- na Audiência
geral de 27 de Novembro, Praça de São Pedro - Roma
Entre nós, em geral existe um modo equivocado de
considerar a morte. A morte diz respeito a todos e interroga-nos de modo
profundo, especialmente quando nos toca de perto, ou quando atinge os
pequeninos, os indefesos, de uma maneira que nos parece «escandalosa». Impressionou-me
sempre a pergunta: por que as crianças sofrem, por que as crianças morrem? Se
for entendida como o fim de tudo, a morte assusta, aterroriza, transforma-se em
ameaça que infringe qualquer sonho, qualquer perspectiva, que interrompe
qualquer relacionamento e qualquer caminho. Isto acontece quando consideramos a
nossa vida como um tempo encerrado entre dois pólos: o nascimento e a morte;
quando não cremos num horizonte que vai além da vida presente; quando vivemos
como se Deus não existisse. Este conceito de morte é típico do pensamento ateu,
que interpreta a existência como um achar-se no mundo por acaso, um caminhar
rumo ao nada. Mas existe também um ateísmo prático, que é um viver só para os
próprios interesses, para as coisas terrenas. Se nos deixarmos arrebatar por
esta visão equivocada da morte, não teremos outra escolha, a não ser aquela de
ocultar a morte, de a negar e banalizar, para que não nos amedronte.
Mas a esta solução falsa revoltam-se o «coração» do
homem, o desejo que todos nós temos de infinito, a nostalgia que todos nós
temos do eterno. E então, qual é o sentido cristão da morte? Se
considerarmos os momentos mais dolorosos da nossa vida, quando perdemos uma
pessoa querida — os pais, um irmão, uma irmã, um cônjuge, um filho, um amigo —
compreenderemos que, até no drama da perda, também dilacerados pela separação,
brota do coração a convicção de que não pode ser que tudo acabou, que o bem
dado e recebido não foi inútil. Há um instinto poderoso dentro de nós, que nos
diz que a nossa vida não acaba com a morte.Esta sede de vida encontrou a sua resposta real e fiável na Ressurreição de Jesus Cristo. A Ressurreição de Jesus não confere apenas a certeza da vida além da morte, mas ilumina também o próprio mistério da morte de cada um de nós. Se vivermos unidos a Jesus, se formos fiéis a Ele, seremos capazes de enfrentar com esperança e serenidade também a passagem da morte. Com efeito, a Igreja reza: «Embora nos entristeça a certeza de ter que morrer, consola-nos a promessa da imortalidade futura». Trata-se de uma bonita oração da Igreja! Uma pessoa tende a morrer como viveu. Se a minha vida foi um caminho com o Senhor, um caminho de confiança na sua misericórdia incomensurável, estarei preparado para aceitar o momento derradeiro da minha existência terrena como o definitivo abandono confidente nas suas mãos acolhedoras, à espera de contemplar o seu rosto face a face. Esta é a coisa mais bonita que nos pode acontecer: contemplar face a face aquele rosto maravilhoso do Senhor, vê-lo como Ele é, belo, repleto de luz, cheio de amor e de ternura. Nós vamos até àquele ponto: ver o Senhor!
Neste horizonte compreende-se o convite de Jesus a estar sempre pronto e vigilante, consciente de que a vida neste mundo nos é concedida também para preparar a outra vida, com o Pai celestial. E para isto existe um caminho seguro: preparar-se bem para a morte, permanecendo próximo de Jesus. Esta é a segurança: preparo-me para a morte, permanecendo perto de Jesus. E como estou próximo de Jesus? Mediante a oração, os Sacramentos e também na prática da caridade. Recordemos que Ele está presente nos mais frágeis e necessitados. Ele mesmo se identificou com eles, na famosa parábola do juízo final, quando diz: «Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; estava nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes visitar-me... Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 35-36.40). Portanto, uma vida segura significa recuperar o sentido da caridade cristã e da partilha fraternal, cuidar das chagas corporais e espirituais do nosso próximo. A solidariedade no compadecimento pela dor e na transmissão da esperança constitui a premissa e condição para receber em herança aquele Reino preparado para nós. Quem pratica a misericórdia não teme a morte. Pensai bem nisto: quem põe em prática a misericórdia não tem receio da morte! Concordais? Digamo-lo juntos, para não o esquecer? Quem pratica a misericórdia não teme a morte! E por que não teme a morte? Porque a encara nas feridas dos irmãos, superando-a com o amor de Jesus Cristo.
Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu, na pátria bem-aventurada, para a qual nos encaminhamos, aspirando a permanecer para sempre com o nosso Pai, Deus, com Jesus, com Nossa Senhora e com os santos…”
