BEATO GONÇALO DIAS DE AMARANTE
Gonçalo Dias de Amarante nasceu por volta do ano de 1548,
na freguesia de Folhada, Marco de Canaveses. Era filho de Baltasar Dias e Antónia
Barbosa. A sua família era muito piedosa e virtuosa: os seus avós paternos tinham
mesmo mandado construir, no lugar onde viviam, uma ermida dedicada ao diácono e
mártir São Lourenço. Quando foi baptizado, recebeu o nome de Gonçalo, em
memória de São Gonçalo de Amarante. Ainda criança, pelo testemunho de piedade
da sua família, deixou-se envolver por sentimentos de grande amor e entrega aos
desígnios de Deus, vivendo com alegria e simplicidade, desprezando os apegos
terrenos e praticando as virtudes que são verdadeiros tesouros aos olhos de
Deus.
Quando jovem, apesar de querido e amado pelos seus
familiares, decidiu sair de casa para procurar formas mais exigentes de vida:
em casa não podia mortificar-se sem dar nas vistas, nem realizar rigorosas disciplinas,
sem o riso de troça daqueles que não entendem estas coisas.Fez-se pastor, ocupando os seus dias a guardar as ovelhas e a contemplar o amor de Deus presente na obra da Criação. Nesta fase, fez uma verdadeira peregrinação interior em ordem à santidade de vida e, com a ajuda da graça de Deus, cresceu imenso na dimensão espiritual. Com o incentivo do seu confessor, propôs-se estudar Gramática e Latim, porque lhe pareceu que, assim, poderia seguir Deus por um caminho mais seguro. Mudou-se para Amarante, dormindo num coberto, que havia debaixo da ponte. Aí viveu algum tempo, numa rigorosa vida ascética.
Vendo-o a evoluir bem no estudo da Gramática, o seu professor recomendou-lhe que tomasse hábito no Convento de S. Domingos de Amarante. Gonçalo recusou e, vendo que eram conhecidas de todos as suas penitências e virtudes, resolveu deixar aquela terra: temeu ser devorado pela vaidade deixando-se dominar pelos aplausos humanos. Foi, então, trabalhar no hospital, ajudando os pobres peregrinos que ali estavam doentes, tanto os que vinham da Galiza visitar o túmulo de S. Gonçalo como os portugueses que, por ali, regressavam de Santiago. Aconteceu então um facto carregado de futuro. Passaram em Amarante uns marinheiros a pagar uma promessa a S. Gonçalo. Gonçalo Dias entrou em contacto com eles, precisamente por estar no hospital. Inteirando-se da sua vida difícil e perigosa, da sua pouca instrução e do pouco cuidado com a sua salvação, resolveu acompanhá-los na sua ocupação: fez-se marinheiro num barco português. Os anos que gastou no mar Atlântico e quantas viagens fez, não o sabemos; mas, quando passou a trabalhar nos barcos castelhanos era já um perito marinheiro. No seu íntimo fervilhava uma grande dúvida que implicava uma grande decisão: embarcar para a Índia Oriental com os espanhóis ou para África com os portugueses? Da América vinham muitos tesouros… Temendo que a cobiça entrasse no seu coração, a Gonçalo parecia-lhe melhor o apelo da evangelização dos nativos que lhe vinha de África. Antes de decidir, Gonçalo dispôs-se a ouvir Deus, por meio da oração e da intercessão do Apóstolo São Tiago. Foi em peregrinação a Santiago de Compostela. Em todo o caminho, jejuou com grande austeridade, passando muitos dias a pão e água. Na maior parte do trajecto, dava graças a Deus pela variedade das aves, plantas e animais que encontrava por aqueles campos, convidando, muitas vezes, os companheiros para que o acompanhassem nos louvores a Deus. Chegado a Compostela, pediu ao glorioso Apóstolo e aos demais santos, cujas relíquias ali se veneravam, que intercedessem diante de Deus para que o iluminasse com o conhecimento do caminho que devia seguir. No