PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…vai profetizar ao meu povo…” (cf. Amós 7, 15)

O caminho do profeta está cheio de obstáculos. Na sua missão de anunciar Deus e o seu projecto encontra entraves de todo o tipo. Não se esperaria que alguns deles viessem de gente conotada com o serviço de Deus, com a actividade religiosa, com a missão de ser presença do divino no coração da vida. Pela nossa experiência, muitas vezes constatamos que são os de dentro – os que frequentam a igreja, os que colaboram nas actividades paroquiais, os que se afirmam cristãos, os da nossa casa, os da nossa comunidade – a erguer mais obstáculos à concretização do desígnio de Deus de salvar todos os homens, pelo caminho da bondade, da misericórdia e do perdão. Hoje, é importante que, de coração sincero e vida transparente, os cristãos afirmem, convictamente, a sua adesão a Cristo; o desejo de uma conversão autêntica; a disponibilidade para a missão evangelizadora; a abertura de espírito para acolher e reconciliar; a vontade firme da fidelidade e da coerência; o amor à Igreja e à comunidade de que fazem parte. Cada cristão, como bom fermento, deve transfigurar a vida e os ambientes na alegria do Evangelho.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XV DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Foi n’Ele que vós também,
 depois de ouvirdes a palavra da verdade,
 o Evangelho da vossa salvação,
 abraçastes a fé e fostes marcados pelo Espírito Santo prometido,
 que é o penhor da nossa herança,
 para a redenção do povo que Deus adquiriu
 para louvor da sua glória…”(cf. Efésios 1, 13-14)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 8 de Julho de 2018

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
A hodierna página evangélica (cf. Mc 6, 1-6) apresenta Jesus que regressa a Nazaré e, no dia de sábado, começa a ensinar na sinagoga. Desde que se tinha ido embora para começar a pregar nos povoados e aldeias circunvizinhas, nunca voltara à sua pátria. Voltou. Portanto, toda a cidade terá ido ouvir este filho do povo, cuja fama de mestre sábio e de poderoso curador já se alastrava pela Galileia e além. Mas aquilo que se poderia apresentar como um sucesso, transformou-se numa clamorosa recusa, a ponto de Jesus não poder realizar ali prodígio algum, mas apenas poucas curas (cf. v. 5). A dinâmica daquele dia foi reconstruída detalhadamente pelo evangelista Marcos; o povo de Nazaré inicialmente ouve, e fica admirado; depois questiona-se perplexo: «de onde lhe vêm estas coisas», esta sabedoria!? E, no final, escandaliza-se, ao reconhecer n’Ele o carpinteiro, o filho de Maria, que eles viram nascer (vv. 2-3). Por isso, Jesus conclui com a expressão que se tornou proverbial: «um profeta só é desprezado na sua pátria» (v. 4).
Perguntemo-nos: por que passam os concidadãos de Jesus da admiração à incredulidade? Eles fazem um confronto entre a origem humilde de Jesus e as suas capacidades actuais: é um carpinteiro, não estudou, contudo prega melhor que os escribas e faz milagres. Mas em vez de se abrirem à realidade, escandalizam-se. Segundo os habitantes de Nazaré, Deus é demasiado grande para se abaixar e falar através de um homem tão simples! É o escândalo da encarnação: o evento desconcertante de um Deus que se fez carne, que pensa com mente de homem, trabalha e age com mãos de homem, ama com coração de homem, um Deus que trabalha, come e dorme como um de nós. O Filho de Deus inverte qualquer esquema humano: não foram os discípulos que lavaram os pés ao Senhor, mas foi o Senhor que lavou os pés aos discípulos (cf. Jo 13, 1-20). É este o motivo de escândalo e de incredulidade não só naquela época, em todas as épocas, mas também hoje.
A inversão realizada por Jesus compromete os seus discípulos, de ontem e de hoje, numa verificação pessoal e comunitária. Com efeito, também nos nossos dias, pode acontecer que se alimentem preconceitos que impedem que se compreenda a realidade. Mas o Senhor convida-nos a assumir uma atitude de escuta humilde e de expectativa dócil, porque a graça de Deus se apresenta, com frequência, de maneiras surpreendentes, que não correspondem às nossas expectativas. Pensemos juntos na Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Uma religiosa pequenina — ninguém dava dez tostões por ela — que ia pelas ruas recuperar os moribundos para que tivessem uma morte digna. Esta pequenina religiosa fez maravilhas com as orações e com as suas obras! A pequenez de uma mulher revolucionou as obras de caridade na Igreja. É um exemplo dos nossos dias. Deus não se conforma com os preconceitos. Devemos esforçar-nos por abrir o coração e a mente, para acolher a realidade divina que vem ao nosso encontro. Trata-se de ter fé: a falta de fé é um obstáculo à graça de Deus. Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e os sinais da fé, mas a eles não corresponde uma adesão real à pessoa de Jesus nem ao seu Evangelho. Cada cristão — todos nós, cada um de nós — é chamado a aprofundar esta pertença fundamental, procurando testemunhá-la com uma conduta de vida coerente, cujo fio condutor será sempre a caridade.
Peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Maria, que desfaça a dureza dos corações e a limitação das mentes, para que sejamos abertos à sua graça, à sua verdade e à sua missão de bondade e misericórdia, que se destina a todos, sem excluir ninguém. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 84

Refrão: Mostrai-nos o vosso amor
             dai-nos a vossa salvação.

Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis
e a quantos de coração a Ele se convertem.
A sua salvação está perto dos que O temem
e a sua glória habitará na nossa terra.

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,
abraçaram-se a paz e a justiça.
A fidelidade vai germinar da terra
e a justiça descerá do Céu.

O Senhor dará ainda o que é bom,
e a nossa terra produzirá os seus frutos.
A justiça caminhará à sua frente
e a paz seguirá os seus passos.

