PALAVRA COM SENTIDO
PALAVRA COM SENTIDO
“… O Senhor ressuscitou, verdadeiramente!…” (cf. Antífona do Domingo de Páscoa)
Hoje ecoa em todo o mundo o anúncio da Igreja: «Jesus Cristo ressuscitou»; «ressuscitou verdadeiramente»!
Como uma nova chama, se acendeu esta Boa Nova na noite: a noite dum mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia, que coloca à dura prova a nossa grande família humana. Nesta noite, ressoou a voz da Igreja: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» (Sequência da Páscoa).
É um «contágio» diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus.
O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa. Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada.
Hoje penso sobretudo em quantos foram atingidos diretamente pelo coronavírus: os doentes, os que morreram e os familiares que choram a partida dos seus queridos e por vezes sem conseguir sequer dizer-lhes o último adeus.
O Senhor da vida acolha junto de Si no seu Reino os falecidos e dê conforto e esperança a quem ainda está na prova, especialmente aos idosos e às pessoas sem ninguém. Não deixe faltar a sua consolação e os auxílios necessários a quem se encontra em condições de particular vulnerabilidade, como aqueles que trabalham nas casas de cura ou vivem nos quartéis e nas prisões.
Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos.
Esta epidemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de recorrer pessoalmente à consolação que brota dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Em muitos países, não foi possível aceder a eles, mas o Senhor não nos deixou sozinhos! Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que Ele colocou sobre nós a sua mão (cf. Sal 139/138, 5), repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! «Ressuscitei e estou contigo para sempre» (cf. Missal Romano).
Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão.
Nestas semanas, alterou-se improvisamente a vida de milhões de pessoas. Para muitos, ficar em casa foi uma ocasião para refletir, parar os ritmos frenéticos da vida, permanecer com os próprios familiares e desfrutar da sua companhia. Mas, para muitos outros, é também um momento de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo emprego que se corre o risco de perder e pelas outras consequências que acarreta a atual crise. Encorajo todas as pessoas que detêm responsabilidades políticas a trabalhar ativamente em prol do bem comum dos cidadãos, fornecendo os meios e instrumentos necessários para permitir a todos que levem uma vida digna e favorecer – logo que as circunstâncias o permitam – a retoma das atividades diárias habituais.
Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia. Jesus ressuscitado dê esperança a todos os pobres, a quantos vivem nas periferias, aos refugiados e aos sem abrigo. Não sejam deixados sozinhos estes irmãos e irmãs mais frágeis, que povoam as cidades e as periferias de todas as partes do mundo. Não lhes deixemos faltar os bens de primeira necessidade, mais difíceis de encontrar agora que muitas atividades estão encerradas, bem como os medicamentos e sobretudo a possibilidade duma assistência sanitária adequada. Em consideração das presentes circunstâncias, sejam abrandadas também as sanções internacionais que impedem os países visados de proporcionar apoio adequado aos seus cidadãos e seja permitido a todos os Estados acudir às maiores necessidades do momento atual, reduzindo – se não mesmo perdoando – a dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres.
Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas. Dentre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de modo especial na Europa. Depois da II Guerra Mundial, este Continente pôde ressurgir graças a um espírito concreto de solidariedade, que lhe permitiu superar as rivalidades do passado. É muito urgente, sobretudo nas circunstâncias presentes, que tais rivalidades não retomem vigor; antes, pelo contrário, todos se reconheçam como parte duma única família e se apoiem mutuamente. Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações.
Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas. Ao contrário, seja o tempo em que finalmente se ponha termo à longa guerra que ensanguentou a amada Síria, ao conflito no Iémen e às tensões no Iraque, bem como no Líbano. Seja este o tempo em que israelitas e palestinianos retomem o diálogo para encontrar uma solução estável e duradoura que permita a ambos os povos viverem em paz. Cessem os sofrimentos da população que vive nas regiões orientais da Ucrânia. Ponha-se termo aos ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em vários países da África.
Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Que o Senhor da vida Se mostre próximo das populações da Ásia e da África que estão a atravessar graves crises humanitárias, como na Região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Acalente o coração das inúmeras pessoas refugiadas e deslocadas por causa de guerras, seca e carestia. Proteja os inúmeros migrantes e refugiados, muitos deles crianças, que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. E não quero esquecer a ilha de Lesbos. Faça com que na Venezuela se chegue a soluções concretas e imediatas, destinadas a permitir a ajuda internacional à população que sofre por causa da grave conjuntura política, socioeconómica e sanitária.
