BEATO AMADEU DA SILVA
João da Silva e Meneses (também conhecido por Beato Amadeu de
Portugal) nasceu por volta do ano de 1429, provavelmente em Campo Maior, onde,
na altura, residiam os seus pais: D. Rui Gomes da Silva, Alcaide-Mor da vila
alentejana de Campo Maior e Ouguela e Dona Isabel de Menezes, filha de D. Pedro
de Menezes que foi Governador da Praça de Ceuta que, nessa altura pertencia à
coroa dos reis de Portugal. Os pais de João pertenciam à primeira nobreza do
reino e estavam ainda aparentados com a família real. Entre os seus numerosos
irmãos, conta-se Santa Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada
Conceição, conhecida também como Ordem das Monjas Concepcionistas. João casou
aos dezoito anos, mas nunca chegou a coabitar com a donzela que lhe
apresentaram para esposa. Aos vinte anos, participou na Batalha de
Alfarrobeira, em Maio de 1449, onde foi ferido. Foi depois para o Mosteiro de
Santa Maria de Guadalupe, na Estremadura castelhana, onde ficou alguns anos,
entre os monges da Ordem de São Jerónimo, ocupando-se do ofício de cozinheiro e
de outros ofícios domésticos humildes. Chegou a dirigir-se ao reino de Granada,
com o desejo de sofrer o martírio por Cristo. Foi perseguido pelos mouros
granadinos. Tentou, depois, seguir para África com um mercador que preparava a
sua viagem. Mas regressou a Guadalupe. Ali, teve a tríplice aparição da Virgem
Maria, de São Francisco e de Santo António, fazendo-o despertar para um nova
vocação religiosa: a de franciscano.
Em 1452, João de Meneses deixou o Mosteiro de Santa Maria de
Guadalupe - levando uma carta de apresentação do prior Gonçalo de Illescas - com
o propósito de se dirigir para Assis. De passagem pelo Convento de São
Francisco de Oviedo, ali recebeu o hábito franciscano. Passou, também, por
Avinhão, Génova e Florença. Em Itália, tomou o nome de frei Amadeu de Portugal.
Em Perugia, o ministro-geral da Ordem franciscana, frei Ângelo, negou-lhe
audiência. Em Assis, não foi recebido pelos frades, que julgaram o seu aspecto
demasiado andrajoso, acusando-o de ser um embusteiro. Viveu, então, aninhado a
um canto dos muros do convento, dedicando-se à oração e à penitência. Durante
três anos, sofreu todo o tipo de perseguições, até à visita de frei Tiago
Bussolini de Mozanica, novo ministro-geral dos franciscanos, que o recebeu na
Ordem dos Frades Menores. A sua piedade e devoção configuraram-lhe a imagem de
um santo vivo. Apesar do
desprezo dos seus, rapidamente granjeou a admiração de muita gente, atraída,
segundo consta, pelos seus inúmeros milagres. Começaram, então, as
peregrinações aos muros do Convento para encontrar este santo. Isto, irritou
alguns dos frades, que conspiraram para se livrarem de tal empecilho. Sofreu,
então, ainda mais humilhações e dificuldades. Sob a influência de alguns frades
que viviam na corte, enviaram-no a Roma, ao Papa Calisto III, de modo a que
este o obrigasse a regressar a casa. Descobrindo que iria cair numa cilada,
frei Amadeu pediu a protecção do ministro provincial, então em Perugia, obtendo
cartas de recomendação para o ministro-geral. Em Brescia, este enviou-o para o
Convento de São Francisco da Porta Varcellina, em Milão, situado na actual
Praça de Santo Ambrósio. Acompanhou-o frei Jorge de Valcamonica que se tornou
seu confidente e que, posteriormente, testemunhou a sua santidade. Neste
convento, os seus milagres e prodígios foram abundantes e, entre os numerosos
devotos, contaram-se Francisco Sforza e a sua mulher, Branca Maria, duques de
Milão. Mais tarde, já no Convento de São Francisco de Oreno, desistiu da sua
vocação eremítica, começou a pregar às multidões e aceitou a ordenação
sacerdotal. A sua primeira missa foi celebrada na Festa da Anunciação, em 25 de
