PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

EM DESTAQUE



VIAGEM DO PAPA FRANCISCO À IRLANDA
- discurso às Famílias, no âmbito do IX Encontro Mundial das Famílias

Queridos irmãos e irmãs, boa noite!
Obrigado pelas vossas calorosas boas-vindas. É bom estar aqui! É bom celebrar, porque nos torna mais humanos e mais cristãos. Também nos ajuda a partilhar a alegria de saber que Jesus nos ama, acompanha no percurso da vida e, cada dia, nos atrai para mais perto de Si.
Em cada celebração familiar, sente-se a presença de todos: pais, mães, avós, netos, tios e tias, primos, quem não pôde vir e quem vive demasiado longe, todos. Hoje, em Dublin, reunimo-nos para uma celebração familiar de acção de graças a Deus pelo que somos: uma única família em Cristo, espalhada por toda a terra. A Igreja é a família dos filhos de Deus; uma família, que se regozija com aqueles que estão na alegria e que chora com aqueles que estão na tribulação ou se sentem desanimados com a vida. Uma família onde se cuida de cada um, porque Deus nosso Pai nos fez, a todos, seus filhos no Baptismo. Por isso mesmo, continuo a encorajar os pais a levar ao Baptismo os filhos, logo que possível, para que se tornem parte da grande família de Deus. É preciso convidar cada um para a festa, também a criança pequena! E, por isso, deve ser baptizada o quanto antes. E há outra coisa: se a criança, desde pequena, é baptizada, o Espírito Santo entra no seu coração. Façamos uma comparação: uma criança sem Baptismo - pois os pais dizem: «Não, quando for maior» - e uma criança com o Batpismo, com o Espírito Santo dentro de si: ela é mais forte, porque tem dentro a força de Deus!
Vós, queridas famílias, sois a grande maioria do povo de Deus. Que fisionomia teria a Igreja sem vós? Uma Igreja de estátuas, uma Igreja de pessoas solitárias... Foi para nos ajudar a reconhecer a beleza e a importância da família, com as suas luzes e sombras, que foi escrita a Exortação ‘Amoris laetitia’ sobre a alegria do amor, e quis que o tema deste Encontro Mundial das Famílias fosse «O Evangelho da família, alegria para o mundo». Deus quer que cada família seja um farol que irradia a alegria do seu amor pelo mundo. Que significa isto? Significa que nós, depois de termos encontrado o amor de Deus que salva, procuramos, com palavras ou sem elas, manifestá-lo através de pequenos gestos de bondade na vida rotineira de cada dia e nos momentos mais simples da jornada.
E isto como se chama? Isto chama-se santidade. Gosto de falar dos santos de «ao pé da porta», de todas aquelas pessoas comuns que reflectem a presença de Deus, na vida e na história do mundo (cf. Exort. ap. Gaudete et exsultate, 6-7). A vocação ao amor e à santidade não é algo reservado para poucos privilegiados. Não. Mesmo agora, se tivermos olhos para ver, podemos vislumbrá-la ao nosso redor. Está silenciosamente presente no coração de todas as famílias que oferecem amor, perdão, misericórdia, quando vêem que há necessidade, e fazem-no tranquilamente, sem tocar a trombeta. O Evangelho da família é, verdadeiramente, alegria para o mundo, visto que lá, nas nossas famílias, sempre se pode encontrar Jesus; lá habita, em simplicidade e pobreza, como fez na casa da Sagrada Família de Nazaré.
O matrimónio cristão e a vida familiar são compreendidos em toda a sua beleza e fascínio, se estiverem ancorados no amor de Deus, que nos criou à sua imagem para podermos dar-Lhe glória, como ícones do seu amor e da sua santidade, no mundo. Pais e mães, avós, filhos e netos são todos chamados a encontrar, na família, a realização do amor. A graça de Deus ajuda dia-a-dia a viver com um só coração e uma só alma. Mesmo as sogras e as noras! Ninguém diz que seja fácil, sabeis melhor do que eu. É como preparar um chá: é fácil ferver a água, mas uma boa taça de chá requer tempo e paciência; é preciso deixar em infusão! Então, dia após dia, Jesus aquece-nos com o seu amor, fazendo de modo que penetre todo o nosso ser. Do tesouro do seu Sagrado Coração, derrama sobre nós a graça que precisamos para curar as nossas enfermidades e abrir a mente e o coração para nos escutarmos, compreendermos e perdoarmos uns aos outros.
Acabamos de ouvir os testemunhos de Felicité, Isaac e Ghislain, que vêm do Burkina Faso. Contaram-nos uma história comovente de perdão em família. O poeta dizia que «errar é humano, perdoar é divino». É verdade! O perdão é um dom especial de Deus, que cura as nossas feridas e nos aproxima dos outros e d’Ele. Gestos humildes e simples de perdão, renovados dia-a-dia, são o fundamento sobre o qual se constrói uma vida familiar cristã sólida. Obrigam-nos a superar o orgulho, o isolamento e o embaraço, e a fazer paz. Muitas vezes, ficamos com raiva entre nós e queremos fazer a paz, mas não sabemos como. É um embaraço fazer a paz, mas queremos fazê-la! Não é difícil. É fácil. Faz uma carícia e assim faz-se a paz! É verdade! Gosto de dizer que, nas famílias, precisamos de aprender três palavras – Tu [Ghislain] o disseste – três palavras: «desculpa», «por favor» e «obrigado». Três palavras… Quando tiverdes discutido em casa, certificai-vos, antes de ir dormir, que pedistes desculpa dizendo que sentis pesar pelo sucedido. Antes que termine o dia, fazei a paz. E sabeis por que é necessário fazer a paz antes de terminar o dia? Porque se não se faz a paz, no dia seguinte, a “guerra fria” é muito perigosa! Estai atentos com a guerra fria na família! Mas, é possível que tu, às vezes, fiques com raiva e te sintas tentado a ir dormir noutro quarto, sozinho e isolado. Se te sentes assim, bate simplesmente à porta e diz: «Por favor, posso entrar?» Basta um olhar, um beijo, uma palavra doce... e tudo volta a estar como antes! Digo isto porque as famílias, quando o fazem, sobrevivem. Não existe uma família perfeita; sem o hábito do perdão, a família cresce doente e gradualmente desmorona-se.
Perdoar significa doar algo de si mesmo. Jesus perdoa-nos sempre. Com a força do seu perdão, também nós podemos perdoar aos outros, se o quisermos de verdade. Não é isso que pedimos, quando rezamos o Pai-Nosso? Os filhos aprendem a perdoar quando vêem que os seus pais se perdoam entre si. Se compreendermos isto, poderemos apreciar a grandeza da doutrina de Jesus sobre a fidelidade no matrimónio. Longe de ser uma fria obrigação legal, trata-se, sobretudo, duma promessa poderosa da fidelidade do próprio Deus à sua palavra e à sua graça sem limites. Cristo morreu por nós para que, por nossa vez, possamos perdoar-nos e reconciliar-nos uns com os outros. Deste modo, como pessoas e como famílias, aprendemos a compreender a verdade daquelas palavras de São Paulo: tudo passa, mas «o amor jamais passará» (1 Cor 13, 8).
Obrigado, Nisha e Ted, pelos vossos testemunhos da Índia, onde estais a ensinar aos vossos filhos a serem uma verdadeira família. Ajudastes-nos, também, a compreender que os meios de comunicação social não são necessariamente um problema para as famílias, mas podem contribuir para a construção duma «rede» de amizade, solidariedade e apoio mútuo. As famílias podem conectar-se através da internet e beneficiar disso. Os meios de comunicação social podem ser benéficos, se forem usados com moderação e prudência. Vós, por exemplo, que participais neste Encontro Mundial das Famílias, formais uma «rede» espiritual e de amizade, e os meios de comunicação social podem ajudar-vos a manter esta ligação e alargá-la a outras famílias em muitas partes do mundo. Contudo, é importante que estes meios nunca se tornem uma ameaça para a verdadeira rede de relações de carne e sangue, prendendo-nos numa realidade virtual e isolando-nos das relações concretas que nos estimulam a dar o melhor de nós mesmos em comunhão com os outros. Talvez a história de Ted e Nisha possa ajudar as famílias a interrogar-se sobre a obrigação de reduzir o tempo que gastam com esses meios tecnológicos, e de passar um tempo de qualidade entre eles e com Deus. Mas, quando usas demasiado as redes sociais, “entras em órbita”. Quando, à mesa, ao invés de conversar em família, cada um tem o seu telefone e fica a ligar para fora, fica “em órbita”. Mas isso é perigoso. Porquê? Porque te arranca do concreto da família e te leva para uma “vida gasosa”, sem consistência. Estai atentos a isso. Lembrai-vos da história de Ted e Nisha, que nos ensinam a usar bem as redes sociais.
