PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Soltai brados de alegria… Fazei ouvir os vossos louvores…” (cf. Jeremias 31, 7)

O convite à alegria é permanente, na Palavra do Senhor. A alegria nasce da fé no Senhor que salva o seu povo; é fermento de esperança, na tristeza que envolve a vida; é testemunho do amor que se verga sob o peso da cruz; é proclamação da verdade que nos liberta. O desafio da alegria afronta o ódio, a vingança, a marginalidade, a violência, porque é criador de unidade, de comunhão, de festa, de encontro e de paz… A verdadeira alegria: aquela que vem de Deus e anima a nossa acção missionária. Por ela, somos convidados a louvar e a agradecer as maravilhas que Deus faz em nós e, por nós, no meio do mundo. Cantar a alegria da fé, do amor incondicional, da vida doada em serviço por amor, da fraternidade que construímos na harmonia das palavras e na beleza dos gestos, da esperança que destrói muros e lança pontes de solidariedade e de perdão. Acolher a alegria de Jesus presente no meio de nós…

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

PALAVRAS DO PAPA



- na Audiência Geral de 29 de Agosto de 2012, a propósito da Festa do martírio de São João Baptista

“…Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Podemos perguntar: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta, tão coerente, gasta completamente para Deus e para preparar o caminho a Jesus? A resposta é simples: nasce da relação com Deus, da oração que é o fio condutor de toda sua existência. João é o dom divino tantas vezes pedido pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); um grande dom, humanamente impensável, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas, a Deus, nada é impossível (cf. Lucas 1, 36). O anúncio deste nascimento aconteceu, exactamente, no lugar da oração, no templo de Jerusalém, quando cabe a Zacarias o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8, 20). Também o nascimento de João Baptista foi marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor, e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que recitamos todas as manhãs na Oração de Laudes - o "Benedictus" - exalta a acção de Deus na história e indica profeticamente a missão do seu filho João: preceder o Filho de Deus feito carne, a fim de preparar os seus caminhos (cf. Lc 1,67-79). Toda a existência do Precursor de Jesus é alimentada pela sua relação com Deus, especialmente no tempo passado no deserto (cf. Lc 1,80); as regiões desertas são lugar de tentação, mas também o lugar onde o homem experimenta a sua pobreza porque privado de apoios e seguranças materiais, e descobre que o único ponto de referência verdadeiramente sólido é Deus. Mas João Baptista não é apenas um homem de oração, de contacto permanente com Deus; é, também, um guia para esta relação. O evangelista Lucas, referindo-se à oração que Jesus ensinou aos seus discípulos - o "Pai Nosso"-, observa que o pedido foi feito pelos discípulos com estas palavras: "Senhor, ensina-nos a rezar, como João ensinou aos seus discípulos" (cf. Lc 11, 1)…”

PARA REZAR



SALMO 15

Quem poderá, SENHOR, habitar no teu santuário?
Quem poderá residir na tua montanha santa?
Aquele que leva uma vida sem mancha,
pratica a justiça e diz a verdade com todo o coração;
aquele cuja língua não levanta calúnias
e não faz mal ao seu próximo,
nem causa prejuízo a ninguém;
aquele que despreza o que é desprezível,
mas estima os que temem o Senhor;
aquele que não falta ao juramento,
mesmo em seu prejuízo;

aquele que não empresta o seu dinheiro com usura,
nem se deixa subornar contra o inocente.
Quem assim proceder não há-de sucumbir para sempre.

SANTOS POPULARES



SANTA CLARA DE ASSIS
(Catequese do Papa Bento XVI)

