PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

domingo, 23 de setembro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…a sabedoria que vem do Alto é pura, pacífica, compreensiva e dócil,
cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia;
e é com a paz que uma colheita de justiça é semeada pelos obreiros da paz.
De onde vêm as guerras?
De onde procedem os conflitos entre vós?
Não é precisamente das paixões
que se servem dos vossos membros para fazer a guerra?
Cobiçais e nada tendes: então, matais.
Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir:
Então, lutais e guerreais-vos…” (cf. Tiago 3,17- 4, 2)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 19 de Setembro de 2018

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Na viagem ao interior das ‘Dez Palavras’, hoje, chegamos ao mandamento sobre o pai e a mãe. Fala-se da honra devida aos pais. Em que consiste esta “honra”? O termo hebraico indica a glória, o valor, à letra, o “peso”, a consistência de uma realidade. Não é questão de formas exteriores, mas de verdades. Nas Escrituras, honrar a Deus quer dizer reconhecer a sua realidade; fazer as contas com a sua presença; isto exprime-se, também, mediante os ritos, mas implica sobretudo atribuir a Deus o lugar certo na existência. Portanto, honrar o pai e a mãe significa reconhecer a sua importância até com gestos concretos, que manifestam dedicação, afecto e esmero. Mas não se trata apenas disto.
A Quarta Palavra tem uma sua característica: é o mandamento que contém um êxito. Com efeito, reza: «Honra o teu pai e a tua mãe, como te mandou o Senhor, teu Deus, para que se prolonguem os teus dias e prosperes na terra que te deu o Senhor, teu Deus» (Dt 5, 16). Honrar os pais leva a uma vida longa e feliz. No Decálogo, a palavra “felicidade” só aparece ligada ao relacionamento com os pais.
Esta sabedoria multimilenária declara aquilo que as ciências humanas souberam elaborar só há pouco mais de um século: ou seja, que a marca da infância se reflecte na vida inteira. Muitas vezes, pode ser fácil perceber se alguém cresceu num ambiente saudável e equilibrado. Mas, igualmente, perceber se uma pessoa provém de experiências de abandono ou de violência. A nossa infância é um pouco como uma tinta indelével: exprime-se nos gostos, nos modos de ser, não obstante alguns procurarem esconder as feridas das próprias origens.
Mas o quarto mandamento diz ainda mais. Não fala da bondade dos pais; não exige que os pais e as mães sejam perfeitos. Fala de um gesto dos filhos, prescindindo dos méritos dos pais; e diz algo extraordinário e libertador: embora nem todos os pais sejam bons e nem todas as infâncias sejam tranquilas, todos os filhos podem ser felizes, porque o êxito de uma vida plena e feliz depende do justo reconhecimento por aqueles que nos deram a vida.
Pensemos como esta Palavra pode ser construtiva para tantos jovens que provêm de histórias de dor e para todos aqueles que sofreram na sua juventude. Muitos santos — e numerosos cristãos — depois de uma infância dolorosa, levaram uma vida luminosa porque, graças a Jesus Cristo, se reconciliaram com a vida. Pensemos no jovem Sulprizio, hoje Beato e no próximo mês Santo, que, com 19 anos, concluiu a sua vida, reconciliado com muitas dores, com tantas situações, porque o seu coração estava sereno e nunca tinha renegado os seus pais. Pensemos em São Camilo de Lellis que, de uma infância desordenada, construiu uma vida de amor e de serviço; em Santa Josefina Bakhita, que cresceu numa escravidão horrível; ou no Beato Carlos Gnocchi, órfão e pobre; e no próprio São João Paulo II, marcado pela perda da mãe, em tenra idade.
Independentemente da história da sua proveniência, o homem recebe deste mandamento a orientação que conduz a Cristo: com efeito, é n’Ele que se manifesta o verdadeiro Pai, que nos oferece o “renascimento do Alto” (cf. Jo 3, 3-8). Os enigmas das nossas vidas iluminam-se quando se descobre que Deus nos prepara, desde sempre, para uma vida como seus filhos, onde cada gesto é uma missão recebida d’Ele.
As nossas feridas começam a ser potencialidades quando, por graça, descobrimos que o verdadeiro enigma já não é “porquê?”, mas “por quem?”, por quem me aconteceu isto: em vista de que obra Deus me forjou, através da minha história? Aqui tudo se inverte, tudo se torna precioso, tudo se torna construtivo. A minha experiência, ainda que seja triste e dolorosa, à luz do amor, como se torna para os outros, para quem, fonte de salvação? Então, podemos começar a honrar os nossos pais com liberdade de filhos adultos e com misericordiosa aceitação dos seus limites.
Honrar os pais: eles deram-nos a vida! Se tu te afastaste dos teus pais, faz um esforço e regressa, volta para eles; talvez sejam idosos... Eles deram-te a vida. Além disso, temos o hábito de proferir expressões feias, até palavrões... Por favor, nunca, nunca, nunca insulteis os pais de outrem. Jamais! Nunca se insulta a mãe, nunca se insulta o pai. Jamais! Tomai vós mesmos esta decisão interior: doravante, nunca insultarei a mãe ou o pai de alguém. Foram eles que lhe deram a vida! Não devem ser insultados.
Esta vida maravilhosa é-nos oferecida, não imposta: renascer em Cristo é uma graça a acolher livremente (cf. Jo 1, 11-13), e constitui o tesouro do nosso Baptismo no qual, por obra do Espírito Santo, um só é o nosso Pai, aquele que está no Céu (cf. Mt 23, 9; 1 Cor 8, 6; Ef 4, 6). Obrigado!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


- SALMO 53

Refrão: O Senhor receberá a minha vida.

Senhor, salvai-me pelo vosso nome,
pelo vosso poder fazei-me justiça.
Senhor, ouvi a minha oração,
atendei às palavras da minha boca.

Levantaram-se contra mim os arrogantes
e os violentos atentaram contra a minha vida.
Não têm a Deus na sua presença.

Deus vem em meu auxílio,
o Senhor sustenta a minha vida.
De bom grado oferecerei sacrifícios,
cantarei a glória do vosso nome, Senhor. 