Ouvimos, de Enass e Sarmaad, como o amor e a fé em família podem ser fonte de força e paz, mesmo no meio da violência e da destruição, causadas pela guerra e a perseguição. A sua história recorda-nos as trágicas situações que sofrem, quotidianamente, muitas famílias, forçadas a abandonar as suas casas à procura de segurança e de paz. Mas Enass e Sarmaad indicaram-nos também como, a partir da família e graças à solidariedade manifestada por muitas outras famílias, a vida pode ser reconstruída e renascer a esperança. Vimos este apoio no vídeo de Rammy e do seu irmão Meelad, onde Rammy expressou profunda gratidão pelo incentivo e a ajuda que a sua família recebeu de muitas outras famílias cristãs do mundo inteiro, fazendo com que fosse possível que eles voltassem para a sua aldeia. Em cada sociedade, as famílias geram paz, porque ensinam o amor, o acolhimento, o perdão, que são os melhores antídotos contra o ódio, o preconceito e a vingança que envenenam a vida de pessoas e de comunidades.
Como ensinou um bom padre irlandês, «a família que reza unida permanece unida» e irradia paz. Tal família pode ser um apoio especial para outras famílias que não vivem em paz. Depois da morte do padre Ganni, Enass, Sarmaad e as suas famílias optaram pelo perdão e a reconciliação, em vez do ódio e do rancor. À luz da Cruz, viram que o mal só se pode contrastar com o bem; e o ódio só se pode superar com o perdão. De forma quase incrível, foram capazes de encontrar paz no amor de Cristo, um amor que faz novas todas as coisas. E, nesta noite, partilham esta paz connosco. Rezaram. A oração… rezar juntos… Enquanto escutava o coral, vi uma mãe que ensinava o filho a fazer o sinal da cruz. Pergunto-vos: ensinais as crianças a fazerem o sinal da cruz? Sim ou não?... Ou ensinais a fazer uma gatafunhada que não se entende bem o que é? É muito importante que as crianças desde pequenas, aprendam a fazer bem o sinal da cruz: é o primeiro Credo que aprendem, o Credo no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Esta noite, antes de irdes para a cama, vós, pais, perguntai a vós mesmos: ensino os meus filhos a fazer bem o sinal da cruz? Pensai, é algo para vós!
O amor de Cristo, que tudo renova, é o que torna possível o matrimónio e um amor conjugal caracterizado por fidelidade, indissolubilidade, unidade e abertura à vida. É o que se evidencia no quarto capítulo da ‘Amoris laetitia’. Vimos este amor em Mary e Damian e na sua família com dez filhos. Pergunto-vos, Mary e Damian: os vossos filhos deixam-vos, muitas vezes, aborrecidos? Pois, a vida é assim! Mas é belo ter dez filhos. Obrigado pelas vossas palavras e pelo vosso testemunho de amor e de fé! Experimentastes a capacidade que o amor de Deus tem de transformar completamente a vossa vida e de vos abençoar com a alegria de uma linda família. Dissestes-nos que a chave da vossa vida familiar é a sinceridade. Pela vossa história, compreendemos como é importante continuar a ir àquela fonte da verdade e do amor que pode transformar a nossa vida. Quem é? Jesus, que inaugurou o seu ministério público justamente numa festa de núpcias. Lá, em Caná, mudou a água num vinho novo e bom que permitiu continuar magnificamente a jubilosa celebração. Mas, pensastes o que teria acontecido se Jesus não tivesse feito isso? Pensastes como é feio terminar uma festa de núpcias somente com água? É feio! Nossa Senhora percebeu-o e disse ao Filho: «Eles não têm mais vinho». E Jesus entendeu que a festa teria terminado mal só com água. O mesmo se passa com o amor conjugal. O vinho novo começa a ferver durante o tempo do noivado, necessário mas passageiro, e matura ao longo da vida matrimonial num mútuo dom de si mesmo que torna os esposos capazes de se fazerem, de dois, «uma só carne». E também de abrir, por sua vez, os corações a quem tem necessidade de amor, especialmente quem está sozinho, abandonado, fraco e, enquanto vulnerável, muitas vezes posto de lado pela cultura do descarte. Essa cultura em que vivemos hoje, que descarta tudo: descarta tudo aquilo que não serve, descarta as crianças, porque incomodam. Descarta os velhos, porque não servem... Só o amor nos salva desta cultura do descarte.
Por toda a parte, as famílias são chamadas a continuar a crescer e seguir em frente, mesmo no meio de dificuldades e limites, precisamente como fizeram as gerações passadas. Todos somos parte duma grande cadeia de famílias, que remonta ao início dos tempos. As nossas famílias são tesouros vivos de memória, com os filhos que, por sua vez, se tornam pais e, depois, avós. Deles recebemos a identidade, os valores e a fé. Vimo-lo em Aldo e Marisa, casados há mais de cinquenta anos. O seu matrimónio é um monumento ao amor e à fidelidade! Os seus netos os mantêm jovens; a sua casa está cheia de alegria, de felicidade e de danças. Foi bonito ver, no vídeo, a avó a ensinar as netinhas a dançarem! O seu amor mútuo é um dom de Deus, um dom que estão a transmitir com alegria aos seus filhos e netos.
Uma sociedade - escutai bem isto - uma sociedade que não valorize os avós é uma sociedade sem futuro. Uma Igreja que não tenha a peito a aliança entre gerações acabará sem o que conta verdadeiramente, o amor. Os nossos avós ensinam-nos o significado do amor conjugal e paternal. Eles próprios cresceram numa família e experimentaram o afecto de filhos e filhas, de irmãos e irmãs. Por isso, constituem um tesouro de experiência, um tesouro de sabedoria para as novas gerações. É um grande erro não interpelar os idosos sobre as suas experiências ou pensar que seja uma perda de tempo conversar com eles. A propósito, quero agradecer a Missy o seu testemunho. A senhora disse-nos que, entre os nómadas, a família sempre foi uma fonte de força e de solidariedade. O seu testemunho lembra-nos que, na casa de Deus, há um lugar à mesa para todos. Ninguém deve ser excluído; o nosso amor e a nossa atenção devem estender-se a todos.
É tarde e estais cansados! Eu também! Mas deixai que vos diga uma última coisa. Vós, famílias, sois a esperança da Igreja e do mundo! Deus - Pai, Filho e Espírito Santo - criou a humanidade à sua imagem e semelhança para fazê-la participante do seu amor; para que fosse uma família de famílias e gozasse daquela paz que só Ele pode dar. Com o vosso testemunho do Evangelho, podeis ajudar Deus a realizar o seu sonho. Podeis contribuir para aproximar todos os filhos de Deus, para que cresçam na unidade e aprendam o que significa, para o mundo inteiro, viver em paz como uma grande família. Por este motivo, desejei entregar a cada um de vós uma cópia da ‘Amoris laetitia’, preparada nos dois Sínodos sobre a família e escrita para ser uma espécie de guia a fim de se viver com alegria o Evangelho da família. Que Maria nossa Mãe, Rainha da família e da paz, sustente a todos vós no percurso da vida, do amor e da felicidade! (cf. Santa Sé)

