PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… O Senhor ressuscitou, verdadeiramente!…” (cf. Antífona do Domingo de Páscoa) Hoje ecoa em todo o mundo o anúncio da Igreja: «Jesus Cristo ressuscitou»; «ressuscitou verdadeiramente»! Como uma nova chama, se acendeu esta Boa Nova na noite: a noite dum mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia, que coloca à dura prova a nossa grande família humana. Nesta noite, ressoou a voz da Igreja: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» (Sequência da Páscoa). É um «contágio» diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus. O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa. Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada. Hoje penso sobretudo em quantos foram atingidos diretamente pelo coronavírus: os doentes, os que morreram e os familiares que choram a partida dos seus queridos e por vezes sem conseguir sequer dizer-lhes o último adeus. O Senhor da vida acolha junto de Si no seu Reino os falecidos e dê conforto e esperança a quem ainda está na prova, especialmente aos idosos e às pessoas sem ninguém. Não deixe faltar a sua consolação e os auxílios necessários a quem se encontra em condições de particular vulnerabilidade, como aqueles que trabalham nas casas de cura ou vivem nos quartéis e nas prisões. Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos. Esta epidemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de recorrer pessoalmente à consolação que brota dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Em muitos países, não foi possível aceder a eles, mas o Senhor não nos deixou sozinhos! Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que Ele colocou sobre nós a sua mão (cf. Sal 139/138, 5), repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! «Ressuscitei e estou contigo para sempre» (cf. Missal Romano). Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão. Nestas semanas, alterou-se improvisamente a vida de milhões de pessoas. Para muitos, ficar em casa foi uma ocasião para refletir, parar os ritmos frenéticos da vida, permanecer com os próprios familiares e desfrutar da sua companhia. Mas, para muitos outros, é também um momento de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo emprego que se corre o risco de perder e pelas outras consequências que acarreta a atual crise. Encorajo todas as pessoas que detêm responsabilidades políticas a trabalhar ativamente em prol do bem comum dos cidadãos, fornecendo os meios e instrumentos necessários para permitir a todos que levem uma vida digna e favorecer – logo que as circunstâncias o permitam – a retoma das atividades diárias habituais. Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia. Jesus ressuscitado dê esperança a todos os pobres, a quantos vivem nas periferias, aos refugiados e aos sem abrigo. Não sejam deixados sozinhos estes irmãos e irmãs mais frágeis, que povoam as cidades e as periferias de todas as partes do mundo. Não lhes deixemos faltar os bens de primeira necessidade, mais difíceis de encontrar agora que muitas atividades estão encerradas, bem como os medicamentos e sobretudo a possibilidade duma assistência sanitária adequada. Em consideração das presentes circunstâncias, sejam abrandadas também as sanções internacionais que impedem os países visados de proporcionar apoio adequado aos seus cidadãos e seja permitido a todos os Estados acudir às maiores necessidades do momento atual, reduzindo – se não mesmo perdoando – a dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres. Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas. Dentre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de modo especial na Europa. Depois da II Guerra Mundial, este Continente pôde ressurgir graças a um espírito concreto de solidariedade, que lhe permitiu superar as rivalidades do passado. É muito urgente, sobretudo nas circunstâncias presentes, que tais rivalidades não retomem vigor; antes, pelo contrário, todos se reconheçam como parte duma única família e se apoiem mutuamente. Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações. Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas. Ao contrário, seja o tempo em que finalmente se ponha termo à longa guerra que ensanguentou a amada Síria, ao conflito no Iémen e às tensões no Iraque, bem como no Líbano. Seja este o tempo em que israelitas e palestinianos retomem o diálogo para encontrar uma solução estável e duradoura que permita a ambos os povos viverem em paz. Cessem os sofrimentos da população que vive nas regiões orientais da Ucrânia. Ponha-se termo aos ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em vários países da África. Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Que o Senhor da vida Se mostre próximo das populações da Ásia e da África que estão a atravessar graves crises humanitárias, como na Região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Acalente o coração das inúmeras pessoas refugiadas e deslocadas por causa de guerras, seca e carestia. Proteja os inúmeros migrantes e refugiados, muitos deles crianças, que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. E não quero esquecer a ilha de Lesbos. Faça com que na Venezuela se chegue a soluções concretas e imediatas, destinadas a permitir a ajuda internacional à população que sofre por causa da grave conjuntura política, socioeconómica e sanitária. Queridos irmãos e irmãs, Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso. Com estas reflexões, gostaria de vos desejar a todos uma Páscoa feliz. (Mensagem do Papa Francisco na Bênção Urbi et Orbe, no Domingo de Páscoa de 2020).

sábado, 7 de dezembro de 2013

FESTA DA IMACULADA CONCEIÇÃO





No dia 8 de Dezembro, a Igreja, em todo o mundo, celebra-se a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Nesta celebração, recordamos uma grande verdade da nossa fé: antecipando a redenção operada por Jesus, na sua morte e ressurreição, Nossa Senhora - escolhida por Deus para ser a Mãe do Redentor - foi concebida sem a mancha do pecado original. Este privilégio da Imaculada Conceição era celebrado, no Oriente, já no séc. VIII; na Europa do norte era venerado já no séc. XI; o Concílio de Basileia, em 1439, já o indicava como uma verdade de fé.
Em 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição, escrevendo: “Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual - por uma graça e um especial privilégio de Deus Todo Poderoso, e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano - a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original no primeiro instante de sua conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser crida firmemente e constantemente por todos os fiéis”. No dia 8 de Dezembro de 2007, o Papa Bento XVI, depois da recitação do Angelus, comentou que nesta festa solene se recorda que "o mistério da graça de Deus envolveu, desde o primeiro instante da sua existência, a criatura destinada a converter-se na Mãe do Redentor, preservando-a do contágio do pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projecto de Deus para cada ser humano: chegar a ser santos e imaculados no amor, à imagem do nosso Criador”.

