundava associações para as mulheres, ensinava o catecismo, e, obviamente, difundia a recitação do Rosário. “A mortificação de si mesmo atrai graças imensas, assim como a oração e a modéstia”, repetia constantemente.
Actualmente, há cerca de 300 Irmãs da Congregação do Santo Rosário, presentes na Palestina, Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Emirados Árabes Unidos, Egipto e Roma. A congregação apenas aceita jovens de origem árabe e é seguidora do rito latino.
“Dei-me como uma oferenda total por tudo o que a Divina Providência queria de mim. Não encontro nenhum mal naquilo que sofro, porque sou uma oferenda do Rosário”, dizia Santa Maria Afonsina.
A Irmã Maria Afonsina Danil Ghattas foi beatificada pelo Papa Bento XVI, no dia 22 de Novembro de 2009, na Basílica da Anunciação, em Nazaré, Israel, em cerimónia presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos e enviado especial do Papa. Foi canonizada pelo Papa Francisco, no dia 17 de Maio de 2015, na Basílica de São Pedro, em Roma.

domingo, 4 de março de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- III DOMINGO DA QUARESMA        

“…o Senhor abençoou e consagrou o dia de sábado.
 Honra pai e mãe,
 a fim de prolongares os teus dias
 na terra que o Senhor teu Deus te vai dar.
 Não matarás.
 Não cometerás adultério.
 Não furtarás.
 Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.
 Não cobiçarás a casa do teu próximo;
 não desejarás a mulher do teu próximo,
 nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento,
 nem coisa alguma que lhe pertença…” (cf. Êxodo 20, 12-17)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 28 de Fevereiro

Bom dia, queridos irmãos e irmãs!
Continuamos as catequeses sobre a Santa Missa. À Liturgia da Palavra — sobre a qual meditei nas catequeses passadas — segue-se a outra parte constitutiva da Missa, que é a Liturgia eucarística. Nela, através dos sinais sagrados, a Igreja torna continuamente presente o Sacrifício da nova aliança, selada por Jesus no altar da Cruz (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.  Sacrosanctum concilium, 47). O primeiro altar cristão foi o da Cruz, e quando nos aproximamos do altar, para celebrar a Missa, a nossa memória vai ao altar da Cruz, onde se realizou o primeiro sacrifício. O sacerdote, que na Missa representa Cristo, cumpre aquilo que o próprio Senhor fez e confiou aos discípulos na Última Ceia: tomou o pão e o cálice, deu graças e distribuiu-os aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei... bebei: isto é o meu Corpo... isto é o cálice do meu Sangue. Fazei isto em memória de mim!».
Obediente ao mandato de Jesus, a Igreja esquematizou a Liturgia eucarística em momentos que correspondem às palavras e aos gestos realizados por Ele, na vigília da sua Paixão. Assim, na preparação dos dons, levam-se ao altar o pão e o vinho, ou seja, os elementos que Cristo tomou nas suas mãos. Na Prece eucarística, damos graças a Deus pela obra da redenção, e as ofertas tornam-se o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Seguem-se a fracção do Pão e a Comunhão, mediante as quais revivemos a experiência dos Apóstolos, que receberam os dons eucarísticos das mãos do próprio Cristo (cf. Ordenamento Geral do Missal Romano, 72).
Portanto, ao primeiro gesto de Jesus: «Tomou o pão e o cálice do vinho», corresponde a preparação dos dons. É a primeira parte da Liturgia eucarística. É bom que o pão e o vinho sejam apresentados ao sacerdote pelos fiéis, porque eles significam a oferta espiritual da Igreja, ali congregada para a Eucaristia. É bom que, precisamente, os fiéis levem o pão e o vinho ao altar. Não obstante, hoje, «os fiéis já não levem, como outrora, o próprio pão e vinho, destinados à Liturgia; todavia, o rito da apresentação destes dons conserva o seu valor e significado espiritual» (ibid., n.73). E, a este propósito, é significativo que, ao ordenar um novo presbítero, o Bispo, quando lhe entrega o pão e o vinho, diz: «Recebe as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico» (Pontifical Romano — Ordenação dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos). O povo de Deus leva a oferta: o pão e o vinho, a grande oferta para a Missa! Portanto, nos sinais do pão e do vinho, o povo fiel põe a própria oferta nas mãos do sacerdote, que a coloca no altar, ou mesa do Senhor, «que é o centro de toda a Liturgia eucarística» (OGMR, n. 73). Ou seja, o centro da Missa é o altar, e o altar é Cristo; é necessário olhar sempre para o altar, que constitui o cerne da Missa. Por conseguinte, no «fruto da terra e do trabalho do homem» oferece-se o compromisso dos fiéis de fazer de si mesmos, obedientes à Palavra divina, um «sacrifício agradável a Deus, Pai Todo-Poderoso», «pelo bem de toda a sua santa Igreja». Deste modo, «a vida dos fiéis, o seu louvor, o seu sofrimento, a sua oração e o seu trabalho unem-se aos de Cristo e à sua oblação total, adquirindo assim um novo valor» (Catecismo da Igreja Católica, 1.368).
Sem dúvida, a nossa oferta é pouca coisa, mas Cristo tem necessidade deste pouco. O Senhor pede-nos pouco e dá-nos muito. Pede-nos pouco… Na vida diária, pede-nos a boa vontade; pede-nos um coração aberto; pede-nos a vontade de ser melhores, para receber Aquele que se oferece a nós, na Eucaristia; pede-nos estas oblações simbólicas que depois se tornarão o seu Corpo e o seu Sangue. Uma imagem deste movimento oblativo de oração é representada pelo incenso que, consumido no fogo, liberta uma fumaça perfumada que se eleva: incensar as ofertas, como se faz nos dias santos, incensar a cruz, o altar, o presbítero e o povo sacerdotal manifesta visivelmente o vínculo ofertorial que une todas estas realidades ao sacrifício de Cristo (cf. OGMR, n. 75). E não vos esqueçais: há o altar, que é Cristo, mas sempre em referência ao primeiro altar, que é a Cruz; e ao altar, que é Cristo, levamos o pouco dos nossos dons, o pão e o vinho, que depois se tornarão muito: o próprio Jesus que se oferece a nós!
É tudo isto que exprime também a oração de ofertório. Nela, o sacerdote pede a Deus que aceite os dons que a Igreja lhe oferece, invocando o fruto do admirável intercâmbio entre a nossa pobreza e a sua riqueza. No pão e no vinho, apresentamos-lhe a oblação da nossa vida, a fim de que seja transformada pelo Espírito Santo no sacrifício de Cristo, tornando-se com Ele uma única oferenda espiritual agradável ao Pai. Enquanto concluímos assim a preparação dos dons, dispomo-nos para a Prece eucarística (cf. ibid., n. 77).
A espiritualidade da doação de si, que este momento da Missa nos ensina, possa iluminar os nossos dias, os relacionamentos com os outros, aquilo que levamos a cabo e os sofrimentos que encontramos, ajudando-nos a construir a cidade terrena à luz do Evangelho. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