SANTOS POPULARES



SÃO PAULO VI, PAPA

Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu no dia 26 de Setembro de 1897, em Concesio, Lombardia – Itália, filho de Jorge Montini - um advogado famoso, da linha da frente do catolicismo social e político, que se tornou editor e promotor corajoso de acção social – e de Judite Alghisi. uma família rica da classe alta.
Giovanni (João) era uma criança frágil, mas inteligente, que recebeu a sua primeira educação no Colégio dos Jesuítas perto da sua casa, em Brescia. Mesmo depois de entrar no seminário (1916), foi autorizado a viver em casa, por causa da sua saúde. Foi ordenado padre, em 29 de Maio de 1920, antes de completar 23 anos. Depois da sua ordenação, foi enviado para Roma, para estudar na Universidade Gregoriana e na Universidade de Roma mas, em 1922, transferiu-se para a Accademia dei Nobili Ecclesiastici para estudar diplomacia e seguir a carreira diplomática. Contudo, continuou os seus estudos de Direito Canónico na Universidade Gregoriana, tendo feito doutoramento em filosofia, direito civil e direito canónico.
Em 1923, foi enviado para Varsóvia como adido da Nunciatura mas, pouco tempo depois, voltou para Roma (1924), por causa da dureza dos invernos, na Polónia, que provocavam danos graves na sua saúde. Então, foi nomeado para a Secretaria de Estado, onde permaneceu durante 30 anos. Além de leccionar na Accademia dei Nobili Ecclesiastici, foi nomeado capelão da Federação dos Estudantes da Universidade Católica Italiana (FUCI), uma atribuição que irá ter um efeito decisivo sobre as suas relações com os fundadores do Partido Democrata Cristão, do pós-guerra.
Em 1937, foi nomeado substituto para os assuntos comuns, sob as ordens do Cardeal Pacelli, Secretário de Estado do Vaticano, tendo-o acompanhado a Budapeste (1938) para o Congresso Eucarístico Internacional. A quando da eleição do Cardeal Pacelli como Papa, que adoptou o nome de Pio XII, em 1939, Giovanni Montini foi reconfirmado no cargo, sob a direcção do novo Secretário de Estado, o Cardeal Luigi Maglione. Quando este morreu, em 1944, Montini continuou a cumprir o seu dever, directamente sob as ordens do Papa. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi o responsável pela organização do extenso trabalho de assistência e cuidados aos refugiados políticos.
No consistório secreto de 1952, o Papa Pio XII anunciou que tinha a intenção de nomear Montini e Domenico Tardini para o Sacro Colégio, mas que ambos haviam pedido para serem dispensados de aceitar. Papa, em vez disso, nomeou-os pró-secretários de Estado. No ano seguinte, Montini foi nomeado Arcebispo de Milão. Tomou posse da sua nova diocese, no dia 5 de Janeiro de 1955, e rapidamente ficou conhecido como o "arcebispo dos trabalhadores." Revitalizou toda a diocese; pregou a mensagem social do Evangelho; trabalhou para reconquistar a classe trabalhadora; promoveu a educação católica em todos os níveis, com o apoio da imprensa católica. O seu impacto sobre a cidade, nesta altura, foi tão grande que atraiu a atenção mundial. No conclave de 1958, o seu nome foi frequentemente mencionado, e no início do Consistório do Papa João, em Dezembro do mesmo ano, ele foi um dos 23 prelados elevados ao cardinalato com o seu nome no topo da lista. A sua resposta ao chamamento para um Conselho foi imediata e mesmo antes de conhecermos, ele foi identificado como um forte defensor do princípio da colegialidade. Foi nomeado para a Comissão Central Preparatória do Concílio Vaticano II e também para a Comissão Técnico-Organizacional.  
Com a morte do Papa João XXIII, o Cardeal Montini foi eleito Papa, no 21 de Junho de 1963, adoptando o nome de Paulo, para indicar que tinha uma missão mundial renovada de propagar a mensagem de Cristo: Paulo VI. Na sua primeira mensagem à Igreja e ao mundo, comprometeu-se com a continuação do trabalho iniciado pelo Papa João XXIII. Após a conclusão do Concílio Vaticano II, Paulo VI tomou conta da interpretação e implementação dos seus mandatos, frequentemente andando sobre uma linha entre as expectativas e os conflitos, para vários grupos da Igreja Católica. A magnitude e a profundidade das reformas, que afectaram todas as áreas da vida da Igreja durante o seu pontificado, excederam as políticas reformistas dos seus predecessores e sucessores.
Paulo VI foi o primeiro Papa a viajar de avião. Fez viagens, entre outros locais, a Jerusalém, à Índia, à ONU, a Portugal (em 13 de Maio de 1967, Santuário de Fátima), à Turquia, à Colômbia, à Suíça, ao Uganda, às Filipinas e à Austrália.
Paulo VI foi um devoto mariano, discursando repetidamente em congressos marianos e em reuniões de estudos mariológicos; visitou santuários marianos e publicou três encíclicas marianas. Procurou o diálogo com o mundo, com outros cristãos; com pessoas religiosas e sem religião: nunca excluiu ninguém. Viu-se como um humilde servo de uma humanidade sofredora e exigiu mudanças significativas dos ricos, na América e Europa, em favor dos mais pobres do Terceiro Mundo.
Paulo VI procurava entender todos os assuntos, mas ao mesmo tempo, defender o princípio do ‘fidei depositum’. Ao longo do seu pontificado, a tensão entre o primado do papa e a colegialidade do episcopado foi uma fonte de conflito. Em 14 de Setembro de 1965, anunciou a criação do Sínodo dos Bispos, pedido pelos Padres conciliares, mas algumas questões - que pareciam pertinentes para serem discutidas pelo sínodo - foram reservadas para si mesmo. O celibato, removido do debate da quarta sessão do Conselho, foi objecto de uma encíclica, de 24 de Junho de 1967; a regulação dos nascimentos foi tratada na ‘Humanae vitae’, de 24 de Julho de 1968. As controvérsias sobre estes dois pronunciamentos tendem a ofuscar os últimos anos do seu pontificado.
Paulo VI teve uma inexplicável má imprensa e a sua imagem pública sofreu em comparação com o seu antecessor, extrovertido e jovial. Aqueles que o conheciam melhor, no entanto, descrevem-no como um homem brilhante, profundamente espiritual, humilde, reservado e gentil, um homem de "infinita cortesia." Ele foi um dos papas que mais viajou, na história, e o primeiro a visitar os cinco continentes. A sua notável capacidade de pensamento pode ser encontrada em muitas das suas mensagens e cartas, bem como nos seus principais pronunciamentos. A conclusão, bem-sucedida, do Vaticano II deixou marca na história da Igreja, mas a história também irá gravar a sua rigorosa reforma da Cúria Romana, o seu discurso bem recebido na ONU, em 1965; a sua Encíclica ‘Populorum progressio’ (1967); a Carta Apostólica ‘Octogesima adveniens’  (1971). Paulo VI foi um dos primeiros a mostrar uma consciência, profunda e esclarecida, de muitos problemas que só recentemente foram trazidos à luz e a Exortação Apostólica ‘Evangelii nuntiandi’, o seu último grande pronunciamento, tocou na questão central da encarnação de Jesus Cristo: libertação e salvação.
O Papa Paulo VI, o papa peregrino, morreu no dia 6 de Agosto de 1978, Festa da Transfiguração, em Castel Gandolfo, Itália. Ele pediu que o seu funeral fosse simples, sem aparato; que a sua sepultura fosse humilde e discreta; que nenhum monumento fosse erigido sobre o seu túmulo.
Paulo VI foi beatificado, em 19 de Outubro de 2014, pelo Papa Francisco e será canonizado, no dia 14 de Outubro, em Roma - juntamente com outros santos - durante o Sínodo dos Bispos sobre os jovens e as vocações.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 26 de Setembro.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

EM DESTAQUE



- INÍCIO DA CATEQUESE, NA IGREJA MATRIZ

No próximo Sábado, na Igreja Matriz da Feira, tem início o novo ano de catequese. As crianças, os adolescentes e os jovens - que já frequentam a catequese - devem encontrar-se com os seus catequistas às 17 horas. Os jovens do 8º ano têm a sua catequese às 10,30 horas. As crianças do 1º ano devem comparecer às 17 horas, nos Claustros da Igreja, para serem acolhidas pelos seus catequistas.
As inscrições em falta podem ser feitas neste mesmo dia.