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO





- na Audiência geral de 4 de Dezembro, Praça de São Pedro - Roma

“…Hoje volto a falar ainda sobre a afirmação «Creio na ressurreição da carne». Trata-se de uma verdade que não é simples nem óbvia porque, vivendo imersos neste mundo, não é fácil compreender as realidades vindouras. Mas o Evangelho ilumina-nos: a nossa ressurreição está intimamente ligada à ressurreição de Jesus; Ele ressuscitou, e esta é a prova de que a ressurreição dos mortos existe. Então, gostaria de apresentar alguns aspectos que se referem à relação entre a ressurreição de Cristo e a nossa. Ele ressuscitou, e dado que Ele ressuscitou, também nós ressuscitaremos.
Antes de tudo, a própria Sagrada Escritura contém um caminho rumo à plena fé na ressurreição dos mortos. Ela manifesta-se como fé em Deus, Criador do homem todo — alma e corpo — e como fé em Deus Libertador, o Deus fiel à aliança com o seu povo. Numa visão, o profeta Ezequiel contempla os sepulcros dos deportados que são reabertos e os ossos áridos que voltam a viver graças ao sopro de um espírito vivificador. Esta visão manifesta a esperança na futura «ressurreição de Israel», ou seja, no renascimento do povo derrotado e humilhado (cf. Ez 37, 1-14).
No Novo Testamento, Jesus completa esta revelação e vincula a fé na ressurreição à sua própria Pessoa e diz: «Eu sou a ressurreição e a vida» (Jo 11, 25). Com efeito, será o Senhor Jesus que ressuscitará no último dia aqueles que tiverem acreditado nele. Jesus veio entre nós e fez-se homem, como nós em tudo, excepto no pecado; deste modo, levou-nos consigo no seu caminho de volta para o Pai. Ele, o Verbo encarnado, morto por nós e ressuscitado, concede aos seus discípulos o Espírito Santo como penhor da plena comunhão no seu Reino glorioso, que esperamos vigilantes. Esta expectativa é a fonte e a razão da nossa esperança: uma esperança que, se for cultivada e conservada — a nossa esperança, se nós a cultivarmos e conservarmos — tornar-se-á luz para iluminar a nossa história pessoal e também a história comunitária. Recordemo-lo sempre: somos discípulos daquele que veio, que vem cada dia e que há-de vir no fim. Se conseguíssemos estar mais conscientes desta realidade, ficaríamos menos cansados na vida diária, menos prisioneiros do efémero e mais dispostos a caminhar com o coração misericordioso pela senda da salvação.
Outro aspecto: o que significa ressuscitar? A ressurreição de todos nós acontecerá no último dia, no fim do mundo, por obra da omnipotência de Deus, que restituirá a vida ao nosso corpo, reunindo-o à alma, em virtude da ressurreição de Jesus. Esta é a explicação fundamental: dado que Jesus ressuscitou, também nós ressuscitaremos; temos a esperança na ressurreição, porque Ele nos abriu a porta para esta ressurreição. E esta transformação, esta transfiguração do nosso corpo é preparada nesta vida pela relação com Jesus, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Nós, que nesta vida somos alimentados pelo Corpo e Sangue, ressuscitaremos como Ele, com Ele e por meio dele. Assim como Jesus ressuscitou com o seu próprio Corpo, mas não voltou a uma vida terrena, também nós ressuscitaremos com os nossos corpos, que serão transfigurados em corpos gloriosos. Não se trata de uma mentira! Isto é verdade. Acreditamos que Jesus ressuscitou, que Jesus está vivo neste momento. Mas vós credes que Jesus está vivo? E se Jesus está vivo, pensais que nos deixará morrer e não nos ressuscitará? Não! Ele espera por nós, e dado que ressuscitou, a força da sua ressurreição ressuscitará todos nós.
Um último elemento: já nesta vida temos em nós uma participação na ressurreição de Cristo. Se é verdade que Jesus nos ressuscitará no fim dos tempos, também é verdade que, sob um certo aspecto, com Ele já ressuscitamos. A vida eterna começa já neste momento, durante a vida inteira, orientada para aquele instante da ressurreição derradeira. Com efeito, já ressuscitamos mediante o Baptismo, estamos inseridos na morte e ressurreição de Cristo e participamos na vida nova, que é a sua vida. Portanto, à espera do último dia, temos em nós mesmos uma semente de ressurreição como antecipação da ressurreição completa que receberemos em herança. Por isso, também o corpo de cada um de nós é ressonância de eternidade, e por conseguinte deve ser sempre respeitado; e sobretudo, é necessário respeitar e amar a vida de quantos sofrem, para que sintam a proximidade do Reino de Deus, daquela condição de vida eterna para a qual nós caminhamos. Este pensamento infunde-nos esperança: estamos a caminho rumo à ressurreição. Ver Jesus, encontrar Jesus: nisto consiste a nossa alegria! Estaremos todos juntos — não aqui na praça, mas num outro lugar — jubilosos com Jesus. Este é o nosso destino!..”

