PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…enchei-nos da vossa misericórdia…” (cf. Salmo 89)

Na sociedade de que fazemos parte, reina a indiferença e o egoísmo. É preocupante o espírito de descarte, de abandono, de exclusão. O bem individual está à frente do bem comum. A solidariedade reveste-se mais de fantasia do que de verdade. Neste contexto, a misericórdia é uma urgência a tocar a vida e os sentimentos de todos: coração aberto aos outros, atenção aos mais débeis e sós, partilha de presença e de vida, exigência de caridade fraterna, compreensão diante da fragilidade e do pecado. Pedindo o dom da misericórdia, os crentes querem encher-se da graça de Deus que acolhe, que ama, que perdoa, que consola, que eleva e salva. Encher-se de misericórdia é expressar, em gestos de proximidade e de amor, o bem que vem de Deus e que, no coração humano, se transforma em dádiva de vida. “Enchei-nos, Senhor, da vossa misericórdia” para que sejamos, entre os nossos irmãos, uma fonte de alegria, de paz, de ternura e de esperança.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…A palavra de Deus é viva e eficaz,
 mais cortante que uma espada de dois gumes:
 ela penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito,
 das articulações e medulas,
 e é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração.
 Não há criatura que possa fugir à sua presença:
 tudo está patente e descoberto a seus olhos.
 É a ela que devemos prestar contas…” (cf. Hebreus 4, 12-13)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 10 de Outubro de 2018

Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

A catequese de hoje é dedicada à quinta Palavra: não matarás. O quinto mandamento: não matarás. Já estamos na segunda parte do Decálogo, aquela que diz respeito às relações com o próximo; e este mandamento, com a sua formulação concisa e categórica, ergue-se como uma muralha em defesa do valor básico nos relacionamentos humanos. E qual é o valor fundamental nas relações humanas? O valor da vida. Por isso, não matarás!
Poder-se-ia dizer que todo o mal cometido no mundo se resume nisto: o desprezo pela vida. A vida é agredida pelas guerras, pelas organizações que exploram o homem — lemos nos jornais ou vemos nos noticiários muitas coisas — a partir das especulações sobre a criação e da cultura do descarte, e de todos os sistemas que submetem a existência humana a cálculos de oportunidade, enquanto um número escandaloso de pessoas vive em condições indignas do homem. Isto significa desprezar a vida, ou seja, de certo modo, matar.
Uma abordagem contraditória permite também a supressão da vida humana no ventre materno, em nome da salvaguarda de outros direitos. Mas como pode ser terapêutico, civil ou simplesmente humano um acto que suprime a vida inocente e inerme no seu desabrochar? Pergunto-vos: é justo “eliminar” uma vida humana para resolver um problema? É correcto contratar um sicário para resolver um problema? Não se pode, não é justo “eliminar” um ser humano, por mais pequenino que seja, para resolver um problema. É como pagar a um assassino para resolver um problema.
De onde vem tudo isto? No fundo, de onde nascem a violência e a rejeição da vida? Do medo. Com efeito, o acolhimento do outro é um desafio ao individualismo. Pensemos, por exemplo, quando se descobre que uma vida nascente é portadora de deficiência, até grave. Nestes casos dramáticos, os pais precisam de verdadeira proximidade, de autêntica solidariedade, para enfrentar a realidade, superando os compreensíveis temores. Ao contrário, muitas vezes recebem conselhos apressados para interromper a gravidez, ou seja, é um modo de dizer: “interromper a gravidez” significa “eliminar alguém” directamente.
Uma criança doente é como qualquer necessitado da terra; como um idoso que precisa de assistência; como tantos pobres que têm dificuldade de ir em frente: aquele, aquela que se apresenta como um problema, na realidade constitui um dom de Deus, que pode tirar-me do egocentrismo e fazer-me crescer no amor. A vida vulnerável indica-nos a saída, o caminho para nos salvar de uma existência fechada em si mesma, e descobrir a alegria do amor. E aqui gostaria de parar para dar graças, agradecer a tantos voluntários, agradecer ao vigoroso voluntariado italiano, o mais forte que conheci. Obrigado!
E o que leva o homem a rejeitar a vida? São os ídolos deste mundo: o dinheiro: é melhor eliminar isto, porque custará; o poder, o sucesso. Estes são parâmetros errados para valorizar a vida. Qual é a única medida autêntica da vida? É o amor, o amor com que Deus a ama! O amor com o qual Deus ama a vida: esta é a medida. O amor com que Deus ama cada vida humana.
Com efeito, qual é o sentido positivo da Palavra: «Não matarás»? Que Deus é «amante da vida», como há pouco ouvimos da Leitura bíblica.
O segredo da vida é-nos revelado pelo modo como a tratou o Filho de Deus, que se fez homem a ponto de assumir na cruz a rejeição, a debilidade, a pobreza e a dor (cf. Jo 13, 1). Em cada criança enferma, em cada idoso débil, em cada migrante desesperado, em cada vida frágil e ameaçada, é Cristo que está à nossa procura (cf. Mt 25, 34-46), está em busca do nosso coração, para nos revelar a alegria do amor.
Vale a pena acolher todas as vidas, porque cada homem vale o sangue do próprio Cristo (cf. 1 Pd 1, 18-19). Não se pode desprezar o que Deus tanto amou!
Devemos dizer aos homens e às mulheres do mundo: não desprezeis a vida! A vida do próximo, mas, inclusive, a própria, porque também para ela é válido o mandamento: «Não matarás». É preciso dizer a tantos jovens: não desprezes a tua existência! Deixa de rejeitar a obra de Deus! Tu és uma obra de Deus! Não te subestimes; não te desprezes com as dependências que te hão- de arruinar e te levarão à morte!
Que ninguém meça a vida segundo os enganos deste mundo; mas que cada qual se acolha a si mesmo e aos outros, em nome do Pai que nos criou. Ele é «amante da vida»: isto é bonito, “Deus é amante da vida”. E todos nós lhe somos tão queridos, que Ele enviou o seu Filho por nós. «Com efeito — diz o Evangelho — Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu único Filho, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).
(cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 89

Refrão: Enchei-nos da vossa misericórdia:
             será ela a nossa alegria.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando?
tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Compensai em alegria os dias de aflição,
os anos em que sentimos a desgraça.

Manifestai a vossa obra aos vossos servos
e aos seus filhos a vossa majestade.
Desça sobre nós a graça do Senhor.
confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos.

