PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…Transfigurou-Se diante deles …” (cf. Marcos 9, 2) “…No domingo de hoje, o Evangelista Marcos refere que Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João a um monte elevado e se transfigurou diante deles, tornando-se resplandecente de tal brancura que "lavadeiro algum da terra poderia assim branquear as suas vestes" (cf. Mc 9, 2-10). É neste mistério de luz que, hoje, a liturgia nos convida a fixar o nosso olhar. No rosto transfigurado de Jesus brilha um raio da luz divina que Ele conservava no seu íntimo. Esta mesma luz resplandecerá no rosto de Cristo, no dia da Ressurreição. Neste sentido, a Transfiguração manifesta-se como uma antecipação do mistério pascal. A Transfiguração convida-nos a abrir os olhos do coração para o mistério da luz de Deus, presente em toda a história da salvação. Já no início da criação, o Todo-Poderoso diz: "Fiat lux: Faça-se a luz!" (Gn 1, 3), e verifica-se a separação entre a luz e as trevas. Como as outras criaturas, a luz é um sinal que revela algo de Deus: é como o reflexo da sua glória, que acompanha as suas manifestações. Quando Deus aparece, "o seu esplendor é como a luz; das suas mãos saem raios" (Hab 3, 4 s.). Como se afirma nos Salmos, a luz é o manto com que Deus se reveste (cf. Sl 104 [103], 2). No Livro da Sabedoria, o simbolismo da luz é utilizado para descrever a própria essência de Deus: a sabedoria, efusão da glória de Deus, é "um reflexo da luz eterna", superior a todas as luzes criadas (cf. Sb 7, 26.29 s.). No Novo Testamento, é Cristo que constitui a plena manifestação da luz de Deus. A sua Ressurreição debelou, para sempre, o poder das trevas do mal. Com Cristo ressuscitado, a verdade e o amor triunfam sobre a mentira e o pecado. N’Ele, a luz de Deus já ilumina definitivamente a vida dos homens e o percurso da história. "Eu sou a luz do mundo” afirma Ele no Evangelho. “Quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8, 12). Como temos, também nesta nossa época, necessidade de sair das trevas do mal, para experimentarmos a alegria dos filhos da luz! …” (Papa Bento XVI, 6 de Agosto de 2006)

domingo, 25 de fevereiro de 2024

EM DESTAQUE:

 


*SEMANA NACIONAL DA CÁRITAS
 
A Semana Nacional Cáritas é uma iniciativa que junta toda a rede Cáritas em Portugal e que acontece todos os anos, na semana que antecede o Dia Nacional Cáritas, que se assinala no 3º Domingo da Quaresma. É uma semana durante a qual se procura evidenciar a acção da Cáritas no combate à pobreza e exclusão social. Em todo o país, multiplicam-se actividades de reflexão sobre a acção social; actividades de animação pastoral e também iniciativas de angariação de fundos, particularmente o Peditório Público Nacional onde participam, anualmente, cerca de 4 mil voluntários, apelando ao contributo de todos os portugueses como forma de expressarem a sua solidariedade com todos os que atravessam um momento de vulnerabilidade e, por isso, procuram a ajuda da Cáritas.
Este ano, o lema da Cáritas é “Nós damos uma cara ao teu donativo: Cáritas, o amor que transforma”.
Como é habitual, na nossa paróquia, no no próximo fim-de-semana, Dia Nacional da Cáritas, faremos, à saída da missa, o peditório para a Cáritas.

DA PALAVRA DO SENHOR

 


II DOMINGO DA QUARESMA

“…Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João
e subiu só com eles
para um lugar retirado num alto monte
e transfigurou-Se diante deles.
As suas vestes tornaram-se resplandecentes,
de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra
as poderia assim branquear.
Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus.
Pedro tomou a palavra e disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias».
Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados.
Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra
e da nuvem fez-se ouvir uma voz:
«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».
De repente, olhando em redor,
não viram mais ninguém,
a não ser Jesus, sozinho com eles.
Ao descerem do monte,
Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém
o que tinham visto,
enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos.
Eles guardaram a recomendação,
mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos…”
(cf. Marcos 9, 1-9)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 


- na Oração do Angelus, Praça de São Pedro, Roma, no dia 18 de Fevereiro de 2024

 

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho apresenta-nos Jesus tentado no deserto (cf. Mc 1, 12-15). Diz o texto: «Permaneceu quarenta dias no deserto, tentado por Satanás». Também nós, na Quaresma, somos convidados a “entrar no deserto”, isto é, no silêncio, no mundo interior, na escuta do coração, no contacto com a verdade.

No deserto - acrescenta o Evangelho de hoje - Cristo «estava com os animais selvagens e os Anjos serviam-no» (v. 13). Os animais selvagens e os anjos eram a sua companhia. Mas, em sentido simbólico, são também a nossa companhia: quando entramos no deserto interior, de facto, podemos encontrar aí animais selvagens e anjos.

Animais selvagens. Em que sentido? Na vida espiritual, podemos pensar neles como as paixões desordenadas que dividem o coração, procurando possuí-lo. Eles sugestionam-nos, parecem seduzir-nos. Eles atraem-nos, parecem cativantes, mas, se não tomarmos cuidado, há o risco de que nos destrocem. Podemos dar nomes a estes “animais selvagens” da alma: os vários vícios, a ambição da riqueza, que nos aprisiona no cálculo e na insatisfação, a vaidade do prazer, que nos condena ao desassossego e à solidão, e ainda a avidez da fama, que gera insegurança e uma necessidade constante de afirmação e de protagonismo - não esqueçamos estas coisas que podemos encontrar dentro de nós: a ambição, a vaidade e a avidez. São como “animais selvagens” e, como tal, devem ser domadas e combatidas: caso contrário, devorarão a nossa liberdade. E a Quaresma ajuda-nos a entrar no deserto interior para corrigir estas coisas.

E depois, no deserto, estavam os anjos. Eles são os mensageiros de Deus, que nos ajudam, nos fazem bem; de facto, a sua característica, segundo o Evangelho, é o serviço  (cf. v. 13): exactamente o contrário da posse, típica das paixões. Serviço contra a posse. Os espíritos angélicos suscitam os bons pensamentos e sentimentos sugeridos pelo Espírito Santo. Enquanto as tentações nos dilaceram, as boas inspirações divinas unem-nos e fazem-nos entrar na harmonia: tranquilizam o coração, incutem o gosto de Cristo, “o sabor do Céu”. E para captar a inspiração de Deus, é preciso entrar no silêncio e na oração. E a Quaresma é o tempo para fazer isto.

Podemos perguntar-nos: em primeiro lugar, quais são as paixões desordenadas, os “animais selvagens” que se agitam no meu coração? Em segundo lugar, para deixar que a voz de Deus fale ao meu coração e o mantenha no bem, estou a pensar em retirar-me um pouco para o “deserto?”; procuro dedicar-lhe durante o dia um espaço para isto?

Que a Virgem Santa, que guardou a Palavra e não se deixou tocar pelas tentações do maligno, nos ajude no nosso caminho de Quaresma.  (cf. Santa Sé)


PARA REZAR



- SALMO 115

 

Refrão: Caminharei na terra dos vivos em presença do Senhor.

            

Confiei no Senhor, mesmo quando disse:
«Sou um homem de todo infeliz».
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:
quebrastes as minhas cadeias.
Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,
invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor
na presença de todo o povo,
nos átrios da casa do Senhor,
dentro dos teus muros, Jerusalém.

SANTOS POPULARES

 


BEATA MARIA CARIDADE DO ESPÍRITO SANTO

 

Carolina Brader, filha de Jossé Sebastião Brader ede Maria Carolina Zahaner, nasceu no dia 14 de Agosto de 1860, em Kaltbrunn, St. Gallen, na Suíça. Foi baptizada, no dia seguinte, com o nome de Maria Josefina Carolina Brader.

