PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“… todos conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros…” (cf. João 13, 35)

Os cristãos vivem no esforço permanente de identificação com Cristo. Escutando a sua voz, acolhendo os seus ensinamentos, integrando os seus sentimentos, procuram mostrar, com a vida, a inteira fidelidade ao Seu amor. Jesus desafia os seus amigos a viver um autêntico amor: a Deus e aos outros. A vida sem amor seria um desastre, um vale de lágrimas, um terror infindável, um atalho sem saída. No amor, encontramos a dedicação, a entrega, a harmonia, a alegria e a paz… Marca característica do ser cristão, amarmo-nos uns aos outros é o sinal mais verdadeiro da nossa união a Cristo, integrando o perdão, a misericórdia, a simplicidade, o acolhimento, o respeito e a caridade. Amar até dar a vida!... Caminho difícil, mas meta da felicidade.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

DA PALAVRA DO SENHOR



- V DOMINGO DE PÁSCOA       

“…Ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia:
«Esta é a morada de Deus entre os homens.
Ele habitará com eles; eles serão o seu povo
e o próprio Deus estará com eles, será o seu Deus.
Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;
e não haverá mais morte nem luto, nem pranto, nem dor,
porque as primeiras coisas passaram».
O que estava sentado no trono afirmou:
«Eu renovo todas as coisas»…”
(cf. Apocalipse 21, 3-5)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 15 de Maio de 2019

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Eis-nos chegados, por fim, ao sétimo pedido do “Pai-Nosso”: «Mas livrai-nos do mal» (Mt 6, 13b). Com esta expressão, quem reza pede não só para não ser abandonado no tempo da tentação, mas também suplica para ser libertado do mal. O verbo grego original é muito forte: evoca a presença do maligno que procura prender-nos e morder-nos (1 Pd, 5,8) e do qual se pede a Deus a libertação.
O apóstolo Pedro diz, também, que o maligno, o diabo, está à nossa volta como um leão furioso pronto a devorar-nos, e nós pedimos a Deus para nos livrar dele.
Com esta dupla súplica: “Não nos deixeis” e “livrai-nos”, salienta-se uma característica essencial da oração cristã. Jesus ensina aos seus amigos a colocar a invocação do Pai em todas as circunstâncias, também e especialmente nos momentos em o maligno faz sentir a sua presença ameaçadora. De facto, a oração cristã não fecha os olhos à vida. É uma oração filial e não uma oração infantil. Não está tão presunçosa da paternidade de Deus, que esquece que o caminho do homem está cheio de dificuldades. Se não existissem os últimos versículos do “Pai-Nosso”, como poderiam rezar os pecadores, os perseguidos, os desesperados, os moribundos? O último pedido é, de facto, o nosso pedido quando estamos no limite, sempre.
Há um mal na nossa vida que é uma presença incontestável. Os livros de história são um catálogo sombrio de como a nossa existência neste mundo tem sido uma aventura, muitas vezes, desastrosa. Há um mal misterioso que, seguramente, não é obra de Deus, mas que penetra, silenciosamente, nos caminhos da história. Silencioso como a serpente que carrega o veneno, silenciosamente. Nalguns momentos, parece levar vantagem: em certos dias, sua presença parece, até, mais nítida do que a da misericórdia de Deus.
Aquele que reza não é cego e vê, nitidamente, diante dos seus olhos, este mal tão embaraçante e tão em contradição com o próprio mistério de Deus. Vê-o na natureza, na história e, até, no seu coração. Porque não há ninguém, entre nós, que possa dizer que está livre do mal, ou, pelo menos, de não ser tentado por ele. Todos nós sabemos o que é mal; todos nós sabemos o que é a tentação; todos nós experimentámos, na nossa carne, a tentação, de qualquer pecado. Mas é o tentador que nos move e nos leva ao mal, dizendo-nos: “faz isto; pensa isto; vai por aquele caminho”.
O último grito do “Pai-Nosso” é lançado contra este mal “de amplas abas”, que tem sob a sua sombra as mais diversas experiências: os lutos do homem, a dor inocente, a escravidão, a instrumentalização do outro, o choro das crianças inocentes. Todos esses acontecimentos protestam no coração do homem e tornam-se voz, na última palavra da oração de Jesus.
É, precisamente, nos relatos da Paixão que algumas expressões do “Pai-Nosso” encontram o seu eco mais impressionante. Jesus diz: “Abbá! Pai! Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc 14,36). Jesus experimenta, plenamente, a ferida do mal. Não só a morte, mas a morte de cruz. Não só a solidão, mas também o desprezo, a humilhação. Não só a aversão, mas também a crueldade, o ódio contra Ele. Eis o que é o homem: um ser dedicado à vida, que sonha com o amor e o bem, mas que, depois, expõe-se a si mesmo - e aos seus semelhantes - ao mal, a tal ponto que podemos ser tentados a perder a esperança no homem.
Queridos irmãos e irmãs, assim o “Pai-Nosso” assemelha-se a uma sinfonia que pede para ser executada em cada um de nós. O cristão sabe quão subjugante é o poder do mal; mas, ao mesmo tempo, faz a experiência de que Jesus, que nunca cedeu às suas seduções, está do nosso lado e vem em nosso auxílio.
Assim, a oração de Jesus deixa-nos a mais preciosa das heranças: a presença do Filho de Deus que nos libertou do mal, lutando para o converter. Na hora do combate final, ordenou a Pedro que metesse a espada na bainha; ao ladrão arrependido assegurou o paraíso; a todos os homens que estavam ao seu redor, inconscientes da tragédia que se estava a consumar, ofereceu uma palavra de paz: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem “(Lc 23,34).
Do perdão de Jesus, na cruz, brota a paz; a verdadeira paz vem da cruz: é dom do Ressuscitado, um dom que Jesus nos dá. Pensai que a primeira saudação do Jesus ressuscitado é: “A paz esteja convosco”; paz para as vossas almas, para os vossos corações, para as vossas vidas. O Senhor dá-nos a paz; dá-nos o perdão; mas, nós devemos pedir: “Livrai-nos do mal”, para não cairmos no mal. Esta é a nossa esperança, a força que Jesus Ressuscitado nos dá, Ele que está aqui, no meio de nós. Está aqui!... Está aqui com aquela força que nos dá para seguirmos em frente e promete-nos libertar-nos do mal. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 144

Refrão: Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

Graças Vos dêem, senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.

Para darem a conhecer aos homens o vosso poder,
a glória e o esplendor do vosso reino.
O vosso reino é um reino eterno,
o vosso domínio estende-se por todas as gerações.