SALMO 18

Refrão: Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma;
as ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração;
os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos.

O temor do senhor é puro
e permanece para sempre;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.


São mais preciosos que o ouro,
o ouro mais fino;
são mais doces que o mel,
o puro mel dos favos.

SANTOS POPULARES



SÃO FAUSTINO DA ENCARNAÇÃO

Manuel Míguez González nasceu em Xamirás, uma aldeia de Acebedo del Rio, Celanova, na província de Orense, Espanha, no dia 24 de Março de 1831. Foi o quarto filho do casal Benito Miguez e Maria Gonzalez, agricultores pobres e cristãos. A sua família era profundamente religiosa e trabalhadora, propiciando-lhe um bom ambiente de fé. No seio da família, Manuel aprendeu a rezar e a amar a Virgem Maria; a solidariedade com os necessitados e a responsabilidade no trabalho. Foi baptizado com o nome de Manuel mas, ao ser ordenado sacerdote, assumiu o nome de Faustino da Encarnação. A sua vida transcorreu como a de todos os da sua idade, dividida entre os estudos, o trabalho rural, o encontro com os amigos, a família e as orações. Na escola de S. José de Calasanz seguiu Cristo, dedicando-se à educação. Como Padre das Escolas Pias, aplicou-se, todos os dias, ao serviço da infância e da juventude.
Estudou latim e ciências humanas no Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, em Orense, no qual se sentiu chamado por Deus para se tornar sacerdote e professor, segundo o espírito de São José Calazans. No ano de 1850, entrou no Noviciado das Escolas Pias de São Fernando, em Madrid, onde tomou o hábito, professou os seus votos perpétuos e se ordenou sacerdote, em 1856.
Durante alguns anos, o Padre Míguez desenvolveu o seu apostolado em Cuba, no Colégio de Guanabacoa, onde começou a entusiasmar-se pelos estudos de Botânica e a dedicar-se a uma actividade que, com o tempo, viria a ser uma das suas ocupações predilectas: a produção e distribuição de ervas medicinais, que curavam múltiplas doenças e com as quais recuperou importantes personalidades da sua época.
Sempre atento às necessidades das pessoas, tomou contacto com a realidade vital do povo; participou nos seus problemas, sofrimentos e enfermidades; e respondeu-lhes na medida das suas forças. Dada a sua vocação científica, procurou, também com este seu talento, socorrer a humanidade abatida por tantos sofrimentos físicos e, a exemplo do Mestre divino, preocupou-se com a saúde tanto da alma como do corpo.
Tendo retornado a Espanha, como padre escolápio (escolápios são religiosos e leigos seguidores dos ensinamentos de São José Calasanz que fundou a Congregação das Escolas Pias), leccionou em muitas escolas, das mais variadas dioceses do país. Nos cinquenta anos de magistério, quis sempre ocupar o lugar simples e comum de professor, sem cargos de destaque, para se dedicar directamente à formação e à instrução das crianças e dos jovens. Nalgumas ocasiões, chegou a ser o director dos alunos internos, para os quais foi amigo, pai, companheiro e conselheiro. Escreveu vários livros, de fácil compreensão, sobre ciências naturais e botânica. Como sacerdote, escolheu o ministério do confessionário, tornando-se director espiritual de muitos paroquianos.
Ao mesmo tempo, para ajudar os doentes, dedicou-se à preparação de produtos fitoterapêuticos, com os quais obteve curas surpreendentes. Enfrentou muitos opositores. Muitos o procuravam porque já haviam sido curados pelas propriedades das ervas que ele indicara. Após as polémicas e oposições, doze medicamentos foram aprovados pela Directoria-Geral da Sanidade Pública e vendidos nas farmácias.
Transferido para a diocese de Getafe, o Padre Faustino fundou, para o bem da humanidade, o Instituto Míguez, com a aprovação do Vaticano, passando a cultivar e a produzir os medicamentos aprovados. Em Sanlúcar de Barrameda, na Galiza, constatou a ignorância e o abandono em que viviam as mulheres e a marginalização que existia no campo educativo. Convicto da importância da mulher na família e na sociedade - e animado do mesmo espírito que tinha impelido S. José de Calasanz – fundou, em 1875, o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora, dedicado à promoção humana e cristã das raparigas, especialmente das mais pobres, a fim de que, guiadas desde a mais tenra idade, chegassem a ser, dizia, boas cristãs, boas filhas, boas esposas, boas mães e membros úteis para a sociedade, da qual devem formar a parte mais interessante.
O Padre Faustino da Encarnação morreu em Getafe, aos 94 anos de idade, no dia 8 de Março de 1925. A sua longa vida consagrada totalmente ao Senhor, a quem amou sobre todas as coisas, foi um contínuo acto de fé e de aceitação da Sua vontade, em todos os momentos. Deixou-se moldar por Deus e só procurou a Sua glória. Amou o Instituto das Escolas Pias e procurou viver, com radicalidade e autenticidade, a sua vida religiosa. Este desejo está expresso num dos grandes motes da sua vida: «Ser como se deve ser, ou então não ser». Orientou o seu caminho para a contemplação do mistério da Encarnação, identificando-se com Aquele que, sendo Filho de Deus, assumiu a condição de servo, e seguiu o Seu exemplo de despojamento e humildade. Pelo caminho da verdade e da cruz chegou a ser um digno discípulo do Mestre divino.
O Padre Faustino Miguez, foi beatificado, pelo Papa João Paulo II, no dia 25 de Outubro de 1998. Na homilia, o Papa disse: “…«Quem se humilha será exaltado» (Lc 18, 14). Ao elevar à glória dos altares o sacerdote escolápio Faustino Míguez, cumprem-se estas palavras de Jesus que escutámos no Evangelho. O novo Beato, renunciando às próprias ambições, seguiu Jesus Mestre e consagrou a sua vida à educação das crianças e dos jovens, conforme o estilo de São José de Calasanz. Como educador, a sua meta foi a formação integral da pessoa. Como sacerdote, buscou sem cessar a santidade das almas. Como cientista, quis aliviar a enfermidade libertando a humanidade que sofre no corpo. Na escola e na rua, no confessionário e no laboratório, o Padre Faustino Míguez foi sempre transparência de Cristo, que acolhe, perdoa e anima.
«Homem do povo e para o povo», nada nem ninguém lhe esteve alheio. Constatou a situação de ignorância e marginalização em que vivia a mulher, a quem considerava a «alma da família e a parte mais interessante da sociedade». Com a finalidade de a guiar desde a infância pelo caminho da promoção humana e cristã, fundou o Instituto Calasanziano das Filhas da Divina Pastora, dirigido para a educação das meninas na piedade e nas letras.
O seu exemplo luminoso, entretecido de oração, estudo e apostolado, prolonga-se hoje no testemunho das suas filhas e de tantos educadores que trabalham com denodo e alegria, para gravar a imagem de Jesus na inteligência e no coração da juventude…”
O Padre Faustino foi canonizado pelo Papa Francisco, no dia 15 de Outubro de 2017, em Roma.
A memória litúrgica de São Faustino Míguez é celebrada no dia 8 de Março.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

