-na
Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, em Roma, no dia 17 de Junho
“ …Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
No percurso de catequeses sobre a família, hoje inspiramo-nos
directamente no episódio narrado pelo evangelista Lucas, que há pouco ouvimos
(cf. Lc 7, 11-15). Trata-se de uma cena muito comovedora, que nos mostra a
compaixão de Jesus por quantos sofrem — neste caso, uma viúva que perdeu o seu
único filho — e nos manifesta também o poder de Jesus sobre a morte.
A morte é uma experiência que diz respeito a todas as famílias,
sem excepção alguma. Faz parte da vida; e no entanto, quando atinge os afectos
familiares, a morte nunca consegue parecer-nos natural. Para os pais,
sobreviver aos próprios filhos é algo de particularmente desolador, que
contradiz a natureza elementar das relações que dão sentido à própria família.
A perda de um filho ou de uma filha é como se o tempo parasse: abre-se um
abismo que engole o passado e também o futuro. A morte, que leva embora o filho
pequeno ou jovem, é uma bofetada às promessas, aos dons e aos sacrifícios de
amor jubilosamente confiados à vida que fizemos nascer. Muitas vezes vêm à
Missa em Santa Marta pais com a fotografia de um filho, filha, criança, rapaz,
moça, e dizem-me: «Ele foi-se, ela foi-se!». E o seu olhar está cheio de dor. A
morte acontece, e quando se trata de um filho, fere profundamente. A família
inteira permanece como que paralisada, emudecida. E algo semelhante padece
também a criança que permanece sozinha, com a perda de um dos pais, ou de
ambos. E pergunta: «Mas onde está o meu pai? Onde está a minha mãe?» — Está no
Céu!» — «Mas por que não o vejo?». Esta pergunta oculta uma angústia no coração
da criança que permanece sozinha. O vazio do abandono que se abre dentro dela é
ainda mais angustiante porque ela nem sequer tem a experiência suficiente para
«dar um nome» àquilo que lhe aconteceu. «Quando volta o meu pai? Quando volta a
minha mãe?». Que responder, quando a criança sofre? Assim é a morte em família.
Nestes casos, a morte é como um buraco negro que se abre na vida
das famílias e ao qual não sabemos dar explicação alguma. E às vezes chega-se
até a dar a culpa a Deus! Quantas pessoas — entendo-as — ficam com raiva de
Deus e blasfemam: «Por que me tiraste o filho, a filha? Não há Deus, Deus não existe!
Por que me fez Ele isto?». Muitas vezes ouvimos frases como esta. Mas a raiva é
um pouco aquilo que provém do cerne de uma grande dor; a perda de um filho ou
de uma filha, do pai ou da mãe, é uma dor enorme! Isto acontece continuamente
nas famílias. Em tais casos, como eu disse, a morte é como que um buraco. Mas a
morte física possui «cúmplices» que são até piores do que ela, e que se chamam
ódio, inveja, soberba, avareza; em síntese, o pecado do mundo que trabalha para
a morte, tornando-a ainda mais dolorosa e injusta. Os afectos familiares
parecem as vítimas predestinadas e inermes destes poderes auxiliares da morte,
que acompanham a história do homem. Pensemos na absurda «normalidade» com que,
em certos momentos e lugares, os acontecimentos que acrescentam horror à morte
são provocados pelo ódio e pela indiferença de outros seres humanos. O Senhor
nos livre de nos habituarmos a isto!
No povo de Deus, com a graça da sua compaixão conferida em Jesus,
muitas famílias demonstram concretamente que a morte não tem a última palavra:
trata-se de um verdadeiro acto de fé. Todas as vezes que a família em luto —
até terrível — encontra a força de conservar a fé e o amor que nos unem a
quantos amamos, ela impede desde já que a morte arrebate tudo. A escuridão da
morte deve ser enfrentada com um esforço de amor mais intenso. «Meu Deus,
ilumina as minhas trevas!», é a invocação de liturgia da noite. À luz da
Ressurreição do Senhor, que não abandona nenhum daqueles que o Pai lhe confiou,
nós podemos privar a morte do seu «aguilhão», como dizia o apóstolo Paulo (1
Cor 15, 55); podemos impedir que ela envenene a nossa vida, que torne vãos os
nossos afectos, que nos leve a cair no vazio mais obscuro.
Nesta fé, podemos consolar-nos uns aos outros, conscientes de que
o Senhor venceu a morte de uma vez para sempre. Os nossos entes queridos não
desapareceram nas trevas do nada: a esperança assegura-nos que eles estão nas
mãos bondosas e vigorosas de Deus. O amor é mais forte do que a morte. Por
isso, o caminho consiste em fazer aumentar o amor, em torná-lo mais sólido, e o
amor preservar-nos-á até ao dia em que todas as lágrimas serão enxugadas,
quando «já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor» (Ap 21, 4). Se nos
deixarmos amparar por esta fé, a experiência do luto poderá gerar uma
solidariedade de vínculos familiares mais forte, uma renovada abertura ao
sofrimento das outras famílias, uma nova fraternidade com as famílias que
nascem e renascem na esperança. Nascer e renascer na esperança, é isto que nos
propicia a fé. Contudo, gostaria de ressaltar a última frase do Evangelho que
ouvimos hoje (cf. Lc 7, 11-15). Depois que Jesus restituiu à vida este jovem,
filho da mãe que era viúva, o Evangelho reza: «Jesus entregou-o à sua mãe».
Esta é a nossa esperança! O Senhor restituir-nos-á todos os nossos entes
queridos que já partiram, e encontrar-nos-emos todos juntos. Esta esperança não
desilude! Recordemos bem este gesto de Jesus: «Jesus entregou-o à sua mãe»,
assim fará o Senhor com todos os nossos amados familiares!
Esta fé protege-nos da visão niilista da morte, assim como das
falsas consolações do mundo, de tal maneira que a verdade cristã «não corra o
risco de se misturar com mitologias de vários tipos», cedendo aos ritos da
superstição, antiga ou moderna» (Bento XVI, Angelus de 2 de Novembro de 2008).
Hoje é necessário que os Pastores e todos os cristãos exprimam de modo mais
concreto o sentido da fé em relação à experiência familiar do luto. Não se deve
negar o direito de chorar — devemos chorar no luto — pois até Jesus «começou a
chorar» e sentiu-se «intensamente comovido» pelo grave luto de uma família que
Ele amava (Jo 11, 33-37). Ao contrário, podemos haurir do testemunho simples e
vigoroso de numerosas famílias que souberam ver, na dificílima passagem da
morte, também a passagem certa do Senhor, crucificado e ressuscitado, com a sua
promessa irrevogável da ressurreição dos mortos. O esforço amoroso de Deus é
mais forte do que a obra da morte. É deste amor, precisamente deste amor, que
nos devemos tornar «cúmplices» laboriosos, com a nossa fé! E recordemos aquele
gesto de Jesus: «Jesus entregou-o à sua mãe»; assim fará Ele com todos os
nossos entes queridos e também connosco, quando nos encontrarmos, quando a
morte for derrotada definitivamente em nós. Ela é vencida pela cruz de Jesus.
Jesus restituir-nos-á todos à família!...” (cf. Santa Sé)