PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

SANTOS POPULARES



SANTO ANTÓNIO MARIA GIANELLI
António Maria Gianelli nasceu em Cereta, Itália, no dia 12 de Abril de 1789. Era filho de Maria e James Gianelli, uma família de camponeses pobres e humildes. No seio desta família, aprendeu a caridade, o espírito de sacrifício, a capacidade de dividir com o próximo. A sua mãe ensinou-lhe o catecismo; o seu pai - conhecido como pacificador da cidade – ensinou-lhe a honradez, a justiça e o apreço pelo bem comum. Desde pequeno, António gostava de participar, activa e alegremente, nas obras e movimentos paroquiais. Era um estudante tão promissor que o proprietário das terras onde os seus pais trabalhavam pagou a sua educação, enviando-o para o Seminário de Génova. Tinha 17 anos.
Aos vinte e três anos, terminada a formação doutrinal e teológica, foi ordenado sacerdote, no dia 24 de Maio de 1812. Leccionou letras e retórica e a sua primeira obra, que muito impressionou o clero da sua diocese, foi um recital, organizado para a recepção solene do novo Bispo de Génova, Monsenhor Lambruschini. Intitulou esse recital de “Reforma do Seminário”. Assim, de modo tranquilo, directo e sem rodeios, defendeu uma nova postura na formação dos futuros sacerdotes. A repercussão foi imediata e frutificou durante todo o período da restauração pós-napoleónica.
Entre as múltiplas actividades do Padre António Gianelli está a fundação de uma associação de nome insólito - também por ter sido fundada por um pároco - chamada “Sociedade Económica”, embora de finalidades evangélicas. Com efeito, tinha por objectivo educar e assistir moralmente as jovens, confiadas aos cuidados das “Damas da Caridade” - um nome igualmente inusitado – que, em 1829, adoptou o nome de “Filhas de Maria Santíssima do Horto”, também chamadas de Irmãs Gianellinas. Esta Congregação teve um rápido desenvolvimento, sobretudo na América Latina, onde o Padre António, durante suas visitas, era chamado pelo povo de “o santo das irmãs”.
Entre 1826 e 1838, o Padre Gianelli foi pároco de Chiavari. A sua acção apostólica não se confinou aos limites da sua vasta paróquia. Um ano depois da nomeação, lançou as bases para a fundação de uma congregação masculina - posta sob o patrocínio de Santo Afonso Maria de Ligório - destinada a dinamizar e aperfeiçoar o apostolado da pregação e a estruturar as organizações do clero, reunindo jovens sacerdotes para as missões populares e para o trabalho pastoral em paróquias, particularmente, necessitadas. Os missionários “Ligorianos” assumiram o nome de Oblatos de Santo Afonso Maria de Ligório.
Em 1837, foi eleito bispo de Bobbio. Na sua Diocese, introduziu as reformas já promovidas como pároco de Chiavari, fundando o Seminário e reformulando o ensino da filosofia e da teologia. Com verdadeiro zelo pastoral, cuidou da formação do clero; com mão enérgica, removeu párocos pouco zelosos; recorreu, com frequência, à colaboração dos seus oblatos. Foi um pastor vigilante, cheio de caridade e de compreensão, aberto às novas correntes do pensamento.
D. Gianelli morreu no dia 7 de Junho de 1846, com 57 anos. Viveu uma vida relativamente breve, mas intensa, dedicada com coração e espírito de missionário às obras benéficas no campo religioso e social.
Foi beatificado em 1925 e canonizado pelo Papa Pio XII, no dia 21 de Outubro de 1951.
No dia 17 de Fevereiro de 2003, dirigindo-se às religiosas “Filhas de Maria Santíssima do Horto”, congregação fundada por Santo António Gianelli, o Papa João Paulo II disse: «…Santo António Maria Gianelli viveu com coragem e paixão a sua missão ao serviço do Reino de Deus. Ele gostava de repetir: "Deus, Deus, só Deus". Toda a sua actividade era animada por um ardente desejo de pertencer a Cristo. Desejava servir o Senhor no pobre, no doente, na pessoa sem instrução, como também naqueles que ainda não conheciam ou não tinham encontrado Deus na sua vida. Abria o coração ao acolhimento dos irmãos e preocupava-se com todos. Os seus ensinamentos estão bem expressos nas vossas Constituições, que traçam o estilo típico da vossa Família religiosa: fidelidade ao carisma, vivendo em vigilante caridade evangélica, esquecendo o próprio interesse e as próprias comodidades; estar atentas às necessidades dos tempos, sentindo alegria por vos fazerdes todas para todos com um compromisso que não conheça outros limites senão a impossibilidade ou a inoportunidade (cf. n. 2).
…Na base do vosso trabalho esteja o amor que, para o vosso santo Fundador, constitui, com razão, um princípio pedagógico fundamental. Ele recomendava às suas filhas espirituais: "Procurai, em primeiro lugar, amar verdadeiramente e mostrar um grande amor pelas crianças que vos estão confiadas, porque ninguém ama quem não ama; e se não são amadas por vós, também não irão à escola, ou não estarão de boa vontade convosco; e não aprenderão metade daquilo que aprenderiam, amando as suas Mestras e vendo-se amadas por elas".
A pobreza, assumida voluntariamente e com alegria, é uma condição que facilita e torna mais fecundo o vosso testemunho. A pobreza, como gostava de repetir Santo António Maria Gianelli, seja "o verdadeiro distintivo do vosso Instituto". Ao lado do amor fiel à pobreza, não falte nunca o espírito de sacrifício, na consciência quotidiana de que uma Filha de Maria "não pode estar sem a Cruz".
Sede, pois, incansáveis testemunhas de esperança. Entre as virtudes que a Filhas de Maria Santíssima do Horto devem praticar, Santo António Maria Gianelli põe em relevo a grande confiança em Deus. Viver abandonadas a Ele: eis o que vos permitirá não vos deixardes perturbar pelos aparentes insucessos, antes vos tornará capazes de ajudar as pessoas angustiadas e desorientadas. O vosso Fundador falava assim às vossas Irmãs de então: "Quando alguma coisa estiver a correr menos bem ou até mal, não se perturbarão ou julgarão verdadeiro mal; mas humilhar-se-ão diante de Deus e confiarão que Ele saberá tirar daí algum bem"…»
A memória litúrgica de Santo António Maria Gianelli celebra-se no dia 7 de Junho.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

EM DESTAQUE



- SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

A Igreja celebra, neste Domingo, 27 de Maio, a Solenidade da Santíssima Trindade. A Igreja proclama uma verdade fundamental do cristianismo: há um só Deus, em três pessoas distintas: Pai, Filho (Jesus) e Espírito Santo. No mistério da Santíssima Trindade, Deus revela-se como família, comunhão, partilha de amor, fonte de unidade.
Acreditar em Deus compromete a vida dos crentes que são chamados a viver a sua responsabilidade baptismal; a testemunhar a beleza de Deus, no amor, no perdão e na misericórdia; a anunciar o desafio da santidade pela prática do bem, pela piedade e pelo serviço aos irmãos; a aderir à missão de anunciar a salvação, no caminho das bem-aventuranças.
O amor a Deus deve ser manifestado nas nossas obras de todos os dias, criando harmonia, paz e comunhão nas nossas comunidades, famílias e lugares de trabalho ou de lazer.

