BEATA IRENE MERCEDES STEFANI
Aurélia Mercedes Stefani nasceu em Anfo, na província de Bréscia,
Itália, no dia 22 de Agosto de 1891. Foi baptizada no dia seguinte e cresceu
numa família muito católica. Aos treze anos disse aos seus pais: "Vou ser
missionária." Em 1905, aconteceu um facto curioso: um Missionário da
Consolata, o Pe Ângelo Bellani, passou por Anfo. Mercedes - como era conhecida
por todos - que tinha apenas 14 anos, queria ir imediatamente para o convento e
fazer-se freira missionária. O pai opôs-se, não autorizando a sua ida: era
ainda muito jovem, ainda uma criança, e o seu desejo não passava de uma ilusão
momentânea. O Padre Capitanio, pároco de Anfo, no entanto, acreditou na
sinceridade da sua vocação e, em 5 de Maio de 1911, escreveu uma carta para
Turim, dirigida ao cónego Padre José Allamano, fundador do Instituto dos
Missionários da Consolata. Por fim, o pai cedeu e, a contragosto, deu a sua
permissão.
No dia 19 Junho de 1911, Mercedes partiu para Turim, onde se
inseriu, perfeitamente, no novo Instituto fundado pelo Reitor do Santuário da
Consolata, sobrinho de São José Cafasso. Em 28 de Janeiro de 1912, celebrou a
sua “tomada de hábito” e mudou o seu nome, assumindo o nome Irene: Irmã Irene. Concluiu
o noviciado dois anos mais tarde, em 24 de Janeiro 1914, e emitiu os votos
pelas mãos do Beato Allamano. Em 28 de Dezembro de 1914, partiu para África. Chegou
a Mombasa, no Quénia, no dia 31 de Janeiro de 1915 e exclamou: "Tokumye
Yesu Kristo!" que quer dizer: "Louvado seja Jesus Cristo!"
Naquele momento, esta era a única frase que sabia dizer na língua kikuyu.Começou logo a trabalhar e a sua primeira preocupação foi evangelizar: levando Cristo – ela bem o sabia, graças aos ensinamentos do mestre Allamano - chegaria também a civilização, como sempre aconteceu. A sua catequese foi a da Tradição da Igreja: Deus amou tanto os homens que lhes deu o seu Filho unigénito, para que todos os homens sejam salvos; acreditar é oferecer-se a Deus com a mente, com o coração e com as obras; a única riqueza que se deve guardar é a alma espiritual e imortal; o único mal de que devemos ter medo é o pecado que recusa Deus e arruína a alma; o diabo existe e é preciso, com todas as forças, vencer as tentações; a morte não é uma fatalidade, mas passagem para a vida verdadeira, "entrada feliz na Casa de Deus ou queda ruinosa no fogo do inferno, de acordo com o julgamento que Deus fará de cada um de nós", assim explica, no livro “À luz de uma candeia”, a irmã Gian Paola Mina, missionária da Consolata e a primeira biógrafa da Irmã Irene Stefani. "Para a Irmã Irene, a vida é um olhar para o alto e, por isso, a grande visão do Céu permeia todas as suas cartas com o anúncio da Ressurreição que, já na Igreja primitiva, tinha influenciado um novo conceito de vida e de morte, dando força incrível aos mártires: … ‘Se Cristo ressuscitou, nós também ressuscitaremos com Ele '.
A partir da sua correspondência, é possível realçar a fé e a caridade que permeava a vida da Irmã Irene, como, mostra a carta enviada, em 1928, a Filipe Warothe, um cristão de Ghekondi, que trabalhava em Nairobi: "Caro Filipe: peço-te para cuidares dos nossos cristãos que chegam aí. Tu conheces bem a situação de Nairobi e sabes, também, quantos perigos existem aí, pelo que os nossos cristãos, correm o risco de se perder. Cuida das suas almas e, procura, também, obter ajuda para a igreja. São duas coisas que não podem ser separadas: o coração dos homens e o templo material. De facto, o Espírito Santo revelou que Deus habita no coração dos homens bons. Sabes que se fizeres o que te peço, terás realizado uma obra verdadeiramente apostólica. Pensa como o Senhor é bom para connosco: por uma coisa pequena que lhe damos, Ele recompensa-nos com um prémio tão grande que ultrapassa a nossa imaginação. Além disso, não basta que um se torne rico: é preciso enriquecer todos os outros: falo da verdadeira riqueza, a única que é necessária, a riqueza da alma. Tu, portanto, deves instruir os outros para darem o seu contributo para as necessidades da Igreja, como tu foste beneficiado pelos seus sacerdotes... ".