Dotada de uma inteligência incomum e guiada nos caminhos do conhecimento e da virtude por uma mãe afectuosa e carinhosa, a pequena Carolina cresceu com uma sólida educação cristã; um amor intenso a Jesus Cristo e uma devoção afectuosa à Virgem Maria.

Conhecendo o talento e as habilidades da filha, a sua mãe cuidou de lhe dar uma educação cuidadosa. Concluiu os estudos primários, na escola Kaltbrunn; frequentou os estudos médios, no Instituto Maria Hilf, em Altstätten, dirigido por uma comunidade de freiras da Terceira Ordem Regular de São Francisco.

Entretanto, a voz de Cristo começou a fazer-se ouvir no seu coração e Carolina decidiu abraçar a vida consagrada. Esta escolha de vida provocou, inicialmente, a oposição da sua mãe, que ficara viúva e com esta única filha.

No dia 1 de Outubro de 1880, Carolina entrou no Mosteiro franciscano de clausura “Maria Hilf”, em Altstätten. No dia 1 de Março de 1881, vestiu o hábito franciscano e recebeu o nome de Maria Caridade do Amor do Espírito Santo. No dia 22 de Agosto de 1882, fez os votos religiosos. Graças à sua preparação pedagógica, foi designada para leccionar no Colégio anexo ao Mosteiro.

Com a possibilidade de sair do Mosteiro e colaborar na extensão do Reino de Deus, aberta às freiras de clausura, os bispos missionários, no final do século XIX, dirigiram-se aos conventos em busca de freiras dispostas a trabalhar nos territórios de missão.

Monsenhor Pedro Schumacher, missionário de São Vicente de Paulo e bispo de Portoviejo, no Equador, escreveu uma carta às freiras de Maria Hilf, pedindo voluntárias para trabalharem como missionárias na sua diocese.

As freiras responderam, com entusiasmo, a este convite. Uma das mais entusiasmadas em ir em missão foi a Irmã Caridade Brader. A Madre Maria Bernarda Bütler (já beatificada), superiora do Mosteiro, que liderará o grupo de seis missionárias, escolheu-a, entre os voluntários, dizendo-lhe: «À frente desta acção missionária vai a Madre Caridade, generosa no mais alto grau, que não recua diante de qualquer sacrifício, com o seu extraordinário conhecimento de fazer e a sua pedagogia, poderá prestar grandes serviços à missão”.

No dia 19 de Junho de 1888, a Madre Caridade e as suas companheiras embarcaram na viagem para Chone, no Equador. Em 1893, depois de muito trabalho em Chone e de ter catequizado muitos grupos de crianças, a Madre Caridade foi designada para a fundação de Túquerres, na Colômbia. Ali, ela demonstrou o seu ardor missionário: amava os indígenas e não poupou esforços para ir até eles, desafiando a fúria das ondas do mar, das florestas emaranhadas e do frio intenso das terras altas. O seu zelo não conheceu descanso. Ela estava especialmente preocupada com os mais pobres, os marginalizados, aqueles que ainda não conheciam o Evangelho.

Diante da urgente necessidade de encontrar mais missionários para tão vasto campo de apostolado, apoiada pelo padre alemão Reinaldo Herbrand, fundou a Congregação dos Franciscanos de Maria Imaculada, em 1894. Em pouco tempo, juntaram-se à Congregação - inicialmente formada por jovens freiras - vocações nativas, especialmente da Colômbia.

A Madre Caridade, na sua actividade apostólica, soube combinar muito bem a contemplação e a acção. Exortou as suas Filhas a realizarem uma preparação académica eficiente, mas “sem extinguir o espírito de santa oração e devoção”. «Não esqueçam - disse-lhes - que quanto mais educação e capacidade o educador tiver, mais poderá fazer em favor da santa religião para a glória de Deus, especialmente quando a virtude é a vanguarda do conhecimento. Quanto mais intensa e visível a actividade externa, mais profunda e fervorosa deve ser a vida interna.”

Direccionou o seu apostolado principalmente para a educação, especialmente em ambientes pobres e marginalizados.

Alma eucarística, por excelência, encontrou em Jesus Sacramentado os valores espirituais que deram calor e sentido à sua vida. Esforçou-se por obter o privilégio da Adoração Perpétua, diurna e nocturna, que deixou como herança mais estimada à sua comunidade, juntamente com o amor e a veneração dos sacerdotes, como ministros de Deus.

Amante da vida interior, viveu na presença contínua de Deus; por isso, viu a Sua mão providente e misericordiosa em todos os acontecimentos. “Ele quer”, era o programa da sua vida.

Como superiora-geral foi guia espiritual da sua Congregação, de 1893 a 1919, e de 1928 a 1940. Em 1933, teve a alegria de receber a aprovação pontifícia da sua Congregação.

Aos 82 anos, antecipando a sua própria morte, exortou as filhas: «Vou-me embora. Não abandoneis as boas obras que a Congregação tem nas mãos, a esmola e a grande caridade para com os pobres, a grande caridade entre as Irmãs, a adesão aos Bispos e aos sacerdotes”.

No dia 27 de Fevereiro de 1943, sem suspeitar que aquele era o último dia da sua vida, disse à enfermeira: “Jesus, estou a morrer”. Foram as últimas palavras com que entregou a sua alma ao Senhor.

Assim que a notícia da sua morte se espalhou, uma interminável procissão de devotos começou a passar diante dos seus restos mortais, pedindo relíquias e recomendando a sua intercessão. O funeral realizou-se no dia 2 de Março de 1943, na presença das autoridades eclesiásticas e civis e de uma multidão de fiéis, que afirmaram: “Morreu uma santa”.

A Madre Caridade praticou a pobreza segundo o espírito de São Francisco e manteve total desapego durante toda a vida. Como missionária em Chone, ela experimentou a alegria de se sentir autenticamente pobre, ao mesmo nível das pessoas que ela foi educar e evangelizar. Entre os valores evangélicos que, como fundadora, se esforçou por manter na Congregação, a pobreza ocupava lugar de destaque.

A aceitação do sofrimento, segundo o Papa, é um sinal distintivo do verdadeiro missionário. Como encontramos este aspecto bem realizado na vida espiritual da Mãe Caridade! A sua vida transcorreu, dia após dia, sob a sombra austera da cruz. O sofrimento foi um companheiro inseparável e ela suportou-o com admirável paciência até a morte.

A Madre Maria Caridade foi beatificada pelo Papa João Paulo II, no dia 23 de Março de 2003. Na homilia, o Papa disse: “… "Nós, porém, anunciamos Cristo crucificado... poder de Deus e sabedoria de Deus" (1 Cor 1, 23-24). Na segunda leitura de hoje, São Paulo narra como anunciava Jesus Cristo, inclusivamente àqueles que esperavam sobretudo o poder ou a sabedoria humana. O cristão deve anunciar sempre o seu Senhor, sem se deter perante as dificuldades, por maiores que elas sejam.

Ao longo da história, muitos homens e mulheres anunciaram o Reino de Deus no mundo inteiro. Entre eles, é necessário mencionar a Madre Maria Caridade Brader, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas de Maria Imaculada.

Da intensa vida religiosa no convento de "Maria Hilf", na sua pátria suíça, um dia a nova Beata partiu para se dedicar, primeiro no Equador e depois na Colômbia, inteiramente à missão ‘ad gentes’. Com confiança incondicional na Providência Divina, fundou escolas e institutos, sobretudo nos bairros pobres, difundindo assim uma profunda devoção eucarística.