SANTOS POPULARES



BEATA MARIA GUADALUPE ORTIZ HEREDIA

Guadalupe nasceu em Madrid, Espanha, no dia 12 de Dezembro de 1916. Era filha de Manuel Ortiz de Landázuri García, militar do Corpo de Infantaria, e de Eulogia Fernández de Heredia y Gastañaga. Durante a sua infância viveu em diversos lugares, de acordo com as missões atribuídas ao seu pai: Madrid, Larache, Segóvia e Tetuán. Começou a estudar, para fazer o bacharelato, no Colégio de Nossa Senhora do Pilar, que os Irmãos Maristas tinham em Tetuán. Quando o seu pai foi promovido a Tenente-coronel e transferido para Madrid, Guadalupe continuou os seus estudos, agora no Instituto Miguel Cervantes, onde terminou os estudos em Junho de 1933. Neste ano, começou os estudos para a licenciatura em Ciências Químicas, na Universidade Central de Madrid.
Com o começo da Guerra Civil de Espanha, interrompeu os estudos universitários. Em 1936, na madrugada do dia 8 de Setembro, na Prisão Modelo de Madrid, o seu pai foi fuzilado. Guadalupe, que tinha, então, 20 anos, acompanhou-o durante a sua última noite “apoiando, com a sua serenidade a meu pai e também a mim”, como contou o seu irmão mais velho, Eduardo, médico, cujo processo de canonização também já foi iniciado. Em 1937, Guadalupe muda-se, com a sua mãe, para Valladolid, onde permaneceu até ao fim da guerra.
Em 1940, Guadalupe terminou a sua licenciatura em Química com um dos melhores currículos da turma. Querendo dedicar-se à docência universitária, começou o doutoramento.
Em Janeiro de 1944, por meio de uma pessoa conhecida, a quem confiou que desejava falar com um sacerdote, agendou uma conversa com o Padre Josemaria Escrivá e, atraída pela sua profunda alegria, abriu-se em confidência e lhe perguntou: “Que devo fazer com a minha vida?” Como ela mesma contaria mais tarde, a conversa foi decisiva: “Tive a sensação clara de que Deus me falava através daquele sacerdote”.
Em 19 de Março de 1944, com 27 anos, escreveu uma carta, ao Padre Josemaria, pedindo a sua admissão no ‘Opus Dei’, como numerária. Nessa época, havia ainda muito poucas mulheres no Opus Dei e o trabalho que havia para fazer era abundante. Guadalupe dedicou todos os seus esforços ao que era necessário, em cada momento: a administração doméstica dos primeiros Centros; o início do trabalho noutras cidades espanholas como Bilbao e Saragoça; a direcção da primeira residência universitária – Zurbarán – em Madrid. O seu carácter optimista e comunicativo contribuiu para um ambiente cordial no qual as estudantes se sentiam queridas e estimuladas a viver com responsabilidade sua vida cristã.
Para iniciar as actividades apostólicas com mulheres, no México, o Fundador do Opus Dei pensou – entre outras – em Guadalupe. Ela respondeu afirmativamente e escreveu-lhe: “Hoje, pedi muito à Virgem Maria para que, no México, se possa fazer muito. Sei que no começo será difícil: tenho a certeza, mas não me preocupo”. Lembrando esse começo, disse: “Em 5 de Março de 1950, saímos de Madrid. Eu era a mais velha, ainda que fosse muito jovem. Levávamos somente a bênção do Padre, amor ao Senhor e bom humor”.
Ao chegar ao México, Guadalupe matriculou-se nalgumas matérias importantes para o doutoramento em Química, que ainda não tinha terminado. Logo em seguida, começaram, com a ajuda de pessoas conhecidas, os trâmites necessários para a instalação da residência universitária.
Guadalupe, diante do imenso trabalho que tinha nas suas mãos, do cuidado das pessoas e das preocupações económicas que também não faltavam, escreveu ao Padre Escrivá: “…tudo isto - conhecendo-me como me conhece - não é verdade que é demais para mim? Porém, não desanimo nem me assusto, peço-lhe, somente, oração para que nunca, em nada, por pequeno ou grande que seja, deixe de fazer o que Deus quer”.
Durante uma viagem a Roma, em Outubro de 1956, teve de fazer uma cirurgia, devido aos primeiros sintomas de uma doença cardíaca. Apesar de ter recuperado bem da cirurgia, o seu coração não se tinha restabelecido por completo, e Guadalupe sofria de contínuas recaídas. A sua doença, contudo, passava normalmente despercebida para a maioria daqueles que com ela conviviam. Como em tudo na sua vida, via na doença um novo modo de se aproximar de Cristo.
Não voltou mais ao México. Muitas das pessoas, que a conheceram neste país, escreveriam, mais tarde, as suas memórias dela. Numa dessas memórias, pode ler-se: “… a sua forma de rezar chamou a minha atenção; colocava-se em Deus e ficava muito recolhida e sempre a víamos alegre, contente e risonha. Fui descobrindo, com ela, o que era uma entrega a Deus. Chamava a atenção o modo como vivia o que dizia; tinha encarnado o espírito da Obra”. E, referindo-se ao seu carácter forte, escreveram: “…quando tinha de corrigir, fazia-o com fortaleza; mas com tanta delicadeza e carinho que não se entendia a repreensão como tal, ao contrário, agradeciam-na”.
Depois de passar uns tempos, em Roma, colaborando com o Padre Josemaria Escrivá no trabalho de governo do Opus Dei, Guadalupe voltou a Espanha. Entre 1960 e 1974, deu aulas no Instituto Ramiro de Maeztu e na Escuela de Maestría Industrial da qual foi catedrática e vice-directora. Em Junho de 1965, defendeu a sua tese de doutoramento, obtendo a máxima pontuação. Guadalupe preocupava-se em proporcionar aos seus alunos uma boa formação humana, além do exigido ensino de Química ou Física. Uma das suas alunas escreveu: “…Foi para mim uma professora especial, da qual nunca poderei esquecer-me. Tinha uma grande personalidade e era uma mulher belíssima, embora se vestisse sobriamente, sem adornos supérfluos. Era muito simples; tratava-nos muito bem, com compreensão e afecto. Por isso, criou-se ao seu redor um agradável ambiente. Lembro-me de como - afastando-se do quadro negro, cheio de fórmulas químicas - nos falava do que se podia fazer com as combinações de diferentes elementos químicos e nos mostrava que tudo era uma manifestação impressionante da diversidade da criação, e concluía: ‘Vede como Deus faz as coisas!’”.
A partir de 1968, participou também na promoção do Centro de Estudos e Pesquisas em Ciências Domésticas, como professora de Materiais Têxteis.
No dia 1 de Julho de 1975, devido a uma grave lesão cardíaca, teve que fazer uma cirurgia, na Clínica Universitária de Navarra. Em consequência de complicações posteriores, faleceu no dia 16 de Julho, em Pamplona. O seu irmão, Eduardo, explica: “…Ela sabia dos riscos de tal cirurgia e, sem a menor hesitação, aceitou-a, pensando que assim poderia ser mais útil à Obra ou, «se eu não resistir e Deus quiser que eu morra» – dizia –, «ir para o Céu é ainda melhor»".
“…Sobressaem em Guadalupe a alegria contagiosa, a fortaleza para enfrentar as adversidades, o otimismo cristão em circunstâncias difíceis e a sua entrega aos outros. A sua fé teologal transparecia sobretudo no amor à Santíssima Eucaristia e na aceitação alegre da vontade de Deus. Cultivava a esperança, acrisolada com o passar dos anos. Viveu de modo heroico a caridade para com Deus e com o próximo. Realizava as suas práticas de piedade com grande devoção e frequentemente rezava diante do Sacrário. Estimulada pela graça divina, alcançou uma harmoniosa unidade de vida e oferecia a Deus as diversas tarefas da sua vida diária. Dirigia-se à Santíssima Virgem Maria com grande carinho, principalmente sob a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe.
Mostrava-se solícita com as necessidades dos demais. Comportava-se com idêntica delicadeza e amabilidade com as jovens universitárias, com as camponesas, com as alunas das escolas em que ensinou e com as suas amigas.
Sempre se manteve pronta para ser útil aos outros e para obedecer. Estava dotada de muitas qualidades humanas e profissionais, mas nunca se vangloriava disso; pelo contrário, estava disposta a servir a todos e escolhia para si os trabalhos mais humildes. Viveu com grande sobriedade e aceitou com alegria as privações que com frequência teve de passar quando começava a atividade apostólica em alguma cidade. Cumpria com tenacidade e perfeição os encargos que lhe eram confiados e empregava os seus momentos livres em ocupações proveitosas, mostrando-se afável e disposta para servir aos outros. Quando adoeceu, esforçou-se perseverantemente em continuar a realizar as suas obrigações…” (no Decreto sobres as virtudes de Maria Guadalupe Ortiz de Landázuri y Fernández de Heredia, da Congregação das Causas dos Santos, de 4 de Maio de 2017)
Ainda não está marcada a data da proclamação pública da santidade da Serva de Deus, Maria Guadalupe. Contudo, a sua memória litúrgica celebrar-se-á no dia 16 de Julho.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

EM DESTAQUE



- ENCONTRO ECUMÉNICO PELA PAZ NO MÉDIO ORIENTE

O Papa Francisco encontrou-se, no passado dia 7 de Julho, em Bari, Itália, com responsáveis de várias Igrejas Cristãs – entre eles Bartolomeu I, patriarca ecuménico de Constantinopla (Igreja Ortodoxa); Tawadros II, patriarca da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria (Egipto); e o número 2 do patriarcado ortodoxo de Moscovo, Hilário – para rezarem juntos pela paz no Médio Oriente.
O Papa, os patriarcas orientais e os responsáveis de várias comunidades cristãs foram saudados por centenas de pessoas no seu percurso em autocarro pela cidade italiana, onde começaram por venerar as relíquias de São Nicolau, santo que une fiéis do Oriente e do Ocidente.
Após a recepção por autoridades religiosas e civis, o Papa e os Patriarcas desceram à cripta da Basílica de São Nicolau, onde foi iluminada a lâmpada ‘uniflamma’, em forma de caravela, que simboliza a fé única católica e ortodoxa.
Os participantes cantaram e rezaram em várias línguas, pela paz e o fim da “discriminação”; após a recitação comum do Pai-Nosso houve um momento de silêncio, seguido da entrega simbólica de uma lâmpada da paz, a cada um dos líderes cristãos.
O encontro do Papa Francisco com os líderes de Igrejas e comunidades cristãs tem como lema ‘A paz esteja convosco! Cristãos juntos pelo Médio Oriente’. (cf. Agência Ecclesia)


