PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…Se és o Messias de Deus, o Eleito …” (cf. Lucas 23, 35b) A solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo coroa o ano litúrgico. Na verdade, o Evangelho apresenta a realeza de Jesus no auge da sua obra salvadora e fá-lo duma maneira surpreendente. «O Messias de Deus, o Eleito, (…) o Rei» (Lc 23, 35.37) aparece sem poder nem glória: está na cruz, onde parece mais um vencido do que um vencedor. A sua realeza é paradoxal: o seu trono é a cruz; a sua coroa é de espinhos; não tem um ceptro, mas põem-Lhe uma cana na mão; não usa vestidos sumptuosos, mas é privado da própria túnica; não tem anéis brilhantes nos dedos, mas as mãos trespassadas pelos pregos; não possui um tesouro, mas é vendido por trinta moedas. Verdadeiramente não é deste mundo o reino de Jesus (cf. Jo 18, 36); mas, precisamente nele – diz-nos o apóstolo Paulo na segunda leitura – é que encontramos a redenção e o perdão (cf. Col 1, 13-14). Porque a grandeza do seu reino não está na força segundo o mundo, mas no amor de Deus, um amor capaz de alcançar e restaurar todas as coisas. Por este amor, Cristo abaixou-Se até nós, viveu a nossa miséria humana, provou a nossa condição mais ignóbil: a injustiça, a traição, o abandono; experimentou a morte, o sepulcro, a morada dos mortos. Assim Se aventurou o nosso Rei até aos confins do universo, para abraçar e salvar todo o vivente. Não nos condenou, nem sequer nos conquistou; nunca violou a nossa liberdade, mas abriu caminho com o amor humilde, que tudo desculpa, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 7). Unicamente este amor venceu e continua a vencer os nossos grandes adversários: o pecado, a morte, o medo. Hoje, proclamamos esta vitória singular, pela qual Jesus Se tornou o Rei dos séculos, o Senhor da história: apenas com a omnipotência do amor, que é a natureza de Deus, a sua própria vida, e que nunca terá fim (cf. 1 Cor 13, 8). Jubilosamente compartilhamos a beleza de ter Jesus como nosso Rei: o seu domínio de amor transforma o pecado em graça, a morte em ressurreição, o medo em confiança. Mas seria demasiado pouco crer que Jesus é Rei do universo e centro da história, sem fazê-Lo tornar-Se Senhor da nossa vida: tudo aquilo será vão, se não O acolhermos pessoalmente e se não acolhermos também o seu modo de reinar. Nisto, ajudam-nos os personagens presentes no Evangelho de hoje. Além de Jesus, aparecem três tipos de figuras: o povo que olha, o grupo que está aos pés da cruz e um malfeitor crucificado ao lado de Jesus. Começamos pelo povo. O Evangelho diz que «permanecia ali, a observar» (Lc 23, 35): ninguém se pronuncia, ninguém se aproxima. O povo permanece longe, a ver o que sucedia. É o mesmo povo que, levado pelas próprias necessidades, se aglomerava à volta de Jesus e, agora, se mantém à distância. Vendo certas circunstâncias da vida ou as nossas expectativas por realizar, podemos também nós ser tentados a manter a distância da realeza de Jesus, não aceitando completamente o escândalo do seu amor humilde, que interpela o nosso eu e o desassossega. Prefere-se ficar à janela, alhear-se, em vez de se avizinhar e fazer-se próximo. Mas o povo santo, que tem Jesus como Rei, é chamado a seguir o seu caminho de amor concreto; a interrogar-se, diariamente, cada um para si: «Que me pede o amor, para onde me impele? Que resposta dou a Jesus com a minha vida?» Temos depois um segundo grupo, que engloba vários personagens: os chefes do povo, os soldados e um dos malfeitores. Todos eles escarnecem de Jesus, dirigindo-Lhe a mesma provocação: «Salve-Se a Si mesmo» (cf. Lc 23, 35.37.39). É uma tentação pior do que a do povo. Aqui tentam Jesus, como fez o diabo ao início do Evangelho (cf. Lc 4, 1-13), para que renuncie a reinar à maneira de Deus e o faça segundo a lógica do mundo: desça da cruz e derrote os inimigos! Se é Deus, demonstre força e superioridade! Esta tentação é um ataque contra o amor: «Salva-te a ti mesmo» (Lc 23, 37.39); não os outros, mas a ti mesmo. Prevaleça o eu com a sua força, a sua glória, o seu sucesso. É a tentação mais terrível; a primeira e a última do Evangelho. Entretanto Jesus, face a este ataque ao seu próprio modo de ser, não fala, não reage. Não Se defende, não tenta convencer, não há uma apologética da sua realeza. Mas antes continua a amar, perdoa, vive o momento da prova segundo a vontade do Pai, seguro de que o amor dará fruto. Para acolher a realeza de Jesus, somos chamados a lutar contra esta tentação, a fixar o olhar no Crucificado, para Lhe sermos fiéis cada vez mais. Mas, em vez disso, quantas vezes se procuraram – mesmo entre nós – as seguranças gratificantes oferecidas pelo mundo! Quantas vezes nos sentimos tentados a descer da cruz! A força de atracção que tem o poder e o sucesso pareceu um caminho mais fácil e rápido para difundir o Evangelho, esquecendo depressa como actua o reino de Deus. Este Ano da Misericórdia convidou-nos a descobrir novamente o centro, a regressar ao essencial. Este tempo de misericórdia chama-nos a contemplar o verdadeiro rosto do nosso Rei, aquele que brilha na Páscoa, e a descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor, missionária. A misericórdia, levando-nos ao coração do Evangelho, anima-nos também a renunciar a hábitos e costumes que possam obstaculizar o serviço ao reino de Deus, a encontrar a nossa orientação apenas na realeza perene e humilde de Jesus, e não na acomodação às realezas precárias e aos poderes mutáveis de cada época. No Evangelho, aparece outro personagem, mais perto de Jesus, o malfeitor que O invoca dizendo: «Jesus, lembra-Te de mim, quando estiveres no teu Reino» (Lc 23, 42). Com a simples contemplação de Jesus, ele acreditou no seu Reino. E não se fechou em si mesmo, mas, com os seus erros, os seus pecados e os seus problemas, dirigiu-se a Jesus. Pediu para ser lembrado, e saboreou a misericórdia de Deus: «Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 43). Deus, logo que Lhe damos tal possibilidade, lembra-Se de nós. Está pronto a apagar completamente e para sempre o pecado, porque a sua memória não é como a nossa: não regista o mal feito, nem continua a ter em conta as ofensas sofridas. Deus não tem memória do pecado, mas de nós, de cada um de nós, seus filhos amados. E crê que é sempre possível recomeçar, levantar-se. (cf. da Homilia do Papa Francisco, na Solenidade de Cristo Rei, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 20 de Novembro de 2016)

sábado, 22 de novembro de 2025

DA PALAVRA DO SENHOR

 


XXXIV DOMINGO COMUM

          - SOLENIDADE DE CRISTO REI    

“…Todas as tribos de Israel
foram ter com David a Hebron e disseram-lhe:
«Nós somos dos teus ossos e da tua carne.
Já antes, quando Saul era o nosso rei,
eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel.
E o Senhor disse-te:
“Tu apascentarás o meu povo de Israel,
tu serás rei de Israel”».
Todos os anciãos de Israel foram à presença do rei, a Hebron.
O rei David concluiu com eles uma aliança diante do Senhor
e eles ungiram David como rei de Israel…”
(cf. II Samuel 5, 1-3)