EM DESTAQUE



SEMANA NACIONAL DA CÁRITAS

Sob o lema “Cuidar da casa comum”, as Cáritas Diocesanas de todo o país vão estar a celebrar a Semana Nacional da Cáritas, de 26 de Fevereiro  a 4 de Março. Inserido nesta iniciativa, a Cáritas leva a cabo o Peditório Nacional que visa recolher fundos para poder dar continuidade ao trabalho de apoio às muitas famílias e pessoas em situação de fragilidade que procuram a Instituição. . Participar é um gesto de corresponsabilidade que é determinante para o apoio diário a muitas famílias que actualmente atravessam dificuldades. (cf. Ecclesia)
Como é habitual, na nossa paróquia de Santa Maria da Feira, faremos o peditório para a Cáritas, no final das Missas do próximo Sábado e Domingo.

DA PALAVRA DO SENHOR



- II DOMINGO DA QUARESMA

“…Se Deus está por nós, quem estará contra nós?
 Deus, que não poupou o seu próprio Filho,
 mas O entregou à morte por todos nós,
 como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?
 Quem acusará os eleitos de Deus?
 Deus, que os justifica?
 E quem os condenará?
 Cristo Jesus, que morreu, e mais ainda, que ressuscitou
 e que está à direita de Deus e intercede por nós?…” (cf. Romanos 8, 31-34)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na oração do Angelus, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 18 de Fevereiro

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Neste primeiro domingo de Quaresma, o Evangelho evoca os temas da tentação, da conversão e da Boa Nova. Escreve o evangelista Marcos: «E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demónio» (Mc 1, 12-13). Jesus vai ao deserto a fim de se preparar para a sua missão no mundo. Ele não precisa de conversão, mas, sendo homem, deve passar através desta provação, quer por Si mesmo, a fim de obedecer à vontade do Pai, quer por nós, para nos dar a graça de vencer as tentações. Esta preparação consiste na luta contra o espírito do mal, ou seja, contra o diabo. Também para nós, a Quaresma é um tempo de “agonismo” espiritual, de luta espiritual: somos chamados a enfrentar o Maligno mediante a oração para sermos capazes, com a ajuda de Deus, de o vencer na nossa vida quotidiana. Nós sabemo-lo!... O mal, infelizmente, age na nossa existência e à nossa volta, onde se manifestam violências, rejeição do outro, fechamentos, guerras, injustiças. Estas são todas obras do maligno, do mal.
Imediatamente após as tentações no deserto, Jesus começa a pregar o Evangelho, ou seja, a Boa Nova, a segunda palavra. A primeira era “tentação”; a segunda, “Boa Nova”. Esta Boa notícia exige do homem conversão — terceira palavra — e fé. Ele anuncia: «O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo»; depois dirige a exortação: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (v. 15), isto é, acreditai nesta Boa notícia de que o Reino de Deus está próximo. Na nossa vida, temos sempre necessidade de conversão — todos os dias! —, e a Igreja faz-nos rezar por isso. Com efeito, nunca estamos suficientemente orientados para Deus e devemos dirigir constantemente a nossa mente e o nosso coração para Ele. Para fazer isto, é necessário ter coragem de rejeitar tudo o que nos leva por maus caminhos, os falsos valores que nos enganam, atraindo, de maneira sorrateira, o nosso egoísmo. Ao contrário, devemos confiar no Senhor, na sua bondade e no seu desígnio de amor para cada um de nós. A Quaresma é um tempo de penitência, sim, mas não é um tempo triste! É um tempo de penitência, mas não é um tempo triste, de luto. É um compromisso jubiloso e sério para nos despojarmos do nosso egoísmo, do nosso homem velho, e nos renovarmos segundo a graça do nosso Baptismo.
Somente Deus nos pode dar a verdadeira felicidade: é inútil que percamos o nosso tempo a procura-la por aí, nas riquezas, nos prazeres, no poder, na carreira... O reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações, porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus. Neste primeiro domingo de Quaresma, somos convidados a ouvir com atenção e a responder a este apelo de Jesus a convertermo-nos e a acreditar no Evangelho. Somos exortados a iniciar, com empenho, o caminho rumo à Páscoa, para acolher cada vez mais a graça de Deus, que quer transformar o mundo num reino de justiça, de paz, de fraternidade.
Maria Santíssima nos ajude a viver esta Quaresma com fidelidade à Palavra de Deus e com uma oração incessante, como fez Jesus no deserto. Não é impossível! Trata-se de viver os dias com o desejo de acolher o amor que vem de Deus e que quer transformar a nossa vida e o mundo inteiro. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR




