- na Audiência- Geral de
Quarta-Feira, dia 6 de Maio, na Praça de São Pedro - Roma
“ Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese de hoje é como a porta de entrada de uma série de
reflexões sobre a vida familiar, a sua vida real, com o seu tempo e os seus acontecimentos.
Sobre esta porta de entrada estão escritas três palavras, que eu já usei várias
vezes. Estas palavras são: "Por favor!", "Obrigado" e
"Desculpe". Na verdade, estas palavras abrem o caminho para viver bem
em família, para viver em paz. São palavras simples, mas não muito fáceis de pôr
em prática! Eles contêm uma grande força: a força para guardar a casa, mesmo entre
mil dificuldades e provações; pelo contrário, a sua falta abre, a pouco-e-pouco,
fissuras que podem levá-la a entrar em colapso.
Normalmente, entendemos estas palavras como palavras da "boa
educação". Certo! Uma pessoa bem-educada pede licença; diz obrigado; pede
desculpa se se engana. Certo! A boa educação é muito importante. Um grande
bispo, São Francisco de Sales, costumava dizer que "a boa educação é já
meia santidade". No entanto, atenção!... Conhecemos, na história, também,
um formalismo de boas maneiras que podem tornar-se uma máscara que esconde a
aridez da alma e o desinteresse pelo outro. Costuma dizer-se: "Por trás de
muitas boas maneiras, escondem-se maus hábitos." Nem sequer a religião
está imune a este risco, que faz resvalar a observância formal para a mundanidade
espiritual. O diabo que tentou Jesus alardeava boas maneiras e citava as
Sagradas Escrituras; até parecia um teólogo! O seu estilo parece correcto, mas
a sua intenção era desviar da verdade do amor de Deus. Nós, pelo contrário,
entendemos a boa educação nos seus termos autênticos, onde o estilo das boas
relações está firmemente enraizada no amor ao bem e no respeito pelo outro. A
família vive desta fineza de amar.
A primeira palavra é "por favor!?". Quando nos
preocupamos em pedir, gentilmente, mesmo aquilo que talvez pensemos poder exigir,
colocamos uma verdadeira protecção no espírito da vivência conjugal e familiar.
Entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa vida, requer a delicadeza
de uma atitude não invasiva que renova a confiança e o respeito. A familiaridade
não autoriza a dar tudo como adquirido. E o amor, quanto mais íntimo e profundo,
tanto mais exige o respeito pela liberdade e a capacidade de esperar que o
outro abra a porta do seu coração. A este propósito, recordemos aquela palavra
de Jesus, no livro de Apocalipse: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém
ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e
ele comigo "(3,20). Até o Senhor pede licença para entrar! Não o esqueçamos.
Antes de fazer alguma coisa na família: "Por favor, posso fazer isto? Agrada-te
que faça assim?". Esta é uma linguagem educada e cheia de amor. E isso faz
muito bem às famílias.
A segunda palavra é "obrigado". Muitas vezes, acontece
pensar que estamos a tornar-nos numa sociedade de maus modos e palavras ruins,
como se fossem um sinal de emancipação. Ouvimos dizer isso muitas vezes e até publicamente.
A gentileza e a capacidade de agradecer são vistos como um sinal de fraqueza,
às vezes, até levantam desconfianças. Esta tendência deve ser combatida no
próprio seio da família. Temos de ser intransigente na educação para a
gratidão, para o agradecimento: a dignidade da pessoa e a justiça social passam
por aqui. Se a vida familiar negligencia este modo de ser, também a vida social
o perderá. Então, a gratidão, para um crente, está no próprio coração da fé: um
cristão que não sabe agradecer é alguém que esqueceu a linguagem de Deus. Ouvi
bem: um cristão que não sabe agradecer é alguém que esqueceu a linguagem de
Deus. Recordemos a pergunta de Jesus quando curou os dez leprosos e apenas um
deles voltou para agradecer (cf. Lc 17,18). Certa vez, ouvi dizer a uma pessoa
idosa - muito sábio, muito boa, simples - mas com a sabedoria da compaixão, da
vida: "A gratidão é uma planta que cresce apenas na terra de almas
nobres." Essa nobreza de alma, essa graça de Deus na alma, exorta-nos a
dizer obrigado, à gratidão. É a flor de uma alma nobre. Esta é uma coisa
bela!...
A terceira palavra é "desculpa". Palavra difícil,
certamente, mas tão necessária. Quando falta, ampliam-se pequenas fissuras -
mesmo sem querer – até se tornarem valas profundas. Não é por acaso que na
oração ensinada por Jesus - o "Pai Nosso" - que resume todas as perguntas
essenciais à nossa vida, encontramos esta expressão: "Perdoai-nos as
nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" (Mateus
6, 12). Reconhecer que falhamos e estar dispostos a restituir aquilo que foi
tirado - respeito, sinceridade, amor – torna-nos dignos do perdão. E, assim, se
pára a infecção. Se não formos capazes de pedir desculpa, isso quer dizer que
ainda não estamos capazes de perdoar. Na casa onde não se pede desculpa começa
a faltar o ar, as águas tornam-se estagnadas. Muitas feridas nos afectos, muitas
lágrimas nas famílias começam com a perda desta palavra preciosa:
"Desculpa-me." Na vida matrimonial há desentendimentos e, às vezes, até
"voam os pratos"; mas, dou-vos um conselho: nunca termineis o dia sem
fazer a paz! Ouvi bem: a esposa e o marido desentendestes-vos? Os filhos com os
pais? Discutistes fortemente? Isso não é bom; mas não é o verdadeiro problema.
O problema é que este sentimento esteja presente no dia seguinte. Por isso, se
tiverdes uma briga, nunca termineis o dia sem fazer as pazes, na família. E
como devo fazer a paz? Ponho-me de joelhos? Não! Apenas um pequeno gesto, uma
pequena coisa, e volta a harmonia familiar. Basta uma carícia! Sem palavras.
Mas, nunca termineis o dia, na família, sem fazer as pazes! Entendeis isto? Não
é fácil, mas deve fazer-se. E com isto, a vida será mais bela.
Estas três palavras-chave da família são palavras simples e,
talvez, num primeiro momento nos façam sorrir. Mas, quando as esquecemos, não
há nada para rir, não é verdade? A nossa educação, provavelmente descura-as
demasiado. O Senhor nos ajude a colocá-las no lugar certo, nos nossos corações,
nas nossas casas e, até, na nossa sociedade civil.
E, agora, convido-vos a repetir, todos juntos, estas três
palavras: "por favor", "obrigado", "desculpa".
Todos juntos: (a praça) "por favor", "obrigado",
"desculpa". São as palavras para entrar, de verdade, no amor da
família, para que a família continue a existir. Agora, repitamos o conselho que
vos dei; digamos todos juntos: Nunca terminar o dia sem fazer as pazes. Todos:
(a Praça): Nunca terminar o dia sem fazer as pazes. Obrigado! (cf. Santa Sé)