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 19 de Novembro de 2025
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Neste Ano jubilar, dedicado à esperança, estamos a reflectir sobre a relação entre a Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo actual, ou seja, os nossos desafios. Às vezes, Jesus, o Vivente, também nos quer perguntar: «Por que choras? Quem procuras?». Com efeito, os desafios não podem ser enfrentados sozinhos e as lágrimas constituem um dom de vida quando purificam os nossos olhos e libertam a nossa vista.
O evangelista João sugere, à nossa atenção, um detalhe que não encontramos nos demais Evangelhos: chorando diante do túmulo vazio, Madalena não reconheceu, imediatamente, Jesus ressuscitado, mas pensou que fosse o jardineiro. Efectivamente, já narrando o sepultamento de Jesus, no crepúsculo da sexta-feira santa, o texto era muito específico: «Ora, no lugar onde Ele fora crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém ainda fora colocado. Ali, pois, depositaram Jesus, por causa da Preparação dos judeus e da proximidade do sepulcro» (Jo 19, 40-41).
Assim termina, na paz do sábado e na beleza de um jardim, a dramática luta entre as trevas e a luz, desencadeada pela traição, a prisão, o abandono, a condenação, a humilhação e a morte do Filho, que «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (cf. Jo 13, 1). Cultivar e cuidar do jardim é a tarefa original (cf. Gn 2, 15) que Jesus levou a cabo. A sua última palavra na cruz – «Tudo está consumado» (Jo 19, 30) – convida, cada um, a reencontrar a mesma tarefa, a sua tarefa. Por isso, «inclinando a cabeça, entregou o espírito» (v. 30).
Então, amados irmãos e irmãs, Maria Madalena não estava completamente enganada, julgando que encontrara o jardineiro, o guardião do jardim! Na verdade, devia reouvir o seu nome e compreender a sua tarefa do Homem novo, aquele que, noutro texto joanino, diz: «Eis que renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). Com a Encíclica ‘Laudato si’’, o Papa Francisco indicou-nos a extrema necessidade de um olhar contemplativo: se não for guardião do jardim, o ser humano torna-se seu devastador. Portanto, a esperança cristã responde aos desafios aos quais, hoje, toda a humanidade está exposta, permanecendo no jardim onde o Crucificado foi depositado como semente, para ressuscitar e dar muito fruto.
O Paraíso não está perdido, mas foi reencontrado. Assim, a morte e a ressurreição de Jesus são fundamento de uma espiritualidade da ecologia integral, fora da qual as palavras da fé permanecem sem influência sobre a realidade, e as palavras das ciências permanecem fora do coração. «A cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência» (Laudato si’, 111).
Por isso, falamos de uma conversão ecológica, que os cristãos não podem separar daquela inversão de rota que seguir Jesus exige deles. Sinal disto é o virar-se de Maria, naquela manhã de Páscoa: só de conversão em conversão passamos deste vale de lágrimas para a nova Jerusalém. Aquela passagem, que começa no coração e é espiritual, modifica a história, compromete-nos publicamente, activa a solidariedade que desde já protege pessoas e criaturas dos apetites dos lobos, em nome e pela força do Cordeiro Pastor.
Assim, hoje, os filhos e as filhas da Igreja podem encontrar milhões de jovens e de outros homens e mulheres de boa vontade que ouviram o clamor dos pobres e da terra, deixando-se tocar no coração. São numerosas, também, as pessoas que desejam, através de uma relação mais directa com a criação, uma nova harmonia que as leve além de tantas dilacerações. Por outro lado, ainda «os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia passa ao outro esta mensagem e uma noite a dá a conhecer à outra noite. Não são palavras nem discursos cujo sentido se não perceba. O seu eco ressoou por toda a terra, e a sua palavra, até aos confins do mundo» (Sl 18, 1-5a).
Que o Espírito nos conceda a capacidade de ouvir a voz de quem não tem voz. Então, veremos o que os olhos ainda não vêem: aquele jardim, ou Paraíso, para o qual nos dirigimos apenas acolhendo e cumprindo cada qual a sua tarefa. (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 121

 

Refrão: Iremos com alegria para a casa do Senhor.

Alegrei-me quando me disseram:
«Vamos para a casa do Senhor».
Detiveram-se os nossos passos
às tuas portas, Jerusalém.

Jerusalém, cidade bem edificada,
que forma tão belo conjunto!
Para lá sobem as tribos,
as tribos do Senhor.

Para celebrar o nome do Senhor,
segundo o costume de Israel;
ali estão os tribunais da justiça,
os tribunais da casa de David.


SANTOS POPULARES


 

BEATO ALBERTO JOUBERT
 
Alberto Joubert nasceu em São Luís de Mrumbi, actual Moba, na República Democrática do Congo, no dia 21 de Novembro de 1908. Em documentos antigos sobre ele, o seu nome foi, erradamente, registado como Atanásio; pesquisas posteriores confirmaram que, na verdade, era o nome de um dos seus irmãos.
O seu pai, o Capitão Luís Leopoldo Joubert, era natural de Nantes, França. Serviu o exército francês e mais tarde, fez parte dos Zuavos Pontifícios [eram um batalhão de infantaria - mais tarde um regimento - dedicado à defesa dos Estados Papais. Nomeados em homenagem aos regimentos de zuavos franceses, os Zuavos Pontifícios eram formados, principalmente, por homens jovens, solteiros e católicos]. Fora enviado, em 1890, por Monsenhor Carlos Lavigerie, Arcebispo de Argel, fundador dos Padres Brancos e mais tarde cardeal, para proteger as caravanas dos missionários dos ataques dos traficantes de escravos. A ‘Sociedade dos Missionários da África’, conhecida por Padres Brancos, foi fundada, em 1868, é um instituto missionário composto por sacerdotes e religiosos que vivem em comunidade. O seu objectivo é anunciar o Evangelho aos homens do mundo africano. Desde as suas origens, esta congregação religiosa católica sempre dedicou uma atenção especial aos fiéis de origem islâmica. Estão presentes em 21 países africanos e, também, fora de África, que continua, no entanto, a ser a sua prioridade. Dedicam-se, também, a assistir migrantes africanos, na Europa e na América.
O Capitão Luís Joubert naturalizou-se congolês, depois de se ter casado com Inês Atakae, congolesa de nascimento, em 1888. O casal teve dez filhos, todos educados de acordo com os valores cristãos: dois morreram na infância e dois, Alberto e João, os mais novos, tornaram-se padres. Uma das suas filhas escolheu a vida religiosa, mas teve que abandoná-la por motivos de saúde.
Alberto passou os primeiros três anos da sua vida na sua aldeia natal, até que o flagelo da doença do sono obrigou todos os habitantes a mudarem-se para Santa Maria (actual Misenge), perto de Baudoinville (Kirungu), a oito quilómetros de distância.
Alberto recebeu o Sacramento da Confirmação, no dia 13 de Junho de 1915, naquela que foi a primeira catedral do Congo, a dois quilómetros da sua casa. Depois de frequentar a escola primária, aos doze anos, entrou no Seminário Menor, em Lusaka, a cerca de cinquenta quilómetros de Baudoinville.
Nesse mesmo ano, no dia 6 de Junho de 1920, o Papa Bento XV beatificou Carlos Lwanga e os seus companheiros, mártires de Uganda, que foram, posteriormente, canonizados em 1964. O Vigário Apostólico do Alto Congo, Monsenhor Victor Roelens, apresentou o exemplo do jovem Carlos e dos seus companheiros aos seminaristas: a sua coragem e fidelidade a Cristo impressionaram, profundamente, o jovem Alberto.
Na sua caminhada rumo à ordenação sacerdotal, o jovem dedicou-se, intensamente, à sua formação, moldando o seu carácter, tornando-se humilde e discreto. Todos o conheciam como filho do Capitão Joubert, mas ele não se interessava por honrarias e desejava crescer em obediência e disponibilidade.
Depois de entrar no Seminário Maior, no dia 23 de Novembro de 1925, para os estudos teológicos, nunca mais abandonou as suas vestes eclesiásticas que, para ele, eram um auxílio externo para viver com dignidade o dom do sacerdócio. Antes da ordenação sacerdotal, fez um ano de formação, em Lusaka, trabalhando na Missão de São Tiago, no Seminário Menor e em várias escolas.
Foi ordenado sacerdote no dia 6 de Outubro de 1935.
O Padre Joubert disponibilizou-se imediatamente para partir para as missões mais distantes. O seu primeiro destino foi Kasongo, a 750 quilómetros de Baudoinville; Ele permaneceu ali até 1937, quando foi designado para Kala, onde ficou até 1941. Em seguida, foi enviado para Lusaka, Moyo, Kabambare, Kibangula e, novamente, para Moyo, Mungombe, Kibanga e Fizi.
Para poder assistir as pessoas das aldeias mais distantes, caminhava dias inteiros para levar-lhes os Sacramentos e formar e encorajar os catequistas. Mesmo quando lhe foi atribuída a função de professor nos seminários menores de Lusaka e Mungombe, em momentos importantes, disponibilizou-se para ajudar os seus irmãos nas tarefas do ministério.
Os símbolos do seu serviço pastoral podem ser representados por alguns objectos: a Bíblia: a Palavra de Deus era a luz da qual extraía a força para as suas decisões e para a sua vida de oração, regular e constante; a caneta, sinal da sua preocupação com a educação, que ele também praticava como professor, nas aldeias para onde era enviado; ele acreditava que a educação era o alicerce de todo o desenvolvimento. Para animar os recreios dos seus alunos, frequentemente tocava violão, expressando, através da música, a sua alegria de viver em comunhão com os seus irmãos. Finalmente, a Cruz, sempre presente na sua vida, desde a sua fuga da sua aldeia natal até à sua morte.
O seu trabalho missionário não foi bem recebido pelos rebeldes Simba: inspirados pelo comunismo, opunham-se abertamente à liberdade, trazida pelos missionários, através do Evangelho. Certo dia, um grupo Simba foi a Kibanga procurar o Padre Joubert: capturaram-no e torturaram-no durante quinze dias; depois, levaram-no para Fizi, onde o libertaram. O seu ódio era alimentado pelo facto de que ele, apesar de ser negro, havia abraçado a nova religião, importada pelos "brancos".
Em Fizi, foi acolhido pelo Padre João Didonè, dos Missionários Xaverianos, que optara por permanecer, apesar das capturas e massacres, cada vez mais frequentes, de padres e religiosos. Durante dois meses, ajudou-o na sua missão.
O clima de ódio contra os missionários intensificou-se: os rebeldes acusaram-nos de esconder o "fonì", o transmissor de rádio, que alegavam usar para transmitir informações ao exército. Em 28 de Novembro de 1964, alguns Simba, liderados por Abedi Masanga, assassinaram dois religiosos xaverianos em Baraka: o Irmão Vitório Faccin e o Padre Luís Carrara. Na mesma noite, dirigiram-se para Fizi: foi a vez do Padre João Didonè, atingido, na testa, por uma bala. O Padre Alberto Joubert mal teve tempo de se aperceber o que estava a acontecer quando, também, foi atingido: caiu morto a dois metros do Padre Didonè, a poucos passos da casa religiosa.
Os Padres Xaverianos [são os membros da Pia Sociedade de São Francisco Xavier para as Missões Estrangeiras, uma congregação religiosa católica fundada por Guido Maria Conforti em 1895. A sua principal missão é anunciar o Evangelho a povos não-cristãos em todo o mundo, seguindo o exemplo de São Francisco Xavier] sempre consideraram os seus irmãos e o Padre Joubert como mártires.
Estes padre Xaverianos e o Padre Alberto Joubert foram beatificados, em Uvira, no dia 18 de Agosto de 2024, pelo Papa Francisco, em cerimónia presidida pelo Cardeal Fridolin Ambongo Besungu, Arcebispo de Kinshasa, como delegado do Santo Padre.
Os restos mortais do Padre Alberto Joubert repousam na nova igreja de Fizi, no mesmo túmulo do Padre João Didonè.
A memória litúrgica do Beato Alberto Joubert é celebrada no dia 28 de Novembro.