SALMO 115

Refrão: Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor.

Confiei no Senhor, mesmo quando disse:
«Sou um homem de todo infeliz».
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:
quebrastes as minhas cadeias.
Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,
invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor
na presença de todo o povo,
nos átrios da casa do Senhor,
dentro dos teus muros, Jerusalém.


SANTOS POPULARES



SANTA TERESA VERZERI

Teresa Verzeri nasceu no dia 31 de Julho de 1801, em Bérgamo – Itália. Era a mais velha dos sete filhos de António Verzeri e da Condessa Helena Pedrocca-Grumelli. O seu irmão, Jerónimo, foi bispo de Brescia. A sua mãe, ainda jovem, passou por um grande momento de dúvida. No seu íntimo viveu a problemática da vocação e, indecisa entre escolher o casamento ou abraçar a vida monástica, ouviu a sua tia Antónia Grumelli, religiosa Clarissa, dizer em tom profético: "Deus destina-te aquele estado (ao matrimónio) para seres a mãe de uma santa prole".
Teresa aprendeu com a sua mãe - uma mulher profundamente católica - a conhecer ea amar a Deus, com toda o amor do seu coração. No seu percurso espiritual, foi acompanhada pelo Cónego José Benaglio, Vigário-Geral da Diocese de Bérgamo, que já acompanhava a família.
Teresa fez os seus estudos básicos, em casa. Inteligente, dotada de uma mente aberta, vigilante, recta, foi educada para buscar os valores eternos e a fidelidade à acção da graça. Desde a infância, Teresa deixava-se iluminar pelo Espírito da Verdade que a vai animar no combate espiritual constante: à luz da fé, descobre e experimenta o peso da sua própria fragilidade, desmascarando - tanto quanto é possível ao ser humano - todas as formas de falsidade, orgulho e medo, para se render totalmente a Deus. Por meio da graça, percorreu um caminho feito de desapego, de pureza de intenção, de rectidão e simplicidade que a levou a buscar "Dio solo": só a Deus.
Interiormente, Teresa viveu, também, a experiência mística da "ausência de Deus"; no entanto, ela nunca perdeu a sua confiança e soube abandonar-se a Deus, Pai providente e misericordioso, a quem dedicou toda a sua vida em obediência e, como Jesus, viveu a sua solidão como entrega de si mesma, por amor.
Com o desejo de agradar a Deus e fazer somente a Sua vontade, amadureceu a sua vocação religiosa, no Mosteiro Beneditino de Santa Grata, do qual saiu - após um longo e laborioso discernimento - para fundar, em Bérgamo, juntamente com a Cónego José Benaglio, em 08 de Fevereiro de 1831, a Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus.
Teresa Verzeri viveu, na primeira metade do século XIX, o período das grandes mudanças na história da Itália e na sociedade de Bérgamo, marcado por agitação política, revoluções, perseguições que não pouparam a Igreja.
Numa altura em que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus encontrava muitos opositores, Teresa confiou, às primeiras Filhas do Sagrado Coração, este testamento que caracteriza o património espiritual da sua família religiosa: "Jesus Cristo, tem dado - a vós e ao vosso instituto - o dom precioso do Seu Coração, porque não aprendestes de outros a santidade. Ele é a fonte inesgotável da verdadeira santidade". (Livro dos Deveres, vol. I, p. 484)
Teresa apercebe-se, muito claramente, daquilo que é importante e urgente para responder às necessidades do seu tempo. Com disponibilidade absoluta - em qualquer situação que a caridade o exija, mesmo nas mais perigosas e sérias - dedicou-se, com as suas Irmãs, a vários serviços apostólicos: "educação da juventude da classe média e da classe baixa; internatos para órfãos em perigo, abandonados e até mesmo desencaminhados; escolas, doutrina cristã, exercícios espirituais, recreações festivas, cuidado dos doentes". (Práticas, 1841)
No exercício da sua missão, revela um talento especial de mestra de almas, apóstola e educadora. Teresa adoptou, expressamente, o sistema preventivo: "Deveis cultivar e guardar, com muita atenção, a mente e o coração das vossas meninas - enquanto ainda são novas - para evitar, tanto quanto possível, que nelas entre o mal. É melhor evitar uma queda, com vossos avisos e admoestações, do que as reerguer com a correcção". (Livro dos Deveres, vol. III, p. 368)
A educação é obra de persuasão, respeitando a individualidade e o modo de ser de cada um. Para isso, ela recomendou deixar às jovens "uma santa liberdade, para que elas possam fazer, de boa vontade e de pleno acordo, o que, sufocadas pelo mando, fariam como peso e com má vontade"; que a escolha dos meios se adaptem "ao temperamento, às inclinações, às circunstâncias de cada uma... e sobre o conhecimento de cada uma", determinando a maneira pela qual tratá-la. (Livro dos Deveres, vol. I, p. 447 e 349)
O Cónego Benaglio morreu em 1836. Teresa, apoiada na obediência - que lhe garantia que a Congregação foi querida por Deus - dedicou-se completamente à sua aprovação, consolidação e expansão. Enfrentou muitos obstáculos, colocados pelas autoridades civis e, também, pela hierarquia eclesiástica que sujeitou a sua virtude a uma dura provação. Teresa mostrou-se heroica, abandonando-se à vontade de Deus, que a sustentava.
Depois de uma vida de intensa doação, Teresa morreu em Brescia, no dia 3 de Março de 1852. Deixou a Congregação já aprovada pela Igreja e pelo governo; uma vasta documentação – especialmente nas Constituições, no Livro dos Deveres e em mais de 3.500 cartas – na qual é possível admirar toda a riqueza da sua experiência espiritual e humana.
A preciosa herança espiritual, transmitida por ela à Congregação, tem o seu centro no Coração de Jesus, de quem as Filhas do Sagrado Coração herdam o espírito de eximia caridade, que a obriga a ser "toda para todos". Teresa di-lo desta forma: "As Filhas do Sagrado Coração de Jesus - como aqueles que absorvem a sua caridade na própria fonte do amor, isto é, no Coração de Jesus Cristo - devem arder da caridade do mesmo Coração divino pelo próximo. Caridade puríssima que não visa senão a glória de Deus e o bem das almas; caridade universal que não exclui ninguém, mas abraça a todos; caridade generosa que não se abate no sofrimento, não se alarma com a contradição, mas que, no sofrimento e na oposição, cresce em força e vence pela paciência". (Livro dos Deveres, vol. I, p. 58) Animadas deste espírito, as Filhas do Sagrado Coração de Jesus continuam, hoje, a missão da Irmã Teresa Verzeri em Itália, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na República Centro Africana, nos Camarões, na Índia e na Albânia.
As relíquias de Santa Teresa Verzeri são veneradas na capela das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, em Bérgamo.
Teresa Verzeri foi beatificada no dia 27 de Outubro de 1946, pelo Papa Pio XII e canonizada no dia 10 de Junho de 2001, pelo Papa João Paulo II. Na homilia da missa de canonização, o Papa disse: “…’O Espírito da verdade vos guiará à verdade total’ (Ant. da Comunhão). Teresa Eustóquio Verzeri, que hoje contemplamos na glória de Deus, na sua breve mas intensa vida, deixou-se conduzir docilmente pelo Espírito Santo. Deus revelou-se-lhe como misteriosa presença diante da qual nos devemos inclinar com profunda humildade. A sua alegria era considerar-se sob a constante protecção divina, sentindo-se nas mãos do Pai celeste, no qual aprendeu a ter sempre confiança.
Ao abandonar-se à acção do Espírito, Teresa viveu uma particular experiência mística "da ausência de Deus". Só uma fé inabalável a impediu de não perder a confiança neste Pai providente e misericordioso, que a punha à prova: "É justo - escrevia ela - que a esposa, depois de ter seguido o esposo em todos os seus sofrimentos que acompanharam a Sua vida, participe ainda com Ele na mais terrível" (Livro dos deveres, III, 130).
Eis o ensinamento que Santa Teresa deixa ao Instituto das "Filhas do Sagrado Coração de Jesus", por ela fundado. Eis o ensinamento que nos deixa a todos nós. Mesmo entre as contrariedades e os sofrimentos íntimos e exteriores, é preciso manter viva a fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo…”

