SOLENIDADE DA EPIFANIA DO
SENHOR
A Igreja celebra neste Domingo, 3 de Janeiro, a Solenidade da
Epifania do Senhor. Antecipando a liturgia própria do 6 de Janeiro, a Igreja
anuncia que Jesus, nascido em Belém, é a Luz que quer iluminar os corações dos
homens e mulheres do mundo inteiro. Na figura dos ‘Magos’ presentes do
presépio, a Igreja vê todos os que procuram o Senhor e acolhem a sua mensagem
de vida. Apresentamos algumas partes da homilia, proferida pelo Papa Bento XVI,
no dia 6 de Janeiro de 2013, na Basílica de São Pedro, em Roma:
“…A Igreja chama a esta festa «Epifania» – a manifestação do
Divino. Se considerarmos o facto de que desde então homens de todas as
proveniências, de todos os continentes, das mais diversas culturas e das
diferentes formas de pensamento e de vida se puseram, e estão, a caminho de
Cristo, podemos verdadeiramente dizer que esta peregrinação e este encontro com
Deus na figura do Menino é uma Epifania da bondade de Deus e do seu amor pelos
homens (cf. Tt 3, 4)… Os homens que então partiram rumo ao desconhecido
eram, em definitiva, pessoas de coração inquieto; homens inquietos movidos pela
busca de Deus e da salvação do mundo; homens à espera, que não se contentavam
com seus rendimentos assegurados e com uma posição social provavelmente
considerável, mas andavam à procura da realidade maior. Talvez fossem homens
eruditos, que tinham grande conhecimento dos astros e, provavelmente, dispunham
também duma formação filosófica; mas não era apenas saber muitas coisas que
queriam; queriam sobretudo saber o essencial, queriam saber como se consegue
ser pessoa humana. E, por isso, queriam saber se Deus existe, onde está e como
é; se Se preocupa connosco e como podemos encontrá-Lo. Queriam não apenas
saber; queriam conhecer a verdade acerca de nós mesmos, de Deus e do mundo. A
sua peregrinação exterior era expressão deste estar interiormente a caminho, da
peregrinação interior do seu coração. Eram homens que buscavam a Deus e, em
última instância, caminhavam para Ele; eram indagadores de Deus… Eles eram
também e sobretudo homens que tinham coragem; tinham a coragem e a humildade da
fé. Era preciso coragem a fim de acolher o sinal da estrela como uma ordem para
partir, para sair rumo ao desconhecido, ao incerto, por caminhos onde havia
inúmeros perigos à espreita. Podemos imaginar que a decisão destes homens tenha
provocado sarcasmo: o sarcasmo dos ditos realistas que podiam apenas zombar das
fantasias destes homens. Quem partia baseado em promessas tão incertas,
arriscando tudo, só podia aparecer como ridículo. Mas, para estes homens
tocados interiormente por Deus, era mais importante o caminho segundo as
indicações divinas do que a opinião alheia. Para eles, a busca da verdade era
mais importante que a zombaria do mundo, aparentemente inteligente…Os Magos
seguiram a estrela e assim chegaram a Jesus, à grande Luz que, vindo ao mundo,
ilumina todo o homem (cf. Jo 1, 9). Como peregrinos da fé, os Magos
tornaram-se eles mesmos estrelas que brilham no céu da história e nos indicam a
estrada. Os santos são as verdadeiras constelações de Deus, que iluminam as
noites deste mundo e nos guiam. São Paulo, na Carta aos Filipenses,
disse aos seus fiéis que devem brilhar como astros no mundo (cf. 2, 15)…” (cf. Santa Sé)
HOMILIA DO SENHOR
BISPO DO
PORTO
- no dia 1 de Janeiro, na Sé do Porto,
solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
1. Iniciamos o Novo Ano, aconchegados pelo ambiente de festa e
envolvidos pela alegria que o Natal nos deu, ao celebrarmos o nascimento de
Jesus, Filho de Deus. Realça-se na liturgia desta celebração do dia primeiro do ano a
figura da Mãe de Jesus.