sábado, 15 de novembro de 2025

EM DESTAQUE:

 


*DIA MUNDIAL DOS POBRES: 16. NOVEMBRO.2025

MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O IX DIA MUNDIAL DOS POBRES

 

Tu és a minha esperança (cf. Sl 71,5)

1. «Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus» (Sl 71,5). Essas palavras emanam de um coração oprimido por graves dificuldades: «Fizeste-me sofrer grandes males e aflições mortais» (v. 20), diz o Salmista. Apesar disso, o seu espírito está aberto e confiante, porque, firme na fé, reconhece o amparo de Deus e professa-o: «És o meu rochedo e a minha fortaleza» (v. 3). Daí deriva a confiança inabalável de que a esperança n’Ele não decepciona: «Em ti, Senhor, me refugio, jamais serei confundido» (v. 1).No meio das provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora certeza do amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo. Por isso, ela não decepciona (cf. Rm 5, 5) e São Paulo pode escrever a Timóteo: «Pois, se nós trabalhamos e lutamos, é porque pomos a nossa esperança no Deus vivo» (1 Tm 4, 10). O Deus vivo é, verdadeiramente, o «Deus da esperança» (Rm 15, 13), que, em Cristo, pela sua morte e ressurreição, se tornou a «nossa esperança» (1 Tm 1, 1). Não podemos esquecer que fomos salvos nesta esperança, na qual precisamos permanecer enraizados.
 
2. O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável, precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua esperança só pode repousar noutro lugar. Reconhecendo que Deus é a nossa primeira e única esperança, também nós fazemos a passagem entre as esperanças que passam e a esperança que permanece. As riquezas são relativizadas perante o desejo de ter Deus como companheiro de caminho, porque se descobre o verdadeiro tesouro de que, realmente, precisamos. Ressoam claras e fortes as palavras com que o Senhor Jesus exortou os seus discípulos: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (Mt 6, 19-20).
 
3. A pobreza mais grave é não conhecer a Deus. Recordou-nos isso o Papa Francisco quando escreveu na Evangelii gaudium: «A pior discriminação que os pobres sofrem é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé» (n. 200). Há, aqui, uma consciência fundamental e totalmente original sobre como encontrar em Deus o próprio tesouro. Realmente, insiste o apóstolo João: «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).
É uma regra da fé e um segredo da esperança: embora importantes, todos os bens desta terra, as realidades materiais, os prazeres do mundo ou o bem-estar económico não são suficientes para fazer o coração feliz. Frequentemente, as riquezas iludem e conduzem a situações dramáticas de pobreza, sendo a primeira dessas ilusões pensar que não precisamos de Deus e conduzir a nossa vida independentemente d’Ele. Vêm-me à mente as palavras de Santo Agostinho: «Seja Deus todo motivo de presumires. Sente necessidade d’Ele para que Ele te cumule. Tudo o que possuíres fora d’Ele é imensamente vazio» (Enarr. in Ps. 85,3).
 
4. A esperança cristã, à qual a Palavra de Deus remete, é certeza no caminho da vida, porque não depende da força humana, mas da promessa de Deus, que é sempre fiel. Por isso, desde os primórdios, os cristãos quiseram identificar a esperança com o símbolo da âncora, que oferece estabilidade e segurança. A esperança cristã é como uma âncora, que fixa o nosso coração na promessa do Senhor Jesus, que nos salvou com a sua morte e ressurreição e que retornará novamente ao meio de nós. Esta esperança continua a indicar como verdadeiro horizonte da vida os «novos céus» e a «nova terra» (2 Pe 3, 13), onde a existência de todas as criaturas encontrará o seu sentido autêntico, visto que a nossa verdadeira pátria está nos céus (cf. Fl 3, 20).
Consequentemente, a cidade de Deus compromete-nos com as cidades dos homens, que, desde agora, devem começar a assemelhar-se àquela. A esperança, sustentada pelo amor de Deus, derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5, 5), transforma o coração humano em terra fértil, onde pode germinar a caridade para a vida do mundo. A Tradição da Igreja reafirma, constantemente, esta circularidade entre as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A esperança nasce da fé, que a alimenta e sustenta, sobre o fundamento da caridade, que é a mãe de todas as virtudes. E precisamos de caridade hoje, agora. Não é uma promessa, mas uma realidade para a qual olhamos com alegria e responsabilidade: envolve-nos, orientando as nossas decisões para o bem comum. Em vez disso, quem carece de caridade não só carece de fé e esperança, mas tira a esperança ao seu próximo.
 
5. O convite bíblico à esperança traz consigo o dever de assumir, sem demora, responsabilidades coerentes na história. Com efeito, a caridade é «o maior mandamento social» (Catecismo da Igreja Católica, 1889). A pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas. À medida que isso acontece, todos somos chamados a criar novos sinais de esperança que testemunhem a caridade cristã, como fizeram, em todas as épocas, muitos santos e santas. Os hospitais e as escolas, por exemplo, são instituições criadas para expressar o acolhimento aos mais fracos e marginalizados. Eles deveriam fazer parte das políticas públicas de todos os países, mas as guerras e as desigualdades, frequentemente, ainda o impedem. Hoje, cada vez mais, as casas-família, as comunidades para menores, os centros de acolhimento e escuta, as refeições para os pobres, os dormitórios e as escolas populares tornam-se sinais de esperança: são tantos sinais, muitas vezes ocultos, aos quais, talvez, não prestemos atenção, mas que são muito importantes para se desvencilhar da indiferença e provocar o empenho nas diversas formas de voluntariado!
Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar, às nossas comunidades, que os pobres estão no centro de toda a acção pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança.
 
