PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto…” (cf. Mateus 4, 1) Neste primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho (cf. Mt 4, 1-11) narra que, depois do batismo no rio Jordão, «o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo» (v. 1). Ele prepara-se para começar a sua missão como arauto do Reino dos céus e, como Moisés e Elias (cf. Êx 24, 18; 1 Rs 19, 8), no Antigo Testamento, fá-lo com um jejum de quarenta dias. Entra na “Quaresma”. No final deste período de jejum, aparece o tentador, o diabo, e procura por três vezes pôr Jesus em dificuldade. A primeira tentação é inspirada pelo facto de Jesus ter fome; o diabo sugere-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães» (v. 3). Um desafio. Mas a resposta de Jesus é clara: «Está escrito: nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (4, 4). Ele refere-se a Moisés quando recorda ao povo a longa viagem feita no deserto, na qual aprendeu que a sua vida depende da palavra de Deus (cf. Dt 8, 3). Então o diabo faz uma segunda tentativa, (vv. 5-6) torna-se mais astuto, também citando a Sagrada Escritura. A estratégia é clara: se tens tanta confiança no poder de Deus, então experimenta-o, pois a própria Escritura afirma que serás ajudado pelos anjos (v. 6). Mas também neste caso Jesus não se deixa confundir, porque quem crê sabe que Deus não o põe à prova, mas confia na sua bondade. Portanto, às palavras da Bíblia, interpretadas instrumentalmente por Satanás, Jesus responde com outra citação: «Também está escrito: “não tentarás o Senhor teu Deus!”» (v. 7). Por fim, a terceira tentativa (v. 8-9) revela o verdadeiro pensamento do diabo: dado que a vinda do Reino dos Céus marca o início da sua derrota, o Maligno gostaria de desviar Jesus do cumprimento da sua missão, oferecendo-lhe uma perspetiva de messianismo político. Mas Jesus rejeita a idolatria do poder e da glória humana e, no final, expulsa o tentador, dizendo: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: “ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”» (v. 10). E a este ponto, aproximaram-se de Jesus, fiel à recomendação do Pai, os anjos para o servir (cf. v. 11). Isto ensina-nos uma coisa: Jesus não dialoga com o diabo. Jesus responde ao diabo com a Palavra de Deus, não com a sua palavra. Na tentação muitas vezes começamos a dialogar com a tentação, a dialogar com o diabo: “Sim, mas eu posso fazer isto..., depois confesso-me, depois isto, depois aquilo...”. Nunca faleis com o diabo. Jesus faz duas coisas com o diabo: afasta-o ou, como neste caso, responde com a Palavra de Deus. Tende cuidado: nunca dialogueis com a tentação, nunca dialogueis com o diabo. Ainda hoje Satanás invade a vida das pessoas para as tentar com as suas propostas convidativas; ele mistura a sua com as muitas vozes que tentam domar a consciência. As mensagens vêm de muitos lugares convidando-nos a “deixar-nos tentar” para experimentar a emoção da transgressão. A experiência de Jesus ensina-nos que a tentação é o propósito de enveredar por caminhos alternativos aos de Deus: “Mas, faz isto, nenhum problema, depois Deus perdoa! Concede-te um dia de alegria...” - “Mas é pecado!” - “Não, não é nada”. Caminhos alternativos, caminhos que nos dão a sensação de autossuficiência, de desfrutar a vida como fim em si mesma. Mas tudo isto é ilusório: depressa percebemos que quanto mais nos afastamos de Deus, tanto mais desamparados e indefesos nos sentimos diante dos grandes problemas da existência. Que a Virgem Maria, a Mãe daquele que esmagou a cabeça da serpente, nos ajude neste tempo de Quaresma a estar vigilantes diante das tentações, a não nos submetermos a nenhum ídolo deste mundo, a seguir Jesus na luta contra o mal; e conseguiremos também nós ser vitoriosos como Jesus. (cf. Papa Francisco, na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 1 de Março de 2020)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 21 de Junho

No dia do nosso Baptismo, ressoou para nós a invocação dos santos. Naquele momento, muitos de nós éramos crianças, levadas ao colo pelos nossos pais. Pouco antes de fazer a unção com o Óleo dos catecúmenos, símbolo da força de Deus na luta contra o mal, o sacerdote convidou toda a assembleia a rezar por aqueles que estavam prestes a receber o Baptismo, invocando a intercessão dos santos. Era a primeira vez que, durante a nossa vida, nos concediam esta companhia de irmãos e irmãs “mais velhos” — os santos — que passaram pelo mesmo caminho que nós passamos; que conheceram as mesmas dificuldades que nós conhecemos; e vivem, para sempre, no abraço de Deus. A Carta aos Hebreus define esta companhia que nos circunda, com a expressão «multidão de testemunhas» (12, 1). Assim são os santos: uma multidão de testemunhas.