Este é o dia para que, ao longo de todo o ano, a humanidade, que
nós somos, possa encontrar a presença divina impressa na ternura de Santa
Maria, Mãe de Deus.
Pensamos, neste dia, com particular afeto e sentida gratidão em
todas as mães, as nossas mães e as mães em todo o mundo: mães felizes de filhos
felizes; mães ansiosas em momentos de dúvidas e de interrogações face ao futuro
dos filhos; mães feridas pela dor diante da doença ou da morte dos filhos; mães
sem trabalho, sem terra e sem teto para os seus filhos; mães heroicas que
vencem desânimos em horas de incerteza e de insegurança; mães discretas mas
presentes, mesmo quando os filhos estão distantes.
Se não respeitarmos as mães dificilmente teremos quem cuide da
humanidade. Se não afirmarmos o valor sagrado e não defendermos a missão
insubstituível da maternidade e da paternidade colocamos em risco a essência da
vida e pomos em perigo o futuro da própria humanidade.
As mães são berço e regaço; são abrigo e escola; são dom que não
se retribui e bênção que nunca se esgota; são porta de casa aberta para nos
acolher e mesa de família preparada para partilhar o pão, a alegria, a serenidade
e a paz. Obrigado mães!
2. A Igreja começa, cada ano, sob o signo da paz, vivendo desde
1967, por vontade expressa de Paulo VI, o dia 1 de Janeiro como Dia mundial da
Paz.
O Papa Francisco, a exemplo dos seus antecessores, enviou-nos uma
oportuna mensagem para este dia, sob o título: “Vence a indiferença e conquista
a paz”. Ele dirige esta mensagem a todos nós, consciente de que “a paz é dom de
Deus, confiado a todos os homens e mulheres, que são chamados a realizá-lo” (Mensagem,
n.º 1).
Nesta mensagem, o Papa Francisco não esconde, não ilude nem ignora
as muitas situações dolorosas que a humanidade viveu em 2015. Basta lembrar os
atentados terroristas de Paris e de Bruxelas, as guerras intermináveis da
Síria, do Iraque ou da Ucrânia, as perseguições dos cristãos martirizados na
Nigéria, na Índia e em tantos outros lugares do mundo e as vagas contínuas de
refugiados, que batem à porta da Europa.
Apesar de tudo isso, o Papa convida-nos a “conservar as razões de
esperança”, a “vencer as formas de indiferença”, a não deixar “ameaçar a paz
pela indiferença globalizada”, a sabermos passar “da indiferença à misericórdia
pela conversão de coração”, a “fomentar uma cultura de solidariedade e
misericórdia para se vencer a indiferença”, consciente de que a paz só pode ser
“fruto de solidariedade, de misericórdia e de compaixão” (Mensagem para o Dia
da Paz, 2016).
3. Somos, igualmente, convidados pelo Papa Francisco a viver este
ano com o espírito do Jubileu da Misericórdia e somos “chamados a cumprir
gestos concretos, atos corajosos a bem das pessoas frágeis da sociedade, como
os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes (Mensagem, n.º 8).
Bastava que houvesse na nossa cidade apenas um recluso,
desempregado, refugiado, emigrante ou doente, para que tudo fizéssemos por ele.
Mas são mais de 3. 500 os reclusos nos estabelecimentos prisionais sedeados na
área da nossa diocese; os Centros Hospitalares do Porto, Vila Nova de Gaia,
Matosinhos, Penafiel e de Santa Maria da Feira estão ocupados por inteiro e, às
vezes, mesmo superlotados de doentes; aumentou a emigração de gente nova, cheia
de talento, que partiu para o estrangeiro, levada pelo sonho e pela aventura
mas sobretudo pela falta de trabalho em Portugal; continuam a chegar migrantes
do interior do nosso país e imigrantes vindos de outros países do mundo;
começamos já a receber as primeiras famílias de refugiados da Síria, a quem
devemos acolher como irmãos e respeitar na sua dignidade e diferença; temos
pobres que diariamente batem à porta das nossas casas, paróquias e instituições
a pedir pão, a procurar casa e a sonhar trabalho.