Queridos irmãos e irmãs,
Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso.
Com estas reflexões, gostaria de vos desejar a todos uma Páscoa feliz. (Mensagem do Papa Francisco na Bênção Urbi et Orbe, no Domingo de Páscoa de 2020).
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA
- Bento XVI, em 30
de Dezembro de 2007
“…Celebramos, hoje, a festa da Sagrada Família.
Seguindo os Evangelhos de Mateus e de Lucas, fixamos o olhar em Jesus, Maria e
José, e adoramos o mistério de um Deus que quis nascer de uma mulher, a Virgem
Santa, e entrar neste mundo pelo caminho comum a todos os homens. Fazendo
assim, santificou a realidade da família, enchendo-a da graça divina e
revelando plenamente a sua vocação e missão. O Concílio Vaticano II dedicou
grande atenção à família. Os cônjuges, afirma ele, são um para o outro e para
os filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo. A família cristã participa
assim da vocação profética da Igreja: com o seu modo de viver
"proclama em voz alta as virtudes presentes do reino de Deus e a esperança
da vida bem-aventurada". Como repetiu depois, incansavelmente, o meu
venerado Predecessor João Paulo II, o bem da pessoa e da sociedade está
estreitamente ligado à "boa saúde" da família. Por isso, a Igreja
está comprometida na defesa e promoção "da dignidade natural e do
altíssimo valor sagrado" - são
palavras do Concílio - do matrimónio e da família". (…) Ao contemplar o
mistério do Filho de Deus que veio ao mundo circundado pelo afecto de Maria e
de José, convido as famílias cristãs a experimentar a presença amorosa do
Senhor nas suas vidas. De igual modo, estimulo-as a fim de que, inspirando-se
no amor de Cristo pelos homens, dêem testemunho, diante do mundo, da beleza do
amor humano, do matrimónio e da família. Ela, fundada na união indissolúvel de
um homem com uma mulher, constitui o âmbito privilegiado no qual a vida humana
é acolhida e protegida, desde a sua concepção até ao seu fim natural. Por isso,
os pais têm o direito e a obrigação fundamental de educar os seus filhos, na fé
e nos valores que dignificam a existência humana. Vale a pena empenhar-se pela
família e pelo matrimónio porque vale a pena comprometer-se pelo ser humano, o
ser mais precioso criado por Deus. Dirijo-me de modo especial às crianças, para
que sintam carinho e rezem pelos seus pais e irmãos; aos jovens, a fim de que,
estimulados pelo amor dos seus pais, sigam com generosidade a sua vocação
matrimonial, sacerdotal ou religiosa; aos idosos e aos enfermos, para que
encontrem a ajuda e a compreensão necessárias. E vós, queridos esposos, contai
sempre com a graça de Deus, para que o vosso amor seja cada vez mais fecundo e
fiel. Nas mãos de Maria, "que com o seu "sim" abriu a porta do
nosso mundo a Deus", confio os frutos desta celebração. Muito obrigado e
Boas Festas…”
PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
- na Mensagem para
o Dia Mundial da Paz: 1 de Janeiro
“…A fraternidade, fundamento e caminho para a paz
(…) a
fraternidade é fundamento e caminho para
a paz. As Encíclicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa
neste sentido. Basta ver as definições de paz da Populorum progressio,
de Paulo VI, ou da Sollicitudo rei socialis, de João
Paulo II. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos é o
novo nome da paz e, da segunda, que a paz é opus solidaritatis,
fruto da solidariedade.Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade. E explica: «Nesta compreensão e amizade mútuas, nesta comunhão sagrada, devemos (...) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade». Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obrigações radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tríplice aspecto: o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros.
Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis, é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum». Isto implica não deixar-se guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio (...). O “outro” – pessoa, povo ou nação – [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».
A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da acção permanente do Espírito Santo», como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da acção vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar», para o transformar…”
«Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14).
Queridos irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, feliz Natal!
Faço meu o cântico dos anjos que apareceram aos pastores de Belém, na noite em que nasceu Jesus. Um cântico que une céu e terra, dirigindo ao céu o louvor e a glória e, à terra dos homens, votos de paz.