Quando estava prestes a morrer, disse às suas Irmãs: "Não abandoneis as boas obras da Congregação, as esmolas e muita caridade aos pobres e entre as irmãs, bem como a adesão aos bispos e sacerdotes". Que bonita lição de vida missionária, ao serviço de Deus e dos homens!..”

A sua memória litúrgica é celebrada no dia 27 de Fevereiro.


domingo, 18 de fevereiro de 2024

DA PALAVRA DO SENHOR

 


I DOMINGO DA QUARESMA

“…O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.
Jesus esteve no deserto quarenta dias
e era tentado por Satanás.
Vivia com os animais selvagens
e os Anjos serviam-n’O.
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo
e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»
…” (cf. Marcos 1, 12-15)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 


- na Audiência-Geral, Sala Paulo VI, Vaticano, Roma, no dia 14 de Fevereiro de 2024

 

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

Entre todos os vícios capitais, há um que, muitas vezes, passa em silêncio, talvez por causa do seu nome, que, para muitos, é pouco compreensível: refiro-me à acédia. Por isso, no catálogo dos vícios, o termo acédia é muitas vezes substituído por outro, de uso muito mais comum: a preguiça. Na realidade, a preguiça é mais um efeito do que uma causa. Quando uma pessoa está inactiva, indolente, apática, dizemos que é preguiçosa. Mas, como ensina a sabedoria dos antigos Padres do deserto, muitas vezesm a raiz de tal preguiça é a acédia, que do grego significa literalmente “falta de cuidado”.

Trata-se de uma tentação muito perigosa, com a qual não se deve brincar. As suas vítimas são como que esmagadas por um desejo de morte: sentem aversão por tudo; a sua relação com Deus torna-se tediosa; e até os actos mais santos, que no passado lhes aqueciam o coração, agora parecem-lhes totalmente inúteis. A pessoa começa a lamentar a passagem do tempo e a juventude que ficou, irremediavelmente, para trás.

A acédia é definida como o “demónio do meio-dia”: apanha-nos no meio do dia, quando o cansaço está no seu auge e as horas que se seguem nos parecem monótonas, impossíveis de viver. Numa descrição célebre, o monge Evágrio representa esta tentação do seguinte modo: «O olho do preguiçoso está continuamente fixo nas janelas, e na sua mente imagina visitantes [...] Quando lê, o preguiçoso boceja muitas vezes e é facilmente vencido pelo sono; esfrega os olhos e as mãos e, afastando o olhar do livro, fixa a parede; depois, volta a olhar para o livro, lê mais um pouco [...]; por fim, inclinando a cabeça, põe o livro debaixo dela, adormece num sono leve, até que a fome o desperte e o obrigue a atender às suas necessidades»; concluindo, «o preguiçoso não realiza a obra de Deus com solicitude».

Os leitores contemporâneos vislumbram, nestas descrições, algo que lembra muito o mal da depressão, tanto do ponto de vista psicológico como filosófico. Com efeito, para quem é apanhado pela acédia, a vida perde o significado; rezar é tedioso; cada batalha parece insensata. Se alimentamos paixões na nossa juventude, agora elas parecem ilógicas, sonhos que não nos tornaram felizes. Então, deixamo-nos levar e a distração, o não-pensar, parecem ser a única saída: gostaríamos de ficar atordoados, ter a mente completamente vazia... É um pouco como morrer antecipadamente, e é horrível!

Perante este vício, que nos damos conta que é muito perigoso, os mestres da espiritualidade prevêem vários remédios. Gostaria de salientar o que me parece ser o mais importante, e que chamaria a paciência da fé. Se, sob o açoite da acédia, o desejo do homem é estar “noutro lugar”, fugir da realidade, é preciso ter a coragem de permanecer e de acolher a presença de Deus no meu “aqui e agora”, na minha situação tal como ela é. Os monges dizem que, para eles, a cela é a melhor mestra de vida, pois é o lugar que nos fala, concreta e quotidianamente, da nossa história de amor com o Senhor. O demónio da acédia quer destruir precisamente esta alegria simples do aqui e agora, o temor grato da realidade; quer fazer-nos acreditar que tudo é vão, que nada tem sentido, que não vale a pena preocupar-nos com nada e com ninguém. Na vida encontramos pessoas “preguiçosas”, pessoas de quem dizemos: “Mas ele é tedioso!” e não gostamos de estar com ele; pessoas que têm também uma atitude de aborrecimento que contagia. A acédia é assim!

Quantas pessoas, dominadas pela acédia, movidas por uma inquietação sem rosto, abandonaram insensatamente o caminho do bem que tinham empreendido! A acédia é uma batalha decisiva, que deve ser vencida custe o que custar. E é uma batalha que não poupou nem sequer os santos, pois em muitos dos seus diários há várias páginas que confidenciam momentos tremendos, de verdadeiras noites da fé, onde tudo parecia obscuro. Estes santos e santas ensinam-nos a atravessar a noite com paciência, aceitando a pobreza da fé. Recomendam que, sob a opressão da acédia, nos empenhemos menos, fixemos objetivos mais ao alcance, mas ao mesmo tempo, que suportemos e perseveremos, apoiando-nos em Jesus, que nunca abandona na tentação.

A fé, atormentada pela prova da acédia, não perde o seu valor. Pelo contrário, é a verdadeira fé, a fé deveras humana, que apesar de tudo, não obstante as trevas que a cegam, continua a acreditar humildemente. É esta fé que permanece no coração, como as brasas sob as cinzas. Permanecem sempre. E se algum de nós cair neste vício ou na tentação da acédia, procure olhar para dentro de si e conservar as brasas da fé: é assim que se vai em frente! (cf. Santa Sé)


PARA REZAR

 


- SALMO 24

 

Refrão: Todos os Vossos caminhos, Senhor,

             são amor e verdade.

 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e reto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer a sua aliança.


SANTOS POPULARES

 


BEATA MARIA DE JESUS

(EMÍLIA D' OULTREMONT D'HOOGVORST)


Emília d'Oultremont nasceu em Wégimont, Liège – Bélgica – o dia 11 de Outubro de 1818. Era  filha do Conde Emílio d'Oultremont e da Condessa Maria de Lierneux de Presles. Recebeu uma sólida educação humanística e religiosa, que lhe conferiu um carácter enérgico, tanto fisicamente – foi uma excelente atleta - como moralmente; a sua determinação e energia foram um dos traços fundamentais de sua personalidade.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à Virgem Maria e, sobretudo, à Eucaristia enraizou-se na sua alma ainda jovem e caracterizou o desenvolvimento da sua espiritualidade, a partir daquele momento. Respeitando a vontade dos pais, ela concordou em casar-se com um jovem, dotado de grandes qualidades espirituais e religiosas, Vítor van der Linden, Barão de Hooghvorst: o casamento foi celebrado no dia 19 de Outubro de 1837, em Liège.

Desde o início, os ideais partilhados com o marido permitiram-lhe dedicar-se à oração e às obras de caridade, vivendo plenamente a vida de uma jovem esposa.

Desta união feliz, nasceram quatro filhos: duas meninas e dois meninos que ela criou com amor, fazendo-os crescer num ambiente familiar tranquilo e alegre.

Emília d'Oultremont encontrou, nos Padres da Companhia de Jesus, uma série de guias espirituais, que a compreenderam e guiaram na sua busca da perfeição no amor de Deus.

Nos anos de 1839 a 1846, vivendo em Roma, Emília foi gratificada por experiências interiores particulares, que a orientaram, cada vez mais, para um amor total a Deus. Aos 24 anos, quando já tinha dois filhos, enquanto rezava frente ao altar dedicado a Santo Inácio de Loyola, na Igreja de Jesus, em Roma, teve uma visão do santo fundador dos Jesuítas, que, com as Constituições da Ordem nas mãos, lhe garantiu que um dia seguiria as suas Regras.