SANTOS POPULARES



SANTA MARIA BERTILA BOSCARDIN

Ana Francisca Boscardin nasceu dia 6 de Outubro de 1888, na aldeia de Brendola, em Vicenza, Itália. Os seus pais, Ângelo Boscardin e Maria Teresa Benetti, eram simples camponeses, dedicados ao amanho das terras, para delas obter o sustento da família.
Anita, como familiarmente a tratavam, era uma menina tranquila e muito trabalhadora, cuja infância não teve nada de pitoresco ou extraordinário. O seu pai era um homem ciumento e dado à bebida, de maneira que, na sua casa, eram frequentes as desavenças entre o casal. Desde pequena, Anita ajudava a mãe nos cuidados da casa e o pai nos trabalhos do campo e, sempre que podia, prestava serviços nas casas dos vizinhos para ajudar, com os seus ganhos, na economia doméstica. Sendo a mais velha dos três filhos do casal, sua infância transcorreu entre a casa e o campo, rotina natural dos filhos e das filhas de agricultores dessa época. Por isso, faltava muito à escola, não podendo acompanhar as outras crianças no progresso escolar. Os seus companheiros de brincadeiras chamavam-lhe “a tontinha”.
Instruída pela mãe, desde a idade dos cinco anos Anita gostava de rezar e passava muito tempo, de joelhos, diante de um quadro de Nossa Senhora que se encontrava na cozinha.
Aos nove anos, fez sua Primeira Comunhão, facto não muito comum, naquela época. Aos treze anos, fez voto de ser toda para Jesus, oferecendo-lhe o seu coração para a Sua vontade. Quando manifestou ao pároco o desejo de se tornar religiosa, este lhe respondeu: “Anita, tu não serves para nada. As religiosas não saberiam o que fazer duma aldeã ignorante como tu és”. Mas o padre arrependeu-se da sua resposta e chamou-a no dia seguinte.
Aos dezassete anos, no dia 8 de Abril de 1905, Anita saiu da casa paterna para entrar no Convento das Irmãs Mestras de Santa Doroteia dos Sagrados Corações, adoptando o nome de Maria Bertila. Forte e robusta, os trabalhos mais custosos – o forno e a lavandaria – foram-lhe designados. Fez o segundo ano de noviciado no hospital de Treviso. A Superiora-Geral desejava que fosse enfermeira, mas a superiora do hospital, a Irmã Margarida, pô-la na cozinha, como ajudante de uma freira mais idosa e enferma. Mas, algum tempo depois, voltou ao Convento.
A Superiora Geral era muito persistente e, mais uma vez, decidiu que ela deveria ser enfermeira e mandou-a de novo para o hospital de Treviso.
“Tu de novo aqui! - exclamou ao vê-la a Irmã Margarida. Preciso de enfermeiras para a cirurgia e para as doenças contagiosas, e mandam-me gente desta!”… E, mais uma vez, mandou-a para as panelas. Porém, no dia seguinte, por falta de pessoal, foi colocada na secção infantil, onde havia crianças atacadas de difteria. Num instante, a enfermeira adormecida dentro dela revelou-se inteligente e ágil, impondo respeito e confiança.
Foi então que estudou e diplomou-se em enfermeira, de modo que pôde tratar os doentes com ciência e fé, assistindo-os com carinho de irmã e de mãe, qualidades que mostrou, sobretudo, durante a Primeira Guerra Mundial. A Irmã Maria Bertila surpreendeu a todos com a sua incansável disposição e solidariedade de religiosa e enfermeira, no tratamento dos feridos de guerra. Tinha conseguido obter o diploma de enfermeira para se tornar mais útil aos doentes, que assistia também de noite, tomando a vez das suas co-irmãs. “Quero ser a serva de todos – escreveu no seu diário – quero trabalhar, sofrer e deixar toda a satisfação aos outros.” E ainda: “Devo considerar-me a última de todas, portanto contente em ser passada para trás, indiferente a tudo, quer às reprovações, quer aos elogios; é bem melhor, preferir as primeiras. Procurarei ser sempre condescendente com as opiniões alheias; nunca desculpar-me, mesmo se penso ter razão; nunca falar de mim mesma; os encargos mais baixos sejam sempre os meus, pois é isso que mereço.”
Teve uma existência de união com Deus, no silêncio, no trabalho, na oração e na obediência. Isto reflectia-se na caridade com que se relacionava com todos: doentes, médicos e superiores. Mas era submetida a constantes humilhações por parte da superiora do hospital
Tinha apenas vinte e dois anos de idade quando, além de enfrentar a doença no próximo, teve que enfrentá-la em si mesma: foi operada a um tumor e, antes que pudesse recuperar-se totalmente, já estava junto dos seus doentes. O seu mal agravou-se e, aos trinta e quatro anos, foi sujeita a uma segunda cirurgia, mas não resistiu.
Anita – a Irmã Maria Bertila - faleceu no dia 20 de Outubro de 1922, no hospital de Treviso, depois de converter, com a sua agonia resignada e serena, o médico-chefe do hospital. O seu corpo foi sepultado na Casa-mãe da Congregação, em Vicenza.
Muitos milagres têm acontecido junto do seu túmulo e referidos à sua intercessão.
A Irmã Bertila foi beatificada, no dia 8 de Junho de 1952, pelo Papa Pio XII. Nesta ocasião, o Papa afirmou: “…É uma humilde camponesa!... Mas uma figura puríssima de perfeição cristã, modelo de recolhimento e de oração. Nem êxtases, nem milagres durante a vida, mas uma união com Deus sempre mais profunda no silêncio, no trabalho, na oração, na obediência. Daquela união vinha a especial caridade que ela demonstrava para com os doentes, médicos, superiores, enfim, para com todos… A vida da Beata Maria Boscardin provou que a santidade é feita de atitudes diárias de união com Nosso Senhor e com a sua Mãe Santíssima. Vivendo na pureza e na fé profunda, a graça divina manifestou-se nela e é um exemplo do que esta graça pode fazer em cada um de nós, se formos fieis a Deus e aos seus Mandamentos.
Esta humilda camponesa teve o privilégio de ter uma mãe extraordinária que, diante da pobreza, da irascibilidade do marido, do permanente ambiente de mal-estar, das dificuldades da vida, calava-se, tinha paciência, rezava muito. Os filhos de Maria Teresa Benetti viam tudo isto e ouviam sempre sair de seus lábios palavras suaves que falavam de Deus, da Fé, do Céu, da resignação... Felizes as crianças que têm uma mãe como esta!...”
Maria Bertila Boscardin foi canonizada, no dia 11 de Maio de 1961, festa da Ascensão de Nosso Senhor, pelo Papa João XXIII. Ela que morreu tão simples como tinha vivido, foi canonizada na Basílica de São Pedro, no meio a luzes, galas e uma liturgia papal magnífica. Na Homilia da Missa, o Papa disse: “…A virgem que hoje cingimos com a coroa das Santas, pela sua piedade, modéstia, paciência nos sofrimentos; pelo seu zelo de caridade com os enfermos, temos de a considerar como uma flor do campo que, rica de graça, espalha um suavíssimo perfume. Ela, com o seu exemplo de vida, convida todos a meditar e a observar os divinos mandamentos e desafia todos a seguir e a amar Cristo, autor da nossa salvação…
A humilde religiosa de Brendola é a confirmação de uma tradição que faz das paróquias fervorosas a primeira escola de uma vida boa e santa. Santa Bertila está, agora, nos altares, acima dos sábios e prudentes do século. Não teve oportunidade de um grande percurso de aprendizagem, mas cumpriu, de bom grado, toda a missão que lhe foi confiada. O seu livro mais querido, e agora conservado entre as recordações da sua vida, foi o catecismo que o seu pároco lhe ofereceu. Nele se inspirava e encontrava consolo desde pequena, retirando-se, com alegria, para a solidão - depois de ter concluído os trabalhos domésticos – para o ler e reler constantemente e, assim, poder ensiná-lo com entusiasmo aos da sua idade…
Eis, aqui, uma alma simples que, no primeiro momento do despertar vocacional, se alegra por poder responder sim, ajudada pelo respeito e o consentimento dos seus pais; que se sente feliz, também, no realizar os mais humildes serviços, porque nada pede para si, não procura curiosas distrações ou preferências pessoais. E, sem dúvida, o testemunho de vida da Irmã Bertila espalha-se pelos corredores do hospital de Treviso, no contacto com os doentes, consolando, tranquilizando, pronta e disponível; competente e silenciosa até ao ponto de proclamar aos distraídos que Alguém – quer dizer, o Senhor – estava sempre com ela, dirigindo-a e iluminando-a. A santidade que dela irradiava não se extinguiu com a sua morte, mas continuou a derramar os benefícios da santidade, num âmbito cada vez maior, sobre as almas que a ela se confiavam, até ao triunfo de hoje.
A memória litúrgica de Santa Maria Bertila Boscardin celebra-se no dia 20 de Outubro.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…o homem deixará pai e mãe,
 para se unir à sua esposa,
 e os dois serão uma só carne…” (cf. Génesis 2, 24)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Homilia da Missa, por ocasião da abertura da XV Assembleia-Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 3 de Outubro de 2018

