PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

SANTOS POPULARES



BEATA LEONELLA SGORBATI

Rosa Maria Sgorbati nasceu no dia 9 de Dezembro de 1940, em Rezzanello di Gazzola, na província e diocese de Piacenza. Foi a última dos três filhos de Carlo Sgorbati, um trabalhador agrícola, e de Giovannina Vigilini, também conhecida por Teresa, que era dona de casa. Foi baptizada no mesmo dia do nascimento, na Paróquia de San Savino, em Rezzanello. Recebeu o nome de Rosa Maria mas, no registro civil, consta apena o nome Rosa.
Na sua grande família, constituída por vinte e uma pessoas, incluindo vários parentes, Rosita - como todos a chamavam - tinha muitos exemplos de fé: a sua mãe, depois dos trabalhos do campo, passava frequentemente pela Igreja para levar flores a Nossa Senhora ou para fazer a visita ao Santíssimo Sacramento. Ao colo do seu pai, Rosita aprendeu a rezar.
Foi uma criança serena e feliz, embora, ocasionalmente, tivesse um comportamento irrequieto, tanto que a sua mãe, um dia, desabafou: "Quando for grande, quanto me fará sofrer!”
Nos jogos com os seus companheiros, manifestava o seu espírito de leader, mas não de uma maneira soberba. Frequentou o jardim-de-infância e a escola básica nas Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada, que tinham aberto uma sua casa, no antigo castelo de Rezzanello.
Não se sabe quanto é que Rosita fez a sua Primeira Comunhão: provavelmente, de acordo com o uso da época, tê-la-ia feito entre os dez e os onze anos. Em contrapartida, preparou-se bem para a Confirmação, realizada no dia 26 de Maio 1947, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Assunção, em Aguzzano, e administrada por D. Ercílio Menzani, bispo de Piacenza.
Rosita tinha aprendido que era necessário estar atenta às necessidades dos outros. Quando tinha permissão para acompanhar a sua mãe ao mercado, em Gazzola, visitava uma mulher, Marietta, e os seus filhos. Vendo que ela passava muito frio, decidiu comprar-lhe um xaile, com o dinheiro que os seus pais lhe davam para as suas pequenas despesas.
Para providenciar uma melhoria económica para a família, o seu pai decidiu iniciar um negócio de revenda de frutas e legumes, em Sesto San Giovanni, na província e diocese de Milão. Por isso, toda a família se transferiu para esta cidade, em 9 de Outubro de 1950.
Rosita sofreu muito ao saber que ia deixar os lugares onde tinha crescido. Assim, tentou fugir, escondendo-se num camião, mas as saudades da família fizeram-na regressar a casa, ao fim de algum tempo. Rosita não se sentia à vontade, neste novo ambiente, também devido ao facto de a terem repreendido, dizendo: “Tens de mudar completamente” O seu sofrimento tornou-se mais forte quando, em 16 de julho de 1951, o seu pai, Carlo, com 61 anos, faleceu.
Pouco tempo depois, Rosita descobriu que iria fazer os estudos secundários, internada num colégio. Naturalmente, veio ao seu pensamento uma interrogação: “Não sabia que era tão malvada?!” Então, começou a frequentar o Colégio das Irmãs do Preciosíssimo Sangue, em Monza, conhecidas por “Preciosinas”.
Também, a vida no Colégio lhe parecia insuportável. No entanto, um dia, uma das religiosas - a Irmã Adriana Sala - aproximou-se dela e entregou-lhe um pequeno livro: era o Evangelho. A partir daí, Rosita começou a ler e a meditar a Palavra de Deus e passar muito tempo na capela do Colégio.
Em Abril de 1952, precisamente quando rezava na capela, Rosita teve uma experiência especial. Mais tarde, escreveu no seu diário: “... Senti-me habitada naquele dia já distante... e tu acolheste-me em Ti, meu Senhor, ou - melhor dizendo – Tu é que permaneceste em mim... Nunca mais fico sozinha… Estou habitada…” A decisão de Rosita foi pronta e clara "Tornar-me-ei religiosa".
Terminados os estudos que lhe conferiram um diploma comercial, Rosita voltou para casa. Os seus familiares ficaram admirados com a mudança que se operara nela e ficaram ainda muito mais estupefactos quando ela manifestou o seu desejo de se fazer religiosa, respondendo ao desígnio da sua vocação. A mãe, porém, obrigou-a a esperar, até que fizesse vinte anos.
Participando na vida da Paróquia de São José, em Sesto San Giovanni, e frequentando o Oratório, Rosita procurou ultrapassar aquela momentânea desilusão. Inscreveu-se na Acção Católica e começou a visitar os doentes, todas as quartas-feiras. Conseguiu, também, fazer amizades, sobretudo com Josefina que se tornou a sua melhor amiga e que a ajudou a discernir melhor o rumo da sua vocação que, entretanto, se clarificou no íntimo do seu coração: ser religiosa missionária.
Nas actividades do Oratório, ouvira falar das Missionárias da Consolata, uma congregação feminina fundada pelo Padre José Allamano (beatificado em 1990) depois de ter já fundado os Missionários da Consolata. Então, quando fez vinte anos, foi ter com a mãe e disse-lhe: “Agora, tenho vinte anos e não mudei de ideias”.
No dia 5 de Maio de 1963, Rosita apresentou-se na casa de Sanfré, das Missionárias da Consolata. Quinze dias depois, começou a sua preparação no chamado ‘postulantado’. Nos seis meses seguintes, mostrou todas as suas melhores qualidades: a disponibilidade para todo o tipo de serviço; a alegria com que o realizava e o sorriso que a tornava familiar a todas as Irmãs. Em Novembro de 1963, terminado o postulantado, recebeu o hábito de religiosa e mudou o seu nome, adoptando o de Leonella: Irmã Leonella.
Iniciou o noviciado, no dia 21 de Novembro de 1963, na casa generalícia de Nepi. Sob a direcção da mestra de noviças, a Irmã Paulina Emiliani, aprendeu a ser ainda mais fiel ao projecto missionário, querido pelo Padre Allamano, com base nos seus escritos e no testemunho das outras Irmãs. Em 22 de Novembro de 1965, fez a sua primeira profissão religiosa.
Nessa altura, a irmã Leonella foi para a Inglaterra, para frequentar a Escola de Enfermagem. O contacto com o sofrimento físico de muitos doentes e com a morte levou-a a confidenciar à sua superiora-geral: "Ou se acredita em Deus e, quando não se pode fazer outra coisa, devemos amá-lo, amá-lo, amá-lo... ou não se acredita e, então, há apenas o desespero! Sou extremista? Não sei!... mas não vejo outro caminho senão estes dois: ou Deus ou a escuridão do nada... ».
A escola de obstetrícia de Midwifery ficava a cinquenta quilómetros da casa das Missionárias; por conseguinte, voltar para casa era sempre, para a Irmã Leonella, uma alegria. Uma noite, apresentou-se, no espaço do recreio comunitário, usando um bigode de plástico: "Cada freira colocá-lo-á e começará a falar; depois, passá-lo-á à Irmã da sua direita e assim por diante, até que o círculo esteja fechado ”. Esse episódio foi muito útil porque permitiu que cada religiosa saísse de si mesma e falasse das suas coisas, das suas inquietações e das suas alegrias.
Estudando como funcionava o corpo humano, conseguiu encontrar um modo de conjugar a competência médica com a fé: "Eu creio; creio e, constantemente, rezo ao Senhor a minha vontade de fé, o meu desejo de luz, luz e luz! Madre: como a fé é bela! Com fé, tudo é mais fácil!”, escreveu à superiora-geral.
Em 1969, recebeu o diploma de “Enfermeira” e, em 1970, concluiu a primeira parte do curso de Midwifery. Em 19 de Novembro de 1972, fez os votos perpétuos, consagrando-se, para sempre, ao apostolado missionário. Naquela ocasião, escreveu no seu diário: "Ó Senhor, que a minha vida seja uma resposta".
A Irmã Leonella foi designada para a missão no Quénia, mais precisamente, para Nkubu, na região de Meru. No hospital desta missão e na sua escola de enfermagem, trabalhavam as Irmãs Missionárias da Consolata.
A Irmã Leonella ficou encarregada, especialmente, da maternidade e acompanhava um grande grupo de parteiras. Mais tarde, tornou-se directora da escola de enfermagem. Nesta função, ensinava não apenas as competências técnicas necessárias aos profissionais de saúde, mas também a serem capazes de acolher o doente com compreensão e amor.
Profundamente convicta da beleza da vocação missionária, estava atenta para acolher os sinais de vocação em alguma jovem. Era capaz de passar uma semana inteira a rezar, a fim de obter de Deus a consagração daqueles sobre os quais tinha caído o seu olhar.
No VII Capítulo-Geral das Missionárias da Consolata, realizado em 1993, a Irmã Leonella apresentou um relatório dos vinte anos da sua experiência missionária, juntamente com as solicitações das comunidades do Quénia. Logo a seguir, as Irmãs capitulares elegeram-na superiora-regional.
