PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
- na Audiência-Geral, no dia
21 de Outubro, na Praça de São Pedro - RomaPodemos acrescentar que, observando bem, a inteira realidade familiar está fundada na promessa. Pensai nisto: a identidade familiar está fundada na promessa. Podemos dizer que a família vive da promessa de amor e de fidelidade que o homem e a mulher trocam reciprocamente. Ela inclui o compromisso de receber e educar os filhos; mas realiza-se, também, no cuidado dos pais idosos; na protecção e cura dos membros mais frágeis da família; na ajuda recíproca para realizar as próprias qualidades e na aceitação dos próprios limites. E a promessa conjugal alarga-se na partilha das alegrias e dos sofrimentos de todos os pais, mães, crianças, com abertura generosa em relação à convivência humana e ao bem comum. Uma família que se fecha em si mesma é como uma contradição, uma humilhação da promessa que a fez nascer e a faz viver. Nunca esqueçais: a identidade da família é sempre uma promessa que se alarga e se estende a toda a família e também a toda a humanidade.
Nos nossos dias, a honra da fidelidade à promessa da vida familiar parece muito enfraquecida. Por um lado, porque um direito mal compreendido de procurar a própria satisfação, a qualquer preço e em qualquer relação, é exaltado como um princípio inegociável de liberdade. Por outro, porque os vínculos da vida de relação e do compromisso pelo bem comum se confiam exclusivamente à constrição da lei. Mas, na realidade, ninguém quer ser amado só pelos próprios bens, nem por obrigação. O amor, assim como a amizade, devem a sua força e beleza precisamente a este facto: geram um vínculo sem privar da liberdade. O amor é livre; a promessa da família é livre e esta é a beleza. Sem liberdade não há amizade; sem liberdade não há amor; sem liberdade não há matrimónio.
Portanto, liberdade e fidelidade não se opõem uma à outra; aliás, apoiam-se reciprocamente, nas relações quer interpessoais, quer sociais. De facto, pensemos nos danos que produzem - na civilização da comunicação global - o aumento de promessas não mantidas, em vários campos; a complacência para com a infidelidade, a palavra dada e os compromissos assumidos!
Sim, queridos irmãos e irmãs, a fidelidade é uma promessa de compromisso que se auto-realiza, crescendo na obediência livre à palavra dada. A fidelidade é uma confiança que «quer» ser realmente partilhada, e uma esperança que «quer» ser cultivada em conjunto. E, falando de fidelidade, vem-me à mente o que os nossos idosos e avós narravam: «Antigamente, quando se estabelecia um acordo, um aperto de mão era suficiente, porque havia a fidelidade às promessas». E também isto, que é um facto social, tem origem na família, no dar-se a mão do homem e da mulher para ir em frente juntos, por toda a vida.
A
fidelidade às promessas é uma verdadeira obra-prima de humanidade! Se olharmos
para a sua beleza audaz, sentimos temor; mas se desprezarmos a sua tenacidade
corajosa, estaremos perdidos. Nenhuma relação de amor - nenhuma amizade, nenhuma
forma de querer bem, nenhuma felicidade do bem comum - chega à altura do nosso
desejo e da nossa esperança, se não conseguir habitar este milagre da alma. E
digo «milagre», porque a força e a certeza da fidelidade, apesar de tudo, não deixam
de nos encantar e de nos admirar. A honra à palavra dada, a fidelidade à
promessa, não se podem comprar nem vender. Não podem ser obrigadas pela força
e, nem sequer, guardadas sem sacrifício.
Nenhuma
escola pode ensinar a verdade do amor, se a família o não fizer. Nenhuma lei
pode impor a beleza e a herança deste tesouro da dignidade humana, se o vínculo
pessoal entre amor e geração não for escrito na nossa carne.Irmãos e irmãs: é necessário restituir honra social à fidelidade do amor!... Restituir honra social à fidelidade do amor! É necessário tirar da clandestinidade o milagre diário de milhões de homens e mulheres que regeneram o seu fundamento familiar, do qual hoje a sociedade vive, sem ser capaz de o garantir de modo algum. Não é por acaso que este princípio da fidelidade à promessa do amor e da geração está inscrito na criação de Deus como uma bênção perene, à qual o mundo está confiado.
Se São Paulo pôde afirmar que no vínculo familiar se revela misteriosamente uma verdade decisiva também para o vínculo do Senhor e da Igreja, quer dizer que a própria Igreja encontra aqui uma bênção a ser conservada e da qual aprender sempre, antes ainda de a ensinar e disciplinar. A nossa fidelidade à promessa está sempre confiada à graça e à misericórdia de Deus. O amor pela família humana, na boa e má sorte, é um ponto de honra para a Igreja! Deus nos conceda que estejamos à altura desta promessa. E rezemos também pelos Padres do Sínodo: o Senhor abençoe o seu trabalho, desempenhado com fidelidade criativa, na confiança de que Ele - em primeiro lugar, o Senhor…Ele em primeiro lugar! - é fiel às suas promessas. Obrigado. (cf. Santa Sé)