DA PALAVRA DO SENHOR



- DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

“…Todos os que são conduzidos
pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Vós não recebestes um espírito de escravidão
para recair no temor,
mas o Espírito de adopção filial,
pelo qual exclamamos: «Abba, Pai».
O próprio Espírito dá testemunho,
em união com o nosso espírito,
de que somos filhos de Deus.
Se somos filhos, também somos herdeiros,
herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo;
se sofrermos com Ele,
também com ele seremos glorificados…” (cf. Romanos 8, 14-17)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça São Pedro, Roma, no dia 23 de Maio de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Depois das catequeses sobre o Baptismo, estes dias que se seguem à Solenidade de Pentecostes convidam-nos a reflectir sobre o testemunho que o Espírito suscita nos baptizados, pondo em movimento a sua vida, abrindo-a para o bem dos outros. Aos seus discípulos, Jesus confiou uma grande missão: «Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo» (cf. Mt 5, 13-16). Estas imagens fazem pensar no nosso comportamento, pois tanto a carência como o excesso de sal tornam desgostosa a comida, assim como a falta ou o excesso de luz impedem de ver. Somente o Espírito de Cristo nos pode oferecer verdadeiramente o sal que dá sabor e preserva contra a corrupção, e a luz que ilumina o mundo! E esta é a dádiva que recebemos no Sacramento da Confirmação, ou Crisma, sobre o qual desejo reflectir convosco. Chama-se “Confirmação” porque confirma o Baptismo, fortalecendo a sua graça (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1289) ou “Crisma” porque recebemos o Espírito, mediante a unção com o “crisma” - óleo, misturado com perfume, consagrado pelo Bispo - termo que remete para “Cristo” o Ungido de Espírito Santo.
O primeiro passo é renascer para a vida divina no Baptismo; em seguida, é preciso comportar-se como filho de Deus, ou seja, conformar-se com Cristo que age na santa Igreja, deixando-se enxertar na sua missão, no mundo. Para isto, provê a unção do Espírito Santo: «Sem a sua força, nada existe no homem» (cf. Sequência do Pentecostes). Sem a força do Espírito Santo, nada podemos fazer: é o Espírito que nos dá a força para ir em frente. Do mesmo modo, como toda a vida de Jesus foi animada pelo Espírito, assim também a vida da Igreja, e de cada um dos seus membros, está sob a guia do mesmo Espírito.
Concebido pela Virgem, por obra do Espírito Santo, Jesus inicia a sua missão, depois de - saindo da água do Jordão - ter sido consagrado pelo Espírito que desce e paira sobre Ele (cf. Mc 1, 10; Jo 1, 32). Ele declara-o, explicitamente, na sinagoga de Nazaré: é bonito o modo como Jesus se apresenta - qual bilhete de identidade de Jesus - na sinagoga de Nazaré! Ouçamos como o faz: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres» (Lc 4, 18). Jesus apresenta-se, na sinagoga do seu povoado, como o Ungido, Aquele que foi ungido pelo Espírito.
Jesus está cheio de Espírito Santo e é a fonte do Espírito prometido pelo Pai (cf. Jo 15, 26; Lc 24, 49; Act 1, 8; 2, 33). Na realidade, na noite de Páscoa, o Ressuscitado sopra sobre os discípulos, dizendo-lhes: «Recebei o Espírito Santo» (Jo 20, 22); e, no dia de Pentecostes, a força do Espírito desce sobre os Apóstolos de forma extraordinária (cf. Act 2, 1-4), como nós sabemos.
A “Respiração” de Cristo Ressuscitado enche de vida os pulmões da Igreja; e, com efeito, a boca dos discípulos, «cheios de Espírito Santo», abrem-se para proclamar, a todos, as grandes obras de Deus (cf. Act 2, 1-11).
O Pentecostes - que celebrámos no domingo passado - é para a Igreja o que foi para Cristo a unção do Espírito, recebida no Jordão, ou seja, o Pentecostes é o impulso missionário a consumar a vida pela santificação dos homens, para a glória de Deus. Se o Espírito age em cada sacramento, é, de modo especial, na Confirmação que «os fiéis recebem como Dom o Espírito Santo» (Paulo VI, Const. Apost.  Divinae consortium naturae). E, no momento de fazer a unção, o Bispo pronuncia estas palavras: “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o dom de Deus”: é a grande dádiva de Deus, o Espírito Santo. E todos temos o Espírito dentro de nós. O Espírito está no nosso coração, na nossa alma. E o Espírito guia-nos na vida, a fim de que nos tornemos bom sal e boa luz para os homens.
Se, no Baptismo, é o Espírito Santo que nos imerge em Cristo, na Confirmação é Cristo que nos enche com o seu Espírito, consagrando-nos suas testemunhas, partícipes do mesmo princípio de vida e de missão, segundo o desígnio do Pai celeste. O testemunho prestado pelos confirmados manifesta a recepção do Espírito Santo e a docilidade à sua inspiração criativa. Pergunto-me: como se vê que recebemos o Dom do Espírito? Se cumprirmos as obras do Espírito, se proferirmos palavras ensinadas pelo Espírito (cf. 1 Cor 2, 13). O testemunho cristão consiste em fazer, unicamente e tudo, aquilo que o Espírito de Cristo nos pede, concedendo-nos a força para o realizar. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 32

Refrão: Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança.

A palavra do Senhor é recta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a rectidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

A palavra do Senhor criou os céus,
o sopro da sua boca os adornou.
Ele disse e tudo foi feito,
Ele mandou e tudo foi criado.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protector.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