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?
 Poderá essa fé obter-lhe a salvação?
(…) a fé sem obras está completamente morta…” (Tiago 2,14.17)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 12 de Setembro de 2018

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Na catequese de hoje, voltamos a falar do terceiro mandamento, sobre o dia do repouso. O Decálogo, promulgado no livro do Êxodo, é repetido no livro do Deuteronómio de modo quase idêntico, com a excepção desta terceira Palavra, onde temos uma diferença preciosa: enquanto no Êxodo, o motivo do repouso é a bênção da criação, no Deuteronómio, ao contrário, ele comemora o fim da escravidão. Neste dia, o escravo deve descansar como o patrão, para celebrar a memória da Páscoa de libertação.
Com efeito, por definição, os escravos não podem descansar. Mas existem muitos tipos de escravidão, tanto exterior como interior. Há constrições externas, como as opressões, as vidas raptadas pela violência e por outros géneros de injustiça. Além disso, existem as prisões interiores que são, por exemplo, os bloqueios psicológicos, os complexos, os limites caracteriais e outros. Existe descanso nestas condições? Um homem preso ou oprimido pode permanecer, contudo, livre? E uma pessoa atormentada por dificuldades interiores, pode ser livre?
Com efeito, há pessoas que, até na prisão, vivem uma grande liberdade de espírito. Pensemos, por exemplo, em São Maximiliano Kolbe ou no Cardeal Van Thuan, que transformaram obscuras opressões em lugares de luz. Assim, há pessoas marcadas por grandes fragilidades interiores que, contudo, conhecem o repouso da misericórdia e sabem transmiti-lo. A misericórdia de Deus liberta-nos. E quando nos deparamos com a misericórdia de Deus, temos uma grande liberdade interior e somos também capazes de a transmitir. Por isso, é muito importante abrir-nos à misericórdia de Deus para não sermos escravos de nós mesmos.
Portanto, o que é a verdadeira liberdade? Consiste, porventura, na liberdade de escolha? Certamente, esta é uma parte da liberdade, e empenhamo-nos para que seja garantida a cada homem e mulher (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Past. Gaudium et spes, 73). Mas, bem sabemos que fazer o que desejamos não é suficiente para ser verdadeiramente livres e nem sequer felizes. A verdadeira liberdade é muito mais!
Com efeito, há uma escravidão que acorrenta mais do que uma prisão; mais do que uma crise de pânico; mais do que uma imposição de qualquer tipo: trata-se da escravidão do próprio ego. Há pessoas que se espelham o dia inteiro para ver o seu ego. E o próprio ego tem uma estatura mais alta do que o próprio corpo. São escravos do ego. O ego pode tornar-se um verdugo que tortura o homem, onde quer que ele se encontre, provocando-lhe a mais profunda opressão: aquela que se chama “pecado”, que não é uma banal violação de um código, mas o fracasso da existência e a condição de escravos (cf. Jo 8, 34). Afinal, o pecado é dizer e fazer ‘ego’: “Quero fazer isto e não me importa se há um limite, se existe um mandamento; nem sequer importa se existe o amor”.
O ego, pensemos por exemplo nas paixões humanas: o guloso, o luxurioso, o avarento, o iracundo, o invejoso, o preguiçoso, o soberbo — e assim por diante — são escravos dos seus vícios, que os tiranizam e atormentam. Não há trégua para o guloso, porque a gula é a hipocrisia do estômago, que está cheio mas faz-nos crer que está vazio. O estômago hipócrita torna-nos gulosos. Somos escravos de um estômago hipócrita. Não há trégua para o guloso e o luxurioso, que devem viver de prazer. O anseio da posse destrói o avarento, que amontoa sempre dinheiro, fazendo mal ao próximo… O fogo da ira e o caruncho da inveja arruínam os relacionamentos. Os escritores dizem que a inveja amarelece o corpo e a alma, como quando uma pessoa tem hepatite: torna-se amarela. Os invejosos têm a alma amarela, porque nunca podem ter o vigor da saúde da alma. A inveja destrói. A preguiça, que evita qualquer esforço, torna-nos incapazes de viver; o egocentrismo — aquele ego do qual eu falava — soberbo escava um fosso entre nós e os outros.
Caros irmãos e irmãs: quem é, por conseguinte, o verdadeiro escravo? Quem é aquele que não conhece o repouso? Quem não é capaz de amar! E todos estes vícios, estes pecados, este egoísmo afastam-nos do amor e tornam-nos incapazes de amar. Somos escravos de nós mesmos e não podemos amar, porque o amor é sempre pelos outros.
O terceiro mandamento, que convida a celebrar, no repouso, a libertação, para nós cristãos é profecia do Senhor Jesus, que interrompe a escravidão interior do pecado para tornar o homem capaz de amar. O amor verdadeiro é a liberdade autêntica: desapega da posse, reconstrói os relacionamentos, sabe acolher e valorizar o próximo, transforma em dom jubiloso todo o cansaço, tornando-nos capazes de comunhão. O amor liberta até na prisão, mesmo se somos frágeis e limitados.
Esta é a liberdade que recebemos do nosso Redentor, nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 25

Refrão: Caminharei na terra dos vivos na presença do Senhor.

Amo o senhor,
porque ouviu a voz da minha súplica.
Ele me atendeu
no dia em que O invoquei.

Apertaram-me os laços da morte,
caíram sobre mim as angústias do além, vi-me na aflição e na dor.
Então invoquei o Senhor:
«Senhor, salvai a minha alma».

Justo e compassivo é o Senhor,
o nosso Deus é misericordioso.
O Senhor guarda os simples:
estava sem forças e o Senhor salvou-me.

Livrou da morte a minha alma,
das lágrimas os meus olhos, da queda os meus pés.
Andarei na presença do Senhor,
sobre a terra dos vivos.