6. Este é o convite que emerge da celebração do Jubileu. Não é por acaso que o Dia Mundial dos Pobres seja celebrado no final deste ano de graça. Quando a Porta Santa for fechada, deveremos conservar e transmitir os dons divinos que foram derramados nas nossas mãos, ao longo de um ano inteiro de oração, conversão e testemunho. Os pobres não são objectos da nossa pastoral, mas sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o Evangelho, hoje. Diante da sucessão de novas ondas de empobrecimento, corre-se o risco de se habituar e resignar-se. Todos os dias, encontramos pessoas pobres ou empobrecidas e, às vezes, pode acontecer que sejamos nós mesmos a possuir menos, a perder o que antes nos parecia seguro: uma casa, comida suficiente para o dia, acesso a cuidados de saúde, um bom nível de educação e informação, liberdade religiosa e de expressão.
Promovendo o bem comum, a nossa responsabilidade social tem o seu fundamento no gesto criador de Deus, que dá a todos os bens da terra: assim como estes, também os frutos do trabalho do homem devem ser igualmente acessíveis. Com efeito, ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade. Como observa Santo Agostinho: «Damos pão a quem tem fome, mas seria muito melhor que ninguém passasse fome e não precisássemos ser generosos para com ninguém. Damos roupas a quem está nu, mas Deus queira que todos estivessem vestidos e que ninguém passasse necessidades sobre isto» (Comentário à 1 Jo, VIII, 5).
Desejo, portanto, que este Ano Jubilar possa incentivar o desenvolvimento de políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas iniciativas de apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres. Trabalho, educação, habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas. Congratulo-me com as iniciativas já existentes e com o empenho que é manifestado diariamente a nível internacional por um grande número de homens e mulheres de boa vontade.
Confiemos em Maria Santíssima, Consoladora dos aflitos, e com Ela entoemos um canto de esperança, fazendo nossas as palavras do Te Deum: «In Te, Domine, speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus, não serei confundido eternamente».
 
Vaticano, 13 de Junho de 2025, memória de Santo António de Lisboa, Patrono dos pobres
 

DA PALAVRA DO SENHOR

 


XXXIII DOMINGO COMUM      

“…Há-de vir o dia do Senhor,
ardente como uma fornalha;
e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores.
O dia que há-de vir os abrasará
– diz o Senhor do Universo –
e não lhes deixará raiz nem ramos.
Mas para vós que temeis o meu nome,
nascerá o sol de justiça,
trazendo nos seus raios a salvação…”
(cf. Malaquias 4, 1-2)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 12 de Novembro de 2025
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Acreditar na morte e ressurreição de Cristo e viver a espiritualidade da Páscoa incute esperança na vida e encoraja-nos a investir na bondade. Em particular, ajuda-nos a amar e a cultivar a fraternidade, que é, sem dúvida, um dos grandes desafios da humanidade contemporânea, como o Papa Francisco viu claramente.
A fraternidade surge de um dado profundamente humano. Somos capazes de nos relacionar e, se quisermos, sabemos construir laços autênticos entre nós. Sem relações, que nos apoiam e enriquecem desde o início da nossa vida, não poderíamos sobreviver, crescer ou aprender. Essas relações são muitas, diversas em forma e profundidade. Mas, é certo que a nossa humanidade se realiza plenamente quando estamos e vivemos juntos; quando somos capazes de experimentar laços autênticos, não formais, com as pessoas que nos rodeiam. Se nos isolarmos, corremos o risco de adoecer de solidão e até de um narcisismo que se preocupa com os outros apenas por interesse. O outro reduz-se, então, a alguém a quem tiramos, sem que nunca estejamos verdadeiramente dispostos a dar, a doar-nos.
Bem sabemos que, ainda hoje, a fraternidade não pode ser tomada como garantida: não é algo imediato. Muitos conflitos, tantas guerras espalhadas pelo mundo, tensões sociais e sentimentos de ódio demonstram isso mesmo. Contudo, a fraternidade não é um sonho belo e impossível; não é o desejo de alguns iludidos. Mas, para vencer as sombras que a ameaçam, devemos ir às fontes e, sobretudo, procurar a luz e a força n’Aquele que é o único que nos liberta do veneno da inimizade.
A palavra “irmão” vem de uma raiz muito antiga, que significa cuidar, preocupar-se, apoiar e sustentar. Aplicada a todo o ser humano, torna-se um apelo, um convite. Muitas vezes, pensamos que o papel de irmão, de irmã se refere ao parentesco, ao laço sanguíneo, ao fazer parte da mesma família. Na verdade, sabemos bem como o desentendimento, a ruptura e, por vezes, o ódio podem devastar as relações entre parentes, não apenas entre estranhos.
Isto demonstra a necessidade, hoje urgente como nunca, de reconsiderar a saudação com que São Francisco de Assis se dirigia a todas e a todos, independentemente das origens geográficas, culturais, religiosas ou doutrinais: ‘omnes fratres’ era a forma inclusiva com a qual São Francisco colocava todos os seres humanos no mesmo patamar, precisamente porque reconhecia o seu destino comum de dignidade, diálogo, acolhimento e salvação. O Papa Francisco reiterou esta abordagem do Pobrezinho de Assis, destacando a sua actualidade, depois de 800 anos, na Encíclica ‘Fratelli tutti’.
Este “todos” (tutti), que, para São Francisco, significava o sinal acolhedor da fraternidade universal, exprime um traço essencial do cristianismo, que, desde o princípio, foi a proclamação da Boa Nova destinada à salvação de todos, nunca de forma exclusiva ou privada. Essa fraternidade assenta no mandamento de Jesus, que é novo porque foi cumprido por Ele mesmo, o cumprimento superabundante da vontade do Pai: graças a Ele, que nos amou e Se entregou por nós, podemos, por nossa vez, amarmo-nos e dar a vida pelos outros, como filhos do único Pai e verdadeiros irmãos, em Jesus Cristo.
Jesus amou-nos até ao fim, diz o Evangelho de João (cf. 13, 1). À medida que a Paixão se aproxima, o Mestre sabe bem que o seu tempo histórico está a chegar ao seu fim. Teme o que está por acontecer; experimenta o mais terrível tormento e abandono. A sua Ressurreição, ao terceiro dia, é o início de uma nova história. E os discípulos tornam-se irmãos plenamente - depois de tanto tempo a conviver - não apenas quando experimentam a dor da morte de Jesus, mas, sobretudo, quando O reconhecem como o Ressuscitado, recebem o dom do Espírito e tornam-se Suas testemunhas.
Os irmãos e as irmãs apoiam-se, mutuamente, nas provações; não viram as costas aos necessitados: choram e alegram-se juntos, na perspectiva activa da unidade, da confiança e do acolhimento mútuo. Essa dinâmica é a que o próprio Jesus nos ensina: «que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (cf. Jo 15, 12). A fraternidade concedida por Cristo, morto e ressuscitado, liberta-nos da lógica negativa dos egoísmos, das divisões e das prepotências, e reconduz-nos à nossa vocação original, em nome de um amor e de uma esperança que se renovam todos os dias. O Ressuscitado mostrou-nos o caminho a percorrer com Ele, para nos sentirmos, para sermos “todos irmãos” (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 97

 

Refrão: O Senhor virá governar com justiça.

Cantai ao Senhor ao som da cítara,
ao som da cítara e da lira;
ao som da tuba e da trombeta,
aclamai o Senhor, nosso Rei.

Ressoe o mar e tudo o que ele encerra,
a terra inteira e tudo o que nela habita;
aplaudam os rios
e as montanhas exultem de alegria.

Diante do Senhor que vem,
que vem para julgar a terra;
julgará o mundo com justiça
e os povos com equidade.