Uma das Santas mais amadas é, sem dúvida, Santa Clara de Assis, que viveu no século XIII, contemporânea de São Francisco. O seu testemunho mostra-nos o quanto a Igreja é devedora a mulheres corajosas e cheias de fé como ela, capazes de dar um decisivo impulso para a renovação da Igreja. Quem foi, então, Clara de Assis? Para responder a essa pergunta, possuímos fontes confiáveis: não somente as antigas biografias - como aquela de Tomás de Celano - mas também as Actas do processo de canonização, promovido pelo Papa apenas alguns meses depois da morte de Clara e que contêm os testemunhos daqueles que viveram ao seu lado durante muito tempo. Nascida em 1193, Clara pertencia a uma família aristocrática e rica. Renunciou à nobreza e à riqueza para viver humilde e pobre, adoptando a forma de vida que Francisco de Assis propunha. Apesar dos seus parentes, como então acontecia, estarem a planear o seu matrimónio com uma qualquer personalidade de destaque, Clara, aos 18 anos, num gesto ousado - inspirado pelo profundo desejo de seguir Cristo e pela admiração por Francisco - deixou a casa paterna e, em companhia de uma amiga, Bona di Guelfuccio, uniu-se secretamente aos frades menores junto à pequena igreja da Porciúncula. Era a noite de Domingo de Ramos de 1211. No meio da comoção geral, foi realizado um gesto altamente simbólico: enquanto os seus companheiros tinham nas mãos tochas acesas, Francisco cortou-lhe os cabelos e Clara recebeu um rude hábito penitencial. A partir daquele momento, tornou-se a virgem noiva de Cristo, humilde e pobre, e a Ele totalmente consagrada. Como Clara e as suas companheiras, inúmeras mulheres, ao longo da história, foram fascinadas pelo amor de Cristo que, na beleza da sua Divina Pessoa, preenche os seus corações. E toda a Igreja, por meio da mística vocação nupcial das virgens consagradas, apresenta-se como o que será para sempre: a Esposa bela e pura de Cristo. Numa das quatro cartas que Clara enviou a Inês de Praga, a filha do rei da Boêmia, que queria seguir os seus passos, fala de Cristo, seu amado esposo, com expressões nupciais, que podem surpreender, mas que comovem: "Amando-o, sereis casta; tocando-o, sereis mais pura; deixando-vos possuir por Ele, sereis virgem. O seu poder é mais forte, a sua generosidade mais elevada, o seu aspecto mais belo, o amor mais suave e toda a graça mais fina. Agora, estais apertada pelo abraço dele, que tendes adornado o vosso peito por pedras preciosas [...] e tendes-vos coroado com uma coroa de ouro gravada com o sinal da santidade" (Primeira carta: FF, 2862). Sobretudo no princípio de sua experiência religiosa, Clara tem em Francisco não somente um mestre a quem seguir os ensinamentos, mas também um amigo fraterno. A amizade entre esses dois santos constitui um aspecto muito bonito e importante. De facto, quando duas almas puras e inflamadas pelo mesmo amor por Deus se encontram, tiram da recíproca amizade um estímulo fortíssimo para percorrer a via da perfeição. A amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados que a Graça divina purifica e transfigura (…) Após ter passado um período de alguns meses junto de outras comunidades monásticas, resistindo às pressões dos seus familiares que, inicialmente, não aprovaram a sua escolha, Clara estabelece-se com as primeiras companheiras na igreja de São Damião, onde os frades menores haviam edificado um pequeno mosteiro para elas. Naquele mosteiro, viveu durante mais de quarenta anos, até à sua morte, em 1253. Temos uma descrição, em primeira mão, de como viviam essas mulheres naqueles anos, nos inícios do movimento franciscano. Trata-se do relato do admirado bispo flamengo, em visita a Itália, Giacomo di Vitry, que afirma ter encontrado um grande número de homens e mulheres, de todas as classes sociais, que "deixaram todas as coisas por Cristo, fugiam do mundo. Chamavam-se frades menores e irmãs menores e eram tidos em grande consideração pelo senhor Papa e cardeais. [...] As mulheres [...] vivem juntas em diversas casas, não muito distantes da cidade. Nada recebem, mas vivem do trabalho das suas mãos. E estão profundamente tristes e atormentadas, porque são mais honradas do que gostariam pelos clérigos e leigos" (Lettera dell’ottobre 1216: FF, 2205.2207). Giacomo di Vitry captou com perspicácia um traço característico da espiritualidade franciscana a que Clara foi muito sensível: a radicalidade da pobreza, associada à confiança total na Providência Divina. Por essa razão, actuou com grande determinação, obtendo do Papa Gregório IX ou, provavelmente, já do Papa Inocêncio III, o assim chamado Privilegium Paupertatis (cfr. FF, 3279). Com base nele, Clara e as suas companheiras de São Damião não poderiam possuir nenhuma propriedade material. Tratava-se de uma excepção verdadeiramente extraordinária em relação ao direito canónico; as autoridades eclesiásticas daquele tempo permitiram-na por apreciar os frutos de santidade evangélica que reconheciam no modo de viver de Clara e das suas irmãs. Isso mostra que, também nos séculos da Idade Média, o papel das mulheres não era secundário, mas significativo. A esse respeito, deve salientar-se que Clara foi a primeira mulher na história da Igreja a compor uma Regra escrita, sujeita à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis fosse preservado em todas as comunidades femininas que se iam estabelecendo já nos seus tempos e que desejavam inspirar-se no exemplo de Francisco e Clara. No convento de São Damião, Clara praticou, de modo heroico, as virtudes que deveriam caracterizar todo o cristão: humildade, espírito de piedade e de penitência, caridade. Embora sendo superiora, desejava servir, pessoalmente, as irmãs, sujeitando-se também a tarefas humilíssimas: a caridade, de facto, supera todas as resistências e quem ama faz todos os sacrifícios com alegria. A sua fé na presença real da Eucaristia era tão grande que, em duas ocasiões, verificou-se um facto prodigioso: pela graça da exposição do Santíssimo Sacramento, afastaram-se os mercenários sarracenos, que estavam prestes a atacar o convento de São Damião e a devastar a cidade de Assis. Esses episódios, bem como outros milagres, dos quais se preserva a memória, levaram o Papa Alexandre IV a canonizá-la apenas dois anos após sua morte, em 1255, traçando um elogio na Bula de canonização, em que lemos: "Quão vivo é o poder desta luz e quão forte é o brilho desta fonte luminosa. Na verdade, essa luz tinha-se enclausurado no escondimento da vida monástica e irradiava luzes cintilantes; recolhia-se num mosteiro estreito, e expandia-se ao longo da vastidão do mundo. Mantinha-se dentro e difundia- se fora. Clara, de facto, escondia-se; mas a sua vida foi revelada a todos. Clara ficou em silêncio, mas sua fama gritava" (FF, 3284). E é exatamente assim, queridos amigos: são os santos aqueles que alteram o mundo para melhor; transformam-no de modo duradouro, incorporando as energias que somente o amor inspirado pelo Evangelho pode suscitar. Os santos são os grandes benfeitores da humanidade! (…) Gratos a Deus que nos dá os Santos que falam ao nosso coração e nos oferecem um exemplo de vida cristã a imitar, desejo concluir com as mesmas palavras de bênção que Clara compôs para as suas irmãs e que ainda hoje as Clarissas, que desempenham um precioso papel na Igreja com as suas orações e o seu trabalho, mantêm com grande devoção. São expressões das quais emerge toda a ternura da maternidade espiritual: "Abençoo-vos na minha vida e depois da minha morte, como posso e mais do que posso, com todas as bênçãos com as quais o Pai das misericórdias abençoou e abençoará no céu e na terra os filhos e filhas, e com as quais um pai e uma mãe espiritual abençoa e abençoará os seus filhos e as suas filhas espirituais. Amém" (FF, 2856).