PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…Saiu o semeador a semear… ” (cf. Mateus 13, 3) Jesus, quando falava, usava uma linguagem simples e servia-se também de imagens, que eram exemplos tirados da vida diária, a fim de poder ser compreendido facilmente por todos. Por isso, gostavam de o ouvir e apreciavam a sua mensagem que ia directamente ao coração; e não era aquela linguagem difícil de compreender que usavam os doutores da Lei da época, que não se entendia bem, era rígida e afastava o povo. E, com esta linguagem, Jesus fazia compreender o mistério do Reino de Deus; não era uma teologia complicada. E o Evangelho de hoje dá-nos um exemplo: a parábola do semeador (cf. Mt 13, 1-23). O semeador é Jesus. Observamos que, com esta imagem, Ele apresenta-se como alguém que não se impõe, mas se propõe; não nos atrai conquistando-nos, mas doando-se: lança a semente. Ele espalha, com paciência e generosidade, a sua Palavra, que não é uma gaiola, nem uma armadilha, mas uma semente que pode dar fruto. E como pode dar fruto? Se a acolhermos. Por isso, a parábola diz respeito, sobretudo, a nós: com efeito, ela fala mais do terreno do que do semeador. Jesus faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai. O nosso coração, como um terreno, pode ser bom e, então, a Palavra dá fruto - e muito – mas, pode, também, ser duro, impermeável. Isto acontece quando ouvimos a Palavra, mas ela escorrega, precisamente, como numa estrada: não entra. Entre o terreno bom e a estrada, o asfalto - se lançarmos uma semente na «calçada», nada cresce – há, contudo, dois terrenos intermédios que, de maneiras diversas, podemos ter em nós. O primeiro, diz Jesus, é o pedregoso. Tentemos imaginar: um terreno pedregoso é um terreno «onde não há muita terra» (cf. v. 5), e portanto a semente germina, mas não consegue ganhar raízes profundas. É assim o coração superficial, que acolhe o Senhor, quer rezar, amar e testemunhar, mas não persevera; cansa-se e não cresce. É um coração sem consistência, no qual as pedrinhas da preguiça prevalecem sobre a terra boa; onde o amor é inconstante e passageiro. Mas, quem acolhe o Senhor só quando lhe apetece, não dá fruto. Depois, há o último terreno, o espinhoso, cheio de sarças que sufocam as plantas boas. O que representam estas sarças? «A preocupação do mundo e a sedução da riqueza» (v. 22), assim diz Jesus, explicitamente. As sarças são os vícios que estão em contraste com Deus; que sufocam a sua presença: antes de tudo, os ídolos da riqueza mundana, viver, avidamente, para si mesmos, pelo ter e pelo poder. Se cultivarmos estas sarças, sufocamos o crescimento de Deus em nós. Cada um pode reconhecer as suas sarças pequenas ou grandes; os vícios que habitam no seu coração; os arbustos mais ou menos radicados que não agradam a Deus e impedem que se tenha o coração limpo. É necessário arrancá-los, senão a Palavra não dará fruto; a semente não crescerá. Queridos irmãos e irmãs, Jesus convida-nos, hoje, a olhar para dentro de nós: a agradecer pelo nosso terreno bom e a trabalhar nos terrenos que ainda o não são. Perguntemo-nos se o nosso coração está aberto para acolher, com fé, a semente da Palavra de Deus. Questionemo-nos se os nossos pedregulhos da preguiça ainda são muitos e grandes; encontremos e chamemos pelo nome as sarças dos vícios. Encontremos a coragem para limpar o terreno, uma boa limpeza do nosso coração, levando ao Senhor, na Confissão e na oração, as nossas pedrinhas e as nossas sarças. Fazendo assim, Jesus, o bom samaritano, será feliz ao realizar mais um trabalho: purificar o nosso coração, tirando as pedras e os espinhos que sufocam a Palavra. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 169 de Julho de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  dia 30 de Novembro de 2016, na Praça de São Pedro - Roma

Bom dia, prezados irmãos e irmãs!