Numa das suas cartas circulares, dirigida às várias comunidades, escreveu: "Nós, quer individualmente, quer como comunidade, devemos tornar-nos disponíveis para o processo da Encarnação do Filho em nós, para poder ser em nós a Consolação do Pai. O que significa isto, na prática? Significa aceitar que o Filho seja livre em cada uma de nós, em mim; livre para perdoar, através de minha pessoa, àqueles que me ofendem; livre para partir o pão da bondade, da compreensão, na minha comunidade; livre para fazer-me percorrer o itinerário que o Pai o fez percorrer, com as escolhas que o Pai indica. Livre para me fazer trilhar o caminho da paciência, da mansidão, da humildade que passa pela humilhação... Livre para poder dizer, através de mim: ‘o Espírito do Senhor está sobre mim ... me consagrou e me envia a levar a boa nova aos pobres, a liberdade aos prisioneiros... a anunciar o ano da consolação; a reconstruir as ruínas antigas... Livre para amar, através de mim, com o Amor maior, o Amor que vai até o fim, que é mais forte do que o ódio e do que o inferno... na verdade, na prática de todos os dias e de todos os momentos ".
Quando terminou o seu mandato, a Irmã Leonella entrou a fazer parte da equipe dos sabáticos, isto é, cuidar das missionárias que precisavam de algum tempo para descansar. De 2000 a 2005, dedicou as suas atenções às irmãs que estavam de passagem, prestando-lhes os seus serviços, mesmo os mais humildes.
O seu carácter havia perdido a aspereza dos primeiros tempos: da teimosa, mesmo frente às maiores dificuldades, tornou-se mais humilde e paciente. Tinha uma única preocupação: "Gostaria de poder dizer que o pouco que fiz, fi-lo apenas para Deus".
Em Novembro de 2001, a Irmã Leonella foi enviada para uma pequena comunidade que as Missionárias da Consolata tinham na Somália. Deveria fundar uma escola de enfermagem, em Mogadíscio - a capital - como aquela de que se ocupara, no Quénia, em colaboração com a ONG ‘Aldeia das Crianças SOS’.
O desafio não era fácil: em primeiro lugar, devia provar que as ideias científicas que ela perfilhava não eram contrárias aos princípios do Alcorão. Em segundo lugar, tinha de deixar bem claro que não pretendia obrigar os estudantes a converterem-se, não fazendo, portanto, proselitismo.
A pequena comunidade não tinha capelão, nem mesmo ocasional. As Irmãs eram a única presença cristã, naquela terra. A presença de Jesus na Eucaristia foi, no entanto, assegurada, embora as freiras a conservassem num móvel, escondido num canto do corredor da sua casa: era o único Sacrário em toda a Somália.
Em 2006, a irmã Leonella voltou a Itália, onde esteve durante um curto período de tempo, participando no chamado ‘Mês Allamaniano’: um tempo de oração e reflexão pessoal para as Missionárias, centrado na meditação da Palavra de Deus e nos escritos do fundador e com momentos de livres para a contemplação e a adoração do Santíssimo Sacramento.
A Irmã Leonella escreveu no seu diário o que o Senhor lhe comunicou naquele momento da sua vida. Meditando sobre o capítulo VI, do Evangelho de João, anotou com admiração: "Se o meu corpo e o Seu são um só; se o Seu sangue e o meu são um só, então é possível ser sempre, n’Ele, dom de amor, dom d’Ele para todos. Sempre, em qualquer momento! Então é possível testemunhar, sempre, que Ele está connosco e nos ama ".
Por ocasião de uma visita ao Santuário da Consolata - que Allamano ajudou a restaurar e a engrandecer - confiou-se completamente a Nossa Senhora. Sentiu-se chamada, como sugeria a passagem do Evangelho daquele dia, a morrer para dar fruto.
No período em que foi superiora-regional, a Irmã Leonella ficou muito impressionada com a história dos sete monges trapistas, assassinados na Argélia, em Tibhirine, em 1996. Comprou livro que foi publicado, contando a história desta chacina e ofereceu um exemplar a todas as comunidades da região. "Vem-me à mente uma frase do livro “Mais fortes do que o ódio”: ‘… o martírio não pode ser visto como uma proeza heróica, como um gesto de pessoas corajosas, mas como o desenrolar natural de uma vida doada' » .
Na Somália, o risco era constante, tanto mais que, na imprensa local, continuavam as ameaças contra as Irmãs e o seu trabalho no hospital. Referindo-se ao facto de uma das Irmãs - a Irmã Marzia Feurra – ter escapado a uma situação de perseguição e violência, que a tinha deixado muito abalada, a Irmã Leonella procurou desdramatizar a situação, dizendo: "Quem sabe se um dia não haverá uma bala, também para mim, da parte dos meus amigos fundamentalistas", mas, acrescentou: «Estou nas mãos de Deus, pronta para tudo».
No dia da entrega dos diplomas aos novos enfermeiros, dez rapazes e dez raparigas, a irmã Leonella preparou uma grande festa. Para tornar este momento ainda mais solene, fez com que usassem a toga típica dos recém-formados. Esse evento, também transmitido pela televisão, levou os fundamentalistas a pensarem que a Irmã tivesse convertido todos aqueles jovens, apresentando-os vestidos como padres.
Um mês depois, a Irmã Leonella notou que um homem suspeito rondava a Escola: aproximou-se dela, olhou-a fixamente mas não disse nada. No dia 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento XVI mencionou - num discurso, em Regensburg, na Alemanha - uma frase do imperador Manuel II Paleólogo, particularmente dura contra o Islão. Essa expressão provocou reações muito violentas em todo o mundo muçulmano. Conhecedora do impacto daquela notícia, a Irmã Leonella convidou as outras freiras a rezar pelo Papa e pela Igreja.
O dia 17 de Setembro de 2006, um Domingo, estava a ser um dia cheio de trabalho para a Irmã Leonella. Ao meio-dia, a Irmã Leonella, ao sair da Escola de enfermagem, foi ladeado pelo seu guarda-costas, Mohamed Mahamud - [As irmãs eram sempre acompanhadas pelos seguranças, mesmo em distâncias curtas] - e começou a atravessar a estrada que separava a Escola da Aldeia das Crianças SOS, onde morava.
Depois de ter dado alguns passos, ouviu-se um tiro: a Irmã Leonella caiu por terra. Tentou levantar-se, mas outras balas derrubaram-na, definitivamente. Algumas pessoas levaram-na, imediatamente, para o hospital. Ao ver que alguns populares saíam em perseguição do agressor, a Irmã disse: "Deixai-o ir; é um pobre coitado". O seu guarda-costas foi, também, mortalmente ferido.
A Irmã Marzia e a Irmã Gianna Irene Peano ouviram os tiros e ficaram imediatamente preocupadas. Assim que souberam que a Irmã Leonella estava ferida, correram para o hospital. Os estudantes faziam fila para dar-lhe do sangue, enquanto os médicos tentavam, a todo o custo, salvar-lhe a vida.
Segundo o testemunho da Irmã Gianna Irene, o seu rosto expressava paz, mas parecia que ainda queria dizer alguma coisa. Com todas as forças que, ainda, lhe restavam, disse num sussurro: "Perdão, perdão, perdão". Quando o cirurgião chegou, já só pôde confirmar a sua morte: eram 13h45, do dia 17 de Setembro de 2006. A irmã Leonella tinha sessenta e seis anos, trinta e seis dos quais vividos nas missões, em África.
O seu corpo foi levado para Nairóbi, onde se realizou o seu funeral, no dia 21 de Setembro. Estiveram presentes as autoridades civis, os Missionários e as Missionárias da Consolata, os alunos da Escola de Enfermagem e uma multidão considerável de homens e mulheres que reconheciam a bondade, a dedicação e o serviço da Irmã Leonella.
Na homilia da missa, Dom Giorgio Bertin, actual Bispo de Djibuti, disse: "A Irmã Leonella estava convencida de que era possível uma nova Somália, curada do flagelo da guerra civil [...] A sua vida, o seu sorriso e a sua inocência dizem-nos que é possível um mundo novo, uma Somália. Ela foi inspirada pela convicção de que o mundo novo que Jesus veio anunciar já começou aqui na Terra. E não é uma coincidência que tenha morrido ao lado de um homem muçulmano. [...] Viver juntos, apesar das diferenças, requer a conversão do coração, esperança, determinação e perseverança ".
No dia 24 de Setembro, na Oração do Angelus, em Roma, o Papa Bento XVI recordou Irmã Leonella, dizendo: "Esta Irmã, que servia os pobres e os pequenos na Somália, morreu pronunciando a palavra "perdão”. Eis o mais autêntico testemunho cristão, sinal pacífico de contradição e que anuncia a vitória do amor sobre o ódio e o mal ".
No dia 8 de Novembro 2017, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que reconhecia o martírio da Irmã Leonella, motivado pelo ódio à fé católica.
A Irmã Leonella Sgorbati foi beatificada pelo Papa Francisco, no dia 26 de Maio de 2018. A celebração, na Catedral de Piacenza - Itália, foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, em nome e em representação do Papa.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 17 de Setembro. (cf. Santi e beati…)


