PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

domingo, 6 de janeiro de 2013

ANO DA FÉ



- da Homilia de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, no dia 1 de Janeiro de 2013, na Sé Portucalense

“…Que oportunidade, irmãos, que responsabilidade tamanha, se verdadeiramente procuramos a paz! Estando Deus aí mesmo, na vida em gestação, dentro ou já fora do ventre materno, como se torna prioritária a promoção e salvaguarda de cada vida humana, no arco total da sua existência terrena! A fragilidade da vida uterina ou a fraqueza e enfermidade que a atinjam depois, são outros tantos apelos a que acorramos céleres – como os pastores do Evangelho – ao seu cuidado preciso, solidário e eficaz. Qualquer hesitação neste ponto, qualquer amolecimento cultural ou legal em relação a ele, é absolutamente um atentado à paz. À paz das consciências, que, quanto a isto, nunca adormecerão tranquilas, antes somarão pesadelos; e à paz das famílias e de sociedades inteiras, se contemporizarem com qualquer tipo de anti natalismo ou reducionismo existencial. A tão mencionada “qualidade de vida”, deve significar, antes de mais, o reconhecimento da qualidade que ela essencialmente tem e sempre conserva, mesmo quando física ou mentalmente atingida. A paz – enquanto harmonia íntima e global de tudo quanto representa a verdade das coisas, começando pela verdade das pessoas – é obra e fruto da justiça, que nos manda dar a cada um o que lhe é devido e pertence. E a vida é a primeiríssima pertença de cada ser humano.

Também aqui não havemos de ter medo, nem de nos sentirmos esmagados por uma responsabilidade aparentemente incomportável, face à insensibilidade de outros em relação a este ponto fundamental. Quando o cristianismo nasceu, no Menino do Presépio, toda a grandeza do céu era pequeníssima na terra, e em grande contraste com o que se fazia naquele imponente Império Romano, no respeitante à vida humana. A escravatura era uma realidade geral e aceite; o aborto prática corrente; e o próprio bebé já nascido estava sujeito à vontade paterna, para continuar ou não a viver… Alguma reflexão filosófica, como a dos estoicos, já criticava estas últimas práticas; mas foi, inegavelmente foi, a progressiva expansão evangélica nas inteligências e nos costumes que, pouco a pouco, conseguiu modificar positivamente as coisas, na legislação inclusive. É por isso muito estranho que alguém se lembre de apresentar hoje em dia como “progressos civilizacionais” autênticas regressões de dois mil anos, desprotegendo a vida em todo seu verdadeiro percurso, pré e pós natal. Sobretudo, quando a ciência nos demonstra agora, com toda a evidência, o desenvolvimento duma mesma vida desde o momento da sua conceção. - Há muito o faz a liturgia cristã, celebrando a Anunciação do Senhor em cada 25 de Março, nove meses precisos antes do seu Natal!
Não tenhamos receio de, também neste ponto, «confessarmos Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da nossa esperança a todo aquele que no-la peça; com mansidão e respeito…» (cf. 1 Pe 3, 15). Ofereçamo-la mesmo a quem não a peça ainda, certos como estamos de que a verdade que nos chama a nós também chama a todos, como os pastores o foram ao pleno presépio de Cristo. Façamo-lo com atitudes concretas de salvaguarda e protecção da vida, respondendo da melhor maneira aos casos que surjam e apoiando todas as iniciativas nesse sentido, como já existem e hão-de aumentar na nossa sociedade.
Há aqui muita urgência, semelhante à pressa com que os pastores acorreram ao pobre lugar onde Deus nascia no mundo. E convençamo-nos da verdade sempre comprovada: a decisão certa que tomamos hoje abre o amanhã que Deus nos oferece. Também aqui poderíamos aplicar a passagem bíblica: «Como deve ser santa a vossa vida e a vossa piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus; […] nós esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça» ( 2 Pe 3, 11-13).