SANTOS POPULARES

 


BEATO MIGUEL AGOSTINHO PRO JUÁREZ
 
Miguel Agostinho nasceu no dia 13 de Janeiro de 1891, em Zacatecas - Guadalupe, no México. Era o terceiro de onze irmãos, filho de Miguel Pro e Josefa Juárez. O seu pai, que não era apenas um bom cristão, mas também engenheiro de minas, não o criou em condições confortáveis. Desde cedo, levava-o para visitar as minas, para que pudesse testemunhar a dura vida daqueles trabalhadores.
Assim, o menino cresceu com uma sensibilidade apurada e uma preocupação particular com as questões sociais.
Aos quinze anos, começou a trabalhar com o pai, na Agência de Mineração do Ministério do Desenvolvimento.
O jovem Miguel tornou-se um colaborador próximo do pai, até que uma das suas irmãs entrou para um convento. Isto obrigou-o a parar e a entrar numa dinâmica de discernimento: a vocação da irmã levou-o a reconsiderar o seu caminho e o seu futuro.
Miguel decidiu entrar na Companhia de Jesus, aos 20 anos, pensando que, como sacerdote, poderia estar mais próximo dos necessitados e pregar o Evangelho de Cristo, buscando unir caridade e justiça.
Quatro anos depois, Miguel viajou para Espanha com os jesuítas. Ali, dedicou-se a estudar filosofia e retórica. Permaneceu na Europa até 1919, quando foi enviado para a Nicarágua, onde exerceu a missão de professor. No entanto, pouco tempo depois, voltou a Espanha e, logo a seguir, partiu para a Bélgica para formar uma comunidade de 130 jesuítas.
O superior provincial do México desejava que Miguel Agostinho recebesse formação nas áreas sociais enquanto estivesse na Bélgica. O objectivo era promover o movimento social católico e preparar o jesuíta para o trabalho pastoral com os trabalhadores mexicanos.
Em 30 de Agosto 1925, Miguel Pro foi ordenado sacerdote. No entanto, um mês depois, adoeceu gravemente com uma infecção e passou por uma longa convalescença. Pensando que ele iria morrer, os seus superiores enviaram-no de volta ao México. Na viagem de retorno, o jovem sacerdote passou por Lourdes e escreveu que a sua visita à gruta foi um dos dias mais felizes da sua vida.
Quando chegou ao seu país, em Julho de 1926, o governo havia promulgado diversas leis para reprimir e sufocar a Igreja Católica. Contrariando as leis repressivas do governo, o Padre Miguel Agostinho decidiu continuar o seu ministério: havia muito a ser feito para amparar os católicos perseguidos, ajudar os pobres e oferecer assistência aos doentes e moribundos.
O Padre Miguel faz tudo isso com optimismo e vitalidade, além de uma boa dose de coragem, recorrendo a disfarces, mais ou menos sérios, que lhe permitem escapar das batidas policiais e realizar o seu trabalho sacerdotal clandestino, celebrando secretamente a Eucaristia e pregando exercícios espirituais às escondidas. Estima-se que num único dia ele tenha conseguido distribuir até 1.500 comunhões. Acompanhado pelo seu violão e auxiliado pelos seus comentários espirituosos e a sua inimitável capacidade de imitar pessoas, ele tenta animar e apoiar todos os que encontra.
Este sacerdote, que aparenta ter um optimismo abundante, está, na verdade, a viver o sofrimento e a depressão devido à perseguição, ao sofrimento que o seu povo e a sua família estão a enfrentar e aos problemas que a sua saúde debilitada lhe causam. O segredo para superar tudo isso e ser útil aos outros, apesar de tudo, está na união com Jesus, pois ele descobriu que "não há maneira mais rápida e eficaz de viver intensamente unido a Jesus do que a Santa Missa".
Constantemente vigiado pela polícia, ele acabou por ser preso sob a falsa acusação de participar de uma tentativa de assassinato de um general. Após a farsa um julgamento e em violação dos direitos humanos mais básicos, o Padre Miguel Pro foi executado por um pelotão de fuzilamento, na Cidade do México, no dia 23 de Novembro de 1927. Tinha apenas 36 anos e era sacerdote há dois anos, mas seu espírito era tão intenso e alegre que valeu uma vida inteira.
No momento da execução, o Padre abriu os braços em cruz e disse ao oficial que comandava o pelotão de fuzilamento que lhe perdoava. Caminhou, sozinho até o local do suplício, sem venda nos olhos, com um crucifixo numa mão e um terço na outra. Pediu para poder rezar, um pouco, antes de morrer. Aguardando os disparos, exclamou: "Viva Cristo Rei!" Um soldado do pelotão de fuzilamento, como o centurião aos pés da cruz, ao ver o modo como o Padre enfrentou a morte, terá exclamado: "Assim morrem os justos!".
O governo mexicano tinha convidado a imprensa para a execução, acreditando que isso acalmaria o sentimento antirreligioso, difundido pelo governo, entre a população. Muito pelo contrário: as imagens dos momentos finais do Padre Miguel Agostinho tornaram-se objecto de devoção. A atenção internacional que o evento atraiu provocou profunda indignação contra os excessos do regime.
No seu funeral, desafiando a polícia e a proibição das autoridades, compareceram mais de 20.000 pessoas, gratas pelo que dele haviam recebido e convictas de que ele era um mártir de Cristo.
Sessenta e um anos depois, no dia 15 de Setembro de 1988, o Papa João Paulo II beatificou o Padre Miguel Agostinho Pro: é o primeiro mártir, em solo mexicano, declarado pela Igreja Católica e um exemplo para muitas pessoas.
A memória litúrgica do Beato Miguel Agostinho Pro é celebrada no dia 23 de Novembro.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

EM DESTAQUE:

 


* SEMANA DOS SEMINÁRIOS 2025
 
Nota pastoral de D. Vitorino Soares,
Presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios
 
Nesta semana de Oração pelos Seminários Diocesanos, que decorre entre 2 e 9 de novembro, o lema escolhido sai fora dos alvos tradicionais e dos desenhos a que estamos habituados. A começar pela imagem, desta vez é o rosto do Papa Leão XIV, o sucessor de Pedro, que com o dedo indicador aponta para cada um e apela: "Precisamos de ti". Não é uma proposta feita a partir do pessoal e do singular, mas no plural e em contornos eclesiais.
É aquele que, como Pedro, sabe que não é o único que foi chamado por Jesus, mas com outros, para continuar uma missão que se renova na colaboração de muitos que são "precisos", não só devido às carências, mas sobretudo contando com as potencialidades e os talentos de cada um.
O Papa precisa, a Igreja precisa, as Dioceses precisam, as Comunidades precisam e os Seminários, particularmente, precisam de jovens que sigam o convite de Jesus, para que como discípulos se disponham a ser sacerdotes diante dos desafios de hoje.
Todos nós “precisamos de ti" pessoalmente, com dúvidas e com medos, mesmo que nunca tenhas pensado nesta possibilidade de imitar Jesus, o Bom Pastor. Também tu podes ajudar a conduzir, a reunir, a defender, a alimentar o rebanho, que são as pessoas, tantas vezes dispersas, tristes, desanimadas e abandonadas.
A Igreja precisa de ti, para que, como ovelha que já faz parte do rebanho, mais próximo ou mais distante, possas fazer a experiência de pastor, como sacerdote.
Nós “precisamos de ti", e não só as outras ovelhas, mas aqueles que, sendo pastores, também se sentem parte do mesmo rebanho do qual só Jesus é o único e bom pastor.
O papa, os bispos, os sacerdotes, os leigos, todos precisamos de ti. Através destes mediadores, é o próprio Jesus que se dirige a ti e aponta para ti: "Eu preciso de ti".
Alguns vão respondendo, são os que já estão nos Seminários e que vão percorrendo o seu caminho de discernimento. A esses também dizemos, através do Papa Leão XIV: nós “precisamos de ti". Outros são os que constituem as equipas formadoras dos Seminários, a quem também dizemos: nós “precisamos de ti", de cada membro que acompanha, com mais visibilidade ou com menos protagonismo. A cada família também dizemos: nós “precisamos de ti", da generosidade e da participação.
E a ti que sentes que o dedo indicador do Papa aponta na tua direcção, recorda que há muitas ovelhas, muitos rebanhos que não conheces, mas que "precisam de ti". Precisamos de sacerdotes, precisamos de seminaristas, "precisamos de ti". Os convites de Jesus dirigidos a Pedro e aos doze a quem chamou porque precisava deles, não estão esgotados, mas continuam a ser oferecidos por aqueles que já os receberam.