Felizmente não faltam nesta nossa terra de gente solidária,
pessoas de bem em grande número, com imensa generosidade e reconhecida
competência, que trabalham com alegrias em todas as fronteiras de missão, a que
se juntam milhares de voluntários criativos, bem formados e interventivos. Este
é, por isso, um dia de gratidão e de bênção! Uma bênção pedida a Deus e d’Ele
recebida, como nos lembrava, na primeira leitura, o Livro dos Números: “O
Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te
seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz” (Num
6, 22-27).
4. O Papa Francisco afirma, ao abrir a sua mensagem: “Deus não é
indiferente; importa-lhe a humanidade! Deus não a abandona!” (Mensagem, n.º 1).
Seja assim connosco, também: importa-nos a humanidade! No seu melhor e no seu
pior!
Queremos servir a humanidade, chão e tempo por nós habitado, com
gestos de bondade, de misericórdia e de compaixão! Com a procura do perdão, o
esforço da reconciliação, a magnanimidade da misericórdia e o dom sublime da
paz.
Importa-nos a humanidade no melhor do seu coração em tanta gente
de bem, em tantos servidores irmãos dos pobres, em tantos governantes e
educadores, genuinamente atentos e permanentemente preocupados com a dignidade
humana e com o bem comum.
Importa-nos a humanidade na capacidade encontrada em tantas
instituições e pessoas para ir a todas as periferias, sentar à sua mesa os
pobres, cuidar dos doentes, alavancar os frágeis, corrigir os que erram e
sofrer com paciência as injúrias do próximo.
Importa-nos a humanidade porque tocamos aí a carne sofredora de
Cristo e o peso doloroso da cruz redentora nos que sofrem a indiferença, a
infâmia e o ódio.
Importa-nos a humanidade quando corre sangue humano no interior de
casas agredidas pela violência doméstica, quando sofrem os inocentes magoados
pela pobreza, pela doença, pela injustiça e pela guerra, porque Deus não a
abandona, mesmo que nos possa parecer que nessas horas está distante, silenciou
a sua voz ou não ouve o nosso clamor.
Importa-nos a humanidade, esta humanidade, de que é feita também a
Igreja, esta amada Igreja do Porto, convidada a viver um Ano santo da
Misericórdia, decidida a ser Igreja de discípulos missionários, compassivos e
pacíficos e determinada a fazer da “Alegria do Evangelho a nossa Missão” e a
proclamar: “Felizes os misericordiosos!”
Importa-nos a humanidade, porque na nossa humanidade está Deus,
que nos enviou o seu Filho e O fez membro da humanidade que nós somos.
5. Rezo e rezamos todos a Santa Maria, Mãe de Deus e Rainha da
Misericórdia e da Paz, para que nos conceda um ano de bênção e que aconchegue a
si os filhos mais frágeis e pequeninos; acalente os mais ansiosos e desanimados;
fortaleça os mais débeis e inconstantes; recompense os misericordiosos,
incentive os construtores da paz e faça surgir no terreno fecundo da nossa
diocese servidores da messe.
Faço minha e de todos nós a oração do Papa Francisco, ao concluir
a sua mensagem para este dia: “Confio à intercessão de Maria Santíssima, Mãe
solícita pelas necessidades da humanidade, para que nos obtenha de Seu Filho
Jesus, Príncipe da Paz, a satisfação das nossas súplicas e a bênção do nosso
compromisso diário por um mundo fraterno e solidário” (Mensagem n.º 7).
Feliz e abençoado Ano Novo!