SANTOS POPULARES



BEATA HILDEGARDA BURJAN

Hildegarda Burjan nasceu no dia 30 de Janeiro de 1883, em Görlitz, na Alemanha. Foi a segunda filha de Abraham e de Berta Freund, de origem judia, de classe média alta, que não praticavam nenhuma religião.
Hildegarda teve uma infância tranquila. Aos três anos, gostava de colocar em volta de si um círculo de almofadas, bonecas e outros objectos, simulando assim uma plateia. Depois, a pequenita colocava-se diante do seu público para contar histórias e discursar. Isso era curioso porque Hildegarda nunca tinha estado em locais onde pudesse ter presenciado isso. Aos seis anos, viu, da janela do seu quarto, monjas a rezar, no jardim do mosteiro que ficava próximo da sua casa. Quis, logo, saber quem eram e o que faziam. A mãe respondeu que eram monjas e que estavam a rezar ao seu Deus. Então, ela disse: “Se essas mulheres tão bonitas estão a rezar a Deus, então Deus deve ser bonito; e como deve ser bonito quando se pode rezar a Deus!”
Fez, ainda, muitas perguntas sobre Deus, mas a sua mãe retirou-a da janela, dizendo que sobre isso poderia ler nos livros, mais tarde. Hildegarda manifestou, então, um misterioso sentimento, dizendo com lágrimas nos olhos: “Deus!... Eu também queria rezar!”
Aos 16 anos, escreveu, na primeira página do seu diário, este pensamento de Lindenberg: “Com clara visão voltada à luz, sempre adiante, nunca para trás, alegremente esperando, ousadamente aspirando, também rapidamente agindo. Só assim a existência tem meta e fim. Quem quer coisas grandes, muito alcança”. 
Hildegarda não se preocupava com a moda, nem com coisas comuns à sua idade, mas interessava-se muito pelo estudo e pela formação da sua personalidade.
Não era comum no seu tempo que uma jovem frequentasse a universidade; ela, porém, decididamente, inscreveu-se na Universidade de Zurique, no curso de Filosofia, tendo feito o doutoramento. No ambiente universitário, apercebeu-se que alguns colegas tinham dificuldades para pagar os estudos. Sensibilizada, fundou um círculo de ajuda a estudantes com dificuldades financeiras. Ela mesma fazia muitas poupanças, indo a pé para a Universidade, a fim de colaborar com a caixa de ajuda.
Na sua juventude, Hildegarda sentiu um ardente desejo de encontrar o verdadeiro sentido da vida. Buscava respostas e, nas horas de solidão, repetia com insistência: “Deus, se tu existes, manifesta-te a mim”.
Alguns professores do Curso de Filosofia, que estavam prestes a tornarem-se católicos, exerceram grande influência na sua busca pela verdade. Começou, então, a aprofundar a doutrina católica e manifestou entusiasmo e grande interesse por ela; mas, ainda, lhe faltava a graça da fé.
Aos 25 anos, doutorada em Filosofia e casada com o engenheiro Alexandre Burjan, Hildegarda ficou muito doente e foi internada num hospital católico. Lá permaneceu, por alguns meses, em tratamento, passando por diversas cirurgias. No hospital, foi atendida pelas Irmãs de São Carlos Borromeu que ali trabalhavam. Fascinou-lhe o testemunho daquelas irmãs e concluiu: “Isto que as Irmãs fazem, um ser humano - apoiado só nas suas próprias forças - é incapaz de realizar”.
Convenceu-se, então, da existência de Deus e n’Ele passou a acreditar, ardentemente. Era muito grave o seu estado de saúde e os médicos declararam que já haviam esgotado todos os recursos que a Medicina dispunha. Para surpresa de todos, na manhã seguinte, um Domingo de Páscoa, Hildegarda estava curada, de forma inexplicável. Ela compreendeu que se tratava de um milagre, através do qual Deus quis revelar-se a ela, de forma ainda mais visível. Ali, experimentou, no mais íntimo do seu ser, o amor gratuito e misericordioso de Deus. Impressionada com essa manifestação divina, exclamou: “Esta segunda e nova vida deve pertencer unicamente a Deus”. Pediu o Baptismo e decididamente expressou: “Quero doar-me, consumir a minha vida no amor aos irmãos”.
Pouco tempo depois de ter recuperado a saúde, ficou grávida. Devido às diversas cirurgias, o seu corpo não tinha condições de levar adiante uma gravidez. Os médicos aconselharam que abortasse, pois corria sério risco de morte. Corajosamente, Hildegarda tomou a firme decisão: “Nada me pode convencer a permitir isso. Mesmo que eu tenha que morrer, então, seja feita a vontade de Deus”. Deu à luz a uma filha, à qual chamou de Isabel, em honra de Santa Isabel, a Santa da Caridade.
Hildegarda distinguia-se pelo seu espírito de solidariedade, pela sua sensibilidade diante do sofrimento dos mais necessitados, mas, sobretudo, pela sua capacidade de buscar as raízes dos problemas sociais, não se contentando apenas em dar uma ajuda eventual, mas sim em resolver o problema pela raiz. A sua capacidade empreendedora e o seu espírito de liderança marcaram, sem dúvida, a grande diferença, no período da Primeira Guerra Mundial. Durante a guerra, dinamizou inúmeras campanhas para socorrer órfãos e viúvas; preocupou-se com a mulher operária; com as mães que tinham numerosos filhos para sustentar. A maioria das mulheres costurava, em casa, para grandes firmas, pelas quais eram exploradas. Hildegarda organizou-as em associações, a fim de que trabalhassem juntas, em salas aquecidas durante o inverno. As peças confeccionadas passaram a ter o valor justo e as operárias tiveram os seus direitos reconhecidos e respeitados. Para os famintos, organizou a “Mesa de Santa Isabel”, uma associação onde as pessoas mais carenciadas podiam alimentar-se com uma sopa quente, num ambiente aquecido. Além disso, conseguiu uma maneira mais barata de comprar alimentos, uma espécie de mercado popular.
Hildegarda tinha grande capacidade de atrair voluntários para os diversos trabalhos sociais. Promovia chás beneficentes; convidava as senhoras da sociedade e fazia-lhes calorosas palestras, consciencializando-as das necessidades e sofrimentos dos mais desfavorecidos e sensibilizando-as para que lhes dedicassem parte do seu tempo.
Para Hildegarda não havia barreira entre pobres e ricos. Ela sabia fazer a ponte e unir a todos na mesma causa: a caridade social, o amor que eleva e que liberta.
A pedido das autoridades de Viena, sobretudo da Igreja, ela entrou na política, sendo, em 1919, a única mulher deputada federal no Parlamento. Sem omitir a sua fé e os princípios cristãos, lutou pela justiça social, conseguindo leis em favor das operárias, empregadas domésticas e pela erradicação do trabalho infantil.
Tinha como objectivo o fortalecimento da família e a melhoria das condições de vida das mulheres, sobre as quais pesa o cuidado e a educação dos filhos.
No meio a tantas actividades sociais e políticas, compromissos de esposa, de mãe, de fundadora de associações de mulheres operárias, Hildegarda deixou-nos o testemunho de alguém que mergulha profundamente na oração, no encontro com Deus: “Trago sempre comigo folhas soltas do Breviário e rezo, muitas vezes, nos cafés ou enquanto o meu marido lê o jornal”. “As horas mais felizes para mim, são à noite, quando rezo o Breviário”.
Pedia que a acordassem cedo para não perder a missa diária. Antes das sessões do parlamento, passava na Igreja para um tempo de adoração ao Santíssimo. A Eucaristia foi para ela a fonte que a fortalecia constantemente e onde encontrava a solução para todos os problemas: “É assim que Deus me dá as maiores graças; assim, muitas coisas se esclarecem; os problemas mais complicados se solucionam. Fortalecida, disponho-me a servir”.
Na realização da sua missão junto aos mais pobres, contava sempre com a presença de muitas pessoas voluntárias, sobretudo, de mulheres generosas que não mediam esforços para ajudar. Mas, no seu coração brotava um grande sonho: a fundação de uma comunidade de mulheres consagradas a Deus, que pudessem ser missionárias da caridade junto dos mais necessitados. E, assim, em 1919, fundou uma comunidade de vida apostólica, chamada “Caridade Social”. A ela confiou esta linda missão: Tornar presente o amor misericordioso de Deus, através do serviço social.
Hildegarda Burjan faleceu no dia 11 de Junho de 1933, com 50 anos de idade. As suas últimas palavras foram: “Jesus, meu querido Jesus, torna bons todos os homens, a fim de que possas encontrar neles o teu agrado. Faz que sua única riqueza sejas Tu, somente Tu”.
Hoje, além da Áustria, as Irmãs da Caridade Social estão presentes em vários países, dando continuidade ao legado da sua fundadora, a Beata Hildegarda Burjan.
No dia 29 de Janeiro de 2012, Hildegarda Burjan foi beatificada pelo Papa Bento XVI. A cerimónia de beatificação teve lugar na Catedral de Santo Estevão, em Viena, Áustria, e foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, representante do Papa, e concelebrada pelo Cardeal Arcebispo de Viena, por vários bispos e muitos sacerdotes.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