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

EM DESTAQUE

- DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO


Instituído na Igreja Católica, em 2015, pelo Papa Francisco, é celebrado no dia 1 de Setembro de cada ano. Em comunhão com outras Igreja Cristãs, este dia pretende ser uma forte chamada de atenção para os graves problemas ecológicos que afectam a humanidade. Este dia, disse o Papa, “oferecerá aos fiéis individualmente e às comunidades a preciosa oportunidade de renovar a pessoal adesão à própria vocação de custódios da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado;  invocando a sua ajuda para a protecção da criação; invocando a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos…”


MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 4º “DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO”

Caros irmãos e irmãs!
Neste Dia de Oração, desejo, em primeiro lugar, agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Agradeço, também, pelos numerosos projectos que visam promover o estudo e a protecção dos ecossistemas, pelos esforços destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e litúrgicas que envolvem muitos cristãos, em todo o mundo, no cuidado da criação.
Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação, a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc. Laudato si’, 118).
Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação - que a Igreja Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs - gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso, infelizmente, é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida, radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).
A água convida-nos a reflectir sobre as nossas origens. A maior parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram a sua identidade. É sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que, nas origens, o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).
Pensando no seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil, sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente, por esse motivo, cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que nunca, é necessário um olhar que ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se, urgentemente, de projectos conjuntos e de acções concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer privatização do bem natural da água, que seja contrária ao direito humano de poder ter acesso a ela.
Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Baptismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O Baptismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais autêntica, no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar, para sempre, a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus, beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, extraindo da sua Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós, com força, as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele pede-nos para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e destes-me de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso constante de garantir a todos o bem primário da água.
Gostaria, também, de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Orientar os nossos pensamentos para as imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S. João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).
Proteger esse bem inestimável, todos os dias, representa, hoje, uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de controlos efectivos, especialmente no que diz respeito à protecção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174). Não podemos permitir que os mares e oceanos se encham com extensões inertes de plástico flutuante. Também, para essa emergência, somos chamados a comprometer-nos, com uma mentalidade activa, rezando como se tudo dependesse da Providência divina e agindo como se tudo dependesse de nós.
Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam protegidas aquelas pessoas que arriscam as suas vidas no meio das ondas, em busca de um futuro melhor. Peçamos ao Senhor, e àqueles que realizam o alto serviço da política, que as questões mais delicadas da nossa época, tais como as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade, com previsão, olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade. Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar; por aqueles que ajudam a reflectir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos; por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos internacionais sobre os mares, para que possam tutelar as pessoas, os Países, os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos – garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a família humana e não de interesses particulares. Lembremos, também, todas as pessoas que trabalham na protecção das áreas marítimas, na tutela dos oceanos e sua biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e honestidade.
Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que as comunidades cristãs contribuam, cada vez mais concretamente, para que todos possam usufruir deste recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“… Acolhei docilmente a palavra em vós plantada,
 que pode salvar as vossas almas.
 Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes,
 pois seria enganar-vos a vós mesmos.
 A religião pura e sem mancha,
 aos olhos de Deus, nosso Pai,
 consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações
 e conservar-se limpo do contágio do mundo…” (Tiago 1, 21b-22.27)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 29 de Agosto de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No fim-de-semana passado, fiz uma viagem à Irlanda para participar no Encontro Mundial das Famílias: tenho a certeza de que vós o acompanhastes, através da televisão. A minha presença queria, sobretudo, confirmar as famílias cristãs na sua vocação e missão. Os milhares de famílias — esposos, avós, filhos — reunidos em Dublin, com toda a variedade das suas línguas, culturas e experiências, foram um sinal eloquente da beleza do sonho de Deus para toda a família humana. E bem sabemos: o sonho de Deus é a unidade, a harmonia e a paz, nas famílias e no mundo, fruto da fidelidade, do perdão e da reconciliação que Ele nos concedeu em Cristo. Ele chama as famílias a participar neste sonho e a fazer do mundo uma casa onde ninguém esteja sozinho, ninguém seja indesejado, ninguém seja excluído. Pensai bem nisto: o que Deus quer é que ninguém esteja sozinho, ninguém seja indesejado, ninguém seja excluído. Por isso, o tema deste Encontro mundial era muito apropriado. Era o seguinte: “O Evangelho da família, alegria para o mundo”.
Estou grato ao Presidente da Irlanda, ao Primeiro-Ministro, às diversas Autoridades governamentais, civis e religiosas, e às numerosas pessoas de todas as categorias que ajudaram a preparar e realizar os eventos do Encontro. E muito obrigado aos Bispos, que trabalharam tanto!
Dirigindo-me às Autoridades, no Castelo de Dublin, reiterei que a Igreja é família de famílias e que, como um corpo, sustém estas suas células no seu papel indispensável para o desenvolvimento de uma sociedade fraterna e solidária.
Verdadeiros “pontos-luz” destes dias foram os testemunhos de amor conjugal, dados por casais de todas as idades. As suas histórias recordaram-nos que o amor do casamento é um dom especial de Deus, o qual deve ser cultivado todos os dias na “igreja doméstica”, que é a família. Como tem necessidade o mundo de uma revolução de amor, de uma revolução de ternura, que nos salve da actual cultura do provisório! E esta revolução começa no coração da família.
Na pró-Catedral de Dublin, encontrei-me com cônjuges comprometidos na Igreja, com muitos recém-casados e com numerosas crianças pequenas. Depois, encontrei-me com algumas famílias que enfrentam particulares desafios e dificuldades. Graças aos Frades Capuchinhos, que estão sempre próximos do povo, e à mais ampla família eclesial, elas experimentam a solidariedade e o apoio que são fruto da caridade.
Momento culminante da minha visita foi a grande festa com as famílias, na tarde de Sábado, no estádio de Dublin, seguida, no Domingo, pela Missa, no Phoenix Park. Na Vigília, ouvimos testemunhos, muito comovedores, de famílias que sofreram por causa das guerras; famílias renovadas pelo perdão; famílias que o amor salvou da espiral das dependências; famílias que aprenderam a usar bem os telemóveis e os tablets e a dar prioridade ao tempo passado juntos. E foram realçados o valor da comunicação entre as gerações e o papel específico que compete aos avós na consolidação dos vínculos familiares e na transmissão do tesouro da fé. Hoje — é difícil dizê-lo — parece que os avós incomodam. Nesta cultura do descarte, os avós são “descartados”, afastados. Mas os avós são a sabedoria, a memória de um povo, a memória das famílias! E os avós devem transmitir esta memória aos netinhos. Os jovens e as crianças devem falar com os avós para levar em frente a história. Por favor, não descarteis os avós. Que eles permaneçam próximos dos vossos filhos, dos netinhos!
Na manhã de Domingo, fui em peregrinação ao Santuário Mariano de Knock, muito amado pelo povo irlandês. Ali, na capela construída no lugar onde houve uma aparição da Virgem, confiei à sua protecção materna todas as famílias, especialmente as da Irlanda. E, embora a minha viagem não incluísse uma visita à Irlanda do Norte, dirigi uma cordial saudação ao seu povo e encorajei o processo de reconciliação, pacificação, amizade e cooperação ecuménica.
Esta minha visita à Irlanda, além da grande alegria, devia encarar também a dor e a amargura pelos sofrimentos causados, naquele país, por várias formas de abusos, inclusive por parte de membros da Igreja, e pelo facto de que no passado as autoridades eclesiásticas nem sempre souberam enfrentar estes crimes, de maneira adequada. Deixou uma marca profunda o encontro com alguns sobreviventes — eram oito — e, várias vezes, pedi perdão ao Senhor por estes pecados, pelo escândalo e pelo sentido de traição que causaram. Os Bispos irlandeses empreenderam um sério percurso de purificação e reconciliação com aqueles que sofreram abusos e, com a ajuda das autoridades nacionais, estabeleceram uma série de normas severas para garantir a segurança aos jovens. Além disso, no meu encontro com os Bispos, encorajei-os no seu esforço para remediar os fracassos do passado com honestidade e coragem, confiando nas promessas do Senhor e contando com a profunda fé do povo irlandês, para inaugurar uma fase de renovação da Igreja, na Irlanda. Na Irlanda há fé, existem pessoas de fé: uma fé com raízes profundas. Mas sabeis? Há poucas vocações ao sacerdócio. Porque é que esta fé não floresce? Por estes problemas, estes escândalos e muitas outras coisas... Devemos rezar para que o Senhor envie santos sacerdotes à Irlanda, mande novas vocações. E fá-lo-emos juntos, rezando uma “Ave-Maria” a Nossa Senhora de Knock. [Recitação da Ave-Maria]. Senhor Jesus, envia-nos sacerdotes santos.
Caros irmãos e irmãs, o Encontro Mundial das Famílias, em Dublin, foi uma experiência profética, confortadora, de muitas famílias comprometidas no caminho evangélico do casamento e da vida familiar; famílias discípulas e missionárias, fermento de bondade, santidade, justiça e paz. Esquecemo-nos de muitas famílias — muitas! — que levam em frente a própria família, os filhos, com fidelidade, pedindo perdão uns aos outros quando existem problemas. Esquecemo-nos porque hoje, nas revistas, nos jornais, está na moda falar assim: “Aquele divorciou-se daquela... Esta deste... E a separação...”. Mas por favor: isto é desagradável. É verdade: eu respeito cada um, devemos respeitar as pessoas, mas o ideal não é o divórcio, o ideal não é a separação, o ideal não é a destruição da família. O ideal é a família unida. Assim, em frente: este é o ideal!
O próximo Encontro Mundial das Famílias terá lugar em Roma, em 2021. Confiemo-las todas à proteção da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, a fim de que nos seus lares, paróquias e comunidades, possam ser verdadeiramente “alegria para o mundo”. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 14