SANTOS POPULARES

SANTA MADALENA SOFIA BARAT


Madalena Sofia Barat nasceu na noite do dia 12 de Dezembro de 1779, em Joigny, na Borgonha, França, filha de Jacques Barat e de Madeleine Fouffé Barat. Nasceu prematura, devido a um incêndio assustador que arrasou a casa vizinha àquela em que moravam os seus pais. A sua mãe quase perdeu a vida e Madalena, na iminência de morte, foi baptizada às cinco horas da manhã do dia 13, na Igreja de São Teobaldo, que ficava a poucos metros da casa da família Barat. Embora os seus pais tivessem já escolhido os seus padrinhos, sendo impossível contactá-los àquela hora, pediram a Luísa Sofia Cédor, uma mulher da aldeia que ia para a missa, que fosse a madrinha. O padrinho foi o seu irmão Luís, de apenas doze anos, mas profundamente ligado à vivência dos ensinamentos cristãos.
A família de Madalena exercia uma actividade económica ligada, sobretudo, à vinha e ao bosque. Pertencia à pequena burguesia rural, em ascensão social naquela época, e compreendia a importância dos estudos.
Madalena Sofia era magra, de baixa estatura para sua idade, e era obrigada a subir a um banco para poder ver o pároco quando ensinava o catecismo às crianças. Todavia, embora fosse fragil fisicamente, tinha uma extraordinária força interior, que a tornava diferente das crianças da sua idade. Tímida por natureza, as suas primeiras reacções eram bastante impulsivas. Tinha sempre resposta pronta, na ponta da língua e, muitas vezes, respondia com palavras mordazes. Gostava das diversões, e dos passeios pelos bosques e colinas. Era dócil com os que a rodeavam e demonstrava o seu afecto com gestos de grande espontaneidade.
Desde pequena, aprendia as orações com facilidade e era sempre a primeira nas aulas de catecismo. O seu irmão e padrinho, estudante de teologia, foi ordenado subdiácono (Nota: este degrau, no caminho para a ordenação sacerdotal, já não existe) e nomeado professor da escola de Ivigny. Assumindo, de verdade, o seu compromisso baptismal, Luís levou consigo a sua irmã, para melhor a preparar para a vida. Percebendo que Madalena aprendia com rapidez as matérias, Luís passou a ensinar-lhe, também, História antiga e moderna, Sagrada Escritura, latim, grego, noções de italiano e de espanhol, e uns rudimentos de hebraico.
Em 1789, com dez anos, Madalena fez a sua Primeira Comunhão. Era piedosa e fervorosa, participando, diariamente, na celebração da Missa, na sua paróquia. Aos 14 anos, decidiu fazer voto de virgindade, consagrando o seu coração a Jesus.
Algum tempo antes, a família Barat – que aderira às teorias do bispo Ypres, Cornélio Jansénio – decidiu abandonar o jansenismo - [é uma doutrina religiosa, inspirada nas ideias do bispo de Ypres, que se transformou num movimento tem carácter dogmático, moral e disciplinar, que assumiu, também, contornos políticos, e se desenvolveu principalmente em França e na Bélgica, nos séculos XVII e XVIII, no seio da Igreja Católica, que considerou as suas teorias controversas e contrárias à fé católica] - graças à mediação de Luís Barat, que tinha comprado, em Paris, durante uma das suas idas à capital, umas imagens do Coração de Jesus e do Coração de Maria. Era diante destas duas imagens que a família se reunia para a oração diária.
A Revolução Francesa perturbou a paz da família, do país, da Igreja Católica, do mundo... Igrejas e conventos foram fechados. Os cárceres encheram-se de sacerdotes e religiosos. Os bens dos Barat foram confiscados. Luís foi preso, em Maio de 1793, e livrou-se da guilhotina por milagre.
Madalena Sofia demonstrou a sua força de carácter ajudando a sua mãe a recuperar o ânimo. Porém, ela mesma ficou tão marcada pela perversidade da perseguição aos católicos franceses que criou uma enorme repulsa pela Revolução Francesa, que denominou como um “tempo de ódio contra Jesus Cristo”. Ainda em 1840, só de ouvir cantar o Hino ‘A Marselhesa’ tremia de raiva incontida; e, em 1848, associava todas as manifestações populares ao período revolucionário do “Terror”.
Depois de Luís Barat ter sido libertado, em 1795, foi ordenado sacerdote e foi para Paris, acompanhado de Madalena, onde, clandestinamente, exercia o seu ministério e celebrava a Santa Missa. Madalena, às escondidas, ensinava catecismo às crianças do bairro e continuava a fazer a sua formação religiosa e profana, rodeada de algumas jovens, com as quais começou um ensaio de vida em comum.
Trabalhando na reconstrução da Igreja aniquilada pela revolução, Madalena confiou a sua orientação religiosa ao sábio e famoso Padre José Varin, que lhe tinha sido apresentado pelo seu irmão Padre Luís. Este sacerdote partilhou com ela o projecto de fundar uma congregação religiosa, dedicada ao ensino e à educação, inspirada pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O Padre Varin escreveu acerca do seu primeiro encontro com Madalena: ‘…Encontrei uma jovem de temperamento muito delicado, extremamente modesta e com uma grande timidez. Que pedra fundamental!... disse a mim mesmo, respondendo ao sentimento interior que experimentei quando o seu irmão me falou dela a primeira vez…Era sobre ela que Deus queria levantar o edifício da Sociedade do seu Divino Coração…’
Percebendo as necessidades da época e motivada pela novidade do projecto, Madalena, iluminada pelo Espírito de Deus, aceitou, humildemente, ajudá-lo nesta missão, embora cheia de desconfiança nas suas capacidades e na sua coragem: “Aceito tudo, sem compreender nem prever nada”.
O Padre Varin preparou para Sofia uma espécie de noviciado, ao qual se uniram Octávia Bailly, uma sua companheira de estudos que partilhava o seu gosto pela oração, a jovem senhora Loquet, habitante das redondezas, muito devota e Margarida, criada da senhora Duval.
A Congregação do Sagrado Coração de Jesus - que tinha por objectivo o ensino gratuito de meninas pobres - foi fundada em 21 de Novembro de 1800. Juntamente com outras companheiras, Madalena tomou o hábito da congregação, na capela da Rua Touraine, diante de um quadro de Nossa Senhora. Apesar de ser a mais jovem - tinha apenas 23 anos - foi nomeada superiora desta nova congregação. Em seguida, a Irmã Madalena Sofia partiu para Amiens, para ensinar numa escola que, algum tempo depois, se tornou o primeiro convento da congregação.
A Congregação do Sagrado Coração de Jesus rapidamente reuniu mais seguidoras. Mas, também, enfrentou muitas dificuldades, até obter a aprovação canónica definitiva. Para manter as escolas gratuitas, Madalena criava-as aos pares: uma, para as meninas pobres; e outra, para as de classe média-alta, que custeava a primeira. Assim, foi espalhando o carisma e a vocação da sua congregação. As Irmãs da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, em resposta ao convite de Cristo, abriram a sua actividade à dimensão missionária da Igreja e partiram em Missão: missionárias enviadas pelo mundo.
A Madre Madalena Sofia percorreu a França em todas as direcções - e do mesmo modo a Suíça e a Itália - para difundir a Instituição e atender aos necessitados. O talento da sua firmeza e coragem; a sua formação e o seu saber pouco comuns; a sua vontade indomável e o seu coração de mãe; as suas virtudes austeras e profundas, granjearam-lhe fama, em todas as classes sociais. Falava com nobres e príncipes, pobres e trabalhadores, sábios e ignorantes, bispos e cardeais…
Quando, na Congregação não estava ainda estabelecida o regime de clausura, Madalena Sofia ia, volta e meia, à sua aldeia natal de Joigny. Costumava convidar, para a acompanhar, uma das religiosas de origem mais aristocrática, para que esta ficasse a conhecer a pobreza da casa em que nascera.
Um grande senhor encontrou-a, um dia, com a vassoura na mão e interpelou-a: ‘Que faz, Madre- Geral?’ Ela respondeu: ‘ Senhor Duque, o que teria feito durante toda a vida se tivesse ficado no lugar que me toca’. Um bispo que a conhecia bem, disse dela: ‘A Madre Barat é a revelação da humildade’.
Ao longo de 63 anos, a Madre Madalena Barat fundou 122 escolas, em 16 países. Como não podia visitar tantas fundações, mantinha permanente contacto com elas, através das inúmeras cartas que escrevia. Encarregava-se, também, da administração da Casa-Mãe e de atender as visitas que chegavam para pedir-lhe conselho. Numa das suas cartas escreveu: “O trabalho excessivo é um perigo para as almas imperfeitas; porém as perfeitas obtêm, por esse meio, uma rica colheita”.
Em Dezembro de 1826, o Papa Leão XII aprovou oficialmente a Sociedade do Sagrado Coração. Em 1864, aos 85 anos de idade, a Madre Barat pediu ao Conselho-Geral da Congregação que permitisse que renunciasse ao seu cargo. A assembleia, porém, não atendeu o seu pedido, mas nomeou uma vigária-adjunta para a ajudar nos trabalhos da administração.
No dia 21 de Maio de 1865, estando na casa de Paris, a Madre Madalena Sofia anunciou à comunidade a sua morte próxima, com estas palavras: “Apresso-me a vir hoje, pois na quinta-feira vamos para o Céu”.
Efectivamente, sofreu um ataque e no dia 25 de Maio de 1865, Festa da Ascensão do Senhor, carregada de méritos e trabalhos pela glória do Coração de Jesus, beijando o Crucifixo, a Madre Madalena Sofia Barat entregou sua alma a Deus.
Vários milagres e muitas conversões aconteceram logo depois do seu falecimento, atribuidos à sua intercessão.
Madalena Sofia Barat, religiosa da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, foi beatificada pelo Papa São Pio X, em 24 de Maio de 1908. Foi canonizada, no dia 24 de Maio de 1925, pelo Papa Pio XI.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 25 de Maio.