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…«Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses;
porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair,
a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão.
Foi Ele que, diante dos nossos olhos, realizou tão grandes prodígios
e nos protegeu durante o caminho que percorremos
entre os povos por onde passámos…
Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus»…” (Josué 24, 16-17.18b)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 22 de Agosto de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuando as catequeses sobre os mandamentos, hoje, reflectiremos sobre o mandamento: “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão…” (Êx 20, 7). Entendemos, precisamente, esta Palavra como convite a não ofender o nome de Deus e a evitar usá-lo de forma inadequada. Esse claro significado prepara-nos para aprofundar mais estas palavras preciosas, de não usar o nome de Deus em vão, de forma inadequada.
Escutemo-las melhor. A versão "não pronunciarás" traduz uma expressão que significa literalmente, em hebraico e em grego, "não te apoderarás… não carregarás esse peso".
A expressão «em vão» é mais clara e significa: «vazio, de modo fútil». Refere-se a um invólucro vazio, a uma forma desprovida de conteúdo. É a característica da hipocrisia, do formalismo e da mentira, no usar as palavras ou usar o nome de Deus, mas de modo vazio, sem verdade.
O nome, na Bíblia, é a verdade íntima das coisas e, sobretudo, das pessoas. O nome representa, a maioria das vezes, a missão. Por exemplo: Abraão, no Génesis, (cf. 17, 5) e Simão Pedro, nos Evangelhos, (cf. Jo 1, 42) recebem um nome novo, para indicar a mudança de rumo das suas vidas. E, conhecer verdadeiramente o nome de Deus, leva à transformação da própria vida: a partir do momento em que Moisés conheceu o nome de Deus, a sua história muda (cf. Êx 3, 13-15).
O nome de Deus, nos ritos hebraicos, é proclamado, solenemente, no Dia do Grande Perdão, e o povo é perdoado porque, através do nome, entra em contacto com a própria vida de Deus que é misericordiosa.
Então, "tomar sobre si o nome de Deus" significa assumir a sua realidade, entrar numa relação forte, numa relação íntima com Ele. Para nós, cristãos, este mandamento é um alerta para nos lembrarmos que somos baptizados "em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", como afirmamos todas as vezes que fazemos, sobre nós, o sinal da cruz; um alerta para vivermos as nossas acções quotidianas em comunhão sincera e real com Deus, isto é, no seu amor. E sobre isto de fazer o sinal da cruz, gostaria de dizer, novamente: ensinai as crianças a fazer o sinal da cruz. Tendes visto como as crianças fazem o sinal da cruz? Se disserdes às crianças: "Fazei o sinal da cruz", fazem uma coisa que não sabem o que é. Não sabem fazer o sinal da cruz! Ensinai-os a dizer “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. O primeiro acto de fé de uma criança. Uma tarefa para vós; um trabalho a fazer: ensinar as crianças a fazer o sinal da cruz.
Podemos perguntar: é possível invocar sobre si o nome de Deus, hipocritamente, como uma mera formalidade, em vão? A resposta é, infelizmente, positiva: sim, é possível. Pode viver-se uma relação falsa com Deus. Jesus dizia-o dos doutores da lei; eles faziam coisas, mas não faziam o que Deus queria. Falavam de Deus, mas não faziam a vontade de Deus. O conselho de Jesus é: "Fazei o que eles dizem, mas não o que eles fazem". Pode viver-se uma relação falsa com Deus, como aquela gente. E esta Palavra do Decálogo é, precisamente, um convite a um relacionamento com Deus que não seja falso; sem hipocrisia, a um relacionamento em que nos entregamos a Ele com tudo o que somos. No fundo, se não arriscarmos a nossa existência com o Senhor, sentindo que n’Ele se encontra a vida, só fantasiamos.
Este é o cristianismo que toca os corações. Por que é que os santos são tão capazes de tocar os corações? Porque os santos não falavam apenas, mexiam-se! Se nos toca o coração quando uma pessoa santa nos fala, é porque ela nos comunica alguma coisa. E os santos são capazes disso, porque nos santos vemos o que o nosso coração deseja profundamente: autenticidade, relacionamentos verdadeiros, radicalidade. E isto se vê, também, nos "santos da nossa porta", que são, por exemplo, os muitos pais que dão aos filhos o exemplo de uma vida coerente, simples, honesta e generosa.
Se se multiplicarem os cristãos que assumam o nome de Deus sem falsidade - praticando assim o primeiro pedido do Pai Nosso, "santificado seja o vosso nome” – o anúncio da Igreja será mais escutado e torna-se mais credível. Se a nossa vida concreta manifestar o nome de Deus, experimentar-se-á como belo é o baptismo e o grande dom que é a Eucaristia, sublime união existente entre o nosso corpo e o Corpo de Cristo: Cristo em nós e nós n’Ele! Unidos! Isto não é hipocrisia; isto é verdade. Isto não é falar ou rezar como um papagaio; isto é rezar com o coração, amar o Senhor.
A partir da cruz de Cristo, ninguém pode desprezar-se a si mesmo, ou pensar mal da sua própria existência. Ninguém e nunca! O que quer que seja que tenha feito! Porque o nome de cada um de nós está sobre os ombros de Cristo. Ele leva-nos! Vale a pena invocar sobre nós o nome de Deus porque Ele assumiu o nosso nome até o fim, até o mal que está em nós; Ele carrega connosco para nos perdoar, para meter o seu amor nos nossos corações. É por isso que Deus proclama neste mandamento: "Leva-me contigo, porque eu te carrego aos meus ombros".
Qualquer um pode invocar o santo nome do Senhor, que é Amor fiel e misericordioso, em qualquer situação em que se encontre. Deus nunca dirá "não" a um coração que O invoca com sinceridade. E voltemos ao trabalho de casa: ensinar as crianças a fazer o sinal da cruz bem feito. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Os olhos do Senhor estão voltados para os justos
e os ouvidos atentos aos seus rogos.
A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal,
para apagar da terra a sua memória.

Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,
livrou-os de todas as suas angústias.
O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado
e salva os de ânimo abatido.

Muitas são as tribulações do justo,
mas de todas elas o livra o Senhor.
Guarda todos os seus ossos,
nem um só será quebrado.

A maldade leva o ímpio à morte,
os inimigos do justo serão castigados.
O Senhor defende a vida dos seus servos,
não serão castigados os que n’Ele se refugiam.

SANTOS POPULARES



SANTO AGOSTINHO

Agostinho nasceu em Tagaste, no norte da África, no dia 13 de Novembro do ano 354. Era filho de Patrício, um pagão inteiramente voltado para o materialismo da época, e de Mónica, uma mulher profundamente cristã, que foi declarada santa.
Embora nascido de uma mãe cristã, Agostinho não foi baptizado. Era comum, sobretudo na Igreja de África, o costume de se baptizar numa idade mais avançada, porque se acreditava que os pecados cometidos depois do sacramento do baptismo não podiam ser perdoados tão facilmente como os cometidos antes. Era um pensamento e um costume perigoso que a Igreja local se apressou em abolir. Muitos jovens, de facto, animados às vezes pelos seus pais, abandonavam-se aos vícios, com a certeza de que, um dia, a água do Baptismo lavaria todas as manchas do pecado.
A influência dos pais foi muito grande, na vida de Agostinho: primeiro a de Patrício; depois a de Mónica.
Agostinho fez os seus primeiros estudos em Tagaste; depois, continuou-os em Madaura.
Aos 17 anos, vai para Cartago, onde Romaniano, amigo do seu pai, o ajuda e se torna o seu protector. Aí, durante três anos, dedicou-se ao estudo e à leitura de livros, entre os quais se destaca o "Hortênsio", de Cícero, que o impressionou profundamente.
Aos 20 anos voltou a Tagaste como professor, com uma mulher e um filho, Adeodato. Pouco tempo, voltou para Cartago, também como professor. Depois, foi leccionar em Roma e, a seguir, foi para Milão, onde ganhou a cátedra de retórica, da casa imperial, e desenvolveu, aí, também a actividade de professor de retórica.
Apesar de tudo, Agostinho sentia um grande vazio no seu coração; vivia numa interior inquietação. Não era feliz!... Procurou a felicidade em muitos lugares, mas não a encontrou. O seu coração inquieto não encontrava a verdade e a paz que tanto desejava. A sua mãe encontrou-se com ele, em Milão, e animou-o a participar nas pregações feitas por Ambrósio (Santo Ambrósio), Bispo de Milão.
Foi uma longa caminhada euma dura luta para transformar o seu coração. No mês de Agosto de 386, meditando no jardim, ouviu uma voz de criança que lhe dizia "Tolle et lege" (Toma e lê) e, tomando as Cartas de São Paulo, leu: "Não é nos prazeres da vida, mas no seguir a Cristo que se encontra a felicidade". As dúvidas dissipam-se-lhe e é neste momento que culmina todo o processo da sua conversão. Encontrando Deus no seu coração, achou a felicidade, a paz e a verdade que procurava. No ano seguinte, na Vigília da Páscoa, foi baptizado.
Agostinho decidiu voltar para Tagaste, para morar com os seus amigos e entregar-se inteiramente ao serviço de Deus, através da oração e do estudo. Mas, no ano 391, de visita à cidade de Hipona, foi proclamado sacerdote pelo povo e ordenado padre pelo bispo Valério. Quatro anos depois, foi ordenado Bispo desta cidade: daí o nome por que é mais conhecido  - Agostinho de Hipona.
Viveu em comunidade - tentando seguir o ideal das primeiras comunidades cristãs - na pobreza e na partilha. A comunidade eclesial de Hipona era constituída,  na sua grande maioria, por pobres. Agostinho fez-se a voz destes pobres, falando por eles na Igreja, indo até às autoridades para interceder por eles e ajudando-os naquilo que podia. Entre as funções que o bispo tinha estavam a de administrar os bens da Igreja, a de repartir o seu benefício entre os pobres, e, também, a de acolher os peregrinos e ser protector dos órfãos e viúvas... Agostinho realizou todas estas tarefas como um serviço aos pobres e à Igreja. O bispo exercia, também, a função de juiz, tarefa que lhe desagradava profundamente, mas exerceu essa missão com objectividade, justiça e caridade.
Agostinho dedicou-se, de modo humilde e sábio, à oração, ao estudo e à escrita. Escreveu inúmeras obras, num total de 113, sem contar as cartas - destas conservam-se mais de 200 - e os Sermões. A maior parte das obras de Agostinho surgiram por causa dos problemas ou das preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo. É por isso que, nas suas obras, estão presentes as polémicas em que ele mesmo esteve envolvido, principalmente contra os maniqueos (seita da qual ele mesmo fez parte antes da conversão e que defendia um confuso dualismo cósmico - o bem contra o mal, sempre em conflito um com o outro - e desvalorizavam, de forma perversa, todo o criado), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente ao ministro, negando sua acção, como sinal eficaz da graça e se consideravam a "Igreja dos santos") e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva pelas suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus).
Além destas obras, destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu outras, de diverso conteúdo: no campo exegético (principalmente os Comentários ao Génesis, a São João e aos Salmos), no dogmático ("Sobre a Trindade"), no Pastoral ("Sobre a Catequese dos simples").
Mas, de entre todas as obras, destacam-se duas, pela genialidade: "A Cidade de Deus", que representa a primeira tentativa de fazer uma interpretação cristã da história, e "As Confissões", onde Agostinho manifesta a sua fraqueza, que gera o mal, e apresenta Deus, fonte de todo bem e Verdade absoluta. As "Confissões" são um louvor à Graça de Deus.
A obra e o pensamento de Agostinho ultrapassam os limites da sua época e exercem uma grande influência na Idade Média e, também, na nossa época. A influência de Agostinho acontece nos diversos campos do pensamento, da cultura e da vida religiosa.
Agostinho morreu no dia 28 de Agosto do ano 430, e seus restos mortais, depois de longa peregrinação, descansam na cidade de Pavia, no norte da Itália.
A memória litúrgica de Santo Agostinho celebra-se no dia 28 de Agosto.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XX DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…«Vinde comer do meu pão e beber do vinho que vos preparei.
 Deixai a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência»…” (Provérbios 9, 5-6)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 19 de Agosto de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A passagem do Evangelho deste domingo (cf. Jo. 6,51-58) introduz-nos na segunda parte do discurso que Jesus fez, na sinagoga de Cafarnaum, depois de ter alimentado uma grande multidão, com cinco pães e dois peixes: a multiplicação dos pães. Ele apresenta-se como "o pão vivo que desceu do céu", o pão que dá a vida eterna; e acrescenta: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (v 51). Essa passagem é decisiva e, de facto, provoca a reacção dos ouvintes, que começam a discutir entre si: "Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?" (V. 52). Quando o sinal do pão partido leva ao seu verdadeiro significado - ou seja, o dom de si até ao sacrifício – surge a incompreensão; surge até a rejeição d’Aquele que, pouco antes, se queria levar em triunfo. Recordemo-nos que Jesus teve de se esconder queriam fazê-lo rei.
Jesus continua: "Se não comerdes a carne do filho o homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (v. 53). Aqui, juntamente com a carne, está presente, também, o sangue. Carne e sangue, na linguagem bíblica, exprimem a humanidade concreta. As pessoas e os próprios discípulos entendem que Jesus os convida a entrar em comunhão com Ele; a "come-Lo"; a comer a sua humanidade, para compartilhar com Ele o dom da vida pelo mundo. Isto não tem nada a ver com triunfo ou miragens de sucesso! É precisamente o sacrifício de Jesus que se entrega por nós.
Este pão de vida, o sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, é-nos dado gratuitamente, na mesa da Eucaristia. No altar, encontramos o que nos alimenta e que mata a nossa sede, hoje e por toda a eternidade. Cada vez que participamos na Santa Missa, em certo sentido, antecipamos o céu na terra, porque do alimento eucarístico - o Corpo e o Sangue de Jesus - aprendemos o que é a vida eterna. É viver para o Senhor: "Quem me come, viverá por mim" (versículo 57), diz o Senhor. A Eucaristia molda-nos para que não vivamos para nós mesmos, mas para o Senhor e para nossos irmãos. A felicidade e a eternidade da vida dependem da nossa capacidade de tornar fecundo o amor evangélico que recebemos na Eucaristia.
Jesus, como naquela época, repete, também hoje, a cada um de nós: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (v 53). Irmãos e irmãs: não se trata de um alimento material, mas de um pão vivo e vivificante, que comunica a vida do próprio Deus. Quando comungamos, recebemos a vida do próprio Deus. Para ter esta vida, é necessário alimentar-se do Evangelho e do amor dos irmãos. Diante do convite de Jesus a alimentarmo-nos do seu Corpo e do seu Sangue, podemos sentir a necessidade de discutir e de resistir, como fizeram os ouvintes de que fala o Evangelho de hoje. Isto acontece quando nos custa configurar a nossa existência com a de Jesus, para agir segundo os seus critérios e não segundo os critérios do mundo. Alimentando-nos com este alimento, podemos entrar em plena sintonia com Cristo, com os seus sentimentos, com os seus comportamentos. Isto é muito importante: ir à missa e comungar, porque receber a comunhão é receber este Cristo vivo, que nos transforma por dentro e nos prepara para o céu.
Que a Virgem Maria nos ajude no nosso propósito de fazer comunhão com Jesus Cristo, alimentando-nos da sua Eucaristia, para nos tornarmos, nós mesmos, pão partido para os nossos irmãos. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Temei o Senhor, vós os seus fiéis,
porque nada falta aos que O temem.
Os poderosos empobrecem e passam fome,
aos que procuram o Senhor não faltará riqueza alguma.

Vinde, filhos, escutai-me,
vou ensinar-vos o temor do Senhor.
Qual é o homem que ama a vida,
que deseja longos dias de felicidade?

Guarda do mal a tua língua
e da mentira os teus lábios.
Evita o mal e faz o bem,
procura a paz e segue os seus passos.