EM DESTAQUE


- CUIDAR ATÉ AO FIM COM COMPAIXÃO

Representantes de comunidades cristãs, muçulmanas, judaicas, hindus e budistas, presentes em Portugal, assinaram uma declaração conjunta em que rejeitam a legalização da eutanásia no país, prática que coloca em causa o respeito pela vida


DECLARAÇÃO CONJUNTA

O debate em curso na sociedade portuguesa sobre a realidade a que se tem chamado “morte assistida” convoca todos a realizarem uma reflexão e a oferecerem o seu contributo para enriquecer um processo de diálogo que necessita da intervenção da pluralidade dos actores sociais. As Tradições religiosas são portadoras de uma mensagem sobre a vida e a morte do homem, bem como sobre o modelo de sociedade que constituímos, e é legítimo e necessário que a apresentem, com humildade e liberdade.
Agora que a Assembleia da República vai discutir e colocar em votação propostas de uma eventual lei sobre a eutanásia, nós, as comunidades religiosas presentes em Portugal signatárias, conscientes de que vivemos um momento de grande importância para o nosso presente e o nosso futuro colectivo, declaramos:

1.      A dignidade daquele que sofre
Acreditamos que cada ser humano é único e, como tal, insubstituível e necessário à sociedade de que faz parte, sujeito de uma dignidade intrínseca anterior a todo e qualquer critério de qualidade de vida e de utilidade, até à morte natural. A vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. Assumimos que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estamos gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. Contudo, não ignoramos o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. Sabemos que a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita, mas sabemos também, pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. Com esses aprendemos, aliás, que nesta tarefa reside uma das maiores realizações da dignidade pessoal. A dignidade da pessoa não depende senão do facto da sua existência como sujeito humano e a autonomia pessoal não pode ser esvaziada do seu significado social.

2.      Por uma sociedade misericordiosa e compassiva
O sofrimento do fim de vida é, para cada pessoa, um desafio espiritual e, para a sociedade, um desafio ético. Comuns às diferentes Tradições religiosas, princípios como a misericórdia e a compaixão configuraram, ao longo da história da civilização, modelos sociais capazes de criar, em cada momento, modos precisos de acompanhar e cuidar os membros mais frágeis da sociedade. Hoje, o morrer humano é um dos âmbitos em que este desafio nos interpela. O que nos é pedido não é que desistamos daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente. Confirma-nos nesta convicção a experiência de que quem se sente acompanhado não desespera perante a morte e não pede para morrer. O que nos é pedido é, pois, que nos comprometamos mais profundamente com os que vivem esta etapa, assumindo a exigência de lhes oferecer a possibilidade de uma morte humanamente acompanhada.

3.      Os Cuidados Paliativos, uma exigência inadiável
Acreditamos que os cuidados paliativos são a concretização mais completa desta resposta que o Estado não pode deixar de dar, porque aliam a maior competência científica e técnica com a competência na compaixão, ambas imprescindíveis para cuidar de quem atravessa a fase final da vida. A verdadeira compaixão não é insistir em tratamentos fúteis, na tentativa de prolongar a vida, mas ajudar a pessoa a viver o mais humanamente possível a própria morte, respeitando a naturalidade desta. Os cuidados paliativos fazem-no, valorizando a pessoa até ao seu fim natural, aliviando o seu sofrimento e combatendo a solidão pela presença da família e de outros que lhe sejam significativos. Interpelamos a sociedade portuguesa para corresponder à exigência não mais adiável de estender a todos o acesso aos cuidados paliativos e assumimos a disponibilidade e a vontade de fazermos tudo o que esteja ao nosso alcance para participar neste verdadeiro desígnio nacional. E não podemos deixar de interrogar se a presente discussão, antes de realizado este investimento, não enfermará de falta de propósito.
As Tradições religiosas professam que a vida é um dom precioso e, para as religiões abraâmicas, um dom de Deus e, como tal, se reveste de carácter sagrado; mas este apenas confirma a sua dignidade natural, da qual derivam a sua inviolabilidade e indisponibilidade intrínsecas, que, portanto, não dependem da fundamentação religiosa. Mas a religião confere à vida um sentido, uma esperança, uma outra possibilidade de transcendência. As sociedades precisam desta visão do humano ao lado de todas as outras.
Nós, comunidades religiosas presentes em Portugal, acreditamos que a vida humana é inviolável até à morte natural e perfilhamos um modelo compassivo de sociedade e, por estas razões, em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, causa da religião, nos sentimos chamados a intervir no presente debate sobre a morte assistida, manifestando a nossa oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia.

Por isso assinamos em conjunto a presente Declaração.
Lisboa, 16 de maio de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- DOMINGO DE PENTECOSTES

“…Quando chegou o dia de Pentecostes,
 os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.
 Subitamente, fez se ouvir, vindo do Céu,
 um rumor semelhante a forte rajada de vento,
 que encheu toda a casa onde se encontravam.
 Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
 que se iam dividindo,
 e poisou uma sobre cada um deles.
 Todos ficaram cheios do Espírito Santo…” (cf. Actos 2, 1-4)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça São Pedro, Roma, no dia 16 de Maio de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, concluímos o ciclo de catequeses sobre o Baptismo. Os efeitos espirituais deste sacramento, invisíveis aos olhos mas activos no coração de quem se tornou criatura nova, são explicitados pela entrega da veste branca e da vela acesa.
Depois do banho de regeneração, capaz de recriar o homem segundo Deus na verdadeira santidade (cf. Ef 4, 24), pareceu natural, desde os primeiros séculos, revestir os recém-baptizados com uma veste nova, cândida, à semelhança do esplendor da vida obtida em Cristo e no Espírito Santo. A veste branca expressa, simbolicamente, o que aconteceu no sacramento e anuncia a condição dos transfigurados na glória divina.
Paulo recorda o que significa revestir-se de Cristo, explicando quais são as virtudes que os baptizados devem cultivar: «Escolhidos por Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansidão, de magnanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos reciprocamente. Mas acima de tudo, revesti-vos da caridade, que as une todas de modo perfeito» (Cl 3, 12-14).
Também a entrega ritual da chama, acendida no círio pascal, recorda o efeito do Baptismo: «Recebei a luz de Cristo», diz o sacerdote. Estas palavras recordam que não somos nós a luz, mas a luz é Jesus Cristo (Jo 1, 9; 12, 46), o qual, ressuscitando dos mortos, venceu as trevas do mal. Nós somos chamados a receber o seu esplendor! Assim, como a chama do círio pascal acende cada uma das velas, também a caridade do Senhor Ressuscitado inflama os corações dos baptizados, enchendo-os de luz e calor. E, por isso, desde os primeiros séculos, o Baptismo chamava-se também “iluminação” e aquele que era baptizado dizia-se que estava “iluminado”.
Com efeito, é esta a vocação cristã: «Caminhar sempre como filhos da luz, perseverando na fé (cf. Rito da iniciação cristã dos adultos, n. 226; Jo 12, 36).
Se se tratar de crianças, é tarefa dos pais, juntamente com os padrinhos e as madrinhas, ter o cuidado de alimentar a chama da graça baptismal nas suas crianças, ajudando-as a perseverar na fé (cf. Rito do Baptismo das Crianças, n. 73). «A educação cristã é um direito das crianças; ela tende a guiá-las gradualmente para o conhecimento do desígnio de Deus, em Cristo: assim poderão ratificar pessoalmente a fé, na qual foram baptizadas» (ibid., Introdução, 3).
A presença viva de Cristo, que deve ser preservada, defendida e incrementada em nós, é lâmpada que ilumina os nossos passos, luz que orienta as nossas opções, chama que aquece os corações no caminho rumo ao Senhor, tornando-nos capazes de ajudar quem percorre o caminho connosco, até à comunhão inseparável com Ele. Naquele dia, diz ainda o Apocalipse, «não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre» (cf. 22, 5).
A celebração do Baptismo conclui-se com a recitação do Pai-Nosso, própria da comunidade dos filhos de Deus. Com efeito, as crianças renascidas no Baptismo receberão a plenitude do dom do Espírito, na Confirmação, e participarão na Eucaristia, aprendendo o que significa dirigir-se a Deus chamando-lhe “Pai”.
No final destas catequeses sobre o Baptismo, repito, a cada um de vós, o convite que expressei do seguinte modo na Exortação apostólica “Gaudete et exsultate”: «Deixa que a graça do teu Baptismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23)» (n. 15). (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 103