Durante a Primeira Guerra Mundial, a Irmã Irene ajudou - no hospital militar, em Kilwa Kivinje, na Tanzânia - os transportadores ou carregadores indígenas, vítimas da fome e da peste. A Irmã Irene, bela e sorridente, cuida de todos com amor materno e infinita doçura, guardando tudo no seu coração, como Maria. Em 1920, vai para Ghekondi, onde começou a trabalhar na escola. Quando não estava a ensinar, andava de palhota em palhota, com o rosário na mão e, enquanto passava as contas e rezava a ‘Ave Maria’, procurava novos alunos para a alfabetização mas, também, mães em dificuldade, idosos a quem levar Jesus e auxílio... e baptizava. Nos anos de missão, a Irmã Irene obteve muitas conversões e baptizou cerca de quatro mil pessoas. Um apostolado silencioso, mas muito fértil. Para os doentes e as pessoas de Ghekondi - que a vê sempre pronta a acudir, a ajudar, a cuidar, a ensinar com uma sensibilidade angélica - a Irmã Irene é Nyaata, que significa "Mãe de Misericórdia". Desta mãe permaneceram, como relíquia, sinal e símbolo emblemático do seu apostolado, as botas que usou para percorrer quilómetros e quilómetros, a pé e depressa, de dia e de noite, com alegria ou cansaço, com o único objectivo da salvar as almas.
Uma manhã, entrando num acampamento militar, encontrou uma cama vazia, pertencente a um certo Athiambo, um homem que ela estava a preparar para o baptismo. Perguntou por ele e disseram-lhe que estava na praia, junto de outros cadáveres. Ela não desistiu. Correu à praia e, encontrando-o ainda vivo, levou-o para longe da maré e baptizou-o; depois, correu depressa ao hospital e voltou com uma maca e dois carregadores. À Irmã Cristina Moresco, sua companheira, que lhe perguntou se não tinha sentido nojo ao tocar naqueles cadáveres para encontrar Athiambo, a Irmã Irene respondeu: "Na verdade, sim; mas eu não pensava senão na alma".
Em 14 de Setembro 1930, foi a Nyeri, para participar num retiro. Foi aqui que aconteceu uma coisa extraordinária, verdadeiramente mística: a Irmã Irene viu toda a sua vida como num filme... e Jesus falou-lhe, comunicando-lhe palavras que, na sua alma missionária, a marcaram como um fogo: "O pecado crucifica Jesus, novamente. É melhor mil mortes que um só pecado…Esquece tudo... Esvazia-te de ti mesma… Ser missionária é o mesmo que ser apóstolo, virgem, mártir…"
Neste contexto inteiramente sobrenatural, a Irmã Irene Stefani amadureceu a sua oferta, a sua oblação: para o bem das missões e para a salvação das almas não é suficiente trabalhar como o fazia até agora; devia dar toda a sua vida.
A Irmã Irene revelou, à sua Superiora, a sua vontade de oferecer toda a sua vida, em sacrifício, pela salvação das almas. Mas, a Superiora, não lhe permitiu este seu acto de heroicidade. Então, recomeçou a trabalhar com mais zelo e eficiência do que antes. No entanto, a Irmã Irene não desistiu e, muitas vezes, voltou a interrogar a sua Superiora acerca daquele desejo que a assaltava constantemente: dar a vida pelas missões. Por fim, a Superiora cedeu.
Então, em Ghekondi, surgiu uma epidemia de peste. A Irmã Irene acorria, prontamente, a oferecer a sua ajuda, o seu conforto e a sua oração. No Domingo, dia 26 de Outubro de 1930, Festa de Cristo Rei, a Irmã, durante a missa, acusou os primeiros sintomas da peste. A Irmã Margarida Maria Durando ficou de vigília, durante todas as noites, e sugeriu-lhe uma pequenina oração: "Coração de Jesus, vítima de caridade, faz-me para Ti hóstia pura, santa e agradável a Deus". Na sua fragilidade, a Irmã Irene repetia, vezes sem conta, aquela oração de entrega e de confiança. No dia 31 de Outubro de 1930, morreu, com 39 anos, e com o nome de Jesus, José e Maria nos lábios. Com São Paulo, ela podia dizer: "Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo o custo. Faço tudo por causa do Evangelho "(1 Cor 9,22-23).
“Foi o amor que a matou” logo comentaram os africanos. Era o selo de uma existência toda marcada pela caridade heroica, que emanava da constante e profunda busca da santidade. Expressou este anseio nas suas últimas palavras: “sou toda de Jesus, de Maria, de São José, agora e sempre por toda a eternidade”
A Irmã Irene Stefani morreu com uma grande fama de santidade, que permaneceu sempre viva, testemunhada com vivacidade, mesmo à distância de mais de cinquenta anos.
A Irmã Irene Mercedes Stefani foi beatificada pelo Papa Francisco, no dia 23 de Maio de 2015, numa celebração eucarística, em Nyeri, presidida pelo Arcebispo de Nairobi, o cardeal John Njue, em representação do Papa.
A sua memória litúrgica celbra-se no dia 31 de Outubro.
