PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Felizes…” (cf. Mateus 5, 3 …) A liturgia deste domingo faz-nos meditar sobre as Bem-Aventuranças (cf. Mt 5, 1-12a), que abrem o grande sermão chamado “da montanha”, a “magna carta” do Novo Testamento. Jesus manifesta a vontade de Deus de conduzir os homens à felicidade. Esta mensagem já estava presente na pregação dos profetas: Deus está próximo dos pobres e dos oprimidos e liberta-os de quantos os maltratam. Mas nesta sua pregação Jesus segue um caminho particular: começa com o termo «bem-aventurados», ou se-ja, felizes; prossegue com a indicação da condição para ser tais; e conclui fazendo uma promessa. O motivo da bem-aventurança, ou seja, da felicidade, não consiste na condição exigida - por exemplo, «pobres em espírito», «aflitos», «famintos de justiça», «perseguidos»... - mas, na promessa sucessiva, que deve ser acolhida com fé como dom de Deus. Parte-se da condição de mal-estar para se abrir ao dom de Deus e aceder ao mundo novo, o «reino» anunciado por Jesus. Este não é um mecanismo automático, mas um caminho de vida na esteira do Senhor, motivo pelo qual a realidade de mal-estar e de aflição é considerada numa perspetiva nova e experimentada segundo a conversão que se realiza. Não podemos ser bem-aventurados se não nos convertermos, se não formos capazes de apreciar e viver os dons de Deus. Quero meditar sobre a primeira bem-aventurança: «Felizes os pobres que o são no seu íntimo, porque é deles o Reino dos Céus» (v. 4). O pobre no seu íntimo – o pobre em espírito - é quem assumiu os sentimentos e as atitudes daqueles pobres que, na sua condição, não se rebelam, mas sabem ser humildes, dóceis, disponíveis à graça de Deus. A felicidade dos pobres — dos pobres em espírito — tem uma dúplice dimensão: em relação aos bens e em relação a Deus. Relativamente aos bens, aos bens materiais, esta pobreza em espírito é sobriedade: não necessariamente renúncia, mas capacidade de apreciar o essencial, de partilhar; capacidade de renovar todos os dias a admiração pela bondade das coisas, sem sucumbir à opacidade do consumo voraz. Quanto mais tenho, mais quero; quanto mais tenho, mais quero: esse é o consumo voraz. E isso mata a alma. E o homem ou a mulher que faz isso, que tem essa atitude “quanto mais tenho, mais quero”, não é feliz e não alcançará a felicidade. Em relação a Deus é louvor e reconhecimento que o mundo é bênção e que na sua origem está o amor criador do Pai. Mas é também abertura a Ele, docilidade à sua senhoria: Ele é o Senhor, Ele é o Grande, eu não sou grande porque tenho muitas coisas! É Ele: Ele que quis o mundo para todos os homens e o quis para que os homens fossem felizes. O pobre em espírito é o cristão que não confia em si mesmo, nas riquezas materiais, não se obstina nas suas opiniões pessoais, mas escuta com respeito e aceita de bom grado as decisões de outros. Se nas nossas comunidades existissem mais pobres em espírito, haveria menos divisões, contrastes e polémicas! A humildade, como a caridade, é uma virtude essencial para a convivência nas comunidades cristãs. Os pobres, nesse sentido evangélico, parecem-se com aqueles que mantêm viva a meta do Reino dos céus, fazendo entrever que este é antecipado de forma germinal na comunidade fraterna, que à posse privilegia a partilha. Gostaria de sublinhar isto: à posse, privilegiar a partilha. Ter sempre o coração e as mãos abertas, não fechadas. Quando o coração está fechado, é um coração apertado: nem sequer sabe como amar. Quando o coração está aberto, encaminha-se para a senda do amor. A Virgem Maria, modelo e primícia dos pobres em espírito, porque totalmente dócil à vontade do Senhor, nos ajude a abandonar-nos a Deus, rico em misericórdia, a fim de que nos encha dos seus dons, especialmente da abundância do seu perdão. (cf. Papa Francisco, na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 29 de Janeiro de 2017)

segunda-feira, 6 de março de 2017

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 1 de Março

Bom dia, amados irmãos e irmãs!
Neste dia, Quarta-Feira de Cinzas, entramos no tempo litúrgico da Quaresma. E dado que prosseguimos o ciclo de catequeses sobre a esperança cristã, hoje, gostaria de vos apresentar a Quaresma como caminho de esperança.