Na luta contra o mal, os cristãos não desesperam. O cristianismo cultiva uma confiança incurável: não acredita que as forças negativas e desagregadoras possam predominar. A última palavra sobre a história do homem não é o ódio, não é a morte, não é a guerra. Em cada momento da vida, somos ajudados pela mão de Deus, e também pela presença discreta de todos os crentes que «nos precederam com o sinal da fé» (Cânone Romano). A sua existência diz-nos, antes de tudo, que a vida cristã não é um ideal inacessível. E, ao mesmo tempo, conforta-nos: não estamos sozinhos, a Igreja é composta por inúmeros irmãos, muitas vezes anónimos, que nos precederam e que, mediante a acção do Espírito Santo, participam nas vicissitudes de quantos ainda vivem aqui na terra.
A do Baptismo não é a única invocação dos santos que marca o caminho da vida cristã. Quando dois noivos consagram o seu amor no sacramento do Matrimónio, invoca-se de novo para eles — desta vez como casal — a intercessão dos santos. E esta invocação é fonte de confiança para os dois jovens que partem para a “viagem” da vida conjugal. Quem ama verdadeiramente tem o desejo e a coragem de dizer “para sempre” — “para sempre” — mas sabe que tem a necessidade da graça de Cristo e da ajuda dos santos para poder levar a vida matrimonial para sempre. Não como alguns dizem: “enquanto o amor durar”. Não: para sempre! Caso contrário, é melhor que não te cases. Ou para sempre ou nada. Por isso, na liturgia nupcial invoca-se a presença dos santos. E, nos momentos difíceis, é preciso ter a coragem de elevar o olhar para o céu, pensando nos numerosos cristãos que passaram através das tribulações e conservaram brancas as suas vestes baptismais, lavando-as no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7, 14): assim reza o Livro do Apocalipse. Deus nunca nos abandona: cada vez que tivermos necessidade, virá um dos seus anjos para nos animar e para nos infundir a consolação. “Anjos” às vezes com um rosto e um coração humanos, porque os santos de Deus estão sempre aqui, escondidos no meio de nós. Isto é difícil de entender e até de imaginar, mas os santos estão presentes na nossa vida. E quando alguém invoca um santo ou uma santa, é precisamente porque se encontra próximo de nós.
Inclusive os presbíteros conservam a recordação de uma invocação dos santos, pronunciada sobre eles. É um dos momentos mais emocionantes da liturgia da ordenação. Os candidatos deitam-se no chão, com o rosto virado para baixo. E toda a assembleia, presidida pelo Bispo, invoca a intercessão dos santos. Um homem ficaria esmagado sob o peso da missão que lhe é confiada, mas ouvindo que o Paraíso inteiro o protege, que a graça de Deus não faltará porque Jesus permanece sempre fiel, então ele pode partir sereno e encorajado. Não estamos sozinhos.
E o que somos nós? Somos pó que aspira ao céu. Frágeis nas nossas forças, mas é poderoso o mistério da graça que está presente na vida dos cristãos. Somos fiéis a esta terra, que Jesus amou em cada instante da sua vida, mas sabemos e queremos esperar na transfiguração do mundo, no seu cumprimento definitivo onde, finalmente, já não haverá lágrimas, maldade, sofrimento.
Que o Senhor conceda a todos nós a esperança de ser santos. Mas alguns de vós poderão perguntar-me: “Padre, é possível ser santo na vida de todos os dias?”. Sim, é possível. “Mas isto significa que devemos rezar o dia inteiro?” Não, quer dizer que tu deves cumprir o teu dever ao longo do dia: rezar, ir ao trabalho, proteger os teus filhos. Mas é preciso fazer tudo com o coração aberto a Deus, de modo que o trabalho, até na enfermidade e no sofrimento, inclusive no meio das dificuldades, permaneça aberto a Deus. E assim é possível ser santo. Que o Senhor nos dê a esperança de ser santos. Não pensemos que é algo difícil, que é mais fácil sermos delinquentes do que santos! Não. Podemos ser santos, porque o Senhor nos ajuda; é Ele que nos assiste.
É o grande presente que cada um de nós pode oferecer ao mundo. Que o Senhor nos conceda a graça de crer tão profundamente n’Ele, a ponto de nos tornarmos imagem de Cristo para este mundo. A nossa história tem necessidade de “místicos”: de pessoas que rejeitam qualquer domínio, que aspiram à caridade e à fraternidade. Homens e mulheres que vivem, aceitando até um quinhão de sofrimento, porque assumem o cansaço do próximo. Mas, sem estes homens e mulheres, o mundo não teria esperança. Por isso, faço votos a fim de que vós — e também eu — recebamos do Senhor o dom da esperança de sermos santos. Obrigado! (cf. Santa Sé)