- PALAVRAS DO SANTO PADRE
  - na conclusão do encontro, na Basílica de São Nicolau

Amados irmãos e irmãs!
Sinto-me muito grato pela partilha que tivemos a graça de viver. Ajudamo-nos a redescobrir a nossa presença de cristãos no Médio Oriente, como irmãos. Esta presença será tanto mais profética quanto mais testemunhar Jesus, Príncipe da paz (cf. Is 9, 5). Ele não empunha a espada; antes, pede aos seus que a reponham na bainha (cf. Jo 18, 11). Também o nosso ser Igreja é tentado pelas lógicas do mundo, lógicas de poder e lucro, lógicas resolutivas e de conveniência. E temos o nosso pecado, a incoerência entre a fé e a vida, que obscurece o testemunho. Mais uma vez sentimos que temos de nos converter ao Evangelho, garantia de liberdade autêntica, e de o fazer urgentemente agora, na noite do Médio Oriente em agonia. Como na noite angustiante do Getsémani, não serão a fuga (cf. Mt 26,56) nem a espada (cf. Mt 26,52) que antecipam a aurora radiosa de Páscoa, mas o dom de si mesmo à imitação do Senhor.
A boa nova de Jesus, crucificado e ressuscitado por amor, chegada das terras do Médio Oriente, conquistou o coração do homem ao longo dos séculos, porque está ligada, não aos poderes do mundo, mas à força inerme da cruz. O Evangelho compromete-nos numa conversão diária aos planos de Deus, a encontrar segurança e conforto apenas n’Ele, a anunciá-Lo a todos e apesar de tudo. A fé dos simples, tão enraizada no Médio Oriente, é fonte donde tirar água para saciar a sede e nos purificar, como acontece quando voltamos às origens, indo peregrinos a Jerusalém, à Terra Santa ou aos santuários do Egipto, Jordânia, Líbano, Síria, Turquia e dos outros lugares sagrados daquelas regiões.
Encorajados uns pelos outros, dialogamos fraternalmente. Foi um sinal de que se deve buscar sempre o encontro e a unidade, sem medo das diferenças. E o mesmo se diga da paz: deve ser cultivada mesmo nos terrenos áridos das contraposições, porque hoje, apesar de tudo, não há alternativa possível à paz. Não são as tréguas garantidas por muros e provas de força que trarão a paz, mas a vontade real de escuta e diálogo. Comprometemo-nos a caminhar, rezar e trabalhar, e imploramos que a arte do encontro prevaleça sobre as estratégias do conflito, que a ostentação de ameaçadores sinais de poder seja substituída pelo poder de sinais esperançosos: homens de boa vontade e de credos diferentes que não têm medo de se falar, acolher as razões alheias e cuidar uns dos outros. Só assim, tendo cuidado para que a ninguém falte o pão e o trabalho, a dignidade e a esperança, os gritos de guerra se transformarão em cânticos de paz.
Para se conseguir isto, é essencial que os detentores do poder se ponham, final e decididamente, ao serviço autêntico da paz e não dos interesses próprios. Basta com os lucros de poucos à custa da pele de muitos! Basta com as ocupações de terras que dilaceram os povos! Basta com fazer prevalecer verdades de alguns sobre as esperanças da gente! Basta com usar o Médio Oriente para lucros alheios ao Médio Oriente.
A guerra é o flagelo que acomete tragicamente esta amada região. E as suas vítimas são sobretudo a gente humilde. Pensemos na martirizada Síria, em particular na província de Deraa. Lá recomeçaram duros combates que provocaram um número enorme de deslocados, expostos a tribulações terríveis. A guerra é filha do poder e da pobreza. Vence-se renunciando às lógicas de supremacia e erradicando a miséria. Muitos conflitos foram fomentados, também, por formas de fundamentalismo e fanatismo que, disfarçados sob pretextos religiosos, na realidade blasfemaram do nome de Deus, que é paz, e perseguiram o irmão que vive desde sempre ao seu lado. Mas a violência é sempre alimentada pelas armas. Não se pode levantar a voz para falar de paz, enquanto, às escondidas, se perseguem desenfreadas corridas ao rearmamento. É uma gravíssima responsabilidade, que pesa sobre a consciência das nações, em particular das mais poderosas. Não se esqueça o século passado, não se esqueçam as lições de Hiroxima e Nagasaki, não se transformem as terras do Oriente, onde nasceu o Verbo da paz, em escuras vastidões de silêncio. Basta com contraposições obstinadas; basta com a sede de lucro que passa por cima de todos para se apoderar de jazidas de gás e combustíveis, sem respeito pela casa comum nem escrúpulos pelo facto de ser o mercado da energia a ditar a lei da convivência entre os povos!
Para abrir sendas de paz, volte-se o olhar para o lado contrário, ou seja, para quem suplica poder conviver fraternalmente com os outros. Tutelem-se todas as presenças, e não apenas as maioritárias. Abra-se também no Médio Oriente a estrada para o direito à cidadania comum, estrada para um futuro renovado. Os próprios cristãos sejam, e são, cidadãos a todos os títulos, com direitos iguais.
Fortemente angustiados, mas nunca sem esperança, voltamos o olhar para Jerusalém, cidade para todos os povos, cidade única e sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos de todo o mundo, cuja identidade e vocação devem ser preservadas, independentemente das várias disputas e tensões, e cujo ‘status quo’ exige ser respeitado como foi deliberado pela Comunidade Internacional e repetidamente solicitado pelas comunidades cristãs da Terra Santa. Só uma solução negociada entre israelitas e palestinianos, firmemente desejada e favorecida pela Comunidade das Nações, poderá levar a uma paz estável e duradoura e garantir a coexistência de dois Estados para dois povos.
A esperança tem o rosto das crianças. Há anos que, no Médio Oriente, um número terrível de pequeninos chora mortes violentas em família e vê ameaçada a sua terra natal, restando-lhes, muitas vezes, como única perspectiva ter de fugir. Esta é a morte da esperança. Os olhos de demasiadas crianças passaram a maior parte da vida a ver escombros em vez de escolas, ouvir o estrondo surdo de bombas em vez da alegre algazarra dos jogos. Que a humanidade escute – peço-vos – o clamor das crianças, cuja boca proclama a glória de Deus (cf. Sal 8, 3). É enxugando as suas lágrimas que o mundo reencontrará a dignidade.
Pensando nas crianças – não esqueçamos as crianças –, daqui a pouco faremos voar no ar, junto com algumas pombas, o nosso desejo de paz. O anseio de paz suba mais alto que todas as nuvens escuras. Os nossos corações permaneçam unidos e voltados para o Céu, à espera que torne, como nos tempos do dilúvio, o tenro ramo da esperança (cf. Gn 8, 11). E o Médio Oriente seja, já não um arco de guerra estendido entre os continentes, mas uma arca de paz acolhedora dos povos e dos credos. Querido Médio Oriente: desapareçam de ti as trevas da guerra, do poder, da violência, dos fanatismos, dos ganhos iníquos, da exploração, da pobreza, da desigualdade e do não-reconhecimento dos direitos. «Para ti, haja paz» (Sal 122, 8), em ti habite a justiça, sobre ti repouse a bênção de Deus. Amém. (cf. Santa Sé)