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

EM DESTAQUE



- HOMILIA DE D. ANTÓNIO TAIPA,
ADMINISTRADOR DIOCESANO DO PORTO,
NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Iniciamos a Quaresma. É um particular tempo de graça. Tempo carregado de força simbólica. Faz-nos recuar aos quarenta anos de deserto, do povo da antiga aliança. Tempo maravilhoso. De provações e de experiência das mais belas maravilhas de Deus, realizadas a favor daquela pobre gente resgatada do Egipto. Tempo de verdade, ou da verdade. Da grandeza e da infinita misericórdia de Deus, e da fraqueza e infidelidade do povo. Tempo de passagem da escravatura à liberdade. Do não ser ao ser povo de Deus.
Tempo que nos conduz aos quarenta dias de Jesus no deserto. Em que se nos revela como o verdadeiro Israel, fiel à palavra e vontade de Deus. Será por enxerto n'Ele que se há-de constituir o Novo Povo, o Povo da Nova aliança. Tempo de oração e penitência em que Jesus se prepara para o seu ministério público.
Diversos momentos da História da salvação à luz dos quais somos convidados a rever-nos.
É tempo que, como augura o Papa Francisco, somos chamados a viver com alegria e em verdade. Homens de verdade. Homens fiéis a si mesmos, fiéis a Deus e aos irmãos.

