- na Audiência-Geral, no dia
9 de Dezembro, na Praça de São Pedro, Roma
Ontem abri aqui na Basílica de São Pedro a Porta Santa do Jubileu
da Misericórdia, depois de a ter já aberto na Catedral de Bangui, na África
Central. Hoje gostaria de meditar convosco sobre o significado deste Ano Santo,
respondendo à pergunta: por que um Jubileu da Misericórdia? O que significa
isto?
A Igreja tem necessidade deste momento extraordinário. Não digo: é
bom para a Igreja este momento extraordinário. Digo: a Igreja tem necessidade
deste momento extraordinário. Na nossa época de profundas mudanças, a Igreja é
chamada a oferecer a sua contribuição peculiar, tornando visíveis os sinais da
presença e da proximidade de Deus. E o Jubileu é um tempo favorável para todos
nós a fim de que, contemplando a Misericórdia Divina que supera todos os
limites humanos e resplandece na obscuridade do pecado, possamos tornar-nos
testemunhas mais convictas e eficazes.
Dirigir o olhar para Deus, Pai misericordioso, e para os irmãos
necessitados de misericórdia, significa prestar atenção ao conteúdo essencial
do Evangelho: Jesus, Misericórdia que se fez carne, que torna visível aos
nossos olhos o grande mistério do Amor trinitário de Deus. Celebrar um Jubileu
da Misericórdia equivale a pôr de novo no centro da nossa vida pessoal e das
nossas comunidades o específico da fé cristã, ou seja Jesus Cristo, o Deus
misericordioso.
Portanto, um Ano Santo para viver a misericórdia. Sim, caros
irmãos e irmãs, este Ano Santo é-nos oferecido para experimentar na nossa vida
o toque dócil e suave do perdão de Deus, a sua presença ao nosso lado e a sua
proximidade sobretudo nos momentos de maior privação.
Em síntese, este Jubileu é um momento privilegiado para que a
Igreja aprenda a escolher unicamente «o que mais agrada a Deus». E, o que é que
«mais agrada a Deus»? Perdoar aos seus filhos, ter misericórdia deles a fim de
que, por sua vez, também eles possam perdoar aos irmãos, resplandecendo como
tochas da misericórdia de Deus no mundo. É isto o que mais agrada a Deus! Num
livro de teologia que tinha escrito acerca de Adão, Santo Ambrósio medita sobre
a história da criação do mundo e diz que cada dia, depois de ter criado algo —
a lua, o sol ou os animais — Deus diz: «E Deus viu que isto era bom!». Mas
quando criou o homem e a mulher, a Bíblia diz: «Viu que era muito bom». E Santo
Ambrósio interroga-se: «Mas por que motivo Deus diz que é “muito bom”? Por que
se sente Deus tão feliz depois da criação do homem e da mulher?». Porque no
final tinha alguém a quem perdoar. E isto é bonito: a alegria de Deus é
perdoar; o ser de Deus é a misericórdia. Por isso, neste ano, devemos abrir o
nosso coração para que este amor, esta alegria de Deus, nos encha todos desta
misericórdia. O Jubileu será um «tempo favorável» para a Igreja, se aprendermos
a escolher «o que mais agrada a Deus», sem ceder à tentação de pensar que
existe algo mais importante ou prioritário. Nada é mais importante do que
escolher «o que mais agrada a Deus», ou seja a sua misericórdia, o seu amor, a
sua ternura, o seu abraço, as suas carícias!
Inclusive a necessária obra de renovação das instituições e das
estruturas da Igreja é um meio que deve levar-nos a fazer a experiência viva e
vivificante da misericórdia de Deus, a única que pode garantir que a Igreja
seja aquela cidade posta sobre um monte que não pode permanecer escondida (cf.
Mt 5, 14). Só resplandece uma Igreja misericordiosa! Se, por um só momento, nos
esquecêssemos de que a misericórdia é «o que mais agrada a Deus», todos os
nossos esforços seriam vãos, porque nos tornaríamos escravos das nossas instituições
e das nossas estruturas, por mais renovadas que possam ser. Mas seríamos sempre
escravos!
«Sentirmos intensamente em nós a alegria de ter sido reencontrados
por Jesus que veio, como Bom Pastor, à nossa procura, porque nos tínhamos
extraviado» (Homilia nas Primeiras Vésperas do Domingo da Divina Misericórdia,
11 de Abril de 2015): eis a finalidade que a Igreja se propõe neste Ano Santo.
Assim fortaleceremos em nós a certeza de que a misericórdia pode contribuir
realmente para a edificação de um mundo mais humano. Especialmente nesta nossa
época, em que o perdão é um hóspede raro nos âmbitos da vida humana, a
exortação à misericórdia faz-se mais urgente, e isto em todos os lugares: na
sociedade, nas instituições, no trabalho e também na família.
Sem dúvida, alguém poderia objectar: «Mas Padre, neste Ano, a
Igreja não deveria fazer algo mais? É bom contemplar a misericórdia de Deus,
mas há muitas necessidades urgentes!». É verdade, há muito para fazer, e eu sou
o primeiro que não me canso de o recordar. Mas é preciso ter em consideração
que, na raiz do esquecimento da misericórdia está sempre o amor-próprio. No
mundo, ele assume a forma da busca exclusiva dos próprios interesses, de
prazeres e honras unidas ao desejo de acumular riquezas, enquanto na vida dos
cristãos se disfarça muitas vezes de hipocrisia e mundanidade. Tudo isto é
contrário à misericórdia. Os impulsos do amor-próprio, que tornam alheia a
misericórdia no mundo, são tantos e tão numerosos que muitas vezes nem sequer
somos capazes de os reconhecer como limites e como pecado. Eis porque é
necessário reconhecer que somos pecadores, para revigorar em nós a certeza da
misericórdia divina. «Senhor, sou um pecador; Senhor, sou uma pecadora: vem com
a tua misericórdia!». É uma oração muito bonita. É uma prece fácil de recitar
todos os dias: «Senhor, sou um pecador; Senhor, sou uma pecadora: vem com a tua
misericórdia!».
Queridos irmãos e irmãs, faço votos de que neste Ano Santo cada um
de nós viva a experiência da misericórdia de Deus, para ser testemunha do que
«mais agrada a Ele». É ingénuo crer que isto possa mudar o mundo? Sim,
humanamente falando é uma loucura; mas «a loucura de Deus é mais sábia do que
os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Cor 1, 25). (cf. Santa Sé)