Refrão: Mandai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a terra.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas.

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor.

SANTOS POPULARES



SANTA MARIA ANA DE JESUS PAREDES

Maria Ana de Paredes Flores y Jaramillo nasceu no dia 31 de Outubro de 1618, em Quito, capital do Equador. A sua família era rica: o pai, Jerónimo Paredes Flores y Granobles, era um capitão espanhol e a mãe, Mariana Jaramillo, pertencia à nobreza, descendente, na linha paterna, de conquistadores espanhóis a quem a Coroa Espanhola reconheceu, concedendo-lhes o seu próprio brasão de armas.
A pequena Maria Ana ficou órfã dos pais aos quatro anos de idade e quem assumiu a sua educação foi a sua irmã mais velha, Jerónima, casada com o capitão Cosme de Miranda, que a educou como se fosse uma sua filha. Maria Ana, desde muito cedo, começou a despertar para a religião, tornando-se uma grande devota - e muito fervorosa - de Jesus e da Virgem Maria. Dotada de uma inteligência superior e prendada de imensas qualidades, gostava das aulas de canto, onde aprendia as músicas religiosas que, depois, cantava nas suas orações.
Orientada espiritualmente pelo jesuíta Padre João Camacho, aos oito anos recebeu a Primeira Comunhão e quis consagrar-se inteiramente a Jesus, fazendo voto de virgindade perpétua. As autoridades eclesiásticas da época aceitaram o seu veemente desejo e concederam-lhe, a título excepcional, licença para assumir tal responsabilidade. Maria Ana passou a viver, na sua própria casa, como se de um Convento se tratasse. Sem entrar em nenhuma Ordem religiosa, iluminada e animada pelo Espírito Santo, dedicava-se às orações e à penitência, até limites só alcançados pelos adultos mais santificados.
Em 1639, entrou para a Ordem Terceira Franciscana e tomou o nome de Maria Ana de Jesus. Foi agraciada por Deus com o dom do conselho e da profecia, sabendo, como ninguém, interpretar a alma humana. A sua palavra promovia a paz entre as pessoas em discórdia e contribuía para que muitas almas retornassem aos caminhos do seguimento de Cristo.
Em consequência das severas penitências que se impunha, Marianita - era assim chamada por todos - tinha um físico delicado e uma saúde muito frágil, sempre sujeita a doenças. Numa dessas enfermidades, teve de ser submetida a uma sangria, e a enfermeira que a atendia deixou, numa vasilha, o sangue que tinha extraído de Marianita para ir buscar as ligaduras que faltavam. Ao voltar, viu que, na vasilha que continha o seu sangue, brotara um lírio. A notícia espalhou-se por toda a parte e Marianita passou a ser conhecida como o “Lírio de Quito”.
Como Maria Ana tinha profetizado, em 1645, a cidade de Quito foi devastada por um grande terremoto, que causou muitas mortes e espalhou muitas epidemias. Os cristãos foram todos convocados pelos padres jesuítas a rezarem, pedindo a Deus e à Virgem Maria socorro para o povo equatoriano. Nessa ocasião, um dos padres jesuítas, disse num dos seus sermões: “Meu Deus, ofereço-Te a minha vida para que se acabem os terramotos”. Porém, Maria Ana levantou-se, no meio da Igreja, e disse: “Não, Senhor! A vida deste sacerdote é necessária para salvar muitas almas. Pelo contrário, eu não sou necessária. Ofereço-Te a minha vida para que terminem estes terramotos”. Toda a gente se admirou desta atitude de Marianita. E, naquela mesma manhã, ao sair da Igreja, ela começou a sentir-se muito doente. Mas, a partir dessa manhã, não se repetiram mais os terramotos.
Pouco tempo depois, Maria Ana, com apenas 27 anos, morreu: era o dia 26 de Maio de 1645.
Desde então, nunca mais ocorreram terremotos nessas proporções, no Equador. Os milagres, por sua intercessão, multiplicaram-se de tal maneira que ela beatificada, pelo Papa Pio IX, em 1853. Em 1946, a Beata Maria Ana de Jesus Paredes, o “Lírio de Quito”, foi declarada “Heroína da Pátria”, pelo Congresso do Equador. Maria Ana de Jesus Paredes Flores y Jaramillo foi canonizada, pelo Papa Pio XII, no dia 9 de Julho de 1950, tornando-se a primeira flor franciscana desabrochada para a santidade na América Latina.
No dia 10 de Julho, aos peregrinos equatorianos, o Papa disse: “… Desta Santa, todos podemos aprender o imenso poder da virtude cristã, capaz de fazer amadurecer um espírito, com mais vigor do que o sol de Quito faz amadurecer os férteis frutos da terra equatoriana. Aprenda o mundo as energias que se escondem na oração e no sacrifício. Aprendam os epicuristas de sempre que a meta do espírito se encontra no fim de um caminho escondido, em que o amor busca a dor para superar a escravização material. Aprendam os jovens modernos e mundanos o quanto, no seu ambiente, pode fazer uma alma enamorada do Senhor.
E aqueles que vivem, hoje, na plena luz da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, admirem os indícios desta vítima inocente que, no início do século XVII, soube fazer já da reparação o centro da sua espiritualidade.
Mas, é evidente que não poderíamos terminar estas palavras sem nos dirigirmos, de modo especial, à mui nobre representação equatoriana, aqui presente, formada pela maior parte do seu episcopado, com centenas dos seus fiéis e presidida por uma Embaixada Extraordinária, em que figuram nomes cujos méritos não nos são desconhecidos.
Maria Ana de Jesus de Paredes é um exemplo para todos mas, de uma maneira especial, para vós, amados filhos equatorianos. Muitas vezes, as alternativas contingentes da política de cada dia podem imprimir, aos critérios directivos, tais oscilações que se coloquem em perigo valores tão fundamentais como a educação cristã. Não o permitais mas, pelo contrário, exigi para as vossas gerações futuras uma formação enquadrada pelas virtudes que fizeram grande a vossa Santa. Proponde aos vossos filhos o modelo perfeito da sua "heroína nacional", Santa Maria Ana de Jesus de Paredes…”
A sua memória litúrgica desta Santa equatoriana celebra-se no dia 26 de Maio.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

