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na Audiência-Geral, dia 9 de Novembro de
2016, na Praça de São Pedro - Roma
Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
Dedicamos a catequese de hoje a uma obra de misericórdia que todos
conhecemos muito bem, mas que talvez não a ponhamos em prática como deveríamos:
suportar pacientemente as pessoas inoportunas. Todos somos capazes de
identificar uma presença que pode incomodar: acontece quando encontramos alguém
pela rua, ou quando recebemos um telefonema... Imediatamente pensamos: «Por
quanto tempo tenho de ouvir as lamentações, as conversas, as solicitações ou as
ostentações desta pessoa?». Às vezes, acontece até que as pessoas inoportunas
são as mais próximas de nós: entre os parentes, há sempre alguma; no lugar de
trabalho, nunca faltam; e nem no tempo livre ficamos isentos delas. O que
devemos fazer com as pessoas inoportunas? Mas também nós, muitas vezes, somos
inoportunos para os outros. Por que é que entre as obras de misericórdia também
ela está inserida? Suportar pacientemente as pessoas inoportunas?
Na Bíblia, vemos que o próprio Deus deve usar misericórdia para
suportar as lamentações do seu povo. Por exemplo, no livro do Êxodo, o povo
resulta deveras insuportável: primeiro chora porque é escravo no Egipto, e Deus
liberta-o; depois, no deserto, lamenta-se porque não tem o que comer (cf. 16,
3), e Deus manda-lhe o maná (cf. 16, 13-16) e, não obstante tudo, as lamentações
não cessam. Moisés era o mediador entre Deus e o povo, e também ele às vezes
foi inoportuno para o Senhor. Mas Deus teve paciência e assim ensinou a Moisés
e ao povo esta dimensão essencial da fé.
Portanto, surge espontânea uma primeira pergunta: às vezes,
fazemos o exame de consciência para verificar se também nós resultamos
inoportunos aos outros? É fácil apontar o dedo contra defeitos e falhas dos
outros, mas devemos aprender a pôr-nos no lugar dos outros.
Olhemos sobretudo para Jesus: quanta paciência teve nos três anos
da sua vida pública! Certa vez, enquanto caminhava com os discípulos, foi
interpelado pela mãe de Tiago e João, a qual lhe disse: «Ordena que estes meus
dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda»
(Mt 20, 21). A mãe fazia ‘lobby’ pelos seus filhos, mas era a mãe... Jesus
aproveita também esta situação para oferecer um ensinamento fundamental: o seu
não é um reino de poder, e não é um reino de glória como os terrenos, mas de
serviço e doação aos outros. Jesus ensina a ir sempre ao essencial e a olhar
mais longe para assumir, com responsabilidade, a própria missão. Poderíamos ver
aqui a evocação a outras duas obras de misericórdia espiritual: advertir os
pecadores e ensinar os ignorantes. Pensemos no grande compromisso que podemos
assumir quando ajudamos as pessoas a crescer na fé e na vida. Por exemplo, os
catequistas — entre os quais se inserem muitas mães e religiosas — que dedicam
tempo para ensinar aos jovens os elementos basilares da fé. Quanto esforço
sobretudo quando os jovens prefeririam divertir-se a ouvir o catecismo!
Acompanhar na busca do essencial é bom e importante, porque nos
faz partilhar a alegria de saborear o sentido da vida. Com frequência, acontece
que nos encontramos com pessoas que dão importância a aspetos superficiais,
efémeros e banais; muitas vezes porque não encontraram alguém que as
estimulasse a procurar outra coisa, a apreciar os tesouros verdadeiros. Ensinar
a olhar para o essencial é uma ajuda determinante, especialmente numa época
como a nossa que parece ter perdido a orientação e persegue satisfações a curto
prazo. Ensinar a descobrir o que o Senhor quer de nós e como lhes podemos
corresponder, significa pôr-nos a caminho para crescer na própria vocação, na
vereda da alegria autêntica. Assim, as palavras de Jesus à mãe de Tiago e João,
e depois ao grupo inteiro dos discípulos, indicam o caminho para evitar a queda
na inveja, na ambição e na adulação, tentações que estão sempre à espreita
também entre nós cristãos. A exigência de aconselhar, advertir e ensinar não
nos deve fazer sentir superiores aos outros, mas obriga-nos antes de tudo a
penetrar em nós mesmos para verificar se somos coerentes com quanto exigimos
dos outros. Não nos esqueçamos das palavras de Jesus: «Por que vês tu o
argueiro no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?» (Lc
6, 41). O Espírito Santo nos ajude a ser pacientes no suportar e humildes e
simples no aconselhar. (cf.
Santa Sé)