Refrão: Ensinai-nos, Senhor: quem viverá em vossa casa?

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração
e guarda a sua língua da calúnia.

O que não faz mal ao seu próximo nem ultraja o seu semelhante,
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor.

O que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder jamais será abalado.

SANTOS POPULARES



SANTA TERESA DE CALCUTÁ

Agnes (Inês) Gouxha Bojaxhiu nasceu, no dia 27 de Agosto de 1910, em Skopje, Jugoslávia, filha de pais albaneses. Os seus pais, Nicolau e Rosa, tiveram três filhos. Quando foi para a escola, Agnes inscreveu-se como membro de uma associação católica para crianças - a Congregação Mariana - onde cresceu num ambiente verdadeiramente cristão. Aos doze anos, já estava convencida da sua vocação religiosa, atraída pela obra dos missionários.
Agnes pediu para entrar na Congregação das Irmãs de Loreto, que trabalhavam como missionárias na sua região. Foi encaminhada para a Abadia de Loreto, na Irlanda, onde aprendeu inglês. Algum tempo depois, foi enviada para a Índia, onde fez o noviciado. A quando da sua profissão religiosa, adoptou o nome “Teresa”, em homenagem à carmelita francesa, Santa Teresa de Lisieux (Santa Teresinha do Menino Jesus), padroeira das Missões e dos missionários.
A Irmã Teresa foi incumbida de ensinar história e geografia, no Colégio da Congregação, em Calcutá. Exerceu esta actividade durante dezassete anos. Rodeada de crianças - filhas das melhores famílias de Calcutá - impressionava-se, profundamente, com o que via quando saia à rua: pobreza generalizada, crianças e velhos moribundos e abandonados, pessoas doentes sem a quem recorrer.
O dia 10 de Setembro de 1946 ficou marcado na sua vida como o “dia da inspiração”. Numa viagem de comboio ao noviciado do Himalaia, sentiu que deveria dedicar toda a sua existência aos mais pobres e excluídos, deixando o conforto do colégio da Congregação. E assim fez…
A Irmã Teresa começou a frequentar algumas aulas de enfermagem, que julgava útil para o seu plano, e misturou-se com os pobres, primeiramente na cidade de Motijhil.
No início, acolheu cinco crianças de um bairro miserável e passou a dar-lhes escola. Passados dez dias, já tinha cinquenta crianças. O seu trabalho começou a ser conhecido e a solidariedade do povo, para com a sua obra, tornou-se visível nos donativos e no trabalho voluntário.
A Irmã Teresa percebeu que o seu trabalho deveria continuar a dar frutos, mas sem depender, apenas, das doações e dos voluntários. Era preciso que as suas companheiras e colaboradoras tivessem um verdadeiro espírito de vida religiosa e consagrada. Através da sua palavra e do seu exemplo, as suas companheiras descobriram o chamamento de Deus para se entregarem ao serviço dos mais pobres. Assim nasceu a “Congregação das Missionárias da Caridade”, com o seu estatuto aprovado em 1950. A Irmã Teresa foi a sua primeira superiora, tornando-se conhecida por “Madre Teresa”.
As missionárias percorriam as ruas e recolhiam doentes de toda espécie. Para as Irmãs Missionárias da Caridade, cada doente, cada corpo chagado representava a figura de Cristo, e a sua ajuda humanitária era a mais doce das tarefas. Somente com este sentido de vida e de missão é que as corajosas Irmãs poderiam tratar doentes de lepra, elefantíase, gangrena, cujos corpos, em putrefação, eram imagens horrendas que exalavam odores intoleráveis. Mas, todos eles tinham lugar, comida, higiene e um recanto para repousar junto das missionárias.
Reconhecido universalmente, o trabalho da Madre Teresa mereceu-lhe o Prémio Nobel da Paz, em 1979. Este foi um dos muitos prémios recebidos pela religiosa, devido ao seu trabalho humanitário. Nessa altura, a sua obra já se tinha espalhado por todos os continentes.
A Madre Teresa de Calcutá faleceu, na Índia, na Casa Mãe das Irmãs Missionárias da Caridade, no dia 5 de Setembro de 1997. A comoção e a tristeza provocadas pela sua morte teve impacto mundial. Diante da Igreja de São Tomé, em Calcutá, onde o seu corpo foi velado, formou-se uma fila de quilómetros, durante dias a fio. Ao fim de uma semana, o corpo da Madre Teresa foi trasladado para o estádio Netaji, onde o Cardeal Ângelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, em representação do Papa, celebrou a missa de corpo presente.
No dia 19 de Outubro 2003, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II beatificou a Madre Teresa de Calcutá, reconhecida mundialmente como a “Mãe dos Pobres”. Na emocionante solenidade, o Sumo Pontífice, fez a homilia que transcrevemos: « "Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos" (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que ressoaram há pouco nesta Praça, indicam qual é o caminho que leva à "grandeza" evangélica. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à Cruz; um itinerário de amor e de serviço, que inverte qualquer lógica humana. Ser o servo de todos!
A Madre Teresa de Calcutá, fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Álbum dos Beatos, deixou-se guiar por esta lógica. Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela.
De vez em quando vinha falar-me das suas experiências ao serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, as suas intervenções a favor da vida e contra o aborto; também, quando lhe foi conferido o prémio Nobel pela paz (Oslo, 10 de Dezembro de 1979). Costumava dizer: "Se ouvirdes que alguma mulher não deseja ter o seu menino e pretende abortar, procurai convencê-la a trazer-mo. Eu amá-lo-ei, vendo nele o sinal do amor de Deus".
Não é significativo que a sua beatificação se realize precisamente no dia em que a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões? Com o testemunho da sua vida, a Madre Teresa recorda a todos que a missão evangelizadora da Igreja passa através da caridade, alimentada na oração e na escuta da palavra de Deus. É emblemática deste estilo missionário a imagem que mostra a nova Beata que, com uma mão, segura uma criança e, com a outra, desfia o Rosário.
Contemplação e acção, evangelização e promoção humana: Madre Teresa proclama o Evangelho com a sua vida inteiramente doada aos pobres mas, ao mesmo tempo, envolvida pela oração.
"Quem quiser ser grande entre vós faça-se Vosso servo" (Mc 10, 43). É com particular emoção que, hoje, recordamos a Madre Teresa, grande serva dos pobres, da Igreja e do Mundo inteiro. A sua vida é um testemunho da dignidade e do privilégio do serviço humilde. Ela escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos. Como mãe autêntica dos pobres, inclinou-se diante dos que sofriam várias formas de pobreza. A sua grandeza reside na sua capacidade de doar sem calcular o custo, de se doar "até doer". A sua vida foi uma vivência radical e uma proclamação audaciosa do Evangelho.
O brado de Jesus na cruz, "Tenho sede" (Jo 19, 28), que exprime a profundidade do desejo que o homem tem de Deus, penetrou no coração da Madre Teresa e encontrou terreno fértil no seu coração. Satisfazer a sede que Jesus tem de amor e de almas, em união com Maria, Sua Mãe, tinha-se tornado a única finalidade da existência da Madre Teresa, e a força interior que a fazia superar-se a si mesma e "ir depressa" de uma parte a outra do mundo, a fim de se comprometer pela salvação e santificação dos mais pobres.
"Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes" (Mt 25, 40). Este trecho do Evangelho, tão fundamental para compreender o serviço da Madre Teresa aos pobres, estava na base da sua convicção, cheia de fé, que ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres tocava o corpo de Cristo. O seu serviço destinava-se ao próprio Jesus, escondido sob as vestes angustiantes dos mais pobres. A Madre Teresa realça o significado mais profundo do serviço: um gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está nu, doente, preso (cf. Mt 25, 34-36), é feito ao próprio Jesus.
Ao reconhecê-l'O, servia-O com grande devoção, exprimindo a delicadeza do seu amor esponsal. Assim, no dom total de si a Deus e ao próximo, a Madre Teresa encontrou a sua satisfação mais nobre e viveu as qualidades mais elevadas da sua feminilidade. Desejava ser um "sinal do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus" e, desta forma, recordar a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus "criado para amar e para ser amado". Era assim que a Madre Teresa "levava as almas para Deus e Deus às almas", aliviando a sede de Cristo, sobretudo das pessoas mais necessitadas, cuja visão de Deus tinha sido ofuscada pelo sofrimento e pela dor.
"Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos" (Mc 10, 45). A Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de "obscuridade interior". Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular "dom e privilégio".
Nos momentos mais difíceis, ela recorria, com mais tenacidade, à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e, por vezes, até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós…
A Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetia, muitas vezes, ao seu Senhor: "Em Vós, meu Deus, em Vós espero!".
Prestemos honra a esta pequena mulher apaixonada por Deus, humilde mensageira do Evangelho e infatigável benfeitora da nossa época. Aceitemos a sua mensagem e sigamos o seu exemplo.
A Madre Teresa de Calcutá foi canonizada, pelo Papa Francisco, no dia 4 de Setembro de 2016. Na homilia da missa, o Papa Francisco afirmou: “… A Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível para todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes ― diante dos crimes! ―  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.
A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres. Hoje, entrego a todo o mundo do voluntariado esta figura emblemática de mulher e de consagrada: que ela seja o vosso modelo de santidade! Parece-me que teremos alguma dificuldade em chamá-la ‘Santa Teresa’: a sua santidade é tão próxima de nós; tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la “Madre Teresa”. Que esta incansável agente de misericórdia nos ajude a entender, mais e mais, que o nosso único critério de acção é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo e que é derramado sobre todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião. A Madre Teresa gostava de dizer: «Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir». Levemos, no coração, o seu sorriso e ofereçamo-lo a quem encontrarmos no nosso caminho, especialmente àqueles que sofrem. Assim, abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade tão desesperançada e necessitada de compreensão e de ternura.”
A memória litúrgica de Santa Teresa de Calcutá celebra-se no dia 5 de Setembro.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

