- na Audiência
geral de 4 de Dezembro, Praça de São Pedro - Roma
“…Hoje gostaria de iniciar a última série de
catequeses sobre nossa profissão de fé, reflectindo sobre a afirmação “Creio na
vida eterna”. De modo particular, concentro-me no juízo final. Mas não devemos
ter medo: ouçamos aquilo que diz a Palavra de Deus. A este propósito, lemos no
Evangelho de Mateus: então, Cristo “voltará na sua glória, com todos os seus
anjos…Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita
e os cabritos à sua esquerda…Estes irão para o castigo eterno, e os justos,
para a vida eterna” (Mt 25, 31-33. 46). Quando pensamos no retorno de Cristo e
no seu juízo final - que manifestará, até às últimas consequências, o bem que
cada um fez ou deixou de fazer, durante a sua vida terrena - percebemos que nos
encontramos diante de um mistério que paira sobre nós, que não conseguimos
sequer imaginar. Um mistério que, quase instintivamente, suscita em nós um
sentimento de temor e, talvez, também de preocupação. Se, porém, reflectimos
bem sobre esta realidade, ela só pode alargar o coração de um cristão e
constituir um grande motivo de consolação e de confiança.
A este propósito, o testemunho das primeiras comunidades cristãs
ressoa muito fascinante. Elas, de facto, acompanhavam, habitualmente, as
celebrações e as orações com a aclamação Maranathà, uma expressão
constituída por duas palavras aramaicas que - do modo como são construídas - podem
ser entendidas como uma súplica: “Vem, Senhor!”; ou, também, como uma certeza,
alimentada pela fé: “Sim, o Senhor vem; o Senhor está próximo”. É a exclamação
na qual culmina toda a Revelação cristã, no término da maravilhosa contemplação
que nos é oferecida no Apocalipse de João (cfr Ap 22, 20). Naquele caso, é a
Igreja-esposa que, em nome de toda a humanidade e enquanto sua primícia, se
dirige a Cristo, seu esposo, não vendo a hora de ser envolvida pelo seu abraço:
o abraço de Jesus, que é plenitude de vida e plenitude de amor. Assim nos
abraça Jesus. Se pensamos no julgamento com esta perspectiva, todo o medo e hesitação
é menor e abre caminho à espera e origina uma profunda alegria: será justamente
o momento no qual seremos julgados e, finalmente, prontos para sermos
revestidos da glória de Cristo - à maneira de uma veste nupcial - e sermos
conduzidos ao banquete, imagem da plena e definitiva comunhão com Deus.Um segundo motivo de confiança é-nos oferecido pela constatação de que, no momento do julgamento, não estaremos sozinhos. É o próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, a anunciar que, no fim dos tempos, aqueles que o tiverem seguido tomarão parte na sua glória, para julgar juntamente com Ele (cfr Mt 19, 28). O Apóstolo Paulo, depois, escrevendo à comunidade de Corinto, afirma: “Não sabeis que os santos julgarão o mundo? Quanto mais as pequenas questões desta vida!” (1 Cor 6,2-3). Como é belo saber que, naquele momento, com Cristo - nosso Paráclito, nosso Advogado junto ao Pai (cfr 1 Jo 2, 1) - poderemos contar com a intercessão e com a benevolência de tantos nossos irmãos e irmãs que nos precederam no caminho da fé, que ofereceram a sua vida por nós e que continuam a amar-nos de modo indescritível! Os santos já vivem na presença de Deus, no esplendor da sua glória, rezando por nós que ainda vivemos na terra. Quanta consolação suscita no nosso coração esta certeza! A Igreja é verdadeiramente uma mãe e, como uma mãe, procura o bem dos seus filhos, sobretudo aqueles mais distantes e aflitos, até encontrar a sua plenitude no corpo glorioso de Cristo, com todos os seus membros.
Uma outra sugestão é-nos oferecida pelo Evangelho de João, onde se afirma, explicitamente, que “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem Nele crê não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus” (Jo 3, 17-18). Isto significa, então, que aquele juízo final já está em vigor no curso da nossa existência. Tal juízo é pronunciado a cada instante da vida, como verificação do nosso acolhimento, com fé, da salvação presente e operante em Cristo, ou da nossa incredulidade, com o consequente fechamento em nós mesmos. Mas, se nós nos fechamos ao amor de Jesus, somos nós mesmos que nos condenamos. A salvação é abrir-se a Jesus, e Ele salva-nos; se somos pecadores – e o somos todos – peçamos-lhe perdão e se vamos a Ele com o desejo de ser bons, o Senhor perdoa-nos. Mas, para isso, devemos abrir-nos ao amor de Jesus, que é mais forte que todas as outras coisas. O amor de Jesus é grande, o amor de Jesus misericordioso, o amor de Jesus perdoa; mas devemos abrir-nos a Ele; e abrir-se significa arrepender-se, acusar-se das coisas que não são boas e que fizemos. O Senhor Jesus ofereceu-se e continua a oferecer-se a cada um de nós, para nos encher de toda a misericórdia e da graça do Pai. Somos nós também que podemos tornar-nos, em certo sentido, juízes de nós mesmos, condenando-nos à exclusão da comunhão com Deus e com os irmãos. Não nos cansemos, portanto, de vigiar os nossos pensamentos e as nossas atitudes, para experimentarmos, desde já, o calor e o esplendor da face de Deus – e isso será belíssimo – que na vida eterna contemplaremos em toda a sua plenitude. Sigamos em frente, pensando neste juízo que começa aqui, e já começou. Sigamos em frente, fazendo com que o nosso coração se abra a Jesus e à sua salvação; em frente sem medo, porque o amor de Jesus é maior e se nós pedimos perdão dos nossos pecados Ele nos perdoa. Jesus é assim. Em frente, então, com esta certeza que nos levará à glória do céu…”