regresso de Compostela, resolveu seguir para a Índia Oriental ou América e empregou-se como marinheiro nos Galeões Reais. Aqui, as suas virtuosas acções, a sua compostura e o seu exemplo mais pareciam de um membro de uma instituição religiosa do que de um pobre marinheiro, tarefa que costuma envilecer as almas. Viajando, certa vez, à Ilha Espanhola (hoje República Dominicana), Gonçalo sofreu um naufrágio de que foi um dos poucos sobreviventes. Conseguiu, depois de muitos trabalhos, chegar a um convento de Mercedários: é então que sentem os mais fortes apelos para que entre na vida religiosa. Porém, Gonçalo resiste e parte, de novo, como marinheiro. Mas, as dificuldades continuaram: ora a doença, ora outros contratempos contrariam-lhe a decisão pelo trabalho no mar. Sentia que era Deus a chamá-lo. Muito devoto de Nossa Senhora das Mercês desde que, depois do naufrágio, fôra acolhido num Convento Mercedário, da Ilha Espanhola, acabou por pedir para entrar no Convento de Callao, o grande porto de mar de Lima, a Cidade dos Reis. Gonçalo já passava dos 50 anos quando foi colocado no vizinho Convento de Lima. Foi aí que recebeu o hábito, no dia 16 de Outubro de 1603, entrando logo no Noviciado. Feita a profissão religiosa, no Convento Mercedário da Cidade dos Reis, a 18 de Outubro de 1604, foi enviado para dirigir a fazenda de que dependia o sustento do convento, que estava muito mal tratada. Gonçalo voltava, assim, aos seus princípios, ao cultivo da terra. Pouco depois, porém, voltaria para Lima. Entregaram- -lhe as chaves do Convento, o serviço de maior confiança que tem uma Comunidade. A partir deste momento, Gonçalo dedica-se a socorrer toda a espécie de pobres, atendendo, também, os envergonhados e os doentes. A sua espiritualidade, mariana de raiz, leva-o a uma maior veneração e entrega a Cristo crucificado. Volta, depois, ao Convento de Callao e dedica-se a pedir esmolas para o sustento da casa. Profundo conhecedor do meio - por meia vida passada no mar - dedica-se a cuidar dos mais pobres e abandonados do mundo activo e buliçoso do grande porto de mar. São-lhe atribuídos muitos milagres, neste seu contacto com a vida dos mais pobres: livra da morte uma criança por cima da qual passara um carro, que transportava uma grande viga; por sua intercessão, um campo de melões desfeito por uma tempestade, volta a reverdecer; intervém, com certa frequência, em situações de naufrágio iminente à entrada da barra do porto, e noutras dificuldades náuticas; o mesmo se passa com os diferendos conjugais; previa o futuro; possuía o dom da ubiquidade; penetrava mesmo em lugares fechados; multiplicava o pão sempre que ele faltava. Sarando o corpo, era no entanto com a alma que Gonçalo se preocupava. As Bulas de Cruzada - ao tempo muito aconselhadas pelos Papas, tendo em vista a remissão e libertação dos cativos - mereceram-lhe um especial cuidado. Entretanto, Gonçalo acumulou ainda o ministério de sacristão do convento, sabendo que esta seria a última estação da sua vida. Era ali que passava o pouco tempo em que não cirandava no bulício de Callao. E, na igreja, passava as noites em oração, ou dormindo no chão umas poucas horas. Cansado em idade, perfeitamente conhecedor de que era chegado o fim, Gonçalo Dias morreu em 24 de Janeiro de 1618, com fama de santo. O seu culto rapidamente se espalhou por todo o Peru e nalguns lugares de Espanha, onde os Mercedários tinham os seus Conventos. Ainda hoje, a devoção ao Beato Gonçalo Dias de Amarante é visível na Igreja Paroquial de Folhada, Marco de Canaveses. A sua memória litúrgica faz-se, na Ordem do Mercedários, no dia 27 de Janeiro.