EM DESTAQUE



- SEMANA DA VIDA: 13-20 MAIO

Decorre, de 13 a 20 de Maio, a Semana da Vida. O tema oficial é: “Eutanásia… O que está em jogo?”. Os responsáveis por esta iniciativa consideraram importante retomar o documento publicado pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2016, ‘Eutanásia: o que está em jogo? Contributos para um diálogo sereno e humanizador’.
O objectivo é levar os cidadãos, em geral, e os cristãos, em particular, a aprofundar o que está em causa, procurando distinguir os conceitos; conhecer mais claramente o que a Igreja defende e propõe. Os cristãos lêem a vida a partir da Palavra de Jesus e, por isso, procuram iluminar as decisões humanas com a Luz de Cristo de modo que a vida seja acolhida na sua beleza, no seu autêntico sentido e valor e seja digna de ser vivida.
Para ajudar a uma séria reflexão, apresentamos texto do Sr. D. Manuel Linda, Bispo do Porto.

- PALAVRA DO BISPO DO PORTO


Eutanásia:
pequeno contributo para um diálogo cultural sério

Como é sabido, no próximo dia 29, a Assembleia da República irá debater vários projetos de lei sobre a eutanásia. Porque o tema interessa a todos, apresento alguns pontos de reflexão, pequeníssimo contributo para um debate que se deseja racional, sério e humanizante.

1.Até há cerca de uma década, quando se falava na eutanásia, colocava-se a tónica na ideia de «misericórdia», aliás presente na etimologia da palavra: perante o sofrimento, apressar-se-ia a morte de outrem para lhe retirar a dor. Neste caso, o decisor da ação era alguém diferente daquele que a sofria. Atualmente, fala-se em “morte digna” e em “morte assistida” como direito que o próprio reivindica para si. Então, agora, sujeito e objeto identificar-se-iam.
Deixando de lado uma reflexão sobre o logro filosófico do individualismo ou da ideia de que somos simplesmente «mónadas» sem qualquer relação com os outros, é de acentuar duas ideias: como, em tão pouco tempo, se decaiu do valor «misericórdia» para a mera «vontade» momentânea; e o desprezo das condições objetivas, isto é, o saber-se se o interessado está ou não em condições de formular um juízo fiável, fazendo repousar uma decisão irreversível num estado de espírito que, completamente alterado pela dor física ou pelo sofrimento moral do abandono, não pode ser efetivamente livre e consciente. Neste caso, na prática, exigir-se-iam menos condições para pedir a eutanásia do que, por exemplo, para formular um testamento válido.

2.Em paralelo com esta «evolução», é de acentuar a dinâmica social da fragmentação das relações familiares, expressa no estandardizado recurso ao internamento dos mais velhos em lares e casas de recolhimento, muitas vezes evitáveis, no corte afetivo com os pais e avós, quando não no frequente abandono puro e simples. Creio, pois, que, embora não numa relação exclusiva, a mentalidade subjacente a uma tem muito a ver com a outra.
Perante isto, a sociedade tem de se interrogar se a frieza das relações é inevitável, se sob a capa da defesa do «direito a morrer com dignidade» não se esconde o mais cruel «descarte» daqueles em quem não se está interessado e se se gasta a mesma energia e dedicação no cuidado dos anciãos e doentes que se usa para defender a «morte a pedido». E, basicamente, tem de se perguntar se, quando alguém diz que quer morrer, essa linguagem é unívoca ou não estará antes a lançar um grito de acusação àqueles que, «criminosamente», lhe negam o conforto e a proximidade afetiva, até porque, hoje, os modernos analgésicos suprimem praticamente toda a dor física.

3.Este assunto entra no que se convencionou designar por “temas fraturantes”. E o qualificativo deveria obrigar a pensar: em concreto, neste caso, que é que se fratura? Não é simplesmente o posicionamento entre os que são a favor e contra. É toda uma teia de relações sociais que se rompe: a confiança na medicina, o pavor de associar doença e velhice com a possibilidade de ser eutanasiado, a negação do velho princípio estruturante da ética médica do “primum non nocere” (primeiro, não prejudicar), a desconfiança nas relações familiares, os interesses escondidos por detrás de uma falsa piedade, o remorso perante uma situação violenta e irreversível, etc.
Mas, fundamentalmente, o que mais deveria preocupar os dirigentes sociais é o desaparecimento da ética, estrutura estabilizadora da sociedade, com o consequente confiar ao direito toda a força da regulamentação. É que este só se impõe pela força do direito… penal. O direito é bom, mas desde que não se torne exclusivo: ao confiar-lhe a totalidade da normalização social, abdicamos da força da liberdade constituinte da pessoa em detrimento da normativa exterior e coercitiva. O que vai sempre desembocar no positivismo jurídico, isto é, na aplicação fria da normativa, sem comiseração nem contemplações, como demonstrou o recente caso da criança inglesa Alfie Evans. A eutanásia representa, portanto, um terrível abaixamento do «tónus» moral da sociedade com consequências que, a médio prazo, podem ser dramáticas.

4.O tema da eutanásia sobrepassa, portanto, o mero reducionismo ao costumado chavão do “quem não concorda não é obrigado a fazer”: exprime uma mentalidade que tem a ver com a própria conceção da pessoa e da sociedade. Manifesta, de facto, uma cultura que parece «cansada», demitida de procurar a verdade e o bem e, como tal, reduzida ao simplismo demissionário do mais fácil, do meramente individual e volitivo, cultura em declínio que corre o risco de conduzir à desagregação social. Por algum motivo se fala tanto do «eclipse do Ocidente» e se observa a mutação hegemónica dos países «emergentes», os quais, curiosamente, não colocam estas questões «burguesas».
No preciso momento em que este assunto passou para a ordem do dia, a comunicação social está a referir um dado profundamente monstruoso: que, nos cerca de nove milhões de portugueses que habitamos o interior destas fronteiras, dois milhões e quatrocentos mil ou são pobres ou estão em risco de pobreza. Mais de um quarto da população! Este sim, é o tema que deveria preocupar os dirigentes sociais. E, para nossa desgraça, não se vislumbra um projeto mobilizador e entusiasmante que nos leve a melhorar este estado de coisas. Pelo contrário, parece dar-se como inevitável a submissão a uma crescente desigualdade social em que uns poucos ficam com quase tudo e a multidão dos jovens, dos débeis, dos velhos e de tantas famílias que têm de sobreviver com o salário mínimo apenas se contentam com «as migalhas que caem da sua mesa».
Espera-se, consequentemente, que as decisões a tomar sejam fruto de uma sadia cultura ético-social e não de qualquer pretensa «modernidade» que outra coisa não é do que o regresso ao pior dos passados. Espera-se muito da responsabilidade ética dos nossos deputados.