Convido todos a unirem-se a este cântico: este cântico é para todo o homem e mulher que vela na noite, que tem esperança num mundo melhor, que cuida dos outros procurando humildemente cumprir o seu dever.
Glória a Deus.
A primeira coisa que o Natal nos chama a fazer é isto: dar glória a Deus, porque Ele é bom, é fiel, é misericordioso. Neste dia, desejo a todos que possam reconhecer o verdadeiro rosto de Deus, o Pai que nos deu Jesus. Desejo a todos que possam sentir que Deus está perto, possam estar na sua presença, amá-Lo, adorá-Lo.
Possa cada um de nós dar glória a Deus sobretudo com a vida, com uma vida gasta por amor d’Ele e dos irmãos.
Paz aos homens.
A verdadeira paz não é um equilíbrio entre forças contrárias; não é uma bela «fachada», por trás da qual há contrastes e divisões. A paz é um compromisso de todos os dias, que se realiza a partir do dom de Deus, da graça que Ele nos deu em Jesus Cristo.
Vendo o Menino no presépio, pensamos nas crianças que são as vítimas mais frágeis das guerras, mas pensamos também nos idosos, nas mulheres maltratadas, nos doentes... As guerras dilaceram e ferem tantas vidas!
Muitas dilacerou, nos últimos tempos, o conflito na Síria, fomentando ódio e vingança. Continuemos a pedir ao Senhor que poupe novos sofrimentos ao amado povo sírio, e as partes em conflito ponham fim a toda a violência e assegurem o acesso à ajuda humanitária. Vimos como é poderosa a oração! E fico contente sabendo que hoje também se unem a esta nossa súplica pela paz na Síria crentes de diversas confissões religiosas. Nunca percamos a coragem da oração! A coragem de dizer: Senhor, dai a vossa paz à Síria e ao mundo inteiro.
Dai paz à República Centro-Africana, frequentemente esquecida dos homens. Mas Vós, Senhor, não esqueceis ninguém e quereis levar a paz também àquela terra, dilacerada por uma espiral de violência e miséria, onde muitas pessoas estão sem casa, sem água nem comida, sem o mínimo para viver. Favorecei a concórdia no Sudão do Sul, onde as tensões actuais já provocaram diversas vítimas e ameaçam a convivência pacífica naquele jovem Estado.
Vós, ó Príncipe da Paz, convertei por todo o lado o coração dos violentos, para que deponham as armas e se empreenda o caminho do diálogo. Olhai a Nigéria, dilacerada por contínuos ataques que não poupam inocentes nem indefesos. Abençoai a Terra que escolhestes para vir ao mundo e fazei chegar a um desfecho feliz as negociações de paz entre Israelitas e Palestinianos. Curai as chagas do amado Iraque, ferido ainda frequentemente por atentados.
Vós, Senhor da vida, protegei todos aqueles que são perseguidos por causa do vosso nome. Dai esperança e conforto aos deslocados e refugiados, especialmente no Corno de África e no leste da República Democrática do Congo. Fazei que os emigrantes em busca duma vida digna encontrem acolhimento e ajuda. Que nunca mais aconteçam tragédias como aquelas a que assistimos este ano, com numerosos mortos em Lampedusa.
Ó Menino de Belém, tocai o coração de todos os que estão envolvidos no tráfico de seres humanos, para que se dêem conta da gravidade deste crime contra a humanidade. Voltai o vosso olhar para as inúmeras crianças que são raptadas, feridas e mortas nos conflitos armados e para quantas são transformadas em soldados, privadas da sua infância.
Senhor do céu e da terra, olhai para este nosso planeta, que a ganância e a ambição dos homens exploram muitas vezes indiscriminadamente. Assisti e protegei quantos são vítimas de calamidades naturais, especialmente o querido povo filipino, gravemente atingido pelo recente tufão.
Queridos irmãos e irmãs, hoje, neste mundo, nesta humanidade, nasceu o Salvador, que é Cristo Senhor. Detenhamo-nos diante do Menino de Belém. Deixemos que o nosso coração se comova, deixemo-lo abrasar-se pela ternura de Deus; precisamos das suas carícias. Deus é grande no amor; a Ele, o louvor e a glória pelos séculos! Deus é paz: peçamos-Lhe que nos ajude a construí-la cada dia na nossa vida, nas nossas famílias, nas nossas cidades e nações, no mundo inteiro. Deixemo-nos comover pela bondade de Deus.