DA PALAVRA DO SENHOR



- XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Ele disse-me: «Basta-te a minha graça,
porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder».
Por isso, de boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas,
para que habite em mim o poder de Cristo.
Alegro-me nas minhas fraquezas,
nas afrontas, nas adversidades,
nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo,
porque, quando sou fraco, então é que sou forte…”(cf. 2 Coríntios 12, 9-10)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Homilia da Missa pelos Migrantes, na Basílica de São Pedro, Roma, no dia 6 de Julho de 2018

«Ouvi isto, vós que esmagais o pobre e fazeis perecer os desfavorecidos da terra (…). Eis que vêm dias em que lançarei fome sobre o país, (...) fome de ouvir as palavras do Senhor» (Am 8, 4.11).
A advertência do profeta Amós revela-se, ainda hoje, de veemente actualidade. Quantos pobres são hoje esmagados! Quantos desfavorecidos são feitos perecer! Todos eles são vítimas daquela cultura do descarte que, repetidamente, foi denunciada. E, entre eles, não posso deixar de incluir os migrantes e os refugiados que continuam a bater às portas das nações que gozam de maior bem-estar.
Recordando as vítimas dos naufrágios, há cinco anos, durante a minha visita a Lampedusa, fiz-me eco deste perene apelo à responsabilidade humana: «“Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim”, diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta feita a outrem; é uma pergunta feita a mim, a ti, a cada um de nós» [Insegnamenti I(2013)-vol. 2, 23]. Infelizmente, apesar de generosas, as respostas a este apelo não foram suficientes e, hoje, choramos milhares de mortos.
A aclamação, de hoje, ao Evangelho contém este convite de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11, 28). O Senhor promete descanso e libertação a todos os oprimidos do mundo, mas precisa de nós para tornar eficaz a sua promessa. Precisa dos nossos olhos para ver as necessidades dos irmãos e irmãs. Precisa das nossas mãos para socorrê-los. Precisa da nossa voz para denunciar as injustiças cometidas no silêncio – por vezes cúmplice – de muitos. Na realidade, deveria falar de muitos silêncios: o silêncio do sentido comum, o silêncio do «fez-se sempre assim», o silêncio do «nós» sempre contraposto ao «vós». Sobretudo, o Senhor precisa do nosso coração para manifestar o amor misericordioso de Deus pelos últimos, os rejeitados, os abandonados, os marginalizados.
No Evangelho de hoje, Mateus narra o dia mais importante da sua vida: aquele em que foi chamado pelo Senhor. O Evangelista recorda, claramente, a censura de Jesus aos fariseus, com tendência fácil a murmurar: «Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (9, 13). É uma acusação directa à hipocrisia estéril de quem não quer «sujar as mãos», como o sacerdote e o levita, na parábola do Bom Samaritano. Trata-se duma tentação muito presente também nos nossos dias, que se traduz num fechamento a quantos têm direito, como nós, à segurança e a uma condição de vida digna, e que constrói muros, reais ou imaginários, em vez de pontes.
Perante os desafios migratórios da actualidade, a única resposta sensata é a solidariedade e a misericórdia; uma resposta que não faz demasiados cálculos, mas exige uma divisão equitativa das responsabilidades, uma avaliação honesta e sincera das alternativas e uma gestão prudente. Política justa é aquela que se coloca ao serviço da pessoa, de todas as pessoas interessadas; que prevê soluções idóneas a garantir a segurança, o respeito pelos direitos e a dignidade de todos; que sabe olhar para o bem do seu país tendo em conta o dos outros países, num mundo cada vez mais interligado. É para um mundo assim, que olham os jovens.
O Salmista indicou-nos a atitude justa que, em consciência, se deve assumir diante de Deus: «Escolhi o caminho da fidelidade e decidi-me pelos vossos juízos» (Sal 118/119, 30). Um compromisso de fidelidade e de juízo recto que esperamos realizar juntamente com os governantes da terra e as pessoas de boa vontade. Por isso, acompanhamos atentamente o trabalho da comunidade internacional para dar resposta aos desafios colocados pelas migrações actuais, harmonizando sabiamente solidariedade e subsidiariedade e identificando recursos e responsabilidades.
Desejo concluir com algumas palavras dirigidas particularmente aos fiéis que vieram da Espanha.
Quis celebrar o quinto aniversário da minha visita a Lampedusa convosco, que representais os socorristas e os resgatados no Mar Mediterrâneo. Aos primeiros, quero expressar a minha gratidão por encarnarem, hoje, a parábola do Bom Samaritano, que parou para salvar a vida daquele pobre homem espancado pelos ladrões, sem lhe perguntar pela sua proveniência, pelos motivos da sua viagem ou pelos seus documentos: simplesmente decidiu cuidar dele e salvar a sua vida. Aos resgatados, quero reiterar a minha solidariedade e encorajamento, pois conheço bem as tragédias de que estais a fugir. Peço-vos que continueis a ser testemunhas da esperança num mundo cada vez mais preocupado com o próprio presente, com reduzida visão de futuro e relutante a partilhar, e que elaboreis conjuntamente, no respeito pela cultura e as leis do país de acolhimento, o caminho da integração.

Peço ao Espírito Santo que ilumine a nossa mente e inflame o nosso coração para superarmos todos os medos e inquietações e nos transformarmos em instrumentos dóceis do amor misericordioso do Pai, prontos a dar a nossa vida pelos irmãos e irmãs, tal como fez o Senhor Jesus Cristo por cada um de nós. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 122

Refrão: Os nossos olhos estão postos no Senhor,
             até que Se compadeça de nós.

Levanto os olhos para Vós,
para Vós que habitais no Céu,
como os olhos do servo
se fixam nas mãos do seu senhor.

Como os olhos da serva
se fixam nas mãos da sua senhora,
assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus,
até que tenha piedade de nós.

Piedade, Senhor, tende piedade de nós,
porque estamos saturados de desprezo.
A nossa alma está saturada do sarcasmo dos arrogantes
e do desprezo dos soberbos.

SANTOS POPULARES



SANTA VERÓNICA GIULIANI
- catequese do Papa Bento XVI, 
no dia 15 de Dezembro de 2010