SANTOS POPULARES



SANTA MARIA DE JESUS CRUCIFICADO

Miriam Baouardy nasceu a 5 de Janeiro de 1846, em Ibillin, numa pequena aldeia da Galileia, entre Nazaré e Haifa, numa família de rito greco-católico. Os seus pais perdem, um após outro, os doze filhos em tenra idade. Com profunda dor mas com uma grande confiança em Deus, decidiram fazer uma peregrinação a Belém para rezar na Gruta da Natividade e pedir a graça de uma filha. É assim que Miriam veio ao mundo. No ano seguinte nasceu o seu irmão Boulos.
Mas, Miriam não tinha ainda 3 anos quando o seu pai morreu confiando-a à fiel custódia de São José. Alguns dias mais tarde, morreu também a sua mãe. É assim que Boulos é adoptado por uma tia e Miriam por um tio de boa condição social.
Dos seus anos de infância na Galileia, guarda, na memória, o maravilhar-se diante da beleza da Criação, da luz, das paisagens onde tudo lhe fala de Deus e do sentimento, muito forte, de que “tudo passa”.
A experiência de criança é decisiva para sua vida futura: brinca com dois pequenos passarinhos e quer dar-lhes um banho… mas eles não resistem e morrem entre as suas mãos. Triste, ouve, então, interiormente, estas palavras: "Vês? É assim que tudo passa, mas se queres dar-me o teu coração, Eu ficarei para sempre contigo”.
Aos 8 anos, faz a sua primeira comunhão. Pouco depois, o seu tio parte para Alexandria com toda a família.
Miriam tem 12 anos quando sabe que o seu tio a quer casar. Decidida a dar-se totalmente a Deus, recusa a proposta. Tratam de persuadi-la e ameaçam-na. Nem as humilhações, nem os maus tratos puderam fazer mudar a sua decisão. Três meses depois, ela visita um velho criado da casa do seu tio, para enviar uma carta ao seu irmão, que vive na Galileia, para que a venha ajudar. Ouvindo a narração dos seus sofrimentos, o criado - que era muçulmano - exorta-a a converter-se ao Islão. Miriam recusa. Encolerizado, o homem pega numa espada e corta-lhe a garganta, abandonando-a, logo de seguida, numa rua escura. Era dia 8 de Setembro.
Mas, a sua hora ainda não tinha chegado! Acorda numa gruta, ao lado de uma jovem que parecia ser uma religiosa. Durante quatro semanas, ela cuida, alimenta e instrui Miriam. Depois de estar curada, aquela que mais tarde ela revelará ser a Virgem Maria, leva-a a uma igreja.
A partir desse dia, Miriam andou de cidade em cidade (Alexandria, Jerusalém, Beirute, Marselha…) como doméstica, elegendo preferencialmente as famílias pobres, ajudando-as, mas deixando-as quando elas a honram demasiado.
Mas ela irá ser, também, de maneira particular, testemunho desse “universo invisível”. Esse universo que nós acreditam ser ver e que ela experimentou duma maneira muito forte.
Em 1865, Miriam encontra-se em Marselha. Entra em contacto com as Irmãs de São José da Aparição. Tem 19 anos, mas só parece ter 12 ou 13. Fala mal o francês e possui uma saúde frágil. Contudo, foi admitida ao noviciado e a sua alegria era enorme por se poder entregar assim a Deus. Sempre disposta aos trabalhos mais pesados, passou a maior parte do seu tempo lavando ou cozinhando. Mas, dois dias por semana, revivia a Paixão de Jesus; recebeu os estigmas (que na sua simplicidade pensava ser uma doença) e começaram a manifestar-se todo o tipo de graças extraordinárias. Algumas irmãs ficam desconcertadas com o que se passava com ela, e ao fim de 2 anos de noviciado, não foi admitida na Congregação. Um conjunto de circunstâncias vão conduzi-la até ao Carmelo de Pau.
Foi recebida, no Carmelo de Pau, em Junho de 1867. Ali, no meio de todas as provas que teve de atravessar, encontrou sempre o amor e a compreensão. Entrou, de novo, no noviciado, onde recebeu o nome de Irmã Maria de Jesus Crucificado. Insistiu em ser admitida como ‘irmã conversa’, pois gostava mais do serviço aos outros, tendo, por outro lado, dificuldades na leitura, nomeadamente na recitação do Oficio Divino. A sua simplicidade e generosidade conquistaram o coração de todos. As suas palavras, proferidas depois de um êxtase, são o fruto da sua vida: "Onde está a caridade ali está Deus. Se pensais em fazer o bem ao vosso irmão, Deus pensará em vós. Se cavais um poço para vosso irmão, caíreis nele; o poço será para vós. Mas, se fazeis um céu para o vosso irmão, esse céu será para vós…”.
Dom da profecia, ataques do demónio ou êxtases… entre todas as graças divinas das quais está cheia, ela sabe, de maneira muito profunda, ser ‘nada’ diante de Deus e, quando fala dela mesma, intitula-se "o pequeno nada": é realmente a expressão profunda do seu ser. É o que a faz penetrar na insondável profundidade da misericórdia divina onde ela encontra a sua alegria, as suas delicias e a sua vida… “A humildade é ser por não ser nada, ela não se apega a nada, ela não se cansa nunca de nada. Está contente, é feliz, onde quer que esteja é feliz, está satisfeita com tudo… Felizes os pequenos!”. Ali está a fonte de seu abandono entre graças mais estranhas e os acontecimentos humanos mais desconcertantes.
Após 3 anos, em 1870, parte com um pequeno grupo de Irmãs para fundar o primeiro convento de Carmelitas Descalças na Índia, em Mangalore. A viagem de barco foi uma aventura e três religiosas morrem antes de chegarem ao destino. Por isso, são enviados reforços e, em finais de 1870, as Irmãs podem iniciar a vida claustral. As suas experiências extraordinárias continuam sem a impedir de realizar os seus trabalhos mais pesados e de dar atenção aos problemas inerentes a uma nova fundação. Durante os seus êxtases, as Irmãs podiam ver o seu rosto resplandecente na cozinha ou noutro local. Participou, em espírito, nos acontecimentos da Igreja, por exemplo, nas perseguições na China. Também viveu terríveis tormentos e combates. Foi o começo de muitas incompreensões, na sua comunidade, onde duvidaram da autenticidade do que ela vivia. Não obstante, pôde emitir os seus votos, no final do noviciado, a 21 de Novembro de 1871; mas as tensões criadas em seu redor acabaram por provocar o seu regresso ao Carmelo de Pau, em 1872.
Neste lugar, levava, de novo, a sua vida simples de ‘irmã conversa’ no meio do carinho das suas Irmãs, e a sua alma dilata-se. Durante alguns êxtases, ela que é quase analfabeta, faz subir, em exultação, a sua gratidão até Deus, poesias duma grande beleza, cheias de encanto e candor oriental, onde a criação inteira canta ao seu Criador. Pelo ímpeto da sua alma, unida a Deus, subiu até ao cimo de uma árvore, sobre uma rama que não suportaria nem sequer uma pequenina ave. “Todo o mundo dorme. E Deus, tão cheio de bondade, tão grande, tão digno de louvores, é esquecido!… Ninguém pensa Nele! Vede: toda a natureza O louva, o céu, as estrelas, as árvores, as ervas, tudo O louva; o homem, que conhece os seus benefícios, que deveria louvá-Lo, dorme!… Vamos, vamos despertar o universo!”
São numerosos os que procuram Miriam para receber consolo, conselhos, para que reze pelas suas intenções… e partem iluminados e fortificados com este encontro.
Pouco tempo depois do seu regresso de Mangalore, começou a falar da fundação de um Carmelo, em Belém. Os obstáculos são numerosos, mas dissipam-se progressivamente, inclusive de maneira inesperada. Por fim, a autorização é dada por Roma e, a 20 de Agosto de 1875, um pequeno grupo de carmelitas embarca para essa aventura. O Senhor conduz Miriam na escolha do local e na forma de construção do novo Carmelo. Como ela é a única que fala árabe, encarrega-se particularmente de seguir os trabalhos, “imersa na areia e na cal”. A comunidade instalar-se-á no dia 21 de Novembro de 1876, enquanto certos trabalhos continuam.
Prepara também a fundação de um Carmelo, em Nazaré, viajando até lá para comprar o terreno, em Agosto de 1878. Durante essa viagem, foi-lhe revelado por Deus o lugar de Emaús. Ela pede a ajuda de Berthe Dartigaux para comprá-lo para o Carmelo.
De volta a Belém, retomou a vigilância dos trabalhos, debaixo de um calor sufocante. Quando levava algo para beber aos trabalhadores, Miriam caiu de uma escada e partiu um braço. A gangrena começou a avançar muito rapidamente e Miriam morreu poucos dias depois, a 26 de Agosto de 1878, com 32 anos.
Miriam foi beatificada a 13 de Novembro de 1983, pelo Papa João Paulo II e canonizada pelo Papa Francisco, no dia 17 de Maio de 2015. Na Homilia da Missa da canonização, o Papa disse: “…Um aspecto essencial do testemunho que devemos prestar ao Senhor ressuscitado é a unidade entre nós, seus discípulos, à imagem da unidade que subsiste entre Ele e o Pai. Também hoje ressoou no Evangelho a oração de Jesus na vigília da Paixão: «Para que todos sejam um, como nós» (Jo 17, 11). Deste amor eterno entre o Pai e o Filho, que se infunde em nós por intermédio do Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), adquirem vigor a nossa missão e a nossa comunhão fraternal; é dele que brota sempre de novo a alegria de seguir o Senhor pelo caminho da sua pobreza, da sua castidade e da sua obediência; é aquele mesmo amor que nos chama a cultivar a oração contemplativa. Foi quanto experimentou de maneira eminente a irmã Maria Baouardy que, humilde e iletrada, soube dar conselhos e explicações teológicas com extrema clarividência, fruto do diálogo incessante que mantinha com o Espírito Santo. A docilidade ao Espírito Santo fez dela também um instrumento de encontro e de comunhão com o mundo muçulmano…”
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 26 de Agosto.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Não contristeis o Espírito Santo de Deus,
 que vos assinalou para o dia da redenção.
 Seja eliminado do meio de vós
 tudo o que é azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência
 e toda a espécie de maldade.
 Sede bondosos e compassivos uns para com os outros
 e perdoai-vos mutuamente,
 como Deus também vos perdoou em Cristo.
 Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados.
 Caminhai na caridade, a exemplo de Cristo,
 que nos amou e Se entregou por nós,
 oferecendo-Se como vítima agradável a Deus…” (Efésios 4,30 – 5,2)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 8 de Agosto de 2018