PARA REZAR
SALMO
24
R/. Ditosos os que temem o Senhor,
ditosos os que
seguem os seus caminhos.
Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.
Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira
ao redor da tua mesa.
Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém
todos os dias da tua vida.
SANTOS POPULARES
BEATA EUGÉNIA RAVASCO
Eugénia Ravasco nasceu em Milão, no dia 4
de Janeiro de 1845. Era a terceira dos seis filhos do banqueiro genovês Francisco
Mateus Ravasco e de Carolina Mozzoni Frosconi, senhora de nobre linhagem. Foi
batizada na Basílica de Santa Maria da Paixão e recebeu o nome de Eugénia
Maria. A sua família, rica e muito religiosa, proporcionou-lhe um ambiente
cheio de afectos, de fé e uma fina e cuidada educação. Depois da
morte prematura de dois dos seus filhos e, também, da perda da jovem esposa, o
seu pai voltou para Génova, a sua terra, levando consigo o seu filho mais
velho, Ambrósio, e a sua filha mais nova, Elisa, com apenas um ano e meio. Eugénia
ficou em Milão, com a sua irmã Constância, entregue aos cuidados da tia,
Marieta Anselmi. Em 1852, com doze anos, reuniu-se
à sua família, em Génova. Três anos depois, em Março de 1855, morreu o seu pai.
O tio, Luís Ravasco, também banqueiro e cristão muito convicto, assumiu a responsabilidade
de cuidar dos seus sobrinhos órfãos. Providenciou-lhes uma boa formação e
confiou as duas irmãs aos cuidados da senhora Serra, uma governanta muito qualificada
e muito exigente. Eugénia, de carácter vivo e exuberante, sofreu muito com a
maneira bastante severa usada pela senhora Serra, mas soube submeter-se docilmente.
Em 21 de Junho de 1855, com dez anos,
recebeu a Primeira Comunhão e o Crisma na Igreja de Santo Ambrósio (hoje de
Jesus) em Génova, tendo sido preparada pelo Cónego Salvatore Magnasco. Daquele
dia em diante, sentiu-se atraída pelo mistério da Presença Eucarística: quando
passava diante de uma igreja, entrava para saudar Jesus e adorá-lo no
Santíssimo Sacramento. O culto à Eucaristia, de facto, é o fundamento da sua
espiritualidade, unido ao culto do Coração de Jesus e de Maria Imaculada.Movida pela grande compaixão por aqueles que sofriam, desde a sua adolescência preocupou-se, com amor generoso, com os pobres e os necessitados, feliz por fazer o bem, mesmo com algum sacrifício.
Em Dezembro de 1862, morreu o seu tio Luís que, para ela, foi mais do que um pai. Dele herdou não só a rectidão moral, mas também a coerência cristã e a generosidade para com os mais pobres. Confiando em Deus e aconselhada pelo Cónego Salvatore Magnasco - futuro Arcebispo de Génova - e de sábios advogados, assumiu a responsabilidade de administrar os bens da família, até então entregues às mãos de administradores nem sempre honestos.
Fez tudo o que pôde para salvar o seu irmão Ambrósio do mau caminho em que se tinha metido e que o levou à ruína moral e física. Não tendo obtido nenhum resultado positivo, acolheu este sofrimento como uma grande provação à firmeza da sua fé.
Em 31 de Maio de 1863, entrou na Igreja de Santa Sabina, em Génova, para saudar Jesus Eucarístico. Ao ouvir as palavras de um sacerdote, que naquele momento falava aos fiéis, Eugénia sentiu o convite de Deus para se “consagrar a fazer o bem por amor ao Coração de Jesus”. Este acontecimento abriu-lhe grandes horizontes e transformou, por completo, a sua vida, levando-a a consagrar-se, sem reservas, à glória de Deus: toda a sua energia, as suas capacidades e, também, o património herdado da sua família. “Esta riqueza — dizia muitas vezes — não é minha, mas do Senhor; eu sou somente a administradora”.