sábado, 11 de maio de 2019

EM DESTAQUE



- DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES:
  MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

Queridos irmãos e irmãs!
Depois da experiência vivaz e fecunda, em Outubro passado, do Sínodo dedicado aos jovens, celebramos, recentemente, no Panamá a XXXIV Jornada Mundial da Juventude. Dois grandes eventos que permitiram à Igreja prestar ouvidos à voz do Espírito e também à vida dos jovens, aos seus interrogativos, às canseiras que os sobrecarregam e às esperanças que neles vivem.
Neste Dia Mundial de Oração pelas Vocações, retomando precisamente aquilo que pude partilhar com os jovens no Panamá, desejo reflectir sobre a chamada do Senhor, enquanto nos torna portadores duma promessa e, ao mesmo tempo, nos pede a coragem de arriscar com Ele e por Ele. Quero deter-me brevemente sobre estes dois aspectos – a promessa e o risco –, contemplando, juntamente convosco, a cena evangélica da vocação dos primeiros discípulos, junto do lago da Galileia (cf. Mc 1, 16-20).
Dois pares de irmãos – Simão e André, juntamente com Tiago e João – estão ocupados na sua faina diária de pescadores. Nesta cansativa profissão, aprenderam as leis da natureza, desafiando-as quando os ventos eram contrários e as ondas agitavam os barcos. Em certos dias, a pesca abundante recompensava da árdua fadiga, mas, outras vezes, o trabalho duma noite inteira não bastava para encher as redes e voltava-se para a margem cansados e desiludidos. Estas são as situações comuns da vida, onde cada um de nós se confronta com os desejos que traz no coração, se empenha em actividades que – espera – possam ser frutuosas, se adentra num «mar» de possibilidades sem conta à procura da rota certa, capaz de satisfazer a sua sede de felicidade. Às vezes, goza-se duma pesca boa, enquanto noutras é preciso armar-se de coragem para governar um barco sacudido pelas ondas, ou lidar com a frustração de estar com as redes vazias.
Como na história de cada vocação, também neste caso acontece um encontro. Jesus vai pelo caminho, vê aqueles pescadores e aproxima-Se... Sucedeu assim com a pessoa que escolhemos para compartilhar a vida no matrimónio, ou quando sentimos o fascínio da vida consagrada: vivemos a surpresa dum encontro e, naquele momento, vislumbramos a promessa duma alegria capaz de saciar a nossa vida. De igual modo naquele dia, junto do lago da Galileia, Jesus foi ao encontro daqueles pescadores, quebrando a «paralisia da normalidade» (Homilia no XXII Dia Mundial da Vida Consagrada, 2/II/2018).
E não tardou a fazer-lhes uma promessa: «Farei de vós pescadores de homens» (Mc 1, 17). Sendo assim, a chamada do Senhor não é uma ingerência de Deus na nossa liberdade; não é uma «jaula» ou um peso que nos é colocado às costas. Pelo contrário, é a iniciativa amorosa com que Deus vem ao nosso encontro e nos convida a entrar num grande projecto, do qual nos quer tornar participantes, apresentando-nos o horizonte dum mar mais amplo e duma pesca superabundante. Com efeito, o desejo de Deus é que a nossa vida não se torne prisioneira do banal, não se deixe arrastar por inércia nos hábitos de todos os dias, nem permaneça inerte perante aquelas opções que lhe poderiam dar significado. O Senhor não quer que nos resignemos a viver o dia-a-dia, pensando que afinal de contas não há nada por que valha a pena comprometer-se apaixonadamente e apagando a inquietação interior de procurar novas rotas para a nossa navegação. Se às vezes nos faz experimentar uma «pesca miraculosa», é porque nos quer fazer descobrir que cada um de nós é chamado – de diferentes modos – para algo de grande, e que a vida não deve ficar presa nas redes do sem-sentido e daquilo que anestesia o coração. Em suma, a vocação é um convite a não ficar parado na praia com as redes na mão, mas seguir Jesus pelo caminho que Ele pensou para nós, para a nossa felicidade e para o bem daqueles que nos rodeiam. Naturalmente, abraçar esta promessa requer a coragem de arriscar uma escolha.
Sentindo-se chamados por Ele a tomar parte num sonho maior, os primeiros discípulos, «deixando logo as redes, seguiram-No» (Mc 1, 18). Isto significa que, para aceitar a chamada do Senhor, é preciso deixar-se envolver totalmente e correr o risco de enfrentar um desafio inédito; é preciso deixar tudo o que nos poderia manter amarrados ao nosso pequeno barco, impedindo-nos de fazer uma escolha definitiva; é-nos pedida a audácia que nos impele com força a descobrir o projecto que Deus tem para a nossa vida. Substancialmente, quando estamos colocados perante o vasto mar da vocação, não podemos ficar a reparar as nossas redes no barco que nos dá segurança, mas devemos fiar-nos da promessa do Senhor.
Penso, antes de mais nada, na chamada à vida cristã, que todos recebemos com o Baptismo e que nos lembra como a nossa vida não é fruto do acaso, mas uma dádiva a filhos amados pelo Senhor, reunidos na grande família da Igreja. É precisamente na comunidade eclesial que nasce e se desenvolve a existência cristã, sobretudo por meio da Liturgia que nos introduz na escuta da Palavra de Deus e na graça dos Sacramentos; é nela que somos, desde tenra idade, iniciados na arte da oração e na partilha fraterna. Precisamente porque nos gera para a vida nova e nos leva a Cristo, a Igreja é nossa mãe; por isso devemos amá-la, mesmo quando vislumbramos no seu rosto as rugas da fragilidade e do pecado, e devemos contribuir para a tornar cada vez mais bela e luminosa, para que possa ser um testemunho do amor de Deus no mundo.
Depois, a vida cristã encontra a sua expressão naquelas opções que, enquanto conferem uma direcção concreta à nossa navegação, contribuem também para o crescimento do Reino de Deus na sociedade. Penso na opção de se casar em Cristo e formar uma família, bem como nas outras vocações ligadas ao mundo do trabalho e das profissões, no compromisso no campo da caridade e da solidariedade, nas responsabilidades sociais e políticas, etc. Trata-se de vocações que nos tornam portadores duma promessa de bem, amor e justiça, não só para nós mesmos, mas também para os contextos sociais e culturais onde vivemos, que precisam de cristãos corajosos e testemunhas autênticas do Reino de Deus.
No encontro com o Senhor, alguém pode sentir o fascínio duma chamada à vida consagrada ou ao sacerdócio ordenado. Trata-se duma descoberta que entusiasma e, ao mesmo tempo, assusta, sentindo-se chamado a tornar-se «pescador de homens» no barco da Igreja através duma oferta total de si mesmo e do compromisso dum serviço fiel ao Evangelho e aos irmãos. Esta escolha inclui o risco de deixar tudo para seguir o Senhor e de consagrar-se completamente a Ele para colaborar na sua obra. Muitas resistências interiores podem obstaculizar uma tal decisão, mas também, em certos contextos muito secularizados onde parece não haver lugar para Deus e o Evangelho, pode-se desanimar e cair no «cansaço da esperança» (Homilia na Missa com sacerdotes, pessoas consagradas e movimentos laicais, Panamá, 26/I/2019). E, todavia, não há alegria maior do que arriscar a vida pelo Senhor!
Particularmente a vós, jovens, gostaria de dizer: não sejais surdos à chamada do Senhor! Se Ele vos chamar por esta estrada, não vos oponhais e confiai n’Ele. Não vos deixeis contagiar pelo medo, que nos paralisa à vista dos altos cumes que o Senhor nos propõe. Lembrai-vos sempre que o Senhor, àqueles que deixam as redes e o barco para O seguir, promete a alegria duma vida nova, que enche o coração e anima o caminho.
Queridos amigos, nem sempre é fácil discernir a própria vocação e orientar justamente a vida. Por isso, há necessidade dum renovado esforço por parte de toda a Igreja – sacerdotes, religiosos, animadores pastorais, educadores – para que se proporcionem, sobretudo aos jovens, ocasiões de escuta e discernimento. Há necessidade duma pastoral juvenil e vocacional que ajude a descobrir o projecto de Deus, especialmente através da oração, meditação da Palavra de Deus, adoração eucarística e direcção espiritual.
Como várias vezes se assinalou durante a Jornada Mundial da Juventude do Panamá, precisamos de olhar para Maria. Na história daquela jovem, a vocação também foi uma promessa e, simultaneamente, um risco. A sua missão não foi fácil, mas Ela não permitiu que o medo A vencesse. O d’Ela «foi o “sim” de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora duma promessa. Pergunto a cada um de vós: sentes-te portador duma promessa? Que promessa trago no meu coração, devendo dar-lhe continuidade? Maria teria, sem dúvida, uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer “não”. Com certeza teria complicações, mas não haveriam de ser idênticas às que se verificam quando a covardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido» (Vigília com os jovens, Panamá, 26/I/2019).
Neste Dia, unimo-nos em oração, pedindo ao Senhor que nos faça descobrir o seu projecto de amor para a nossa vida, e que nos dê a coragem de arriscar no caminho que Ele, desde sempre, pensou para nós.