EM DESTAQUE



VIAGEM DO PAPA FRANCISCO À IRLANDA
- discurso às Famílias, no âmbito do IX Encontro Mundial das Famílias

Queridos irmãos e irmãs, boa noite!
Obrigado pelas vossas calorosas boas-vindas. É bom estar aqui! É bom celebrar, porque nos torna mais humanos e mais cristãos. Também nos ajuda a partilhar a alegria de saber que Jesus nos ama, acompanha no percurso da vida e, cada dia, nos atrai para mais perto de Si.
Em cada celebração familiar, sente-se a presença de todos: pais, mães, avós, netos, tios e tias, primos, quem não pôde vir e quem vive demasiado longe, todos. Hoje, em Dublin, reunimo-nos para uma celebração familiar de acção de graças a Deus pelo que somos: uma única família em Cristo, espalhada por toda a terra. A Igreja é a família dos filhos de Deus; uma família, que se regozija com aqueles que estão na alegria e que chora com aqueles que estão na tribulação ou se sentem desanimados com a vida. Uma família onde se cuida de cada um, porque Deus nosso Pai nos fez, a todos, seus filhos no Baptismo. Por isso mesmo, continuo a encorajar os pais a levar ao Baptismo os filhos, logo que possível, para que se tornem parte da grande família de Deus. É preciso convidar cada um para a festa, também a criança pequena! E, por isso, deve ser baptizada o quanto antes. E há outra coisa: se a criança, desde pequena, é baptizada, o Espírito Santo entra no seu coração. Façamos uma comparação: uma criança sem Baptismo - pois os pais dizem: «Não, quando for maior» - e uma criança com o Batpismo, com o Espírito Santo dentro de si: ela é mais forte, porque tem dentro a força de Deus!
Vós, queridas famílias, sois a grande maioria do povo de Deus. Que fisionomia teria a Igreja sem vós? Uma Igreja de estátuas, uma Igreja de pessoas solitárias... Foi para nos ajudar a reconhecer a beleza e a importância da família, com as suas luzes e sombras, que foi escrita a Exortação ‘Amoris laetitia’ sobre a alegria do amor, e quis que o tema deste Encontro Mundial das Famílias fosse «O Evangelho da família, alegria para o mundo». Deus quer que cada família seja um farol que irradia a alegria do seu amor pelo mundo. Que significa isto? Significa que nós, depois de termos encontrado o amor de Deus que salva, procuramos, com palavras ou sem elas, manifestá-lo através de pequenos gestos de bondade na vida rotineira de cada dia e nos momentos mais simples da jornada.
E isto como se chama? Isto chama-se santidade. Gosto de falar dos santos de «ao pé da porta», de todas aquelas pessoas comuns que reflectem a presença de Deus, na vida e na história do mundo (cf. Exort. ap. Gaudete et exsultate, 6-7). A vocação ao amor e à santidade não é algo reservado para poucos privilegiados. Não. Mesmo agora, se tivermos olhos para ver, podemos vislumbrá-la ao nosso redor. Está silenciosamente presente no coração de todas as famílias que oferecem amor, perdão, misericórdia, quando vêem que há necessidade, e fazem-no tranquilamente, sem tocar a trombeta. O Evangelho da família é, verdadeiramente, alegria para o mundo, visto que lá, nas nossas famílias, sempre se pode encontrar Jesus; lá habita, em simplicidade e pobreza, como fez na casa da Sagrada Família de Nazaré.
O matrimónio cristão e a vida familiar são compreendidos em toda a sua beleza e fascínio, se estiverem ancorados no amor de Deus, que nos criou à sua imagem para podermos dar-Lhe glória, como ícones do seu amor e da sua santidade, no mundo. Pais e mães, avós, filhos e netos são todos chamados a encontrar, na família, a realização do amor. A graça de Deus ajuda dia-a-dia a viver com um só coração e uma só alma. Mesmo as sogras e as noras! Ninguém diz que seja fácil, sabeis melhor do que eu. É como preparar um chá: é fácil ferver a água, mas uma boa taça de chá requer tempo e paciência; é preciso deixar em infusão! Então, dia após dia, Jesus aquece-nos com o seu amor, fazendo de modo que penetre todo o nosso ser. Do tesouro do seu Sagrado Coração, derrama sobre nós a graça que precisamos para curar as nossas enfermidades e abrir a mente e o coração para nos escutarmos, compreendermos e perdoarmos uns aos outros.
Acabamos de ouvir os testemunhos de Felicité, Isaac e Ghislain, que vêm do Burkina Faso. Contaram-nos uma história comovente de perdão em família. O poeta dizia que «errar é humano, perdoar é divino». É verdade! O perdão é um dom especial de Deus, que cura as nossas feridas e nos aproxima dos outros e d’Ele. Gestos humildes e simples de perdão, renovados dia-a-dia, são o fundamento sobre o qual se constrói uma vida familiar cristã sólida. Obrigam-nos a superar o orgulho, o isolamento e o embaraço, e a fazer paz. Muitas vezes, ficamos com raiva entre nós e queremos fazer a paz, mas não sabemos como. É um embaraço fazer a paz, mas queremos fazê-la! Não é difícil. É fácil. Faz uma carícia e assim faz-se a paz! É verdade! Gosto de dizer que, nas famílias, precisamos de aprender três palavras – Tu [Ghislain] o disseste – três palavras: «desculpa», «por favor» e «obrigado». Três palavras… Quando tiverdes discutido em casa, certificai-vos, antes de ir dormir, que pedistes desculpa dizendo que sentis pesar pelo sucedido. Antes que termine o dia, fazei a paz. E sabeis por que é necessário fazer a paz antes de terminar o dia? Porque se não se faz a paz, no dia seguinte, a “guerra fria” é muito perigosa! Estai atentos com a guerra fria na família! Mas, é possível que tu, às vezes, fiques com raiva e te sintas tentado a ir dormir noutro quarto, sozinho e isolado. Se te sentes assim, bate simplesmente à porta e diz: «Por favor, posso entrar?» Basta um olhar, um beijo, uma palavra doce... e tudo volta a estar como antes! Digo isto porque as famílias, quando o fazem, sobrevivem. Não existe uma família perfeita; sem o hábito do perdão, a família cresce doente e gradualmente desmorona-se.
Perdoar significa doar algo de si mesmo. Jesus perdoa-nos sempre. Com a força do seu perdão, também nós podemos perdoar aos outros, se o quisermos de verdade. Não é isso que pedimos, quando rezamos o Pai-Nosso? Os filhos aprendem a perdoar quando vêem que os seus pais se perdoam entre si. Se compreendermos isto, poderemos apreciar a grandeza da doutrina de Jesus sobre a fidelidade no matrimónio. Longe de ser uma fria obrigação legal, trata-se, sobretudo, duma promessa poderosa da fidelidade do próprio Deus à sua palavra e à sua graça sem limites. Cristo morreu por nós para que, por nossa vez, possamos perdoar-nos e reconciliar-nos uns com os outros. Deste modo, como pessoas e como famílias, aprendemos a compreender a verdade daquelas palavras de São Paulo: tudo passa, mas «o amor jamais passará» (1 Cor 13, 8).
Obrigado, Nisha e Ted, pelos vossos testemunhos da Índia, onde estais a ensinar aos vossos filhos a serem uma verdadeira família. Ajudastes-nos, também, a compreender que os meios de comunicação social não são necessariamente um problema para as famílias, mas podem contribuir para a construção duma «rede» de amizade, solidariedade e apoio mútuo. As famílias podem conectar-se através da internet e beneficiar disso. Os meios de comunicação social podem ser benéficos, se forem usados com moderação e prudência. Vós, por exemplo, que participais neste Encontro Mundial das Famílias, formais uma «rede» espiritual e de amizade, e os meios de comunicação social podem ajudar-vos a manter esta ligação e alargá-la a outras famílias em muitas partes do mundo. Contudo, é importante que estes meios nunca se tornem uma ameaça para a verdadeira rede de relações de carne e sangue, prendendo-nos numa realidade virtual e isolando-nos das relações concretas que nos estimulam a dar o melhor de nós mesmos em comunhão com os outros. Talvez a história de Ted e Nisha possa ajudar as famílias a interrogar-se sobre a obrigação de reduzir o tempo que gastam com esses meios tecnológicos, e de passar um tempo de qualidade entre eles e com Deus. Mas, quando usas demasiado as redes sociais, “entras em órbita”. Quando, à mesa, ao invés de conversar em família, cada um tem o seu telefone e fica a ligar para fora, fica “em órbita”. Mas isso é perigoso. Porquê? Porque te arranca do concreto da família e te leva para uma “vida gasosa”, sem consistência. Estai atentos a isso. Lembrai-vos da história de Ted e Nisha, que nos ensinam a usar bem as redes sociais.
