SÃO LOURENÇO
JUSTINIANO
(relembrando…)
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Lourenço Justiniano nasceu no dia 1 de Julho de 1381,
em Veneza, Itália. Era filho de Bernardo di Piero Justiniano - os Justinianos
de Veneza diziam-se descendentes dos imperadores de Bizâncio, (Constantinopla
ou Istanbul, na Turquia actual) e possuíam ricos palácios, tesouros magníficos,
terras, nobreza, muita história e vários santos na família – e de Querina di
Nicolò Querini, dama de igual nobreza. Na
ocasião, Veneza celebrava a reconquista da ilha de Chioggia do domínio dos
genoveses e havia grande alvoroço na cidade. Talvez levada por esse sentimento
patriótico, Querina, ao saber que tinha dado à luz um filho, exclamou: “Deus e
Senhor meu, disponde que este menino seja um dia o sustentáculo do nosso país e
o terror dos seus inimigos.” Foi-lhe concedido muito mais, pois Lourenço
Justiniano tornou-se uma das maiores glórias não só da República Sereníssima de
Veneza, mas também de toda a Igreja. No baptismo, recebeu o nome de João.
João ficou órfão de pai e a mãe, Querina, viúva aos 24
anos de idade, teve de enfrentar muitas dificuldade e dores para educar os seus
cinco filhos pequenos. “Apesar da sua
juventude, ela não pensou senão em santificar-se no seu novo estado, resolvida
a não mais mudá-lo. Dedicou-se à penitência e ao recolhimento, e não se ocupou
mais senão do jejum, da prece e das boas obras. A educação dos seus filhos foi
também um dos seus principais cuidados.” Mulher de coragem, dinâmica e de grande
lucidez de espírito, notou em João uma docilidade pouco comum e uma grandeza de
alma, extraordinária para sua idade. Em vez dos jogos infantis, o menino ocupava
o seu tempo com pessoas mais velhas, a quem escutava com muita atenção, e cuidava
de coisas sérias.
Ainda adolescente, João “era magnânimo, entusiasta, sonhador. Tudo respirava elegância na sua
pessoa, nos seus gestos, nos seus costumes. Como todos os da sua têmpera,
sentia atracção pelas grandes coisas, a ambição do irrealizável e do
cavalheiresco”. A sua mãe, para o alertar contra o orgulho, às vezes
chamava-lhe a atenção. E ele respondia, rindo: “Mamã, não tenha medo. Ainda me vai ver convertido num santo.”
Aos 20 anos, João teve uma visão que iria mudar toda a
sua vida. Conta ele: “Naquela idade, era
como todos os outros. Com ardor apaixonado, buscava a paz nas coisas exteriores,
sem poder encontrá-la. Até que um dia, apareceu-me, num sonho, uma virgem mais
brilhante que o sol, cujo nome eu desconhecia. E, acercando-se de mim, disse-me
com doces palavras e um sorriso: ‘Ó jovem amável. Por que cansas o teu coração
em tantas coisas inúteis? O que buscas com desatino, eu to prometo se quiseres
tomar-me por esposa’. Perguntei-lhe o nome e a sua condição, e ela disse-me que
era a Sabedoria de Deus. Dei-lhe minha palavra sem hesitação alguma e, depois
de abraçar-me, desapareceu.”
João pensou que o melhor meio de adquirir essa
sabedoria seria na vida religiosa. Mas quis consultar um tio materno, cónego
secular da Congregação de São Jorge, dita da Alga, cujo mosteiro ficava numa
das ilhas de Veneza com esse nome. O tio, vendo nele a acção da Graça divina,
aconselhou-o a ir, pouco a pouco, praticando, em casa, as austeridades do
claustro. O que o jovem fez, com tanto rigor, que assustou os seus parentes.
Ele repetia-lhes, então: “Vejo que os
mártires caminhavam para o Céu derramando o seu sangue, e os confessores mortificando
a sua carne. Não encontro outros caminhos.”