Março de 1459. Começou, assim, uma intensa actividade apostólica, recorrendo ao
Papa, escrevendo a príncipes, servindo de intermediário entre as grandes
famílias da época. Recordou, quando necessário, o dever que a uns e a outros
competia. Escreveu várias cartas, que ainda hoje se conservam. Com a ajuda da
duquesa de Milão, fundou o Convento de Santa Maria de Castigliori que, por
insistência de frei Amadeu - muito devoto de Nossa Senhora de Guadalupe - , passou
a chamar-se de Santa Maria de Guadalupe. Frei Amadeu fez deste
convento o centro da sua acção de reforma da Ordem de São Francisco. Fundou,
ainda, outros conventos: São Bernardino de Erbusto e São Francisco de Iseo, na
província de Brescia, em 1465; Santa Maria da Paz, em Milão, em 1466, também
conhecido por Convento de São Tiago e São Filipe Apóstolos; Santa Maria da
Fonte de Caravaggio, em 1467; Santa Maria das Graças de Quinzano, em 1468;
Santa Maria das Graças de Antignate, na província de Bérgamo, diocese de Cremona,
em 1468, e muitos outros.Por diligência do cardeal Francisco delle Rovere (futuro Papa Sisto IV), obteve do Papa Paulo II, a 22 de Abril de 1469, a graça de poder fundar, na Lombardia, três conventos com a invocação de Santa Maria, além do de Santa Maria das Graças de Quinzano. Assim, passou para a sua custódia o Convento de Santa Maria Anunciada de Borno, província e diocese de Brescia, pertencente aos terceiros franciscanos; o de Santa Maria das Graças de São Secondo, na província e diocese de Parma. Eleito Papa com o nome de Sisto IV, o cardeal delle Rovere - que o conhecera e que fora também ministro geral da Ordem de São Francisco - concedeu-lhe, a 24 de Março de 1472, entre outros privilégios, a faculdade de ele e os sucessores receberem na sua congregação frades conventuais ou quaisquer outros - sob a jurisdição do ministro-geral - que desejassem segui-lo… Surgiu, assim, uma nova corrente franciscana, apelidada de ‘amadeítas’, com grande autonomia em relação à Ordem, mas sob a vigilância do ministro-geral dos franciscanos. Frei Amadeu dizia-se apenas da Ordem de São Francisco.
O papa Sisto IV - que cumulou frei Amadeu de privilégios, motivado pela admiração que lhe tinha, nomeadamente quanto à congregação dos seus conventos - nomeou-o seu confessor e secretário particular. Para o ter mais perto de si, doou-lhe o Convento de São Pedro in Montório, junto do palácio apostólico, a 18 de Junho de 1472. Quando fazia uma visita aos seus frades, encontrando-se no Convento de Santa Maria da Paz, em Milão, ali morreu, no dia 10 de Agosto de 1482. O rei Luís XI de França, a quem chegara a fama do Beato Amadeu, contribuiu para as despesas do funeral e para um sepulcro de mármore rodeado por grades numa capela própria, onde eram colocadas muitas lamparinas e velas. Nessa capela, celebrava-se, todos os anos, a festa do Beato, a 10 de Agosto. A sepultura já não existe, pois foi destruída durante as Invasões Francesas, embora se saiba onde estava situada. A sua canonização chegou a ser tentada, segundo alguma documentação do final do século XVI. Entretanto, devido a muitas pressões e a muitos problemas surgidos na Ordem, a congregação dos amadeitas foi extinta por São Carlos Borromeu, cardeal de Milão e reconhecido protector dos amadeitas. Os trinta e nove conventos, então existentes, foram integrados na Ordem de São Francisco da Observância, em 1568, por bula do papa Pio V. Embora desconhecido em Portugal, o Beato Amadeu foi muito apreciado e venerado em toda a Itália e, durante mais de quatro séculos, o seu culto manteve-se ininterrupto, em torno da sua imagem aureolada, sobre a sua sepultura. Apesar do esmorecimento deste culto popular ao Beato Amadeu da Silva, a sua memória litúrgica faz-se, agora, no dia 1 de Novembro.