«O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que vos disse» (Jo 14, 26).

Desta maneira tão simples, Jesus oferece aos seus discípulos a garantia de que acompanhará todo o trabalho missionário que lhes será confiado: o Espírito Santo será o primeiro a guardar e a manter sempre viva e actual, no coração dos discípulos, a memória do Mestre. Ele faz com que a riqueza e beleza do Evangelho seja fonte de constante alegria e novidade.
No início deste momento de graça para toda a Igreja, em sintonia com a Palavra de Deus, peçamos, insistentemente, ao Paráclito que nos ajude a trazer à memória e a reavivar as palavras do Senhor que faziam arder o nosso coração (cf. Lc 24, 32). Ardor e paixão evangélica que geram o ardor e a paixão por Jesus. Memória que possa despertar e renovar em nós a capacidade de sonhar e esperar. Porque sabemos que os nossos jovens serão capazes de profecia e visão, na medida em que nós, adultos ou já idosos, formos capazes de sonhar e, assim, contagiar e partilhar os sonhos e as esperanças que trazemos no coração (cf. Jl 3, 1).
Que o Espírito nos dê a graça de ser Padres sinodais ungidos com o dom dos sonhos e da esperança, para podermos, por nossa vez, ungir os nossos jovens com o dom da profecia e da visão; que nos dê a graça de ser memória operosa, viva e eficaz, que, de geração em geração, não se deixa sufocar e esmagar pelos profetas de calamidades e desgraças, nem pelos nossos limites, erros e pecados, mas é capaz de encontrar espaços para inflamar o coração e discernir os caminhos do Espírito. É com esta disposição de dócil escuta da voz do Espírito que nos congregamos aqui, de todas as partes do mundo. Hoje, pela primeira vez, estão connosco, também, dois irmãos Bispos da China continental, a quem damos as nossas calorosas boas-vindas. Graças à sua presença, é ainda mais visível a comunhão de todo o Episcopado com o Sucessor de Pedro.
Ungidos na esperança, começamos um novo encontro eclesial capaz de ampliar horizontes, dilatar o coração e transformar as estruturas que hoje nos paralisam, separam e afastam dos jovens, deixando-os expostos às intempéries e órfãos duma comunidade de fé que os apoie, dum horizonte de sentido e de vida (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 49).
A esperança interpela-nos, move-nos e destroça o conformismo ditado pelo «sempre se fez assim» e pede que nos ergamos para fixar, olhos nos olhos, o rosto dos jovens e ver as situações em que se encontram. A mesma esperança pede que trabalhemos por derrubar as situações de precariedade, exclusão e violência, a que está exposta a nossa juventude.
Fruto de muitas das decisões tomadas no passado, os jovens chamam-nos a cuidar, com maior empenho e juntamente com eles, do presente e a lutar contra aquilo que, de algum modo, impede a sua vida de crescer com dignidade. Pedem-nos e exigem-nos uma dedicação criativa, uma dinâmica inteligente, entusiasta e cheia de esperança, e que não os deixemos sozinhos nas mãos de tantos traficantes de morte que oprimem a sua vida e obscurecem a sua visão.
Esta capacidade de sonhar juntos, que hoje o Senhor nos dá de presente, a nós como Igreja, exige – conforme nos dizia São Paulo, na primeira Leitura – que desenvolvamos entre nós uma atitude muito concreta: «Cada um não tenha em vista os próprios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros» (Flp 2, 4). E, ao mesmo tempo, aponta para mais alto pedindo que, humildemente, consideremos os outros superiores a nós mesmos (cf. 2, 3). Com este espírito, procuraremos colocar-nos à escuta uns dos outros para discernirmos, juntos, aquilo que o Senhor está a pedir à sua Igreja. Isto exige de nós que estejamos atentos e nos precavamos bem para não prevalecer a lógica da auto-preservação e da autorreferência, que acaba por tornar importante o que é secundário, e secundário o que é importante. O amor ao Evangelho e ao povo que nos foi confiado pede-nos que alarguemos o olhar e não percamos de vista a missão a que nos chama a fim de apostar num bem maior que será de proveito para todos nós. Sem esta atitude, serão vãos todos os nossos esforços.
O dom da escuta sincera, orante e, o mais possível, livre de preconceitos e condições permitir-nos-á entrar em comunhão com as diferentes situações que vive o povo de Deus. Ouvir a Deus, para escutar com Ele o clamor do povo; ouvir o povo, para respirar com ele a vontade a que Deus nos chama (cf. Discurso na Vigília de Oração preparatória para o Sínodo sobre a família, 4 de outubro de 2014).
Esta atitude defende-nos da tentação de cair em posições moralistas ou elitistas, bem como da atracção por ideologias abstractas que nunca correspondem à realidade do nosso povo (cf. J. M. Bergoglio, Meditações para religiosos, 45-46).
Irmãos, irmãs, coloquemos este tempo sob a protecção materna da Virgem Maria. Que Ela, mulher da escuta e da memória, nos acompanhe no reconhecimento dos sinais do Espírito, a fim de que, solicitamente, (cf. Lc 1, 39), entre os sonhos e esperanças, acompanhemos e estimulemos os nossos jovens para que não cessem de profetizar.
Padres sinodais! Muitos de nós éramos jovens ou dávamos os primeiros passos na vida religiosa, quando terminou o Concílio Vaticano II. Aos jovens de então, foi dirigida a última mensagem dos Padres conciliares. O que ouvimos, quando éramos jovens, far-nos-á bem repassá-lo com o coração, lembrados das palavras do poeta: «O homem mantenha o que, em criança, prometeu» (F. Hölderlin).
Assim nos falaram os Padres conciliares: «A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E, no termo desta importante “revisão de vida”, volta-se para vós. É para vós, os jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro. A Igreja deseja que esta sociedade, que vós ides construir, respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. (…) Tem confiança que (…) vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus, justo e bom.
É em nome deste Deus e do seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo; a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr, corajosamente, ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí, com entusiasmo, um mundo melhor que o dos vossos antepassados» (Conc. Ecum. Vat. II, Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965).
Padres sinodais, a Igreja olha-vos com confiança e amor. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 127

Refrão: O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião o Senhor te abençoe:
vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida;
e possas ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel.