PARA REZAR


SALMO 98

 

R/. Cantai ao Senhor um cântico novo: o Senhor fez maravilhas.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

SANTOS POPULARES


SÃO JOÃO DIEGO CUAUHTITLANTOADZIN
E A SENHORA DE GUADALUPE

Cuauhtitlantoadzin nasceu em 1474, em Cuauhtitlan, no México.  Foi baptizado em 1524, com 50 anos de idade, mudando o seu nome para Juan , segundo o hábito dos missionários que davam o nome de João a todos os baptizados. Acrescentaram-lhe um outro - Diego -, conservando também o seu nome indígena. O seu baptismo foi fruto de uma convicção profunda, mudando o seu pensamento, o seu ser e o seu modo de vida. Também se baptizaram alguns dos seus parentes, entre os quais um tio, a quem foi dado o nome de João Bernardino, e a sua esposa, que  recebeu o nome de Maria Lúcia. O missionário responsável pela evangelização e catequização desta tribo foi o franciscano Frei Toríbio de Benavente. Juan Diego tornou-se um cristão fervoroso e fazia um percurso de vinte quilómetros, de ida e volta, para participar na Santa Missa, em Tlatelolco. Aproveitava estas celebrações para aumentar a sua instrução religiosa e, ao mesmo tempo, venerar a Virgem Mãe de Jesus. Isto revela a profundidade da sua fé e Juan Diego começou a ser conhecido como um homem piedoso, de intensa espiritualidade, amigo da oração e concentrado na meditação dos mistérios religiosos. Tido como peregrino e, ao mesmo tempo, solitário, a sua fé era vivida com fervor até ao sacrifício. Pobre e humilde, fugindo às honras, nada amigo da confusão, demonstrou sempre uma atitude positiva perante os novos valores cristãos, onde a pureza de vida ganhou uma forma original, pois casou com Maria Lúcia, uma outra cristã, de quem ficou viúvo pouco depois. Constava que viviam como irmãos, fruto da sua livre escolha.
Nesta ocasião, vivia em Tulpetlac, perto do seu tio, com quem permaneceu após a morte da sua esposa, ajudando-o nos trabalhos do campo. A 9 de Dezembro de 1531, Juan Diego dirigia-se como de costume para a celebração eucarística quando, em Tepeyac, ouviu uma voz que o chamava como se há muito o conhecesse e o esperasse, convidando-o para lhe falar e confiar uma missão. Ouviu:  “Juanito, Juan Dieguito!”. Olha o céu azul e vê uma Senhora que o convida a aproximar-se e entre eles estabelece-se um pequeno diálogo.
“Juanito, o mais pequeno dos meus filhos, onde vais?”.
“Senhora, minha pequena, vou a tua casa, na cidade, para participar nas coisas divinas e aprender os ensinamentos que nos dão os nossos sacerdotes, delegados do Nosso Senhor”.
“Quero que tu - o mais pequeno dos meus filhos - saibas que eu sou a sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus, Aquele que cria todas as coisas, dá a vida e é Senhor do céu e da terra. Eu sou também a vossa Mãe, cheia de misericórdia e, por isso, desejo vivamente que aqui me seja construído um templo, para que nele possa mostrar o meu amor, a minha compaixão, dar-te ajuda e defesa a ti, aos habitantes deste lugar, a todos os meus devotos que me invocam e têm confiança em mim. Neste lugar, quero ouvir os seus lamentos, vir ao encontro de todas as suas misérias, sofrimentos e dores. Agora, para realizar quanto deseja a minha benignidade, deves ir à casa do prelado do México para lhe dizer que sou Eu que te envio. Manifestar-lhe-ás o meu desejo de ter aqui um templo. Presta atenção para lhe dizer tudo quanto viste e ouviste. Prometo-te a minha protecção, far-te-ei feliz e dar-te-ei uma grande recompensa por este dever difícil que te confio. Agora que conheces a minha vontade, meu filho tão pequenino, vai e põe nisto toda a tua diligência”. Ele inclinou-se diante da Senhora e disse-lhe:  “Minha Senhora, vou fazer já o que me mandas. Eu sou o teu humilde servo. Vou-me embora”.
Juan Diego chega à casa do bispo, a quem expõe as palavras da Senhora, mas ele, desconfiando da ingenuidade destas palavras, pede um sinal daquilo que aconteceu. Volta ao lugar da visão e expõe à Senhora o seu conflito interior:  “Senhora, minha pequena, a mais pequena das minhas filhas, fui cumprir as tuas ordens e cheguei com algumas dificuldades a falar com o homem indicado, expondo-lhe a tua vontade como me tinhas ordenado. Não o posso negar:  fui recebido dignamente e ouvido com atenção, mas pelas palavras de resposta, tive a impressão de não ter sido acreditado. Ele recomendou-me que voltasse, para indagar sobre as intenções da minha visita. Compreendi, porém, claramente, que ele considera a proposta da construção de uma igreja mais como uma minha invenção do que como uma ordem tua. E agora eu peço-te, minha Senhora e minha pequena, para que ele nos acredite, que Tu dês esta missão a outra pessoa, a alguém que seja uma personalidade conhecida, respeitada e bem vista. Eu sou um pobre homem, um ser que nada vale, alguém insignificante, uma simples folha, e Tu, Senhora, minha