Ouvimos, de Enass e Sarmaad, como o amor e a fé em família podem ser fonte de força e paz, mesmo no meio da violência e da destruição, causadas pela guerra e a perseguição. A sua história recorda-nos as trágicas situações que sofrem, quotidianamente, muitas famílias, forçadas a abandonar as suas casas à procura de segurança e de paz. Mas Enass e Sarmaad indicaram-nos também como, a partir da família e graças à solidariedade manifestada por muitas outras famílias, a vida pode ser reconstruída e renascer a esperança. Vimos este apoio no vídeo de Rammy e do seu irmão Meelad, onde Rammy expressou profunda gratidão pelo incentivo e a ajuda que a sua família recebeu de muitas outras famílias cristãs do mundo inteiro, fazendo com que fosse possível que eles voltassem para a sua aldeia. Em cada sociedade, as famílias geram paz, porque ensinam o amor, o acolhimento, o perdão, que são os melhores antídotos contra o ódio, o preconceito e a vingança que envenenam a vida de pessoas e de comunidades.
Como ensinou um bom padre irlandês, «a família que reza unida permanece unida» e irradia paz. Tal família pode ser um apoio especial para outras famílias que não vivem em paz. Depois da morte do padre Ganni, Enass, Sarmaad e as suas famílias optaram pelo perdão e a reconciliação, em vez do ódio e do rancor. À luz da Cruz, viram que o mal só se pode contrastar com o bem; e o ódio só se pode superar com o perdão. De forma quase incrível, foram capazes de encontrar paz no amor de Cristo, um amor que faz novas todas as coisas. E, nesta noite, partilham esta paz connosco. Rezaram. A oração… rezar juntos… Enquanto escutava o coral, vi uma mãe que ensinava o filho a fazer o sinal da cruz. Pergunto-vos: ensinais as crianças a fazerem o sinal da cruz? Sim ou não?... Ou ensinais a fazer uma gatafunhada que não se entende bem o que é? É muito importante que as crianças desde pequenas, aprendam a fazer bem o sinal da cruz: é o primeiro Credo que aprendem, o Credo no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Esta noite, antes de irdes para a cama, vós, pais, perguntai a vós mesmos: ensino os meus filhos a fazer bem o sinal da cruz? Pensai, é algo para vós!
O amor de Cristo, que tudo renova, é o que torna possível o matrimónio e um amor conjugal caracterizado por fidelidade, indissolubilidade, unidade e abertura à vida. É o que se evidencia no quarto capítulo da ‘Amoris laetitia’. Vimos este amor em Mary e Damian e na sua família com dez filhos. Pergunto-vos, Mary e Damian: os vossos filhos deixam-vos, muitas vezes, aborrecidos? Pois, a vida é assim! Mas é belo ter dez filhos. Obrigado pelas vossas palavras e pelo vosso testemunho de amor e de fé! Experimentastes a capacidade que o amor de Deus tem de transformar completamente a vossa vida e de vos abençoar com a alegria de uma linda família. Dissestes-nos que a chave da vossa vida familiar é a sinceridade. Pela vossa história, compreendemos como é importante continuar a ir àquela fonte da verdade e do amor que pode transformar a nossa vida. Quem é? Jesus, que inaugurou o seu ministério público justamente numa festa de núpcias. Lá, em Caná, mudou a água num vinho novo e bom que permitiu continuar magnificamente a jubilosa celebração. Mas, pensastes o que teria acontecido se Jesus não tivesse feito isso? Pensastes como é feio terminar uma festa de núpcias somente com água? É feio! Nossa Senhora percebeu-o e disse ao Filho: «Eles não têm mais vinho». E Jesus entendeu que a festa teria terminado mal só com água. O mesmo se passa com o amor conjugal. O vinho novo começa a ferver durante o tempo do noivado, necessário mas passageiro, e matura ao longo da vida matrimonial num mútuo dom de si mesmo que torna os esposos capazes de se fazerem, de dois, «uma só carne». E também de abrir, por sua vez, os corações a quem tem necessidade de amor, especialmente quem está sozinho, abandonado, fraco e, enquanto vulnerável, muitas vezes posto de lado pela cultura do descarte. Essa cultura em que vivemos hoje, que descarta tudo: descarta tudo aquilo que não serve, descarta as crianças, porque incomodam. Descarta os velhos, porque não servem... Só o amor nos salva desta cultura do descarte.
Por toda a parte, as famílias são chamadas a continuar a crescer e seguir em frente, mesmo no meio de dificuldades e limites, precisamente como fizeram as gerações passadas. Todos somos parte duma grande cadeia de famílias, que remonta ao início dos tempos. As nossas famílias são tesouros vivos de memória, com os filhos que, por sua vez, se tornam pais e, depois, avós. Deles recebemos a identidade, os valores e a fé. Vimo-lo em Aldo e Marisa, casados há mais de cinquenta anos. O seu matrimónio é um monumento ao amor e à fidelidade! Os seus netos os mantêm jovens; a sua casa está cheia de alegria, de felicidade e de danças. Foi bonito ver, no vídeo, a avó a ensinar as netinhas a dançarem! O seu amor mútuo é um dom de Deus, um dom que estão a transmitir com alegria aos seus filhos e netos.
Uma sociedade - escutai bem isto - uma sociedade que não valorize os avós é uma sociedade sem futuro. Uma Igreja que não tenha a peito a aliança entre gerações acabará sem o que conta verdadeiramente, o amor. Os nossos avós ensinam-nos o significado do amor conjugal e paternal. Eles próprios cresceram numa família e experimentaram o afecto de filhos e filhas, de irmãos e irmãs. Por isso, constituem um tesouro de experiência, um tesouro de sabedoria para as novas gerações. É um grande erro não interpelar os idosos sobre as suas experiências ou pensar que seja uma perda de tempo conversar com eles. A propósito, quero agradecer a Missy o seu testemunho. A senhora disse-nos que, entre os nómadas, a família sempre foi uma fonte de força e de solidariedade. O seu testemunho lembra-nos que, na casa de Deus, há um lugar à mesa para todos. Ninguém deve ser excluído; o nosso amor e a nossa atenção devem estender-se a todos.
É tarde e estais cansados! Eu também! Mas deixai que vos diga uma última coisa. Vós, famílias, sois a esperança da Igreja e do mundo! Deus - Pai, Filho e Espírito Santo - criou a humanidade à sua imagem e semelhança para fazê-la participante do seu amor; para que fosse uma família de famílias e gozasse daquela paz que só Ele pode dar. Com o vosso testemunho do Evangelho, podeis ajudar Deus a realizar o seu sonho. Podeis contribuir para aproximar todos os filhos de Deus, para que cresçam na unidade e aprendam o que significa, para o mundo inteiro, viver em paz como uma grande família. Por este motivo, desejei entregar a cada um de vós uma cópia da ‘Amoris laetitia’, preparada nos dois Sínodos sobre a família e escrita para ser uma espécie de guia a fim de se viver com alegria o Evangelho da família. Que Maria nossa Mãe, Rainha da família e da paz, sustente a todos vós no percurso da vida, do amor e da felicidade! (cf. Santa Sé)