Oração
 
Senhor Jesus, precisamos de Ti.
Como Tu precisas de nós,
também nós precisamos de Ti.
Precisamos do teu amor.
Precisamos da tua coragem.
Precisamos do teu perdão.
Precisamos da tua entrega.
Precisamos da tua presença.
Precisamos do teu Espírito.
 
Senhor Jesus, precisamos de Ti,
para termos sacerdotes.
Senhor, não nos abandones.
Precisamos de Ti,
como Tu precisas de nós.
Senhor Jesus,
que Tu e nós sejamos um só.
Que a Igreja seja conduzida por Ti, o Bom Pastor,
e que das ovelhas do teu rebanho,
saiam pastores-sacerdotes
que sempre precisam de Ti.
 
Senhor Jesus contamos Contigo
e com o conforto da tua Mãe, Maria,
que é nossa Mãe.
 
Amém
 


* BASÍLICA DE SÃO JOÃO DE LATRÃO
 
A Igreja Católica celebra, no dia 9 de Novembro, a Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão ou do Santíssimo Salvador. No início do cristianismo, não havia igrejas, capelas, templos. Os cristãos reuniam-se nas casas uns dos outros. Os primeiros cristãos tinham consciência de que todos os lugares eram lugares do encontro de Deus com os homens. Tinham bem presente as palavras de Jesus à Samaritana: “Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai….  Os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade…” (Jo. 4, 21-23).
A construção de templos começou mais tarde, quando os cristãos sentiram necessidade de um local maior onde se pudessem reunir.
Esta Basílica é o templo mais antigo da cristandade. Foi fundada pelo Papa Melquíades, no início do século IV, provavelmente entre os anos 311 e 314, em terras doadas pelo Imperador Constantino, e construída ao lado da residência imperial que, mais tarde, passou a ser a residência do Papa. Foi o Papa Silvestre que inspirou Constantino a transformar o Palácio de Latrão - sede do governo - na primeira basílica dedicada ao Divino Salvador.
A Basílica de Latrão - destruída e reconstruída várias vezes - é a Catedral do Papa, a Igreja Mãe e cabeça de todas as Igrejas do mundo. Nela e no Palácio Lateranense, realizaram-se cinco Concílios.
A Festa de Dedicação da Basílica de São João de Latrão começou no século XII: a sua origem é desconhecida.
Esta festa reveste-se de um carácter importante, porque tem a finalidade de celebrar a unidade da Igreja e lembrar o respeito das demais Igrejas para com a Sé Romana.
Embora o templo preferido de Deus seja o coração do homem, a Festa da Dedicação da Igreja de São João de Latrão - a Igreja Mãe, símbolo da unidade da Igreja, - ensina-nos a importância de termos um lugar onde, juntos como irmãos, possamos celebrar a nossa fé; partilhar as nossas vidas e fortalecer a nossa esperança. Esta celebração convida-nos a fortalecer os nossos esforços na busca da unidade da Igreja de Jesus, a fim de que a sua vontade se torne verdade entre nós: “para que todos sejam um só” (Jo. 17, 21) (cf. Instituto Hesed)

DA PALAVRA DO SENHOR

 


XXXII DOMINGO COMUM

 - FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE SÃO JOÃO DE LATRÃO

 

“…Vós sois edifício de Deus.
Segundo a graça de Deus que me foi dada,
eu, como sábio arquitecto, coloquei o alicerce
e outro levanta o edifício.
Veja cada um como constrói:
ninguém pode colocar outro alicerce
além do que está posto, que é Jesus Cristo.
Não sabeis que sois templo de Deus
e que o Espírito de Deus habita em vós?
Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá.
Porque o templo de Deus é santo
e vós sois esse templo…”
(cf. I Coríntios 3, 9-11. 16-17)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 5 de Novembro de 2025
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia! E bem-vindos a todos.
 
A Páscoa de Jesus é um acontecimento que não pertence a um passado distante, agora sedimentado na tradição como tantos outros episódios da história humana. A Igreja ensina-nos a fazer memória actualizante da Ressurreição todos os anos, no Domingo de Páscoa, e todos os dias, na celebração eucarística, durante a qual se realiza, de forma mais plena, a promessa do Senhor ressuscitado: «E eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).
Por isso, o mistério pascal constitui o eixo da vida do cristão, em torno do qual giram todos os outros acontecimentos. Podemos dizer, então, sem qualquer irenismo (atitude conciliadora para com os cristãos de credos diferentes) ou sentimentalismo, que todos os dias são Páscoa. De que maneira?
Vivemos, de hora em hora, tantas experiências diferentes: dor, sofrimento, tristeza, entrelaçadas com alegria, admiração, serenidade. Mas, em todas as situações, o coração humano anseia pela plenitude, por uma felicidade profunda. Uma grande filósofa do século XX, Santa Teresa Benedita da Cruz - cujo nome de baptismo era Edith Stein e que tanto aprofundou o mistério da pessoa humana - recorda-nos este dinamismo de busca constante da realização. «O ser humano – escreveu ela – anseia sempre por receber novamente o dom do ser, para poder aproveitar o que o momento lhe dá e, ao mesmo tempo, lhe tira» (Essere finito ed Essere eterno. Per una elevazione al senso dell’essere [Ser finito e ser eterno. Ensaio de uma ascensão ao sentido do ser], Roma 1998, 387). Estamos imersos no limite, mas também nos esforçamos por superá-lo.
O anúncio pascal é a notícia mais bela, alegre e comovedora que ressoou ao longo da história. É o “Evangelho” por excelência, que atesta a vitória do amor sobre o pecado e da vida sobre a morte e, por isso, é o único capaz de saciar a busca de sentido que inquieta a nossa mente e o nosso coração. O ser humano é animado por um movimento interior, voltado para um além que o atrai constantemente. Nenhuma realidade contingente o satisfaz. Tendemos para o infinito e para o eterno. Isso contrasta com a experiência da morte, antecipada pelos sofrimentos, pelas perdas, pelos fracassos. Da morte «nullu homo vivente po skampare», canta São Francisco (cf. Cântico do irmão sol).
Tudo muda graças àquela manhã em que as mulheres, indo ao sepulcro para ungir o corpo do Senhor, o encontraram vazio. A pergunta feita pelos Magos que chegaram do Oriente a Jerusalém: «Onde está aquele que nasceu, o rei dos judeus?» (Mt 2, 1-2), encontra a sua resposta definitiva nas palavras do misterioso jovem vestido de branco que fala às mulheres na madrugada pascal: «Vós procurais Jesus Nazareno, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou» (Mc 16, 6).
Desde aquela manhã até hoje, todos os dias, Jesus terá também este título: o Vivente, como Ele mesmo se apresenta no Apocalipse: «Eu sou o Primeiro e o Último, o que Vive. Conheci a morte, mas eis-me aqui vivo pelos séculos dos séculos» (Apoc 1, 17-18). E, n’Ele, temos a certeza de poder encontrar sempre a estrela polar para orientar a nossa vida de aparente caos, marcada por factos que, muitas vezes, nos parecem confusos, inaceitáveis, incompreensíveis: o mal, nas suas múltiplas facetas, o sofrimento, a morte, eventos que dizem respeito a todos e a cada um. Meditando o mistério da Ressurreição, encontramos resposta à nossa sede de significado.
Perante a nossa humanidade frágil, o anúncio pascal torna-se cuidado e cura, alimenta a esperança diante dos desafios assustadores que a vida nos apresenta todos os dias, a nível pessoal e planetário. Na perspectiva da Páscoa, a Via Crucis transfigura-se em Via Lucis. Precisamos de saborear e meditar a alegria após a dor, reviver na nova luz todas as etapas que precederam a Ressurreição.
A Páscoa não elimina a cruz, mas vence-a no duelo prodigioso que mudou a história humana. Também o nosso tempo, marcado por tantas cruzes, invoca o amanhecer da esperança pascal. A Ressurreição de Cristo não é uma ideia, uma teoria, mas o Acontecimento que está na base da fé. Ele, o Ressuscitado, através do Espírito Santo, continua a recordá-lo a nós para que possamos ser suas testemunhas também onde a história humana não vê luz no horizonte. A esperança pascal não decepciona. Acreditar verdadeiramente na Páscoa, através do caminho diário, significa revolucionar a nossa vida, ser transformados para transformar o mundo com a força suave e corajosa da esperança cristã. (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 45

 

Refrão: Os braços do rio alegram a cidade de Deus,

               a mais santa das moradas do Altíssimo.