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Continuamos, hoje, a meditar o Decálogo, aprofundando o tema da idolatria, de que falamos já na semana passada. Retomamos o tema porque é muito importante conhecê-lo. E partimos do ídolo por excelência - o bezerro de ouro - de que fala o Livro do Êxodo (31, 1-8) do qual acabamos de ouvir um trecho. Este episódio tem um contexto preciso: o deserto, onde o povo espera Moisés, que subiu ao monte para receber as instruções de Deus.
O que é o deserto? É um lugar onde reinam a precariedade e a insegurança – no deserto não há nada – onde falta a água, a comida e falta o abrigo. O deserto é uma imagem da vida humana, cuja condição é incerta e não possui garantias invioláveis. Esta insegurança gera no homem ânsias primárias, que Jesus menciona no Evangelho: “Que comeremos? Que beberemos? Que vestiremos? (Mt 6, 31). São as ânsias primárias. E o deserto provoca essas ansiedades.
E, naquele deserto, acontece algo que desencadeia a idolatria. “Moisés tardava a descer da montanha” (Ex 32, 1). Permaneceu lá 40 dias e o povo ficou impaciente. Faltava-lhe o ponto de referência que era Moisés: o líder, o chefe, o guia reconfortante, e isso torna-se insustentável. Então, o povo pede um deus visível – esta é a armadilha na qual cai o povo – para poder identificar-se e orientar-se. E dizem a Aarão: “Faz para nós um deus que caminhe à nossa frente!”, “Faz-nos um chefe, faz-nos um líder”. A natureza humana, para fugir da precariedade – a precariedade é o deserto – procura uma religião “faça você mesmo”: se Deus não se faz ver, façamo-nos um deus sob medida. “Diante do ídolo, não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos «têm boca, mas não falam» (Sal 115, 5). Compreende-se, assim, que o ídolo é um pretexto para colocar-se a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos.
Aarão não é capaz de opor-se ao pedido do povo e cria um bezerro de ouro. O bezerro tinha um duplo sentido, no Oriente antigo: por um lado, representava a fecundidade e a abundância; e por outro, a energia e a força. Mas, antes de mais, é de ouro e, por isso, é o símbolo da riqueza, do sucesso, do poder e do dinheiro. Estes são os grandes ídolos: sucesso, poder e dinheiro. São as tentações de sempre! Eis o que é o bezerro de ouro: o símbolo de todos os desejos que dão a ilusão de liberdade e, em vez disso, escravizam, porque o ídolo escraviza sempre. Há o fascínio e tu vai atrás dele. Aquele fascínio da serpente, que olha para o pássaro e o pássaro fica sem poder mover-se e a serpente apanha-o. Aarão não soube opor-se.
Mas, tudo nasce da incapacidade de confiar, sobretudo, em Deus; de colocar Nele as nossas seguranças; de deixar que seja Ele a dar verdadeira profundidade aos desejos do nosso coração. Isto permite apoiar também a fraqueza, a incerteza e a precariedade. A referência a Deus torna-nos fortes na fraqueza, na incerteza e também na precariedade. Sem o primado de Deus, cai-se facilmente na idolatria e contentamo-nos com míseras seguranças. Mas, esta é uma tentação que encontramos sempre na Bíblia. Pensai bem nisto: a Deus não custou nada libertar o povo do Egipto; fê-lo com sinais de poder e de amor. Mas, o grande trabalho de Deus foi tirar o Egipto do coração do povo, isso é, tirar a idolatria do coração do povo. E, ainda hoje, Deus continua a trabalhar para tirá-la dos nossos corações. Este é o grande trabalho de Deus: tirar “aquele Egipto” que nós carregamos cá dentro: o fascínio da idolatria.
Quando se acolhe o Deus de Jesus Cristo, que de rico se fez pobre por nós (cfr 2 Cor 8, 9) descobre-se, então, que reconhecer a própria fraqueza não é a desgraça da vida humana, mas é a condição para abrir-se Àquele que é verdadeiramente forte. Então, pela porta da fraqueza, entra a salvação de Deus (cfr 2 Cor 12, 10); é reconhecendo a própria insuficiência que o homem se abre à paternidade de Deus. A liberdade do homem nasce do deixar que o verdadeiro Deus seja o único Senhor. E isso permite aceitar a própria fragilidade e recusar os ídolos do nosso coração.
Nós, cristãos, voltamos o nosso olhar para Cristo crucificado (cfr Jo 19, 37), que é frágil, desprezado e despojado de tudo. Mas, Nele se revela o rosto do Deus verdadeiro, a glória do amor e não o rosto do engano cintilante. Isaías diz: “Pelas suas chagas, fomos curados” (53, 5). Fomos curados, justamente, pela fraqueza de um homem que era Deus, pelas suas chagas. E das nossas fraquezas podemos abrir-nos à salvação de Deus. A nossa cura vem Daquele que se fez pobre, que acolheu o fracasso, que tomou, até o fundo, a nossa precariedade para enchê-la de amor e de força. Ele vem para nos revelar a paternidade de Deus; em Cristo, a nossa fragilidade não é mais uma maldição, mas o lugar de encontro com o Pai e fonte de uma nova força que vem do alto. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Enaltecei comigo o Senhor
e exaltemos juntos o seu nome.
Procurei o Senhor e Ele atendeu-me,
libertou-me de toda a ansiedade.

Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes,
o vosso rosto não se cobrirá de vergonha.
Este pobre clamou e o Senhor o ouviu,
salvou-o de todas as angústias.

O Anjo do Senhor protege os que O temem
e defende-os dos perigos.
Saboreai e vede como o Senhor é bom:
feliz o homem que n’Ele se refugia.