pequena, a mais pequena das minhas filhas, mandas-me a um lugar aonde eu não tenho o costume de ir e muito menos de permanecer. Senhora, minha patroa, assim, sou um peso e nada poderei fazer”. Sempre sorridente e amável, a Senhora respondeu-lhe: “Escuta meu filho, o mais pequeno de todos, e sabe que muitos são os meus devotos e servidores, a quem eu poderia confiar o encargo de levar a minha mensagem para realizar o desígnio que tenho em mente. Mas a minha escolha já foi feita. Eu quero que sejas tu mesmo a colaborar comigo, para atingir a minha finalidade. Então, meu filho, o mais pequeno de todos, eu recomendo-te e até te ordeno categoricamente que tu, já amanhã, voltes a ver o prelado. Fala-lhe em meu nome e diz-lhe com franqueza que é minha vontade que o templo se construa. Repete-lhe, ainda, que sou Eu mesma a mandar-te, a sempre Virgem Maria, Mãe de Deus”.
Juan Diego volta à casa do prelado, Frei João de Zumárraga, que lhe pede um sinal. Fez-lhe várias perguntas, a que ele respondeu com exactidão, não deixando dúvidas de que era verdadeiramente a Santíssima Virgem que lhe tinha falado. Juan Diego não perdeu a coragem e perguntou-lhe: “Senhor, se me dás a saber que sinal queres, eu corro já a pedi-lo à Senhora do Céu que me enviou aqui”. Logo que ele saiu, Frei João de Zumárraga mandou que alguns dos seus criados o seguissem, vissem por onde andava e com quem se encontrava para falar mas, a uma certa altura, Juan Diego desapareceu e eles não o puderam encontrar. É então que acontecerá o dia dos “sinais”.
Chegando à casa do tio, encontrou-o muito doente, deitado na sua rede, em estado febril e com a pele cheia de manchas vermelhas e toda banhada de sangue. Era a peste. Foi à procura de um médico. Encontrou-o no dia seguinte mas, quando lhe explicou como estava o tio, ouviu uma palavra “Cocolitzi”, a terrível peste dessa época. Humanamente, era incurável, dado o estado em que o enfermo se encontrava. João Bernardino piorava a olhos vistos e, como bom cristão, pediu ao sobrinho que fosse a Tlatelolco  procurar um sacerdote, a fim de que o confessasse e com ele rezasse. Juan Diego partiu dividido entre dois deveres:  encontrar-se com a Senhora ou chamar o sacerdote. Os dois compromissos estavam em colisão nesse momento. Que fazer? Qual deles escolher? E pensava:  “Se vou encontrar a Senhora - para receber o sinal prometido - sem dúvida será preciso algum tempo, enquanto o meu tio permanece à espera, e não pode aguardar muito tempo. Penso que o meu principal dever, agora, é chamar o sacerdote”. Mas olha para a montanha, pensando no tio e na Senhora. Eis que Ela vem ao seu encontro e diz: “O que é, meu filho tão pequeno, onde vais?”. “Senhora, minha filha, a mais pequena das minhas filhas, vejo que te levantaste muito cedo e desejo que estejas bem. Como desejaria que estivesses contente! Mas devo dar-te uma má notícia:  o meu tio, teu servo, está muito mal, ferido pela peste e já em agonia. Devo ir a toda a pressa à tua casa da cidade, para chamar um dos sacerdotes amados pelo nosso Senhor, para que vá consolá-lo e ajudá-lo a morrer bem. Cada um de nós, desde que nasce, é destinado à morte. Agora, minha Senhora e minha pequena, devo ir primeiro cumprir esta obrigação. Depois, voltarei aqui para receber a tua mensagem. Perdoa-me, tem paciência comigo! Eu não te engano, minha Filha pequenina.  Logo  que  for  possível, voltarei, amanhã”.
A Senhora fixava nele o seu olhar com particular intensidade. Juan Diego estava ajoelhado, de rosto voltado para Ela, com o seu manto branco envolvendo o seu ombro direito, com as mãos juntas, em atitude de súplica. A Senhora disse-lhe amavelmente: “Escuta, meu filho, o mais pequenino dos meus filhos e procura compreender bem. O teu coração está perturbado mas, não te aflijas por uma coisa de nada. Nenhum deste género de males deve ser para ti um motivo de preocupação. Estou aqui, sou a tua Mãe. Estás sob a sombra da minha protecção. Eu sou a tua salvação. Tu estás no meu coração. De que tens, ainda, necessidade? Não sofras mais por isto. Quanto ao teu tio, sabe uma coisa:  ele não morrerá desta doença. Assim, não há nenhuma necessidade de médico, já está curado”. Ao ouvir estas palavras, Juan Diego sentiu o seu coração cheio de felicidade. Não duvidou de modo algum, sentindo-se como uma criança, abandonada nos braços da sua mãe. Nem sequer lhe pediu para ir ver o seu tio. Ficou à sua completa disposição. A Senhora mandou que fosse à montanha, onde se tinham dado as primeiras três aparições, e disse-lhe:  “No píncaro da colina, encontrarás a surpresa de flores desabrochadas. Só tens de colhê-las e de trazer-mas aqui. Vai, espero por ti!”.