Queridos irmãos e irmãs,
Verónica nasceu no dia 27 de Dezembro de 1660, em Mercatello, no vale do Metauro, filha de Francesco Giuliani e Benedetta Mancini. É a última de sete irmãs, das quais outras três abraçarão a vida monástica. No baptismo, recebeu o nome de Úrsula. Aos sete anos, perdeu a mãe, e o pai transferiu-se para Piacenza como superintendente das alfândegas do ducado de Parma. Nessa cidade, Úrsula sentiu crescer em si o desejo de dedicar a vida a Cristo. O apelo faz-se cada vez mais urgente, a tal ponto que, com 17 anos, entrou na estrita clausura do Mosteiro das Clarissas Capuchinhas, de Città di Castello, onde permaneceu durante toda a sua vida. Ali recebeu o nome de Verónica, que significa «verdadeira imagem» e, com efeito, ela tornou-se, deveras, imagem de Cristo Crucificado. Um ano depois, emitiu a solene profissão religiosa: começou para ela o caminho de configuração com Cristo através de muitas penitências, grandes sofrimentos e algumas experiências místicas ligadas à Paixão de Jesus: a coroação de espinhos, as bodas místicas, a ferida no coração e os estigmas. Em 1716, com 56 anos, tornou-se abadessa do mosteiro e foi reconfirmada nesta função até à sua morte, ocorrida em 1727, depois de uma dolorosíssima agonia de 33 dias, que culminou numa profunda alegria, a tal ponto que as suas últimas palavras foram: «Encontrei o Amor, o Amor deixou-se ver! Esta é a causa do meu padecimento. Dizei-o a todas, dizei-o a todas!» (Summarium beatificationis, 115-120). Em 9 de Julho, deixou a morada terrena para o encontro com Deus. Tinha 67 anos, 50 dos quais transcorridos no mosteiro de Città di Castello. Foi proclamada Santa, no dia 26 de Maio de 1839, pelo Papa Gregório XVI.
Verónica Giuliani escreveu muito: cartas, relatórios autobiográficos e poesias. Todavia, a fonte principal para reconstruir o seu pensamento é o seu Diário, iniciado em 1693: vinte e duas mil páginas manuscritas, que abrangem um arco de trinta e quatro anos de vida claustral. A escrita flui espontânea e contínua, não há cancelamentos ou correcções, nem sinais de pontuação ou distribuição da matéria em capítulos ou partes, segundo um desígnio previamente estabelecido. Verónica não queria compor uma obra literária; aliás, foi obrigada a escrever as suas experiências pelo Padre Girolamo Bastianelli, religioso dos Filippini, de acordo com o Bispo diocesano Antonio Eustachi.
Santa Verónica tinha uma espiritualidade acentuadamente cristológico-esponsal: é a experiência de ser amada por Cristo, Esposo fiel e sincero, e querer corresponder com um amor cada vez mais comprometido e apaixonado. Nela, tudo é interpretado em chave de amor, e isto infunde-lhe uma profunda serenidade. Tudo é vivido em união com Cristo, por amor a Ele, e com a alegria de poder demonstrar-lhe todo o amor de que a criatura é capaz.
O Cristo ao qual Verónica está profundamente unida é aquele que sofre na paixão, morte e ressurreição; é Jesus no gesto de se imolar ao Pai para nos salvar. É desta experiência que deriva também o amor intenso e sofredor pela Igreja, na dúplice forma da oração e da oferenda. A Santa vive nesta perspectiva: reza, sofre e procura a «santa pobreza» como «expropriação», perda de si (cf. ibid., III, 523), precisamente para ser como Cristo, que se entregou inteiramente a si mesmo.
Em cada página dos seus escritos, Verónica recomenda alguém ao Senhor, corroborando as suas preces de intercessão com a oferta de si, em cada sofrimento. O seu amor dilata-se a todas «as necessidades da Santa Igreja», vivendo com ansiedade o desejo da salvação de «todo o universo» (Ibid., III-IV, passim). Verónica clama: «Ó pecadores, ó pecadoras...todos e todas, ide ao Coração de Jesus; ide à lavanda do seu preciosíssimo Sangue... Ele espera-vos com os braços abertos para vos abraçar» (Ibid., II, 16-17). Animada por uma caridade fervorosa, ela presta atenção, compreensão e perdão às irmãs do mosteiro; oferece as suas orações e os seus sacrifícios pelo Papa, pelo seu bispo, pelos sacerdotes e por todas as pessoas necessitadas, inclusive pelas almas do purgatório. Resume a sua missão contemplativa com estas palavras: «Não podemos ir pregando pelo mundo, para converter as almas, mas somos obrigadas a rezar incessantemente por todas aquelas almas que ofendem a Deus... de modo particular com os nossos sofrimentos, ou seja, com um princípio de vida crucificada» (Ibid., IV, 877). A nossa Santa concebe esta missão como um «estar no meio», entre os homens e Deus, entre os pecadores e Cristo crucificado.
Verónica viveu de modo profundo a participação no amor sofredor de Jesus, convicta de que o «sofrer com alegria» é a «chave do amor» (cf. ibid., I, 299.417; III, 330.303.871; IV, 192). Ela evidencia que Jesus padece pelos pecados dos homens, mas também pelos sofrimentos que os seus servos fiéis tiveram que suportar ao longo dos séculos, no tempo da Igreja, precisamente mediante a sua fé sólida e coerente. Ela escreve: «O seu Pai eterno fez-lhe ver e sentir, nessa altura, todos os padecimentos que deviam suportar os seus eleitos, as suas almas mais amadas, ou seja, aquelas que teriam beneficiado do seu Sangue e de todos os seus sofrimentos» (Ibid., II, 170). Como diz de si o Apóstolo Paulo: «Agora alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, pelo seu corpo que é a Igreja» (Cl 1, 24). Verónica chega a pedir a Jesus para ser crucificada com Ele: «Num instante — escreve — vi sair das suas santíssimas chagas cinco raios resplandecentes; e todos vieram ao meu redor. E eu via estes raios tornar-se como que pequenas chamas. Em quatro delas havia os pregos; e numa a lança, como que de ouro, inteiramente abrasada: e trespassou-me o coração, de um lado para o outro... e os pregos trespassaram-me as mãos e os pés. Senti uma grande dor; mas, na mesma dor, eu via-me a mim mesma, sentia-me inteiramente transformada em Deus» (Diário, I, 897).
A Santa está convencida de participar antecipadamente no Reino de Deus mas, ao mesmo tempo, invoca todos os Santos da Pátria bem-aventurada para que venham em sua ajuda no caminho terreno da sua doação, à espera da bem-aventurança eterna; esta é a aspiração constante da sua vida (cf. ibid., II, 909; V, 246). Em relação à pregação dessa época, centrada não raro na «salvação da própria alma» em termos individuais, Verónica mostra um forte sentido «solidário», de comunhão com todos os irmãos e irmãs, caminho rumo ao Céu, e vive, reza e sofre por todos. As realidades penúltimas, terrenas, ao contrário, embora sejam apreciadas em sentido franciscano como um dom do Criador, são sempre relativas, inteiramente subordinadas ao «gosto» de Deus e sob o sinal de uma pobreza radical. Na ‘communio sanctorum’, ela esclarece a sua doação eclesial, assim como a relação entre a Igreja peregrina e a Igreja celeste. «Todos os Santos — escreve — estão lá em cima mediante os méritos e a paixão de Jesus; mas para tudo quanto nosso Senhor realizou, eles cooperaram, de tal modo que a sua vida foi inteiramente ordenada, regulada pelas (suas) mesmas obras» (Ibid., III, 203).
Nos escritos de Verónica encontramos muitas citações bíblicas, às vezes de modo indirecto, mas sempre claras: ela revela familiaridade com o Texto sagrado, do qual se nutre a sua experiência espiritual. Além disso, há que revelar que os momentos fortes da experiência mística de Verónica nunca estão separados dos acontecimentos salvíficos, celebrados na liturgia, onde ocupam um lugar particular a proclamação e a escuta da Palavra de Deus. Portanto, a Sagrada Escritura ilumina, purifica e confirma a experiência de Verónica, tornando-a eclesial. Mas por outro lado, precisamente a sua experiência, alicerçada na Sagrada Escritura com uma intensidade excepcional, guia a uma leitura mais profunda e «espiritual» do mesmo Texto, entra na profundidade escondida do texto. Ela não só se exprime com as palavras da Sagrada Escritura, mas também vive realmente destas palavras, que nela se tornam vivas.
Por exemplo, a nossa Santa cita com frequência a expressão do Apóstolo Paulo: «Se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Rm 8, 31; cf. Diário, I, 714; II, 116.1021; III, 48). Nela, a assimilação deste texto paulino, esta sua grande confiança e profunda alegria tornam-se um acontecimento completo na sua própria pessoa: «A minha alma — escreve — foi unida à vontade divina, e eu estabeleci-me verdadeiramente e fixei-me para sempre na vontade de Deus. Parecia que nunca mais me iria afastar desta vontade de Deus, e voltei a mim com estas palavras específicas: nada me poderá separar da vontade de Deus, nem angústias, nem penas, nem dificuldades, nem desprezos, nem tentações, nem criaturas, nem demónios, nem obscuridades, nem sequer a própria morte, porque na vida e na morte, desejo inteiramente, e em tudo, a vontade de Deus» (Diário, IV, 272). Assim, temos também a certeza de que a morte não é a última palavra, estamos fixos na vontade de Deus e assim, realmente, na vida para sempre.
Verónica revela-se, em particular, uma testemunha corajosa da beleza e do poder do Amor divino, que a atrai, permeia e inflama. É o Amor crucificado que se imprimiu na sua carne, como na de São Francisco de Assis, com os estigmas de Jesus. «Minha esposa — sussurrava-me Cristo crucificado — são-me preciosas as penitências que fazes por aqueles que estão em desgraça diante de mim... Depois, tirando um braço da cruz, fez-me sinal que me aproximasse do seu lado... E encontrei-me nos braços do Crucificado. Não posso descrever aquilo que senti naquele momento: queria estar sempre no santíssimo lado» (Ibid., I, 37). É também uma imagem do seu caminho espiritual, da sua vida interior: estar no abraço do Crucificado e assim permanecer no amor de Cristo pelos outros. Também com a Virgem Maria, Verónica vive uma relação de profunda intimidade, testemunhada pelas palavras que um dia ouve Nossa Senhora dizer, e que ela cita no seu Diário: «Fiz-te repousar no meu seio, recebeste a união à minha alma e por ela, como que em voo, foste levada diante de Deus» (IV, 901).
Santa Verónica Giuliani convida-nos a fazer crescer, na nossa vida cristã, a união com o Senhor no ser pelos outros, abandonando-nos à sua vontade com confiança completa e total, e a união com a Igreja, Esposa de Cristo; convida-nos a participar no amor sofredor de Jesus crucificado pela salvação de todos os pecadores; convida-nos a manter o olhar fixo no Paraíso, meta do nosso caminho terreno, onde viveremos juntamente com muitos irmãos e irmãs a alegria da plena comunhão com Deus; convida-nos a nutrir-nos quotidianamente da Palavra de Deus para aquecer o nosso coração e orientar a nossa vida. As últimas palavras da Santa podem considerar-se a síntese da sua apaixonada experiência mística: «Encontrei o Amor, o Amor deixou-se ver!». (cf. Santa Sé)