Em 10 de Agosto de 1847, atingido pela febre da malária, contraída durante uma caçada nos Pântanos Pontinos [são uma região pantanosa localizada na Itália Central, na região do Lázio, a cerca de sessenta quilómetros ao sul de Roma], o seu marido, o Barão Vítor d'Hooghvorst, morreu, ainda jovem. Ela suportou esta prova com fé e resignação, dedicando-se inteiramente aos filhos, aos pobres e doentes e às diversas obras diocesanas. Ao mesmo tempo, ajudou os pais sofredores até à sua morte, que ocorreu em 1850, para a sua mãe, e em 1851, para o seu pai.
Depois disso, Emília quis consagrar-se a Deus, com o voto de castidade, autorizada pelo seu director espiritual. Sentindo-se, cada vez mais, atraída pela vida religiosa, mudou-se para Paris, com as duas filhas, para ficar mais próxima dos outros dois filhos, estudantes de um colégio jesuíta.
Superando as objecções dos familiares, Emília voltou-se, abertamente, para a vida religiosa e, no dia 8 de Dezembro de 1854, durante uma longa e intensa oração, na capela do castelo da família de Bauffe, Nossa Senhora revelou-lhe o que Deus esperava dela: a fundação de uma Congregação religiosa, dedicada à reparação dos ultrajes perpetrados contra o Santíssimo Sacramento.
Em 1855, Emília iniciou uma primeira forma de vida em comum, com algumas jovens, reunidas ao seu redor, que também queriam consagrar-se a Deus. No dia 8 de Novembro de 1855, foram lançadas as bases do novo Instituto e, no dia 21, ela começou, sob a direcção dos padres jesuítas, Petit e Studer, o noviciado das postulantes que se apresentaram. O Padre  Studer, Provincial dos Jesuítas de Paris, tornou-se o grande protector da nova fundação.

O lançamento oficial da nova família religiosa ocorreu no dia 1 de Maio de 1857, em Estrasburgo, com o nome de “Instituto de Maria Reparadora”. Emília d'Oultremont, que ainda tinha de cuidar da educação dos filhos, foi obrigada a adiar a sua entrada no novo Instituto, embora de facto o dirigisse.

Depois da Casa de Estrasburgo, surgiram outras comunidades: em Liège e em Maduré, na Índia, para onde, em 1859, a Madre Maria de Jesus, como ela mesma se chamava, enviou sete freiras reparadoras. Em Maio de 1860, fez uma peregrinação a Loyola, manifestando a sua devoção a Santo Inácio, “o verdadeiro Pai da sua alma”.

Ela mesma elaborou as Constituições. Numa famosa carta dirigida às suas monjas, no dia 2 de Julho de 1862, exprimiu o espírito que deveria animá-las, convidando-as a fixar o olhar em Maria e a aprender com Ela o caminho típico de uma Reparadora.

Queria que as ‘suas freiras’ manifestassem o seu compromisso com a Igreja, com uma presença de simplicidade e de serviço, através da oração, da adoração ao Santíssimo Sacramento exposto todos os dias, dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, da instrução religiosa e de outros trabalhos segundo as necessidades e os lugares:  “restaurar nas pessoas, com a ajuda de Maria, a imagem de Deus, obscurecida pelo pecado”.

Depois dos seus dois filhos se terem casado – as suas filhas, Olímpia e Margarida, entraram no Instituto das Reparadores -, a Madre Maria de Jesus pôde entrar, também, definitivamente, na obra por ela fundada. Nesta altura, foi acusada, por familiares e amigos, de ter influenciado as suas filhas a tornarem-se freiras: isso causou-lhe profundos sofrimentos e mal-entendidos.
A Madre Maria de Jesus teve de enfrentar um longo período de cansaço espiritual que, às vezes, a levou ao desespero; no entanto, conseguiu sair dele mantendo a fé e a devoção inalteradas, sem descurar a direcção da Congregação.

A família religiosa de “Maria Reparadora” difundiu-se, abundantemente, com outras Casas que foram sendo abertas: em Paris, em Toulouse, em Londres, em Tournai, na Ilha da Reunião, em Nantes, em Bruxelas, em Sevilha, em Wexford, em Le Mans, em Liesse, em Pau e em Córdoba.

No dia 25 de Março de 1873, recebeu nova aprovação temporária do Instituto; a aprovação definitiva aconteceu em 1883, após sua morte.

A Madre Maria de Jesus passou os últimos anos da sua vida com o espírito tranquilo, mas vítima de grande sofrimento físico e moral, tanto no âmbito familiar como no interior da própria Congregação.

Ao passar por Florença, na casa do seu filho Adrien, quando esperava para seguir viagem para a Bélgica, a Madre Maria de Jesus faleceu, no dia 22 de Fevereiro de 1879, com 59 anos. Foi sepultada na Igreja de Santa Cruz e São Bartolomeu, em Roma.

Foi beatificada, em Roma, no dia 12 de Outubro de 1997, pelo Papa João Paulo II. Na homilia, o Papa disse: “…Na segunda Leitura da liturgia, ouvimos: «A palavra de Deus é viva...penetra até dividir a alma» (Hb 4, 12). Emília d’Hooghvorst acolheu esta palavra no mais íntimo de si mesma. Aprendendo a submeter-se à vontade de Deus, realiza em primeiro lugar a missão de todo o casal cristão: tornar o seu lar «um santuário doméstico da Igreja» (Apostolicam actuositatem, 11). Quando se tornou viúva e animada pelo desejo de participar no mistério pascal, Madre Maria de Jesus fundou a Sociedade de Maria Reparadora. Pela sua vida de oração, ela recorda-nos que, na adoração eucarística, onde bebemos como na fonte da vida que é Cristo, encontramos a força para a missão quotidiana. Que cada um de nós, qualquer que seja o seu estado de vida, saiba «escutar a voz de Cristo», «que deve ser a regra da nossa existência», como ela gostava de dizer!

Esta beatificação é também para as religiosas de Maria Reparadora um encorajamento a prosseguirem o seu apostolado, com uma renovada atenção aos homens deste tempo. Segundo o seu carisma próprio, elas responderão à missão: despertar a fé entre os seus contemporâneos e ajudá-los no seu crescimento espiritual, participando assim activamente na edificação da Igreja…”

A memória litúrgica da Beata Maria de Jesus (Emília d’Hooghvorst) é celebrada no dia 22 de Fevereiro.


sábado, 10 de fevereiro de 2024

EM DESTAQUE:



*DIA MUNDIAL DO DOENTE

 

A Igreja celebra neste Domingo, 11 de Fevereiro – dia litúrgico de Nossa Senhora de Lurdes -, o Dia Mundial do Doente. Transcrevemos a Mensagem do Papa Francisco, cujo lema é: «Não é conveniente que o homem esteja só». Cuidar do doente, cuidando das relações.
 