SANTOS POPULARES



SÃO MANUEL MORALES

Manuel Morales nasceu em Mesillas, perto de Zacatecas, na Diocese de Durango, México, no dia 8 de Fevereiro de 1898. Foi registrado como o filho dos seus avós, porque a sua mãe, Matiana Morales, era solteira. Ainda pequeno, perdeu o seu avô, José, que foi para ele como o pai que nunca tivera. Nesta altura, juntamente com a sua avó, mudou-se para Chalchihuites.
Em 1911, Manuel expressou o seu desejo de continuar os estudos, para se formar em Literatura. Com autorização da sua avó, em 2 de Outubro de 1911, começou a frequentar os cursos do Seminário Conciliar de Durango, como aluno externo.
No entanto, a crise social que se abatera sobre México, devido à revolução, afectou, também, as instituições de ensino, incluindo o Seminário, que foi fechado. Os estudantes tinham de se mudar, constantemente, de um lugar para outro e, muitas vezes, não tinham nada para comer. Diante deste estado de coisas, Manuel retornou a Chalchihuites, para ajudar os seus parentes, que eram muito pobres.
Encontrou trabalho como empregado de balcão, numa loja, onde se tornou muito querido pelo seu carácter amável, simples e cordial. Mesmo no seu emprego posterior – trabalhou numa padaria familiar – foi muito responsável, trabalhador e tenaz, o que lhe abriu o caminho de muitas possibilidades, na vida.
No dia 1 de Setembro de 1921, casou-se com Maria del Consuelo Loera Cifuentes. Tiveram três filhos: Manuel, Carlos e Afonso. Sempre procurou dar o devido tempo à família, ao trabalho e à Igreja. Assistia, diariamente, à missa, com a sua família e comungava com frequência. Foi um grande colaborador do seu pároco, Don Luis Batis Sáinz.
Foi, também, membro da Associação Católica da Juventude Mexicana e presidente da secção Chalchihuites da Liga Nacional em Defesa da Liberdade Religiosa, uma organização que, por meios pacíficos, tentava obter a revogação das leis persecutórias da Igreja, então em vigor.
As condições da Igreja, no México, tornavam-se extremamente difíceis, especialmente depois da entrada em vigor, em 5 de Fevereiro de 1917, da nova Constituição anti-clerical e anti-religiosa. O clero católico foi objecto de ameaças, abusos e perseguições por parte do governo, que levaram à violência mais bruta e ao assassínio.
Numa sucessão contínua de presidentes, chamados a liderar o país - alguns foram mortos, vítimas de conflitos internos constantes – em 1924, foi escolhido Plutarco Elias Calles. Este presidente dedicou-se à recuperação económica do país, ao fortalecimento do movimento operário, e incentivou a distribuição de terra aos agricultores. Ao mesmo tempo, porém, intensificou a luta contra a Igreja, que se transformou numa verdadeira perseguição contra os sacerdotes e os leigos católicos.
Em 29 de Julho de 1926, perante a iminência da aprovação da lei que ordenava o fecho das Igrejas e a cessação do culto público, a Liga Nacional em Defesa da Liberdade Religiosa entrou plenamente em funções, em Chalchihuites. Manuel, como presidente e orador principal, convidou os participantes no encontro (cerca de 600) a lutar pela liberdade religiosa, mas usando apenas meios pacíficos: "Peço-vos para pertencer, sem medo, à Liga, cujos métodos de operar não atacarão, de nenhum modo, o respeito devido ao governo estabelecido. «Deus e o meu direito» é o nosso lema. Esta Liga será pacífica, sem se intrometer em qualquer assunto político. O nosso projecto é implorar ao governo que revogue os artigos que oprimem a liberdade religiosa. Clamaremos aos quatro ventos e com o coração cheio de alegria: "Viva o Cristo Rei e a" Morenita” do Tepeyac!" (Nossa Senhora de Guadalupe é assim chamada em Tepeyac). A assembleia repetiu, louvando Cristo-Rei e Nossa Senhora de Guadalupe.
As autoridades governamentais interpretaram estas manifestações como um desafio e acusaram os participantes de organizar uma insurreição armada.
Na manhã de Domingo, 15 de Agosto de 1926, Manuel foi despertado com a notícia de que o Padre Luis Batis Sáinz, seu pároco, tinha sido preso. Manuel decidiu, imediatamente, pedir a sua libertação.
Juntamente com Salvador Lara Puente, Secretário da Liga Nacional em Defesa da Liberdade Religiosa, de Chalchihuites, reuniu o maior número possível de pessoas, para irem tratar, junto das autoridades, da libertação do pároco.
Com todos os que aqueles decidiram acompanhá-los, apresentaram-se diante dos membros do conselho da zona. No meio da reunião, um grupo de soldados irrompeu pela sala dentro e o seu comandante gritou em voz alta: "Manuel Morales!" Ele adiantou-se e, educadamente, apresentou-se: "Sou eu. Estou à vossa disposição!" Os soldados não responderam, com gentileza nem humanidade: pontapearam-no e agrediram-no com a coronha das armas.
Manuel e Salvador foram levados sob prisão para a Câmara Municipal, juntando-se, assim, ao primo deste último, David Roldán Lara, vice-presidente da Liga, e ao seu pároco. Em seguida, meteram-nos em dois carros: o pároco e Manuel num; os dois primos, no outro.
A esposa de Manuel tentou, de todas as maneiras, salvar a sua vida e, mesmo com um dos seus filhos nos braços, insistiu na sua libertação, mas sem sucesso. A certa altura, a criança escorregou das suas mãos e correu ao encontro do seu pai, que a abraçou por um longo tempo.
O automóvel em que o Padre Batis e Manuel viajavam parou num lugar chamado Puerto de Santa Teresa, fora da cidade, à espera da chegada do outro veículo, que se tinha atrasado devido a uma avaria.
Os carcereiros fizeram-nos descer do carro e andaram a pé cerca de meio quilómetro. Enquanto caminhavam, disseram aos prisioneiros: "Se reconhecerdes a lei de Calles, nada vos acontecerá". "Antes a morte", responderam os dois prisioneiros. “Reconhecer a nova constituição significa uma falta de fidelidade à Igreja”
O Padre Batis acrescentou: "Peço-vos que, pensando nas crianças pequenas da família de Manuel, poupem a sua vida. Eu ofereço minha vida pela dele. Serei vítima; estou disposto a fazê-lo”. Mas, Manuel respondeu: "Senhor Pároco: eu morro, mas Deus não morre. Ele cuidará da minha mulher e dos meus filhos". Era a mesma resposta que lhe tinha dado, tempos antes, numa reunião da Associação Católica da Juventude Mexicana.
O pároco percebeu que não podia fazer mais nada e disse-lhe. "Adeus até Céu". Então, Manuel, tirando o chapéu para facilitar a pontaria e para ser atingido em plena frente, exclamou: "Viva Cristo Rei e a Virgem de Guadalupe!" Nesse instante, foi fuzilado, juntamente com o Padre Batis.
Manuel Morales tinha 29 anos. Os primos Salvador Lara Puente e David Roldán Lara foram fuzilados depois deles. Os seus corpos foram recuperados pelos habitantes de Chalchihuites, que organizaram vigílias de oração, na casa de cada um deles. Depois, deram-lhes sepultura no Cemitério Municipal, para evitar que os seus corpos fosse profanados. Mais tarde, os seus restos mortais foram transladados para a igreja paroquial de Chalchihuites. Agora, as suas relíquias encontram-se, para a veneração dos fiéis, no altar de Nossa Senhora de Guadalupe.
Manuel Morales foi beatificado, no dia 22 de Novembro de 1992 e canonizado, juntamente com outros 26 mártires mexicanos, no dia 21 de Maio de 2000, pelo Papa João Paulo II.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 15 de Agosto.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas
 de todas as terras onde se dispersaram
 e as farei voltar às suas pastagens,
 para que cresçam e se multipliquem.
 Dar-lhes-ei pastores que as apascentem
 e não mais terão medo nem sobressalto;
 nem se perderá nenhuma delas – oráculo do Senhor.
 Dias virão, diz o Senhor,
 em que farei surgir para David um rebento justo.
 Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria;
 há-de exercer no país o direito e a justiça.
 Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança.
 Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’»…”(cf. Jeremias 23, 3-6)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 15 de Julho de 2018

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho de hoje (cf. Mc 6, 7-13) narra o momento no qual Jesus envia os Doze em missão. Depois de os ter chamado pelo nome - um por um - «para andarem com Ele» (Mc 3, 14) ouvindo as suas palavras e observando os seus gestos de cura, convocou-os agora para os «enviar dois a dois» (6, 7) às aldeias que Ele se preparava para visitar. É uma espécie de “aprendizagem” daquilo que serão chamados a fazer depois da Ressurreição do Senhor com o poder do Espírito Santo.
O trecho evangélico analisa o estilo do missionário, que podemos resumir em dois pontos: a missão tem um centro; a missão tem um rosto.
O discípulo missionário tem, antes de mais, um seu centro de referência, que é a pessoa de Jesus. A narração indica isto usando uma série de verbos que têm Cristo como sujeito — «chamou», «enviou-os», «deu-lhes poder», «ordenou», «disse-lhes» (vv. 7.8.10) — de modo que o ir e o agir dos Doze aparecem como o irradiar-se de um centro, o repropor-se da presença e da obra de Jesus na sua acção missionária. Isto manifesta que os Apóstolos nada têm de seu para anunciar, nem capacidades próprias para demonstrar, mas falam e agem porque foram «enviados», enquanto mensageiros de Jesus.
Este episódio evangélico refere-se também a nós, e não só aos sacerdotes, mas a todos os baptizados, chamados a testemunhar, nos vários ambientes da vida, o Evangelho de Cristo. E também para nós, esta missão é autêntica apenas a partir do seu centro imutável que é Jesus. Não é uma iniciativa dos fiéis individualmente nem dos grupos, nem sequer das grandes agregações, mas é a missão da Igreja inseparavelmente unida ao seu Senhor. Nenhum cristão anuncia o Evangelho «por conta própria», mas unicamente enviado pela Igreja que recebeu o mandato do próprio Cristo. É precisamente o Baptismo que nos torna missionários. Um baptizado que não sentir a necessidade de anunciar o Evangelho, de anunciar Jesus, não é um bom cristão.
A segunda característica do estilo do missionário é, por assim dizer, um rosto, que consiste na pobreza dos meios. O seu equipamento responde a um critério de sobriedade. Com efeito, os Doze receberam a ordem de «que nada levassem para o caminho a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto» (v. 8). O Mestre quis que eles fossem livres e ligeiros, sem apoios nem favores, com a única certeza do amor d’Aquele que os envia, fortalecidos unicamente pela sua palavra que vão anunciar. O cajado e as sandálias são o equipamento dos peregrinos, porque eles são mensageiros do reino de Deus, não empresários omnipotentes; não funcionários rigorosos nem estrelas em tournée. Pensemos, por exemplo, nesta Diocese da qual eu sou o Bispo. Pensemos nalguns Santos desta Diocese de Roma: São Filipe de Neri, São Bento José Labre, Santo Aleixo, Beata Ludovica Albertoni, Santa Francisca Romana, São Gaspar del Bufalo e muitos outros. Não eram funcionários nem empresários, mas trabalhadores humildes do Reino. Tinham este rosto. E a este “rosto” pertence também a maneira como a mensagem é acolhida: com efeito, pode acontecer que não sejamos acolhidos nem ouvidos (cf. v. 11). Também isto é pobreza: a experiência da falência. A vicissitude de Jesus, que foi rejeitado e crucificado, antecipa o destino do seu mensageiro. E só se estivermos unidos a Ele, morto e ressuscitado, conseguiremos encontrar a coragem da evangelização.
A Virgem Maria, primeira discípula e missionária da Palavra de Deus, nos ajude a levar ao mundo a mensagem do Evangelho numa exultação humilde e radiante, além de qualquer rejeição, incompreensão ou tribulação.  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 22

