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na Audiência-Geral, dia 9 de Novembro de
2016, na Praça de São Pedro - Roma
Bom dia, prezados irmãos e irmãs!
Acabado o jubileu, hoje voltamos à normalidade, mas permanecem
ainda algumas reflexões sobre as obras de misericórdia, e assim continuaremos a
falar sobre isso.
A reflexão sobre as obras de misericórdia espiritual hoje diz
respeito a duas acções fortemente interligadas entre elas: aconselhar os
duvidosos e ensinar aos ignorantes, ou seja, a quantos não sabem. A palavra
ignorante é demasiado forte, mas quer dizer: aqueles que não sabem algo e aos
quais se deve ensinar. São obras que se podem viver quer numa dimensão simples,
familiar, ao alcance de todos, quer — especialmente a segunda, a de ensinar —
num plano mais institucional, organizado. Pensemos, por exemplo, em quantas
crianças sofrem ainda de analfabetismo. Não se pode compreender isto: num mundo
onde o progresso técnico-científico chegou a um patamar tão alto, há crianças
analfabetas! É uma injustiça. Quantas crianças sofrem por falta de instrução. É
uma condição de grande injustiça que mina a própria dignidade da pessoa. Além
disso, sem instrução tornam-se facilmente reféns da exploração e de várias
formas de degradação social.
A Igreja, ao longo dos séculos, sentiu a exigência de se
comprometer no âmbito da instrução porque a sua missão de evangelização
comporta o empenho de restituir dignidade aos mais pobres. Desde o primeiro
exemplo de uma «escola» fundada, precisamente aqui em Roma, por São Justino, no
segundo século, para que os cristãos conhecessem melhor a Sagrada Escritura,
até São José de Calasanz que abriu as primeiras escolas populares gratuitas da
Europa, temos uma longa lista de santos e santas que, em várias épocas, levaram
instrução aos mais desfavorecidos, sabendo que, através deste caminho,
ultrapassariam a miséria e a discriminação. Quantos cristãos - leigos, irmãos e
irmãs consagrados, sacerdotes - dedicaram a sua vida à instrução, à educação
das crianças e dos jovens. Isto é grande: convido-vos a prestar-lhe uma
homenagem com uma calorosa salvas de palma! [aplauso dos fiéis]. Estes
pioneiros da instrução tinham compreendido profundamente a obra de
misericórdia, tornando-a um estilo de vida capaz de transformar a própria
sociedade. Através de um trabalho simples e com poucas estruturas souberam
restituir dignidade a muitas pessoas! E a instrução que proporcionavam era,
muitas vezes, orientada também para o trabalho. Mas pensemos em São João Bosco,
que preparava os meninos de rua para o trabalho, com o oratório e também com as
escolas, os ofícios. Foi assim que surgiram muitas e diversas escolas
profissionais, que habilitavam para o trabalho e educavam nos valores humanos e
cristãos. Portanto, a instrução é deveras uma forma peculiar de evangelização.
Quanto mais cresce a instrução, mais as pessoas adquirem certezas
e consciências, das quais todos necessitamos na vida. Uma boa instrução
ensina-nos o método crítico, que inclui também um certo tipo de dúvida, útil
para colocar perguntas e verificar os resultados alcançados, em vista de um
conhecimento maior.
Mas, a obra de misericórdia de aconselhar os duvidosos não diz
respeito a este tipo de dúvida. Ao contrário, expressar a misericórdia para com
os duvidosos equivale a aliviar aquela dor e aquele sofrimento que provém do
medo e da angústia que são consequências da dúvida. Portanto, é um acto de
verdadeiro amor com o qual se tenciona apoiar uma pessoa na debilidade provocada
pela incerteza.
Penso que alguém poderia questionar-me: «Padre, mas eu tenho tantas
dúvidas sobre a fé: o que devo fazer? O senhor nunca tem dúvidas?». Tenho
muitas... Certamente nalguns momentos as dúvidas surgem para todos! As dúvidas
mexem com a fé, no sentido positivo; são o sinal de que queremos conhecer
melhor e mais profundamente a Deus, Jesus, e o mistério do seu amor por nós.
«Mas, tenho esta dúvida: procuro, estudo, vejo e peço conselhos sobre como
agir». Estas são dúvidas que fazem crescer! Por conseguinte, é bom que façamos
algumas perguntas sobre a nossa fé, porque deste modo somos impelidos a
aprofundá-la. Todavia, as dúvidas devem ser também ultrapassadas. Por isso, é
necessário ouvir a Palavra de Deus, e compreender o que nos ensina. Um caminho
importante que pode ajudar muito neste sentido é a catequese, com a qual o
anúncio da fé vem ao nosso encontro, no concreto da vida pessoal e comunitária.
E há, ao mesmo tempo, outro caminho igualmente importante: o de viver o mais
possível a fé. Não façamos da fé uma teoria abstracta, onde as dúvidas se
multiplicam. Ao contrário, façamos da fé a nossa vida. Procuremos praticá-la no
serviço aos irmãos, especialmente dos mais necessitados. E então, muitas
dúvidas dissipam-se, porque sentimos a presença de Deus e a verdade do Evangelho
no amor que, sem o nosso mérito, habita em nós e compartilhamos com os outros.
Como podemos observar, queridos irmãos e irmãs, também estas duas
obras de misericórdia não estão distantes da nossa vida. Cada um de nós pode
comprometer-se em vivê-las, para pôr em prática a palavra do Senhor quando diz
que o mistério do amor de Deus não foi revelado aos sábios e aos inteligentes,
mas aos pequeninos (cf. Lc 10, 21; Mt 11, 25-26). Portanto, o ensinamento mais
profundo que somos chamados a transmitir e a certeza mais verdadeira para sair
da dúvida, é o amor de Deus com o qual fomos amados (cf. 1 Jo 4, 10). Um grande
amor, gratuito e concedido para sempre. Deus nunca retrocede com o seu amor! Vai
sempre em frente e espera; oferece para sempre o seu amor, do qual devemos
sentir grande responsabilidade, para sermos o seu testemunho, oferecendo
misericórdia aos nossos irmãos. Obrigado. (cf. Santa Sé)