SANTOS POPULARES



BEATA ÂNGELA MARIA
 TRUSZKOWSKA

Sofia Camila Truszkowska nasceu no dia 16 de Maio de 1825, uma família abastada de Kalisz, na Polónia. Nasceu prematuramente e com uma saúde muito frágil. Por isso, só foi baptizada no dia 1 de Janeiro de 1826.
Fez o ensino básico, em casa, tendo por educadora uma senhora dotada de excelentes qualidades intelectuais e morais. Sofia era uma criança muito viva e com um coração de ouro, cheia de bondade e sensível aos gestos de caridade. Desde pequena, Sofia aprendeu a olhar para os pobres com amor e com a ternura que imaginava em Jesus. A mãe, atenta e zelosa, dedicava-se inteiramente aos seus filhos, com a colaboração alegre de Sofia, a filha mais velha.
Entretanto, a família transferiu-se, em 1837, para Varsóvia. Aqui, Sofia, começou a frequentar a prestigiosa Academia de Madame Guerin. Foi seu professor o poeta Estanislau Jachowicz que lhe incutiu sentimentos bons e altruístas.
Aos dezasseis anos, Sofia foi obrigada a interromper os estudos, por causa da tuberculose que a atingiu fortemente. Para se curar, foi enviada para a Suíça, onde permaneceu durante um ano.
Nesse período, Sofia amadureceu o seu amor e apreço pelo silêncio e pela contemplação. Diante do majestoso cenário dos Alpes, ela sentiu uma voz misteriosa que a chamava para a vida de consagração ao Senhor. Mais tarde, ela afirmou que, naquele instante de paz interior, aprendeu a rezar.
Quando regressou a Varsóvia, dedicou-se a actividades de caridade em favor dos mais pobres, enquanto enriquecia a sua cultura, graças à vasta biblioteca paterna. Com frequência, colaborava nas iniciativas paroquiais e era assídua na participação da Eucaristia e da Reconciliação. Nesta altura, pensou entrar no Mosteiro das Visitandinas mas, seguindo a sugestão do seu confessor, dedicou-se a cuidar do seu pai, gravemente doente.
Ao regressar das termas de Salzbrunn, na Alemanha, onde estivera com o seu pai, ficou alguns dias em Colónia. Observando a extraordinária estrutura arquitectónica da Catedral, Sofia compreendeu que o Senhor a chamava para uma vida de consagração e de entrega total ao serviço de Jesus e dos outros, embora, ainda não soubesse como seria isso.
Em 1854, fundou um asilo para dar assistência a algumas crianças órfãs dos bairros pobres de Varsóvia e aos idosos sem casa. Esta obra ficou conhecida como ‘Instituto da Senhora Truszkowska’. A sua habilidade e dedicação atraíram muitas voluntárias e muitos amigos, devotos e influentes. Com a sua ajuda, a obra do Instituto floresceu. Inscreveu-se na Ordem Terceira Franciscana, tomando o nome de Ângela. O seu orientador espiritual era o capuchinho Padre Honorato Kozminski, que faleceu em 1916, com 87 anos, com fama de santo e já beatificado pela Igreja. Este padre foi o seu confessor até a sua morte.
Algum tempo depois, juntamente com a sua prima Clotilde, transferiu a sua residência para o Instituto, para poder estar, noite e dia, mais perto dos seus “pequenos hóspedes”. Em 21 de Novembro de 1855, com a prima, consagrou-se inteiramente ao Senhor, com a finalidade de servir os mais pobres. Nasceu, assim, a futura Congregação das Irmãs de São Félix de Cantalício.
Ângela (Sofia Camila) levava, muitas vezes, os pequenos órfãos à igreja dos Capuchinhos, de Cracóvia. Ali, rezava diante do quadro que representava São Félix, abraçando o Menino Jesus. No Divino Redentor feito homem, meditava no amor misericordioso de Deus que chama para Si a humanidade. Como o santo capuchinho, ela também desejava abraçar e ajudar, em nome do Senhor, todos que encontrasse no seu caminho.
O número dos órfãos aumentou, em pouco tempo, e o Padre Honorato foi nomeado Director do Instituto. Em 10 de Abril de 1857, com nove companheiras, Ângela vestiu o hábito religioso, tomando o nome de Irmã Ângela Maria. A comunidade agregou-se à Ordem Terceira Franciscana.
Nesta época, a vida era muito difícil e inquietante, na Polónia, sujeita à ocupação russa. O Instituto das Irmãs de São Félix foi reconhecido somente como uma obra de caridade, pois as Congregações religiosas estavam proibidas. Contudo, a Madre Ângela Maria mantinha a sua Congregação, em segredo, e o desenvolvimento da obra foi grande: em apenas sete anos, 34 casas foram abertas. Além disso, dentro da Congregação nasceu um ramo contemplativo para atrair todas aquelas que aspiravam a uma vida de clausura. Hoje, este ramo tem o nome de Irmãs Capuchinhas de Santa Clara.
A Madre, como era chamada a Irmã Ângela Maria, embora mantivesse o governo dos dois institutos, resolveu aderir ao ramo contemplativo. Em 1860, foi eleita sua Superiora e reconfirmada em 1864.
Em 1863, o povo polaco insurgiu-se contra o invasor: as Irmãs Felicianas (de São Félix) transformaram as suas casas em hospital para tratar dos feridos, polacos e russos, indistintamente. Em 16 de Dezembro de 1864, suspeitando que as Irmãs apoiavam os insurgentes, os russos suprimiram o Instituto. A Irmã Ângela Maria, com todo o ramo claustral, retirou-se para junto das Irmãs Franciscanas Bernardinas, fundadas pela polaca Madre Verônica Grzedowska. As outras Irmãs voltaram para as suas casas.
Um ano depois, quando a Polónia ficou sob o domínio da Áustria, o Imperador Francisco José concordou com a restauração da Congregação mas, devido a uma enfermidade, a Madre Ângela Maria só pôde reunir-se às suas Irmãs, em Cracóvia, no dia 17 de Maio de 1866.
Dois anos depois, foi eleita Superiora-Geral, professando, publicamente, os votos perpétuos. No ano seguinte, porém, renunciou ao cargo, por causa do agravamento das suas condições de saúde que incluíam uma grave surdez. A Madre Ângela Maria viveu os 30 anos seguintes (de 1869 a 1899) na sua clausura, dando, às outras Irmãs, um grande testemunho de simplicidade e exemplo de virtude.
Nestes anos, foi intensa a sua actividade epistolar. Passava os dias a rezar – sobretudo o Rosário – e a cuidar do asseio da igreja. Para isso, cultivava pessoalmente as flores com que enfeitava a Igreja e tratava das vestes litúrgicas, usadas pelos sacerdotes.
Em 1872, diagnosticaram-lhe um cancro do estômago. Os sofrimentos eram tais que, algumas vezes, chegaram a pensar que tivesse perdido as faculdades mentais. Ela, no silêncio, oferecia as suas provações ao Senhor, para o bem da sua obra.
Em 1874, o Instituto das Irmãs de São Félix obteve, do Papa Pio IX, o “decretum laudis”. No mesmo ano, as primeiras missionárias partiram para as Américas, abençoadas, pessoalmente, pela Irmã Ângela. Três meses antes da sua morte, em Julho de 1899, as Constituições foram aprovadas definitivamente.
Entretanto, o cancro devastou o seu corpo, atingindo a coluna vertebral. À sua cabeceira estavam sempre presentes muitas Irmãs, que ela abençoava, impondo-lhes suas mãos.
A Madre Maria Ângela Truszkowska faleceu no dia 10 de Outubro de 1899. Os seus restos mortais são, hoje, venerados na igreja da Casa Mãe, em Cracóvia.
Em 18 de Abril de 1993, foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Na sua homilia, o Papa disse:
“… Eu te saúdo, ó Madre Maria Ângela Truszkowska, mãe da grande família feliciana. Foste testemunha dos difíceis acontecimentos históricos da nossa Nação e da Igreja que ali cumpria a sua missão. O teu nome e a tua vocação estão ligados à figura do Beato Honorato Kozminski, grande apóstolo das comunidades de base que regeneravam a vida da sociedade atormentada e restituíam a esperança da ressurreição.
Neste dia, realizo uma peregrinação às tuas relíquias, na minha amada Cracóvia, onde cresceu a família feliciana e de onde partiu, para além do Oceano, para servir as novas gerações de emigrantes e os americanos.
Cristo conduziu a Madre Ângela através de um caminho verdadeiramente excepcional, para que pudesse viver intimamente o mistério da sua cruz. Ele moldou o seu espírito através de numerosos sofrimentos que ela aceitou com fé e com a submissão, verdadeiramente heróica, à Sua vontade: na clausura e na solidão, numa doença longa e dolorosa e na noite escura da alma. O seu seu grande desejo era tornar-se ‘vítima de amor’.
Ela sempre entendeu o amor como dom gratuito de si. “Amar significa dar. Dar tudo o que o amor requer. Dar prontamente, sem lamentações, com alegria e desejando que te seja pedido ainda mais” Estas são palavras suas que resumem o completo programa da sua vida. Ela foi capaz de acender este amor nos corações das Irmãs da sua Congregação. Este amor constitui a folhagem, sempre verde, das obras com as quais as comunidades felicianas servem a Igreja na Polónia e por toda a parte.
‘Dai graças ao Senhor porque Ele é bom…” A Igreja rejubila hoje e agradece a Deus pelo dom da elevação aos altares da serva de Deus, Madre Ângela Maria e por toda a Congregação das Irmãs Felicianas, que teve origem no seu carisma…”
A memória litúrgica da Beata Ângela Maria Truszkowska é celebrada no dia 10 de Outubro.