Começa com este rito da imposição das cinzas que nos projecta para uns quarenta dias de particular penitência e esforço de conversão. É um grande pedido de Deus. A súplica sofrida do seu amor materno. “Convertei-vos a mim de todo o coração", diz o Senhor pela boca do profeta. “Reconciliai-vos com Deus", recomenda Paulo.
Porque Deus é clemente e compassivo, paciente e misericordioso" revela Joel. Não sou eu, recorda Paulo, é Cristo de quem sou embaixador que vos pede.
A preocupação de Deus à procura do homem que lhe foge.
É isto, o nosso Deus, um Deus que ama. Que ama porque ama. Que ama porque é Ele. Porque é amor. É dom. Um Deus que ama até à loucura do dom do seu Filho, ou do dom que faz de si mesmo no Filho que entrega até á morte, pelos homens que procura.
A resposta que espera de nós vai significar-se e viver-se, vai tomar corpo, na tradicional prática da oração que se procura mais intensa e com mais tempo, da esmola e do jejum.
A conversão acontece na convergência duma assumida consciência da própria fraqueza e infidelidade, e duma fé firme na indestrutível misericórdia de Deus. Desse tremer, desse abalarem-se das entranhas da mãe diante dos perigos que vê correr os filhos que ama visceralmente.
Conversão que é um voltar-se para Deus, para o irmão e para a própria criação à qual tantas vezes mostramos as nossas costas. Assim parece entender-se aquela antiga prática quaresmal.

 A oração. O diálogo com Deus. A conversa com o Pai que se procura para O ouvir no que tem para nos dizer, e para lhe confidenciarmos a nossa vida. Para lhe dizermos como vão as coisas. Os nossos projectos, as nossas esperanças, e os nossos medos. As nossas realizações, e os insucessos. Tudo. Ele sabe tudo, mas nós precisamos de lho dizer.
Pobres que somos, precisamos d’Ele, da sua palavra, da sua ajuda, da sua presença. É nele, de facto, que somos e vivemos, que nos movemos e existimos. Sem ele não somos, não nos encontramos, não crescemos. Não vivemos.
Como nos diz, o nosso Papa Francisco, "dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida". É caminho de verdade, a oração.
É neste contexto que queremos ouvir em filial acolhimento, o nosso Santo Padre na proposta que nos deixa das "24 horas para o Senhor", com a celebração do Sacramento da Reconciliação, nos dias 9 e 10 de Março.

 A esmola. Partilhar com os irmãos o que somos e temos, o que podemos e sabemos. O sairmos de nós próprios, como gosta de dizer o Papa Francisco; o sairmos do que são as nossas coisas e coisitas que, tantas vezes, nos escravizam, nos prendem e nos isolam, para ir ao encontro do outro, na sua necessidade.
Dar a mão ao outro, para com ele, lutarmos por uma vida melhor, mais digna, mais consentânea com a dignidade humana.
Tendo valor em si mesmo, tudo isto há-de ser, sobretudo, um sinal daquilo a que todos somos chamados na construção da sociedade que somos e em que vivemos. Assente no cuidado para com o outro, na solidariedade, no amor.
Neste espírito, o contributo penitencial, a nossa partilha, nesta quaresma, será para o Fundo Solidário Diocesano e para apoio a um Orfanato das irmãs Marianitas, na Guiné-Bissau.

O jejum. Antes de mais, o jejum permite-nos "experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia-a-dia as mordeduras da fome", diz-nos o Santo Padre. Com ele, significamos ainda a nossa entrega a Deus, e a consciência de que é dele que dependemos, é dele que haurimos vida.
E o jejum significa também, e nessa mesma linha, a nossa liberdade em relação a tudo o que a terra produz; que não nos deixamos prender, nem dominar, por nada do que ela dá e pode dar e, ao mesmo tempo, o nosso respeito por esta Terra que é a casa comum e que somos chamados a respeitar e a cuidar, criada para o bem de todos.

Na perspetiva do Papa Francisco, será este o caminho para uma quaresma vivida com alegria e em verdade. Neste esforço, sermos aquilo que somos chamados a ser: um Povo que, enxertado em Jesus, dele se alimenta e com ele caminha para o Pai, a fonte e a meta de tudo.

DA PALAVRA DO SENHOR



- I DOMINGO DA QUARESMA 

“…O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.
 Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás.
 Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O.
 Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia
 e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
 Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»…”  (cf. Marcos 1, 12-15)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na homilia de Quarta-Feira de Cinzas, 14 de Fevereiro, na Basílica de Santa Sabina - Roma
O tempo de Quaresma é propício para corrigir os acordes dissonantes da nossa vida cristã e acolher a notícia sempre nova, feliz e esperançosa da Páscoa do Senhor. Na sua sabedoria materna, a Igreja propõe-nos prestar especial atenção a tudo o que possa arrefecer e oxidar o nosso coração crente.
Múltiplas são as tentações a que nos vemos expostos. Cada um de nós conhece as dificuldades que deve enfrentar. E é triste constatar, nas vicissitudes diárias, como se levantam vozes que, aproveitando-se da amargura e da incerteza, nada mais sabem semear senão desconfiança. E, se o fruto da fé é a caridade – como gostava de repetir Santa Teresa de Calcutá –, o fruto da desconfiança é a apatia e a resignação. Desconfiança, apatia e resignação: os demónios que cauterizam e paralisam a alma do povo crente.
A Quaresma é tempo precioso para desmascarar estas e outras tentações e deixar que o nosso coração volte a bater segundo as palpitações do coração de Jesus. Toda esta liturgia está impregnada por este sentir, podendo afirmar-se que o mesmo ecoa em três palavras que nos são oferecidas para «aquecer o coração crente»: para, olha e regressa.
Para um pouco!… Deixa esta agitação e este correr sem sentido que enche a alma de amargura, sentindo que nunca se chega a parte alguma. Para!...Deixa esta obrigação de viver de forma acelerada, que dispersa, divide e acaba por destruir o tempo da família, o tempo da amizade, o tempo dos filhos, o tempo dos avós, o tempo da gratuidade... o tempo de Deus.
Para um pouco com essa necessidade de aparecer e ser visto por todos, mostrar-se constantemente «em vitrina», que faz esquecer o valor da intimidade e do recolhimento.
Para um pouco com o olhar altivo, o comentário ligeiro e desdenhoso que nasce de se ter esquecido a ternura, a compaixão e o respeito pelo encontro com os outros, especialmente os vulneráveis, feridos e até imersos no pecado e no erro.
Para um pouco com essa ânsia de querer controlar tudo, saber tudo, devassar tudo, que nasce de se ter esquecido a gratidão pelo dom da vida e tanto bem recebido.
Para um pouco com o ruído ensurdecedor que atrofia e atordoa os nossos ouvidos e nos faz esquecer a força fecunda e criativa do silêncio.
Para um pouco com a atitude de fomentar sentimentos estéreis e infecundos que derivam do fechamento e da autocomiseração e levam a esquecer de sair ao encontro dos outros para compartilhar as cargas e os sofrimentos.
Para diante do vazio daquilo que é instantâneo, momentâneo e efémero, que nos priva das raízes, dos laços, do valor dos percursos e de nos sentirmos sempre a caminho.