Deus é o nosso refúgio e a nossa força,
auxílio sempre pronto na adversidade.
Por isso nada receamos ainda que a terra vacile
e os montes se precipitem no fundo do mar.

Os braços dum rio alegram a cidade de Deus,
a mais santa das moradas do Altíssimo.
Deus está no meio dela e a torna inabalável,
Deus a protege desde o romper da aurora.

O Senhor dos Exércitos está connosco,
o Deus de Jacob é a nossa fortaleza.
Vinde e contemplai as obras do Senhor,
as maravilhas que realizou na terra.


SANTOS POPULARES



SANTA OLGA DO ALASCA (Santa da Igreja Ortodoxa)
 
Arrsamquq nasceu, no dia 3 de Fevereiro de 1916, numa família indígena do Alasca, de origem Yupik. A presença da missão ortodoxa nesta comunidade indígena ajudou a difundir a fé entre a população local. Arrsamquq foi uma das primeiras a ser baptizada, ainda criança. No baptismo, recebeu o nome de Olga.
Desde muito jovem, procurava viver no amor de Deus. Era trabalhadora e rezava muito pela sua família e pelos habitantes da sua aldeia. Na adolescência, já conhecia muitos textos litúrgicos e hinos, na língua eslava eclesiástica e na língua Yupik.
Casou-se com um homem da sua aldeia. Como era habitual na época e na tradição indígena, foi um casamento arranjado. O seu marido era habilidoso, na pesca e na caça. Abriu uma mercearia e inaugurou a primeira agência dos correios, na sua aldeia. No entanto, não era um homem particularmente religioso. Durante os primeiros anos de casamento, o relacionamento foi conturbado, repleto de conflitos e discussões. Mas, Olga não se desesperou. Em vez disso, rezou fervorosamente pelo seu marido e pelos seus vizinhos descrentes. Através das suas orações, após algum tempo, o seu marido — baptizado com o nome Nicolau— começou a frequentar a igreja. Ele trouxe consigo outros seis homens da aldeia. Todos se tornaram leitores. Nicolau Miguel (o seu nome) continuou os seus estudos, na chamada "Escola Aleúte" (a língua aleúte é um idioma da família esquimó-aleúte, mais especificamente do grupo inuíte falado pelos povos indígenas da Groenlândia e da Dinamarca. Actualmente, no mundo, é falado por cerca de 57 700 pessoas), semelhante às fundadas por Santo Inocêncio, com o apoio da Sociedade Missionária Russa, em Sitka. Ele estudou sob a direcção do Bispo Amvrossy (Merejko). Depois de terminados os estudos, foi ordenado sacerdote. A partir de 1963, serviu como sacerdote em Kwetluk. Foi o segundo sacerdote, na sua aldeia, Kwetluk, e foi muito amado pelo seu povo. Aliás, durante toda a vida de Olga, a grande maioria dos alunos que frequentavam essa escola vinha da sua pequena aldeia.
Após a ordenação de Nicolau, a vida conjugal do casal mudou significativamente. Como sacerdote, Nicolau Miguel viajou pelas doze aldeias vizinhas para celebrar a missa e presidir a outras cerimônias. As viagens entre as aldeias eram feitas pelos rios, de barco, no verão, e de moto de neve ou trenó puxado por cães, no inverno. Olga, a única parteira da região, acompanhava o marido para auxiliar as mulheres durante o parto e em casos de doença.
Olga deu à luz treze filhos sem a ajuda de qualquer parteira. Cinco deles não sobreviveram até à idade adulta devido a doenças e ao clima rigoroso do Alasca.
Olga Miguel trabalhava arduamente, cuidando da casa, criando os filhos, confeccionando vestes litúrgicas e preparando o pão para as celebrações. Apesar de uma agenda cheia, ela também visitava a casa de outras pessoas, para cozinhar e ajudar nas tarefas domésticas. Através das suas palavras e acções, Olga dava às pessoas o testemunho de uma vida cristã, segundo os mandamentos do Senhor. Ela também confeccionava botas, casacos, meias e luvas para distribuir entre os paroquianos. Pelos seus actos de caridade, recebeu o apelido de a nova Tabita (Tabita, era uma mulher de posses, que morava na cidade de Jope. Usava o seu tempo, bens e dons para fazer o bem às viúvas, às pessoas marginalizadas pela sociedade da época. Conforme o livro de Actos dos Apóstolos, Tabita possuía o dom da "diaconia", isto é, colocava toda a sua vida ao serviço das mulheres abandonadas pelas suas famílias. Usou a sua força de vontade e a sua fé, para promover o bem, colocando em prática as palavras de Jesus: "Quem quiser ser grande, seja o servo de todos”).
Era particularmente atenciosa com as mulheres necessitadas que sofriam violência doméstica. Frequentemente, convidava as mulheres da sua aldeia para tomar um banho de vapor e onde não podiam esconder as cicatrizes físicas e espirituais dos abusos sofridos. Ela aconselhava as mulheres e dirigia-lhes palavras de conforto. A sua compaixão e sensibilidade impressionavam muitos, como se ela própria tivesse vivido situações semelhantes.
Com o passar dos anos, as suas filhas assumiram uma parte das suas responsabilidades. A dedicada Olga tinha, assim, mais tempo para viajar com o marido, ajudar as pessoas nas aldeias vizinhas e ensinar técnicas de obstetrícia a mulheres mais jovens.
Olga faleceu no dia 8 de Novembro de 1979.
Pela sua indescritível humildade e amor ao próximo; pela sua empatia e pelos cuidados prestados às vítimas de abusos, pelo testemunho da sua fé em Jesus, foi canonizada, pela Igreja Ortodoxa, no dia 8 de Novembro de 2023.
A sua memória litúrgica é celebrada, nas Igrejas Orientais, no dia 10 de Novembro. 

sábado, 1 de novembro de 2025

EM DESTAQUE

 


*COMEMORAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS
 
A Celebração dos fiéis defuntos é uma solenidade que tem um valor profundamente teológico, porque chama a nossa atenção para o mistério da existência humana, desde as suas origens até ao seu fim e, também, para o além. A novidade introduzida pela nossa fé é a esperança: nós, cristãos, acreditamos num Deus que não é apenas Criador, mas também Juiz.
Deus, também é Juiz! O seu juízo vai para além do tempo e do espaço, na vida após a morte e na vida eterna, na qual o Reino de Deus se realiza plenamente. O julgamento do Senhor será duplo: além de respondermos, individualmente, pelas nossas acções, no final dos tempos, seremos chamados a responder-lhes também como humanidade.
Se morrermos em Cristo - porque vivemos a nossa vida em comunhão com Ele - seremos admitidos na comunhão dos Santos.
A celebração de hoje insere-se nesta perspectiva: a Igreja não esquece os seus irmãos falecidos, mas reza por eles, oferece sufrágios, celebra Missas e oferece esmolas, para que também as almas, que ainda precisam de purificação, após a morte, possam alcançar a visão de Deus.
A morte é um acontecimento inevitável. Cada um de nós pode entender isso pela própria experiência pessoal. Segundo a visão cristã, porém, não é considerada um facto natural. Pelo contrário, é o oposto da vontade de Deus! Deus, o Senhor da vida, dá-nos a vida em abundância e a morte é uma mera consequência do nosso pecado. Entretanto, em Cristo, Deus toma sobre si os nossos pecados e as suas consequências. Desta forma, a morte torna-se uma passagem, uma porta.
Graças à vitória de Cristo sobre a morte, podemos superar o medo que temos dela e a dor que sentimos quando atinge alguém que está próximo de nós.
Enfim, para o cristão, não há distinção entre vivos e mortos, porque nem os mortos são "mortos", mas "defuntos", ou seja, "privados das funções terrenas", à espera de serem transformados pela Ressurreição.
 