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EM DESTAQUE



SÍNODO DOS BISPOS E ANO MISSIONÁRIO

Dois acontecimentos marcarão este mês de Outubro, na vida da Igreja: o Sínodo dos Bispos e o início do Ano Missionário, em Portugal. O Sínodo vai reflectir sobre “ a fé, os jovens e o discernimento vocacional”; o ano missionário desafia-nos a ser “todos, tudo e sempre em missão”.
Destacámos, da mensagem do Papa Francisco para o dia mundial das missões, o seguinte texto:

“…Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade, sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande desafio. Conheço bem as luzes e as sombras de ser jovem e, se penso na minha juventude e na minha família, recordo a intensidade da esperança por um futuro melhor. O facto de nos encontrarmos neste mundo sem ser por nossa decisão faz-nos intuir que há uma iniciativa que nos antecede e faz existir. Cada um de nós é chamado a reflectir sobre esta realidade: «Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo» (Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 273).
A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor 1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»

Pelo Baptismo, também vós, jovens, sois membros vivos da Igreja e, juntos, temos a missão de levar o Evangelho a todos. Estais a desabrochar para a vida. Crescer na graça da fé, que nos foi transmitida pelos sacramentos da Igreja, integra-nos num fluxo de gerações de testemunhas, onde a sabedoria daqueles que têm experiência se torna testemunho e encorajamento para quem se abre ao futuro. E, por sua vez, a novidade dos jovens torna-se apoio e esperança para aqueles que estão próximo da meta do seu caminho. Na convivência das várias idades da vida, a missão da Igreja constrói pontes inter-geracionais, nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem factores de profunda união.

Por isso, esta transmissão da fé, coração da missão da Igreja, verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por atracção requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8, 6). E tal expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes, impugnadores e contrários à mesma. Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja constituem as periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem sempre com eles o seu Senhor (cf. Mt 28, 20; At 1, 8). Nisto consiste o que designamos por ‘missio ad gentes’. A periferia mais desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do seu amor.

Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato... E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter miríades de contactos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou nesta terra (cf. Lc 9, 23-25). Atrevo-me a dizer que, para um jovem que quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação…”

DA PALAVRA DO SENHOR



- XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
        
“…Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos,
por causa das desgraças que vão cair sobre vós.
As vossas riquezas estão apodrecidas
e as vossas vestes estão comidas pela traça.
O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se,
e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós
e devorar a vossa carne como fogo.
Acumulastes tesouros no fim dos tempos.
Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras.
O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros
chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo.
Levastes na terra uma vida regalada e libertina,
cevastes os vossos corações para o dia da matança.
Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.…” (cf. Tiago 5, 1-6)