Juan Diego enfrentou a subida como se tivesse asas nos pés, dominado como estava pela alegria e por uma luz que invadia o seu coração e tinha dissipado todas as nuvens de tristeza. Ficou arrebatado com o espectáculo maravilhoso que se apresentava diante dele. Conhecia bem o lugar de rochas áridas, onde só cresciam cactos, espinhos, figos da Índia e moitas; talvez pudessem nascer ali alguns tipos de ervas daninhas, na Primavera ou no Verão, mas não agora, quando o frio queimava todo o germe de vida. Era o dia 12 de Dezembro. Ele olhou e viu o espectáculo de muitas flores desabrochadas e intenso perfume. Conhecia o índio aquelas rosas, rainha das flores, como naturais das culturas mexicanas? Eram as rosas - hoje conhecidas como a “beleza espanhola” e a que os mexicanos chamavam “rosa de Castela” - chegadas, havia pouco, de além-mar. Juan Diego colheu as rosas, pô-las no seu manto e decidiu caminhar para a casa do Bispo, levando consigo o “sinal” pedido. Levava ainda uma recomendação:  “Não mostres a ninguém o que tens no manto!” À chegada ao palácio episcopal, o mordomo e outro criados, a quem expôs o pedido para falar com o Bispo, receberam-no como se não o tivessem ouvido, para ele desanimar e ir-se embora. Ele ali ficou à espera de ser recebido, sempre com o seu manto dobrado, para que ninguém visse o que trazia. Mas o perfume das flores acabou por complicar a situação. Todos queriam saber de onde vinha e, quando reconheceram as rosas de Castela, todos deitaram a mão ao manto para obter pelo menos uma flor. Momento difícil para Juan Diego que tinha de defender o seu tesouro. Finalmente, foi recebido pelo bispo, a quem disse: “Senhor, exprimiste o desejo de receber um sinal para poderes acreditar em mim e dares início à construção do templo. Levei o pedido à minha Senhora, Santa Maria, Mãe de Deus, que não teve dificuldade em acolhê-lo. Hoje de manhã, mandou-me subir ao cimo da colina, onde a tinha visto noutras vezes, com o encargo de colher ramos de flores. Mesmo sabendo que aquilo não era um jardim, mas um lugar cheio de espinhos, fui da mesma forma. E encontrei como que um jardim do paraíso, muitas flores cintilantes, molhadas pelo orvalho. Ela recomendou-me que voltasse aqui, para as trazer só a ti, como o sinal que pediste, para que te convenças de que vim por sua ordem e decidas fazer a sua vontade. As flores estão aqui comigo: ei-las!”. Naquele instante, todos abriram a boca de espanto e o Bispo ajoelhou-se, juntou as mãos diante do índio que, por sua vez, se tinha levantado. Parecia que se invertiam as posições. Para surpresa de todos, o “sinal” das flores colhidas fora da estação era ultrapassado por um prodígio impensável. No manto simples (“tilma”) de Juan Diego aparecia impressa, em todo o seu comprimento, a imagem da Virgem Santa com o seu rosto de mansidão, mãos juntas, com a túnica cor de rosa até aos pés, o manto azul e dois grandes olhos brilhantes que pareciam vivos. A exemplo do Bispo, todos se ajoelharam, perturbados e, ao mesmo tempo, cheios de alegria, com o sentido de viva devoção, acompanhados pelas lágrimas de muitos. Foi o próprio prelado a interromper o silêncio, para pedir perdão a Maria por ter sido tão hesitante em acolher o sinal da sua vontade. Depois, levantou-se e, desatando o nó do manto, no ombro de Juan Diego, tirou-lhe a túnica - onde até hoje está impressa a imagem sagrada - para a colocar num lugar de honra, no seu oratório particular.
A partir de então, Juan Diego teve de aceitar o convite para permanecer no palácio episcopal como hóspede de honra. Em pouco tempo, começaram as obras de construção de uma pequena ermida, que foi sendo sempre renovada até chegar à actual Basílica, inaugurada em 1976. Na inauguração da ermida primitiva, participaram muitos fiéis. Esteve, também, Hernán Cortés, então governador espanhol, que tinha sido curado de uma mordedura de escorpião, por intercessão de Maria. O entusiasmo arrastou idosos e jovens que participaram, com alegria, na celebração.
Juan Diego morreu no dia 3 de Junho de 1548, com 74 anos de idade. Considerava-se como propriedade da Virgem Maria, com Ela percorrendo os caminhos da santidade. Em 1566, esse lugar começou a chamar-se Guadalupe, da raiz etimológica indígena Cuatlaxupeh. Hoje, a devoção à Senhora corre o mundo; por toda a parte é conhecida como a Senhora de Guadalupe, Padroeira do México e do Continente americano. A sua imagem esteve presente na batalha de Lepanto. Maria começou, então, a ser invocada como Rainha da Vitória e Auxílio dos Cristãos, assumindo um significado de esperança e de promessa. João Paulo II chamou-lhe “Mãe da América”, na oração final da Exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in America”.
Juan Diego foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 6 de Maio de 1990, no México; e ali foi canonizado pelo mesmo Pontífice, João Paulo II, em 31 de Julho de 2002.
A memória litúrgica de São João Diego Cuauhtitlantoadzin faz-se no dia 9 de Dezembro.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