Com efeito, esta perspectiva é imediatamente evidente se pensarmos que a Quaresma foi instituída na Igreja como tempo de preparação para a Páscoa e, portanto, todo o sentido deste período de quarenta dias adquire luz do mistério pascal para o qual está orientado. Podemos imaginar o Senhor Ressuscitado que nos chama a sair das nossas trevas, e nós caminhamos rumo a Ele, que é a Luz. E a Quaresma é um caminho rumo a Jesus Ressuscitado, um período de penitência e até de mortificação; contudo não é um fim em si mesmo, mas visa levar-nos a ressuscitar em Cristo, a renovar a nossa identidade baptismal, ou seja, a nascer novamente «do alto», do amor de Deus (cf. Jo 3, 3). Eis por que motivo, por sua natureza, a Quaresma é tempo de esperança.
Para compreender melhor o que isto significa, devemos referir-nos à experiência fundamental do êxodo dos israelitas do Egipto, descrita pela Bíblia, no livro que tem este nome: Êxodo. O ponto de partida é a condição de escravidão no Egipto, a opressão, os trabalhos forçados. Mas o Senhor não se esqueceu do seu povo, nem da sua promessa: chama Moisés e, com braço poderoso, leva os israelitas a sair do Egipto, guiando-os através do deserto rumo à Terra da liberdade. Durante este caminho da escravidão para a liberdade, o Senhor dá a lei aos israelitas para os educar a amá-lo, a Ele que é o único Senhor, e a amar-se entre si como irmãos. A Escritura demonstra que o êxodo é longo e difícil: simbolicamente dura quarenta anos, ou seja, o tempo de vida de uma geração. Uma geração que, perante as provas do caminho, é sempre tentada a sentir saudade do Egipto e a voltar atrás. Também, todos nós conhecemos a tentação de voltar atrás. Todos!... Mas, o Senhor permanece fiel e aqueles coitados, guiados por Moisés, chegam à Terra prometida. Todo este caminho é percorrido na esperança: a esperança de chegar à Terra, e exactamente neste sentido constitui um «êxodo», uma saída da escravidão para a liberdade. E estes quarenta dias são, também, para todos nós uma saída da escravidão e do pecado para a liberdade, para o encontro com Cristo Ressuscitado. Cada passo, cada esforço, cada provação, cada queda e cada retomada, tudo tem sentido somente no contexto do desígnio de salvação de Deus, que para o seu povo deseja a vida e não a morte, a alegria e não a dor.
A Páscoa de Jesus é o seu êxodo, mediante o qual Ele nos abriu o caminho para alcançar a vida plena, terna e bem-aventurada. Para abrir este caminho, esta passagem, Jesus teve que se despojar da sua glória, humilhar-se, tornar-se obediente até à morte, e morte de cruz. Abrir o nosso caminho para a vida eterna custou-lhe todo o seu sangue, e foi graças a Ele que nós fomos salvos da escravidão do pecado. Mas isto não quer dizer que Ele fez tudo e nós não devemos fazer nada; que Ele passou através da cruz e nós «vamos para o Paraíso de carruagem». Não é assim! Sem dúvida, a nossa salvação é sua dádiva, mas por ser uma história de amor, exige o nosso «sim» e a nossa participação no seu amor, como nos demonstra a nossa Mãe Maria e, depois dela, todos os santos.
A Quaresma vive desta dinâmica: Cristo precede-nos com o seu êxodo e nós atravessamos o deserto graças a Ele e atrás d’Ele. Ele é tentado por nós e derrotou o Tentador por nós, mas também nós devemos enfrentar e superar as tentações com Ele. Ele oferece-nos a água viva do seu Espírito, e a nós compete haurir da sua fonte e beber dos Sacramentos, da oração e da adoração; Ele é a luz que derrota as trevas, e a nós pede-se que alimentemos a pequena chama que nos foi confiada no dia do nosso Baptismo.
Neste sentido, a Quaresma é «sinal sacramental da nossa conversão» (Missal Romano, Oração da Colecta do 1º Domingo de Quaresma); quem percorre o caminho da Quaresma está sempre na vereda da conversão. A Quaresma é sinal sacramental do nosso itinerário da escravidão para a liberdade, que deve ser sempre renovado. Um caminho certamente exigente, como é justo que seja, porque o amor é exigente; mas, um caminho repleto de esperança. Aliás, diria mais: o êxodo quaresmal é o caminho em que a própria esperança se forma. O esforço de atravessar o deserto — todas as provas, as tentações, as ilusões, as miragens...— tudo isto serve para forjar uma esperança forte, firme, segundo o modelo da Virgem Maria que, no meio das trevas da paixão e da morte do seu Filho, continuou a acreditar e a esperar na sua Ressurreição, na vitória do amor de Deus.
Com o coração aberto a este horizonte, hoje, nós entramos na Quaresma. Sentindo-nos parte do povo santo de Deus, empreendamos com alegria este caminho de esperança. (cf. Santa Sé)