PALAVRA DO PAPA FRANCISCO
- na Audiência-Geral, na Praça
de São Pedro – Roma, no dia 1 de Junho
de 2016
Bom dia, amados irmãos e irmãs!
Um dia, Jesus, aproximando-se da cidade de Jericó, fez o milagre
de restituir a vista a um cego que mendigava sentado à beira do caminho (cf. Lc
18, 35-43). Hoje, queremos compreender o significado deste sinal porque diz
respeito directamente também a nós. O evangelista Lucas conta que aquele cego
estava sentado à beira do caminho, pedindo esmola (cf. v. 35). Um cego,
naqueles tempos, — mas também até há pouco tempo — só podia viver de esmolas. A
figura deste cego representa muitas pessoas que, inclusive hoje, se encontram
marginalizadas por causa de uma deficiência física ou de outro tipo. Está
afastado da multidão, está ali enquanto as pessoas passam atarefadas, absortas
nos seus pensamentos e em tantas coisas... E as estradas, que podem ser um
lugar de encontro, para ele são, ao contrário, um lugar de solidão. Uma multidão
que passa... E ele sozinho.
É triste a imagem de um marginalizado, sobretudo com o pano de fundo
da cidade de Jericó, o maravilhoso e luxuriante oásis no deserto. Sabemos que,
precisamente a Jericó, chegou o povo de Israel no final de um longo êxodo do
Egipto: aquela cidade representa a porta de entrada na terra prometida.
Recordemos as palavras que Moisés pronuncia, naquela circunstância: «Se houver
no meio de ti um pobre - entre os teus irmãos, numa das tuas cidades, na terra
que te dá o Senhor, teu Deus - não endurecerás o teu coração e não fecharás a
mão diante do teu irmão pobre; pois nunca faltarão pobres na terra e, por isso,
dou-te esta ordem: abre tua mão ao teu irmão necessitado ou ao pobre que vive
na tua terra» (Dt 15, 7.11). É gritante o contraste entre esta recomendação da
Lei de Deus e a situação descrita pelo Evangelho: enquanto o cego gritava,
invocando Jesus, as pessoas repreendiam-no para que se calasse, como se não
tivesse direito de falar. Não têm compaixão por ele, aliás, ficam incomodadas
com os seus gritos. Quantas vezes, nós, ao ver muita gente na estrada — gente
necessitada, doente, que não tem o que comer — ficamos incomodados. Quantas
vezes, quando nos deparamos com numerosos migrantes e refugiados, ficamos
incomodados. É uma tentação que todos temos. Todos, até eu! É por isso que a
Palavra de Deus nos admoesta, recordando-nos que a indiferença e a hostilidade
tornam-nos cegos e surdos, impedem que vejamos os irmãos e não permitem que
reconheçamos o Senhor neles. Indiferença e hostilidade!... E, por vezes, esta
indiferença e hostilidade transformam-se, também, em agressões e insultos:
«mandai embora toda esta gente!», «ponde-os noutro lugar!». Esta agressão é a
mesma que faziam as pessoas quando o cego gritava: «mas, vai-te embora, por
favor, não fales, não grites».
Observemos um pormenor interessante. O Evangelista diz que alguém,
no meio da multidão, explicou ao cego o motivo da presença de todas aquelas
pessoas, dizendo: «Passa Jesus, o Nazareno!» (v. 37). A passagem de Jesus está
indicada com o mesmo verbo com o qual, no livro do Êxodo, se fala da passagem
do anjo exterminador, que salva os Israelitas, na terra do Egipto (cf. Êx. 12,
23). É a «passagem» da Páscoa, o início da libertação: quando Jesus passa, há
sempre libertação, sempre salvação! Portanto, ao cego é como se fosse anunciada
a sua Páscoa. Sem se deixar atemorizar, o cego grita várias vezes em direcção a
Jesus, reconhecendo-o como o Filho de David, o Messias esperado que, segundo o
profeta Isaías, abriria os olhos aos cegos (cf. Is 35, 5). Diferentemente da
multidão, este cego vê com os olhos da fé. Graças a ela, a sua súplica tem
grande eficácia. Com efeito, ao ouvir a sua voz, «Jesus parou e mandou que lho
trouxessem» (v. 40). Deste modo, Jesus tira o cego da beira do caminho e
coloca-o no centro da atenção dos seus discípulos e da multidão. Pensemos,
também nós - quando estivemos em situações difíceis, inclusive em situações de
pecado - que foi o próprio Jesus quem nos pegou pela mão e nos tirou da beira
da estrada para nos dar a salvação. Realiza-se, assim, uma dúplice passagem.
Primeiro: as pessoas tinham anunciado uma boa nova ao cego, mas não queriam ter
nada a ver com ele; agora, Jesus obriga todos a tomar consciência de que ser
bom samaritano implica pôr no centro do próprio caminho aquele que estava
excluído. Segundo: por sua vez, o cego não via, mas a sua fé abre-lhe o caminho
da salvação, e ele depara-se no meio de quantos desciam pelas ruas para ver
Jesus. Irmãos e irmãs, a passagem do Senhor é um encontro de misericórdia que
une todos à volta d’Ele para permitir que reconheçamos quem necessita de ajuda
e de conforto. Jesus passa também na nossa vida; e, quando passa Jesus, eu
dou-me conta, é um convite a aproximar-me d’Ele, a ser mais bondoso, a ser um
cristão melhor, a seguir Jesus.
Jesus dirige-se ao cego e pergunta-lhe: «Que queres que eu te faça?»
(v. 41). Estas palavras de Jesus são surpreendentes: o Filho de Deus, agora,
está em frente do cego como um servo humilde. Ele, Jesus, Deus, diz: «Mas, que
queres que eu te faça? Como queres que eu te sirva?». Deus faz-se servo do
homem pecador. E o cego responde a Jesus, já não chamando-lhe «Filho de David»,
mas «Senhor», o título que a Igreja, desde o início, aplica a Jesus
Ressuscitado. O cego pede para poder voltar a ver e o seu desejo é atendido:
«Recupera a vista! Vai, a tua fé te salvou» (v. 42). Ele mostrou a sua fé
invocando Jesus e querendo, absolutamente, encontrá-lo; isto trouxe-lhe o dom da
salvação. Graças à fé, agora pode ver e, sobretudo, sente-se amado por Jesus.
Por esta razão, a narração termina referindo que o cego «começou a segui-lo,
glorificando a Deus» (v. 43): torna-se discípulo. De mendigo a discípulo… Também
este é o nosso caminho: todos nós somos mendigos, todos. Precisamos sempre de
salvação. E todos nós, todos os dias, devemos dar este passo: de mendigos a
discípulos. Deste modo, seguindo o Senhor, o cego entra a fazer parte da sua
comunidade. Aquele que queriam silenciar, agora testemunha, em voz alta, o seu
encontro com Jesus de Nazaré, e «todo o povo, vendo isto, deu louvor a Deus»
(v. 43). Deu-se um segundo milagre: o que aconteceu ao cego faz com que também
o povo veja. A mesma luz ilumina todos, unindo-os na oração de louvor. Assim,
Jesus infunde a sua misericórdia sobre todos os que encontra: chama-os, faz com
que venham ter com ele, reúne-os, cura-os e ilumina-os, criando um novo povo
que celebra as maravilhas do seu amor misericordioso. Deixemo-nos também nós
chamar por Jesus, e deixemo-nos curar por Jesus, perdoar por Jesus, e vamos
atrás de Jesus louvando a Deus. Assim seja! (cf. Santa Sé)
