- na Audiência-Geral, na Praça
de São Pedro – Roma, no dia 1 de Junho
de 2016
Bom dia, amados irmãos e irmãs!
Antes de dar início à catequese, gostaria de saudar um grupo de casais
que celebram as bodas de ouro. Este sim é «o vinho bom» da família! O vosso é
um testemunho que os recém-casados — que saudarei mais tarde — e os jovens
devem aprender. É um bonito testemunho. Obrigado pelo vosso testemunho. Depois
de ter comentado algumas parábolas da misericórdia, hoje vamos reflectir sobre
o primeiro dos milagres de Jesus, que o Evangelista João chama «sinais», porque
Jesus não os realizou para suscitar admiração, mas para revelar o amor do Pai.
O primeiro destes sinais prodigiosos é narrado precisamente por João (2, 1-11)
e realiza-se em Caná da Galileia. Trata-se de uma espécie de «portal de
entrada», no qual são esculpidas palavras e expressões que iluminam o inteiro
mistério de Cristo e abrem o coração dos discípulos à fé. Vejamos algumas
delas.
Na introdução encontramos a expressão «Jesus com os seus
discípulos» (v. 2). Aqueles que Jesus tinha chamado para O seguir, uniu-os a si
numa comunidade e então, como uma família única, tinham sido convidados para as
núpcias. Dando início ao seu ministério público nas bodas de Caná, Jesus
manifesta-se como o esposo do povo de Deus, anunciado pelos profetas, e
revela-nos a profundidade da relação que nos une a Ele: é uma nova Aliança de
amor. Qual é o fundamento da nossa fé? Um acto de misericórdia com o qual Jesus
nos uniu a si. E a vida cristã é a resposta a este amor, é como a história de
dois namorados. Deus e o homem encontram-se, procuram-se, acham-se, celebram-se
e amam-se: exactamente como o amado e a amada no Cântico dos Cânticos. Todo o
resto vem como consequência desta relação. A Igreja é a família de Jesus sobre
a qual derrama o seu amor; é este amor que a Igreja conserva e deseja doar a
todos.
No contexto da Aliança, compreende-se também a observação de Nossa
Senhora: «Já não têm vinho» (v. 3). Como é possível celebrar as núpcias e
festejar se falta o que os profetas indicam como um elemento típico do banquete
messiânico (cf. Am 9, 13-14; Gl 2, 24;
Is 25, 6)? A água é necessária para viver, mas o vinho exprime a abundância do
banquete e a alegria da festa. É uma festa de casamento na qual falta o vinho;
os noivos envergonham-se disso. Mas imaginai terminar uma festa de casamento
bebendo chá; seria uma vergonha. O vinho é necessário para a festa.
Transformando em vinho a água das ânforas, utilizadas «para a purificação
ritual dos judeus» (v. 6), Jesus realiza um sinal eloquente: transforma a Lei
de Moisés em Evangelho, portador de alegria. Como disse o próprio João, noutro
excerto: «A Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus
Cristo» (1, 17).
As palavras que Maria dirige aos serventes coroam o quadro
esponsal de Caná: «Fazei o que ele vos disser» (v. 5). É curioso: são as suas
últimas palavras narradas pelos Evangelhos. São a sua herança que entregou a
todos nós. Também hoje Nossa Senhora diz a todos nós: «Fazei o que ele — Jesus
— vos disser». Eis a herança que nos deixou: é bonito! Trata-se de uma
expressão que evoca a fórmula de fé utilizada pelo povo de Israel no Sinai em
resposta às promessas da aliança: «Faremos tudo o que o Senhor disser!» (Êx 19,
8). E, com efeito, em Caná, os servos obedeceram. «Jesus ordena-lhes: Enchei as
ânforas de água. Eles encheram-nas até cima. Tirai agora, disse-lhes Jesus, e
levai ao chefe dos serventes. E levaram» (vv. 7-8). Nestas núpcias, foi deveras
estabelecida uma Nova Aliança e aos servos do Senhor, isto é a toda a Igreja,
foi confiada a nova missão: «Fazei o que ele vos disser!». Servir o Senhor
significa ouvir e praticar a sua Palavra. Foi a recomendação simples mas
essencial da Mãe de Jesus e é o programa de vida do cristão. Para cada um de
nós, beber da ânfora equivale a confiar-nos à Palavra de Deus para sentir a sua
eficácia na vida. Então, juntamente com o chefe dos serventes, que experimentou
a água que se transformou em vinho, que também nós possamos exclamar:
«Guardaste o vinho melhor até agora» (v. 10). Sim, o Senhor continua a reservar
aquele vinho bom para a nossa salvação, assim como continua a brotar do lado
trespassado do Senhor.
A conclusão da narração soa como uma sentença: «Este foi o
primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua
glória, e os seus discípulos creram nele» (v. 11). As bodas de Caná representam
muito mais do que a simples narração do primeiro milagre de Jesus. Como um
relicário, Ele conserva o segredo da sua pessoa e a finalidade da sua vinda: o
esperado Esposo dá início às núpcias que se realizam no Mistério pascal. Nestas
bodas, Jesus une a si os seus discípulos com uma Aliança nova e definitiva. Em
Caná, os discípulos de Jesus tornam-se a sua família e, em Caná, nasce a fé da
Igreja. Para aquelas bodas todos somos convidados, a fim de que o vinho novo já
não venha a faltar! (cf. Santa
Sé)
