- na Audiência- Geral de
Quarta-Feira, dia 8 de Abril, na Praça de São Pedro - Roma
“ Caríssimos irmãos e irmãs,
bom dia!
Nas catequeses sobre a família, hoje completamos a reflexão sobre
as crianças, que são o fruto mais bonito da bênção que o Criador concedeu ao
homem e à mulher. Já pudemos falar sobre o grande dom que são as crianças e, hoje,
infelizmente, devemos falar sobre as «histórias de paixão» que muitas delas
vivem.
Desde os primeiros dias de vida, numerosas crianças são
rejeitadas, abandonadas e subtraídas à sua infância e ao seu futuro. Alguns
ousam dizer, como que para se justificar, que foi um erro tê-las feito vir ao
mundo. Isto é vergonhoso! Por favor, não descarreguemos as nossas culpas sobre
as crianças! Elas nunca são «um erro». A sua fome não é um erro, como não o é a
sua pobreza, a sua fragilidade, o seu abandono: são muitas as crianças
abandonadas nas ruas; e não o é nem sequer a sua ignorância, ou a sua
incapacidade: são numerosas as crianças que não sabem o que é uma escola.
Eventualmente, estes são motivos para as amar mais, com maior generosidade. Que
fazemos das solenes declarações dos direitos do homem e dos direitos da
criança, se depois punimos as crianças pelos erros dos adultos?Quantos têm a tarefa de governar e educar - mas diria, todos nós adultos - são responsáveis pelas crianças e por fazer, cada qual, o que pode para mudar esta situação. Refiro-me à «paixão» das crianças. Cada criança marginalizada, abandonada - que vive nas ruas a pedir esmola com todos os tipos de expedientes, sem ir à escola, sem cuidados médicos - é um clamor que sobe até Deus e acusa o sistema que nós, adultos, construímos. E, infelizmente, estas crianças são presas dos criminosos, que as exploram para tráficos ou comércios indignos; ou que as treinam para a guerra e a violência. Mas, também, nos países chamados ricos, muitas crianças vivem dramas que as marcam de maneira pesada, por causa da crise da família, dos vazios educativos e de condições de vida por vezes desumanas. Por tudo isto, são infâncias violadas no corpo e na alma. Mas, nenhuma destas crianças é esquecida pelo Pai que está nos céus! Nenhuma das suas lágrimas será perdida! Como não se pode eximir a nossa responsabilidade, a responsabilidade social das pessoas, de cada um de nós e dos países.
Certa vez, Jesus repreendeu os seus discípulos porque afastavam as
crianças que os pais lhe traziam para ser abençoadas. A narração evangélica é
comovedora: «Foram-lhe, então, apresentadas algumas criancinhas para que lhes
impusesse as mãos e orasse por elas. Os discípulos, porém, afastavam-nas.
Disse-lhes, então, Jesus: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as
impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhe assemelham!”. E,
depois de lhes impor as mãos, continuou pelo seu caminho» (Mt 19, 13-15). Como
é bonita esta confiança dos pais; como é bonita a resposta de Jesus!... Como
gostaria que esta página se tornasse a história normal de todas as crianças! É
verdade que, graças a Deus, as crianças com graves dificuldades têm, muitas
vezes, pais extraordinários, prontos a qualquer sacrifício e cheios de generosidade!
Mas, estes pais não deveriam ser abandonados a si mesmos! Deveríamos
acompanhá-los nas suas canseiras, mas também oferecer-lhes momentos de alegria
compartilhada e de júbilo descontraído, para que não se ocupem unicamente da
rotina terapêutica.
Contudo, quando se trata de crianças não se deveriam ouvir aquelas
fórmulas oficiais de defesa legal, como por exemplo: «Em última análise, não
somos uma entidade de beneficência»; ou então: «Na vida particular, cada um é
livre de fazer o que quiser»; ou ainda: «Lamentamos, mas nada podemos fazer».
Estas palavras não são úteis, quando se trata de crianças.Muitas vezes, recaem sobre as crianças os efeitos de vidas desgastadas por um trabalho precário e mal pago, por horários insustentáveis, por transportes ineficazes... Mas, as crianças pagam também o preço de uniões imaturas e de separações irresponsáveis: elas são as primeiras vítimas; padecem os resultados da cultura dos direitos subjectivos exasperados e, depois, tornam-se os seus filhos mais precoces. Absorvem frequentemente violências que não são capazes de «liquidar» e, aos olhos dos adultos, são obrigados a habituar-se à degradação.
Também nesta nossa época, como no passado, a Igreja põe a sua maternidade ao serviço das crianças e das suas famílias. Aos pais e aos filhos deste nosso mundo leva a bênção de Deus, a ternura materna, a reprovação firme e a condenação decidida. Não se brinca com as crianças!
Pensai no que seria uma sociedade que decidisse, de uma vez para sempre, estabelecer este princípio: «É verdade que não somos perfeitos, e que cometemos muitos erros. Mas quando se trata de crianças que vêm ao mundo, nenhum sacrifício dos adultos será julgado demasiado oneroso ou grande, contanto que se evite que uma criança chegue a pensar que é um erro, que não vale nada e que está abandonada às feridas da vida e à prepotência dos homens». Como seria bonita uma sociedade assim! Digo que, a tal sociedade, muitos dos seus inúmeros erros seriam perdoados. Verdadeiramente, muitos!
O Senhor julga a nossa vida, ouvindo aquilo que lhe dizem os anjos das crianças: anjos que «contemplam sem cessar a face do Pai que está nos céus» (cf. Mt 18, 10). Perguntemo-nos sempre: que dirão de nós a Deus, estes anjos das crianças?” (cf. Santa Sé)