- SEMANA DA VIDA



A Igreja Católica em Portugal vai celebrar, de 12 a 19 de Maio, a Semana da Vida 2019, iniciativa que quer destacar a importância decisiva da Família na defesa da Vida: esta é um valor inquestionável.
No guião que orienta esta iniciativa, o Secretariado Nacional da Família diz-se que o valor da vida não se questiona, não se adjectiva e não se circunscreve no tempo; afirma, também, que não há palavras que descrevam o valor da vida de cada um e, por isso, a vida é um valor que ultrapassa todos os excessos verbais e escapa, até mesmo, à imensa criatividade do homem.
A Igreja Católica em Portugal tem ensinado que é preciso voltar à beleza do que nos rodeia, para entender a Vida, para a defender com toda a alma e para que haja verdadeiro empenho na construção do mundo que Deus entregou nas nossas mãos. Se somos capazes de fazer tantas coisas boas, seremos também capazes de entender que a defesa da Vida passa claramente, pela defesa da Família e, de um modo tão actual e pertinente, pela atenção aos mais novos.
A Semana da Vida é celebrada, em Portugal, desde 1994, na terceira semana de Maio, em resposta à proposta do Papa João Paulo II, no encerramento do Sínodo sobre a Europa, em 1991.
Este ano, a Semana da Vida tem por lema: "Há vida, há futuro". (cf. Ecclesia)

DA PALAVRA DO SENHOR



- IV DOMINGO DE PÁSCOA: DIA DO BOM PASTOR

“…Depois disto, vi uma multidão imensa,
que ninguém podia contar,
de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro,
vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão.
Um dos Anciãos tomou a palavra para me dizer:
«Estes são os que vieram da grande tribulação,
os que lavaram as túnicas
e as branquearam no sangue do Cordeiro.…”
(cf. Apocalipse 7, 9.13a -14b)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 1 de Maio de 2019

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuamos com as catequeses sobre o “Pai-Nosso”. Hoje, vamos abordar a penúltima invocação: “Não nos abandoneis à tentação” (Mt 6, 13). Outra versão diz: “Não nos deixeis cair em tentação”. O “Pai-Nosso” começa de maneira serena: faz-nos desejar que o grande projecto de Deus se possa cumprir no meio de nós. Depois, lança um olhar sobre a vida, e faz-nos pedir aquilo de que temos necessidade, todos os dias: o “pão de cada dia”. Depois, a oração vira-se para as nossas relações interpessoais, muitas vezes inquinadas pelo egoísmo; pedimos perdão e comprometemo-nos a dá-lo. Mas, é com esta penúltima invocação que o nosso diálogo com o Pai celeste entra, por assim dizer, no âmago do drama, ou seja, no terreno do confronto entre nossa liberdade e as insídias do maligno.
Como sabemos, a expressão original grega, contida nos Evangelhos, é difícil de ser traduzida de modo exacto, e todas as traduções modernas são um pouco defeituosas. Mas, sobre este assunto podemos convergir de forma unânime: qualquer que seja a tradução do texto, devemos excluir que seja Deus o protagonista das tentações que pairam sobre o caminho do homem. Como se Deus estivesse à espreita para armar insídias e armadilhas aos seus filhos. Uma interpretação deste tipo contrasta, antes de mais, com o próprio texto, e está longe da imagem de Deus que Jesus nos revelou. Não esqueçamos: o “Pai-Nosso” começa com “Pai”. E um pai não arma armadilhas para os seus filhos. Os Cristãos não têm um Deus invejoso, em competição com o homem, ou que se diverte a pô-lo à prova. Estas são as imagens de muitas divindades pagãs. Lemos na Carta de Tiago, o Apóstolo: “Ninguém, quando é tentado, pode dizer: “Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado para o mal e Ele não tenta ninguém”(1,13). É, justamente, o contrário: o Pai não é o autor do mal; ao filho que lhe pede peixe, não lhe dá uma serpente (Lc 11,11) – como Jesus ensina – e quando o mal se apresenta na vida do homem, combate ao seu lado, para que ele possa ser libertado dele. Um Deus que sempre combate por nós, não contra nós. É o Pai! É com este sentimento que rezamos ao “Pai-Nosso”.
Estes dois momentos – a provação e a tentação – estiveram misteriosamente presentes na vida de Jesus. Nesta experiência, o Filho de Deus tornou-se, completamente, nosso irmão, de um modo que quase roçava o escândalo. E são precisamente estas passagens do Evangelho que nos mostram que as invocações mais difíceis do “Pai Nosso” – aquelas que encerram o texto - já foram atendidas: Deus não nos deixou sozinhos mas, em Jesus, Ele manifesta-se como “Deus connosco” até às últimas consequências. Está connosco quando nos dá a vida; está connosco durante a vida; está connosco na alegria; está connosco nas provações; está connosco na tristeza; está connosco nas derrotas; quando pecámos; está sempre connosco, porque é Pai e não pode abandonar-nos.
Se somos tentados a fazer o mal, negando a fraternidade com os outros e desejando um poder absoluto sobre tudo e todos, Jesus já combateu, por nós, esta tentação: as primeiras páginas do Evangelho comprovam-no. Imediatamente depois de receber o baptismo de João, no meio da multidão de pecadores, Jesus retira-se para o deserto e é tentado por Satanás. Começa, assim, a vida pública de Jesus, com a tentação que vem de Satanás. Satanás estava presente. Muitas pessoas dizem: “Mas por que falar do diabo, que é uma coisa do passado? O diabo não existe!”. Presta atenção ao que ensina o Evangelho: Jesus confrontou-se com o diabo; foi tentado por Satanás. Mas Jesus rejeita todas as tentação e sai vitorioso. O Evangelho de Mateus tem uma nota interessante que encerra o duelo entre Jesus e o Inimigo: “Então, o diabo o deixou; e, eis que os anjos aproximaram-se e serviram-no” (4:11).
Mas, mesmo no tempo da provação suprema, Deus não nos deixa sós. Quando Jesus se retira para rezar no Getsémani, o seu coração é invadido por uma angústia indescritível – assim o diz aos seus discípulos – e Ele experimenta a solidão e o abandono. Sozinho, com a responsabilidade de todos os pecados do mundo sobre os ombros; sozinho, com uma angústia indescritível. A prova é tão lacerante que algo de inesperado acontece. Jesus nunca implora amor para si mesmo; mas, naquela noite, sente a sua alma triste até a morte e, então, pede a proximidade dos seus amigos: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26, 38). Como sabemos, os discípulos, assaltados por um entorpecimento causado pelo medo, adormeceram. No tempo da agonia, Deus pede ao homem que não o abandone; mas o homem dorme. No tempo em que o homem conhece a sua provação, Deus está vigilante. Nos momentos mais duros da nossa vida; nos momentos mais sofredores; nos momentos mais angustiantes, Deus vigia connosco; Deus combate connosco, está sempre ao nosso lado. Porquê? Porque é Pai. Foi assim que começamos a oração: “Pai-Nosso”. E um pai não abandona os seus filhos. Aquela noite de dor de Jesus, de luta, é a última marca da Encarnação: Deus desce para nos encontrar nos nossos abismos e nos tormentos que marcam a nossa história. É o nosso conforto na hora da provação: saber que aquele vale, desde quando Jesus o atravessou, não é mais desolado, mas é abençoado pela presença do Filho de Deus. Ele nunca nos abandonará.
Afasta de nós, ó Deus, o tempo da prova e da tentação. Mas, quando chegarmos a esse tempo, Pai-Nosso, mostra-nos que não estamos sós. Tu és o Pai. Mostra-nos que o Cristo já carregou sobre si o peso daquela cruz. Mostra-nos que Jesus nos chama a carregá-la com Ele, abandonando-nos confiados ao teu Amor de Pai. Obrigado! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 99

Refrão: Nós somos o povo de Deus,
             somos as ovelhas do seu rebanho.