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 26 de Setembro de 2018

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Nos dias passados, realizei uma viagem apostólica à Lituânia, Letónia e Estónia, por ocasião do centenário da independência desses países, chamados bálticos. Metade destes cem anos foram vividos sob o jugo das ocupações; primeiro, nazista e, depois, soviética. Trata-se de povos que sofreram muito e foi por isso que o Senhor olhou para eles com predilecção. Estou convicto disto! Agradeço aos Presidentes das três Repúblicas e às Autoridades civis a requintada hospitalidade que recebi. Agradeço aos Bispos e a todos aqueles que colaboraram para preparar e realizar este evento eclesial.
A minha visita realizou-se num contexto muito diferente em relação àquele que São João Paulo II encontrou. Por isso, a minha missão foi anunciar, novamente, àqueles povos a alegria do Evangelho e a revolução da ternura, da misericórdia, porque a liberdade não é suficiente para dar sentido e plenitude à vida sem o amor, amor que vem de Deus. O Evangelho, que na época da provação dá força e anima a luta pela libertação, no tempo da liberdade é luz para o caminho diário das pessoas, das famílias, das sociedades, e é sal que confere sabor à vida comum, preservando-a da corrupção da mediocridade e dos egoísmos.
Na Lituânia os católicos são a maioria - enquanto na Letónia e na Estónia predominam os luteranos e os ortodoxos - mas muitos afastaram-se da vida religiosa. Portanto, o desafio consiste em fortalecer a comunhão entre todos os cristãos, que já se tinha desenvolvido ao longo do duro período da perseguição. Com efeito, a dimensão ecuménica era intrínseca a esta viagem, e encontrou expressão no momento de oração na Catedral de Riga e no encontro com os jovens em Tallinn.
Quando me dirigi às respectivas Autoridades dos três países, salientei a contribuição que eles oferecem à comunidade das Nações e especialmente à Europa: contribuição de valores humanos e sociais que passaram através do crisol da provação. Encorajei o diálogo entre as gerações dos idosos e dos jovens, para que o contacto com as “raízes” possa continuar a fecundar o presente e o futuro. Exortei a conjugar sempre a liberdade com a solidariedade e o acolhimento, segundo a tradição daquelas terras.
Aos jovens e aos idosos foram dedicados dois encontros específicos: com os jovens em Vilnius; com os idosos em Riga. Na praça de Vilnius, cheia de rapazes e raparigas, era evidente o lema da visita à Lituânia: «Jesus Cristo, nossa esperança». Os testemunhos manifestaram a beleza da oração e do canto, onde a alma se abre a Deus; a alegria de servir o próximo, saindo dos espaços do “eu” para se pôr a caminho, capazes de se levantar depois das quedas. Com os idosos, na Letónia, frisei o vínculo estreito entre paciência e esperança. Aqueles que passaram através de duras provações são raízes de um povo, que devem ser conservadas com a graça de Deus, a fim de que os novos rebentos possam haurir delas, florescer e dar fruto. O desafio para quantos envelhecem não consiste em se endurecer, mas permanecer abertos e ternos de mente e de coração; e isto é possível com a “linfa” do Espírito Santo, na oração e na escuta da Palavra.
Também com os sacerdotes, os consagrados e os seminaristas, com os quais me encontrei na Lituânia, pareceu essencial falar da esperança e da dimensão da constância: estar centrado em Deus, solidamente radicado no seu amor. Neste sentido, como foi grande o testemunho que deram e continuam a dar muitos sacerdotes, religiosos e religiosas idosos! Sofreram calúnias, aprisionamentos, deportações... mas permaneceram firmes na fé. Exortei a não esquecer, a preservar a memória dos mártires, para seguir os seus exemplos.
E a propósito de memória, em Vilnius prestei homenagem às vítimas do genocídio judeu na Lituânia: há exactamente 75 anos deu-se o encerramento do grande gueto, que foi antecâmara da morte para dezenas de milhares de judeus. Ao mesmo tempo, visitei o Museu das ocupações e das lutas pela Liberdade: parei em oração precisamente nos quartos onde eram presos, torturados e mortos os opositores do regime. Matavam mais ou menos quarenta por noite. É comovedor ver até que ponto pode chegar a crueldade humana. Pensemos nisto!
Os anos passam, os regimes passam; mas em cima da Porta da Aurora de Vilnius, Maria, Mãe da Misericórdia, continua a velar pelo o seu povo, como sinal de esperança segura e de consolação (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm.  Lumen gentium, 68).
Sinal vivo do Evangelho é sempre a caridade concreta. Até, onde a secularização é mais forte, Deus fala com a linguagem do amor, do cuidado, do serviço gratuito a quem está em necessidade. E então os corações abrem-se e os milagres acontecem: nos desertos germina vida nova.
Nas três celebrações eucarísticas - em Kaunas, na Lituânia; em Aglona, na Letónia; e em Tallinn, na Estónia — o santo Povo fiel de Deus, a caminho naquelas terras, renovou o seu “sim” a Cristo, nossa esperança; renovou-o com Maria, que sempre se mostra Mãe dos seus filhos, especialmente dos mais sofredores; renovou-o como povo eleito, sacerdotal e santo, em cujo coração Deus desperta a graça do Baptismo. Oremos pelos nossos irmãos e irmãs da Lituânia, da Letónia e da Estónia. Obrigado!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 18

Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples.

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente;
Os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.

Embora o vosso servo se deixe guiar por eles
e os observe com cuidado,
quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros?
Purificai-me dos que me são ocultos.

Preservai também do orgulho o vosso servo,
para que não tenha poder algum sobre mim:
então serei irrepreensível
e imune de culpa grave.