1ª SEMANA DO ADVENTO



Esta semana demos inicio a um novo Ano Litúrgico com o advento.
E como é costume na nossa paróquia a catequese dinamiza este tempo.
A dinâmica deste ano apresenta-nos um relógio do tempo.
Este alerta-nos que chegou a hora e, é já, que somos convidados a preparar a vinda do Senhor.
Nesta 1º semana pedimos a Jesus, que venha DESPERTAR-NOS.
Volte o nosso coração para o Pai e para os irmãos.
Que os nossos dias sejam dádiva a todos os que estendem a mão
à espera dum sorriso, duma amizade, dum gesto de compaixão.
Que nos desperte para a PAZ que acontece no encontro com Ele e no amor aos irmãos.
 
 
 

 

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

TEMPO DO ADVENTO



- palavras de Bento XVI, em 2 de Dezembro de 2012

…Hoje a Igreja inicia um novo Ano litúrgico: o Tempo do Advento, formado, no Rito Romano, pelas quatro semanas que precedem o Natal do Senhor, ou seja, o mistério da Encarnação. A palavra «advento» significa «presença». No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província; na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo; um mistério que envolve totalmente o cosmos e a história, mas que conhece dois momentos culminantes: a primeira e a segunda vinda gloriosa no fim dos tempos. Estes dois momentos, que cronologicamente são distantes - e não nos é dado saber quanto - tocam-se em profundidade, porque com a sua morte e ressurreição Jesus já realizou aquela transformação do homem e do cosmos que é a meta final da criação. Mas antes do final, é necessário que o Evangelho seja proclamado a todas as nações, diz Jesus no Evangelho de Marcos (cf. 13, 10). A vinda do Senhor continua; o mundo deve ser imbuído da sua presença. E esta vinda permanente do Senhor – como anuncia o Evangelho - exige continuamente a nossa colaboração; e a Igreja - que é como a Noiva, a Esposa prometida ao Cordeiro de Deus crucificado e ressuscitado (cf. Ap 21, 9), em comunhão com o seu Senhor - colabora nesta vinda do Senhor, na qual já começa a sua vinda gloriosa…A Virgem Maria encarna perfeitamente o espírito do Advento, feito de escuta de Deus, de desejo profundo de fazer a sua vontade, de serviço jubiloso ao próximo. Deixemo-nos guiar por ela, para que o Deus, que vem, não nos encontre fechados ou distraídos, mas possa, em cada um de nós, expandir um pouco o seu reino de amor, de justiça e de paz.”

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO





- na Audiência geral de 27 de Novembro, Praça de São Pedro - Roma

 
“…Desejo completar as catequeses sobre o «Credo», realizadas durante o Ano da Fé, que terminou no domingo passado. Nesta catequese e na próxima, gostaria de considerar o tema da ressurreição da carne, salientando dois dos seus aspectos, como os apresenta o Catecismo da Igreja Católica, ou seja, o nosso morrer e o nosso ressuscitar em Jesus Cristo. Hoje medito sobre o primeiro aspecto, «morrer em Cristo».

Entre nós, em geral existe um modo equivocado de considerar a morte. A morte diz respeito a todos e interroga-nos de modo profundo, especialmente quando nos toca de perto, ou quando atinge os pequeninos, os indefesos, de uma maneira que nos parece «escandalosa». Impressionou-me sempre a pergunta: por que as crianças sofrem, por que as crianças morrem? Se for entendida como o fim de tudo, a morte assusta, aterroriza, transforma-se em ameaça que infringe qualquer sonho, qualquer perspectiva, que interrompe qualquer relacionamento e qualquer caminho. Isto acontece quando consideramos a nossa vida como um tempo encerrado entre dois pólos: o nascimento e a morte; quando não cremos num horizonte que vai além da vida presente; quando vivemos como se Deus não existisse. Este conceito de morte é típico do pensamento ateu, que interpreta a existência como um achar-se no mundo por acaso, um caminhar rumo ao nada. Mas existe também um ateísmo prático, que é um viver só para os próprios interesses, para as coisas terrenas. Se nos deixarmos arrebatar por esta visão equivocada da morte, não teremos outra escolha, a não ser aquela de ocultar a morte, de a negar e banalizar, para que não nos amedronte.
Mas a esta solução falsa revoltam-se o «coração» do homem, o desejo que todos nós temos de infinito, a nostalgia que todos nós temos do eterno. E então, qual é o sentido cristão da morte? Se considerarmos os momentos mais dolorosos da nossa vida, quando perdemos uma pessoa querida — os pais, um irmão, uma irmã, um cônjuge, um filho, um amigo — compreenderemos que, até no drama da perda, também dilacerados pela separação, brota do coração a convicção de que não pode ser que tudo acabou, que o bem dado e recebido não foi inútil. Há um instinto poderoso dentro de nós, que nos diz que a nossa vida não acaba com a morte.
Esta sede de vida encontrou a sua resposta real e fiável na Ressurreição de Jesus Cristo. A Ressurreição de Jesus não confere apenas a certeza da vida além da morte, mas ilumina também o próprio mistério da morte de cada um de nós. Se vivermos unidos a Jesus, se formos fiéis a Ele, seremos capazes de enfrentar com esperança e serenidade também a passagem da morte. Com efeito, a Igreja reza: «Embora nos entristeça a certeza de ter que morrer, consola-nos a promessa da imortalidade futura». Trata-se de uma bonita oração da Igreja! Uma pessoa tende a morrer como viveu. Se a minha vida foi um caminho com o Senhor, um caminho de confiança na sua misericórdia incomensurável, estarei preparado para aceitar o momento derradeiro da minha existência terrena como o definitivo abandono confidente nas suas mãos acolhedoras, à espera de contemplar o seu rosto face a face. Esta é a coisa mais bonita que nos pode acontecer: contemplar face a face aquele rosto maravilhoso do Senhor, vê-lo como Ele é, belo, repleto de luz, cheio de amor e de ternura. Nós vamos até àquele ponto: ver o Senhor!
Neste horizonte compreende-se o convite de Jesus a estar sempre pronto e vigilante, consciente de que a vida neste mundo nos é concedida também para preparar a outra vida, com o Pai celestial. E para isto existe um caminho seguro: preparar-se bem para a morte, permanecendo próximo de Jesus. Esta é a segurança: preparo-me para a morte, permanecendo perto de Jesus. E como estou próximo de Jesus? Mediante a oração, os Sacramentos e também na prática da caridade. Recordemos que Ele está presente nos mais frágeis e necessitados. Ele mesmo se identificou com eles, na famosa parábola do juízo final, quando diz: «Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; estava nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes visitar-me... Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (Mt 25, 35-36.40). Portanto, uma vida segura significa recuperar o sentido da caridade cristã e da partilha fraternal, cuidar das chagas corporais e espirituais do nosso próximo. A solidariedade no compadecimento pela dor e na transmissão da esperança constitui a premissa e condição para receber em herança aquele Reino preparado para nós. Quem pratica a misericórdia não teme a morte. Pensai bem nisto: quem põe em prática a misericórdia não tem receio da morte! Concordais? Digamo-lo juntos, para não o esquecer? Quem pratica a misericórdia não teme a morte! E por que não teme a morte? Porque a encara nas feridas dos irmãos, superando-a com o amor de Jesus Cristo.
Se abrirmos a porta da nossa vida e do nosso coração aos irmãos mais pequeninos, então também a nossa morte se tornará uma porta que nos introduzirá no céu, na pátria bem-aventurada, para a qual nos encaminhamos, aspirando a permanecer para sempre com o nosso Pai, Deus, com Jesus, com Nossa Senhora e com os santos…”

