SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
Era natural de Antioquia da
Síria (hoje Antakaya, no sul da Turquia). Nasceu por volta de 349 numa família
cristã. Tendo ficado órfão de pai em tenra idade, viveu com a mãe, Antusa, que lhe
transmitiu uma requintada sensibilidade humana e uma profunda fé cristã. Tendo frequentado
os estudos primários e superiores, coroados pelos cursos de filosofia e
retórica, teve como mestre Libânio, pagão, o mais célebre mestre de retórica
daquela época. Na sua escola, João tornou-se o maior orador da antiguidade
grega tardia. Baptizado, em 368, e formado na vida eclesiástica pelo Bispo
Melécio, foi por ele instituído leitor, em 371. Este acontecimento marcou a
entrada oficial de Crisóstomo no cursus eclesiástico. Frequentou, de 367 a 372,
o ascetério - uma espécie de seminário de Antioquia - juntamente com um grupo
de jovens, alguns dos quais se tornaram depois Bispos, sob a orientação do
famoso exegeta Diodoro de Tarso, que iniciou João na
exegese histórico-literária, característica da tradição antioquena. Terminada
esta fase preparatória, João retirou-se no vizinho monte Silpio onde, durante
quatro anos, viveu entre os eremitas. Depois, durante dois anos, viveu sozinho
numa gruta, sob a orientação de um "idoso". Naquele período,
dedicou-se totalmente à meditação "das leis de Cristo", dos
Evangelhos e especialmente das Cartas de São Paulo. Tendo adoecido, e impossibilitado
de se curar sozinho, regressou à comunidade cristã de Antioquia. Então, foi ordenado
diácono por Melécio e, depois, ordenado presbítero pelo bispo Flaviano, em 386.
Logo a seguir, este mesmo bispo encarregou João Crisóstomo das pregações na
principal igreja da cidade, cargo que desempenhou até 397. Este período de doze
anos foi o mais fecundo da sua vida e nele proferiu as suas homilias mais
conhecidas e que, no século VI, lhe valeriam o qualificativo que passou a fazer
parte inseparável do nome com que passou para a posteridade: crisóstomo, isto
é, boca de ouro. O grande pregador foi chamado, em 398, para suceder ao
Patriarca Nektarios como bispo de Constantinopla. O trabalho de João foi
apreciado e discutido: campanhas de evangelização, criação de hospitais,
procissões anti-arianas sob a protecção da polícia imperial, sermões fulgurantes
com os quais denunciava os vícios e as tibiezas, com referências a monges indolentes
e clérigos demasiado agarrados às riquezas. Crisóstomo está entre os Padres
mais fecundos: dele chegaram até nós 17 tratados, mais de 700 homilias
autênticas, os comentários a Mateus e a Paulo (Cartas aos Romanos, aos
Coríntios, aos Efésios e aos Hebreus), e 241 cartas. Não foi um teólogo
especulativo. Mas transmitiu a doutrina tradicional e segura da Igreja numa época
de controvérsias teológicas suscitadas sobretudo pelo arianismo, isto é, pela
negação da divindade de Cristo. Portanto, ele é uma testemunha credível do
desenvolvimento dogmático alcançado pela Igreja, nos séculos IV-V. A sua é uma
teologia requintadamente pastoral, na qual é constante a preocupação da
coerência entre o pensamento expresso pela palavra e a vivência existencial. É
este, em particular, o fio condutor das maravilhosas catequeses, com as quais
preparava os catecúmenos para receber o Baptismo. Já próximo da morte, escreveu
que o valor do homem consiste no "conhecimento exacto da verdadeira
doutrina e na rectidão da vida" Ilegalmente deposto por um grupo de bispos
liderados por Teófilo de Alexandria, e exilado, foi chamado, quase
imediatamente, pelo Imperador Arcádio. Mas, dois meses depois, foi novamente
exilado: primeiro, para a Arménia; depois, para as margens do Mar Negro onde, a
14 de Setembro de 407, morreu. O filho de Arcádio - Teodósio, o Jovem -
transferiu as relíquias do santo, para Constantinopla, onde chegaram na noite de
27 de Janeiro de 438. Desde o dia 1 de Maio de 1626, o seu corpo repousa na
Basílica de São Pedro e, em 27 de Novembro de 2004, o Papa João Paulo II doou
parte das suas relíquias ao Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu
I, e, desta forma, tanto na Basílica Vaticana como na Igreja de São Jorge, no
Fanar, é agora venerado este grande Padre da Igreja. A sua festa litúrgica
celebra-se a 13 de Setembro. É o padroeiro dos pregadores.