Aclamai o Senhor, terra inteira,
servi o Senhor com alegria,
vinde a Ele com cânticos de júbilo.

Sabei que o Senhor é Deus,
Ele nos fez, a Ele pertencemos,
somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

O Senhor é bom,
eterna é a sua misericórdia,
a sua fidelidade estende-se de geração em geração.

SANTOS POPULARES

SANTO AGOSTINHO ROSCELLI


Agostinho Roscelli nasceu em Bargone di Casarza Ligure, Génova, Itália, no dia 27 de Julho de 1818, filho de Domenico Roscelli e Maria Gianelli. Foi baptizado no mesmo dia, porque se temia que não pudesse sobreviver. A família Roscelli era muito pobre, em meios materiais; mas, sempre foi um exemplo de fé e de virtudes cristãs. Agostinho era dotado de grande inteligência, fina sensibilidade e de espírito reservado. Ainda criança, começou a colaborar em trabalhos caseiros, cuidando da guarda do rebanho, a única riqueza da família.
Os seus pais, preocupados com a sua educação, confiaram-no ao cuidado do pároco, Padre André Garibaldi, que lhe transmitiu os primeiros conhecimentos, correspondentes ao ensino básico.
Em Maio de 1835, por ocasião de uma missão popular, liderada pelo arcipreste de Chiavari, Padre António Maria Gianelli, Agostinho sentiu-se chamado ao sacerdócio e mudou-se para Génova, para realizar os seus estudos.
Os anos de preparação para a ordenação sacerdotal foram duros e difíceis, sobretudo devido às dificuldades económicas da família. Valeram-lhe a sua vontade forte, a intensa oração e a ajuda de algumas pessoas entre as quais o Cónego Gianelli que, sendo nomeado Bispo de Bobbio em 1838, lhe arranjou sustento, como clérigo-sacristão e guardião da Igreja próxima do Colégio das Filhas de São José, na colina São Roque, do qual o Padre Gianelli era director. Os jesuítas viram nele um verdadeiro e empenhado cuidador, definindo-o "prefeito zeloso", como afirmou o próprio reitor, em 1845.
No dia 19 de Setembro de 1846, Agostinho foi ordenado sacerdote, pelo Cardeal Plácido Maria Tadini, Arcebispo de Génova.
Pouco tempo depois, o Padre Agostinho foi nomeado para a populosa cidade de San Martino d'Albaro onde, no espírito de Cristo Pastor e no cumprimento de todos os sacramentos, iniciou o seu humilde serviço na obra de santificação, dedicando-se com zelo, com caridade e com o exemplo ao incremento espiritual do Corpo de Cristo que é a Igreja.
No confessionário, tomou consciência da triste realidade social dos seus paroquianos e dos perigos em que tantos jovens se viam envolvidos: por questões de trabalho, mudavam-se para a cidade, tornando-se presa fácil de pessoas desonestas e sem escrúpulos. Então, o seu coração de pai tremia e arrepiava-se só de pensar que muitas almas simples poderiam perder-se, porque deixadas sós e indefesas.
Em 1858, embora continuava a dedicar-se assiduamente ao ministério da confissão, aceitou colaborar com o Padre Francisco Montebruno, na Obra dos Artesãos.
Em 1872, alargou o seu campo de apostolado. Como ministro de Cristo, consagrou-se inteiramente à obra a que o Senhor o chamara, sem deixar de prestar atenção às misérias e à pobreza moral da cidade, interessando-se não só pela juventude, masculina como na feminina, mas também pelos reclusos da prisão de Santo André, levando-lhes o conforto e a misericórdia do Senhor.
Em 1874, foi nomeado Capelão do Asilo Provincial de Crianças Abandonadas. Aí, durante cerca de 22 anos, dedicou-se aos recém-nascidos, conferindo-lhes o baptismo. Segundo os registos do Asilo, durante este tempo, baptizou 8.484 crianças. Fazendo suas as palavras de Santo Agostinho “a realização de todas as nossas obras é o amor", trabalhou, também, em favor das raparigas-mães: raparigas simples do povo que, devido à falta de trabalho decente e remunerado, eram vítimas de pessoas mal-intencionadas.
O Padre Roscelli aceitou a proposta de algumas das suas penitentes, espiritualmente amadurecidas, que, compartilhando do seu desejo de salvar almas, ofereceram-lhe a sua colaboração para ajudar as jovens, que precisavam de assistência moral e de uma orientação segura, a serem capazes de ganhar honestamente para viver.
Nesses lugares, as jovens recebiam uma educação moral e religiosa, unida a uma sólida formação humana e cristã que lhes permitia prevenir-se ou defender-se dos perigos da cidade e, ao mesmo tempo, estar profissionalmente preparadas.
A tímida ideia de dar vida a uma Congregação religiosa foi encorajada por Monsenhor Salvador Magnasco, pelas colaboradoras do Padre Roscelli e pelos professores das Escolas Profissionais, convencidos de que a consagração a Cristo e o compromisso de santificação na vida comunitária são a força do apostolado.
O Padre Agostinho pediu a intervenção do Papa Pio IX e, depois de receber a resposta "Deus te abençoe e à tua boa obra”, ​​colocou-se completamente nas mãos de Deus para que se realizasse a Sua vontade.
Em 15 de Outubro de 1876, concretizou o seu sonho e, no dia 22 de Outubro, impôs o hábito religioso às primeiras “Filhas”, que chamou de “Irmãs da Imaculada”, indicando-lhes o caminho de santidade, marcado pelas virtudes próprias d’Aquela que é o modelo da vida consagrada. A sua Obra, depois das primeiras incertezas, consolidou-se e expandiu-se para além das fronteiras de Génova e da Itália.
O Padre Agostinho Roscelli faleceu no dia 7 de Maio de 1902. Foi sepultado na Igreja de Santa Maria do Prado, no Bairro de Albaro, anexa à sede generalícia das “Imaculadas”. Foi beatificado em 1995 e canonizado pelo Papa João Paulo II, em 10 de Junho de 2001, Festa da Santíssima Trindade. Na Homilia, o Papa disse: «…"É grande o Seu amor por nós". O amor de Deus pelos homens manifestou-se com particular evidência na vida de Santo Agostinho Roscelli, que hoje contemplamos no fulgor da santidade. A sua existência, toda imbuída de fé profunda: pode ser considerada um dom oferecido para a glória de Deus e para o bem das almas. A fé tornou-se sempre obediente à Igreja e aos seus ensinamentos, em dócil adesão ao Papa e ao seu Bispo. Da fé soube tirar conforto nos momentos tristes, nas ásperas dificuldades e nos acontecimentos dolorosos. Foi a fé a rocha sólida na qual soube ancorar-se para nunca ceder ao desencorajamento.
Sentiu o dever de comunicar esta mesma fé ao próximo, sobretudo a todos aqueles dos quais se aproximava no ministério da confissão. Tornou-se mestre de vida espiritual especialmente para as Irmãs que fundou, que viram nele um homem sereno, mesmo no meio das situações mais críticas. Santo Agostinho Roscelli exorta-nos também a nós a ter sempre confiança em Deus, imergindo-nos no mistério do seu amor”…»
A memória litúrgica de Santo Agostinho Roscelli celebra-se no dia 7 de Maio.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

DA PALAVRA DO SENHOR

- II DOMINGO DE PÁSCOA       


“…vi alguém semelhante a um filho do homem,
 vestido com uma longa túnica
 e cingido, no peito, com um cinto de ouro…
 Quando o vi, caí a seus pés como morto.
 Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me:
«Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive.
 Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos
 e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos…” (cf. Apocalipse 1, 13.17-18)



PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 24 de Abril de 2019

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, completamos a catequese sobre o quinto pedido do “Pai-Nosso”. Detemo-nos na expressão “Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (cf. Mt, 6, 12). Vimos que é próprio do homem ser ‘devedor’ diante de Deus: d’Ele recebemos tudo, quer em termos naturais ou de graça. A nossa vida não só foi querida, mas também amada por Deus. Verdadeiramente, não há lugar para a presunção quando unimos as nossas mãos para rezar. Não existem na Igreja “self made man”: homens que se fizeram a si mesmos. Estamos todos em dívida para com Deus e para com tantas pessoas que nos ofereceram condições favoráveis de vida. A nossa identidade constrói-se a partir do bem recebido. O primeiro é a vida.
Quem reza aprende a dizer “obrigado” e, muitas vezes, esquecemo-nos de agradecer: somos egoístas. Quem reza aprende a dizer ‘obrigado’; e pede a Deus que seja bondoso com ele ou com ela. Por muito que nos esforcemos, permanece sempre uma dívida irrecuperável diante de Deus, e jamais a poderemos restituir: Ele ama-nos infinitamente mais do que quanto nós O amamos. E por isso, por muito que nos empenhemos em viver segundo os ensinamentos cristãos, na nossa vida haverá, sempre, alguma coisa de que pedir perdão: pensemos nos dias que passamos com preguiça, nos momentos em que o rancor ocupou o nosso coração e por aí fora… São estas experiências, infelizmente não raras, que nos levam a implorar: “Senhor, Pai, perdoai os nossos pecados”. Peçamos perdão a Deus.
Reflectindo bem, a invocação podia limitar-se a esta primeira parte, e já seria bela. Porém, Jesus liga-a com uma segunda expressão que faz um todo com a primeira. A relação de benevolência vertical, da parte de Deus, concretiza-se e é chamada a traduzir-se numa relação nova que devemos viver com os nossos irmãos: uma relação horizontal. O bom Deus convida-nos a todos a sermos bons. As duas partes da invocação ligam-se com uma conjunção impiedosa: pedimos ao Senhor que perdoe os nossos pecados ‘assim como’ nós perdoamos aos nossos amigos, às pessoas que vivem connosco, aos nossos vizinhos, às pessoas que nos fizeram mal.
Cada cristão sabe que existe, para ele, o perdão dos pecados. Todos o sabemos: Deus perdoa tudo e perdoa sempre. Quando Jesus revela aos seus discípulos a face de Deus, fá-lo com expressões de terna misericórdia. Diz que há mais alegria nos céus por um pecador que se arrepende, do que por uma multidão de justos que não precisam de conversão. (cf. Lc. 17, 7.10) Nada nos Evangelhos deixa transparecer que Deus não perdoe os pecados de quem está decidido e pede para ser reabraçado.
Mas a graça de Deus, tão abundante, é sempre comprometedora. Quem recebeu muito deve aprender a dar muito, e não guardar só para si aquilo que recebeu. Quem recebe muito precisa de aprender a dar muito. Não é por acaso que o Evangelho de Mateus, logo depois de ter apresentado o texto do Pai-Nosso, entre as sete expressões usadas, se dedique a sublinhar, justamente, a do perdão fraterno: “Se perdoardes aos outros as suas culpas, o Pai que está nos céus também vos perdoará; mas se não perdoardes aos outros, também o Pai não perdoará as vossas culpas”. (cf. Mt. 6, 14-15) Isto é forte! Eu penso: algumas vezes, ouvi pessoas que diziam: ‘Eu nunca perdoarei àquela pessoa! Aquilo que me fizeram não o perdoarei nunca!’. Mas se tu não perdoa, Deus não te perdoará. Tu fechas a porta!... Pensemos se somos capazes de perdoar ou não perdoamos. Um padre, quando eu estava na outra diocese, contou-me, angustiado, que tinha ido dar os últimos sacramentos a uma idosa que estava quase a morrer. A pobre senhora não podia falar. O sacerdote disse-lhe: “Senhora, está arrependida dos seus pecados?” A senhora disse que sim; não podia confessar-lhos, mas disse que sim. É suficiente!... Depois perguntou-lhe: “A senhora perdoa aos outros?” E ela, prestes a morrer, disse: “Não”. O padre ficou angustiado. Se não perdoas, Deus não te perdoará. Pensemos, nós que estamos aqui, se perdoamos; se somos capazes de perdoar. “Padre, eu não consigo, porque aquelas pessoas fizeram-me muito mal”. Mas se tu não consegues, pede ao Senhor que te dê a força para o conseguires: “Senhor, ajuda-me a perdoar”. Reencontramos aqui a união entre o amor a Deus e o amor ao próximo. O amor atrai amor; o perdão atrai perdão. Ainda em Mateus, encontramos uma parábola intensíssima, dedicada ao perdão fraterno (cf. 18,21-35). Escutemo-la: Um determinado servo devia uma enorme quantia ao seu rei: dez mil talentos! Uma soma impossível de pagar. Não sei a quanto corresponderia, hoje! Mas, a centenas de milhões. Porém, aconteceu um milagre; e aquele servo não recebeu uma prorrogação do prazo para pagar a dívida, mas o perdão total da dívida. Uma graça inesperada! Mas, eis que esse mesmo servo, logo a seguir, insurgiu-se contra um dos seus irmãos que lhe devia cem denários – uma coisa insignificante – e, apesar de ser uma quantia acessível, não aceitou desculpas e nem súplicas. Por isso, no final, o patrão chamou-o novamente e condenou-o. Porque se não te esforçares em perdoar, não serás perdoado. Se não te esforçar a amar, não serás amado.
Jesus insere nas relações humanas a força do perdão. Na vida, nem tudo se resolve com a justiça. Não!... Sobretudo, onde se deve pôr um travão ao mal, devemos amar para além do devido, para recomeçar uma história de graça. O mal conhece as suas vinganças e se não o interrompemos, corremos o risco de o propagar, sufocando o mundo inteiro.
À lei de Talião – o que tu me fazes, eu o faço a ti – Jesus opõe a lei do Amor: o que Deus me faz a mim, eu o faço a ti. Pensemos, hoje, nesta semana da Páscoa tão bela, se sou capaz de perdoar. E, se não me sinto capaz, devo pedir ao Senhor que me dê a graça de perdoar, porque é uma graça o saber perdoar.
Deus dá a cada cristão a graça de escrever uma história de bem, na vida dos seus irmãos, especialmente daqueles que fizeram algo de desagradável ou de errado. Com uma palavra, um abraço, um sorriso, podemos transmitir aos outros o que recebemos de mais precioso: o perdão. Qual é a coisa preciosa que recebemos? O perdão que devemos ser capazes de dar, também, aos outros.
(cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 117

Refrão: Aclamai o Senhor, porque Ele é bom: o seu amor é para sempre.

Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Aarão:
é eterna a sua misericórdia.
Digam os que temem o Senhor:
é eterna a sua misericórdia.

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.
Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.

Senhor, salvai os vossos servos,
Senhor, dai-nos a vitória.
Bendito o que vem em nome do Senhor,
da casa do Senhor nós vos bendizemos.
O Senhor é nosso Deus
e fez brilhar sobre nós a sua luz.

