JORNADA MUNDIAL DA
JUVENTUDE 2013
- na Homilia do
encontro com o Episcopado brasileiro – Rio de Janeiro, 27 de Julho
“…O facto é que, hoje, há muitos que são
como os dois discípulos de Emaús; e não apenas aqueles que buscam respostas nos
novos e difusos grupos religiosos, mas também aqueles que parecem já viver sem
Deus, tanto na teoria como na prática. Perante esta situação, o que fazer? Faz
falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles. Precisamos de uma
Igreja capaz de encontrá-los no seu caminho. Precisamos de uma Igreja capaz de
inserir-se na sua conversa. Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com
aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagueiam sem meta, sozinhos, com
o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje
um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido.
A globalização implacável e a intensa urbanização, frequentemente selvagem, prometeram muito. Muitos enamoraram-se das suas potencialidades e, nelas, existe algo de verdadeiramente positivo, como, por exemplo, a diminuição das distâncias, a aproximação das pessoas à cultura, a difusão da informação e dos serviços. Mas, por outro lado, muitos vivem os seus efeitos negativos sem dar-se conta de quanto esses prejudicam a própria visão do homem e do mundo, gerando maior desorientação e um vazio que não conseguem explicar. Alguns destes efeitos são a confusão acerca do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho», a carência de um lugar e de laços profundos. E, como não há quem lhes faça companhia e mostre, com a própria vida, o caminho verdadeiro, muitos buscaram atalhos, porque se apresenta demasiado alta a «medida» da Grande Igreja. Também existem aqueles que reconhecem o ideal do homem e da vida proposto pela Igreja, mas não têm a audácia de abraçá-lo. Pensam que este ideal é grande demais para eles, e está fora das suas possibilidades; a meta a alcançar é inatingível. Todavia, não podem viver sem ter pelo menos alguma coisa – nem que seja uma caricatura – daquilo que lhes parece demasiado alto e distante. Com a desilusão no coração, partem à procura de qualquer coisa que os iludirá uma vez mais, ou resignam-se a uma adesão parcial que, em última análise, não consegue dar plenitude à sua vida.
A grande sensação de abandono e solidão, de não pertencerem sequer a si mesmos, que muitas vezes surge dessa situação, é dolorosa demais para ser silenciada. Há necessidade de desabafar, restando-lhes então a via da lamentação. Mas a própria lamentação torna-se, por sua vez, como um bumerangue que regressa e acaba aumentando a infelicidade. Ainda poucas pessoas são capazes de ouvir a dor: é preciso pelo menos anestesiá-lo. Perante este panorama, precisamos de uma Igreja capaz de fazer companhia, de ir para além da simples escuta; uma Igreja, que acompanha o caminho pondo-se em viagem com as pessoas; uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém; uma Igreja que se dê conta de como as razões, pelas quais há pessoas que se afastam, contêm já em si mesmas também as razões para um possível retorno, mas é necessário saber ler a totalidade com coragem. Jesus deu calor ao coração dos discípulos de Emaús. Eu gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo a casa? Em Jerusalém, residem as nossas fontes: Escritura, Catequese, Sacramentos, Comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos... Somos ainda capazes de contar de tal modo essas fontes, que despertem o encanto pela sua beleza? Muitos foram-se embora porque lhes foi prometido algo de mais alto, algo de mais forte, algo de mais rápido. Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade para aqueles que pensam que a verdadeira altura da vida esteja em outro lugar? Porventura conhece-se algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza? A busca do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros velozes, aviões rápidos, relatórios rápidos... E, todavia, sente-se uma necessidade desesperada de calma, quero dizer, de lentidão. A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já se deixa arrastar pelo frenesim da eficiência? Recuperemos, queridos Irmãos, a calma de saber sintonizar o passo com as possibilidades dos peregrinos, com os seus ritmos de caminhada; recuperemos a capacidade de estar sempre perto deles para permitir-lhes abrirem uma brecha no desencanto que existe nos corações, para que possam entrar. Eles querem esquecer Jerusalém onde residem as suas fontes, mas assim acabarão por sentir sede. Faz falta uma Igreja ainda capaz de acompanhar o regresso a Jerusalém! Uma Igreja que seja capaz de fazer descobrir as coisas gloriosas e estupendas que se dizem de Jerusalém, de fazer entender que ela é minha Mãe, nossa Mãe, e não somos órfãos! Nela nascemos. Onde está a nossa Jerusalém em que nascemos? No Baptismo, no primeiro encontro de amor, na chamada, na vocação! Precisamos de uma Igreja que volte a dar calor, a inflamar o coração. Precisamos de uma Igreja capaz ainda de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como num êxodo…”