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

SANTOS POPULARES



BEATA MARIA DA PAIXÃO

Maria da Graça nasceu no dia 23 de Setembro de 1866, em Bar - Nápoles, Itália. Foi baptizada no dia seguinte. Os seus pais, Leopoldo e Concetta Tarallo Borriello, tiveram seis filhos, dois dos quais morreram muito cedo. Duas das filhas eram já religiosas, na escola onde Maria da Graça fez os estudos básicos. Seus pais, que lhe deram uma sólida formação humana e cristã, ainda viviam quando a Irmã Maria da Paixão morreu. Foram testemunhas no processo canónico que levou à beatificação de Maria da Graça. A sua mãe disse no processo: "…Desde a infância sempre se mostrou dócil e serena, como se fosse a mais velha das minhas filhas; com amor e a responsabilidade própria da sua idade, ajudava-me ajudou nos trabalhos domésticos; dotada de grande sensibilidade e inteligência, ensinava, às suas irmãs mais pequenas, tudo o que aprendia na escola…" O seu grande desejo de criança era receber a Eucaristia. Na sua autobiografia, escreve: "…Quando ia à missa com a minha mãe, observando as pessoas que vinham para a mesa eucarística, comecei a chorar, porque eu também queria receber a Sagrada Comunhão, mas a minha mãe não me deixava…" Finalmente, quando fez sete anos, pôde realizar este seu íntimo desejo: na segunda-feira da Semana Santa de 1873, Maria da Graça fez a Primeira Comunhão. Foi crismada aos10 anos, no dia 28 de Julho de 1876. Tendo terminado a escola primária, Maria da Graça aprendeu a arte da costura e trabalhou como costureira.
A sua vida foi totalmente voltada para a perfeição cristã e a vida consagrada. Aderiu, de alma e coração, a um estilo de vida marcado pelos valores da Ordem Terceira Franciscana, com particular dedicação à vivência dos conselhos evengélicos de pobreza, castidade e obediência. Aos vinte e dois anos, quando pensava pertebcer completamente a Jesus, o seu pai - que sempre se opôs à sua vocação – procurou dissuadi-la de seguir o caminho da vida religiosa e impôs-lhe a aceitação de um casamento. Nessa altura, um jovem - Rafael Aruto – pediu-a em casamento. Dado que o seu pai era uma pessoa muito autoritária, Maria da Graça não ousou dizer ‘não’,  convencida de que, apesar disso, o casamento não iria acontecer porque o seu coração pertencia a Jesus e Jesus não o permitiria. Contudo, no dia 13 de Abril de 1889, foi realizado o casamento civil, deixando, para mais tarde, o casamento o religioso, como era tradição naquela região. Mas, naquela tarde, no banquete que comemorava a cerimónia civil, Rafael sentiu-se mal,  por causa de um ataque de hemoptise (forte ataque de tosse, acompanhada de sangramento) e os médicos aconselharam-no a ir para Torre del Greco, para fazer tratamento e onde o ar da montanha era mais puro e mais propício para a sua doença. Rafael, porém não resistiu à dureza da sua doença e morreu nove meses depois do seu casamento civil, no dia 27 de Janeiro de 1890. O pai de Maria da Graça, contudo, não desistiu de arranjar um segundo casamento para a sua filha. Mas, Maria da Graça disse-lhe: “Pai, não quero voltar a passar pela mesma experiência. Veja o que aconteceu!...Não está, ainda, convencido de que devo ser freira?” Finalmente, o seu pai aceitou que Maria da Graça seguisse o seu caminho de vocação , entregando-se a Deus sem reservas. No dia 1 de Junho de 1891, juntamente com a sua irmã Drusiana, entrou para o Convento das Irmãs Crucificadas Adoradoras da Eucaristia, fundadas pelo Serva de Deus, Maria Pia Notari. A sua irmã Giuditta entrou na congregação, três anos mais tarde. Durante o processo canónico para a beatificação de Maria da Graça, a fundadora, que lhe tinha dado o nome de Maria da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, deu testemunho da sua vida virtuosa e da sua fama de santidade. Tendo sido sua mestra de noviças,  disse: “…Durante o noviciado, sob a minha direcção, cumpriu todos os seus deveres religiosos com uma precisão admirável; não fazia distinção entre as suas companheiras e vivia, com alegria, a virtude da santa obediência; com o coração cheio de humildade procurava servir a todos com simplicidade, sem chamar a atenção, nem esperar elogios das suas responsáveis ou companheiras…” A Irmã Maria da Paixão orientou a vivência da sua vocação para o amor à Paixão de Cristo crucificado, à Eucaristia e a Nossa Senhora das Dores. Ela mesma disse: "O meu nome é Irmã Maria da Paixão e eu procuro imitar o meu Mestre". Desempenhou várias funções, na comunidade: foi directora espiritual de várias irmãs mais novas, mas também cozinheira, Jardineira e porteira. Entre as várias tarefas que lhe foram atribuidas, a mais gratificante foi a de fabricante de hóstias para a Santa Missa, porque via nisso como que uma extensão da adoração eucarística. Fiel ao carisma da sua congregação, rezava constantemente: passava horas e horas em adoração, mesmo durante a noite.  A oração era o alimento da sua alma. Sempre foi exemplar e edificante na caridade, na oração e na comunidade. Tinha a admiração de todos.
A Irmã Maria da Paixão viveu os últimos dias da sua vida alimentando-se unicamente da Eucaristia. Morreu no dia 27 de Julho de 1912. A fama da sua santidade espalhou-se por toda a parte. A Irmã Maria da Paixão uniu as suas virtudes heróicas à oferta da sua vida pela conversão dos pecadores e pela santificação dos sacerdotes. A máxima da sua vida religiosa era: "Eu quero ser santa; amar Cristo, na Eucaristia; sofrer com Cristo crucificado; ver Cristo nos outros."
Foi beatificada, no dia 14 de Maio de 2006, pelo Papa Bento XVI. A cerimónia teve lugar em Nápoles e foi presidida pelo Cardeal Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Na homilia da Missa, disse: “… é não só através do amor fraterno, mas também mediante a Eucaristia, que entramos em contacto com Cristo, tornando-nos seus ramos e permanecendo com Ele. E, precisamente, este parece-me é um traço característico da fisionomia espiritual da Beata Maria da Paixão. Ela entregou-se ao mundo, oferecendo-se com Cristo e por Cristo, como vítima de reparação dos pecadores, reconhecendo, de resto, na necessidade da santidade dos sacerdotes a possibilidade de um mundo novo.
A vida da Beata foi consumada, permanecendo em Cristo, vivo e realmente presente no Sacramento da Eucaristia. As suas longas adorações, de dia e de noite, significam a sua escolha sábia de permanecer sempre com Jesus. Ela compreendeu o segredo que exprime com estas suas palavras: "Quero ser santa, amando Cristo na Eucaristia, sofrendo com Cristo crucificado, contemplando Cristo na pessoa do irmão". Por isso, o seu carisma é a admiração contemplativa da Eucaristia, em que a Beata encontrava as forças para superar as dificuldades, a tal ponto que nos últimos dias da sua vida se alimentava exclusivamente da Eucaristia.
Podemos ver a mensagem da nova Beata nas suas últimas palavras, dirigidas às irmãs de hábito, uma mensagem sempre original e actual. Sei que a citam com frequência, quase como um leitmotif, as suas irmãs de convento e as pessoas devotas da Beata Maria Tarallo, mas quero repeti-las uma vez mais:  "Recomendo a santa observância das regras, a prontidão à obediência e de modo particular adoração quotidiana de Jesus Sacramentado. Amai fortemente Jesus na Santíssima Eucaristia, nunca O deixeis sozinho, não O encolerizeis... não lhe causeis desgostos" (Fontana L.M., Vita della vittima riparatrice, la Serva di Dio Suor Maria della Passione delle Crocifisse Adoratrici di Gesù Sacramentato, Scansano,Tip.Ed.degliOlmi 1921, pág. 324).
Este apelo da Irmã Maria da Paixão é dirigido não só às Religiosas Crucificadas Adoradoras da Eucaristia, mas também a todos nós, a fim de renovarmos o fervor eucarístico, que em última análise realiza concretamente o conselho evangélico: "Permanecei em mim, como Eu permaneço em vós".
Permanecer no seu amor... este verbo em grego significa inclusive "habitar", ter uma comum residência e experiência de vida. Como é alto o nível de vida a que o cristianismo nos eleva... muito diferente daquilo que pensam os que reduzem a nossa religião a um conjunto de regras de vida e fórmulas de doutrina. Aqui, trata-se de sermos inseridos numa reciprocidade com o próprio Deus. O seu amor faz-se recíproco do nosso. Deus, que é o Amante, afirma que se encontra dentro de nós; e nós, em Cristo, estamos dentro dele.
Agora cabe a nós aceitar o convite de Jesus, que Maria da Paixão realizou durante toda a sua vida.
Mas é importante recordar que não se trata de uma contemplação que tem a finalidade em si mesma. O texto cita cinco vezes a expressão "dar fruto".  Assim como a segunda leitura nos exortava a amar a Deus com os actos e na verdade. Quem ama Deus verdadeiramente, ama também o próximo, e deseja que ele chegue ao conhecimento da verdade: como é que se pode amar uma pessoa e, ao mesmo tempo, permitir que ela permaneça no erro, que esteja em perigo a sua salvação e, portanto, a sua felicidade eterna?...”
A memória litúrgica da Beata Maria da Paixão celebra-se no dia 27 de Julho.