SANTOS POPULARES



BEATA LEONELLA SGORBATI

Rosa Maria Sgorbati nasceu no dia 9 de Dezembro de 1940, em Rezzanello di Gazzola, na província e diocese de Piacenza. Foi a última dos três filhos de Carlo Sgorbati, um trabalhador agrícola, e de Giovannina Vigilini, também conhecida por Teresa, que era dona de casa. Foi baptizada no mesmo dia do nascimento, na Paróquia de San Savino, em Rezzanello. Recebeu o nome de Rosa Maria mas, no registro civil, consta apena o nome Rosa.
Na sua grande família, constituída por vinte e uma pessoas, incluindo vários parentes, Rosita - como todos a chamavam - tinha muitos exemplos de fé: a sua mãe, depois dos trabalhos do campo, passava frequentemente pela Igreja para levar flores a Nossa Senhora ou para fazer a visita ao Santíssimo Sacramento. Ao colo do seu pai, Rosita aprendeu a rezar.
Foi uma criança serena e feliz, embora, ocasionalmente, tivesse um comportamento irrequieto, tanto que a sua mãe, um dia, desabafou: "Quando for grande, quanto me fará sofrer!”
Nos jogos com os seus companheiros, manifestava o seu espírito de leader, mas não de uma maneira soberba. Frequentou o jardim-de-infância e a escola básica nas Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada, que tinham aberto uma sua casa, no antigo castelo de Rezzanello.
Não se sabe quanto é que Rosita fez a sua Primeira Comunhão: provavelmente, de acordo com o uso da época, tê-la-ia feito entre os dez e os onze anos. Em contrapartida, preparou-se bem para a Confirmação, realizada no dia 26 de Maio 1947, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Assunção, em Aguzzano, e administrada por D. Ercílio Menzani, bispo de Piacenza.
Rosita tinha aprendido que era necessário estar atenta às necessidades dos outros. Quando tinha permissão para acompanhar a sua mãe ao mercado, em Gazzola, visitava uma mulher, Marietta, e os seus filhos. Vendo que ela passava muito frio, decidiu comprar-lhe um xaile, com o dinheiro que os seus pais lhe davam para as suas pequenas despesas.
Para providenciar uma melhoria económica para a família, o seu pai decidiu iniciar um negócio de revenda de frutas e legumes, em Sesto San Giovanni, na província e diocese de Milão. Por isso, toda a família se transferiu para esta cidade, em 9 de Outubro de 1950.
Rosita sofreu muito ao saber que ia deixar os lugares onde tinha crescido. Assim, tentou fugir, escondendo-se num camião, mas as saudades da família fizeram-na regressar a casa, ao fim de algum tempo. Rosita não se sentia à vontade, neste novo ambiente, também devido ao facto de a terem repreendido, dizendo: “Tens de mudar completamente” O seu sofrimento tornou-se mais forte quando, em 16 de julho de 1951, o seu pai, Carlo, com 61 anos, faleceu.
Pouco tempo depois, Rosita descobriu que iria fazer os estudos secundários, internada num colégio. Naturalmente, veio ao seu pensamento uma interrogação: “Não sabia que era tão malvada?!” Então, começou a frequentar o Colégio das Irmãs do Preciosíssimo Sangue, em Monza, conhecidas por “Preciosinas”.
Também, a vida no Colégio lhe parecia insuportável. No entanto, um dia, uma das religiosas - a Irmã Adriana Sala - aproximou-se dela e entregou-lhe um pequeno livro: era o Evangelho. A partir daí, Rosita começou a ler e a meditar a Palavra de Deus e passar muito tempo na capela do Colégio.
Em Abril de 1952, precisamente quando rezava na capela, Rosita teve uma experiência especial. Mais tarde, escreveu no seu diário: “... Senti-me habitada naquele dia já distante... e tu acolheste-me em Ti, meu Senhor, ou - melhor dizendo – Tu é que permaneceste em mim... Nunca mais fico sozinha… Estou habitada…” A decisão de Rosita foi pronta e clara "Tornar-me-ei religiosa".
Terminados os estudos que lhe conferiram um diploma comercial, Rosita voltou para casa. Os seus familiares ficaram admirados com a mudança que se operara nela e ficaram ainda muito mais estupefactos quando ela manifestou o seu desejo de se fazer religiosa, respondendo ao desígnio da sua vocação. A mãe, porém, obrigou-a a esperar, até que fizesse vinte anos.
Participando na vida da Paróquia de São José, em Sesto San Giovanni, e frequentando o Oratório, Rosita procurou ultrapassar aquela momentânea desilusão. Inscreveu-se na Acção Católica e começou a visitar os doentes, todas as quartas-feiras. Conseguiu, também, fazer amizades, sobretudo com Josefina que se tornou a sua melhor amiga e que a ajudou a discernir melhor o rumo da sua vocação que, entretanto, se clarificou no íntimo do seu coração: ser religiosa missionária.
Nas actividades do Oratório, ouvira falar das Missionárias da Consolata, uma congregação feminina fundada pelo Padre José Allamano (beatificado em 1990) depois de ter já fundado os Missionários da Consolata. Então, quando fez vinte anos, foi ter com a mãe e disse-lhe: “Agora, tenho vinte anos e não mudei de ideias”.
No dia 5 de Maio de 1963, Rosita apresentou-se na casa de Sanfré, das Missionárias da Consolata. Quinze dias depois, começou a sua preparação no chamado ‘postulantado’. Nos seis meses seguintes, mostrou todas as suas melhores qualidades: a disponibilidade para todo o tipo de serviço; a alegria com que o realizava e o sorriso que a tornava familiar a todas as Irmãs. Em Novembro de 1963, terminado o postulantado, recebeu o hábito de religiosa e mudou o seu nome, adoptando o de Leonella: Irmã Leonella.
Iniciou o noviciado, no dia 21 de Novembro de 1963, na casa generalícia de Nepi. Sob a direcção da mestra de noviças, a Irmã Paulina Emiliani, aprendeu a ser ainda mais fiel ao projecto missionário, querido pelo Padre Allamano, com base nos seus escritos e no testemunho das outras Irmãs. Em 22 de Novembro de 1965, fez a sua primeira profissão religiosa.
