- na Audiência
Geral, no dia 15 de Janeiro, na Praça de São Pedro, Roma
“…Na quarta-feira passada demos início a uma
breve série de catequeses sobre os Sacramentos, começando pelo Baptismo. Também,
hoje, gostaria de meditar sobre o Baptismo, para ressaltar um fruto muito importante
deste Sacramento: faz-nos ser membros do Corpo de Cristo e do Povo de Deus. S.
Tomás de Aquino afirma que todos os que recebem o Baptismo são incorporados a
Cristo quase como seus próprios membros e agregados à comunidade dos fiéis, ou seja,
ao Povo de Deus. Em consonância com o Concílio Vaticano II, hoje dizemos que o
Baptismo faz-nos entrar no Povo de Deus, levando-nos a ser membros de um
Povo a caminho, um Povo peregrino na história. Com efeito, assim como a vida se transmite de
geração em geração, também, de geração em geração, através do renascimento na
pia baptismal, é transmitida a graça, e com esta graça o Povo cristão caminha
no tempo como um rio que irriga a terra e propaga no mundo a bênção de Deus.
Desde que Jesus disse o que ouvimos do Evangelho, os discípulos partiram a
baptizar; e, desde aquela época até hoje, há uma cadeia na transmissão da fé
mediante o Baptismo. E cada um de nós é um elo desta corrente: um passo em
frente, sempre; como um rio que irriga. Assim é a graça de Deus; assim é a
nossa fé, que devemos transmitir aos nossos filhos, às crianças, para que elas,
quando forem adultas, possam transmiti-la aos seus filhos. Assim é o baptismo.
Porquê? Porque o baptismo faz-nos entrar neste Povo de Deus, que transmite a
fé. Isto é deveras importante. Um Povo de Deus que caminha e transmite a fé.
Em virtude do
Baptismo, nós tornamo-nos discípulos missionários, chamados a levar o
Evangelho ao mundo. «Cada um dos baptizados, independentemente da própria
função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito activo de
evangelização... A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo» da
parte de todos, de todo o Povo de Deus, um novo protagonismo de cada baptizado.
O Povo de Deus é um Povo discípulo - porque recebe a fé; e
missionário - porque transmite a fé. É isto que o Baptismo faz entre nós:
confere-nos a Graça, transmite-nos a Fé. Todos, na Igreja, somos discípulos; e
somo-lo sempre, a vida inteira; e todos nós somos missionários, cada qual no
lugar que o Senhor lhe confiou. Todos: até o mais pequenino é missionário; e
aquele que parece o maior é discípulo. Mas, algum de vós poderá dizer: «Os
Bispos não são discípulos, eles sabem tudo; o Papa sabe tudo; não é discípulo».
Não, até os bispos e o Papa devem ser discípulos, pois se não forem discípulos
não farão o bem; não poderão ser missionários nem transmitir a fé. Todos nós
somos discípulos e missionários.Existe um vínculo indissolúvel entre as dimensões mística e missionária da vocação cristã, ambas arraigadas no Baptismo. «Ao receber a fé e o baptismo, os cristãos acolhem a acção do Espírito Santo, que leva a confessar a Jesus como Filho de Deus e a chamar a Deus “Abba”, Pai. Todos os baptizados e baptizadas... são chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, pois “a evangelização é um chamamento à participação da comunhão trinitária”» (Documento final de Aparecida, n. 157).
Ninguém se salva sozinho. Somos uma comunidade de fiéis - somos Povo de Deus – e, nesta comunidade, experimentamos a beleza de compartilhar a experiência de um amor que nos precede a todos, mas que ao mesmo tempo nos pede para ser «canais» da graça uns para os outros, apesar dos nossos limites e pecados. A dimensão comunitária não é apenas uma «moldura», um «contorno», mas constitui uma parte integrante da vida cristã, do testemunho e da evangelização. A fé cristã nasce e vive na Igreja e, no Baptismo, as famílias e as paróquias celebram a incorporação de um novo membro a Cristo e ao seu corpo, que é a Igreja (cf. ibid., n. 175b).
A propósito da importância do Baptismo para o Povo de Deus, é exemplar a história da comunidade cristã, no Japão. Ela sofreu uma perseguição árdua, no início do século XVII. Houve numerosos mártires: os membros do clero foram expulsos e milhares de fiéis foram assassinados. No Japão, não ficou nem, sequer, um sacerdote: todos foram expulsos. Então, a comunidade cristã entrou na clandestinidade, conservando a sua fé e a sua oração, no escondimento. E quando nascia uma criança, o pai ou a mãe baptizavam-na, pois todos os fiéis podem baptizar em circunstâncias particulares. Quando, passados de cerca de dois séculos e meio - 250 anos mais tarde - os missionários voltaram ao Japão, milhares de cristãos saíram do escondimento e a Igreja conseguiu reflorescer. Sobreviveram com a graça do seu Baptismo! Isto é fantástico: o Povo de Deus transmite a fé, baptiza os seus filhos e segue em frente. E, apesar do segredo, mantiveram um vigoroso espírito comunitário, porque o Baptismo os tinha levado a constituir um único corpo em Cristo: viviam isolados e escondidos, mas eram sempre membros do Povo de Deus, membros da Igreja. Podemos aprender muito desta história!..”