Porto, 9 de Maio de 2018
+ Manuel, Bispo do Porto

DA PALAVRA DO SENHOR



- VII DOMINGO DE PÁSCOA: ASCENSÃO DO SENHOR

“…recebereis a força do Espírito Santo,
que descerá sobre vós,
e sereis minhas testemunhas em Jerusalém
e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».
Dito isto, elevou-Se à vista deles
e uma nuvem escondeu-O a seus olhos.
E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus se afastava,
apresentaram-se-Ihes dois homens vestidos de branco,
que disseram: «Homens da Galileia,
porque estais a olhar para o Céu?
Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu,
virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu»…” (cf. Actos 1, 8-11)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça São Pedro, Roma, no dia 9 de Maio de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese sobre o sacramento do Baptismo leva-nos a falar, hoje, do santo derramamento da água, acompanhado da invocação da Santíssima Trindade, ou seja, o rito central que, de facto, “baptiza” – isto é, mergulha – no Mistério pascal de Cristo (cfr Catecismo da Igreja Católica, 1239). São Paulo recorda, aos cristãos de Roma, o sentido deste gesto, perguntando em primeiro lugsr: “Não sabeis que todos os que fomos baptizados em Cristo Jesus, fomos baptizados na sua morte?”, e, depois, respondendo: “Por meio do Baptismo […] fomos sepultados com Ele na morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, assim, também, nós possamos caminhar numa vida nova” (Rm 6, 4). O Baptismo abre-nos a porta para uma vida de ressurreição e não para uma vida mundana. Uma vida segundo Jesus.
A fonte baptismal é o lugar em que se faz Páscoa com Cristo! É sepultado o homem velho, com as suas paixões enganosas (cfr Ef 4, 22), para que renasça uma nova criatura; realmente, as coisas velhas passaram e nasceram novas (cfr 2 Cor 5, 17). Nas “Catequeses” atribuídas a São Cirilo de Jerusalém, é assim explicado aos neo-baptizados o que aconteceu com eles na água do Baptismo. É bela esta explicação de São Cirilo: “No mesmo instante morrestes e nascestes, e a mesma onda salutar torna-se para vós sepulcro e mãe” (n.20, Mistaggogica 2, 4-6: PG 33, 1079-1082). O renascimento do novo homem exige que seja reduzido a pó o homem corrompido pelo pecado. As imagens do túmulo e do ventre materno referidas à fonte são de facto muito incisivas para exprimir o que acontece de extraordinário através dos gestos simples do Baptismo. Gosto de citar a inscrição que se encontra no antigo Baptistério romano de Latrão, em que se lê, em latim, esta expressão atribuída ao Papa Sisto III: “A Mãe Igreja dá à luz, virginalmente, através da água, os filhos que concebeu pelo sopro de Deus. Todos vós que renascestes desta fonte, esperai o reino dos céus” [1]. É belo: a Igreja que nos faz nascer… a Igreja que é ventre, é nossa mãe por meio do Baptismo.
Se os nossos pais nos geraram para a vida terrena, a Igreja regenerou-nos para a vida eterna, no Baptismo. Tornamo-nos filhos no seu Filho Jesus (cfr Rm 8, 15; Gal 4, 5-7). Também sobre cada um de nós, renascidos pela água e pelo Espírito Santo, o Pai celeste faz ressoar, com infinito amor, a sua voz que diz: “Tu és o meu filho amado” (cfr Mt 3, 17). Esta voz paterna, imperceptível aos ouvidos, mas bem ouvida pelo coração de quem crê, acompanha-nos durante toda a vida, sem nunca nos abandonar. Durante toda a vida, o Pai diz-nos: “Tu és o meu filho amado; tu és a minha filha amada”. Deus ama-nos muito, como um Pai, e não nos deixa sozinhos. Isto, a partir do momento do Baptismo. Renascidos filhos de Deus, somo-lo para sempre! O Baptismo, de facto, não se repete, porque imprime um sinal espiritual indelével: “Esta marca não é apagado por nenhum pecado, se bem que o pecado impeça o Baptismo de produzir frutos de salvação” (CIC, 1272). A marca do Baptismo não se perde nunca! “Padre, mas se uma pessoa se torna num bandido, dos mais famosos, que mata gente, que pratica injustiças, a marca não desaparece?” Não. Para sua própria vergonha, esse homem, que é filho de Deus, pode fazer essas coisas, mas a marca não desaparece. E continua a ser filho de Deus, apesar de estar contra Deus; mas, Deus nunca renega os seus filhos. Entendestes esta última coisa? Deus nunca renega os seus filhos. Vamos repeti-lo todos juntos? “Deus nunca renega os seus filhos”. Um pouco mais forte, que eu ou estou surdo ou não entendo: [repetem-no mais forte] “Deus nunca renega os seus filhos”. Bem, assim está bem!
Incorporados em Cristo por meio do Baptismo, os baptizados são, portanto, conformados a Ele, “o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 29). Através da acção do Espírito Santo, o Baptismo purifica, santifica, justifica, para formar, em Cristo, de muitos, um só corpo (cfr 1 Cor 6,11; 12,13). Exprime-o a unção crismal, “que é sinal do sacerdócio real do baptizado e da sua agregação à comunidade do povo de Deus” (Rito do Baptismo das Crianças, Introdução, n. 18, 3). Portanto, o sacerdote unge com o santo crisma a testa de cada baptizado, depois de ter pronunciado estas palavras que explicam o seu significado: “O próprio Deus vos consagra com o crisma da salvação, para que inseridos em Cristo, sacerdote, profeta e rei, sejais sempre membros do seu corpo para a vida eterna” (ibid., n.71).
Irmãos e irmãs, a vocação cristã está toda aqui: viver unidos a Cristo na santa Igreja, participantes da mesma consagração para realizar a mesma missão, neste mundo, produzindo frutos que duram para sempre. Animado pelo único Espírito, de facto, todo o Povo de Deus participa das funções de Jesus Cristo, “Sacerdote, Profeta e Rei”, e leva a responsabilidade da missão e serviço que dela derivam (cfr CIC, 783-786). O que significa participar do sacerdócio real e profético de Cristo? Significa fazer de si uma oferta agradável a Deus (cfr Rm 12, 1), dando testemunho disso através de uma vida de fé e de caridade (cfr Lumen gentium, 12), colocando-a ao serviço dos outros, a exemplo do Senhor Jesus (cfr Mt 20, 25-28; Jo 13, 13-17). Obrigado! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 46

Refrão: Ergue-se, Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta.

Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.

Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado.