Nessa altura, a irmã Leonella foi para a Inglaterra, para frequentar a Escola de Enfermagem. O contacto com o sofrimento físico de muitos doentes e com a morte levou-a a confidenciar à sua superiora-geral: "Ou se acredita em Deus e, quando não se pode fazer outra coisa, devemos amá-lo, amá-lo, amá-lo... ou não se acredita e, então, há apenas o desespero! Sou extremista? Não sei!... mas não vejo outro caminho senão estes dois: ou Deus ou a escuridão do nada... ».
A escola de obstetrícia de Midwifery ficava a cinquenta quilómetros da casa das Missionárias; por conseguinte, voltar para casa era sempre, para a Irmã Leonella, uma alegria. Uma noite, apresentou-se, no espaço do recreio comunitário, usando um bigode de plástico: "Cada freira colocá-lo-á e começará a falar; depois, passá-lo-á à Irmã da sua direita e assim por diante, até que o círculo esteja fechado ”. Esse episódio foi muito útil porque permitiu que cada religiosa saísse de si mesma e falasse das suas coisas, das suas inquietações e das suas alegrias.
Estudando como funcionava o corpo humano, conseguiu encontrar um modo de conjugar a competência médica com a fé: "Eu creio; creio e, constantemente, rezo ao Senhor a minha vontade de fé, o meu desejo de luz, luz e luz! Madre: como a fé é bela! Com fé, tudo é mais fácil!”, escreveu à superiora-geral.
Em 1969, recebeu o diploma de “Enfermeira” e, em 1970, concluiu a primeira parte do curso de Midwifery. Em 19 de Novembro de 1972, fez os votos perpétuos, consagrando-se, para sempre, ao apostolado missionário. Naquela ocasião, escreveu no seu diário: "Ó Senhor, que a minha vida seja uma resposta".
A Irmã Leonella foi designada para a missão no Quénia, mais precisamente, para Nkubu, na região de Meru. No hospital desta missão e na sua escola de enfermagem, trabalhavam as Irmãs Missionárias da Consolata.
A Irmã Leonella ficou encarregada, especialmente, da maternidade e acompanhava um grande grupo de parteiras. Mais tarde, tornou-se directora da escola de enfermagem. Nesta função, ensinava não apenas as competências técnicas necessárias aos profissionais de saúde, mas também a serem capazes de acolher o doente com compreensão e amor.
Profundamente convicta da beleza da vocação missionária, estava atenta para acolher os sinais de vocação em alguma jovem. Era capaz de passar uma semana inteira a rezar, a fim de obter de Deus a consagração daqueles sobre os quais tinha caído o seu olhar.
No VII Capítulo-Geral das Missionárias da Consolata, realizado em 1993, a Irmã Leonella apresentou um relatório dos vinte anos da sua experiência missionária, juntamente com as solicitações das comunidades do Quénia. Logo a seguir, as Irmãs capitulares elegeram-na superiora-regional.
Numa das suas cartas circulares, dirigida às várias comunidades, escreveu: "Nós, quer individualmente, quer como comunidade, devemos tornar-nos disponíveis para o processo da Encarnação do Filho em nós, para poder ser em nós a Consolação do Pai. O que significa isto, na prática? Significa aceitar que o Filho seja livre em cada uma de nós, em mim; livre para perdoar, através de minha pessoa, àqueles que me ofendem; livre para partir o pão da bondade, da compreensão, na minha comunidade; livre para fazer-me percorrer o itinerário que o Pai o fez percorrer, com as escolhas que o Pai indica. Livre para me fazer trilhar o caminho da paciência, da mansidão, da humildade que passa pela humilhação... Livre para poder dizer, através de mim: ‘o Espírito do Senhor está sobre mim ... me consagrou e me envia a levar a boa nova aos pobres, a liberdade aos prisioneiros... a anunciar o ano da consolação; a reconstruir as ruínas antigas... Livre para amar, através de mim, com o Amor maior, o Amor que vai até o fim, que é mais forte do que o ódio e do que o inferno... na verdade, na prática de todos os dias e de todos os momentos ".
Quando terminou o seu mandato, a Irmã Leonella entrou a fazer parte da equipe dos sabáticos, isto é, cuidar das missionárias que precisavam de algum tempo para descansar. De 2000 a 2005, dedicou as suas atenções às irmãs que estavam de passagem, prestando-lhes os seus serviços, mesmo os mais humildes.
O seu carácter havia perdido a aspereza dos primeiros tempos: da teimosa, mesmo frente às maiores dificuldades, tornou-se mais humilde e paciente. Tinha uma única preocupação: "Gostaria de poder dizer que o pouco que fiz, fi-lo apenas para Deus".
Em Novembro de 2001, a Irmã Leonella foi enviada para uma pequena comunidade que as Missionárias da Consolata tinham na Somália. Deveria fundar uma escola de enfermagem, em Mogadíscio - a capital - como aquela de que se ocupara, no Quénia, em colaboração com a ONG ‘Aldeia das Crianças SOS’.
O desafio não era fácil: em primeiro lugar, devia provar que as ideias científicas que ela perfilhava não eram contrárias aos princípios do Alcorão. Em segundo lugar, tinha de deixar bem claro que não pretendia obrigar os estudantes a converterem-se, não fazendo, portanto, proselitismo.
A pequena comunidade não tinha capelão, nem mesmo ocasional. As Irmãs eram a única presença cristã, naquela terra. A presença de Jesus na Eucaristia foi, no entanto, assegurada, embora as freiras a conservassem num móvel, escondido num canto do corredor da sua casa: era o único Sacrário em toda a Somália.
Em 2006, a irmã Leonella voltou a Itália, onde esteve durante um curto período de tempo, participando no chamado ‘Mês Allamaniano’: um tempo de oração e reflexão pessoal para as Missionárias, centrado na meditação da Palavra de Deus e nos escritos do fundador e com momentos de livres para a contemplação e a adoração do Santíssimo Sacramento.