PARA REZAR



SALMO 122


R/. Vamos com alegria para a casa do Senhor.

 
Alegrei-me quando me disseram:

«Vamos para a casa do Senhor».

Detiveram-se os nossos passos

            às tuas portas, Jerusalém.

 
 
Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor,

segundo o costume de Israel,

para celebrar o nome do Senhor;

ali estão os tribunais da justiça,

os tribunais da casa de David.

 
 
Pedi a paz para Jerusalém:

«Vivam seguros quantos te amam.

Haja paz dentro dos teus muros,

tranquilidade em teus palácios».


 
Por amor de meus irmãos e amigos,

pedirei a paz para ti.

Por amor da casa do Senhor,

pedirei para ti todos os bens.

 

SANTOS POPULARES


SÃO JOÃO DAMASCENO

João Mansur nasceu no seio de uma família cristã por volta do ano 675, em Damasco, na Síria. Veio daí seu apelido "Damasceno" ou "de Damasco". Nessa época a cidade já estava dominada pelos árabes muçulmanos, que acabavam de conquistar, também, a Palestina. No início da ocupação, ainda foi permitido, aos cristãos, alguma liberdade de culto e de organização, sendo possível o convívio entre as duas religiões. A família dos Mansur ocupou altos cargos no governo da cidade, sob a administração do califa muçulmano. O pai de João foi responsável económico do califado. Ainda jovem, João terá assumido o cargo que era desempenhado pelo seu pai.
Deste modo, João - culto e brilhante - tornou-se amigo do califa, que o nomeou seu conselheiro, com o título de grão-vizir de Damasco. Insatisfeito com a vida na Corte, sendo um cristão recto e querendo ser fiel à verdadeira doutrina, retirou-se para a Palestina, onde amadureceu o seu desejo de se fazer monge. Foi ordenado sacerdote e entrou a fazer parte da comunidade religiosa do Mosteiro de São Sabas, perto de Jerusalém. Desde então, viveu na penitência, na solidão, no estudo das Sagradas Escrituras, dedicado à actividade literária e à pregação. Saía do Mosteiro apenas para pregar na Igreja do Santo Sepulcro. As suas homilias eram, depois, escritas e distribuídas pelas diversas dioceses. Tornou-se muito querido e respeitado pelo clero e pelo povo. A convite do Bispo João V, de Jerusalém, participou no Concílio Ecuménico de Niceia, onde defendeu a posição da Igreja contra os hereges iconoclastas. O seu testemunho de santidade de vida, de humildade e de caridade foi desafio e luz para a Igreja e fez com que o povo o venerasse como santo, ainda em vida. Pela sua obra escrita, em que sintetizou os esforços de consolidação do cristianismo, nos cinco primeiros séculos, João Damasceno tornou-se um  testemunho privilegiado dos aspectos mais distintivos da teologia e da espiritualidade orientais.
As suas obras mais importantes são "A fonte da ciência", "A fé ortodoxa (fé recta)", "Sacra paralela" e "Orações sobre as imagens sagradas", onde defende o culto das imagens nas igrejas, contra o conceito dos iconoclastas. Por causa deste livro, João Damasceno foi perseguido e preso pelos hereges. Até mesmo o califa foi induzido a acreditar que João Damasceno conspirava contra ele. Dedicou à Mãe de Deus muitas orações, hinos, poesias e homilias. Foi ele quem deu início à teologia mariana. Morreu no dia 4 de Dezembro de 749, segundo a tradição, no Mosteiro de São Sabas.
João Damasceno é considerado o último dos santos Padres orientais da Igreja e uma das grandes figuras do cristianismo, não só da época em que viveu, mas de todos os tempos. O Papa Leão XIII proclamou-o doutor da Igreja. A sua memória litúrgica faz-se no dia 4 de Dezembro.