Com esta disposição, foi recebido na Congregação dos
Cónegos Seculares de São Jorge, tendo mudado o seu nome – como era comum, na
época – para ‘Lourenço’. Estava tão contente no mosteiro, que dizia ser por
providência especial de Deus que os homens desconhecem a graça da vida
religiosa, pois, se a conhecessem, não haveria ninguém tão néscio que não
quisesse gozar semelhante dita. Com relação à mortificação dos sentidos, dizia
também que “dar satisfação aos sentidos e
querer ser casto, é como pretender apagar um incêndio com lenha”. Mortificava
também a sede, dizendo: “Como poderemos
sofrer os ardores do Purgatório, se agora não podemos suportar a pequena
moléstia da sede?” Comparava a humildade a um curso de água que é quase
insignificante no verão, mas que no inverno, acrescido da água das neves
derretidas, torna-se grande e volumoso. “Do
mesmo modo, dizia, a humildade, ainda
que escondida na prosperidade, deve tornar-se magnânima nos sofrimentos e nas
tribulações.”
A mortificação mais dura - para aquele virtuoso
aristocrata – era pedir esmolas para o convento.
Lourenço Justiniano foi ordenado sacerdote em 1407.
Um dia, em que devia passar por uma praça cheia de
gente da sociedade, o religioso que ia com ele sugeriu que mudassem de caminho.
Ele respondeu categoricamente: “Caminhemos
valentemente. De nada nos adiantaria ter renunciado ao mundo com palavras, se
não o desprezamos também com os factos.”
Um seu biógrafo comenta: “Sempre se manteve igual a si mesmo. Nunca ninguém o viu nem comovido
pela ira, nem dissipado pela prosperidade, nem perturbado pelo prazer, nem encolhido
pelo medo, nem acovardado pela dor.”
No termo de uma de uma viagem ao Oriente, um seu
antigo companheiro de juventude quis tirá-lo, a todo custo, do mosteiro. Para
isso, dirigiu-se para lá com uma banda de música e um grupo de alegres rapazes.
Entretanto, Lourenço falou-lhe de tal modo do desprezo do mundo e da alegria
que há no serviço de Deus, que o amigo acabou entrando, também, no mosteiro.
Eleito prior-geral da Congregação, Lourenço redigiu as
suas Constituições definitivas, esforçando-se para que fossem respeitadas
fielmente. Dedicou-se, intensamente à Congregação incentivando a que todos se
esforçassem por propagá-la. Por isso, foi considerado o seu segundo fundador.
Em 1433, o Papa Eugénio IV nomeou-o bispo de Castelo,
uma das várias ilhas na região de Veneza, obrigando-o a aceitar o cargo em nome
da santa obediência. Lourenço Justiniano tinha, então, 52 anos.
A quando da sua nomeação episcopal, ressoaram, na sua
mente, as duras palavras de Santa Catarina de Sena, a respeito da situação da
Igreja: “Há três vícios que atormentam
sobretudo o coração de Cristo: a avareza, a luxúria e o orgulho. Esta tríplice
corrupção invadiu a esposa de Cristo, quer dizer, os prelados, que só buscam as
delícias da vida, o aumento do poder e a abundância das riquezas.”
Lourenço convocou um sínodo diocesano do qual saíram muitas
e sábias resoluções em ordem à reforma do clero.
Por isso, quis que o seu palácio episcopal espelhasse
o espírito de pobreza, mas mantendo-o ordenado e limpo. Reduziu a cinco o
número dos empregados domésticos, mas aumentou o número de sacerdotes e de
cantores na sua catedral, para dar maior esplendor ao culto litúrgico. “Seguindo o exemplo da Igreja primitiva que,
para o exercício da caridade, escolhia mulheres de avançada idade e de virtude
bem provada, sobretudo viúvas, o bispo de Castelo solicitou também o concurso
voluntário e abnegado de umas tantas senhoras virtuosas para alargar a sua acção
caritativa em favor dos mais necessitados. O Bispo Lourenço encarregava-as, especialmente,
da delicada missão de descobrir as misérias envergonhadas. Deste modo, muitas
famílias que antes viviam na abundância e passaram desta para uma terrível e
humilhante estreiteza, puderam ser socorridas, de modo discreto, em momentos de
apuro, pelo caritativo e solícito prelado.”