A Irmã Leonella escreveu no seu diário o que o Senhor lhe comunicou naquele momento da sua vida. Meditando sobre o capítulo VI, do Evangelho de João, anotou com admiração: "Se o meu corpo e o Seu são um só; se o Seu sangue e o meu são um só, então é possível ser sempre, n’Ele, dom de amor, dom d’Ele para todos. Sempre, em qualquer momento! Então é possível testemunhar, sempre, que Ele está connosco e nos ama ".
Por ocasião de uma visita ao Santuário da Consolata - que Allamano ajudou a restaurar e a engrandecer - confiou-se completamente a Nossa Senhora. Sentiu-se chamada, como sugeria a passagem do Evangelho daquele dia, a morrer para dar fruto.
No período em que foi superiora-regional, a Irmã Leonella ficou muito impressionada com a história dos sete monges trapistas, assassinados na Argélia, em Tibhirine, em 1996. Comprou livro que foi publicado, contando a história desta chacina e ofereceu um exemplar a todas as comunidades da região. "Vem-me à mente uma frase do livro “Mais fortes do que o ódio”: ‘… o martírio não pode ser visto como uma proeza heróica, como um gesto de pessoas corajosas, mas como o desenrolar natural de uma vida doada' » .
Na Somália, o risco era constante, tanto mais que, na imprensa local, continuavam as ameaças contra as Irmãs e o seu trabalho no hospital. Referindo-se ao facto de uma das Irmãs - a Irmã Marzia Feurra – ter escapado a uma situação de perseguição e violência, que a tinha deixado muito abalada, a Irmã Leonella procurou desdramatizar a situação, dizendo: "Quem sabe se um dia não haverá uma bala, também para mim, da parte dos meus amigos fundamentalistas", mas, acrescentou: «Estou nas mãos de Deus, pronta para tudo».
No dia da entrega dos diplomas aos novos enfermeiros, dez rapazes e dez raparigas, a irmã Leonella preparou uma grande festa. Para tornar este momento ainda mais solene, fez com que usassem a toga típica dos recém-formados. Esse evento, também transmitido pela televisão, levou os fundamentalistas a pensarem que a Irmã tivesse convertido todos aqueles jovens, apresentando-os vestidos como padres.
Um mês depois, a Irmã Leonella notou que um homem suspeito rondava a Escola: aproximou-se dela, olhou-a fixamente mas não disse nada. No dia 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento XVI mencionou - num discurso, em Regensburg, na Alemanha - uma frase do imperador Manuel II Paleólogo, particularmente dura contra o Islão. Essa expressão provocou reações muito violentas em todo o mundo muçulmano. Conhecedora do impacto daquela notícia, a Irmã Leonella convidou as outras freiras a rezar pelo Papa e pela Igreja.
O dia 17 de Setembro de 2006, um Domingo, estava a ser um dia cheio de trabalho para a Irmã Leonella. Ao meio-dia, a Irmã Leonella, ao sair da Escola de enfermagem, foi ladeado pelo seu guarda-costas, Mohamed Mahamud - [As irmãs eram sempre acompanhadas pelos seguranças, mesmo em distâncias curtas] - e começou a atravessar a estrada que separava a Escola da Aldeia das Crianças SOS, onde morava.
Depois de ter dado alguns passos, ouviu-se um tiro: a Irmã Leonella caiu por terra. Tentou levantar-se, mas outras balas derrubaram-na, definitivamente. Algumas pessoas levaram-na, imediatamente, para o hospital. Ao ver que alguns populares saíam em perseguição do agressor, a Irmã disse: "Deixai-o ir; é um pobre coitado". O seu guarda-costas foi, também, mortalmente ferido.
A Irmã Marzia e a Irmã Gianna Irene Peano ouviram os tiros e ficaram imediatamente preocupadas. Assim que souberam que a Irmã Leonella estava ferida, correram para o hospital. Os estudantes faziam fila para dar-lhe do sangue, enquanto os médicos tentavam, a todo o custo, salvar-lhe a vida.
Segundo o testemunho da Irmã Gianna Irene, o seu rosto expressava paz, mas parecia que ainda queria dizer alguma coisa. Com todas as forças que, ainda, lhe restavam, disse num sussurro: "Perdão, perdão, perdão". Quando o cirurgião chegou, já só pôde confirmar a sua morte: eram 13h45, do dia 17 de Setembro de 2006. A irmã Leonella tinha sessenta e seis anos, trinta e seis dos quais vividos nas missões, em África.
O seu corpo foi levado para Nairóbi, onde se realizou o seu funeral, no dia 21 de Setembro. Estiveram presentes as autoridades civis, os Missionários e as Missionárias da Consolata, os alunos da Escola de Enfermagem e uma multidão considerável de homens e mulheres que reconheciam a bondade, a dedicação e o serviço da Irmã Leonella.
Na homilia da missa, Dom Giorgio Bertin, actual Bispo de Djibuti, disse: "A Irmã Leonella estava convencida de que era possível uma nova Somália, curada do flagelo da guerra civil [...] A sua vida, o seu sorriso e a sua inocência dizem-nos que é possível um mundo novo, uma Somália. Ela foi inspirada pela convicção de que o mundo novo que Jesus veio anunciar já começou aqui na Terra. E não é uma coincidência que tenha morrido ao lado de um homem muçulmano. [...] Viver juntos, apesar das diferenças, requer a conversão do coração, esperança, determinação e perseverança ".
No dia 24 de Setembro, na Oração do Angelus, em Roma, o Papa Bento XVI recordou Irmã Leonella, dizendo: "Esta Irmã, que servia os pobres e os pequenos na Somália, morreu pronunciando a palavra "perdão”. Eis o mais autêntico testemunho cristão, sinal pacífico de contradição e que anuncia a vitória do amor sobre o ódio e o mal ".
No dia 8 de Novembro 2017, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que reconhecia o martírio da Irmã Leonella, motivado pelo ódio à fé católica.
A Irmã Leonella Sgorbati foi beatificada pelo Papa Francisco, no dia 26 de Maio de 2018. A celebração, na Catedral de Piacenza - Itália, foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, em nome e em representação do Papa.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 17 de Setembro. (cf. Santi e beati…)