SANTOS POPULARES



BEATA JOSEFA HENDRINA STENMANNS

Hendrina Stenmanns nasceu no dia 28 de maio de 1852, no Baixo Reno, na vila de Issum, Diocese de Münster, na Alemanha. Dos 6 aos 14 anos, frequentou a escola mas, antes de terminar o último ano, teve de deixá-la para ajudar a cuidar da casa e dos irmãos mais pequenos. A sua generosa dedicação ao trabalho não a impediu de buscar a Deus e de praticar das virtudes cristãs. Visitava os doentes e, como a sua amabilidade e delicadeza eram grandes, todos os doentes queriam tê-la perto. Graças a uma tia religiosa, Hendrina, desde pequena, sentiu-se, também, chamada a tornar-se freira, mas uma “freira franciscana”.
Aos 19 anos, tornou-se membro da Terceira Ordem de São Francisco, em Sonsbeck. Hendrina queria ser religiosa mas, naquela altura esse desejo era de difícil concretização: inúmeros conventos estavam a ser fechados, devido aos constantes incidentes políticos da "Kulturkampf".
Em 1878, faleceu a sua mãe. Então, Hendrina prometeu ficar com o pai, para cuidar dos seus irmãos. Tinha então 26 anos e o seu irmão mais novo tinha apenas 8 anos. Diante da impossibilidade de realizar a sua vocação, entregou-se nas mãos da Divina Providência. Não se lhe notou, nunca, uma única palavra de queixa ou lamentação.
Hendrina tinha os pés bem assentes no chão e, tudo o que fazia, fazia-o o amor de um coração firmemente ancorado em Deus. Ele era o sustento da sua vida. Na Missa e na comunhão experimentava a confirmação desta presença.
Anos mais tarde, conheceu a obra missionária de Steyl: a Congregação dos Verbitas, fundada na Holanda pelo Padre Arnoldo Janssen. Após fundar a congregação masculina de missionários, o Padre Janssen pensava fundar uma congregação feminina. Hendrina conheceu duas jovens que trabalhavam como empregadas, no Seminário do Padre Janssen, na esperança de que um dia fosse fundada a congregação. Hendrina sentiu que era lá seu lugar.
O pároco de Issum, o Padre Veels, conhecia muito bem Hendrina. Então, em Janeiro de 1884, escreveu ao Padre Janssen falando-lhe de Hendrina e apresentando-lhe “as melhores recomendações em todos os sentidos. Ela sempre teve o desejo de entrar na vida religiosa; durante muitos anos, confessava-se semanalmente e, apesar de morar a mais de 15 minutos de caminhada da igreja e ter de cuidar da casa, assistia diariamente à Santa Missa”. Não era comum uma jovem com a carga de trabalho de Hendrina levar uma vida espiritual tão intensa.
O Padre Janssen aceitou o pedido de Hendrina e, quando a sua irmã mais nova se tornou capaz de assumir as responsabilidades familiares que estavam a seu cargo, partiu para Steyl.
Na cozinha do Seminário, Hendrina rezou, sofreu e esperou durante cinco anos: longos anos, também para ela, embora já estivesse habituada a ter paciência e a esperar.
Para o pequeno grupo em Steyl, célula germinativa da futura Congregação, a Eucaristia era fonte de força no trabalho diário e pesado, na cozinha. Poderíamos dizer que as empregadas viviam um “círculo Eucarístico”: Missa de manhã, onde frequentemente recebiam a Sagada Comunhão; meia hora de oração, ao meio dia; Bênção do Santíssimo Sacramento, à tarde. A antecipação destes ‘auxílios espirituais’ diários permeava e animava a sua vida quotidiana.
O dia 8 de Dezembro de 1889 é considerado o "Dia da Fundação" da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo. Hendrina e mais cinco raparigas - entre elas Helena Stollenwerk - foram recebidas como postulantes.
Em Agosto de 1891, o Padre Arnoldo Janssen nomeou Helena Stollenwerk como superiora da comunidade e Hendrina como sua assistente. No dia 17 de Janeiro de 1892, Hendrina recebeu o hábito religioso e o nome de Irmã Josefa. No dia 12 de Março de 1894, com onze companheiras, pôde, finalmente, emitir os primeiros votos religiosos.
 “Vivíamos hora a hora, dia a dia, e deixávamos o futuro a Deus”, repetia, incansavelmente, enquanto dizia de si mesma “O meu coração está pronto” e rezava, em cada acção, o “Veni, Sancte Spíritus”(Vinde, Espírito Santo)
Para a Irmã Josefa a vida religiosa significava pertencer inteiramente a Deus. Com o aumento do número de Irmãs, o trabalho aumentava, continuamente. Mesmo assim, ela não se perdia nas inúmeras tarefas e tinha sempre uma palavra bondosa para todos. Trabalho e oração eram igualmente serviço a Deus. A Congregação estava pujante de vida e tornou-se necessário construir um novo convento para acolher o número crescente de Irmãs.
Quando a Irmã Maria Helena Stollenwerk foi transferida para as “adoradoras perpétuas” (outra congregação fundada pelo Padre Janssen), a Irmã Josefa tornou-se superiora das Servas do Espírito Santo. Mais do que um cargo, foi um serviço que ela exerceu com paciência e amor mas, infelizmente, por pouco tempo. A Irmã Josefa sofria de várias enfermidades - entre elas a da asma - que fragilizaram, com muita rapidez, a sua já débil saúde. Nas suas dores, teve de exercitar, ainda mais, a sua paciência. A doença tolheu as suas forças e levou-a para o leito, no meio de intensos sofrimentos.
A Irmã Josefa Hendrina Stenmanns faleceu no dia 20 de Maio de 1903, com 50 anos. Foi sepultada ao lado da outra co-fundadora, a Madre Maria Stollenwerk.
No dia 29 de Junho de 2008, a Madre Josefa Hendrina Stenmanns foi beatificada pelo Papa Bento XVI, juntando-se, na glória dos altares, aos seus companheiros e amigos: o Padre Arnoldo Janssen, canonizado em 2003, e a Madre Maria Helena Stollenwerk, beatificada em 1995.
A celebração realizou-se em Steyl-Tegelen, na Holanda, tendo presidido, em nome do Papa, o Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. No fim da celebração da beatificação, o Cardeal disse: “… a Beata Josefa Hendrina, dócil à acção do Espírito Santo, distinguiu-se, em toda a sua vida, pela sua pureza de intenções e pela simplicidade de espírito, mediante um contínuo abandono amoroso à vontade do Senhor, com uma correspondência total e generosa às graças e inspirações de Deus.
Profundamente devota, mas sem ostentação, Josefa Hendrina Stenmanns foi uma mulher de admirável equilíbrio humano e sobrenatural: à fortaleza de carácter uniu sempre a amabilidade materna; ao sentido prático da acção uniu, constantemente, o exercício da caridade, sobretudo para com os pobres, os idosos e os enfermos. E tudo isto sem chamar a atenção.
Já antes de abraçar a vida religiosa, era modelo de maturidade cristã; poderíamos dizer, de santidade laical. Os compromissos que assumiu com a sua profissão na Ordem franciscana secular deram à sua vida um autêntico sentido de consagração, no meio das realidades familiares e sociais. O convívio com o Santo fundador Arnold Janssen marcou profundamente a sua actividade espiritual e missionária. De facto, a vocação missionária foi o fulcro de toda a sua existência: «Orar e trabalhar no apostolado missionário, para que o Evangelho seja conhecido por todos».
Com esse objectivo, ofereceu-se em sacrifício pela Obra da propagação da fé. Por isso, a sua vida terrena esteve impregnada de um anseio constante de perfeição, que se desenvolveu no impulso apostólico em favor da difusão do Evangelho e da propagação do Reino de Deus entre os homens…”
A memória litúrgica da Beata Josefa Hendrina Stenmanns celebra-se no dia 20 de Maio.