Um biógrafo refere-se, assim, a Dom Lourenço: “Teve um dom maravilhoso: todos os que se encontravam
com ele, despediam-se, depois, com a alma cheia de gozo e de paz. Os bons queriam-no;
os maus respeitavam-no. Tudo nele inspirava amor: a sua conversação, os seus
olhares, os seus movimentos, o que fazia, e mesmo o que dizia.” Pois, Lourenço
Justiniano “sabia impor o dever sem
tornar-se odioso; sabia ser austero sem deixar de ser amável. Juntava a
prudência humana com a sabedoria divina, e os seus conselhos eram oráculos para
os que governavam a cidade”.
Um dia, próprio ‘doge’ Foscari [doge: dux, chefe –
título dado ao governante eleito da República de Veneza] irritou-se com o Bispo
Lourenço; chamou-o ao palácio e intimou-o a cuidar das coisas da Igreja,
deixando as ruas sob a vigilância da autoridade secular. O santo bispo respondeu-lhe
com tanta gravidade e mansidão que o ‘doge’ lhe pediu perdão dizendo: “Ide, Padre, e cumpri vosso ofício.” E,
depois, dizia a todos: “Não foi com um
homem com quem falei, mas com um anjo.” Mais tarde, o primeiro magistrado
da República de Veneza comentava que o único homem a quem confiaria a sua alma
era Dom Lourenço Justiniano. Por sua vez, o santo bispo afirmava que o ofício
de ‘doge’ era uma brincadeira em comparação com o de bispo, por causa da
responsabilidade com a cura das almas.
Em 1451, o Papa Nicolau V suprimiu o Patriarcado de
Grado, nas vizinhanças de Veneza, bem como a Diocese de Castelo, transferindo
todos os seus serviços e privilégios para a capital da Sereníssima República de
Veneza. Com isto, Lourenço Justiniano tornou-se o primeiro Patriarca de Veneza.
Lourenço Justiniano faleceu no dia 8 de Janeiro de
1456. O Santo Patriarca acolheu a proximidade da morte com verdadeiro espírito
cristão: “Por que temer a morte se o
nosso adorável Redentor a padeceu por nós? Ó bom Jesus e bom Pastor, acolhei a
ovelha extraviada que a Vós retorna! A Vossa misericórdia constitui a minha
única esperança.” O seu corpo sem vida exalava um suavíssimo perfume,
permanecendo incorrupto durante os 67 dias que mediaram o momento da sua morte
e o do seu sepultamento. Esta demora foi causada pelas divergências quanto à escolha
do local da sua sepultura que acabou por se realizar na Igreja de São Pedro, em
Castelo, onde tinha começado o seu ministério episcopal.
Lourenço Justiniano foi canonizado pelo Papa Alexandre
VIII, em 16 de Outubro de 1690, mas a sua publicação oficial só viria a
acontecer em 1727, sob o Pontificado do Papa Bento XIII.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 8 de
Janeiro.
NOTA: Na capela-mor da Igreja Matriz de Santa Maria da
Feira, encontra-se uma imagem de São Lourenço Justiniano. A Congregação dos
Cónegos Seculares de São João Evangelista, ou dos Padres Loios, que esteve
presente na Feira até 1834, era congénere da Congregação dos Cónegos Seculares
de São Jorge a que pertenceu São Lourenço Justiniano. Os padres Loios tinham
uma grande veneração por São Lourenço Justiniano. Na sua imagem, podemos
observar o modo típico de vestir dos padres desta Congregação.