Para, para olhar e contemplar!
Olha os sinais que impedem de se apagar a caridade, que mantêm viva a chama da fé e da esperança. Rostos vivos com a ternura e a bondade de Deus, que age no meio de nós.
Olha o rosto das nossas famílias que continuam a apostar dia após dia, fazendo um grande esforço para avançar na vida e, entre muitas carências e privações, não descuram tentativa alguma para fazer da sua casa uma escola de amor.
Olha os rostos interpeladores das nossas crianças e jovens carregados de futuro e de esperança, carregados de amanhã e de potencialidades que exigem dedicação e salvaguarda. Rebentos vivos do amor e da vida que sempre conseguem abrir caminho por entre os nossos cálculos mesquinhos e egoístas.
Olha os rostos dos nossos idosos, enrugados pelo passar do tempo: rostos portadores da memória viva do nosso povo. Rostos da sabedoria operante de Deus.
Olha os rostos dos nossos doentes e de quantos se ocupam deles; rostos que, na sua vulnerabilidade e no seu serviço, nos lembram que o valor de cada pessoa não pode jamais reduzir-se a uma questão de cálculo ou de utilidade.
Olha os rostos arrependidos de muitos que procuram remediar os seus erros e disparates e, a partir das suas misérias e amarguras, lutam por transformar as situações e continuar para diante.

Olha e contempla o rosto do Amor Crucificado, que continua hoje, a partir da cruz, a ser portador de esperança; mão estendida para aqueles que se sentem crucificados, que experimentam na sua vida o peso dos fracassos, dos desenganos e das desilusões.
Olha e contempla o rosto concreto de Cristo crucificado por amor de todos, sem exclusão. De todos? Sim, de todos… Olhar o seu rosto é o convite cheio de esperança deste tempo de Quaresma para vencer os demónios da desconfiança, da apatia e da resignação. Rosto que nos convida a exclamar: o Reino de Deus é possível!

Para, olha e regressa. Regressa à casa de teu Pai. Regressa, sem medo, aos braços ansiosos e estendidos de teu Pai, rico em misericórdia (cf. Ef 2, 4), que te espera!
Regressa! Sem medo: este é o tempo oportuno para voltar a casa, a casa do «meu Pai e vosso Pai» (cf. Jo 20, 17). Este é o tempo para se deixar tocar o coração... Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa muito diferente, e bem o sabe o nosso coração. Deus não Se cansa nem Se cansará de estender a mão (cf. Bula Misericordiae Vultus, 19).
Regressa sem medo para experimentar a ternura sanadora e reconciliadora de Deus! Deixa que o Senhor cure as feridas do pecado e cumpra a profecia feita a nossos pais: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração da pedra e vos darei um coração de carne» (Ez 36, 26).
Para, olha e regressa!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