SANTOS POPULARES



BEATO JESÚS EMILIO 
JARAMILLO MONSALVE

Jesús Emilio Jaramillo Monsalve nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1916, em Santo Domingo, na província de Antioquia, diocese de Medellín, Colômbia. Era filho de Alberto Jaramillo, artesão, e Cecilia Monsalve, dona de casa. Foi baptizado no dia seguinte ao seu nascimento, na igreja paroquial, dedicada a São Domingos de Guzmão. Tinha uma irmã, Maria Rosa, com quem frequentou a escola primária, na aldeia. A família era pobre, mas não reclamava da sua condição.
Os pais, profundamente crentes, receberam bem a notícia de que Jesús Emilio estava disposto a entrar no seminário. Não na diocese, mas no Instituto das Missões Estrangeiras de Yarumal, fundada recentemente por Dom Miguel Ángel Builes, bispo de Santa Rosa de Osos. O objectivo deste Instituto era preparar padres para serem enviados para as zonas mais carentes de assistência espiritual da Colômbia.
Em Fevereiro de 1929, com treze anos de idade, Jesús Emilio começou a frequentar o Seminário Menor do Instituto das Missões Estrangeiras de Yarumal. Naquela altura, este Seminário era frequentado por setenta rapazes, acompanhados por cinco padres, mas todos estavam animados por um profundo sentimento missionário, incutido pelo exemplo do fundador.
Jesús Emilio começou a mostrar as suas qualidades: tinha uma bela voz; gostava de praticar desporto e dedicava, muito do seu tempo, à leitura. Era de poucas palavras, excepto quando tinha de falar em público. Acima de tudo, começou a destacar-se pela sua dedicação ao trabalho - cumprindo os seus deveres com prontidão e alegria – à oração e ao estudo.
Em 1934, iniciou os estudos em ordem ao sacerdócio, frequentando dois anos de Filosofia. Uma vez terminado o curso de Filosofia, começou o noviciado. Três meses depois, no dia 3 de Dezembro de 1936, fez o seu primeiro compromisso no Instituto: a promessa de obediência.
Entre 1937 e 1940, frequentou o Curso de Teologia. Se, por um lado, se destacava como um grande orador nos principais eventos do Seminário, por outro, procurava ser humilde, serviçal, amigo de todos, merecendo, por isso, o respeito dos seus companheiros e dos seus educadores.
As várias etapas, no caminho para o sacerdócio, foram superadas com dedicação e com simplicidade: a tonsura, as ordens menores, o diaconado. Finalmente, foi ordenado sacerdote, no dia 1 de Setembro de 1940, e celebrou a sua primeira missa (a missa nova) na igreja paroquial da sua terra natal.
Depois de passar algum tempo com a sua família, o Padre Jesús Emilio foi enviado, pelos seus superiores, para Sabanalarga, na época na diocese de Barranquilla. Três semanas depois da ordenação, Jesús Emilio escreveu ao Reitor do Seminário, Padre Aníbal Muñoz Duque, dizendo: "Creio que agora o meu espírito está mais capaz de apreciar a grandeza da minha vocação missionária. Sinto-me totalmente de Cristo. Sinto nascer nas minhas entranhas um imenso amor pelas minhas ovelhas».
Esta experiência durou apenas quatro meses. Em 1941, foi nomeado professor do Seminário. Ao mesmo tempo, foi capelão da Prisão Feminina de Bogotá, onde fez nascer um grande fervor espiritual.
Orientou, também, muitos retiros para sacerdotes e leigos. Pregou muitos sermões, sobretudo por ocasião das solenidades litúrgicas da Semana Santa. Em suma, tornou-se um dos maiores oradores sacros do país. Além disso, exerceu a missão de director espiritual de muitos religiosos e seminaristas.
Entre 1942 e 1944 frequentou a Pontifícia Universidade Saveriana de Bogotá, obtendo o doutorado em Teologia Dogmática com uma tese - que obteve a mais alta classificação – intitulada "A liberdade de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Tomás de Aquino."
Aos trinta anos, o Padre Jesús Emilio foi nomeado mestre de noviços. Ocupou esta função até ao primeiro Capítulo-Geral do Instituto, em 1950, quando foi eleito Segundo Assistente do Superior -geral e Reitor do Seminário.
Os seus discípulos lembram da sua vitalidade – continuava a praticar patinagem e ciclismo - e do seu riso aberto e cordial. Não fugia das situações difíceis, mas fazia-se perto dos seus filhos que aspiravam à missão. Quando estava em oração, o seu rosto era sereno, desprovido de afectações, sinal de uma fé firme e segura.
Em 1956, depois do segundo Capítulo-Geral, foi escolhido pelo novo Superior Geral, Monsenhor Gerardo Valencia Cano, como seu Vigário Delegado, com as funções do Ordinário. Três anos depois, monsenhor Cano renunciou ao cargo de Superior-Geral. Então, o Padre Jesús Emilio tornou Superior-Geral do Instituto das Missões Estrangeiras de Yarumal
Neste período, os Missionários de Yarumal receberam o primeiro convite para passar as fronteiras da Colômbia e partir em missão: África foi o seu primeiro destino. Ao mesmo tempo, o Padre Jesús Emilio fundou o Colégio Ferrini, em Medellín, em homenagem ao franciscano terciário e professor universitário, Contardo Ferrini (beatificado em 1947). Durante muitos anos, este colégio, foi um centro de excelência, dedicado à formação dos leigos.
O mandato do Padre Jesús Emilio como Superior-Geral deveria durar dez anos; ele, porém, apressou-se a implementar as directrizes promulgadas durante o Concílio Vaticano II, que limitava esta tarefa a um período de seis anos.
Livre dos compromissos de governo do Instituto, serviu a Conferência Episcopal da Colômbia, como Conselheiro, no Conselho Nacional de Leigos. Retomou, também, a sua actividade de professor no Colégio Ferrini, de Medellín.
Em 8 de Janeiro de 1970, morreu Monsenhor Luis Eduardo García, Prefeito-Apostólico de Arauca e missionário de Yarumal. Pouco depois, a Santa Sé elevou esta Prefeitura a Vicariato-Apostólico: o seu primeiro Vigário-Apostólico foi o Padre Jesús Emilio, nomeado no dia 11 de Novembro de 1970.
No dia 10 de Janeiro de 1971, foi ordenado bispo, por Monsenhor Ângelo Palmas, Núncio-Apostólico na Colômbia, com o título episcopal de Strumizza. Como um lema, assumiu um versículo do profeta Zacarias (14, 5): "Vigiai! O Senhor vem!”
No dia da sua Ordenação episcopal, rezou, assim, no seu discurso: "Concede-me, Senhor, o dom imerecido de não desiludir as esperanças daqueles que confiam na debilidade das minhas forças. Espero que se tornem fortes como funda de David, apoiado pelo poder invencível da tua graça”.
Em 19 de Julho de 1984, o Vicariato de Arauca foi elevado a Diocese: Dom Jaramillo tornou-se o seu primeiro bispo residencial. O seu vasto território incluía duas regiões muito diferentes: as Planícies Orientais e a floresta de Sarare. O bispo exerceu o seu novo ministério nessas áreas, onde tinha recomeçado a violência armada contra os senhores que punham e dispunham do povo. Entre o clero, Dom Jaramillo, encontrou, também, muitas resistências. Para libertar o país da miséria e da opressão, alguns padres tornaram-se guerrilheiros. Era evidente a descristianização, que avançava na Colômbia.
Monsenhor Jaramillo estava ciente de tudo isso: trabalhou, arduamente, para proteger a vida e a dignidade dos seus fiéis. Promoveu várias iniciativas em defesa dos direitos humanos, especialmente dos pobres, sem perder de vista importância da Palavra de Deus. Criou novas paróquias e fundou dois organismos especiais: o Instituto São José Operário, em Saravena, para a formação humana e cristã dos camponeses, e a “Equipa do Índio”, para a evangelização dos índios do Sarare.
Estas actividades não eram bem vistas pelas forças que queriam libertar a Colômbia usando a violência, de modo especial o Exército de Libertação Nacional (ELN). Surgiram muitos ataques difamatórios e muitas calúnias. Outros acusavam-no de ser morno e medíocre, não perdoando os seus erros humanos.
Monsenhor Jaramillo não se deixou perturbar e perdoou aos que o ofenderam. Não se gabava dos dons recebidos e continuou com o seu treinamento artístico e cultural. Continuou a proclamando o Evangelho, mesmo sabendo bem o que poderia acontecer-lhe.
No Sábado, 30 de Setembro de 1989, Dom Jaramillo dirigiu-se a La Esmeralda e dali, no dia seguinte, partiu para Fortul, onde era esperado para a visita pastoral. No dia seguinte, foi para Puerto Nidio, também para a visita pastoral. Estava acompanhado pelo Padre Rubin, pároco de  Fortul, pelo Padre Leon, pároco de Zarabanda, pelo Padre Helmer Muñoz, que conduzia o jipe, pelo seminarista Germán Piracoca e pela  secretária da Paróquia de Fortul.
Depois de atravessarem uma ponte de madeira, na estrada entre Fortul e Tame, o veículo foi forçado a parar, por três homens armados e vestidos como camponeses. Minutos depois, os três perguntaram quem era Jesús Jaramillo Monsalve. O bispo respondeu. Com modos gentis, ordenaram que todos saíssem do jipe ​​e repetiram a mesma pergunta. Monsenhor Jaramillo respondeu de novo que era ele. Naquele momento, disseram-lhe que precisavam dele para que fizesse uma breve declaração a ser enviada ao Governo nacional. Em seguida, perguntaram quem é que sabiam conduzir o jipe. O Padre Helmer deu alguns passos em frente e logo percebeu que o Bispo estava prestes a ser sequestrado. Os sequestradores, membros do ELN, ordenaram que todos se colocassem na beira da estrada e partiram, seguindo primeiramente para o norte e, depois, para leste.
Quando chegaram a um lugar isolado, por volta das sete horas da tarde, fizeram-nos sair do jipe e disseram-lhes que deviam esperar ordens dos seus superiores. Disseram ao Padre Helmer para se afastar, porque só o bispo deveria ir com eles.
Perante a insistência do padre, que não o queria deixar só, Dom Jaramillo chamou-o à parte e disse-lhe: "Coloquemo-nos nas mãos do Senhor e que seja feita a Sua vontade”.
Dito isto, deram-se um ao outro a absolvição. O Bispo pediu ao Padre Helmer que, por obediência, saísse dali, para não complicar as coisas.
Até os sequestradores lhe ordenaram que se fosse embora, prometendo que no dia seguinte voltariam com Bispo. Enquanto se afastava, o Padre Helmer ouviu as últimas palavras de Monsenhor Jaramillo: "Eu falo com quem devo falar mas, por favor, não façam nada ao meu rapaz".
Nas primeiras horas do dia 3 de Outubro, o Padre Helmer veio à procura do seu Bispo, no lugar indicado pelos guerrilheiros. Por volta das 8 horas, encontrou-o morto: tinha sinais de tortura e várias feridas feitas por arma de fogo. Não tinha o anel episcopal nem a cruz peitoral; a corrente da qual pendia tinha sido quebrada.
Através do então Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Agostino Casaroli, o Papa João Paulo II enviou as suas condolências à Conferência Episcopal Colombiana, onde assegurava as suas orações para obter "o descanso eterno à alma exemplar do zeloso Pastor, que dedicou toda a sua vida ao serviço do povo de Deus, pregando a reconciliação e o amor cristão ".
Os restos mortais de Monsenhor Jesús Emilio Jaramillo Monsalve foram sepultados na Catedral de Arauca. No dia 24 de Agosto de 2017, foram exumados e colocados numa capela lateral, da mesma catedral.
No dia 7 de Julho de 2017, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que declarava que o Bispo Dom Jesús Emilio Jaramillo foi considerado mártir da fé.
Dom Jesús Emilio - juntamente com o Padre Pedro María Ramírez Ramos - foi beatificado no dia 8 de Setembro de 2017, em Villavicencio, pelo Papa Francisco, durante a sua visita apostólica à Colômbia.
Na Eucaristia, o Papa disse: “…A reconciliação não é uma palavra que devemos considerar abstracta; se assim fosse, traria apenas esterilidade, traria maior distância. Reconciliar-se é abrir uma porta a todas e cada uma das pessoas que viveram a realidade dramática do conflito. Quando as vítimas vencem a tentação compreensível da vingança, quando vencem esta tentação compreensível da vingança, tornam-se nos protagonistas mais credíveis dos processos de construção da paz. É preciso que alguns tenham a coragem de dar o primeiro passo nesta direcção, sem esperar que o façam os outros. Basta uma pessoa boa, para que haja esperança. Não esqueçais isto: basta uma pessoa boa, para que haja esperança. E cada um de nós pode ser esta pessoa! Isto não significa ignorar ou dissimular as diferenças e os conflitos. Não é legitimar as injustiças pessoais ou estruturais. O recurso à reconciliação concreta não pode servir para se acomodar em situações de injustiça. Pelo contrário, como ensinou São João Paulo II, «é um encontro entre irmãos dispostos a vencer a tentação do egoísmo e a renunciar aos intentos duma pseudo-justiça; é fruto de sentimentos fortes, nobres e generosos, que levam a estabelecer uma convivência fundada sobre o respeito de cada indivíduo e dos valores próprios de cada sociedade civil» (Carta aos Bispos de El Salvador, 6/VIII/1982). Por isso, a reconciliação concretiza-se e consolida-se com a contribuição de todos, permite construir o futuro e faz crescer a esperança. Qualquer esforço de paz sem um compromisso sincero de reconciliação será sempre um fracasso.
O texto do Evangelho, que ouvimos, culmina chamando a Jesus o Emanuel, que significa Deus connosco. E como começa, assim termina Mateus o seu Evangelho: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (28, 20). Jesus é o Emanuel que nasce e o Emanuel que nos acompanha todos os dias, é o Deus connosco que nasce e o Deus que caminha connosco até ao fim do mundo. Esta promessa realiza-se também na Colômbia: D. Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, Bispo de Arauca, e o sacerdote Pedro Maria Ramírez Ramos, mártir de Armero, são sinal disso, expressão dum povo que quer sair do pântano da violência e do rancor.
Neste ambiente maravilhoso, cabe-nos a nós dizer «sim» à reconciliação concreta; e, neste «sim», incluamos também a natureza. Não é por acaso que, inclusive sobre ela, se tenham desencadeado as nossas paixões possessivas, a nossa ânsia de domínio. Um vosso compatriota canta-o com primor: «As árvores estão a chorar, são testemunhas de tantos anos de violência. O mar aparece acastanhado, mistura de sangue com a terra» (Juanes, Minhas Pedras). A violência que existe no coração humano, ferido pelo pecado, manifesta-se também nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos (cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’, 2). Cabe-nos dizer «sim» como Maria e cantar com Ela as «maravilhas do Senhor», porque, como prometeu aos nossos pais, Ele ajuda todos os povos e ajuda cada povo, e ajuda a Colômbia que hoje quer reconciliar-se e à sua descendência para sempre…”
A sua memória litúrgica faz-se no dia 3 de Outubro.