SANTOS POPULARES

BEATA ANA HELENA CHRZANOWSKA


Ana Helena Chrzanowska nasceu no dia 7 de Outubro de 1902, em Varsóvia, Polónia. O seu pai, Inácio Chrzanowski, professava a fé católica; era professor universitário, leccionando literatura polaca, e era oriundo de uma família de ricos proprietários de terras. A sua mãe, Wanda Szlenker, era filha de industriais de origem protestante. Uma irmã da sua mãe, Sofia Szlenker, tinha fundado um hospital pediátrico, em Varsóvia, e foi directora da Escola de Enfermagem de Varsóvia.
Ana foi baptizada na igreja paroquial de Santo Adalberto, em Wazownia, a residência de verão dos seus avós maternos. Antes dela, os seus pais tiveram outro filho, Bohdan.
Em 1910, a família mudou-se para Cracóvia porque o seu pai tinha obtido a cadeira de História da Literatura, na Universidade Jaguelónica. Ana começou a estudar numa pequena escola particular, gerida por Stanisława Okołowiczowa, na Rua Pańska. De 1917 a 1920, frequentou o colégio das Irmãs Ursulinas, onde se formou com a classificação máxima.
Assim que terminou os seus estudos, Ana matriculou-se num curso da Cruz Vermelha para tratar das vítimas da guerra entre a Polónia e a Rússia. Ali conheceu Stella Tylska, uma enfermeira americana. Procurando contribuir para o esforço de guerra, Ana recolhia roupas e alimentos entre os habitantes de Cracóvia. O seu trabalho de enfermagem tornou-se mais empenhativo quando foi nomeada para uma unidade de cirurgia.
Em Dezembro de 1920, matriculou-se na Faculdade de Filosofia da Universidade Jaguelónica. No entanto, deixou a universidade assim que soube que, em Varsóvia, tinha sido criada uma nova escola de enfermagem, liderada pela americana Helen Bridge. Concluiu o curso em Junho de 1924: imediatamente depois, obteve bolsas de estudos que a levaram para a França e a Bélgica.
De 1926 a 1929 foi professora no Instituto Universitário de Enfermagem, em Cracóvia. De 1929 a 1939, tendo regressado a Varsóvia, colaborou com a revista mensal "Pielȩgniarka Polska" ("A Enfermeira Polaca"), a primeira revista profissional de enfermeiros, na Polónia: traduzia artigos de jornais estrangeiros, mas também escrevia artigos de sua autoria, ou em colaboração com outros autores.
De 1931 a 1933 foi vice-directora da Escola de Enfermagem de Varsóvia. Em 1935, colaborou na preparação da lei que passou a regular a actividade das enfermeiras, na Polónia. Três anos mais tarde, juntamente com Teresa Kulczyńska, escreveu o manual «Zabiegi Pielȩgniarskie» («Técnicas de Enfermagem»), que foi reeditado várias vezes.
Para além desta atividade, continuou a dedicar-se à escrita literária. Sob o pseudónimo de Agnieszka Osiecka, publicou, em 1934, o romance "Niebieski Klucz" ("A Chave do Paraíso"), e, em 1938, publicou outro romance, "Krzyż na piasku" ("Uma cruz na areia"). Ainda em 1938, publicou alguns dos seus poemas, na revista literária "Myśl Narodowa" (“Pensamento Nacional”)
O deflagrar da Segunda Guerra Mundial provocou, em Ana, numerosos sofrimentos. No dia 2 de Outubro de 1939, durante a Batalha de Varsóvia, a sua tia, Sofia, morreu. Em 6 de Novembro, o seu pai foi preso, durante a “Sonderaktion Krakau” (acção militar especial em Cracóvia), com a qual o exército alemão pretendia exterminar os intelectuais polacos. Juntamente com outros professores da Universidade Jaguelónica e de outras universidades, o professor Inácio Chrzanowski foi deportado para o campo de concentração de Sachsenhausen, onde morreu pouco tempo depois, em Janeiro de 1940. Na primavera de 1940, o seu irmão Bohdan, feito prisioneiro de guerra pelas tropas soviéticas, foi morto, nos bosques de Katyń.
Contudo, apesar destas provações, Ana não perdeu a esperança e não se fechou em si mesma.

No início da guerra, tinha já voltado para Cracóvia e ofereceu-se como voluntária para dedicar todas as suas habilidades à assistência dos refugiados, prisioneiros e pessoas sem-abrigo.
Assumiu especial cuidado no acolhimento de crianças órfãs, mesmo as crianças judias: procurou encontrar as famílias de acolhimento e refúgios seguros. Para levantar a moral dos mais jovens, organizou acampamentos de verão fora de Cracóvia e promoveu bancos alimentares para crianças que morriam de fome. O seu trabalho foi incansável, com o risco da sua própria vida e da sua saúde.
Para Ana, o tempo da guerra foi necessário para descobrir a presença de Deus na sua vida: intensificou a oração pessoal e redescobriu o significado da Eucaristia. Assim, a sua actividade filantrópica tornou-se, ainda mais, penetrada por uma genuína caridade cristã.
Terminado o conflito, voltou ao trabalho na Escola de Enfermagem de Cracóvia, como chefe do departamento de enfermagem da comunidade. Em 1946, foi enviada para os Estados Unidos: graças a uma bolsa de estudos concedida pela UNRRA (Administração das Nações Unidas para Assistência e Reabilitação), dedicou-se a aprofundar a enfermagem, em apoio domiciliário.
Através do Ministério da Saúde, de 1947 a 1949, deu palestras sobre a enfermagem comunitária, no âmbito da formação permanente de enfermeiros qualificados. Ao mesmo tempo, até 1950, ensinou técnicas de enfermagem comunitária, em Varsóvia.
Nas suas lições, sempre sublinhou a importância da formação dos jovens enfermeiros para o exercício da enfermagem num autêntico espírito de serviço aos doentes. Convidava-os a tratar os pacientes com dignidade e advertia-os para estarem atentos não só à sua saúde física, mas também às suas necessidades espirituais.
Entre os escritos de Ana, foi encontrado um esquema para o exame de consciência, destinado aos enfermeiros. Dividido em cinco seções, apresenta uma série de questões que vão desde o relacionamento com os colegas e com os médicos, até ao relacionamento com os capelães dos hospitais; desde a maneira de considerar uma vida nascente em risco, até ao modo de tratar os descartados da sociedade. Tudo isto sem descurar a oração, a frequência dos Sacramentos e a união com Deus mesmo no local de trabalho.
O Artigo 2 da Secção I constitui o programa de vida que Ana sempre procurou viver: «O meu trabalho não é só a minha profissão, mas também a minha vocação. Compreenderei esta vocação se compreender e assimilar as palavras de Cristo: "Não vim para ser servido, mas para servir".
A partir de 1951, Ana começou a frequentar a Abadia Beneditina de Tyniec, nos arredores da cidade de Cracóvia. Neste mesmo ano, foi nomeada vice-directora da Escola de Enfermagem de Cracóvia. Quatro anos depois, iniciou uma série de conferências sobre questões religiosas e começou a orientar retiros espirituais para enfermeiras.
Em 1957, depois de vinte anos de trabalho, fundou a Associação das Enfermeiras Polacas.
Participou, activamente, na associação enquanto directora da secção História da Enfermagem, em Cracóvia. No mesmo ano, tornou-se Oblata beneditina da abadia de Tyniec.
Também em 1957, Ana foi demitida da Escola de Enfermagem. Foi-lhe oferecido o cargo de directora da Escola de Enfermagem Psiquiátrica, de Kobierzyn mas, um ano depois, a Escola foi fechada. Por isso, teve de aposentar-se mais cedo, com a reforma de um professor.
Incapaz de ficar parada, procurou uma nova maneira de usar os seus conhecimentos colocando-os ao serviço dos doentes. A sua experiência levou-a, com a ajuda da espiritualidade beneditina, a ver, em cada um dos doentes, a face do Jesus sofredor. Além disso, estava convencida de que muitas pessoas, em Cracóvia, estavam sozinhas, abandonadas, idosas, incapacitadas ou afectadas por doenças crónicas. O sistema de saúde do regime socialista parecia-lhe ineficaz para todos estes doentes.
Então, decidiu organizar um sistema de assistência domiciliária, feita por profissional, apoiando-se nas estruturas da Igreja. Foi falar com o padre Karol Wojtyła, vice-pároco da Paróquia de São Floriano, para pedir os seus conselhos e sugestões.
O futuro arcebispo de Cracóvia, mais tarde Cardeal, Papa - com o nome de João Paulo II - e Santo, encaminhou-a para que falasse com o padre Fernando Machay, arcipreste da Basílica da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, na cidade velha, que lhe deu aprovação para que este serviço fosse implantado na sua paróquia. Com o apoio das autoridades eclesiásticas, Ana organizou o serviço de enfermagem paroquial, não só na cidade de Cracóvia, mas em toda a diocese.
Os voluntários pertenciam a todas as classes sociais e estados de vida: enfermeiras, freiras, padres, seminaristas, médicos, professores e estudantes. Com a sua ajuda, Ana organizou férias e retiros para os doentes, para ajudá-los a redescobrir as alegrias da vida e lhes dar a força para levar a sua cruz, todos os dias.
Ana ia à missa todos os dias, porque acreditava que até as pessoas acamadas precisavam de receber essa graça. Incentivou os sacerdotes a celebrarem a Missa nas casas dos doentes. Isto tornou-se uma coisa habitual, assim como a visita periódica dos párocos. Continuou a formar voluntários, com as suas palestras, nas quais explicava os princípios do cuidar, também do ponto de vista espiritual.
O trabalho de Ana foi reconhecido publicamente, tendo recebido várias condecorações e títulos de honra. Em 1957, recebeu um prémio, dado pelo governo polaco, pelo seu trabalho no Serviço de Saúde. Em 21 de Dezembro de 1965, recebeu a cruz "Pro Ecclesia et Pontifice", atribuída pelo Papa Paulo VI, graças à mediação do monsenhor Wojtyła. Em 17 de Dezembro de 1971, recebeu do governo a Cruz dos Oficiais da Ordem da Polónia Renascida. [ou Ordem da Polónia Restituta: é uma das mais altas condecorações da Polónia. A Ordem pode ser outorgada por grandes realizações no campo da educação, desporto, ciência, cultura, arte, economia, defesa nacional, serviço social, serviço civil ou por estabelecer e consolidar boas realizações com países estrangeiros. Foi criada pelo Parlamento polaco em 4 de Fevereiro de 1921, e pode ser outorgada tanto a civis, militares ou estrangeiros.]
Em 1963, foi-lhe diagnosticado um cancro. Três anos depois, foi submetida a tratamento cirúrgico e radiológico no Departamento de Ginecologia do Hospital Universitário de Cracóvia.
Ana faleceu, em Cracóvia, no dia 29 de Abril de 1973, Segundo Domingo da Páscoa. O cardeal Wojtyła presidiu ao seu funeral. Na homilia, o Cardeal de Cracóvia disse: "Ana, nós te agradecemos porque estiveste entre nós com tua imensa simplicidade, com esta paz interior e com este calor interior, uma encarnação das bem-aventuranças de Cristo do Sermão da Montanha, especialmente daquela que diz: "Bem-aventurados os misericordiosos"».
Os seus restos mortais foram enterrados no cemitério de Rakowiecki.
Ana Helena Chrzanowska foi beatificada, no dia 28 de Abril de 2018, pelo Papa Francisco. A celebração realizou-se no Santuário da Divina Misericórdia, em Cracóvia-Lagiewniki e foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, em nome do Papa.  
A memória litúrgica da Beata Ana Helena Chrzanowska faz-se no dia 29 de Abril.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