segunda-feira, 2 de julho de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM      

“…Já que sobressaís em tudo – na fé, na eloquência, na ciência,
 em toda a espécie de atenções e na caridade que vos ensinámos –
deveis também sobressair nesta obra de generosidade.
Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Ele, que era rico, fez-Se pobre por vossa causa,
para vos enriquecer pela sua pobreza…”(cf. 2 Coríntios 8, 7-9)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- síntese da catequese do Papa na Audiência-Geral, na Praça São Pedro, Roma, no dia 27 de Junho de 2018

O texto bíblico que narra a entrega dos Dez Mandamentos à humanidade começa com a seguinte frase: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair do Egipto, da casa da servidão» (Ex, 20,2). Com essas palavras, Deus nos ensina que, antes de transmitir a sua Lei, Ele quer que façamos experiência da sua acção redentora nas nossas vidas. Por isso, Deus se apresenta como o “nosso Deus”, não alguém distante, mas um Pai que nos ama e que enviou o Seu Filho Unigénito por amor. Com isso, descobrimos que o segredo do agir do cristão é o agradecimento. Assim, entendemos também o porquê de muitas pessoas terem dificuldade para acolher a fé cristã: às vezes, apresenta-se a Lei, as obrigações, antes da experiência da libertação. Por isso, é necessário fazer sempre memória de tudo o que Deus fez por nós. E aqueles que não fizeram experiência dessa libertação de Deus, devem fazer como fez o povo eleito: clamar para que sejam socorridos. Desse modo, faremos que a nossa vida cristã se converta numa verdadeira acção de graças ao “nosso Deus”, que é um Pai generoso. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 29

Refrão: Louvar-vos-ei, Senhor, porque me salvastes.

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes
e não deixastes que de mim se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da mansão dos mortos,
vivificastes-me para não descer ao túmulo.

Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis,
e dai graças ao seu nome santo.
A sua ira dura apenas um momento/
e a sua benevolência a vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas/
e ao amanhecer volta a alegria.

Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim,
Senhor, sede Vós o meu auxílio.
Vós convertestes em júbilo o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.

SANTOS POPULARES



BEATO PEDRO TO ROT

Pedro nasceu em 1912, no distrito de Rakunai, próximo da capital da Nova Bretanha (hoje, Papua-Nova Guiné). Originário de uma família profundamente cristã, recebeu dos próprios pais os elementos fundamentais da fé e a instrução religiosa. Aluno exemplar e assíduo na prática religiosa, distinguiu-se, desde a juventude, pela sua profunda piedade. Inscreveu-se no curso de catequese, a fim de tornar-se um válido colaborador na obra da evangelização, do meio em que vivia.
Em Novembro de 1936, casou-se com Paula La Varpit. Desse matrimónio nasceram três filhos. Os deveres familiares não o impediam de desempenhar a função de catequista. Pedro, inspirado pela sua fé em Cristo, foi um esposo devotado, um pai amoroso e um catequista empenhado. Era conhecido pela sua gentileza, cordialidade e compaixão. A Missa quotidiana e a Sagrada Comunhão, além das frequentes visitas a Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento, sustentaram-no e deram-lhe a sabedoria para aconselhar aqueles que haviam perdido a esperança, como também lhe deram a coragem de perseverar até a morte. O seu testemunho do Evangelho inspirou a outros, em situações muito difíceis, porque ele vivia a sua vida cristã com grande alegria e pureza. Sem o saber, preparou-se, durante toda a vida, para o maior dom: renunciando a si mesmo todos os dias, caminhou com o seu Senhor ao longo da estrada que conduz ao calvário.
A aldeia de Rakunai foi ocupada, durante a Segunda Guerra Mundial, por tropas japonesas. Os sacerdotes foram aprisionados. Pedro assumiu a responsabilidade da vida espiritual dos habitantes de Rakunai. Não só continuou a instruir os fiéis e visitar os doentes, mas baptizou, assistiu aos matrimónios, orientou o povo na oração e socorreu os pobres.
Pedro foi um marido muito devotado. Tratava a sua esposa, Paula, com profundo respeito. Rezava com ela todas as manhãs e todas as noites. Viveu profeticamente a recomendação do Evangelho, segundo a qual os esposos se sujeitam um ao outro no temor de Cristo. Foi, também, um pai amoroso, que honrava os seus filhos. Nutria por eles um afecto profundo. E passava com eles o maior tempo possível.
Pedro tinha muita estima e alta consideração pelo matrimónio. Não obstante o grande risco pessoal e a oposição de muitos, defendeu o ensinamento da Igreja sobre a unidade matrimonial e sobre a necessidade de fidelidade recíproca. Quando as autoridades legalizaram e encorajaram a poligamia, Pedro To Rot, sabendo que isto era contra os princípios cristãos, denunciou, firmemente, esta prática. Graças ao Espírito Santo, que habitava nele, proclamou, de modo corajoso, a verdade acerca da santidade do matrimónio. Recusou o caminho mais fácil de pactuar com o mal. “Devo cumprir o meu dever como testemunha da Igreja de Jesus Cristo”, explicou. O temor do sofrimento e da morte não o deteve.
Crescendo, cada vez mais, a atitude hostil dos japoneses, Pedro To Rot chegou a ser preso. Mas, depois de alguns dias de detenção, foi libertado. Em Abril de 1945, foi novamente preso, por causa de uma denúncia falsa. Condenado a dois meses de prisão, quando já estava prestes a deixar a prisão, um médico militar aplicou-lhe uma injecção letal. Era o dia 7 de Abril de 1945. Durante o período do seu último aprisionamento, Pedro permaneceu sereno, até mesmo alegre. Disse às pessoas que estava pronto a morrer pela fé e pelo seu povo. No dia da sua morte, Pedro pediu à sua esposa que lhe trouxesse o seu crucifixo de catequista. Esta cruz acompanhou-o até o fim. Pedro morreu mártir, em defesa da fé e como testemunho fiel de seu ardente apostolado, na obra da evangelização.
Em Pedro To Rot os fiéis têm um mestre da santidade do matrimónio e da família. Confirmou a sua pregação com o seu sangue. A morte de Pedro foi decidida, sobretudo, devido à sua inflexível defesa da dignidade sacramental do matrimónio.
Pedro To Rot foi beatificado pelo Papa João Paulo II durante a solene concelebração eucarística, no dia 17 de Janeiro de 1995. A Missa foi rezada em Port Moresby, capital da Papua-Nova Guiné. Estavam presentes a esposa e uma filha do Beato Pedro Rot. No ofertório da missa, elas apresentaram alguns dons ao Papa. Na Homilia, o Papa disse: “… O primeiro Beato da Papua – Nova Guiné abre uma nova era na história do Povo de Deus neste país. O martírio sempre fez parte da peregrinação do Povo de Deus através da história. (…) Hoje, o vosso concidadão, Pedro To Rot, um humilde filho do povo Tolai, um catequista da Nova Bretanha, entrou a fazer parte do número dos felizes. A Igreja eleva o seu louvor ao Senhor por este novo dom. (…) O Beato Pedro compreendeu o valor do sofrimento. Inspirado pela sua fé em Cristo, foi um marido devoto, um pai amoroso e um catequista empenhado, conhecido pela sua cordialidade, a sua gentileza e a sua compaixão. (…)
Nos tempos da perseguição, a fé das pessoas e das comunidades ‘prova-se com o fogo’. Cristo disse-nos que não há motivo para ter medo. Os que forem perseguidos por causa da sua fé serão mais eloquente que nunca: ‘de facto, não sereis vós a falar mas é o Espírito do vosso Pai que falará em vós’ (Mt. 10, 20). Foi assim com o Beato Pedro To Rot. (…)
Condenado sem julgamento, suportou, tranquilamente, o seu martírio. Seguindo as pegadas do seu Mestre, ‘o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’ também ele foi ‘conduzido ao matadouro como um cordeiro’. E, como o grão de trigo que caiu, silenciosamente, na terra, ele produziu uma seara de bênçãos para a Igreja da Papua – Nova Guiné. (…)
O exemplo deste Mártir fala, também, aos esposos... Se as famílias são boas, os vossos países serão pacíficos e bons. Permanecei fiéis às tradições que defendem e reforçam a vida familiar!...”
A memória litúrgica do Beato Pedro To Rot celebra-se no dia 7 de Julho.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XII DOMINGO DO TEMPO COMUM
         SOLENIDADE DO NASCIMENTO DE SÃO JOÃO BAPTISTA