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

EM DESTAQUE

- DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO


Instituído na Igreja Católica, em 2015, pelo Papa Francisco, é celebrado no dia 1 de Setembro de cada ano. Em comunhão com outras Igreja Cristãs, este dia pretende ser uma forte chamada de atenção para os graves problemas ecológicos que afectam a humanidade. Este dia, disse o Papa, “oferecerá aos fiéis individualmente e às comunidades a preciosa oportunidade de renovar a pessoal adesão à própria vocação de custódios da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado;  invocando a sua ajuda para a protecção da criação; invocando a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos…”


MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 4º “DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO”

Caros irmãos e irmãs!
Neste Dia de Oração, desejo, em primeiro lugar, agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Agradeço, também, pelos numerosos projectos que visam promover o estudo e a protecção dos ecossistemas, pelos esforços destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e litúrgicas que envolvem muitos cristãos, em todo o mundo, no cuidado da criação.
Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação, a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc. Laudato si’, 118).
Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação - que a Igreja Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs - gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso, infelizmente, é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida, radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).
A água convida-nos a reflectir sobre as nossas origens. A maior parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram a sua identidade. É sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que, nas origens, o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).
Pensando no seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil, sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente, por esse motivo, cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que nunca, é necessário um olhar que ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se, urgentemente, de projectos conjuntos e de acções concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer privatização do bem natural da água, que seja contrária ao direito humano de poder ter acesso a ela.
Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Baptismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O Baptismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais autêntica, no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar, para sempre, a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus, beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, extraindo da sua Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós, com força, as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele pede-nos para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e destes-me de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso constante de garantir a todos o bem primário da água.
Gostaria, também, de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Orientar os nossos pensamentos para as imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S. João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).
Proteger esse bem inestimável, todos os dias, representa, hoje, uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de controlos efectivos, especialmente no que diz respeito à protecção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174). Não podemos permitir que os mares e oceanos se encham com extensões inertes de plástico flutuante. Também, para essa emergência, somos chamados a comprometer-nos, com uma mentalidade activa, rezando como se tudo dependesse da Providência divina e agindo como se tudo dependesse de nós.
Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam protegidas aquelas pessoas que arriscam as suas vidas no meio das ondas, em busca de um futuro melhor. Peçamos ao Senhor, e àqueles que realizam o alto serviço da política, que as questões mais delicadas da nossa época, tais como as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade, com previsão, olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade. Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar; por aqueles que ajudam a reflectir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos; por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos internacionais sobre os mares, para que possam tutelar as pessoas, os Países, os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos – garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a família humana e não de interesses particulares. Lembremos, também, todas as pessoas que trabalham na protecção das áreas marítimas, na tutela dos oceanos e sua biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e honestidade.
Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que as comunidades cristãs contribuam, cada vez mais concretamente, para que todos possam usufruir deste recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“… Acolhei docilmente a palavra em vós plantada,
 que pode salvar as vossas almas.
 Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes,
 pois seria enganar-vos a vós mesmos.
 A religião pura e sem mancha,
 aos olhos de Deus, nosso Pai,
 consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações
 e conservar-se limpo do contágio do mundo…” (Tiago 1, 21b-22.27)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 29 de Agosto de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No fim-de-semana passado, fiz uma viagem à Irlanda para participar no Encontro Mundial das Famílias: tenho a certeza de que vós o acompanhastes, através da televisão. A minha presença queria, sobretudo, confirmar as famílias cristãs na sua vocação e missão. Os milhares de famílias — esposos, avós, filhos — reunidos em Dublin, com toda a variedade das suas línguas, culturas e experiências, foram um sinal eloquente da beleza do sonho de Deus para toda a família humana. E bem sabemos: o sonho de Deus é a unidade, a harmonia e a paz, nas famílias e no mundo, fruto da fidelidade, do perdão e da reconciliação que Ele nos concedeu em Cristo. Ele chama as famílias a participar neste sonho e a fazer do mundo uma casa onde ninguém esteja sozinho, ninguém seja indesejado, ninguém seja excluído. Pensai bem nisto: o que Deus quer é que ninguém esteja sozinho, ninguém seja indesejado, ninguém seja excluído. Por isso, o tema deste Encontro mundial era muito apropriado. Era o seguinte: “O Evangelho da família, alegria para o mundo”.
Estou grato ao Presidente da Irlanda, ao Primeiro-Ministro, às diversas Autoridades governamentais, civis e religiosas, e às numerosas pessoas de todas as categorias que ajudaram a preparar e realizar os eventos do Encontro. E muito obrigado aos Bispos, que trabalharam tanto!
Dirigindo-me às Autoridades, no Castelo de Dublin, reiterei que a Igreja é família de famílias e que, como um corpo, sustém estas suas células no seu papel indispensável para o desenvolvimento de uma sociedade fraterna e solidária.
Verdadeiros “pontos-luz” destes dias foram os testemunhos de amor conjugal, dados por casais de todas as idades. As suas histórias recordaram-nos que o amor do casamento é um dom especial de Deus, o qual deve ser cultivado todos os dias na “igreja doméstica”, que é a família. Como tem necessidade o mundo de uma revolução de amor, de uma revolução de ternura, que nos salve da actual cultura do provisório! E esta revolução começa no coração da família.
Na pró-Catedral de Dublin, encontrei-me com cônjuges comprometidos na Igreja, com muitos recém-casados e com numerosas crianças pequenas. Depois, encontrei-me com algumas famílias que enfrentam particulares desafios e dificuldades. Graças aos Frades Capuchinhos, que estão sempre próximos do povo, e à mais ampla família eclesial, elas experimentam a solidariedade e o apoio que são fruto da caridade.
Momento culminante da minha visita foi a grande festa com as famílias, na tarde de Sábado, no estádio de Dublin, seguida, no Domingo, pela Missa, no Phoenix Park. Na Vigília, ouvimos testemunhos, muito comovedores, de famílias que sofreram por causa das guerras; famílias renovadas pelo perdão; famílias que o amor salvou da espiral das dependências; famílias que aprenderam a usar bem os telemóveis e os tablets e a dar prioridade ao tempo passado juntos. E foram realçados o valor da comunicação entre as gerações e o papel específico que compete aos avós na consolidação dos vínculos familiares e na transmissão do tesouro da fé. Hoje — é difícil dizê-lo — parece que os avós incomodam. Nesta cultura do descarte, os avós são “descartados”, afastados. Mas os avós são a sabedoria, a memória de um povo, a memória das famílias! E os avós devem transmitir esta memória aos netinhos. Os jovens e as crianças devem falar com os avós para levar em frente a história. Por favor, não descarteis os avós. Que eles permaneçam próximos dos vossos filhos, dos netinhos!
Na manhã de Domingo, fui em peregrinação ao Santuário Mariano de Knock, muito amado pelo povo irlandês. Ali, na capela construída no lugar onde houve uma aparição da Virgem, confiei à sua protecção materna todas as famílias, especialmente as da Irlanda. E, embora a minha viagem não incluísse uma visita à Irlanda do Norte, dirigi uma cordial saudação ao seu povo e encorajei o processo de reconciliação, pacificação, amizade e cooperação ecuménica.
Esta minha visita à Irlanda, além da grande alegria, devia encarar também a dor e a amargura pelos sofrimentos causados, naquele país, por várias formas de abusos, inclusive por parte de membros da Igreja, e pelo facto de que no passado as autoridades eclesiásticas nem sempre souberam enfrentar estes crimes, de maneira adequada. Deixou uma marca profunda o encontro com alguns sobreviventes — eram oito — e, várias vezes, pedi perdão ao Senhor por estes pecados, pelo escândalo e pelo sentido de traição que causaram. Os Bispos irlandeses empreenderam um sério percurso de purificação e reconciliação com aqueles que sofreram abusos e, com a ajuda das autoridades nacionais, estabeleceram uma série de normas severas para garantir a segurança aos jovens. Além disso, no meu encontro com os Bispos, encorajei-os no seu esforço para remediar os fracassos do passado com honestidade e coragem, confiando nas promessas do Senhor e contando com a profunda fé do povo irlandês, para inaugurar uma fase de renovação da Igreja, na Irlanda. Na Irlanda há fé, existem pessoas de fé: uma fé com raízes profundas. Mas sabeis? Há poucas vocações ao sacerdócio. Porque é que esta fé não floresce? Por estes problemas, estes escândalos e muitas outras coisas... Devemos rezar para que o Senhor envie santos sacerdotes à Irlanda, mande novas vocações. E fá-lo-emos juntos, rezando uma “Ave-Maria” a Nossa Senhora de Knock. [Recitação da Ave-Maria]. Senhor Jesus, envia-nos sacerdotes santos.
Caros irmãos e irmãs, o Encontro Mundial das Famílias, em Dublin, foi uma experiência profética, confortadora, de muitas famílias comprometidas no caminho evangélico do casamento e da vida familiar; famílias discípulas e missionárias, fermento de bondade, santidade, justiça e paz. Esquecemo-nos de muitas famílias — muitas! — que levam em frente a própria família, os filhos, com fidelidade, pedindo perdão uns aos outros quando existem problemas. Esquecemo-nos porque hoje, nas revistas, nos jornais, está na moda falar assim: “Aquele divorciou-se daquela... Esta deste... E a separação...”. Mas por favor: isto é desagradável. É verdade: eu respeito cada um, devemos respeitar as pessoas, mas o ideal não é o divórcio, o ideal não é a separação, o ideal não é a destruição da família. O ideal é a família unida. Assim, em frente: este é o ideal!
O próximo Encontro Mundial das Famílias terá lugar em Roma, em 2021. Confiemo-las todas à proteção da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, a fim de que nos seus lares, paróquias e comunidades, possam ser verdadeiramente “alegria para o mundo”. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 14