Com a catequese de hoje concluímos o ciclo dedicado à misericórdia. As catequeses acabam mas a misericórdia deve continuar! Demos graças a Deus por tudo isto, conservando-o no coração como consolação e conforto.
A última obra de misericórdia espiritual pede que se reze pelos vivos e pelos defuntos. Ao seu lado, podemos pôr também a última obra de misericórdia corporal que exorta a sepultar os mortos. Este último pedido pode parecer estranho mas, nalgumas regiões do mundo - nas quais se vive sob o flagelo da guerra, com bombardeamentos que dia e noite semeiam medo e vítimas inocentes - esta obra é tristemente actual. A Bíblia oferece um bonito exemplo a este propósito: o do velho Tobit que, arriscando a própria vida, sepultava os mortos, apesar da proibição do rei (cf. Tb 1, 17-19; 2, 2-4). Também hoje, há quem põe em risco a vida para dar sepultura às pobres vítimas das guerras. Por conseguinte, esta obra de misericórdia corporal não está distante da nossa existência diária. E faz-nos pensar no que acontece na Sexta-Feira Santa, quando a Virgem Maria, com João e algumas mulheres estavam ao pé da cruz de Jesus. Depois da sua morte, veio José de Arimateia, um homem rico, membro do Sinédrio que se tornou discípulo de Jesus, e ofereceu-lhe o seu sepulcro novo, escavado na rocha. Foi pessoalmente ter com Pilatos e pediu o corpo de Jesus: uma verdadeira obra de misericórdia, realizada com grande coragem (cf. Mt 27, 57-60)! Para os cristãos, a sepultura é um acto de piedade e também de grande fé. Depomos, no túmulo, o corpo dos nossos entes queridos com a esperança da sua ressurreição (cf. 1 Cor 15, 1-34). Este rito permanece muito forte e sentido no nosso povo, e encontra ressonâncias especiais no mês de Novembro, dedicado em particular à recordação e à oração pelos defuntos.
Rezar pelos defuntos, antes de tudo, é um sinal de gratidão pelo testemunho que nos deixaram e pelo bem que praticaram. É uma acção de graças ao Senhor por no-los ter dado e pelo seu amor e amizade. A Igreja reza pelos defuntos, de modo particular durante a Santa Missa. O sacerdote diz: «Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas que partiram antes de nós marcados com o sinal da fé e agora dormem o sono da paz. Concedei-lhes, Senhor, a eles e a todos os que descansam em Cristo, o lugar da consolação, da luz e da paz» (Cânone romano). Uma recordação simples, eficaz, cheia de significado, porque confia os nossos entes queridos à misericórdia de Deus. Rezemos com esperança cristã para que estejam com Ele no paraíso, na expectativa de nos encontrarmos naquele mistério de amor que não compreendemos, mas que sabemos ser verdadeiro porque é uma promessa que Jesus fez. Todos ressuscitaremos e permaneceremos para sempre com Jesus, com Ele.

A recordação dos fiéis defuntos não deve fazer com que nos esqueçamos de rezar também pelos vivos, que connosco diariamente enfrentam as provações da vida. A necessidade desta oração é ainda mais evidente se a pusermos à luz da profissão de fé que diz: «Creio na comunhão dos santos». É o mistério que exprime a beleza da misericórdia que Jesus nos revelou. De facto, a comunhão dos santos indica que todos estamos imersos na vida de Deus e vivemos no seu amor. Todos, vivos e defuntos, estamos na comunhão, isto é, como uma união; unidos na comunidade de quantos receberam o Baptismo, e de quantos se alimentaram do Corpo de Cristo e fazem parte da grande família de Deus. Todos somos a mesma família, unidos. E, por isso, rezemos uns pelos outros.
Temos muitos e diversos modos de rezar pelo nosso próximo! Todos são válidos e aceites por Deus se feitos com o coração. Penso, de maneira particular, nas mães e pais que abençoam os seus filhos de manhã e à noite. Ainda permanece este hábito nalgumas famílias: abençoar o filho é uma oração!... Penso na oração pelos doentes, quando vamos visitá-los e rezamos por eles!... Penso na intercessão silenciosa, às vezes com as lágrimas, em muitas situações difíceis pelas quais rezar. Ontem, veio à Missa, em Santa Marta, um homem bom, um empresário. Aquele homem jovem deve fechar a sua fábrica porque não consegue mantê-la e chorava dizendo: «Não tenho coragem de deixar sem trabalho mais de cinquenta famílias. Poderia declarar a falência da empresa: volto para casa com o meu dinheiro, mas o meu coração chorará a vida inteira por estas cinquenta famílias». Eis um bom cristão que reza com as obras: veio à missa para rezar a fim de que o Senhor lhe indique uma solução, não só para ele, mas para as cinquenta famílias. Este é um homem que sabe rezar, com o coração e com as acções; sabe orar pelo próximo. Está numa situação difícil. E não procura a saída mais fácil: «Eles que se arranjem». Este é um cristão. Fez-me muito bem ouvi-lo! E talvez haja tantos como ele, hoje, neste momento em que muitas pessoas sofrem pela falta de trabalho; penso também no agradecimento por uma boa notícia sobre um amigo, um parente, um colega... «Obrigado, Senhor, por esta boa coisa!»,… Também isto é rezar pelos outros! Agradecer ao Senhor quando as coisas correm bem. Às vezes, como diz São Paulo, «não sabemos como rezar de modo conveniente, mas o próprio Espírito intercede com gemidos inexprimíveis» (Rm 8, 26). É o Espírito que ora dentro de nós. Portanto, abramos o nosso coração de maneira que o Espírito Santo, perscrutando os desejos que estão no mais profundo de nós, possa purificá-los e realizá-los. Contudo, por nós e pelos outros, peçamos sempre que se faça a vontade de Deus, como no Pai-Nosso, porque a sua vontade é certamente o maior bem, o bem de um Pai que nunca nos abandona: rezar e deixar que o Espírito Santo reze em nós. Isto é bonito na vida: rezar agradecendo, louvando a Deus, pedindo algo, chorando quando há uma dificuldade, como aquele homem. Mas o coração esteja sempre aberto ao Espírito para que reze em nós, connosco e por nós.
Concluindo estas catequeses sobre a misericórdia, comprometamo-nos a rezar uns pelos outros para que as obras de misericórdia corporais e espirituais se tornem, cada vez mais, o estilo da nossa vida. As catequeses, como disse no início, acabam aqui. Fizemos o percurso das catorze obras de misericórdia mas a misericórdia continua e devemos exercê-la nestes catorze modos. Obrigado. (cf. Santa Sé)