domingo, 23 de setembro de 2018

EM DESTAQUE



- VISITA DO PAPA FRANCISCO AOS PAÍSES BÁLTICOS

O Papa Francisco iniciou, neste Sábado, dia 22 de Setembro, uma visita de quatro dias à Lituânia, Letónia e Estónia, para uma viagem que visa homenagear quem sofreu por causa da fé e para se associar às celebrações do centenário de independência dos países bálticos. Antes de partir, o Papa dirigiu uma mensagem aos povos destes três países, afirmando que a sua viagem tem uma profunda dimensão pastoral e apostólica: viaja como Pastor da Igreja Católica, mas com o desejo de abraçar a todos e, a todos, oferecer uma mensagem de paz, de boa vontade e de esperança para o futuro.
Uma das razões da sua visita é honrar todos aqueles cujos sacrifícios, no passado, tornaram possíveis as liberdades do presente. O Papa leva no seu pensamento e no seu coração aqueles que, durante a ocupação soviética sofreram e foram mortos por causa da sua fé. Nesta sua mensagem o papa disse:“…Faço votos de que a minha visita seja uma fonte de encorajamento para todas aquelas pessoas de boa vontade que, inspiradas pelos mais profundos valores espirituais e culturais, herdados do passado, estão pacificamente a trabalhar para aliviar os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs que se encontram na necessidade e para promover a unidade e a harmonia na sociedade, a todos os níveis…". (cf. Rádio Vaticano)

Unidos ao Papa, rezamos pelo sucesso desta viagem e para que os povos destes países do Báltico, acolhendo a graça da visita do Papa, procurem construir e viver na harmonia e na paz.