PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Recebei o Espírito Santo …” (cf. João 20, 21) Nós sabemos que todos os domingos recordamos a Ressurreição do Senhor Jesus, mas, neste período depois da Páscoa, o Domingo reveste-se de um significado ainda mais iluminador. Na tradição da Igreja, este domingo, o primeiro depois da Páscoa, era chamado «in albis». Que significa isto? A expressão pretendia recordar o rito que cumpriam quantos tinham recebido o baptismo, na Vigília de Páscoa. A cada um deles era entregue uma veste branca — «alba», branca» — para indicar a nova dignidade dos filhos de Deus. Ainda hoje se faz isto: aos recém-nascidos oferece-se uma pequena veste simbólica, enquanto os adultos vestem uma verdadeira, como vimos na Vigília pascal. E aquela veste branca, no passado, era usada durante uma semana, até este domingo, e disto deriva o nome in albis deponendis, que significa o domingo no qual se tira a veste branca. E assim, tirando a veste branca, os neófitos começavam a sua nova vida em Cristo e na Igreja. Há outro aspecto. No Jubileu do Ano 2000, São João Paulo II estabeleceu que este domingo seja dedicado à Divina Misericórdia. É verdade, foi uma boa intuição: quem inspirou isto foi o Espírito Santo. Concluímos há poucos meses o Jubileu extraordinário da Misericórdia e este domingo convida-nos a retomar com vigor a graça que provém da misericórdia de Deus. O Evangelho de hoje é a narração da aparição de Cristo ressuscitado aos discípulos reunidos no cenáculo (cf. Jo 20, 19-31). São João escreve que Jesus, depois de se ter despedido dos seus discípulos, lhes disse: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e acrescentou: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (vv. 21-23). Eis o sentido da misericórdia que se apresenta precisamente no dia da ressurreição de Jesus como perdão dos pecados. Jesus Ressuscitado transmitiu à sua Igreja, como primeira tarefa, a sua missão de levar, a todos, o anúncio do perdão. Esta é a primeira tarefa: anunciar o perdão. Este sinal visível da sua misericórdia traz consigo a paz do coração e a alegria do encontro renovado com o Senhor. A misericórdia à luz da Páscoa deixa-se perceber como uma verdadeira forma de conhecimento. E isto é importante: a misericórdia é uma verdadeira forma de conhecimento. Sabemos que se conhece através de muitas formas. Conhece-se através dos sentidos, da intuição, da razão e ainda de muitas outras formas. Pois bem, pode conhecer-se, também, através da experiência da misericórdia, porque a misericórdia abre a porta da mente para compreender melhor o mistério de Deus e da nossa existência pessoal. A misericórdia faz-nos compreender que a violência, o rancor, a vingança não têm sentido algum, e a primeira vítima é quem vive estes sentimentos, porque se priva da própria dignidade. A misericórdia abre, também, a porta do coração e permite expressar a proximidade, sobretudo a quantos estão sozinhos e marginalizados, porque os faz sentir irmãos e filhos de um só Pai. Ela favorece o reconhecimento de quantos têm necessidade de consolação e faz encontrar palavras adequadas para dar conforto. Irmãos e irmãs, a misericórdia aquece o coração e torna-o sensível às necessidades dos irmãos com a partilha e a participação. Em síntese, a misericórdia compromete todos a serem instrumentos de justiça, de reconciliação e de paz. Nunca esqueçamos que a misericórdia é o remate na vida de fé e a forma concreta com a qual damos visibilidade à ressurreição de Jesus. Maria, Mãe da Misericórdia, nos ajude a crer e a viver tudo isto com alegria. (Papa Francisco na Oração Regina Coeli, no dia 23 de Abril de 2017, na Praça de São Pedro, Roma)