EM DESTAQUE



MENSAGEM URBI ET ORBI
DO PAPA FRANCISCO - PÁSCOA 2019
Domingo, 21 de Abril de 2019

Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa!
Hoje, a Igreja renova o anúncio dos primeiros discípulos: «Jesus ressuscitou!» E de boca em boca, de coração a coração, ecoa o convite ao louvor: «Aleluia!... Aleluia!» Nesta manhã de Páscoa, juventude perene da Igreja e de toda a humanidade, quero fazer chegar a cada um de vós as palavras iniciais da recente Exortação Apostólica, dedicada particularmente aos jovens:
«Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso, as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem [e a cada] cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo! Está em ti, está contigo e jamais te deixa. Por mais que te possas afastar, junto de ti está o Ressuscitado, que te chama e espera por ti, para recomeçar. Quando te sentires envelhecido pela tristeza, os rancores, os medos, as dúvidas ou os fracassos, Jesus estará a teu lado para te devolver a força e a esperança» (Chistus vivit, 1-2).
Queridos irmãos e irmãs, esta mensagem é dirigida ao mesmo tempo a todas as pessoas e ao mundo inteiro. A Ressurreição de Cristo é princípio de vida nova para todo o homem e toda a mulher, porque a verdadeira renovação parte sempre do coração, da consciência. Mas, a Páscoa é, também, o início do mundo novo, libertado da escravidão do pecado e da morte: o mundo finalmente aberto ao Reino de Deus, Reino de amor, paz e fraternidade.
Cristo vive e permanece connosco. Mostra a luz do seu rosto de Ressuscitado e não abandona os que estão na provação, no sofrimento e no luto. Que Ele, o Vivente, seja esperança para o amado povo sírio, vítima dum conflito sem fim, que corre o risco de nos encontrar cada vez mais resignados e até indiferentes. Ao contrário, é hora de renovar os esforços por uma solução política que dê resposta às justas aspirações de liberdade, paz e justiça; enfrente a crise humanitária e favoreça o retorno, em segurança, dos deslocados, bem como daqueles que se refugiaram nos países vizinhos, especialmente no Líbano e na Jordânia.
A Páscoa leva-nos a deter o olhar no Médio Oriente, dilacerado por divisões e tensões contínuas. Os cristãos da região não deixem de testemunhar, com paciente perseverança, o Senhor ressuscitado e a vitória da vida sobre a morte. O meu pensamento dirige-se de modo particular para o povo do Iémen, especialmente para as crianças definhando pela fome e pela guerra. A luz pascal ilumine todos os governantes e os povos do Médio Oriente, a começar pelos israelitas e os palestinianos, e os incentive a aliviar tantas aflições e a buscar um futuro de paz e estabilidade.
Que as armas cessem de ensanguentar a Líbia, onde, nas últimas semanas, começaram a morrer pessoas indefesas, e muitas famílias se viram forçadas a deixar as suas casas. Exorto as partes interessadas a optar pelo diálogo em vez da opressão, evitando que se reabram as feridas duma década de conflitos e instabilidade política.
Cristo Vivente conceda a sua paz a todo o amado continente africano, ainda cheio de tensões sociais, conflitos e, por vezes, extremismos violentos que deixam atrás de si insegurança, destruição e morte, especialmente no Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria e Camarões. Penso ainda no Sudão, que está a atravessar um período de incerteza política e onde espero que todas as instâncias possam ter voz e cada um se esforce por permitir ao país encontrar a liberdade, o desenvolvimento e o bem-estar, a que há muito aspira.
O Senhor ressuscitado acompanhe os esforços feitos pelas autoridades civis e religiosas do Sudão do Sul, sustentados pelos frutos do retiro espiritual que, há poucos dias, se realizou, aqui, no Vaticano. Que se abra uma nova página da história do país, na qual todos os componentes políticos, sociais e religiosos se empenhem activamente em prol do bem comum e da reconciliação da nação.
Nesta Páscoa, encontre conforto a população das regiões orientais da Ucrânia, que continua a sofrer com o conflito ainda em curso. O Senhor encoraje as iniciativas humanitárias e as iniciativas destinadas a buscar uma paz duradoura.
Que a alegria da Ressurreição encha os corações de quem sofre as consequências de difíceis situações políticas e económicas, no continente americano. Penso, de modo particular, no povo venezuelano: tanta gente sem as condições mínimas para levar uma vida digna e segura, por causa duma crise que perdura e se agrava. O Senhor conceda, a quantos têm responsabilidades políticas, trabalhar para pôr fim às injustiças sociais, abusos e violências e realizar passos concretos que permitam sanar as divisões e oferecer à população a ajuda de que necessita.
O Senhor ressuscitado oriente com a sua luz os esforços que estão a ser feitos na Nicarágua para se encontrar, o mais rápido possível, uma solução pacífica e negociada em benefício de todos os nicaraguenses.
Perante os inúmeros sofrimentos do nosso tempo, o Senhor da vida não nos encontre frios e indiferentes. Faça de nós construtores de pontes, não de muros. Ele, que nos dá a paz, faça cessar o fragor das armas, tanto nos contextos de guerra como nas nossas cidades, e inspire os líderes das nações a trabalhar para acabar com a corrida aos armamentos e com a difusão preocupante das armas, de modo especial nos países mais avançados economicamente. O Ressuscitado, que escancarou as portas do sepulcro, abra os nossos corações às necessidades dos indigentes, indefesos, pobres, desempregados, marginalizados, de quem bate à nossa porta à procura de pão, dum abrigo e do reconhecimento da sua dignidade.
Queridos irmãos e irmãs, Cristo vive! Ele é esperança e juventude para cada um de nós e para o mundo inteiro. Deixemo-nos renovar por Ele! Feliz Páscoa! (cf. Santa Sé)