“…«Não é conveniente que o homem esteja só» (Gn 2, 18). Desde o início, Deus, que é amor, criou o ser humano para a comunhão, inscrevendo no seu íntimo a dimensão das relações. Assim a nossa vida, plasmada à imagem da Trindade, é chamada a realizar-se plenamente no dinamismo das relações, da amizade e do amor mútuo. Fomos criados para estar juntos, não sozinhos. E, precisamente, porque este projecto de comunhão está inscrito, tão profundamente, no coração humano, a experiência do abandono e da solidão atemoriza-nos e olhamo-la como dolorosa e até desumana. E isto agrava-se ainda mais no tempo da fragilidade, da incerteza e da insegurança, causadas, muitas vezes, pelo aparecimento de alguma doença grave.
Penso, por exemplo, em todos aqueles que permaneceram terrivelmente sós durante a pandemia de Covid-19: pacientes que não podiam receber visitas, mas também enfermeiros, médicos e pessoal auxiliar, todos sobrecarregados de trabalho e confinados em repartições isoladas. E não esqueçamos quantos tiveram de enfrentar sozinhos a hora da morte, assistidos pelos profissionais de saúde, mas longe das suas famílias.
Ao mesmo tempo associo-me, pesaroso, à condição de sofrimento e solidão de quantos, por causa da guerra e suas trágicas consequências, se encontram sem apoio nem assistência: a guerra é a mais terrível das doenças sociais e as pessoas mais frágeis pagam-lhe o preço mais alto.
Contudo, é preciso assinalar que, mesmo nos países que gozam da paz e de maiores recursos, o tempo da velhice e da doença é vivido frequentemente na solidão e, por vezes, até no abandono. Esta triste realidade é consequência sobretudo da cultura do individualismo, que exalta a produção a todo o custo e cultiva o mito da eficiência, tornando-se indiferente e até implacável quando as pessoas já não têm as forças necessárias para lhe seguir o passo. Torna-se então cultura do descarte, na qual «as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou “já não servem” (como os idosos)» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 18). Esta lógica permeia também, infelizmente, certas opções políticas, que não conseguem colocar no centro a dignidade da pessoa humana com as suas carências e nem sempre proporcionam as estratégias e recursos necessários para garantir a todo o ser humano o direito fundamental à saúde e o acesso aos cuidados médicos. Ao mesmo tempo, o abandono das pessoas frágeis e a sua solidão acabam favorecidos ainda pela redução dos cuidados médicos apenas aos serviços de saúde, sem serem sapientemente acompanhados por uma «aliança terapêutica» entre médico, paciente e familiar.
Faz-nos bem voltar a ouvir esta frase bíblica: «não é conveniente que o homem esteja só». É pronunciada por Deus ao início da criação, revelando-nos assim o significado profundo do seu projecto para a humanidade, mas ao mesmo tempo também a ferida mortal do pecado, que se introduz gerando suspeitas, fracturas, divisões e consequente isolamento. Este atinge a pessoa em todas as suas relações: com Deus, consigo mesma, com o outro, com a criação. Tal isolamento faz-nos perder o significado da existência, tira-nos a alegria do amor e faz-nos provar uma sensação opressiva de solidão nas sucessivas passagens cruciais da vida.
Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.
Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu; somos feitos para o amor; somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adoptar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.
A vós que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: Não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e de ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição dos doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos.
Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão.
Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja e devem estar também no centro das nossas solicitudes humanas e cuidados pastorais. Não o esqueçamos! E confiemo-nos a Maria Santíssima, Saúde dos Enfermos, pedindo-Lhe que interceda por nós e nos ajude a ser artífices de proximidade e de relações fraternas…”
 


*TEMPO DA QUARESMA

A partir de Quarta-Feira de Cinzas (14 de Fevereiro), a Igreja começa a celebrar um novo tempo litúrgico: o Tempo da Quaresma. Com esta celebração das cinzas, a Igreja convida os cristãos a aprofundar a espiritualidade quaresmal para viverem na fidelidade a Jesus e ao seu Evangelho: tempo de conversão; de adesão a Cristo e aos seus valores; mudança de vida; valorização da oração, do jejum, da penitência e da caridade.

No dizer do Papa Francisco, “a Quaresma é o tempo para reencontrar a rota da vida. Com efeito, no caminho da vida, como em todos os caminhos, aquilo que verdadeiramente conta é não perder de vista a meta”. E a meta é o Senhor.Este é o tempo litúrgico de conversão que deve preparar para festa da Páscoa, centro de toda a vida cristã e fundamento da nossa fé.Este tempo favorece o nosso arrependimento e é propício para a celebração do sacramento da reconciliação.A Quaresma tem a duração de 40 dias: da Quarta-Feira de Cinzas até Quinta-Feira Santa.

Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum e escuta da PalavraO número 40 (quarenta) aparece repetido, muitas vezes, na Bíblia: era o tempo aproximado de uma geração (40 anos); foi o tempo do dilúvio; foram quarenta os dias que Moisés passou no Monte Sinai; foram quarenta os anos que Israel passou no deserto; foram quarenta os anos do reinado de David; foram quarenta os dias que Jesus no deserto, onde foi tentado.

O roxo é a cor litúrgica deste tempo e significa o convite à penitência que a liturgia da Igreja faz.Na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa os cristãos são convidados a fazer abstinência e jejuam, recordando-nos que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus e deve ser vivida em união com Ele. Somos, também, convidados a fazer algum tipo de penitência durante todas as Sextas-Feiras da Quaresma.
 


*QUARTA-FEIRA DE CINZAS
 
A origem da Quarta-feira de Cinzas pode ser encontrada na antiga prática penitencial. Originalmente, o sacramento da penitência não era celebrado segundo os métodos actuais. O liturgista Pelagio Visentin sublinha que a evolução da disciplina penitencial é tripla: “de uma celebração pública a uma celebração privada; de uma reconciliação com a Igreja, concedida uma única vez, a uma celebração frequente do sacramento, entendida como um remédio-ajuda na vida do penitente; desde uma expiação, anterior à absolvição, prolongada e rigorosa, até uma satisfação, posterior à absolvição”.
A celebração das cinzas nasceu por causa da celebração pública da penitência; foi, de facto, este rito que iniciou o caminho de penitência dos fiéis que seriam absolvidos dos seus pecados, na manhã da Quinta-feira Santa. Com o tempo, o gesto de imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e a reforma litúrgica considerou oportuno preservar a importância deste sinal.
 
A teologia bíblica revela um duplo significado do uso das cinzas:
- Antes de mais nada, as cinzas são sinal da condição débil e frágil do homem. Abraão, voltando-se para Deus, diz: “Vede como me atrevo a falar com o meu Senhor, eu que sou pó e cinza...” (Gn 18,27). Job, reconhecendo os limites profundos da sua existência, com um sentimento de extrema prostração, afirma: “Ele me lançou na lama: tornei-me pó e cinza” (Job 30,19). Em muitas outras passagens bíblicas pode ser encontrada esta dimensão precária do homem, simbolizada pela cinza (Sb 2,3; Sir 10,9; Sir 17,27).
- Mas, a cinza é, também, o sinal externo daquele que se arrepende dos seus maus actos e decide fazer um renovado caminho em direcção ao Senhor. Particularmente conhecido é o texto bíblico da conversão dos habitantes de Nínive, devido à pregação de Jonas: “Os cidadãos de Nínive acreditaram em Deus e proclamaram um jejum, vestiram-se de saco, do maior ao mais pequeno. O rei de Nínive, levantou-se do trono, despiu o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (Jonas 3, 5-9). Judite também convida todo o povo a fazer penitência para que Deus intervenha para o libertar: “Todo o povo orou fervorosamente ao Senhor. Humilharam as suas almas com jejuns e orações, eles e as suas mulheres. Os sacerdotes vestiram-se de saco; as crianças prostraram-se diante do Templo do Senhor e cobriu-se o altar do Senhor com cinza.” (Judite 4, 8-9).
 