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…«Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses;
porque o Senhor é o nosso Deus, que nos fez sair,
a nós e a nossos pais, da terra do Egipto, da casa da escravidão.
Foi Ele que, diante dos nossos olhos, realizou tão grandes prodígios
e nos protegeu durante o caminho que percorremos
entre os povos por onde passámos…
Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus»…” (Josué 24, 16-17.18b)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 22 de Agosto de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuando as catequeses sobre os mandamentos, hoje, reflectiremos sobre o mandamento: “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão…” (Êx 20, 7). Entendemos, precisamente, esta Palavra como convite a não ofender o nome de Deus e a evitar usá-lo de forma inadequada. Esse claro significado prepara-nos para aprofundar mais estas palavras preciosas, de não usar o nome de Deus em vão, de forma inadequada.
Escutemo-las melhor. A versão "não pronunciarás" traduz uma expressão que significa literalmente, em hebraico e em grego, "não te apoderarás… não carregarás esse peso".
A expressão «em vão» é mais clara e significa: «vazio, de modo fútil». Refere-se a um invólucro vazio, a uma forma desprovida de conteúdo. É a característica da hipocrisia, do formalismo e da mentira, no usar as palavras ou usar o nome de Deus, mas de modo vazio, sem verdade.
O nome, na Bíblia, é a verdade íntima das coisas e, sobretudo, das pessoas. O nome representa, a maioria das vezes, a missão. Por exemplo: Abraão, no Génesis, (cf. 17, 5) e Simão Pedro, nos Evangelhos, (cf. Jo 1, 42) recebem um nome novo, para indicar a mudança de rumo das suas vidas. E, conhecer verdadeiramente o nome de Deus, leva à transformação da própria vida: a partir do momento em que Moisés conheceu o nome de Deus, a sua história muda (cf. Êx 3, 13-15).
O nome de Deus, nos ritos hebraicos, é proclamado, solenemente, no Dia do Grande Perdão, e o povo é perdoado porque, através do nome, entra em contacto com a própria vida de Deus que é misericordiosa.
Então, "tomar sobre si o nome de Deus" significa assumir a sua realidade, entrar numa relação forte, numa relação íntima com Ele. Para nós, cristãos, este mandamento é um alerta para nos lembrarmos que somos baptizados "em o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", como afirmamos todas as vezes que fazemos, sobre nós, o sinal da cruz; um alerta para vivermos as nossas acções quotidianas em comunhão sincera e real com Deus, isto é, no seu amor. E sobre isto de fazer o sinal da cruz, gostaria de dizer, novamente: ensinai as crianças a fazer o sinal da cruz. Tendes visto como as crianças fazem o sinal da cruz? Se disserdes às crianças: "Fazei o sinal da cruz", fazem uma coisa que não sabem o que é. Não sabem fazer o sinal da cruz! Ensinai-os a dizer “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. O primeiro acto de fé de uma criança. Uma tarefa para vós; um trabalho a fazer: ensinar as crianças a fazer o sinal da cruz.
Podemos perguntar: é possível invocar sobre si o nome de Deus, hipocritamente, como uma mera formalidade, em vão? A resposta é, infelizmente, positiva: sim, é possível. Pode viver-se uma relação falsa com Deus. Jesus dizia-o dos doutores da lei; eles faziam coisas, mas não faziam o que Deus queria. Falavam de Deus, mas não faziam a vontade de Deus. O conselho de Jesus é: "Fazei o que eles dizem, mas não o que eles fazem". Pode viver-se uma relação falsa com Deus, como aquela gente. E esta Palavra do Decálogo é, precisamente, um convite a um relacionamento com Deus que não seja falso; sem hipocrisia, a um relacionamento em que nos entregamos a Ele com tudo o que somos. No fundo, se não arriscarmos a nossa existência com o Senhor, sentindo que n’Ele se encontra a vida, só fantasiamos.
Este é o cristianismo que toca os corações. Por que é que os santos são tão capazes de tocar os corações? Porque os santos não falavam apenas, mexiam-se! Se nos toca o coração quando uma pessoa santa nos fala, é porque ela nos comunica alguma coisa. E os santos são capazes disso, porque nos santos vemos o que o nosso coração deseja profundamente: autenticidade, relacionamentos verdadeiros, radicalidade. E isto se vê, também, nos "santos da nossa porta", que são, por exemplo, os muitos pais que dão aos filhos o exemplo de uma vida coerente, simples, honesta e generosa.
Se se multiplicarem os cristãos que assumam o nome de Deus sem falsidade - praticando assim o primeiro pedido do Pai Nosso, "santificado seja o vosso nome” – o anúncio da Igreja será mais escutado e torna-se mais credível. Se a nossa vida concreta manifestar o nome de Deus, experimentar-se-á como belo é o baptismo e o grande dom que é a Eucaristia, sublime união existente entre o nosso corpo e o Corpo de Cristo: Cristo em nós e nós n’Ele! Unidos! Isto não é hipocrisia; isto é verdade. Isto não é falar ou rezar como um papagaio; isto é rezar com o coração, amar o Senhor.
A partir da cruz de Cristo, ninguém pode desprezar-se a si mesmo, ou pensar mal da sua própria existência. Ninguém e nunca! O que quer que seja que tenha feito! Porque o nome de cada um de nós está sobre os ombros de Cristo. Ele leva-nos! Vale a pena invocar sobre nós o nome de Deus porque Ele assumiu o nosso nome até o fim, até o mal que está em nós; Ele carrega connosco para nos perdoar, para meter o seu amor nos nossos corações. É por isso que Deus proclama neste mandamento: "Leva-me contigo, porque eu te carrego aos meus ombros".
Qualquer um pode invocar o santo nome do Senhor, que é Amor fiel e misericordioso, em qualquer situação em que se encontre. Deus nunca dirá "não" a um coração que O invoca com sinceridade. E voltemos ao trabalho de casa: ensinar as crianças a fazer o sinal da cruz bem feito. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 33