SALMO 24

Refrão: Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

SANTOS POPULARES



BEATA MARIA DE JESUS D’HOOGHVORST

Emília d’Oultremont nasceu no dia 11 de Outubro de 1818, em Wégimont - Liége, Bélgica, numa família nobre e impregnada dos valores cristãos. Era filha do Conde Emílio d’Oultremont e da Condessa Maria de Lierneux de Presles. Recebeu uma sólida formação humanística e religiosa, que resultou num carácter enérgico, quer no plano físico – era uma óptima atleta - quer no plano moral. Coragem e energia foram dois traços fundamentais da sua personalidade.
A devoção ao Sagrado Coração, à Virgem Maria e, sobretudo, à Eucaristia, enraizou-se na sua alma juvenil e caracterizou sempre o desenvolvimento da sua espiritualidade. A personalidade da jovem desenvolveu-se de forma serena e equilibrada, enriquecida com os seus extraordinários dons humanos e espirituais. Ainda muito jovem, sente-se atraída fortemente por Deus, como o absoluto, e descobre a pessoa e a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola.
Sendo o seu pai Embaixador de Bélgica na Santa Sé, Emília acompanha-o em muitas das suas viagens através de Europa. Encontrando-se em Roma, durante uma cerimónia, num palácio, Emília sentiu-se envolvida pela graça e pelo amor de Deus que a levaram pronunciar, no íntimo do coração, estas palavras: “Mestre, só Tu na minha vida!”. Naquele momento, pensou consagrar-se inteiramente ao Senhor.
Mas, aos 18 anos, seguindo o costume da época, os seus pais falaram-lhe do matrimónio. Como qualquer outra jovem, Emília teve diversas propostas de casamento. Mas, quando conheceu o Conde Victor d’Hooghvorst van der Linden - “um jovem de virtude sólida e de piedade excepcional”, como ela mesma referiu - Emília reconheceu que o Senhor a queria conduzir pelo caminho do matrimónio. O seu casamento com o Conde Victor foi celebrado no dia 19 de Outubro de 1837. Viveu, em plenitude, a vida de uma esposa jovem e feliz. Deste casamento, nasceram quatro filhos: Adriano, Edmundo, Olímpia e Margarida. A alegria de ser mãe e a responsabilidade de cuidar e educar os seus filhos não a desviaram de seu esforço de crescer na santidade e na fidelidade a Jesus. Por isso, procurou ajuda espiritual, encontrando-a nos Padres Jesuítas, que a compreenderam e orientaram no seu caminho de busca da perfeição.
De 1839 a 1846, Emília permaneceu em Roma e foi brindada com experiências interiores que a dirigiram, sempre mais, para um amor total a Deus. Aos 24 anos, quando já era mãe de dois filhos, enquanto rezava na capela de Santo Inácio de Loyola, perto da Igreja de Jesus, em Roma, teve uma visão do santo fundador dos Jesuítas que, com a Constituição da Ordem nas mãos, lhe assegurou que, um dia, haveria de seguir a sua Regra.
Porém, a felicidade de Emília e de Victor seria de curta duração. Em 10 de Agosto de 1847, o seu marido faleceu, vítima de malária. Emília viveu esta prova com fé e prosseguiu com coragem a sua missão de mãe e educadora. Aos 29 anos, Emília encontrou-se viúva e com quatro filhos, entre os 2 e os 9 anos, que ela educou com amor. Consagrou-se a Deus com o voto de castidade, dedicando-se ainda mais às obras de caridade. Nos quatro anos seguintes à morte do seu marido, falecem também os seus pais. Nessa circunstância, decidiu pôr os seus filhos num colégio, em França, e ela, com suas filhas, faz os preparativos necessários para se estabelecer em Paris. Em 1854, deixou, definitivamente, a Bélgica e transferiu-se para Paris, para seguir, mais de perto, a formação dos seus filhos, no Colégio dos Jesuítas.
Quando, no dia 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, Emília pediu a Nossa Senhora que lhe inspirasse o que era mais agradável a Deus. Durante uma longa e intensa oração, na capela do Castelo da família, foi-lhe revelado, por Nossa Senhora, o que Deus esperava dela: a fundação de uma Congregação Religiosa destinada à reparação dos ultrajes cometidos contra o Santíssimo Sacramento.
Com algumas jovens, de diversas nacionalidades, iniciou, no ano seguinte, uma experiência de vida comunitária. Mas, o início oficial da nova família religiosa teve lugar no dia 1 de Maio de 1857, em Estrasburgo. A nova congregação religiosa surgiu com o nome de ‘Instituto de Maria Reparadora’. Neste dia, Emília vestiu o hábito de religiosa e assumiu o nome de Irmã Maria de Jesus; as suas companheiras assumiram compromissos idênticos; a Irmã Maria de Jesus foi eleita a primeira superiora do Instituto, que seria guiado pelo espírito de Santo Inácio.
Apesar dos trabalhos que que a direcção do Instituto lhe exigiam, a Madre Maria de Jesus acompanhou, sempre e com solicitude, os seus filhos, respeitando as suas opções de vida: os dois rapazes seguiram o caminho do matrimónio; as duas filhas decidiram seguir os passos da mãe na vida religiosa e entraram na Congregação por ela fundada. Desde as origens, a unidade do grupo, na nova congregação religiosa, faz-se à volta da Eucaristia, vivida na sua dupla dimensão de adoração e anúncio da Palavra, cuidando um equilíbrio entre oração e actividade apostólica.
O espírito inaciano foi a alma que animou todo o seu zelo apostólico, ao ponto de tomou decisões bastante arriscadas, como foi a resposta ao pedido dos Jesuítas para que construísse uma casa na Índia. Com apenas dois anos de fundação, as Irmãs do Instituto de Maria Reparadora partiram para a Índia para se dedicarem à promoção humana e espiritual das jovens relegadas a uma situação de inferioridade, devido à divisão das castas. Foi o lançamento definitivo de uma expansão por vários países da Europa.
Os últimos anos de vida da Madre Maria de Jesus foram marcados por sofrimentos de diversos géneros: lutos familiares; preocupação pelos seus filhos; separações e dificuldades no seio da Congregação.
Com a saúde muito debilitada, quando se encontrava de passagem por Florença - de regresso à Bélgica - estando na casa do seu filho Adriano, a Madre Maria de Jesus faleceu, no dia 22 de Fevereiro de 1878. Tinha 59 anos de idade. O seu túmulo encontra-se na Igreja da Santa Cruz e de São Bartolomeu, na Via Lucchesi, em Roma.
A Irmã Maria de Jesus - Emília d’Oultremont d’Hooghvorst - foi beatificada, em Roma, no dia 12 de Outubro de 1997, pelo Papa João Paulo II. A propósito desta nova Beata, na homilia da Missa, o Papa disse: “… «A palavra de Deus é viva...penetra até dividir a alma» (Hb 4, 12). Emília d’Hooghvorst acolheu esta palavra no mais íntimo de si mesma. Aprendendo a submeter-se à vontade de Deus, realizou, em primeiro lugar, a missão de todo o casal cristão: tornar o seu lar «um santuário doméstico da Igreja» Quando ficou viúva, animada pelo desejo de participar no mistério pascal, a Madre Maria de Jesus fundou a Sociedade de Maria Reparadora. Pela sua vida de oração, ela recorda-nos que, na adoração eucarística, onde bebemos como na fonte da vida que é Cristo, encontramos a força para a missão quotidiana. Que cada um de nós, qualquer que seja o seu estado de vida, saiba «escutar a voz de Cristo», «que deve ser a regra da nossa existência», como ela gostava de dizer! Esta beatificação é também para as religiosas de Maria Reparadora um encorajamento a prosseguirem o seu apostolado, com uma renovada atenção aos homens deste tempo. Segundo o seu carisma próprio, elas responderão à missão: despertar a fé entre os seus contemporâneos e ajudá-los no seu crescimento espiritual, participando assim activamente na edificação da Igreja…”
A memória litúrgica da Beata Maria de Jesus celebra-se no dia 22 de Fevereiro.