História e origem desta celebração
A piedade humana para com os defuntos remonta aos primórdios da humanidade. Mas, com o advento do cristianismo, a perspectiva muda radicalmente.
Os primeiros cristãos, como podemos facilmente observar nas catacumbas, esculpiam a figura de Lázaro nos túmulos, como anseio de que os seus entes queridos pudessem, também, voltar à vida, por intermédio de Cristo.
No entanto, na Igreja Católica, somente no século IX começou a celebração litúrgica pelos defuntos, como herança da tradição monástica, já em vigor no século VII, de empregar, dentro dos mosteiros, um dia inteiro de oração por um defunto.
Este costume, porém, já existia no rito bizantino, que celebrava os mortos, no sábado anterior à Sexagésima (2º Domingo antes do início da Quaresma), um período entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro.
Mais tarde, no ano 809, o Bispo de Trier, Dom Amalário Fortunato de Metz, inseriu a memória litúrgica dos falecidos - que aspiram ao céu - no dia seguinte ao dedicado a Todos os Santos, que já estavam no céu.
Enfim, em 998, por ordem do abade de Cluny, Odilone de Mercoeur, a solenidade de Finados foi marcada para o dia 2 de Novembro, precedida por um período de preparação de nove dias, conhecido como Novena dos Defuntos, que começava no dia 24 de Outubro. (cf. Vatican News)
 

DA PALAVRA DO SENHOR

 


XXXI DOMINGO COMUM

 

“…Como sabemos, irmãos,

Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus

também nos há-de ressuscitar com Jesus

e nos levará convosco para junto d’Ele.

Tudo isto é por vossa causa,

para que uma graça mais abundante

multiplique as ações de graças de um maior número de cristãos

para glória de Deus.

Por isso, não desanimamos.

Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando,

o homem interior vai-se renovando de dia para dia.

Porque a ligeira aflição dum momento

prepara-nos, para além de toda e qualquer medida,

um peso eterno de glória.

Não olhamos para as coisas visíveis,

olhamos para as invisíveis:

as coisas visíveis são passageiras,

ao passo que as invisíveis são eternas.

Bem sabemos que,

se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita,

recebemos nos Céus uma habitação eterna,

que é obra de Deus

e não é feita pela mão dos homens…” (cf. II Coríntios 4,14 – 5,1)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 29 de Outubro de 2025
 
Estimados irmãos e irmãs, peregrinos na fé e representantes das diferentes tradições religiosas! Bom dia, bem-vindos!
 
No centro da reflexão de hoje, nesta Audiência-geral dedicada ao diálogo inter-religioso, desejo lembrar as palavras do Senhor Jesus à samaritana: «Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24). No Evangelho, este encontro revela a essência do autêntico diálogo religioso: um intercâmbio que se estabelece quando as pessoas se abrem umas às outras com sinceridade, escuta atenta e enriquecimento recíproco. É um diálogo que nasce da sede: a sede de Deus pelo coração humano e a sede humana de Deus. No poço de Sicar, Jesus supera as barreiras de cultura, género e religião. Convida a samaritana a uma nova compreensão do culto, que não se limita a um lugar em particular – “nem nesta montanha, nem em Jerusalém” – mas que se realiza em Espírito e verdade. Este momento capta o núcleo do diálogo inter-religioso: a descoberta da presença de Deus, além de todas as fronteiras, e o convite a procurá-lo juntos com reverência e humildade.
Há sessenta anos, no dia 28 de outubro de 1965, o Concílio Vaticano II, com a promulgação da Declaração Nostra aetate, abriu um novo horizonte de encontro, respeito e hospitalidade espiritual. Este Documento luminoso ensina-nos a encontrar os seguidores de outras religiões não como estranhos, mas como companheiros de viagem no caminho da verdade; a honrar as diferenças, afirmando a nossa humanidade comum; e a discernir, em qualquer busca religiosa sincera, um reflexo do único Mistério divino que abraça toda a criação.
Em particular, não devemos esquecer que a primeira orientação da Nostra aetate foi para o mundo judaico, com o qual São João XXIII tencionava restabelecer a relação original. Assim, pela primeira vez na história da Igreja, devia adquirir forma um tratado doutrinal sobre as raízes judaicas do cristianismo que, nos planos bíblico e teológico, representasse um ponto de não retorno. «O povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à descendência de Abraão. Com efeito, a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e eleição já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas» (NA, 4). Assim a Igreja, «lembrada do seu comum património com os judeus, e levada não por razões políticas, mas pela religiosa caridade evangélica, deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isto sucedeu e seja quem for a pessoa que isto promoveu contra os judeus» (ibid.). Desde então, todos os meus predecessores condenaram o antissemitismo com palavras claras. E assim também eu confirmo que a Igreja não tolera o antissemitismo e o combate, por causa do próprio Evangelho.
Hoje podemos olhar com gratidão para tudo o que foi realizado no diálogo judaico-católico nestas seis décadas. Isto não se deve apenas ao esforço humano, mas à assistência do nosso Deus que, segundo a convicção cristã, é em si mesmo diálogo. Não podemos negar que neste período houve também desentendimentos, dificuldades e conflitos que, no entanto, nunca impediram a continuação do diálogo. Também hoje não devemos permitir que as circunstâncias políticas e as injustiças de alguns nos desviem da amizade, sobretudo porque até agora conseguimos realizar muito.
O espírito da Nostra aetate continua a iluminar o caminho da Igreja. Ela reconhece que todas as religiões podem refletir «um raio da verdade que ilumina todos os homens» (n. 2) e procuram respostas para os grandes mistérios da existência humana, de tal modo que o diálogo deve ser não apenas intelectual, mas profundamente espiritual. A Declaração convida todos os católicos – bispos, clero, pessoas consagradas e fiéis leigos – a participar sinceramente no diálogo e na colaboração com os seguidores de outras religiões, reconhecendo e promovendo tudo o que é bom, verdadeiro e santo nas suas tradições (cf. ibid.). Hoje isto é necessário em praticamente todas as cidades do mundo onde, devido à mobilidade humana, as nossas diversidades espirituais e de pertença são chamadas a encontrar-se e a conviver fraternalmente. A Nostra aetate recorda-nos que o verdadeiro diálogo afunda as suas raízes no amor, único fundamento da paz, da justiça e da reconciliação, ao mesmo tempo que rejeita com firmeza todas as formas de discriminação ou perseguição, afirmando a igual dignidade de todos os seres humanos (cf. NA, 5).
Portanto, caros irmãos e irmãs, sessenta anos após a Nostra aetate, podemos perguntar-nos: o que podemos fazer juntos? A resposta é simples: agir juntos. Mais do que nunca, o nosso mundo precisa da nossa unidade, amizade e colaboração. Cada uma das nossas religiões pode contribuir para aliviar o sofrimento humano e cuidar da nossa casa comum, o nosso planeta Terra. As nossas respetivas tradições ensinam a verdade, a compaixão, a reconciliação, a justiça e a paz. Devemos reafirmar o serviço à humanidade, em todos os momentos. Juntos, devemos vigiar contra o abuso do nome de Deus, da religião e do próprio diálogo, assim como contra os perigos representados pelo fundamentalismo religioso e pelo extremismo. Devemos abordar também o desenvolvimento responsável da inteligência artificial porque, se for concebida como alternativa ao humano, ela pode violar gravemente a sua dignidade infinita e neutralizar as suas responsabilidades fundamentais. As nossas tradições têm uma imensa contribuição a oferecer para a humanização da técnica e, por conseguinte, para inspirar a sua regulamentação, em defesa dos direitos humanos fundamentais.
Como todos nós sabemos, as nossas religiões ensinam que a paz começa no coração do homem. Neste sentido, a religião pode desempenhar um papel essencial. Devemos restituir a esperança à nossa vida pessoal, às nossas famílias, bairros, escolas, aldeias, países e ao nosso mundo. Esta esperança fundamenta-se nas nossas crenças religiosas, na convicção de que um mundo novo é possível.
Há sessenta anos, a Nostra aetate trouxe esperança ao mundo depois da segunda guerra mundial. Hoje somos chamados a refundamentar esta esperança no nosso mundo devastado pela guerra e no nosso ambiente natural degradado. Colaboremos, pois se estivermos unidos tudo é possível. Façamos com que nada nos divida. E, neste espírito, desejo manifestar mais uma vez a minha gratidão pela vossa presença e amizade. Transmitamos este espírito de amizade e colaboração também à geração futura, porque é o verdadeiro pilar do diálogo.
E agora, detenhamo-nos um momento em oração silenciosa: a oração tem o poder de transformar as nossas atitudes, pensamentos, palavras e acções. (cf. Santa Sé)