A ALEGRIA DO EVANGELHO


 
- sobre a exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, do Papa Francisco

O Papa Francisco publicou, no dia 24 de Novembro de 2013, a exortação apostólica, ‘Evangelii Gaudium’ (A Alegria do Evangelho), em que apresenta o projecto de uma “nova etapa de evangelização”, para os próximos anos. O texto retoma as principais preocupações manifestadas pelo Papa, desde o início do seu pontificado, desenvolvendo o tema do anúncio do Evangelho no mundo de hoje, acolhendo o contributo dos trabalhos do Sínodo que se realizou no Vaticano de 7 a 28 de outubro de 2012 com o tema ‘A nova evangelização para a transmissão da fé’. Apresentamos, com o devido respeito, a análise que D. Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo de Belo Horizonte, Brasil, faz deste documento do Papa.
 
“…O Papa Francisco define ainda mais nitidamente o horizonte norteador da Igreja Católica neste tempo com a sua recém-publicada Exortação Apostólica, intitulada “A alegria do Evangelho”.  Obviamente, trata-se de uma exortação que nasce da “escuta”, na dinâmica da vida da Igreja e do que é próprio da graça de Deus. O Papa Francisco, com frescor próprio do coração de pastor enraizado no chão latino-americano, reaviva, com singularidades, a recuperação de sentidos genuínos na vivência do Evangelho. O conhecimento da Exortação do Papa é determinante na compreensão e no tratamento do mais importante desafio da Igreja Católica na contemporaneidade: a insubstituível tarefa de anunciar o Evangelho no mundo actual.
Ao falar sobre alegria, um capítulo determinante da vida e um interesse comum a todos os corações, é imprescindível compreender que o Evangelho de Jesus Cristo não é um simples conjunto conceptual alternativo para aprendizagem, ou simples referência quando necessário. A alegria do Evangelho é duradoura.  Enche o coração dos que, no quotidiano, vivenciam a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo. Trata-se de uma alegria que não é como muitas outras, que seduzem, mas são passageiras e não têm força para resgatar o vazio interior, o isolamento e a tristeza. O Papa Francisco adverte que o grande risco do mundo contemporâneo - com a oferta múltipla e opressora de consumo - é uma tristeza individualista que brota do coração acomodado e avarento, da busca doentia de prazeres superficiais.
Não é possível encontrar uma alegria verdadeira e duradoura quando a vida interior se fecha nos seus próprios interesses. Isto impede a escuta de Deus e faz morrer o entusiasmo de se fazer o bem. Um risco que, sublinha o Papa Francisco, pode atingir também aos que creem e praticam a fé. Um cenário que pode ser constatado quando são encontradas pessoas descontentes, ressentidas, amargas e incapacitadas para cultivar sonhos e projectos, necessários para conduzir a vida na direcção da sua estatura própria de dom de Deus. A alegria, necessidade natural do coração humano, expressão de vida vivida com dignidade, vem com o anúncio, conhecimento, experiência e testemunho do Evangelho de Jesus Cristo.
A Igreja, que tem a missão de promover a experiência dessa alegria duradoura, tem que estar em movimento, isto é, sempre a caminho. Cada membro, tomando a iniciativa de sair e ir ao encontro, deve renunciar às comodidades e acolher o desafio da mudança, da renovação, numa atitude permanente de conversão. É preciso ter coragem de mudar, de ousar novas respostas, em todos os campos da sociedade, dinâmicas e projectos. No caminho contrário, corre-se o risco de se tornar um instrumento inócuo no serviço e no anúncio da fonte inesgotável dessa alegria.
Por isso, diz o Papa Francisco, a Igreja está desafiada por uma exigência de renovação improrrogável. Para se adequar a esta necessidade, é preciso reconhecer os muitos desafios postos pelo mundo contemporâneo. A consideração das diferentes culturas urbanas, com um conhecimento mais aprofundado de suas dinâmicas, interesses, linguagens e configurações, tem a propriedade de mostrar o caminho novo que fará a renovação da Igreja. O Papa Francisco sublinha que na actual cultura dominante, o primeiro lugar está ocupado por aquilo que é exterior, imediato, visível, veloz, superficial e provisório. O real dá lugar à aparência. Constata-se uma deterioração de valores culturais, com a assimilação de tendências eticamente fracas. Esse processo de renovação e  trabalhosa tarefa de ajudar o mundo a encontrar, no Evangelho, a fonte perene de alegria duradoura supõe, sem negociação, a coragem e a perseverança no dizer “não” a uma economia da exclusão; “não” à nova idolatria do dinheiro, que dá ao mercado a força de governar e não a de servir, gerando perversidades inadmissíveis; “não” a todo o tipo de iniquidade que gera violência; “não” ao egoísmo mesquinho e ao pessimismo estéril.
É hora de compreender e testemunhar a dimensão social da fé, como força e instrumento de uma nova “escuta” prioritária dos pobres, trabalhando para respeitar o povo, de muitos rostos e necessidades. Convida-nos o Papa Francisco a buscar, corajosamente, novas configurações organizacionais, institucionais e pessoais, apoiados na certeza daquilo que, luminosamente, está na alegria do Evangelho.” in, Zenit