-na
Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 10 de Junho
“ …Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
Continuemos com as catequeses sobre a família, e nesta audiência
gostaria de me referir a um aspecto muito comum na vida das nossas famílias: a doença.
Trata-se de uma experiência da nossa fragilidade, que vivemos principalmente em
família, desde a infância e depois, sobretudo, na velhice, quando chegam os
achaques. No âmbito dos vínculos familiares, a enfermidade das pessoas que
amamos é padecida com um «suplemento» de dor e de angústia. É o amor que nos
faz sentir este «suplemento». Muitas vezes, para um pai e uma mãe é mais
difícil suportar o mal de um filho, de uma filha, do que uma dor pessoal.
Podemos dizer que a família foi, desde sempre, o «hospital» mais próximo. Ainda
hoje, em muitas regiões do mundo, o hospital é um privilégio para poucos e,
muitas vezes, fica distante. São a mãe, o pai, os irmãos, as irmãs, as avós que
garantem os cuidados e ajudam a curar.Nos Evangelhos, muitas páginas narram os encontros de Jesus com os doentes e o seu compromisso em cuidar deles. Ele apresenta-se publicamente como alguém que luta contra a enfermidade e que veio para curar o homem de todos os males: o mal do espírito e o mal do corpo. É verdadeiramente comovedora a cena evangélica, recém-narrada pelo Evangelho de Marcos. Reza assim: «À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e endemoninhados» (1, 32). Se penso nas grandes cidades contemporâneas, pergunto-me onde estão as portas a onde levar os enfermos, na esperança de que sejam curados? Jesus nunca se subtraiu aos seus cuidados. Jamais passou além, nunca virou o rosto para o outro lado. E, quando um pai ou uma mãe, ou então até simplesmente pessoas amigas traziam um doente à sua presença para que o tocasse e curasse, não perdia tempo; a cura vinha antes da lei, até daquela tão sagrada como era a do descanso do Sábado (cf. Mc 3, 1-6). Os doutores da lei repreendiam Jesus porque Ele curava no dia de sábado; fazia o bem no dia de sábado. Mas o amor de Jesus consistia em dar a saúde, em fazer o bem: e isto vem sempre em primeiro lugar!
Jesus manda os discípulos realizar a obra que Ele mesmo faz, conferindo-lhes o poder de curar, ou seja, de se aproximar dos enfermos e de cuidar deles até ao fim (cf. Mt 10, 1). Devemos ter presente aquilo que Ele disse aos discípulos, no episódio do cego de nascença (cf. Jo 9, 1-5). Os discípulos — com o cego ali em frente! — debatiam sobre quem tinha pecado para ter nascido cego - ele ou os seus pais? -, para ter provocado a sua cegueira. O Senhor disse claramente: nem ele, nem os seus pais; é assim para que nele se manifestem as obras de Deus. E curou-o. Eis a glória de Deus! Eis a tarefa da Igreja! Ajudar os doentes - sem se perder em bisbilhotices - assistir sempre, consolar, aliviar, estar próximo dos doentes… Esta é a sua tarefa.
A Igreja convida à oração incessante pelos nossos entes queridos, atingidos pelo mal. A prece pelos doentes nunca deve faltar. Aliás, temos de rezar ainda mais, quer pessoalmente, quer como em comunidade. Pensemos no episódio evangélico da mulher cananeia (cf. Mt 15, 21-28). Trata-se de uma mulher pagã, não pertence ao povo de Israel, mas é uma pagã que suplica a Jesus a cura da própria filha. Para pôr à prova a sua fé, Jesus primeiro responde duramente: «Não posso, devo pensar primeiro nas ovelhas de Israel!». A mulher não desiste — quando pede ajuda para a sua criatura, uma mãe nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos — e responde: «Até os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!», como se dissesse: «Trata-me pelo menos como uma cachorrinha!». Então, Jesus diz-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu desejas» (v. 28).
Diante da doença, até em família, surgem dificuldades, por causa
da debilidade humana. Mas, em geral, o tempo da enfermidade faz aumentar a
força dos vínculos familiares. E penso como é importante educar, desde crianças,
os filhos para a solidariedade na hora da doença. Uma educação que mantenha à
distância a sensibilidade pela enfermidade humana torna árido o coração; e leva
os jovens a ser «anestesiados» em relação ao sofrimento do próximo, incapazes
de se confrontar com o sofrimento e de viver a experiência do limite. Quantas
vezes nós vemos chegar ao trabalho um homem, uma mulher com o rosto cansado,
com uma atitude fatigada, e quando lhe perguntamos: «O que aconteceu?»,
responde: «Eu dormi só duas horas, porque em casa nos revezamos para estar
próximos do filho, da filha, do doente, do avô, da avó». E o dia continua com o
trabalho. São coisas heróicas: é a heroicidade das famílias! Estas formas de
heroicidade escondida verificam-se com ternura e com coragem, quando em casa
alguém está doente.
A debilidade e o sofrimento dos nossos afectos mais queridos e mais
sagrados podem ser, para os nossos filhos e os nossos netos, uma escola de vida
— é importante educar os filhos, os netos, para que compreendam esta
proximidade na doença em família — e tornam-se isso quando os momentos de
enfermidade são acompanhados pela oração e pela proximidade carinhosa e cheia
de esmero dos familiares. A comunidade cristã sabe bem que, na prova da doença,
a família não deve ser deixada sozinha. E temos de dar graças ao Senhor pelas
lindas experiências de fraternidade eclesial que ajudam as famílias a
atravessar o árduo momento da dor e do sofrimento. Esta proximidade cristã, de
uma família em relação à outra, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um
tesouro de sabedoria, que assiste as famílias nas fases difíceis, levando-as a compreender
o Reino de Deus melhor do que muitos discursos! São carícias de Deus! 