Suportou, com firmeza, a reação dos parentes; as críticas e o desprezo dos senhores da sua condição social. Começou, com coragem, a fazer o bem à sua volta: ensinou o Catecismo na Paróquia de Nossa Senhora do Carmo; colaborou, com as Filhas da Imaculada, na Obra de Santa Doroteia prestando assistência às crianças vizinhas; abriu a sua casa para dar-lhes instrução religiosa e formação na costura e nos bordados; com as damas de Santa Catarina de Portoria, assistiu aos doentes do Hospital de Pammatone; visitou os pobres nas suas casas, levando o conforto da sua caridade.
Sentia grande dor ao ver tantas crianças e jovens abandonados a si mesmos, expostos a todos os perigos e sem conhecimento das coisas de Deus. Por isso, em 6 de Dezembro de 1868, com 23 anos, fundou a Congregação Religiosa das Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, com a missão de fazer o bem à juventude. Assim, surgiram as escolas, o ensino do Catecismo, as associações e os Oratórios ( centros da ATL para crianças e jovens). O projecto educativo da Madre Ravasco era: educar os jovens e formá-los para uma vida cristã sólida para que fossem “honestos cidadãos na sociedade e santos no céu”.
Em 1878, numa época de grande hostilidade para com a Igreja e de laicização social, Eugénia Ravasco, atenta às necessidades do seu tempo, abriu uma ‘Escola Normal’ feminina, com o objectivo de dar às jovens uma orientação cristã e de preparar professoras cristãs para a sociedade. Por causa desta obra - que tanto amava – enfrentou, com fortaleza e confiando só em Deus, os ataques maldosos da imprensa contrária. Inflamada de ardente caridade - que lhe vinha do Coração de Jesus - e animada da vontade de ajudar o próximo na vida espiritual, de acordo com os párocos, organizou exercícios espirituais, retiros, celebrações religiosas e missões populares. Sentia grande alegria e conforto ao ver tanta gente a voltar-se para Deus e a fazer a experiência da Sua misericórdia através da oração, do canto sacro e dos sacramentos. Rezava: “Coração de Jesus, concede-me fazer este bem e nenhum outro, em toda parte”.
Sonhou dedicar-se à missão Ad Gentes ( evangelização missionária ). Este projecto começou a realizar-se já depois da sua morte. Promoveu o culto ao Coração de Jesus, à Eucaristia e ao Coração Imaculado de Maria. Abriu ‘Associações’ para mães de família, quer do povo, quer da aristocracia; a estas últimas propôs que ajudassem as jovens necessitadas e as igrejas pobres. Com a sua caridade, aproximou os moribundos e os encarcerados afastados da Igreja. Viveu da fé, da oração, do sofrimento e do abandono à vontade de Deus.
Em 1884, juntamente com outras Irmãs, Eugênia Ravasco fez a sua Profissão Perpétua. Continuou a interessar-se pelo desenvolvimento e consolidação do seu Instituto, que foi aprovado pela Igreja Diocesana, em 1882, e tornar-se-ia de Direito Pontifício, em 1909. Abriu casas religiosas em várias localidades. Apesar da sua pouca saúde, visitava-as, com frequência, para orientar, animar e incentivar a uma maior dedicação espiritual e social. Guiou a sua comunidade com amor, prudência e visão de futuro.
Considerando-se serva e a última entre as Irmãs, empenhou-se em manter acesa, nas suas ‘filhas’, a chama da caridade e do zelo pela salvação do mundo, propondo-lhes, como modelo, os Corações Santíssimos de Jesus e de Maria. O seu ideal apostólico foi: “Arder de desejo pelo bem dos outros, especialmente da juventude”; o seu empenho de vida: “Viver abandonada em Deus e nos braços de Maria Imaculada”.
Purificada com a prova da doença, da incompreensão e do isolamento dentro da comunidade, nunca deixou de trabalhar. Em 1898, fundou a Associação de Santa Zita para as jovens operárias. Ao mesmo tempo, construiu o “teatrinho”, para os momentos de lazer dos jovens do Oratório e das numerosas Associações do Instituto.
Eugénia Ravasco morreu, em Génova - com 55 anos - na Casa Mãe do Instituto, na manhã de 30 de Dezembro de 1900. “Deixo-vos todas no Coração de Jesus”, foi sua saudação final às filhas e às caríssimas jovens.
Foi beatificada, em 27 de Abril de 2003, na Praça de São Pedro, em Roma, pelo Papa João Paulo II. A memória litúrgica da Beata Eugénia Ravasco faz-se no dia 30 de Dezembro.
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