PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Vede bem como procedeis. Não vivais como insensatos…” (cf. Efésios 5, 15)

Os cristãos são, constantemente, desafiados a viver uma vida digna, humilde, marcada pelos valores do Evangelho. Na fidelidade a Cristo, temos o dever de construir um mundo novo, onde a verdade, o respeito, a confiança, a transparência, a bondade e a caridade tenham lugar de relevo e sejam vividas por todos os que colocam a sua esperança no Senhor. Infelizmente, muitas vezes, procedemos como ateus, sem fé, sem virtude, sem dignidade e tornamo-nos motivo de escândalo e de murmuração. Não podemos deixar-nos inebriar pela mundanidade, pelos sentimentos de rancor, de avareza, de sobranceria; não podemos escravizar-nos aos apegos da riqueza, do poder, do domínio; não podemos esquecer Aquele que nos dá a verdadeira vida. Seria uma insensatez abandonar o caminho que nos traz a verdadeira felicidade e que é penhor da vida do céu. Ser de Cristo é configurarmo-nos com Ele, com os seus sentimentos, com as suas propostas, com o seu amor.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 22 de Fevereiro

Bom dia, amados irmãos e irmãs!
Muitas vezes, somos tentados a pensar que a criação é uma propriedade nossa, uma posse a ser desfrutada a nosso bel-prazer e da qual não devemos prestar contas a ninguém. No trecho da Carta aos Romanos (8, 19-27), da qual há pouco ouvimos uma parte, o Apóstolo Paulo recorda-nos, pelo contrário, que a criação é um dom maravilhoso que Deus colocou nas nossas mãos, para podermos entrar em relação com Ele e nela reconhecer a marca do seu desígnio de amor, para cuja realização todos nós somos chamados a colaborar, dia após dia.
No entanto, quando se deixa levar pelo egoísmo, o ser humano acaba por estragar até as coisas mais bonitas que lhe foram confiadas. E, assim, aconteceu inclusive no caso da criação. Pensemos na água. A água é um bem belíssimo e deveras importante: a água dá-nos vida, ajudando-nos em tudo… Mas, para explorar os minerais, contamina-se a água, deturpa-se e destrói-se a criação. Este é apenas um exemplo. Há muitos outros. Com a trágica experiência do pecado, rompendo a comunhão com Deus, transgredimos a comunhão originária com tudo aquilo que nos circunda e acabamos por corromper a criação, tornando-a, deste modo, escrava, submetida à nossa caducidade. E, infelizmente, a consequência de tudo isto salta de maneira dramática aos nossos olhos, todos os dias. Quando rompe a comunhão com Deus, o homem perde a sua beleza originária e acaba por desfigurar tudo ao seu redor; e, onde antes tudo remetia ao Pai Criador e ao seu amor infinito, está, agora, o sinal triste e desolado do orgulho e da voracidade do homem. Explorando a criação, o orgulho humano destrói.
Contudo, o Senhor não nos deixa sozinhos e, até nesta situação desoladora, oferece-nos uma nova perspectiva de libertação, de salvação universal. É aquilo que Paulo põe em evidência com alegria, convidando-nos a dar ouvidos aos gemidos de toda a criação. Com efeito, se prestarmos atenção, ao nosso redor tudo geme: a criação geme; nós, seres humanos, gememos; e até o Espírito geme dentro de nós, no nosso coração. Pois bem, estes gemidos não são uma lamentação estéril, desconsolada, mas — como esclarece o Apóstolo — são os gemidos de uma mulher em trabalho de parto; trata-se dos gemidos de quem sofre, mas sabe que está prestes a nascer uma nova vida. E, no nosso caso, é realmente assim. Nós ainda estamos a braços com as consequências do nosso pecado e, ao nosso redor, tudo ainda tem o sinal dos nossos esforços, das nossas faltas, dos nossos fechamentos. Mas ao mesmo tempo, sabemos que fomos salvos pelo Senhor e já nos é dado contemplar e saborear por antecipação, em nós e no que nos circunda, os sinais da Ressurreição, da Páscoa que actua uma nova criação.
Este é o conteúdo da nossa esperança. O cristão não vive fora do mundo: sabe reconhecer, na sua vida e naquilo que o circunda, os sinais do mal, do egoísmo e do pecado. É solidário com os que sofrem; com os que choram; com os marginalizados; com aqueles que se sentem desesperados... Mas, ao mesmo tempo, o cristão aprendeu a ler tudo isto com os olhos da Páscoa, com os olhos de Cristo Ressuscitado. E, então, sabe que vivemos o tempo da espera, o tempo de um anseio que vai além do presente, o tempo do cumprimento. Na esperança, nós sabemos que o Senhor quer purificar definitivamente, com a sua misericórdia, os corações feridos e humilhados, bem como tudo o que o homem deturpou na sua impiedade. Deste modo, Ele regenera um mundo novo e uma humanidade nova, finalmente reconciliados no seu amor.

Quantas vezes, nós, cristãos, somos tentados pela desilusão, pelo pessimismo... Às vezes, abandonamo-nos à lamentação inútil ou, então, permanecemos sem palavras e nem sequer sabemos o que pedir, o que esperar... Mas, O Espírito Santo - suspiro da nossa esperança, que mantém vivos o gemido e a expectativa do nosso coração - vem, de novo, em nossa ajuda. O Espírito vê por nós além das aparências negativas do presente, revelando-nos, desde já, os novos céus e a nova terra que o Senhor continua a preparar para a humanidade. (cf. Santa Sé)