- na homilia de 7 de
Julho, na Basílica de São Pedro, na Eucaristia com seminaristas, noviços e
noviças e quantos estão em caminhada vocacional
“…Hoje a Palavra de Deus fala-nos da missão. Donde nasce
a missão? A resposta é simples: nasce de uma chamada – a do Senhor – e Ele
chama para enviar. Qual deve ser o estilo do enviado? Quais são os pontos de
referência da missão cristã? As leituras que ouvimos sugerem-nos três: a
alegria da consolação, a cruz e a oração.
1. O primeiro elemento: a alegria de consolação. O profeta
Isaías dirige-se a um povo que atravessou o período escuro do exílio, sofreu
uma prova muito dura; mas agora, para Jerusalém, chegou o tempo da
consolação; a tristeza e o medo devem dar lugar à alegria: «Alegrai-vos (...),
rejubilai (…) regozijai-vos» – diz o Profeta (66, 10). É um grande convite à
alegria. Porquê? Qual é o motivo deste convite à alegria? Porque o Senhor
derramará sobre a Cidade Santa e seus habitantes uma «cascata» de consolação,
uma cascata de consolação – ficando assim repletos de consolação –, uma cascata
de ternura materna: «Serão levados ao colo e acariciados sobre os seus regaços»
(v. 12). Como faz a mãe quando põe o filho no regaço e o acaricia, assim o Senhor
fará connosco… faz connosco. Esta é a cascata de ternura que nos dá tanta
consolação. «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei» (v. 13).
Cada cristão, mas sobretudo nós, somos chamados a levar esta mensagem de
esperança, que dá serenidade e alegria: a consolação de Deus, a sua ternura
para com todos. Mas só podemos ser seus portadores, se experimentarmos nós
primeiro a alegria de ser consolados por Ele, de ser amados por Ele. Isto é
importante para que a nossa missão seja fecunda: sentir a consolação de Deus e
transmiti-la! Algumas vezes encontrei pessoas consagradas que têm medo da
consolação de Deus e… pobrezinho, pobrezinha delas, se amofinam porque têm medo
desta ternura de Deus. Mas não tenhais medo. Não tenhais medo, o nosso Deus é o
Senhor da consolação, o Senhor da ternura. O Senhor é Pai e Ele disse que
procederá connosco como faz uma mãe com o seu filho, com a ternura dela. Não
tenhais medo da consolação do Senhor. O convite de Isaías: «consolai, consolai
o meu povo» (40,1) deve ressoar no nosso coração e tornar-se missão.
Encontrarmos, nós, o Senhor que nos consola e irmos consolar o povo de Deus:
esta é a missão. Hoje as pessoas precisam certamente de palavras, mas sobretudo
têm necessidade que testemunhemos a misericórdia, a ternura do Senhor, que
aquece o coração, desperta a esperança, atrai para o bem. A alegria de levar a
consolação de Deus!
2. O segundo ponto de referência da missão
é a cruz de Cristo. São Paulo, ao
escrever aos Gálatas, diz: «Quanto a mim, de nada me quero gloriar, a não ser
na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (6, 14). E fala de «estigmas», isto é,
das chagas de Jesus crucificado, como selo, marca distintiva da sua vida de
apóstolo do Evangelho. No seu ministério, Paulo experimentou o sofrimento, a
fraqueza e a derrota, mas também a alegria e a consolação. Isto é o mistério
pascal de Jesus: mistério de morte e ressurreição. E foi precisamente o ter-se
deixado configurar à morte de Jesus que fez São Paulo participar na sua
ressurreição, na sua vitória. Na hora da escuridão, na hora e da prova,
já está presente e operante a alvorada da luz e da salvação. O mistério pascal
é o coração palpitante da missão da Igreja. E, se permanecermos dentro deste
mistério, estamos a coberto quer de uma visão mundana e triunfalista da missão,
quer do desânimo que pode surgir à vista das provas e dos insucessos. A
fecundidade pastoral, a fecundidade do anúncio do Evangelho não deriva do
sucesso nem do insucesso vistos segundo critérios de avaliação humana, mas de
conformar-se com a lógica da Cruz de Jesus, que é a lógica de sair de si mesmo
e dar-se, a lógica do amor. É a Cruz – sempre a Cruz com Cristo, porque às
vezes oferecem-nos a cruz sem Cristo: esta não vale! É a Cruz, sempre a Cruz
com Cristo – que garante a fecundidade da nossa missão. E é da Cruz, supremo
acto de misericórdia e amor, que se renasce como «nova criação» (Gl 6,
15).
3. Finalmente, o terceiro elemento: a oração. Ouvimos no Evangelho: «Rogai
ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10, 2).
Os trabalhadores para a messe não são escolhidos através de campanhas
publicitárias ou apelos ao serviço da generosidade, mas são «escolhidos» e
«mandados» por Deus. É Ele que escolhe, é Ele que manda; sim, é Ele que manda,
é Ele que confere a missão. Por isso é importante a oração. A Igreja – repetia
Bento XVI – não é nossa, mas de Deus; e quantas vezes nós, os consagrados,
pensamos que seja nossa! Fazemos dela… qualquer coisa que nos vem à cabeça. Mas
não é nossa; é de Deus. O campo a cultivar é d’Ele. Assim, a missão é sobretudo
graça. A missão é graça. E, se o apóstolo é fruto da oração, nesta encontrará a
luz e a força da sua acção. De contrário, a nossa missão não será fecunda;
mais, apaga-se no próprio momento em que se interrompe a ligação com a fonte,
com o Senhor.
Queridos seminaristas, queridas noviças e
queridos noviços, queridos jovens em caminhada vocacional! Há dias, um de vós,
um dos vossos formadores, dizia-me: évangéliser on le fait à genoux, a
evangelização faz-se de joelhos. Ouvi bem: «A evangelização faz-se de joelhos».
Sede sempre homens e mulheres de oração! Sem o relacionamento constante com
Deus a missão torna-se um ofício. Mas que trabalho fazes? Trabalho de alfaiate,
de cozinheira, de padre… Trabalhas de padre, de freira? Não. Não é um ofício, é
diverso. O risco do activismo, de confiar demasiado nas estruturas, está sempre
à espreita. Se olhamos a vida de Jesus, constatamos que, na véspera de cada
decisão ou acontecimento importante, Ele Se recolhia em oração intensa e
prolongada. Cultivemos a dimensão contemplativa, mesmo no turbilhão dos compromissos
mais urgentes e pesados. E quanto mais a missão vos chamar para ir para as
periferias existenciais, tanto mais o vosso coração se mantenha unido ao de
Cristo, cheio de misericórdia e de amor. Aqui reside o segredo da fecundidade
pastoral, da fecundidade de um discípulo do Senhor!
Jesus envia os seus sem «bolsa, nem alforge, nem
sandálias» (Lc 10, 4). A difusão do Evangelho não é assegurada pelo
número das pessoas, nem pelo prestígio da instituição, nem ainda pela
quantidade de recursos disponíveis. O que conta é estar permeados pelo amor de
Cristo, deixar-se conduzir pelo Espírito Santo e enxertar a própria existência
na árvore da vida, que é a Cruz do Senhor…”