Refrão: Saboreai e vede como o Senhor é bom.

A toda a hora bendirei o Senhor,
o seu louvor estará sempre na minha boca.
A minha alma gloria-se no Senhor:
escutem e alegrem-se os humildes.

Os olhos do Senhor estão voltados para os justos
e os ouvidos atentos aos seus rogos.
A face do Senhor volta-se contra os que fazem o mal,
para apagar da terra a sua memória.

Os justos clamaram e o Senhor os ouviu,
livrou-os de todas as suas angústias.
O Senhor está perto dos que têm o coração atribulado
e salva os de ânimo abatido.

Muitas são as tribulações do justo,
mas de todas elas o livra o Senhor.
Guarda todos os seus ossos,
nem um só será quebrado.

A maldade leva o ímpio à morte,
os inimigos do justo serão castigados.
O Senhor defende a vida dos seus servos,
não serão castigados os que n’Ele se refugiam.

SANTOS POPULARES



SANTO AGOSTINHO

Agostinho nasceu em Tagaste, no norte da África, no dia 13 de Novembro do ano 354. Era filho de Patrício, um pagão inteiramente voltado para o materialismo da época, e de Mónica, uma mulher profundamente cristã, que foi declarada santa.
Embora nascido de uma mãe cristã, Agostinho não foi baptizado. Era comum, sobretudo na Igreja de África, o costume de se baptizar numa idade mais avançada, porque se acreditava que os pecados cometidos depois do sacramento do baptismo não podiam ser perdoados tão facilmente como os cometidos antes. Era um pensamento e um costume perigoso que a Igreja local se apressou em abolir. Muitos jovens, de facto, animados às vezes pelos seus pais, abandonavam-se aos vícios, com a certeza de que, um dia, a água do Baptismo lavaria todas as manchas do pecado.
A influência dos pais foi muito grande, na vida de Agostinho: primeiro a de Patrício; depois a de Mónica.
Agostinho fez os seus primeiros estudos em Tagaste; depois, continuou-os em Madaura.
Aos 17 anos, vai para Cartago, onde Romaniano, amigo do seu pai, o ajuda e se torna o seu protector. Aí, durante três anos, dedicou-se ao estudo e à leitura de livros, entre os quais se destaca o "Hortênsio", de Cícero, que o impressionou profundamente.
Aos 20 anos voltou a Tagaste como professor, com uma mulher e um filho, Adeodato. Pouco tempo, voltou para Cartago, também como professor. Depois, foi leccionar em Roma e, a seguir, foi para Milão, onde ganhou a cátedra de retórica, da casa imperial, e desenvolveu, aí, também a actividade de professor de retórica.
Apesar de tudo, Agostinho sentia um grande vazio no seu coração; vivia numa interior inquietação. Não era feliz!... Procurou a felicidade em muitos lugares, mas não a encontrou. O seu coração inquieto não encontrava a verdade e a paz que tanto desejava. A sua mãe encontrou-se com ele, em Milão, e animou-o a participar nas pregações feitas por Ambrósio (Santo Ambrósio), Bispo de Milão.
Foi uma longa caminhada euma dura luta para transformar o seu coração. No mês de Agosto de 386, meditando no jardim, ouviu uma voz de criança que lhe dizia "Tolle et lege" (Toma e lê) e, tomando as Cartas de São Paulo, leu: "Não é nos prazeres da vida, mas no seguir a Cristo que se encontra a felicidade". As dúvidas dissipam-se-lhe e é neste momento que culmina todo o processo da sua conversão. Encontrando Deus no seu coração, achou a felicidade, a paz e a verdade que procurava. No ano seguinte, na Vigília da Páscoa, foi baptizado.
Agostinho decidiu voltar para Tagaste, para morar com os seus amigos e entregar-se inteiramente ao serviço de Deus, através da oração e do estudo. Mas, no ano 391, de visita à cidade de Hipona, foi proclamado sacerdote pelo povo e ordenado padre pelo bispo Valério. Quatro anos depois, foi ordenado Bispo desta cidade: daí o nome por que é mais conhecido  - Agostinho de Hipona.
Viveu em comunidade - tentando seguir o ideal das primeiras comunidades cristãs - na pobreza e na partilha. A comunidade eclesial de Hipona era constituída,  na sua grande maioria, por pobres. Agostinho fez-se a voz destes pobres, falando por eles na Igreja, indo até às autoridades para interceder por eles e ajudando-os naquilo que podia. Entre as funções que o bispo tinha estavam a de administrar os bens da Igreja, a de repartir o seu benefício entre os pobres, e, também, a de acolher os peregrinos e ser protector dos órfãos e viúvas... Agostinho realizou todas estas tarefas como um serviço aos pobres e à Igreja. O bispo exercia, também, a função de juiz, tarefa que lhe desagradava profundamente, mas exerceu essa missão com objectividade, justiça e caridade.
Agostinho dedicou-se, de modo humilde e sábio, à oração, ao estudo e à escrita. Escreveu inúmeras obras, num total de 113, sem contar as cartas - destas conservam-se mais de 200 - e os Sermões. A maior parte das obras de Agostinho surgiram por causa dos problemas ou das preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo. É por isso que, nas suas obras, estão presentes as polémicas em que ele mesmo esteve envolvido, principalmente contra os maniqueos (seita da qual ele mesmo fez parte antes da conversão e que defendia um confuso dualismo cósmico - o bem contra o mal, sempre em conflito um com o outro - e desvalorizavam, de forma perversa, todo o criado), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente ao ministro, negando sua acção, como sinal eficaz da graça e se consideravam a "Igreja dos santos") e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva pelas suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus).
Além destas obras, destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu outras, de diverso conteúdo: no campo exegético (principalmente os Comentários ao Génesis, a São João e aos Salmos), no dogmático ("Sobre a Trindade"), no Pastoral ("Sobre a Catequese dos simples").
Mas, de entre todas as obras, destacam-se duas, pela genialidade: "A Cidade de Deus", que representa a primeira tentativa de fazer uma interpretação cristã da história, e "As Confissões", onde Agostinho manifesta a sua fraqueza, que gera o mal, e apresenta Deus, fonte de todo bem e Verdade absoluta. As "Confissões" são um louvor à Graça de Deus.
A obra e o pensamento de Agostinho ultrapassam os limites da sua época e exercem uma grande influência na Idade Média e, também, na nossa época. A influência de Agostinho acontece nos diversos campos do pensamento, da cultura e da vida religiosa.
Agostinho morreu no dia 28 de Agosto do ano 430, e seus restos mortais, depois de longa peregrinação, descansam na cidade de Pavia, no norte da Itália.
A memória litúrgica de Santo Agostinho celebra-se no dia 28 de Agosto.