Refrão: Ensinai-nos, Senhor: quem viverá em vossa casa?

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração
e guarda a sua língua da calúnia.

O que não faz mal ao seu próximo nem ultraja o seu semelhante,
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor.

O que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder jamais será abalado.

SANTOS POPULARES



SANTA TERESA DE CALCUTÁ

Agnes (Inês) Gouxha Bojaxhiu nasceu, no dia 27 de Agosto de 1910, em Skopje, Jugoslávia, filha de pais albaneses. Os seus pais, Nicolau e Rosa, tiveram três filhos. Quando foi para a escola, Agnes inscreveu-se como membro de uma associação católica para crianças - a Congregação Mariana - onde cresceu num ambiente verdadeiramente cristão. Aos doze anos, já estava convencida da sua vocação religiosa, atraída pela obra dos missionários.
Agnes pediu para entrar na Congregação das Irmãs de Loreto, que trabalhavam como missionárias na sua região. Foi encaminhada para a Abadia de Loreto, na Irlanda, onde aprendeu inglês. Algum tempo depois, foi enviada para a Índia, onde fez o noviciado. A quando da sua profissão religiosa, adoptou o nome “Teresa”, em homenagem à carmelita francesa, Santa Teresa de Lisieux (Santa Teresinha do Menino Jesus), padroeira das Missões e dos missionários.
A Irmã Teresa foi incumbida de ensinar história e geografia, no Colégio da Congregação, em Calcutá. Exerceu esta actividade durante dezassete anos. Rodeada de crianças - filhas das melhores famílias de Calcutá - impressionava-se, profundamente, com o que via quando saia à rua: pobreza generalizada, crianças e velhos moribundos e abandonados, pessoas doentes sem a quem recorrer.
O dia 10 de Setembro de 1946 ficou marcado na sua vida como o “dia da inspiração”. Numa viagem de comboio ao noviciado do Himalaia, sentiu que deveria dedicar toda a sua existência aos mais pobres e excluídos, deixando o conforto do colégio da Congregação. E assim fez…
A Irmã Teresa começou a frequentar algumas aulas de enfermagem, que julgava útil para o seu plano, e misturou-se com os pobres, primeiramente na cidade de Motijhil.
No início, acolheu cinco crianças de um bairro miserável e passou a dar-lhes escola. Passados dez dias, já tinha cinquenta crianças. O seu trabalho começou a ser conhecido e a solidariedade do povo, para com a sua obra, tornou-se visível nos donativos e no trabalho voluntário.
A Irmã Teresa percebeu que o seu trabalho deveria continuar a dar frutos, mas sem depender, apenas, das doações e dos voluntários. Era preciso que as suas companheiras e colaboradoras tivessem um verdadeiro espírito de vida religiosa e consagrada. Através da sua palavra e do seu exemplo, as suas companheiras descobriram o chamamento de Deus para se entregarem ao serviço dos mais pobres. Assim nasceu a “Congregação das Missionárias da Caridade”, com o seu estatuto aprovado em 1950. A Irmã Teresa foi a sua primeira superiora, tornando-se conhecida por “Madre Teresa”.
As missionárias percorriam as ruas e recolhiam doentes de toda espécie. Para as Irmãs Missionárias da Caridade, cada doente, cada corpo chagado representava a figura de Cristo, e a sua ajuda humanitária era a mais doce das tarefas. Somente com este sentido de vida e de missão é que as corajosas Irmãs poderiam tratar doentes de lepra, elefantíase, gangrena, cujos corpos, em putrefação, eram imagens horrendas que exalavam odores intoleráveis. Mas, todos eles tinham lugar, comida, higiene e um recanto para repousar junto das missionárias.
Reconhecido universalmente, o trabalho da Madre Teresa mereceu-lhe o Prémio Nobel da Paz, em 1979. Este foi um dos muitos prémios recebidos pela religiosa, devido ao seu trabalho humanitário. Nessa altura, a sua obra já se tinha espalhado por todos os continentes.
A Madre Teresa de Calcutá faleceu, na Índia, na Casa Mãe das Irmãs Missionárias da Caridade, no dia 5 de Setembro de 1997. A comoção e a tristeza provocadas pela sua morte teve impacto mundial. Diante da Igreja de São Tomé, em Calcutá, onde o seu corpo foi velado, formou-se uma fila de quilómetros, durante dias a fio. Ao fim de uma semana, o corpo da Madre Teresa foi trasladado para o estádio Netaji, onde o Cardeal Ângelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, em representação do Papa, celebrou a missa de corpo presente.
No dia 19 de Outubro 2003, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II beatificou a Madre Teresa de Calcutá, reconhecida mundialmente como a “Mãe dos Pobres”. Na emocionante solenidade, o Sumo Pontífice, fez a homilia que transcrevemos: « "Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos" (Mc 10, 44). Estas palavras de Jesus aos discípulos, que ressoaram há pouco nesta Praça, indicam qual é o caminho que leva à "grandeza" evangélica. É o caminho que o próprio Cristo percorreu até à Cruz; um itinerário de amor e de serviço, que inverte qualquer lógica humana. Ser o servo de todos!
A Madre Teresa de Calcutá, fundadora dos Missionários e das Missionárias da Caridade, que hoje tenho a alegria de inscrever no Álbum dos Beatos, deixou-se guiar por esta lógica. Estou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres. Nem conflitos nem guerras conseguiam ser um impedimento para ela.
De vez em quando vinha falar-me das suas experiências ao serviço dos valores evangélicos. Recordo, por exemplo, as suas intervenções a favor da vida e contra o aborto; também, quando lhe foi conferido o prémio Nobel pela paz (Oslo, 10 de Dezembro de 1979). Costumava dizer: "Se ouvirdes que alguma mulher não deseja ter o seu menino e pretende abortar, procurai convencê-la a trazer-mo. Eu amá-lo-ei, vendo nele o sinal do amor de Deus".
Não é significativo que a sua beatificação se realize precisamente no dia em que a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões? Com o testemunho da sua vida, a Madre Teresa recorda a todos que a missão evangelizadora da Igreja passa através da caridade, alimentada na oração e na escuta da palavra de Deus. É emblemática deste estilo missionário a imagem que mostra a nova Beata que, com uma mão, segura uma criança e, com a outra, desfia o Rosário.
Contemplação e acção, evangelização e promoção humana: Madre Teresa proclama o Evangelho com a sua vida inteiramente doada aos pobres mas, ao mesmo tempo, envolvida pela oração.
"Quem quiser ser grande entre vós faça-se Vosso servo" (Mc 10, 43). É com particular emoção que, hoje, recordamos a Madre Teresa, grande serva dos pobres, da Igreja e do Mundo inteiro. A sua vida é um testemunho da dignidade e do privilégio do serviço humilde. Ela escolheu ser não apenas a mais pequena, mas a serva dos mais pequeninos. Como mãe autêntica dos pobres, inclinou-se diante dos que sofriam várias formas de pobreza. A sua grandeza reside na sua capacidade de doar sem calcular o custo, de se doar "até doer". A sua vida foi uma vivência radical e uma proclamação audaciosa do Evangelho.
O brado de Jesus na cruz, "Tenho sede" (Jo 19, 28), que exprime a profundidade do desejo que o homem tem de Deus, penetrou no coração da Madre Teresa e encontrou terreno fértil no seu coração. Satisfazer a sede que Jesus tem de amor e de almas, em união com Maria, Sua Mãe, tinha-se tornado a única finalidade da existência da Madre Teresa, e a força interior que a fazia superar-se a si mesma e "ir depressa" de uma parte a outra do mundo, a fim de se comprometer pela salvação e santificação dos mais pobres.
"Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes" (Mt 25, 40). Este trecho do Evangelho, tão fundamental para compreender o serviço da Madre Teresa aos pobres, estava na base da sua convicção, cheia de fé, que ao tocar os corpos enfraquecidos dos pobres tocava o corpo de Cristo. O seu serviço destinava-se ao próprio Jesus, escondido sob as vestes angustiantes dos mais pobres. A Madre Teresa realça o significado mais profundo do serviço: um gesto de amor feito aos famintos, aos sequiosos, aos estrangeiros, a quem está nu, doente, preso (cf. Mt 25, 34-36), é feito ao próprio Jesus.
Ao reconhecê-l'O, servia-O com grande devoção, exprimindo a delicadeza do seu amor esponsal. Assim, no dom total de si a Deus e ao próximo, a Madre Teresa encontrou a sua satisfação mais nobre e viveu as qualidades mais elevadas da sua feminilidade. Desejava ser um "sinal do amor de Deus, da presença de Deus, da compaixão de Deus" e, desta forma, recordar a todos o valor e a dignidade de cada filho de Deus "criado para amar e para ser amado". Era assim que a Madre Teresa "levava as almas para Deus e Deus às almas", aliviando a sede de Cristo, sobretudo das pessoas mais necessitadas, cuja visão de Deus tinha sido ofuscada pelo sofrimento e pela dor.
"Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos" (Mc 10, 45). A Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de "obscuridade interior". Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular "dom e privilégio".
Nos momentos mais difíceis, ela recorria, com mais tenacidade, à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e, por vezes, até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós…
A Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetia, muitas vezes, ao seu Senhor: "Em Vós, meu Deus, em Vós espero!".
Prestemos honra a esta pequena mulher apaixonada por Deus, humilde mensageira do Evangelho e infatigável benfeitora da nossa época. Aceitemos a sua mensagem e sigamos o seu exemplo.
A Madre Teresa de Calcutá foi canonizada, pelo Papa Francisco, no dia 4 de Setembro de 2016. Na homilia da missa, o Papa Francisco afirmou: “… A Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível para todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes ― diante dos crimes! ―  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.
A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres. Hoje, entrego a todo o mundo do voluntariado esta figura emblemática de mulher e de consagrada: que ela seja o vosso modelo de santidade! Parece-me que teremos alguma dificuldade em chamá-la ‘Santa Teresa’: a sua santidade é tão próxima de nós; tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la “Madre Teresa”. Que esta incansável agente de misericórdia nos ajude a entender, mais e mais, que o nosso único critério de acção é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo e que é derramado sobre todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião. A Madre Teresa gostava de dizer: «Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir». Levemos, no coração, o seu sorriso e ofereçamo-lo a quem encontrarmos no nosso caminho, especialmente àqueles que sofrem. Assim, abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade tão desesperançada e necessitada de compreensão e de ternura.”
A memória litúrgica de Santa Teresa de Calcutá celebra-se no dia 5 de Setembro.