A globalização implacável e a intensa urbanização, frequentemente selvagem, prometeram muito. Muitos enamoraram-se das suas potencialidades e, nelas, existe algo de verdadeiramente positivo, como, por exemplo, a diminuição das distâncias, a aproximação das pessoas à cultura, a difusão da informação e dos serviços. Mas, por outro lado, muitos vivem os seus efeitos negativos sem dar-se conta de quanto esses prejudicam a própria visão do homem e do mundo, gerando maior desorientação e um vazio que não conseguem explicar. Alguns destes efeitos são a confusão acerca do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho», a carência de um lugar e de laços profundos. E, como não há quem lhes faça companhia e mostre, com a própria vida, o caminho verdadeiro, muitos buscaram atalhos, porque se apresenta demasiado alta a «medida» da Grande Igreja. Também existem aqueles que reconhecem o ideal do homem e da vida proposto pela Igreja, mas não têm a audácia de abraçá-lo. Pensam que este ideal é grande demais para eles, e está fora das suas possibilidades; a meta a alcançar é inatingível. Todavia, não podem viver sem ter pelo menos alguma coisa – nem que seja uma caricatura – daquilo que lhes parece demasiado alto e distante. Com a desilusão no coração, partem à procura de qualquer coisa que os iludirá uma vez mais, ou resignam-se a uma adesão parcial que, em última análise, não consegue dar plenitude à sua vida.
A grande sensação de abandono e solidão, de não pertencerem sequer a si mesmos, que muitas vezes surge dessa situação, é dolorosa demais para ser silenciada. Há necessidade de desabafar, restando-lhes então a via da lamentação. Mas a própria lamentação torna-se, por sua vez, como um bumerangue que regressa e acaba aumentando a infelicidade. Ainda poucas pessoas são capazes de ouvir a dor: é preciso pelo menos anestesiá-lo. Perante este panorama, precisamos de uma Igreja capaz de fazer companhia, de ir para além da simples escuta; uma Igreja, que acompanha o caminho pondo-se em viagem com as pessoas; uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém; uma Igreja que se dê conta de como as razões, pelas quais há pessoas que se afastam, contêm já em si mesmas também as razões para um possível retorno, mas é necessário saber ler a totalidade com coragem. Jesus deu calor ao coração dos discípulos de Emaús. Eu gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo a casa? Em Jerusalém, residem as nossas fontes: Escritura, Catequese, Sacramentos, Comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos... Somos ainda capazes de contar de tal modo essas fontes, que despertem o encanto pela sua beleza? Muitos foram-se embora porque lhes foi prometido algo de mais alto, algo de mais forte, algo de mais rápido. Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade para aqueles que pensam que a verdadeira altura da vida esteja em outro lugar? Porventura conhece-se algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza? A busca do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros velozes, aviões rápidos, relatórios rápidos... E, todavia, sente-se uma necessidade desesperada de calma, quero dizer, de lentidão. A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já se deixa arrastar pelo frenesim da eficiência? Recuperemos, queridos Irmãos, a calma de saber sintonizar o passo com as possibilidades dos peregrinos, com os seus ritmos de caminhada; recuperemos a capacidade de estar sempre perto deles para permitir-lhes abrirem uma brecha no desencanto que existe nos corações, para que possam entrar. Eles querem esquecer Jerusalém onde residem as suas fontes, mas assim acabarão por sentir sede. Faz falta uma Igreja ainda capaz de acompanhar o regresso a Jerusalém! Uma Igreja que seja capaz de fazer descobrir as coisas gloriosas e estupendas que se dizem de Jerusalém, de fazer entender que ela é minha Mãe, nossa Mãe, e não somos órfãos! Nela nascemos. Onde está a nossa Jerusalém em que nascemos? No Baptismo, no primeiro encontro de amor, na chamada, na vocação! Precisamos de uma Igreja que volte a dar calor, a inflamar o coração. Precisamos de uma Igreja capaz ainda de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como num êxodo…”