segunda-feira, 30 de março de 2015

SANTOS POPULARES


BEATO MARIANO DE LA MATA APARÍCIO

Mariano Aparício nasceu no aconchego de uma família eminentemente cristã, na localidade de Barrio de la Puebla, Palência, Espanha, no dia 31 de Dezembro de 1905. Os pais, Manuel e Martina, foram educando e formando a consciência do filho Mariano e dos outros sete irmãos (três rapazes e quatro raparigas), semeando, com a palavra e o testemunho de uma vida autenticamente cristã, a semente da fé e do amor, que seriam depois a essência da vida daquele menino. Neste ambiente familiar e cristão, não foi difícil surgir a vocação para a vida sacerdotal e religiosa agostiniana; vocação ainda reforçada pelo incentivo dos outros três irmãos, que também tinham abraçado a Ordem Agostiniana.
Mariano fez os primeiros estudos de latim na pequena vizinha cidade de Barriosuso de Valdavia. No dia 29 de Agosto de 1921, entrou no seminário agostiniano de Valladolid, Espanha, completando, assim, o marco agostiniano mais precioso daquela família abençoada. De ânimo sereno e honesto nas suas atitudes, viveu o seu primeiro período de formação em Valladolid preparando-se para os compromissos posteriores. No dia 10 de Julho de 1922, realizou a sua primeira profissão (votos religiosos de pobreza, obediência e castidade). Em 2 de Janeiro de 1926, por meio da profissão solene, entregou-se definitivamente à Ordem Agostiniana. Em 25 de Julho de 1930, é ordenado sacerdote. Estava pronto para iniciar a sua missão e coroar a sua vocação de modo definitivo. O Pe. Mariano era sacerdote e agostiniano. Estava preparado para os grandes desafios que a obediência lhe exigia, em Espanha e, a partir do dia 21 de Agosto de 1931, em terras brasileiras.
No Brasil, trabalhou na paróquia de Taquaritinga. Em 1933, foi transferido para o Colégio de Santo Agostinho, em São Paulo, onde foi professor, secretário e ecónomo. Entre 1945 e 1948, foi superior da Vice-Província Agostiniana do Brasil. Em 1949, foi para o Colégio de Engenheiro Schmidt, sendo director, durante três anos, e professor e conselheiro da Vice-Província até 1960. A seguir, transferiu-se novamente para o Colégio de Santo Agostinho, em São Paulo, onde permaneceu até o fim da sua vida.
O exemplo dos tios sacerdotes e religiosos Pe. Hermenegildo, Ir. Tomás, Ir. Baltasar e Pe. Mariano penetrou no mais íntimo dos lares das quatro irmãs, de tal maneira que, anos depois, também três sobrinhos e três sobrinhas abraçariam a vida religiosa agostiniana. Como gostava o Pe. Mariano de viver intensamente essa feliz realidade agostiniana, que tanto enriquecia e unia aquelas quatro famílias!
Para os sobrinhos, o Pe. Mariano era o "tio". Assim o chamavam com muito carinho. Dois deles acompanhariam os últimos momentos da sua vida aqui na terra, vindos da Colômbia e do Peru, onde realizavam o seu trabalho pastoral e missionário, como religioso e religiosa agostinianos.
A natureza contagiava o Pe. Mariano. O seu divertimento eram o cultivo e o cuidado das plantas e das flores. Falava com elas, acariciava as suas folhas, emocionava-se diante delas. Cada planta, mesmo a mais raquítica e menos vistosa, para nós sem valor, era para o Pe. Mariano uma exaltação da beleza da criação. Tinha o seu jardim no terraço do Colégio. Permanecia ali nos seus momentos de relaxamento. Essa sensibilidade adquiria uma dimensão portentosa quando se tratava da família, dos amigos, dos ex-alunos, dos sofredores, dos mais necessitados. É difícil esquecer aquele momento, quando recém-operado a uma catarata, em Belo Horizonte, em visita realizada à igreja, emocionado exclamou, ao ver a imagem de Nossa Senhora da Consolação: "Estou a ver as suas cores". Acolhia com alegria, entregava-se com generosidade, acompanhava com espírito samaritano, servia com o coração aberto. Possuía um coração verdadeiramente sensível. Os seus grandes amores eram: a Eucaristia, Nossa Senhora, as crianças, os pobres, os enfermos. As suas maiores paixões: a natureza, a família, as oficinas de Santa Rita de Cássia, as vocações agostinianas.
De carácter firme, mas generoso, espontâneo, desprendido e muito sensível diante da dor; de espírito samaritano e autêntico servidor, o Pe. Mariano teve a sua vida marcada pelo amor aos que sofriam. Verdadeiro mensageiro do amor, levava aos doentes o conforto da sua presença e da sua palavra de esperança. Não importavam as deficiências auditivas e visuais que o acompanharam durante muitos anos da sua vida. O amor era mais forte, a caridade impelia-o, "a morte não espera" dizia, a solidão aumenta a dor. Sem preocupações de horários, o Pe. Mariano andava pela cidade de São Paulo, com o seu "fusca", sem pensar em riscos, enfrentando desafios, mas animado por uma alegria interior e levando um raio de esperança aos doentes e aos que precisavam do seu amor, assim como o incentivo da sua presença e da sua palavra às Associadas das Oficinas de Caridade de Santa Rita de Cássia.
Verdadeiro mensageiro do amor, alegrou muitos lares, confortou muitas vidas, foi portador de esperança para muitos desanimados. A sua maneira de falar e a sua figura austera, o carinho que colocava no que realizava e o sacrifício da sua vida, transformada num contínuo acto de amor, fizeram do Pe. Mariano um autêntico apóstolo da caridade.
Os doentes eram o seu ponto forte: uma necessidade de um doente antepunha-se a tudo. Nunca tinha preguiça para deixar o que quer que fosse, de dia ou de noite, para atender os doentes. Ao saber que numa família havia algum doente, lá estava ele a confortar o enfermo e os familiares. Era muito conhecido no Hospital do Cancro, por exemplo. A sua presença lá era um bálsamo, onde levava a comunhão e os demais sacramentos. Gozava já da fama de santo, assemelhando-se a Cristo, semeando coragem e entrega total a Deus.
Como Cristo, o Pe. Mariano foi o cordeiro levado ao matadouro e imolado, sem se queixar, sem murmurar, crucificado no seu leito de dor. Faleceu no dia 5 de abril de 1983. Foi beatificado em celebração presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, em representação do Papa Bento XVI, na Catedral de São Paulo, no dia 5 de Novembro de 2006. Na homilia, disse o Cardeal Saraiva Martins: “…O Padre Mariano foi pobre com os pobres, humilde com os humildes e atento aos enfermos e anciãos, solícito com os alunos, os paroquianos e com os associados das Oficinas de Santa Rita, misericordioso com os penitentes, puro de coração, pacífico na comunidade dos religiosos agostinianos e na respectiva família, superando as dificuldades com a oração e o sacrifício, invocando a Virgem Maria sob o apelativo de Nossa Senhora da Consolação, em todos os momentos, até à hora de entregar a sua vida. Tanto no Brasil como em Espanha, a sua memória nos ajudará a dar glória e louvor a Deus e a seguir o seu exemplo…”.
A sua memória litúrgica faz-se no dia 5 de Abril.