A simples, mas envolvente, liturgia da Quarta-Feira de Cinzas preserva este duplo sentido que se explicita nas fórmulas da imposição da cinza: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” e “Arrepende-te e acredita no Evangelho”. Adrien Nocent sublinha que a antiga fórmula (Lembra-te és pó...) está intimamente ligada ao gesto de derramar as cinzas, enquanto a nova fórmula (Arrepende-te...) expressa melhor o aspecto positivo da Quaresma que inicia com esta celebração. (…) O rito da imposição das cinzas, embora celebrado após a homilia, substitui o acto penitencial da missa; além disso, também pode ser realizado sem missa, dentro de uma celebração da palavra. As cinzas podem ser impostas em todas as celebrações eucarísticas desta quarta-feira; mas, é mais significativo haver uma só celebração comunitária «privilegiada», na qual seja, ainda mais, realçada a dimensão eclesial do caminho de conversão que se está a iniciar. (cf. Santi beati,,,)

DA PALAVRA DO SENHOR

 


VI DOMINGO COMUM 

“…Veio ter com Jesus um leproso.
Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:
«Se quiseres, podes curar-me».
Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero: fica limpo».
No mesmo instante o deixou a lepra
e ele ficou limpo.
Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem:
«Não digas nada a ninguém,
mas vai mostrar-te ao sacerdote
e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou,
para lhes servir de testemunho».
Ele, porém, logo que partiu,
começou a apregoar e a divulgar o que acontecera,
e assim, Jesus já não podia entrar abertamente
em nenhuma cidade.
Ficava fora, em lugares desertos,
e vinham ter com Ele de toda a parte
…” (cf. Marcos 1, 40-45)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 


- na Audiência-Geral, Sala Paulo VI, Vaticano, Roma, no dia 7 de Fevereiro de 2024

 

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

No nosso itinerário de catequeses sobre os vícios e as virtudes, hoje meditaremos sobre um vício bastante negativo, a tristeza, entendida como um abatimento da alma, uma aflição constante que impede o homem de sentir alegria pela sua existência.

Em primeiro lugar, é preciso observar que, no que diz respeito à tristeza, os Padres elaboraram uma distinção importante. Com efeito, existe uma tristeza que convém à vida cristã e que, com a graça de Deus, se transforma em alegria: evidentemente, ela não deve ser rejeitada e faz parte do caminho de conversão. Mas existe, também, uma segunda figura de tristeza, que se insinua na alma, prostrando-a num estado de desânimo: é este segundo tipo de tristeza que deve ser combatido com determinação e com toda a força, porque deriva do Maligno. Encontramos esta distinção também em São Paulo que, escrevendo aos Coríntios, diz: «A tristeza, segundo Deus, produz um arrependimento irrevogável que leva à salvação, enquanto a tristeza do mundo produz a morte» (2 Cor 7, 10). 

Portanto, existe uma tristeza amiga, que nos conduz à salvação. Pensemos no filho pródigo da parábola: quando toca o fundo da sua degeneração, sente grande amargura, que o leva a recuperar a razão e a decidir regressar para a casa do pai (cf. Lc 15, 11-20). É uma graça gemer sobre os próprios pecados; recordar o estado de graça do qual caímos; chorar porque perdemos a pureza com que Deus nos sonhou.

Mas, há uma segunda tristeza que, ao contrário, é uma doença da alma. Nasce no coração do homem, quando se apaga um desejo ou uma esperança. Aqui, podemos referir-nos à narração dos discípulos de Emaús. Aqueles dois discípulos partem de Jerusalém com o coração desiludido e, ao desconhecido que os acompanha, a uma certa altura, confidenciam: «Esperávamos que ele - isto é, Jesus – haveria de libertar Israel» (Lc 24, 21). A dinâmica da tristeza está ligada à experiência da perda. No coração do homem nascem esperanças que, às vezes, são frustradas. Pode ser o desejo de possuir algo que, ao contrário, não se consegue obter; mas também algo importante, como a perda de um afecto. Quando isto acontece, é como se o coração do homem caísse num precipício, e os sentimentos que experimenta são desânimo, fraqueza de espírito, depressão, angústia. Todos passamos por provações que geram tristeza em nós, porque a vida nos faz conceber sonhos que depois se desfazem. Nesta situação, alguns, depois de um período de turbulência, confiam na esperança; mas outros mergulham na melancolia, deixando que ela apodreça o coração. Sente-se prazer com isto? Reparai: a tristeza é como o prazer do não-prazer; é como pegar num doce amargo, sem açúcar, mau e comer este doce. A tristeza é um prazer do não-prazer. 

O monge Evágrio conta que todos os vícios visam um prazer, por mais efémero que possa ser, ao passo que a tristeza goza do oposto: embalar-se numa dor sem fim. Certos lutos prolongados, em que a pessoa continua a ampliar o vazio de quem já não está presente, não são próprios da vida no Espírito. Certas amarguras rancorosas, em que a pessoa tem sempre em mente uma reivindicação que a faz assumir o papel de vítima, não produzem em nós uma vida sadia, e muito menos cristã. Há algo no passado de todos que deve ser curado. A tristeza, de uma emoção natural, pode transformar-se num estado de espírito maligno.

A tristeza é um demónio perverso. Os Padres do deserto descrevem-no como um verme do coração, que corrói e esvazia o hóspede. Esta imagem é bonita, faz-nos compreender. Então, o que devo fazer quando estou triste? Parar e pensar: é uma tristeza boa? Não é uma tristeza boa? E reagir de acordo com a natureza da tristeza. Não vos esqueçais que a tristeza pode ser algo muito mau, que nos leva ao pessimismo, que nos conduz a um egoísmo dificilmente curável. 

Irmãos e irmãs, devemos prestar atenção a esta tristeza e pensar que Jesus nos traz a alegria da ressurreição. Por mais que a vida possa ser cheia de contradições, de desejos derrotados, de sonhos não realizados, de amizades perdidas, graças à ressurreição de Jesus podemos acreditar que tudo será salvo. Jesus não ressuscitou só para si mesmo, mas também para nós, a fim de resgatar toda a felicidade que na nossa vida ficou incompleta. A fé expulsa o medo, e a ressurreição de Cristo remove a tristeza como a pedra do sepulcro. Cada dia do cristão é um exercício de ressurreição.

No seu famoso romance Diário de um pároco de aldeia, Georges Bernanos faz com que o pároco de Torcy diga o seguinte: «A Igreja dispõe da alegria, de toda a alegria que está reservada a este mundo triste. O que fizestes contra ela, fizestes contra a alegria». E outro escritor francês, León Bloy, deixou-nos esta frase maravilhosa: «Só há uma tristeza [...] a de não ser santo!». Que o Espírito de Jesus ressuscitado nos ajude a vencer a tristeza com a santidade. (cf. Santa Sé)


PARA REZAR



- SALMO 31

 

Refrão: Sois para mim refúgio.

             Vós me envolveis na alegria da Salvação.

 

Feliz daquele a quem foi perdoada a culpa
e absolvido o pecado.
Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade
e em cujo espírito não há engano.

Confessei-vos o meu pecado
e não escondi a minha culpa.
Disse: Vou confessar ao Senhor a minha falta
e logo me perdoastes a culpa do pecado.

Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos,
fazei que à minha volta só haja hinos de vitória.
Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor,
exultai, vós todos os que sois retos de coração.

SANTOS POPULARES

 


SANTA GERTRUDES COMENSOLI

 

Catarina Comensoli nasceu em Bienno in Val Camonica, Brescia, no dia 18 de Janeiro de 1847. Era a quinta dos dez filhos de Carls Comensoli e de Ana Maria Milesi. No mesmo dia do seu nascimento, os seus pais levaram-na à igreja paroquial para ser baptizada e foi-lhe dado o nome de Catarina. Durante a infância, Catarina experimentou as alegrias da inocência e as alegrias típicas daquela época. Contudo, o Senhor incutiu nela a necessidade de estar intimamente unida a Ele: muitas vezes, era atraída por um forte desejo de rezar e meditar profundamente. Aos que lhe perguntavam o que fazia ela respondia: “Estou a pensar”.

