SANTA JOANA D’ARC (de uma catequese do Papa Bento XVI)
“…Joana
nasce em Domremy, um pequeno povoado situado na fronteira entre a França e a
Lorena. Os seus pais são camponeses abastados, conhecidos por todos como
cristãos excelentes. Deles recebe uma boa educação religiosa, com uma notável
influência da espiritualidade do Nome de Jesus, ensinada por são
Bernardino de Sena e propagada na Europa pelos franciscanos. Ao Nome de
Jesus é sempre unido o Nome de Maria e assim, por detrás da
religiosidade popular, a espiritualidade de Joana é profundamente
cristocêntrica e mariana. Desde a infância, ela demonstra uma grande caridade e
compaixão pelos mais pobres, pelos doentes e por todos os que sofrem, no
contexto dramático da guerra. Joana d’Arc não sabia ler nem escrever, mas pode
ser conhecida, no mais profundo da sua alma, graças a duas fontes de
extraordinário valor histórico: os dois Processos que lhe dizem
respeito. O primeiro, o Processo de Condenação, contém a transcrição dos
longos e numerosos interrogatórios de Joana, durante os últimos meses da sua
vida (Fevereiro-Maio de 1431), e cita as próprias palavras da santa. O segundo,
o Processo de Nulidade da Condenação, ou de «Reabilitação», contém
as desposições de cerca de 120 testemunhas oculares de todos os períodos da sua
vida. Das suas próprias palavras sabemos que a vida religiosa de Joana
amadurece como experiência mística, a partir da idade de 13 anos. Através da
«voz» do Arcanjo São Miguel, Joana sente-se chamada pelo Senhor a intensificar
a sua vida cristã e, também, a comprometer-se pessoalmente na libertação do seu
povo. A sua resposta imediata, o seu «sim», é o voto de virgindade, com um novo
compromisso na vida sacramental e na oração: participação quotidiana na missa,
confissão e comunhão frequentes, longos momentos de oração silenciosa diante do
Crucifixo ou da imagem de Nossa Senhora. A compaixão e o compromisso da jovem
camponesa francesa diante do sofrimento do seu povo tornam-se mais intensos
graças à sua relação mística com Deus. Um dos aspectos mais originais da santidade
desta jovem é precisamente este vínculo entre experiência mística e missão
política. Depois dos anos de vida escondida e de amadurecimento interior,
segue-se o biénio breve, mas intenso, da sua vida pública: um ano de acção e
um ano de paixão. No início do ano de 1429, Joana começa a sua obra de
libertação. Os numerosos testemunhos mostram-nos esta jovem, de apenas 17 anos,
como uma pessoa muito forte e determinada, capaz de convencer homens inseguros
e desanimados. Superando todos os obstáculos, encontra o Delfim da França, o
futuro Rei Carlos VII, que em Poitiers a submete a um exame da parte de alguns
teólogos da Universidade. O seu juízo é positivo: nela não vêem nada de mal,
mas só uma boa cristã.A 22 de Março de 1429, Joana dita uma importante carta ao
Rei da Inglaterra e aos seus homens que assediam a cidade de Orléans. A sua
proposta é de verdadeira paz, na justiça entre os dois povos cristãos, à luz
dos Nomes de Jesus e de Maria, mas é rejeitada, e Joana deve empenhar-se na
luta pela libertação da cidade, que tem lugar no dia 8 de Maio. O outro momento
culminante da sua obra é a coroação do Rei Carlos VII, em Reims, no dia 17 de
Julho de 1429. Durante um ano inteiro, Joana vive com os soldados, realizando
no meio deles uma verdadeira missão de evangelização. São numerosos os
testemunhos relativos à sua bondade, à sua coragem e à sua pureza extraordinária.
É chamada por todos e ela mesma define-se «a donzela», ou seja, a virgem. A paixão
de Joana tem início a 23 de Maio de 1430, quando cai prisioneira nas mãos
dos seus inimigos. No dia 23 de Dezembro, é conduzida à cidade de Rouen. É ali
que se realiza o longo e dramático Processo de Condenação, que começa em
Fevereiro de 1431 e termina a 30 de Maio, com a fogueira. É um processo grande
e solene, presidido por dois juízes eclesiásticos, o bispo Pierre Cauchon e o
inquisidor Jean le Maistre, mas na realidade inteiramente orientado por um numeroso
grupo de teólogos da célebre Universidade de Paris, que participam no processo
como assessores. São eclesiásticos franceses que, tendo feito uma escolha política
oposta àquela de Joana têm, a priori, um juízo negativo sobre a sua pessoa e a sua missão.
Este processo é uma página devastante da história da santidade e também uma
página iluminadora sobre o mistério da Igreja que, segundo as palavras do
Concílio Vaticano II, é «simultaneamente santa e sempre necessitada de
purificação» (LG,
8). É o encontro dramático entre esta santa e os seus juízes, que são
eclesiásticos. Joana é acusada e julgada por eles, a ponto de ser condenada
como herege e enviada à morte terrível na fogueira. Diversamente dos santos
teólogos que tinham iluminado a Universidade de Paris, como são Boaventura, são
Tomas de Aquino e o beato Duns Scoto, dos quais falei em algumas catequeses,
estes juízes são teólogos aos quais faltam a caridade e a humildade de ver
nesta jovem a obra de Deus. Vêm à mente as palavra de Jesus, segundo as quais
os mistérios de Deus são revelados àqueles que têm o coração de crianças,
enquanto permanecem escondidos aos doutos e sábios que não têm humildade (cf. Lc
10, 21). Assim, os juízes de Joana são radicalmente incapazes de a
compreender, de ver a beleza da sua alma: não sabiam que condenavam uma santa.O
apelo de Joana ao juízo do Papa, a 24 de Maio, é rejeitado pelo tribunal. Na
manhã de 30 de Maio, ela recebe pela última vez a sagrada Comunhão no cárcere e
é imediatamente conduzida ao suplício na praça do velho mercado. Pede a um dos
sacerdotes que conserve diante da fogueira uma cruz de procissão. Assim, morre
contemplando Jesus Crucificado e pronunciando várias vezes e em voz alta o Nome
de Jesus. Cerca de 25 anos
mais tarde, o Processo de Nulidade, aberto sob a autoridade do Papa Calisto
III, conclui-se com uma solene sentença que declara nula a condenação. Este
longo processo, que reuniu as deposições das testemunhas e os juízos de muitos
teólogos, todos favoráveis a Joana, evidencia a sua inocência e a sua
fidelidade perfeita à Igreja. Joana d’Arc será depois canonizada por Bento XV,
em 1920…”
A
memória litúrgica de Santa Joana d’Arc faz-se no dia 30 de Maio.