“…O Senhor chamou-me desde o ventre materno,
disse o meu nome desde o seio de minha mãe.
Fez da minha boca uma espada afiada,
abrigou-me à sombra da sua mão.
Tornou-me semelhante a uma seta aguda,
guardou-me na sua aljava.
E disse-me: «Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória»…” (cf. Isaías 49, 1-3)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça São Pedro, Roma, no dia 20 de Junho de 2018

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Esta audiência realiza-se em dois lugares: nós, aqui na praça; e, na sala Paulo VI, há mais de 200 doentes, que acompanham a audiência através do grande ecrã. Todos juntos formamos uma comunidade. Saudemos com um aplauso quantos estão na Sala.
Na quarta-feira passada, demos início a um novo ciclo de catequeses sobre os mandamentos. Vimos que o Senhor Jesus não veio para abolir a Lei, mas para a cumprir. Contudo, devemos entender melhor esta perspectiva.
Na Bíblia, os mandamentos não vivem por si sós, mas fazem parte de um relacionamento, de uma relação. O Senhor Jesus não veio para abolir a Lei, mas para a cumprir. Existe esta relação de Aliança entre Deus e o seu Povo. No início do capítulo 20, do livro do Êxodo, lemos - e isto é importante - «Deus pronunciou todas estas palavras» (v. 1).
Parece uma abertura como outras mas, na Bíblia, nada é banal. O texto não diz: “Deus pronunciou estes mandamentos”, mas «estas palavras». A tradição judaica chamará sempre ao Decálogo “as dez Palavras”. E o termo “decálogo” quer dizer exactamente isso. Contudo, têm forma de leis, objectivamente são mandamentos. Portanto, por que o Autor sagrado usa, precisamente aqui, o termo “dez palavras”? Por que não diz “dez mandamentos”?
Que diferença existe entre um ‘mando’ (uma ordem) e uma palavra? O ‘mando’ é uma comunicação que não requer o diálogo. A palavra, ao contrário, é o meio essencial do relacionamento como diálogo. Deus Pai cria por meio da sua palavra; e o seu Filho é a Palavra que se fez carne. O amor alimenta-se de palavras, como também a educação ou a colaboração. Duas pessoas que não se amam, não conseguem comunicar-se. Quando alguém fala ao nosso coração, a nossa solidão acaba. Recebe uma palavra, verifica-se a comunicação; e os mandamentos são palavras de Deus: Deus comunica-se nestas dez Palavras e aguarda a nossa resposta.
Uma coisa é receber uma ordem; outra coisa é sentir que alguém procura falar connosco. Um diálogo é muito mais que a comunicação de uma verdade. Eu posso dizer-vos: “Hoje, é o último dia de primavera, primavera quente; mas, hoje, é o último dia”. Esta é uma verdade, não um diálogo. Mas, se eu vos disser: “Que pensais desta primavera?”, começo um diálogo. Os mandamentos são um diálogo. A comunicação realiza-se pelo prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica entre aqueles que se amam por meio das palavras. É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias pessoas que se doam, reciprocamente, no diálogo (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 142).
Mas, esta diferença não é algo artificial. Vejamos o que aconteceu, no início. O tentador, o diabo, quer enganar o homem e a mulher neste ponto: quer convencê-los de que Deus lhes proibiu comer o fruto da árvore do bem e do mal, para os manter submissos. O desafio consiste exactamente nisto: a primeira norma que Deus ofereceu ao homem foi a imposição de um déspota que proíbe e obriga, ou foi o esmero de um pai que cuida dos seus filhos e os protege contra a autodestruição? É uma palavra, ou uma ordem? A mais trágica das várias mentiras que a serpente diz a Eva é a sugestão de uma divindade invejosa: “Mas não, Deus é invejoso de vós”; de uma divindade possessiva: “Deus não quer que tenhais liberdade”. Os acontecimentos demonstram dramaticamente que a serpente mentiu (cf. Gn 2, 16-17; 3, 4-5), levando a crer que uma palavra de amor fosse uma ordem.
O homem está diante desta encruzilhada: Deus impõe-me as coisas, ou cuida de mim? Os seus mandamentos são apenas uma lei, ou contêm uma palavra, para cuidar de mim? Deus é patrão ou Pai? Deus é Pai: nunca vos esqueçais disto! Até nas situações mais negativas, pensai que temos um Pai que ama todos nós. Somos vassalos ou filhos? Este combate, dentro e fora de nós, apresenta-se continuamente: temos de escolher, muitas vezes, entre uma mentalidade de escravos e uma mentalidade de filhos. A ordem é do patrão; a palavra é do Pai.
O Espírito Santo é um Espírito de filhos; é o Espírito de Jesus. Um espírito de escravos não pode deixar de receber a Lei de modo opressivo, e pode produzir dois resultados opostos: ou uma vida feita de deveres e de obrigações, ou então uma reacção violenta de rejeição. O Cristianismo é a passagem da letra da Lei para o Espírito que vivifica (cf. 2 Cor 3, 6-17). Jesus é a Palavra do Pai, não a condenação do Pai. Jesus veio para salvar com a sua Palavra, não para nos condenar.
Vê-se quando um homem ou uma mulher vivem ou não esta passagem. As pessoas dão-se conta quando o cristão raciocina como filho ou como escravo. E, nós mesmos, recordamos se os nossos educadores cuidaram de nós como pais e mães, ou se somente nos impuseram regras. Os mandamentos são o caminho para a liberdade, porque constituem a palavra do pai que nos liberta neste caminho.
O mundo não tem necessidade de legalismo, mas de cuidado. Precisa de cristãos com coração de filhos. Há necessidade de cristãos com coração de filhos: não vos esqueçais disto! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 138

Refrão: Senhor, eu Vos dou graças por tantas maravilhas!
             As vossas obras são admiráveis.

Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser:
sabeis quando me sento e quando me levanto.
De longe penetrais o meu pensamento:
Vós me vedes quando caminho e quando descanso,
Vós observais todos os meus passos.

Vós formastes as entranhas do meu corpo
e me criastes no seio de minha mãe.
Eu Vos dou graças por me terdes feito tão maravilhosamente:
admiráveis são as vossas obras.

Vós conhecíeis já a minha alma
e nada do meu ser Vos era oculto,
quando secretamente era formado,
modelado nas profundidades da terra.

SANTOS POPULARES



BEATA MARIA ASSUNTA MARCHETTI
           
Maria Assunção (Assunta) Catarina Marchetti nasceu em Lombrici di Camaiore, província de Lucca, na região da Toscana, Itália, no dia 15 de Agosto de 1871, e foi baptizada, no dia seguinte, na paróquia Santa Maria Assunta, que ficava ao lado da casa da família.
De acordo com os documentos históricos, os seus pais, Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci, eram moleiros. O trabalho da moagem garantia o sustento da família como também a moradia. Os pais sempre contaram com a ajuda de Maria Assunção para cuidar dos outros 10 irmãos, pois a sua mãe tinha uma saúde muito frágil.
Desde jovem, Maria Assunção sentia-se chamada a uma vida de total dedicação e de doação a Deus, na vida religiosa contemplativa. Mas as tarefas domésticas, a doença da mãe e a morte prematura do pai impediram-na de realizar, imediatamente, as suas aspirações.
No final do séc. XIX, muitos italianos deixaram a Itália e imigraram para as Américas, especialmente para o Brasil. O irmão de Maria Assunção, José Marchetti, entrou no Seminário de Lucca e foi ordenado sacerdote, em 1892. Foi nomeado pároco de Compignano, na diocese de Lucca, e constatou que a maioria dos seus paroquianos deixavam a Itália, em busca de uma vida melhor, capaz de lhes oferecer melhores condições de sobrevivência. Então, de sacerdote diocesano passou a ser missionário de São Carlos Borromeu, congregação fundada em 1887 pelo Bispo de Piacenza, o Beato João Baptista Scalabrini que, compadecido dos imigrantes italianos, organizou um grupo de missionários para os acompanhar os nas suas viagens que, na época, não eram nada fáceis.
O Padre José passou a ser capelão dos navios que transpotavam os imigrantes. Durante as viagens da Itália para o Brasil, atendia e servia os imigrantes, administrando os Sacramentos, inclusive as exéquias para os que morriam e eram lançados ao mar.
Numa dessas viagens, uma jovem mãe morreu a bordo do navio, deixando órfã uma filha pequena e o marido desesperado. O pai deixou a bebé aos cuidados do Padre José que assumiu a responsabilidade de cuidar da menina. Ao desembarcar no Brasil, o Padre José procurou encontrar, imediatamente, um orfanato onde pudesse deixar a criança. A partir deste facto, ele entendeu que a sua missão não era a de ser capelão de navios, mas de cuidar dos órfãos, filhos dos imigrantes italianos e africanos que viviam na cidade de São Paulo.
Em 1895, o Padre José construiu dois orfanatos, em São Paulo: um no alto do Ipiranga e outro na Vila Prudente. Com tantos órfãos para cuidar, voltou a Itália e convenceu a sua irmã, Maria Assunção, a ir com ele para o Brasil, para ajudar a cuidar das crianças. Juntamente com a sua mãe e duas jovens amigas, Maria Assunção foi apresentada ao Bispo D. Scalabrini.
Em 25 de Outubro de 1895, Maria Assunção, o seu irmão e as suas duas amigas emitiram os primeiros votos religiosos, numa celebração presidida por D. João Baptista Scalabrini, fundador da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo - chamadas Scalabrinianas – dando origem às "Servas dos Órfãos e Abandonados".
No dia 27 de Outubro, partiram para o Brasil como missionários entre os imigrantes e nunca mais voltaram a Itália, fazendo do Brasil a sua pátria.
Ao chegarem a São Paulo, dedicaram-se ao cuidado dos órfãos e dos imigrantes italianos afectados pela febre tifoide e pela difteria. O Padre José Marchetti morreu aos 27 anos, vítima da febre tifoide, doença muito comum entre os imigrantes, naquele período.
O orfanato tinha como objectivo ser um ambiente familiar para os pequenos que tinham perdido os pais nos trajectos da imigração e no trabalho nas fazendas de café. Eram órfãos italianos e africanos; e todos eram bem acolhidos. Assunção dedicou-se ao próximo com heroísmo e não media esforços quando se tratava de atender o mais necessitado.
“O primeiro doente da Santa Casa de Monte Alto, em São Paulo, foi um homem negro, mendigo. A Madre Assunção compadeceu-se dele porque estava sozinho na enfermaria, quando não havia ainda enfermeiros. Colocou uma cama no fundo do corredor, do lado oposto do doente, e dormiu ali algumas noites para poder atendê-lo logo que chamasse. Via Cristo no irmão pobre, sofrido ou doente”, contou a Irmã Afonsina Salvador que conviveu com a Madre Assunção. “Tudo o que acontece é bom, porque vem de Deus”, dizia, sempre a Madre Assunção, como que fazendo ecoar o mesmo pensamento do seu irmão José, que em todos os acontecimentos dizia: “Deo gratias”! (graças a Deus)
Uma ferida grave, na perna, provocada durante a visita a um doente, causou-lhe longos anos de sofrimento. A Madre Assunção passou os últimos meses da sua vida numa cadeira de rodas, mas sempre atenta em servir o próximo. Morreu no dia 1 de Julho de 1948, no meio dos órfãos, no Orfanato da Vila Prudente – São Paulo, hoje, a “Casa Madre Assunção Marchetti”, onde se encontram os seus restos mortais.
A Madre Assunção Marchetti é considerada a cofundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas.
Foi beatificada no dia 25 de Outubro de 2014, pelo Papa Francisco, numa cerimónia realizada na Catedral de São Paulo, presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, na presença do Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Ângelo Amato, em representação do Papa. Na homilia, o Cardeal Odilo disse: “…Assunta (Assunção) Marchetti, foi uma cristã extraordinária, que viveu de maneira exemplar a fé, a esperança e a caridade; ela (…) testemunhou a caridade de Cristo para com os órfãos, migrantes e demais pessoas necessitadas. (…)
A bem-aventurada Assunta foi uma mulher muito forte e empreendedora; como jovem, nada lhe faltava para ter uma boa posição na sua comunidade local, na Itália. No entanto, motivada pela sua fé em Deus e pelo amor ao próximo, abandonou tudo, inclusive a sua pátria e as seguranças que tinha, para seguir a vocação religiosa e missionária, dedicando a vida aos migrantes, sobretudo os pobres e os doentes, os órfãos e os desamparados… Para eles, ela foi “mãe” solícita, que, como a mulher descrita na 1ª. leitura, trabalhou muito para não lhes deixar faltar nada… A sua vida foi inteiramente orientada pela caridade de Cristo, que ardia no seu coração, e que a ajudava a ver, em cada pessoa, um filho de Deus, um irmão e uma irmã, imagem e semelhança do próprio Jesus Cristo. (…)
A bem-aventurada Assunta Marchetti deixou-nos um testemunho de caridade. Na sua doação aos órfãos e aos pobres, ela não buscou vantagens pessoais e, por isso, também conseguiu mover tantas pessoas a colaborarem com ela - quer as irmãs que se uniam à Congregação que ela ajudou a fundar, quer os leigos e as comunidades locais - na busca de servir os irmãos. “Seria como o bronze que soa ou o sino que retine”… Os santos ensinam-nos, com o testemunho da sua vida, a viver a caridade de modo autêntico.
Assunta Marchetti não viveu somente segundo as bem-aventuranças - consagrando-se inteiramente a Deus, na vida religiosa - mas ainda dedicou a sua vida inteira ao bem do próximo…”
A memória litúrgica da Beata Assunção Marchetti celebra-se no dia 1 de Julho.