Aos sete anos, não podendo mais resistir ao urgente convite de Jesus, um dia, bem cedo pela manhã, envolveu-se no xale preto da mãe e dirigiu-se à vizinha Igreja de Santa Maria. De pé na balaustrada, fez, secretamente, a sua primeira comunhão. Catarina experimentou um sentimento “celestial” e jurou amor eterno a Jesus. A criança tornou-se mais séria, meditativa e mais absorta no pensamento de Jesus, presente na Eucaristia que, ela percebeu, muitas vezes ficava sozinho, durante muitos dias. Ainda jovem, tornou-se Apóstola da Eucaristia: gostaria de levar Jesus presente no Santíssimo Sacramento ao topo de uma alta montanha, para que todos pudessem vê-lo e adorá-lo.

Ela escolheu algumas das meninas que conhecia para estabelecer a Guarda de Honra. O seu ideal era Jesus. O lema: “Jesus, quero amar-te e fazer com que os outros te amem”, tornou-se o programa da sua vida. Atraída para uma vida mais perfeita, deixou a família em 1862 e entrou no Convento das Irmãs da Caridade, fundado por São Bartolomeu Capitão, em Lovere, Brescia. Todos depositavam as maiores esperanças nela, mas os caminhos maravilhosos e misteriosos da Providência eram diferentes. Durante o postulantado, adoeceu gravemente e teve de deixar o Instituto.

Após a recuperação, deixou a sua aldeia - devido à situação financeira da família – e começou a trabalhar, como doméstica, ao serviço do Padre Rota, pároco de Chiari, que, alguns anos depois, foi nomeado Bispo de Lodi. Em seguida, entrou ao serviço da Condessa Fé-Vitali. Estes trabalhos e experiências viriam a ser muito importantes para Catarina. 

Durante a época do Natal de 1876, ela reafirmou a sua dedicação a Jesus e escreveu uma forma muito exigente de conduzir a sua vida, à qual permaneceu fiel.

Na festa do Corpo de Deus de 1878, com a permissão do seu confessor, renovou, com dimensão perpétua, o voto de castidade que havia feito na manhã da sua Primeira Comunhão secreta. Sem descurar os seus deveres de empregada doméstica, Catarina decidiu dedicar-se à educação das crianças de São Gervásio, em Bérgamo, orientando-as para uma vida honesta de virtudes cristãs e sociais.

Através da oração assídua, da mortificação, de uma intensa vida interior e da prática das obras de caridade, Catarina preparou-se para acolher a vontade do Senhor. Livre das responsabilidades familiares, após a morte dos pais, a jovem procurou uma forma de realizar o seu ideal eucarístico. Abriu o coração ao bispo de Bérgamo, D. Speranza, que, naquele momento, se encontrava em Bienno como hóspede dos Fé-Vitali. Ele encorajou-a e assegurou-lhe que os seus planos eram a vontade de Deus.

Em 1880, enquanto estava em Roma com os Fé-Vitali, conseguiu falar com o Papa Leão XIII sobre os seus planos de estabelecer um instituto religioso dedicado à adoração da Eucaristia. O Papa sugeriu que incluísse, também, a educação das jovens operárias das fábricas.

Apoiada pelo novo Bispo de Bérgamo, D. Camilo Guindani, e pelo seu “Padre e Superior”, Padre Spinelli, no dia 15 de Dezembro de 1882, Catarina, com duas amigas, deu início à Congregação das Irmãs Sacramentinas de Bérgamo, com um primeiro momento de adoração ao Santíssimo Sacramento. No dia 15 de Dezembro de 1884, fez a sua profissão religiosa e tomou o nome de ‘Irmã Gertrudes do Santíssimo Sacramento.

A nova Congregação revelou-se obra de Deus. De facto, como toda a obra de Deus, suportou muitas adversidades que puseram à prova a “tenra plantinha”. Contudo, esta planta já tinha espalhado as suas raízes profundas no solo rico da oração, da mortificação e da humildade. Pouco importava que a Irmã Gertrudes e as suas Irmãs, aconselhadas pelo Bispo de Bérgamo, D. Camillo Guindani, sucessor de D. Speranza, tivessem que abandonar o seu primeiro “ninho” para se refugiarem em Lodi. D. Rota, Bispo de Lodi, acolheu-as e cedeu-lhes generosamente uma casa em Lavagna di Comazzo, que se tornou, temporariamente, a Casa-Mãe do Instituto.

Superadas inúmeras dificuldades, D. Rota, com o Decreto de 8 de Setembro de 1891, deu reconhecimento canónico ao Instituto. No dia 28 de Março de 1892, a Madre Gertrudes retornou a Bérgamo, cidade natal da Congregação. Lá assumiu uma direcção decisiva e forte do Instituto. A obra de Deus foi cumprida!

A Fundadora garantiu a continuação da adoração perpétua e pública de Jesus Sacramento e incutiu, nas suas Irmãs, as suas preciosas ideias. O seu espírito era de oração, de sacrifício, de mortificação, de obediência, de humildade e de caridade, principalmente para com os pobres. 

A Madre Gertrudes faleceu no dia 18 de Fevereiro de 1903, ao meio-dia. A notícia da sua morte espalhou-se rapidamente. Aqueles que a conheceram, especialmente os pobres e os humildes, que eram o seu povo preferido, declararam-na santa. No dia 9 de Agosto de 1926, os seus restos mortais foram transportados do cemitério de Bérgamo para a Casa-Mãe do Instituto que ela havia fundado, onde foram colocados numa capela especial, ao lado da Igreja da Adoração.

Foi beatificada, no dia 1 de Outubro de 1989, pelo Papa João Paulo II que disse, na Homilia: “… É ainda o exemplo de Cristo pobre e humilde, contemplado sobretudo no mistério eucarístico, que guia o empenho de Gertrudes Comensoli no cansativo caminho espiritual e nos conturbados acontecimentos da fundação das Monjas Sacramentinas, de Bérgamo. É precisamente a humildade do Pão Eucarístico, sacramento da presença real de Cristo, que sustenta Gertrudes e lhe permite estar diante da mesa dos poderosos com a intrépida constância de Lázaro, na escolha voluntária do “último lugar” evangélico.

Gertrudes sentiu este compromisso de negação como uma vocação forte e exigente: “Nunca levantarei a voz - escreveu nas suas resoluções - nunca me justificarei, nem com razão nem sem razão. Sofrerei tudo em silêncio, tudo o que me for feito” (Os Escritos, p. 26). Ela quis educar as suas Irmãs neste espírito de humildade, pedindo-lhes pobreza interior de espírito: “Desconfiança de si mesmas, grande humildade, generosidade no sofrimento e grande caridade de comportamento” (Os Escritos, pp. 792-793).

Tal como o pobre indicado na parábola, Gertrudes sofreu a privação de tudo quando uma crise financeira levou à expropriação dos bens materiais do recém-fundado e já florescente Instituto. “Meu Jesus – escreveu ela numa das suas memórias – dentro de poucos minutos… eles vêm para selar tudo … Os homens querem nossas coisas. Sela o meu coração … guarda-me sempre contigo, meu amado Jesus” (Os Escritos, pp. 56 s.).

Assim, de alguma forma, Gertrudes quis depositar toda a sua riqueza “no seio de Abraão” (Lc 16, 22), isto é, no coração de Cristo, presente na Eucaristia: “Manterei sempre o meu coração voltado para o altar onde habita o amado Jesus. Cansada e oprimida, aflita, desolada, ali será o meu lugar de descanso, vista apenas pelo meu Jesus… A minha vida deve ser sepultada em Deus, ao seu divino Lado.” (Os Escritos, p. 60; pp. 56 s.).

É a Eucaristia que conduz ao Reino: à mesa do Pão da vida, penhor da glória futura, alimenta-se aquele fogo da caridade sobrenatural, no qual a alma tem a oportunidade de saborear a alegria reservada para santos no céu…”

Gertrudes Comensoli foi canonizada, no dia 26 de Abril de 2009, pelo Papa Bento XVI. Na homilia da canonização, a seu respeito, o Papa disse: “… Desde criança, Gertrudes Comensoli nutriu uma particular atracção por Jesus, presente na Eucaristia. A adoração de Cristo eucarístico tornou-se a finalidade principal da sua vida; poderíamos quase dizer, a condição habitual da sua existência. De facto, foi diante da Eucaristia que Santa Gertrudes compreendeu a sua vocação e missão na Igreja: a de se dedicar, sem reservas, à acção apostólica e missionária, sobretudo a favor da juventude. Nasceu, assim, em obediência ao Papa Leão XIII, o seu Instituto que se propunha transformar a "caridade contemplada" no Cristo eucarístico, em "caridade vivida" na dedicação ao próximo necessitado. Numa sociedade desorientada e, muitas vezes, ferida, como a nossa; a uma juventude, como a dos nossos tempos, em busca de valores e de um sentido para a sua existência, Santa Gertrudes indica, como firme ponto de referência, o Deus que, na Eucaristia, se fez nosso companheiro de viagem. Recorda-nos que "a adoração deve prevalecer acima de todas as obras de caridade" porque é do amor a Cristo, morto e ressuscitado, realmente presente no Sacramento eucarístico, que brota aquela caridade evangélica que nos impele a considerar todos os homens nossos irmãos…”

A memória litúrgica de Santa Gertrudes Comensoli é celebrada no dia 18 de Fevereiro.


sábado, 3 de fevereiro de 2024

DA PALAVRA DO SENHOR

 


V DOMINGO COMUM

“…Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória,
é uma obrigação que me foi imposta.
Ai de mim se não anunciar o Evangelho!
Se o fizesse por minha iniciativa,
teria direito a recompensa.
Mas, como não o faço por minha iniciativa,
desempenho apenas um cargo que me está confiado.
Em que consiste, então, a minha recompensa?
Em anunciar gratuitamente o Evangelho,
sem fazer valer os direitos que o Evangelho me confere.
Livre como sou em relação a todos,
de todos me fiz escravo,
para ganhar o maior número possível.
Com os fracos tornei-me fraco,
a fim de ganhar os fracos.
Fiz-me tudo para todos,
a fim de ganhar alguns a todo o custo.
E tudo faço por causa do Evangelho,
para me tornar participante dos seus bens
…” (cf. 1 Coríntios  9,16-19.22-23)


PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

 


- na Audiência-Geral, Sala Paulo VI, Vaticano, Roma, no dia 31 de Janeiro de 2024

 

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

Nestas semanas abordamos o tema dos vícios e das virtudes. Hoje, reflectiremos sobre o vício da ira. Trata-se de um vício particularmente tenebroso, e, talvez, seja o mais simples de identificar do ponto de vista físico. A pessoa dominada pela ira tem dificuldade de esconder este ímpeto: reconhecemo-lo pelos movimentos do corpo, pela agressividade, pela respiração ofegante, pelo olhar sombrio e carrancudo.

Na sua manifestação mais penetrante, a ira é um vício que não dá tréguas. Se nasce de uma injustiça sofrida (ou assim considerada), muitas vezes, não se desencadeia contra o culpado, mas contra o primeiro desventurado. Há homens que reprimem a ira no lugar de trabalho, demonstrando-se calmos e tranquilos; mas, quando chegam a casa, tornam-se insuportáveis para a esposa e para os filhos. A ira é um vício que perdura: é capaz de nos tirar o sono e de ficar a remoer constantemente na nossa cabeça, sem conseguirmos encontrar uma barreira para os nossos raciocínios e pensamentos.

A ira é um vício destrutivo das relações humanas. Exprime a incapacidade de aceitar a diversidade do outro, especialmente quando as suas escolhas de vida divergem das nossas. Não se limita aos comportamentos errados de uma pessoa; mas, lança tudo no caldeirão: é o outro, o outro tal como ele é, o outro enquanto tal que provoca a raiva e o ressentimento. Começa-se a detestar o tom da sua voz; os gestos banais do dia-a-dia; os seus modos de raciocinar e de sentir.

Quando a relação chega a este nível de degeneração, já se perdeu a lucidez. A ira faz perder a lucidez. Às vezes, uma das características da ira é a de não conseguir atenuar-se com o tempo. Nestes casos, até a distância e o silêncio, em vez de acalmar o peso dos desentendimentos, aumentam-no. É por este motivo que o apóstolo Paulo – como ouvimos – recomenda aos seus cristãos que enfrentem imediatamente o problema e busquem a reconciliação: «Que o sol não se ponha sobre a vossa ira» (Ef 4, 26). É importante que tudo se dissolva imediatamente, antes que o sol se ponha. Se, durante o dia, pode surgir algum desentendimento, e duas pessoas já não conseguirem compreender-se, sentindo-se repentinamente distantes, a noite não deve ser confiada ao diabo. O vício manter-nos-ia acordados, na escuridão, a remoer as nossas razões e os erros indescritíveis, que nunca são nossos: são sempre do outro. É assim: quando uma pessoa é dominada pela ira, diz sempre que o problema é do outro; nunca é capaz de reconhecer os próprios defeitos, as próprias falhas.

No “Pai-Nosso”, Jesus faz-nos rezar pelas nossas relações humanas, que são um terreno minado: um plano que nunca está em perfeito equilíbrio. Na vida, lidamos com pessoas que estão em falta para connosco; assim como nós, certamente, não amamos todos, na medida certa. A alguém não restituímos o amor que lhe era devido. Somos todos pecadores, todos, e todos temos a conta no vermelho: não o esqueçamos! Por isso, todos devemos aprender a perdoar para ser perdoados. Os homens não permanecem juntos, se não se exercitarem, também, na arte do perdão, na medida do que for humanamente possível. O que impede a ira é a benevolência, a abertura de coração, a mansidão, a paciência.

Mas, a propósito da ira, há uma última coisa a dizer. É um vício terrível que está na origem de guerras e violências. O prefácio da Ilíada descreve “a ira de Aquiles”, que será causa de “lutos infinitos”. Porém, nem tudo o que nasce da ira está errado. Os antigos estavam bem conscientes de que em nós subsiste uma parte irascível, que não pode nem deve ser negada. As paixões são, em certa medida, inconscientes: acontecem; são experiências da vida. Não somos responsáveis pelo nascimento da ira, mas sempre pelo seu desenvolvimento. E, às vezes, é bom que a ira seja desabafada de maneira correcta. Se uma pessoa nunca se irasse; se não se indignasse diante de uma injustiça; se, perante a opressão de uma pessoa frágil, não sentisse tremer algo nas suas entranhas, então isto significaria que essa pessoa não é humana, e muito menos cristã.

Existe a ‘santa indignação’, que não é ira, mas sim um movimento interior: a santa indignação. Jesus conheceu-a, várias vezes, na sua vida (cf. Mc 3, 5): nunca respondeu ao mal com o mal; mas, na sua alma teve este sentimento e, no caso dos mercadores do Templo, realizou uma acção forte e profética, ditada não pela ira, mas pelo zelo pela casa do Senhor (cf. Mt21, 12-13). Devemos distinguir bem: uma coisa é o zelo, a santa indignação; outra é a ira, que é má.

Compete-nos, com a ajuda do Espírito Santo, encontrar a medida certa das paixões; educá-las adequadamente, a fim de que se voltem para o bem, não para o mal. Obrigado!  (cf. Santa Sé)